Um dia ideal para os peixes-banana e livros e cinema e gibis e nus e ataxia espinocerebelar e 𓋹
sábado, 24 de outubro de 2015
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
terça-feira, 20 de outubro de 2015
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
domingo, 18 de outubro de 2015
sábado, 17 de outubro de 2015
TRECHO: LIONEL ASBO
2006: Desmond Pepperdine, o Menino da Renascença Cara Jennaveieve, Estou tendo um caso com uma mulher mais velha. É uma senhora de certa sofisticação e representa uma mudança revitalizante em comparação com as adolescentes que conheço (como Alektra, por exemplo, ou Chanel). O sexo é fantástico e acho que estou apaixonado. Mas existe outra complicação séria, que é a seguinte: ela é minha avó! Desmond Pepperdine (Desmond, Des, Desi), autor desse documento, tinha quinze anos e meio. E sua caligrafia, no momento, era de uma elegância tímida; as letras tendiam a se inclinar para trás, mas ele, com toda a paciência, as obrigava a inclinar‑se para a frente; e quando tudo estava suavemente unido, adicionava pequeninos floreios (seu e era sem dúvida ornamental — como um W virado de lado).
Trecho:Pornô
Irvine Welsh
Croxy, pela primeira vez na vida suando por causa de esforço físico em vez de abuso de drogas, sobe tropeçando as escadas com a última caixa de discos nas mãos enquanto eu desabo na cama, entorpecido e deprimido, encarando de boca aberta o papel de parede bege. Isto é meu novo lar. Um quartinho de nada, de quatro por três, acompanhado por um corredor, uma cozinha e um banheiro. O quarto tem um armário embutido sem portas, minha cama e o espaço exato pra duas poltronas e uma mesa. Não tenho como sentar por aqui: até na prisão seria melhor. Porra, de repente é melhor voltar pra Edimburgo e sugerir que o Frank Begbie faça um negócio comigo, trocando sua cela por este muquifo gelado.
Neste espaço apertado, o fedor acumulado dos cigarros do Croxy é sufocante. Não fumo há três semanas, mas só de ficar perto dele consumo passivamente uns trinta cigarros por dia. Esse trabalho dá uma sede, hein Simon? Vem comigo pro Pepys pra tomar uma? - ele pergunta, e com seu entusiasmo triunfante parece estar querendo tirar um sarro das presentes circunstâncias humildes de Simon David Williamson.
Caralho, se por um lado seria uma loucura total descer pela Mare Street e entrar no Pepys, dando chance pra que todo mundo ria da minha cara e diga "Voltou pra Hackney, Simon?", porra, quero mesmo um pouco de companhia. Bater papo. Relaxar um pouco. Além do mais, seria bom arejar o Croxy. Tentar largar o cigarro na companhia do sujeito é como resolver parar com a heroína em um squat cheio de viciados.
- Você teve sorte de conseguir esse lugar - diz Croxy enquanto me ajuda a desembalar as caixas. Sorte o caralho. Fico deitado na cama e a casa toda se chacoalha quando o trem expresso pra Liverpool Street passa voando pela estação Hackney Downs, que fica a mais ou menos trinta centímetros de distância da janela da cozinha.
No meu estado de espírito, me recolher é uma opção ainda menos plausível que sair de casa, por isso descemos com cuidado pela escadaria deteriorada, com o tapete tão gasto que ficou perigoso como uma geleira. Do lado de fora, a chuva cai misturada com a neve e por todos os lados se percebe uma aura tediosa de ressaca festiva enquanto caminhamos na direção Mare Street e da prefeitura. Croxy, que não tem nenhum senso de ironia, fica dizendo que "Hackney é bem melhor que Islington, sem dúvida. Faz tempão que Islington tá uma merda completa".
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
O Cobrador
RUBEM FONSECA
NA PORTA da rua uma dentadura grande, embaixo escrito Dr. Carvalho, Dentista. Na sala de espera vazia uma placa, Espere o Doutor, ele está atendendo um cliente. Esperei meia hora, o dente doendo, a porta abriu e surgiu uma mulher acompanhada de um sujeito grande, uns quarenta anos, de jaleco branco.
Entrei no gabinete, sentei na cadeira, o dentista botou um guardanapo de papel no meu pescoço. Abri a boca e disse que o meu dente de trás estava doendo muita. Ele olhou com um espelhinho e perguntou como é que eu tinha deixado os meus dentes ficarem naquele estado.
Só rindo. Esses caras são engraçados.
Vou ter que arrancar, ele disse, o senhor já tem poucos dentes e se não fizer um tratamento rápido vai perder todos os outros, inclusive estes aqui — e deu uma pancada estridente nos meus dentes da frente.
Uma injeção de anestesia na gengiva. Mostrou o dente na ponta do boticão: A raiz está podre, vê?, disse com pouco caso.
