sexta-feira, 5 de novembro de 2010

NOSSO HOMEM EM HAVANA

Graham Greene

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Um trecho

Capítulo 1

- Aquele negro que está descendo a rua - disse o dr. Hasselbacher, de pé no Wonder Bar - me lembra o senhor, sr. Wormold.
Era típico do dr. Hasselbacher ainda usar, depois de 15 anos de amizade, o tratamento de "senhor". Uma amizade que prosseguia com a lentidão e a segurança de um diagnóstico cuidadoso. Junto a seu leito de morte, quando o dr. Hasselbacher sentisse que o seu pulso falhava, talvez, então, ele se tornasse Jim.
O negro era cego de um olho e tinha uma perna mais curta do que a outra. Usava um velho chapéu de feltro e suas costelas apareciam, sob a camisa rasgada, como um navio que estivesse sendo desmontado. Caminhava à beira da calçada, fronteira aos pilares amarelos e cor-de-rosa de uma colunata, sob o sol quente de janeiro, contando cada um de seus passos. Ao passar pelo Wonder Bar, subindo a Virtudes, já havia chegado a 1.369. Tinha de andar devagar para poder contar um número assim tão longo. "Mil trezentos e setenta." Era uma figura familiar na praça Nacional, onde às vezes se deixava ficar, interrompendo a sua conta a fim de vender a um turista um maço de fotografias pornográficas. Depois, recomeçava-a, partindo do ponto em que a interrompera. No fim do dia, como um animado passageiro de transatlântico, devia saber, metro a metro, o que havia caminhado.
- Joe? - perguntou Wormold. - Não vejo semelhança alguma. Salvo o coxear, claro.
Mas, instintivamente, lançou um rápido olhar à sua figura no espelho em que se lia Cerveza Tropical, como se ele realmente pudesse ter ficado tão estropiado e escuro durante a caminhada que empreendera desde a loja, na cidade velha. Mas o rosto que o espelho refletia estava apenas um pouco descorado devido ao pó das obras do porto. Era ainda o mesmo rosto, ansioso, quarentão, riscado de rugas - muito mais moço que o do dr. Hasselbacher. Não obstante, um estranho poderia ter a impressão de que se extinguiria primeiro, pois as sombras lá estavam - sombras de angústias que estão além do alcance de um tranqüilizante. O negro, manquitolando, desapareceu da vista de ambos, atrás da esquina do Paseo. O dia estava cheio de engraxates.
- Não me refiro ao coxear. Então não consegue ver nenhuma semelhança?
- Não.
- Ele tem duas idéias na cabeça - explicou o dr. Hasselbacher. - Realizar o seu trabalho e contar os passos. E, além disso, é britânico.
- Ainda assim, não vejo... - respondeu Wormold, refrescando a boca com o seu daiquiri matinal. Sete minutos para chegar ao Wonder Bar; sete minutos para voltar à loja; seis minutos de companhia. Consultou seu relógio. Lembrou-se de que estava um minuto atrasado.
- É digno de confiança, pode-se contar com ele, eis tudo - disse o dr. Hasselbacher com impaciência. - Como está Milly?
- Maravilhosa - respondeu Wormold.
Era sua resposta invariável, mas dizia-a com convicção.
- Dezessete anos no dia 17, hein?
- É verdade.
Olhou rapidamente por cima de seu próprio ombro, como se alguém o estivesse perseguindo, e, depois, tornou a olhar o relógio.
- Vai tomar uma bebida conosco?
- Até agora, ainda não falhei. Quem mais estará lá?
- Bem, pensei apenas em nós três. Como sabe, Cooper voltou para casa, o pobre Marlowe ainda se encontra no hospital e Milly parece não se interessar por ninguém do consulado. De modo que pensei em fazer a coisa tranqüilamente, em família.
- Sinto-me honrado de ser considerado como um dos membros da família, sr. Wormold.
- Talvez uma mesa no Nacional... ou o senhor diria que isso é bem... apropriado?
- Isto aqui não é a Inglaterra nem a Alemanha, sr. Wormold. As moças crescem depressa nos trópicos.
Uma veneziana, do outro lado, soprada pela ligeira brisa do mar, abriu-se com um rangido, e tornou a bater, com regularidade, como um velho relógio. Wormold disse:
- Preciso ir embora.
- Os aparelhos de limpeza poderão passar sem o senhor, sr. Wormold. - Aquele era um dia de verdades incômodas. - Como os meus pacientes - acrescentou, amável, o dr. Hasselbacher.
