quarta-feira, 9 de maio de 2012

TRECHO 1Q84

Haruki Murakami

HM-Monkey

Tengo tirou o livro do bolso e começou a ler “A aldeia dos gatos” em voz alta. O pai prestava atenção à história, sentado, sem se mover, na cadeira ao lado da janela. Tengo lia devagar, com voz clara. No meio, fez duas ou três pausas para tomar fôlego. A cada vez, olhava fixo para o pai, sem notar nenhum tipo de reação. Não sabia se estava gostando ou não da história. Quando terminou de lê-la, o pai ficou quieto, com os olhos fechados, sem fazer um só movimento. Parecia adormecido, mas não estava. Simplesmente havia mergulhado no mundo do conto. Demorou um bom tempo para sair dali. Tengo esperou, paciente. A luz da tarde enfraqueceu-se e ao redor já podiam ser percebidos indícios do anoitecer. O vento que vinha do mar seguia mexendo os galhos dos pinheiros.

- Existe televisão nesse povoado dos gatos? – perguntou seu pai, de um modo bem profissional.
- A história foi escrita na Alemanha dos anos 30, naquela época não havia TV, mas rádio sim.
- Estive na Manchúria e ali nem sequer havia rádios. Nem emissoras. A imprensa havia chegado há pouco tempo, e líamos jornais com até duas semanas de atraso. Não tínhamos nada que colocar na boca e tampouco havia mulheres. De vez em quando, surgiam lobos. Aquilo era o fim do mundo…

Permaneceu um tempo calado, refletindo sobre algo. Talvez se lembrasse da vida difícil que tinha levado como colono na Mandchúria, quando era jovem. Mas as recordações em seguida se enevoaram e foram engolidas pelo vazio. Graças às mudanças na expressão do pai era possível entrever essa atividade mental.

- Foram os gatos que construíram o povoado? Ou teriam sido antigos humanos os que o construíram, e depois os gatos chegaram ali? – perguntou o pai olhando para o vidro da janela, como se falasse sozinho. Não obstante, a pergunta parecia dirigida a Tengo.
- Não sei – respondeu Tengo. – Mas suponho que foram os humanos que o construíram, muito tempo atrás. Por algum motivo, eles desapareceram e os gatos se fixaram ali. Talvez os humanos tenham morrido por conta de alguma epidemia.

O pai assentiu.

- Quando surge um vazio, algo tem que preenchê-lo. Todos fazemos isso.
- Todos fazemos?
- É assim – afirmou o pai.
- Que vazio você enche?

O pai ficou sério. Suas espessas sobrancelhas desceram e cobriram os olhos. Logo falou com em tom jocoso.

- Você não entende.
- Não entendo – repetiu Tengo.

O pai inchou as narinas. Tinha uma sobrancelha levemente levantada. Aquela era a expressão que sempre adotava quando não estava contente com alguma coisa.

- Se não entende sem que te explique, não vai entender por mais que eu te explique.

Tengo estreitou os olhos e leu a expressão no rosto do velho. Era a primeira vez que seu pai falava de um jeito tão esquisito e sugestivo. Ele sempre tinha falado de um jeito concreto, prático. Falar só o indispensável quando fosse indispensável: essa era a imutável definição de uma conversa, para seu pai. Mesmo assim, em seu rosto não havia nenhuma expressão legível.

- De acordo. Em todo caso, você enche algum vazio – disse Tengo. – Então, quem vai encher o vazio que você deixou?
- Você – respondeu lacônico seu pai, e apontou Tengo energicamente com o dedo indicador. – Não é óbvio? Eu enchi o vazio que alguém criou e, por sua vez, você vai enchendo o vazio que eu criei. Como se fôssemos nos revezando.
- Do mesmo jeito, os gatos encheram a aldeia despovoada.
- Isso, está perdida como o povoado – disse o pai, e ficou observando distraído o dedo indicador que havia apontado para Tengo, como se olhasse para algo estranho, fora do lugar.
- Está perdida como o povoado – repetiu Tengo.
- A mulher que te deu à luz já não está em nenhuma parte.
- Não está em nenhuma parte. Está perdida como o povoado. Quer dizer que ela morreu?

O pai não respondeu. Tengo suspirou.

- E quem é meu pai?
- Um simples vazio. Sua mãe se juntou a um vazio e te deu à luz. Eu enchi esse vazio.

Depois que disse essas palavras, o pai fechou os olhos e se calou.

- Se juntou a um vazio?
- Sim.
- E você me criou. Me engano?
- Já te falei – disse o pai com ar grave, depois de pigarrear. Como se ensinasse um raciocínio simples a uma criança preguiçosa. – Se não entende sem que eu te explique, quer não vai entender por mais que eu te explique.
- Saí de um vazio? – perguntou Tengo.

Não teve resposta.

Tengo juntou os dedos das mãos sobre os joelhos e voltou a encarar seu pai. Pensou: “Esse homem não é um despojo vazio. Não é uma simples casa desabitada. É um homem de carne e osso que sobrevive mais ou menos em um lugar do litoral, carregado com seu espírito estreito e obstinado e algumas lembranças sombrias. Se vê obrigado a conviver com esse vazio que vai se expandindo de forma contínua em seu interior. Neste momento, o vazio e a memória ainda lutam entre si, mas, queira ou não, logo o vazio o engolirá as últimas recordações. É uma questão de tempo. Será este vazio o que está combatendo o mesmo vazio que criou a mim?”.

Enquanto chegava o crepúsculo, a Tengo pareceu ouvir o longínquo rumor do mar misturado ao vento que soprava entre as copas dos pinheiros. Mas talvez tenha sido somente uma ilusão.

Em Alfa.

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