São quatrocentos cruzeiros.
Só rindo. Não tem não, meu chapa, eu disse.
Não tem não o quê?
Não tem quatrocentos cruzeiros. Fui andando em direção à porta.
Ele bloqueou a porta com o corpo. É melhor pagar, disse. Era um homem grande, mãos grandes e pulso forte de tanto arrancar os dentes dos fodidos. E meu físico franzino encoraja as pessoas. Odeio dentistas, comerciantes, advogadas, industriais, funcionários, médicos, executivos, essa canalha inteira. Todos eles estão me devendo muito. Abri o blusão, tirei o 38, e perguntei com tanta raiva que uma gota de meu cuspe bateu na cara dele, -- que tal enfiar isso no teu cu? Ele ficou branco, recuou. Apontando o revólver para o peito dele comecei a aliviar o meu coração: tirei as gavetas dos armários, joguei tudo no chão, chutei os vidrinhos todos como se fossem balas, eles pipocavam e explodiam na parede. Arrebentar os cuspidores e motores foi mais difícil, cheguei a machucar as mãos e os pés. O dentista me olhava, várias vezes deve ter pensado em pular em cima de mim, eu queria muito que ele fizesse isso para dar um tiro naquela barriga grande cheia de merda.
Eu não pago mais nada, cansei de pagar!, gritei para ele, agora eu só cobro!
Dei um tiro no joelho dele. Devia ter matado aquele filho da puta.
* * *
A rua cheia de gente. Digo, dentro da minha cabeça, e às vezes para fora, está todo mundo me devendo! Estão me devendo comida, buceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, estão me devendo. Um cego pede esmolas sacudindo uma cuia de alumínio com moedas. Dou um pontapé na cuia dele, o barulhinho das moedas me irrita. Rua Marechal Floriano, casa de armas, farmácia, banco, china, retratista, Light, vacina, médico, Ducal, gente aos montes. De manhã não se consegue andar na direção da Central, a multidão vem rolando como uma enorme lagarta ocupando toda a calçada.
* * *
Me irritam esses sujeitos de Mercedes. A buzina do carro também me aporrinha. Ontem de noite eu fui ver o cara que tinha uma Magnum com silenciador para vender na Cruzada, e quando atravessava a rua um sujeito que tinha ido jogar tênis num daqueles clubes bacanas que tem por ali tocou a buzina. Eu vinha distraído pois estava pensando na Magnum, quando a buzina tocou. Vi que o carro vinha devagar e fiquei parado na frente.
Como é?, ele gritou.
Era de noite e não tinha ninguém perto. Ele estava vestido de branco. Saquei o 38 e atirei no pára-brisa, mais para estrunchar o vidro do que para pegar o sujeito. Ele arrancou com o carro, para me pegar ou fugir, ou as duas coisas. Pulei pro lado, o carro passou, os pneus sibilando no asfalto. Parou logo adiante. Fui até lá. O sujeito estava deitado com a cabeça para trás, a cara e o peito cobertos por milhares de pequeninos estilhaços de vidro. Sangrava muito de um ferimento feio no pescoço e a roupa branca dele já estava toda vermelha.
Girou a cabeça que estava encostada no banco, olhos muito arregalados, pretos, e o branco em volta era azulado leitoso, como uma jabuticaba por dentro. E porque o branco dos olhos dele era azulado eu disse — você vai morrer, ô cara, quer que eu te dê o tiro de misericórdia?
Não, não, ele disse com esforço, por favor.
Vi da janela de um edifício um sujeito me observando. Se escondeu quando olhei. Devia ter ligado para a polícia.
Saí andando calmamente, voltei para a Cruzada. Tinha sido muito bom estraçalhar o pára-brisa do Mercedes. Devia ter dado um tiro na capota e um tiro em cada porta, o lanterneiro ia ter que rebolar.
* * *
O cara da Magnum já tinha voltado. Cadê as trinta milhas? Põe aqui nesta mãozinha que nunca viu palmatória, ele disse. A mão dele era branca, lisinha, mas a minha estava cheia de cicatrizes, meu corpo todo tem cicatrizes, até meu pau está cheio de cicatrizes.
Também quero comprar um rádio, eu disse pro muambeiro. Enquanto ele ia buscar o rádio eu examinei melhor a Magnum. Azeitadinha, e também carregada. Com o silenciador parecia um canhão.
O muambeiro voltou carregando um rádio de pilha.
É japonês, ele disse.
Liga para eu ouvir o som.
Ele ligou.
Mais alto, eu pedi.
Ele aumentou o volume.
Puf. Acho que ele morreu logo no primeiro tiro. Dei mais dois tiros só para ouvir puf, puf.
* * *
Tão me devendo colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela no botequim da rua Vieira Fazenda, sorvete, bola de futebol.
