domingo, 28 de março de 2021

Já escreveu alguma coisa?

Rubem Fonseca
Em O Caso Morel

2400041


Matos e Vilela se encontram na porta da penitenciária. Sozinho
Vilela teria dificuldade para entrar, mas com Matos as portas são abertas. Chegam à cela de Morel.
Cubículo pequeno. Cama estreita com cobertor cinzento.
Mesa cheia de livros; rádio portátil; pia; latrina; mais livros empilhados no chão.
Morel é um homem magro, pálido, cabelos escuros, grisalhos nas têmporas. Rugas fundas cortam seu rosto. Veste uma camisa branca e calça cinza, amassadas. Possivelmente dorme com aquela roupa.
“Tenho dois dos seus livros aqui.”
Procura os livros, acha apenas um deles. “O outro sumiu. Você não quer sentar?” Morel indica a Vilela a única cadeira da cela.
“Vou deixar vocês sozinhos. Tenho ainda muita coisa para fazer”, diz Matos.
“Obrigado.” Morel aperta a mão de Matos.
“Vocês vão se dar bem. Quando quiser sair, bate na porta e manda chamar o inspetor Rangel.”
Matos sai.
“Nem sei como começar”, diz Morel. “O Rei disse para Alice 'começa no princípio, depois continua, chega ao fim e para'. Mas onde é o princípio?”
Vilela: “Você também pode começar do fim e terminar no princípio, ou no meio”.
“Preciso da sua ajuda.”
“Diga como.”
“Eu preciso escrever um livro. Matos não lhe falou?”
“Disse que você queria falar com um escritor.”
“Quero ajuda para escrever um livro.”
“Quanto menos ajuda dos outros, melhor.”
Morel reflete por instantes.
“Estou muito arrasada.”
“É assim mesmo que se escreve.”
“Eu quero ter certeza de que vou ser publicado.”
“Essa certeza você não pode ter.”
Morel sentado na cama. Deita lentamente, com os braços cruzados sobre os olhos. Vilela pega um livro, sobre a mesa. Visão e invenção.
“Adianta escrever, se ninguém vai ler?”
“Adianta, sempre.”
“Passo as noites sonhando com a minha carreira literária”, a ironia na voz é forçada. “Você quer um biscoito?”
Uma lata de biscoitos debaixo da cama.
Comem bis “Onde você arranjou esse monte de livros?”
“São meus.”
“Quem traz?”
“O doutor Matos. Dei a ele a chave da minha casa. Eu peço os livros ele vai na minha estante e apanha. Às vezes ele me compra um livro, mas o gosto dele não combina muito com o meu.”
“Você já escreveu alguma coisa?”, pergunta Vilela. Coitos.


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