- As pessoas não podem deixar de ficar doentes, mas não precisam comprar aspiradores elétricos.
- Mas o senhor lhes cobra mais.
- Mas fico apenas com vinte por cento para mim. Não se pode economizar muito com vinte por cento.
- Não estamos numa época para se economizar, sr. Wormold.
- Mas eu preciso... para Milly. Se algo me acontecesse...
- Nenhum de nós espera muito da vida hoje em dia. Assim sendo, por que nos preocuparmos? - Todas essas agitações são muito ruins para o comércio. De que vale um aspirador elétrico, se a eletricidade for cortada?
- Eu poderia conseguir um pequeno empréstimo, sr. Wormold.
- Não, não. Não é isso. Minha preocupação não é quanto a este ano, ou o ano que vem: é uma preocupação a longo prazo.
- Então não vale a pena que a chamemos de preocupação. Vivemos numa época atômica, sr. Wormold. Aperta-se um botão... e pronto!... bum!... onde é que iremos parar? Outro uísque, por favor.
- Há ainda uma outra coisa. Sabe o que a firma fez, agora? Enviou-me um aspirador de pilha atômica.
- Deveras? Não sabia que a ciência havia chegado até esse ponto.
- Oh, claro que não há nada de atômico nisso... Trata-se apenas de um nome. No ano passado, havia o turbojato; este ano, o aspirador atômico. Funciona ligado a uma tomada de eletricidade, como o outro.
- Nesse caso, por que se preocupar? - repetiu, como um refrão, o dr. Hasselbacher, debruçando-se sobre o uísque.
- Eles não percebem que esse nome pode ser muito bom nos Estados Unidos, mas não aqui, onde o clero prega o tempo todo contra o mau uso que se faz da ciência. Milly e eu fomos à catedral no domingo passado... pois o senhor bem sabe o que ela pensa acerca da missa: acha que poderá converter-me - e eu não me surpreenderia nada se isso acontecesse. Bem, o padre Méndez gastou meia hora a descrever os efeitos da bomba de hidrogênio. "Os que acreditam no céu aqui na terra", disse ele, "estão criando um inferno..." Fez com que a coisa soasse assim, de maneira muito clara. E como é que o senhor pensa que me senti segunda-feira pela manhã, quando tive de exibir, numa vitrina, o novo aspirador de pilha atômica? Não me surpreenderia nada se um desses meninos malcriados que andam por aí houvesse quebrado a vitrina. Ação Católica, Cristo Rei, essa tralha toda. Não sei o que fazer, Hasselbacher.
- Venda um aspirador ao padre Méndez, para ser usado no palácio do bispo.
- Mas ele está satisfeito com o turbo. Era um bom aparelho. Claro que este também é. Sucção aperfeiçoada, para estantes de livros. Bem sabe que eu não venderia um aparelho que não fosse bom.
- Sei, sr. Wormold. Não poderia simplesmente mudar o nome?
- Eles não o permitirão. Sentem orgulho dele. Pensam que é a melhor frase que alguém já imaginou desde "Ele bate, aspira e limpa". Como sabe, o turbojato tinha uma espécie de filtro para purificar o ar, como eles diziam. Ninguém se importava, embora fosse uma boa invenção, mas, ontem, uma senhora entrou na loja, pôs-se a observar a pilha atômica e perguntou se um filtro daquele tamanho poderia realmente absorver toda a radiatividade. "E quanto ao estrôncio 90?", indagou ela.
- Podia dar-lhe um certificado médico - disse o dr. Hasselbacher.
- O senhor nunca se preocupa com coisa alguma?
- Tenho uma defesa secreta, sr. Wormold. Interesso-me pela vida.
- Eu também, mas...
- O senhor se interessa por pessoas, não pela vida, e as pessoas morrem ou nos abandonam... Desculpe-me. Não me referia à sua esposa. Mas, se estivermos interessados na vida, ela jamais nos decepcionará. Eu me interesso pelo tom azulado do queijo. O senhor não faz palavras cruzadas, não é, sr. Wormold? Eu faço, e elas são como as pessoas: a gente chega a um fim. Posso terminar qualquer palavra cruzada no espaço de uma hora, mas tenho uma teoria, quanto ao tom azulado do queijo, que jamais chegará a uma conclusão... embora, claro, a gente sonhe que, talvez, possa chegar um momento em que... Qualquer dia lhe mostrarei o meu laboratório.
- Preciso ir embora, Hasselbacher.
- Devia sonhar mais, sr. Wormold. A realidade, em nosso século, é algo que não se deve enfrentar.

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