Fico na frente da televisão para aumentar o meu ódio. Quando minha cólera está diminuindo e eu perco a vontade de cobrar o que me devem eu sento na frente da televisão e em pouco tempo meu ódio volta. Quero muito pegar um camarada que faz anúncio de uísque. Ele está vestidinho, bonitinho, todo sanforizado, abraçado com uma loura reluzente, e joga pedrinhas de gelo num copo e sorri com todos os dentes, os dentes dele são certinhos e são verdadeiros, e eu quero pegar ele com a navalha e cortar os dois lados da bochecha até as orelhas, e aqueles dentes branquinhos vão todos ficar de fora num sorriso de caveira vermelha. Agora está ali, sorrindo, e logo beija a loura na boca. Não perde por esperar.
Meu arsenal está quase completo: tenho a Magnum com silenciador, um Colt Cobra 38, duas navalhas, uma carabina 12, um Taurus 38 capenga, um punhal e um facão. Com o facão vou cortar a cabeça de alguém num golpe só. Vi no cinema, num desses países asiáticos, ainda no tempo dos ingleses um ritual que consistia em cortar a cabeça de um animal, creio que um búfalo, num golpe único. Os oficiais ingleses presidiam a cerimônia com um ar de enfado, mas os decapitadores eram verdadeiros artistas. Um golpe seco e a cabeça do animal rolava, o sangue esguichando.
* * *
Na casa de uma mulher que me apanhou na rua. Coroa, diz que estuda no colégio noturno. Já passei por isso, meu colégio foi o mais noturno de todos os colégios noturnos do mundo, tão ruim que já não existe mais, foi demolido. Até a rua onde ele ficava foi demolida. Ela pergunta o que eu faço e digo que sou poeta, o que é rigorosamente verdade. Ela me pede que recite um poema meu. Eis: Os ricos gostam de dormir tarde/ apenas porque sabem que a corja/ tem que dormir cedo para trabalhar de manhã/ Essa é mais uma chance que eles/ têm de ser diferentes:/ parasitar,/ desprezar os que suam para ganhar a comida,/ dormir até tarde,/ tarde/ um dia/ ainda bem,/ demais./
Ela corta perguntando se gosto de cinema. E o poema? Ela não entende. Continuo: Sabia sambar e cair na paixão/ e rolar pelo chão/ apenas por pouco tempo./ Do suor do seu rosto nada fora construído./ Queria morrer com ela,/ mas isso foi outro dia,/ ainda outro dia./ No cinema Íris, na rua da Carioca/ o Fantasma da Ópera/ Um sujeito de preto,/ pasta preta, o rosto escondido,/ na mão um lenço branco imaculado,/ tocava punheta nos espectadores;/ na mesma época, em Copacabana,/ um outro/ que nem apelido tinha,/ bebia o mijo dos mictórios dos cinemas/ e o rosto dele era verde e inesquecível./ A História é feita de gente morta/ e o futuro de gente que vai morrer./ Você pensa que ela vai sofrer?/ Ela é forte; resistirá./ Resistiria também; se fosse fraca./ Agora você, não sei./ Você fingiu tanto tempo, deu socos e gritos, embusteou/ Você está cansado,/ você. acabou,/ não sei o que te mantém vivo./
Ela não entendia de poesia. Estava solo comigo e queria fingir indiferença, dava bocejos exasperados. A farsanteza das mulheres.
Tenho medo de você, ela acabou confessando.
Essa fodida não me deve nada, pensei, mora com sacrifício num quarto e sala, os olhos dela já estão empapuçados de beber porcarias e ler a vida das grã-finas na revista Vogue.
Quer que te mate?, perguntei enquanto bebíamos uísque ordinário.
Quero que você me foda, ela riu ansiosa, na dúvida. Acabar com ela? Eu nunca havia esganado ninguém com as próprias mãos. Não tem muito estilo, nem drama, esganar-se alguém, parece briga de rua. Mesmo assim eu tinha vontade de esganar alguém, mas não uma infeliz daquelas. Para um zé-ninguém, só tiro na nuca?
Tenho pensado nisso, ultimamente. Ela tinha tirado a roupa: peitos murchos e chatos, os bicos passas gigantes que alguém tinha pisado; coxas flácidas com nódulos de celulite, gelatina estragada com pedaços de fruta podre.
Estou toda arrepiada, ela disse.
Deitei sobre ela. Me agarrou pelo pescoço, sua boca e língua na minha boca, uma vagina viscosa, quente e olorosa.
Fodemos.
Ela agora está dormindo.
Sou justo.
* * *
Leio os jornais. A morte do muambeiro da Cruzada nem foi noticiada. O bacana do Mercedes com roupa de tenista morreu no Miguel Couto e os jornais dizem que foi assaltado pelo bandido Boca Larga. Só rindo.
Faço um poema denominado Infância ou Novos Cheiros de Buceta com U: Eis-me de novo/ ouvindo os Beatles/ na Rádio Mundial/ às nove horas da noite/ num quarto/ que poderia ser/ e era/ de um santo mortificado/ Não havia pecado/ e não sei por que me lepravam/ por ser inocente/ ou burro/ De qualquer forma/ o chão estava sempre ali/ para fazer mergulhos./ Quando não se tem dinheiro/ é bom ter músculos/ e ódio./
Leio os jornais para saber o que eles estão comendo, bebendo e fazendo. Quero viver muito para ter tempo de matar todos eles.
* * *
Da rua vejo a festa na Vieira Souto, as mulheres de vestido longo, os homens de roupas negras. Ando lentamente, de um lado para o outro na calçada, não quero despertar suspeitas e o facão por dentro da calça, amarrado na perna, não me deixa andar direito. Pareço um aleijado, me sinto um aleijado. Um casal de meia-idade passa por mim e me olha com pena; eu também sinto pena de mim, manco e sinto dor na perna.
Da calçada vejo os garçons servindo champanha francesa. Essa gente gosta de champanha francesa, vestidos franceses, língua francesa.
Estava ali desde as nove horas, quando passara em frente, todo municiado, entregue à sorte e ao azar, e a festa surgira.
As vagas em frente ao apartamento foram logo ocupadas e os carros dos visitantes passaram a estacionar nas escuras ruas laterais. Um deles me interessou muito, um carro vermelho e nele um homem e uma mulher, jovens e elegantes. Caminharam para o edifício sem trocar uma palavra, ele ajeitando a gravata borboleta e ela o vestido e o cabelo. Prepararam-se para uma entrada triunfal mas da calçada vejo que a chegada deles foi, como a dos outros, recebida com desinteresse. As pessoas se enfeitam no cabeleireiro, no costureiro, no massagista e só o espelho lhes dá, nas festas, a atenção que esperam. Vi a mulher no seu vestido azul esvoaçante e murmurei — vou te dar a atenção que você merece, não foi à toa que você vestiu a sua melhor calcinha e foi tantas vezes à costureira e passou tantos cremes na pele e botou perfume tão caro.
Foram os últimos a sair. Não andavam com a mesma firmeza e discutiam irritados, vozes pastosas, enroladas.
Cheguei perto deles na hora em que o homem abria a porta do carro. Eu vinha mancando e ele apenas me deu um olhar de avaliação rápido e viu um aleijado inofensivo de baixo preço.
Encostei o revólver nas costas dele.
Faça o que mando senão mato os dois, eu disse.
Para entrar de perna dura no estreito banquinho de trás não foi fácil. Fiquei meio deitado, o revólver apontado para a cabeça dele. Mandei que seguisse para a Barra da Tijuca. Tirava o facão de dentro da perna quando ele disse, leva o dinheiro e o carro e deixa a gente aqui. Estávamos na frente do Hotel Nacional. Só rindo. Ele já estava sóbrio e queria tomar um último uisquinho enquanto dava queixa à polícia pelo telefone. Ah, certas pessoas pensam que a vida é uma festa. Seguimos pelo Recreio dos Bandeirantes até chegar a uma praia deserta. Saltamos. Deixei acesos os faróis.
Nós não Lhe fizemos nada, ele disse.
Não fizeram? Só rindo. Senti o ódio inundando os meus ouvidos, minhas mãos, minha boca, meu corpo todo, um gosto de vinagre e lágrima.
Ela está grávida, ele disse apontando a mulher, vai ser o nosso primeiro filho.
Olhei a barriga da mulher esguia e decidi ser misericordioso e disse, puf, em cima de onde achava que era o umbigo dela, desencarnei logo o feto. A mulher caiu emborcada. Encostei o revólver na têmpora dela e fiz ali um buraco de mina.
O homem assistiu a tudo sem dizer, uma palavra, a carteira de dinheiro na mão estendida. Peguei a carteira da mão dele e joguei pro ar e quando ela veio caindo dei-lhe um bico; de canhota, jogando a carteira longe.
Amarrei as mãos dele atrás das costas com uma corda que eu levava. Depois amarrei os pés.
Ajoelha, eu disse.
Ele ajoelhou.
Os faróis do carro iluminavam o seu corpo. Ajoelhei-me ao seu lado, tirei a gravata borboleta, dobrei o colarinho, deixando seu pescoço à mostra.
Curva a cabeça, mandei.
Ele curvou. Levantei alto o facão, seguro nas duas mãos; vi as estrelas no céu, a noite imensa, o firmamento infinito e desci o facão, estrela de aço, com toda minha força, bem no meio do pescoço dele.
A cabeça não caiu e ele tentou levantar-se, se debatendo como se fosse uma galinha tonta nas mãos de uma cozinheira incompetente. Dei-lhe outro golpe e mais outro e outro e a cabeça não rolava. Ele tinha desmaiado ou morrido com a porra da cabeça presa no pescoço. Botei o corpo sobre o páralama do carro. O pescoço ficou numa boa posição. Concentrei-me como um atleta que vai dar um salto mortal. Dessa vez, enquanto o facão fazia seu curto percurso mutilante zunindo fendendo o ar, eu sabia que ia conseguir o que queria. Brock! a cabeça saiu rolando pela areia. Ergui alto o alfanje e recitei: Salve o Cobrador! Dei um grito alto que não era nenhuma palavra, era um uivo comprido e forte, para que todos os bichos tremessem e saíssem da frente. Onde eu passo o asfalto derrete.
* * *
Uma caixa preta debaixo do braço. Falo com a língua presa que sou o bombeiro que vai fazer o serviço no apartamento duscenthos e um. O porteiro acha graça na minha língua presa e me manda subir. Começo do último andar. Sou o bombeiro (língua normal agora) vim fazer o serviço. Pela abertura, dois olhos: ninguém chamou bombeiro não. Desço para o sétimo, a mesma coisa. Só vou ter sorte no primeiro andar.
A empregada me abriu a porta e gritou lá para dentro, é o bombeiro. Surgiu uma moça de camisola, um vidro de esmalte de unhas na mão, bonita, uns vinte e cinco anos.
Deve haver um engano, ela disse, nós não precisamos de bombeiro.
Tirei o Cobra de dentro da caixa. Precisa sim, é bom ficarem quietas senão mato as duas. Tem mais alguém em casa? O marido estava trabalhando e o menino no colégio. Amarrei a empregada, fechei sua boca com esparadrapo. Levei a dona pro quarto.
Tira a roupa.
Não vou tirar a roupa, ela disse, a cabeça erguida. Estão me devendo xarope, meia, cinema, filé mignon e buceta, anda logo. Dei-lhe um murro na cabeça. Ela caiu na cama, uma marca vermelha na cara. Não tiro. Arranquei a camisola, a calcinha. Ela estava sem sutiã. Abri-lhe as pernas. Coloquei os meus joelhos sobre as suas coxas. Ela tinha uma pentelheira basta e negra. Ficou quieta, com olhos fechados. Entrar naquela floresta escura não foi fácil, a buceta era apertada e seca. Curvei-me, abri a vagina e cuspi lá dentro, grossas cusparadas. Mesmo assim não foi fácil, sentia o meu pau esfolando. Deu um gemido quando enfiei o cacete com toda força até o fim. Enquanto enfiava e tirava o pau eu lambia os peitos dela, a orelha, o pescoço, passava o dedo de leve no seu cu, alisava sua bunda. Meu pau começou a ficar lubrificado pelos sucos da sua vagina, agora morna e viscosa.
Como já não tinha medo de mim, ou porque tinha medo de mim, gozou primeiro do que eu. Com o resto da porra que saía do meu pau fiz um círculo em volta do umbigo dela.
Vê se não abre mais a porta pro bombeiro, eu disse, antes de ir embora.
***
Saio do sobrado da rua Visconde de Maranguape. Uma panela em cada molar cheio de cera do Dr. Lustosa/ mastigar com os dentes da frente/ punheta pra foto de revista/ livros roubados./ Vou para a praia.
Duas mulheres estão conversando na areia; uma tem o corpo queimado de sol, um lenço na cabeça; a outra é clara, deve ir pouco à praia; as duas têm o corpo muito bonito; a bunda da clara é a bunda mais bonita entre todas que já vi.
Sento perto, e fico olhando. Elas percebem meu interesse e começam logo a se mexer, dizer coisas com o corpo, fazer movimentos aliciantes com os rabos. Na praia somos todos iguais, nós os fodidos e eles. Até que somos melhores pois não temos aquela barriga grande e a bunda mole dos parasitas. Eu quero aquela mulher branca! Ela inclusive está interessada em mim, me lança olhares. Elas riem, riem, dentantes. Se despedem e a branca vai andando na direção de Ipanema, a água molhando os seus pés. Me aproximo e vou andando junto, sem saber o que dizer
Sou uma pessoa tímida, tenho levado tanta porrada na vida, e o cabelo dela é fino e tratado, o seu tórax é esbelto, os seios pequenos, as coxas são sólidas e redondas e musculosas e a bunda é feita de dois hemisférios rijos. Corpo de bailarina.
Você estuda balé?
Estudei, ela diz. Sorri para mim. Como é que alguém pode ter boca tão bonita? Tenho vontade de lamber dente por dente da sua boca. Você mora por aqui?, ela pergunta. Moro, minto. Ela me mostra um prédio na praia, todo de mármore.
* * *
De volta à rua Visconde de Maranguape. Faço hora para ir na casa da moça branca. Chama-se Ana. Gosto de Ana, palindrômico. Afio o facão com uma pedra especial, o pescoço daquele janota era muito duro. Os jornais abriram muito espaço para a morte do casal que eu justicei na Barra. A moça era filha de um desses putos que enriquecem em Sergipe ou Piauí, roubando os paus-de-araras, e depois vêm para o Rio, e os filhos de cabeça chata já não têm mais sotaque, pintam o cabelo de louro e dizem que são descendentes de holandeses.
Os colunistas sociais estavam consternados. Os granfas que eu despachei estavam com viagem marcada para Paris. Não há mais segurança nas ruas, dizia a manchete de um jornal. Só rindo. Joguei uma cueca pro alto e tentei cortá-la com o facão, como o Saladino fazia (com um lenço de seda) no cinema.
Não se fazem mais cimitarras como antigamente/ Eu sou uma hecatombe/ Não foi nem Deus nem o Diabo/ Que me fez um vingador/ Fui eu mesmo/ Eu sou o Homem Pênis/ Eu sou o Cobrador./
Vou no quarto onde Dona Clotilde está deitada há três anos. Dona Clotilde é dona do sobrado.
Quer que eu passe o escovão na sala?, pergunto.
Não meu filho, só queria que você me desse a injeção de trinevral antes de sair.
Fervo a seringa, preparo a injeção. A bunda de Dona Clotilde é seca como uma folha velha e amassada de papel de arroz.
Você caiu do céu, meu filho, foi Deus que te mandou, ela diz.
Dona Clotilde não tem nada, podia levantar e ir comprar coisas no supermercado. A doença dela está na cabeça. E depois de três anos deitada, só se levanta para fazer pipi e cocô, ela não deve mesmo ter forças.
Qualquer dia dou-lhe um tiro na nuca.
* * *
Quando satisfaço meu ódio sou possuído por uma sensação de vitória, de euforia que me dá vontade de dançar — dou pequenos uivos, grunhidos, sons inarticulados, mais próximos da música do que da poesia, e meus pés deslizam pelo chão, meu corpo se move num ritmo feito de gingas e saltos, como um selvagem, ou um macaco.
Quem quiser mandar em mim pode querer, mas vai morrer. Estou querendo muito matar um figurão desses que mostram na televisão a sua cara paternal de velhaco bem-sucedido, uma pessoa de sangue engrossado por caviares e champãs. Come caviar/ teu dia vai chegar./ Estão me devendo uma garota de vinte anos, cheia de dentes e perfume. A moça do prédio de mármore? Entro e ela está me esperando, sentada na sala, quieta, imóvel, o cabelo muito preto, o rosto branco, parece uma fotografia.
Vamos sair, eu digo para ela. Ela me pergunta se estou de carro. Digo que não tenho carro. Ela tem. Descemos pelo elevador de serviço e saímos na garagem, entramos num Puma conversível.
Depois de algum tempo pergunto se posso dirigir e trocamos de lugar. Petrópolis está bem?, pergunto. Subimos a serra sem dizer uma palavra, ela me olhando. Quando chegamos a Petrópolis ela pede que eu pare num restaurante. Digo que não tenho dinheiro nem fome, mas ela tem as duas coisas, come vorazmente como se a qualquer momento fossem levar o prato embora. Na mesa ao lado um grupo de jovens bebendo e falando alto, jovens executivos subindo na sexta-feira e bebendo antes de encontrar a madame toda enfeitada para jogar biriba ou falar da vida alheia enquanto traçam queijos e vinhos. Odeio executivos. Ela acaba de comer. E agora? Agora vamos voltar, eu digo, e descemos a serra, eu dirigindo como um raio, ela me olhando. Minha vida não tem sentido, já pensei em me matar, ela diz. Paro na rua Visconde de Maranguape. É aqui que você mora? Saio sem dizer nada. Ela sai atrás: vou te ver de novo? Entro e enquanto vou subindo as escadas ouço o barulho do carro partindo.
* * *
Top Executive Club. Você merece o melhor relax, feito de carinho e compreensão. Nossas massagistas são completas. Elegância e discrição.
Fica quieto senão chumbo a sua barriga executiva.
Ele tem o ar petulante e ao mesmo tempo ordinário do ambicioso ascendente egresso do interior, deslumbrado de coluna social, comprista, eleitor da Arena, católico, cursilhista, patriota, mordomista e bocalivrista, os filhos estudando na PUC, a mulher transando decoração de interiores e sócia de butique.
Como é executivo, a massagista te tocou punheta ou chupou teu pau?
Você é homem, sabe como é, entende essas coisas, ele disse. Papo de executivo com chofer de táxi ou ascensorista. De Botucatu para a Diretoria, acha que já enfrentou todas as situações de crise.
Não sou homem porra nenhuma, digo suavemente, sou o Cobrador.
Sou o Cobrador!, grito.
Ele começa a ficar da cor da roupa. Pensa que sou maluco e maluco ele ainda não enfrentou no seu maldito escritório refrigerado.
Vamos para sua casa, eu digo.
Eu não moro aqui no Rio, moro em São Paulo, ele diz. Perdeu a coragem, mas não a esperteza. E o carro?, pergunto. Carro, que carro? Este carro, com a chapa do Rio? Tenho mulher e três filhos, ele desconversa. Que é isso? Uma desculpa, senha, habeas-corpus, salvo-conduto? Mando parar o carro. Puf, puf, puf, um tiro para cada filho, no peito. O da mulher na cabeça, puf.
* * *
Para esquecer a moça que mora no edifício de mármore vou jogar futebol no aterro. Três horas seguidas, minhas pernas todas escalavradas das porradas que levei, o dedão do pé direito inchado, talvez quebrado. Sento suado ao lado do campo, junto de um crioulo lendo O Dia. A manchete me interessa, peço o jornal emprestado, o cara diz se tu quer ler o jornal por que não compra? Não me chateio, o crioulo tem poucos dentes, dois ou três, tortos e escuros. Digo, tá, não vamos brigar por isso. Compro dois cachorros-quentes e duas cocas e dou metade pra ele e ele me dá o jornal. A manchete diz: Polícia à procura do louco da Magnum. Devolvo o jornal pro crioulo. Ele não aceita, ri para mim enquanto mastiga com os dentes da frente, ou melhor com as gengivas da frente que de tanto uso estão afiadas como navalhas. Notícia do jornal: Um grupo de grã-finos da zona sul em grandes preparativos para o tradicional Baile de Natal — Primeiro Grito de Carnaval. O baile começa no dia vinte e quatro e termina no dia primeiro do Ano Novo; vêm fazendeiros da Argentina, herdeiros da Alemanha, artistas americanos, executivos japoneses, o parasitismo internacional. O Natal virou mesmo uma festa. Bebida, folia, orgia, vadiagem.
O Primeiro Grito de Carnaval. Só rindo. Esses caras são engraçados.
Um maluco pulou da ponte Rio-Niterói e boiou doze horas até que uma lancha do Salvamar o encontrou. Não pegou nem resfriado.
Um incêndio num asilo matou quarenta velhos, as famílias celebraram.
* * *
Acabo de dar a injeção de trinevral em Dona Clotilde quando tocam a campainha. Nunca tocam a campainha do sobrado. Eu faço as compras, arrumo a casa. Dona Clotilde não tem parentes. Olho da sacada. É Ana Palindrômica.
Conversamos na rua. Você está fugindo de mim?, ela pergunta. Mais ou menos, digo. Vou com ela pro sobrado. Dona Clotilde, estou com uma moça aqui, posso levar pro quarto? Meu filho, a casa é sua, faça o que quiser, só quero ver a moça.
Ficamos em pé ao lado da cama. Dona Clotilde olha para Ana um tempo enorme. Seus olhos se enchem de lágrimas. Eu rezava todas as noites, ela soluça, todas as noites para você encontrar uma moça como essa. Ela ergue os braços magros cobertos de finas pelancas para o alto, junta as mãos e diz, oh meu Deus, como vos agradeço!
Estamos no meu quarto, em pé, sobrancelha com sobrancelha, como no poema, e tiro a roupa dela e ela a minha e o corpo dela é tão lindo que sinto um aperto na garganta, lágrimas no meu rosto, olhos ardendo, minhas mãos tremem e agora estamos deitados, um no outro, entrançados, gemendo, e mais, e mais, sem parar, ela grita; a boca aberta, os dentes brancos como de um elefante jovem, ai, ai, adoro a tua obsessão!, ela grita, água e sal e porra jorram de nossos corpos, sem parar.
Agora, muito tempo depois, deitados olhando um para o outro hipnotizados até que anoitece e nossos rostos brilham no escuro e o perfume do corpo dela traspassa as paredes do quarto.
Ana acordou primeiro do que eu e a luz está acesa. Você só tem livros de poesia? E estas armas todas, pra quê? Ela pega a Magnum no armário, carne branca e aço negro, aponta pra mim. Sento na cama.
Quer atirar? pode atirar, a velha não vai ouvir. Mais para cima um pouco. Com a ponta do dedo suspendo o cano até a altura da minha testa. Aqui não dói.
Você já matou alguém? Ana aponta a arma pra minha testa.
Já.
Foi bom?
Foi.
Como?
Um alívio.
Como nós dois na cama?
Não, não, outra coisa. O outro lado disso.
Eu não tenho medo de você, Ana diz.
Nem eu de você. Eu te amo.
Conversamos até amanhecer. Sinto uma espécie de febre. Faço café pra Dona Clotilde e levo pra ela na cama. Vou sair com Ana, digo. Deus ouviu minhas preces, diz a velha entre goles.
* * *
Hoje é dia vinte e quatro de dezembro, dia do Baile de Natal ou Primeiro Grito de Carnaval. Ana Palindrômica saiu de casa e está morando comigo. Meu ódio agora é diferente. Tenho uma missão. Sempre tive uma missão e não sabia. Agora sei. Ana me ajudou a ver. Sei que se todo fodido fizesse como eu o mundo seria melhor e mais justo. Ana me ensinou a usar explosivos e acho que já estou preparado para essa mudança de escala. Matar um por um é coisa mística e disso eu me libertei. No Baile de Natal mataremos convencionalmente os que pudermos. Será o meu último gesto romântico inconseqüente. Escolhemos para iniciar a nova fase os compristas nojentos de um supermercado da zona sul. Serão mortos por uma bomba de alto poder explosivo. Adeus, meu facão, adeus meu punhal, meu rifle, meu Colt Cobra, adeus minha Magnum, hoje será o último dia em que vocês serão usados. Beijo o meu facão. Explodirei as pessoas, adquirirei prestigio; não serei apenas o louco da Magnum. Também não sairei mais pelo parque do Flamengo olhando as árvores; os troncos, a raiz, as folhas, a sombra, escolhendo a árvore que eu queria ter, que eu sempre quis ter, num pedaço de chão de terra batida. Eu as vi crescer no parque e me alegrava quando chovia e a terra se empapava de água, as folhas lavadas de chuva, o vento balançando os galhos, enquanto os carros dos canalhas passavam velozmente sem que eles olhassem para os lados. Já não perco meu tempo com sonhos.
O mundo inteiro saberá quem é você, quem somos nós, diz Ana.
Notícia: O Governador vai se fantasiar de Papai Noel. Notícia: menos festejos e mais meditação, vamos purificar o coração. Notícia: Não faltará cerveja. Não faltarão perus. Notícia: Os festejos natalinos causarão este ano mais vítimas de trânsito e de agressões do que nos anos anteriores. Policia e hospitais preparam-se para as comemorações de Natal. O Cardeal na televisão: a festa de Natal está deturpada, o seu sentido não é este, essa história de Pagai Noel é uma invenção infeliz. O Cardeal afirma que Papai Noel é um palhaço fictício.
Véspera de Natal é um bom dia para essa gente pagar o que deve, diz Ana. O Papai Noel do baile eu mesmo quero matar com o facão, digo.
Leio para Ana o que escrevi, nosso manifesto de Natal, para os jornais. Nada de sair matando a esmo, sem objetivo definido. Eu não sabia o que queria, não buscava um resultado prático, meu ódio estava sendo desperdiçado. Eu estava certo nos meus impulsos, meu erro era não saber quem era o inimigo e por que era inimigo. Agora eu sei, Ana me ensinou. E o meu exemplo deve ser seguido por outros, muitos outros, só assim mudaremos o mundo. É a síntese do nosso manifesto.
Ponho as armas numa mala. Ana atira tão bem quanto eu, só não sabe manejar o facão, mas essa arma agora é obsoleta. Damos até logo à Dona Clotilde. Botamos a mala no carro. Vamos ao Baile de Natal. Não faltará cerveja, nem perus. Nem sangue. Fecha-se um ciclo da minha vida e abre-se outro.
Texto extraído do livro "O Cobrador", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1979, pág. 165.
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
domingo, 4 de outubro de 2015
sábado, 3 de outubro de 2015
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
segunda-feira, 6 de julho de 2015
CONTO CARNE
__ Da alma, que nada. Da carne, porque é na carne que te sinto.
Ela olhou-me demoradamente.
__ Que seja, então, disse, sorrindo, despindo-se.
Observava a noite pela janela, via-me pelo canto do olho.
Lá fora: a noite, as nuvens pairando pesadamente (um eco de Poe) __ aqui dentro, eu e ela, nus, trêmulos.
Esqueça o amor. O espirito. Lembre-se do calor. Da carne.
É tudo. Nossa carne. Uma só.
domingo, 10 de maio de 2015
quarta-feira, 9 de julho de 2014
NUVENS CORES
quarta-feira, 11 de junho de 2014
terça-feira, 27 de maio de 2014
quarta-feira, 21 de maio de 2014
terça-feira, 6 de maio de 2014
contoA MÁSCARA
Guy de Maupassant
Havia naquela noite um baile à fantasia no Elisée Montmartre. Era por ocasião da mi-careme, e, como a água através da comporta de uma represa, a multidão despejava-se no corredor iluminado que leva ao salão de baile. O irresistível apelo da orquestra, estrondeando como uma tempestade musical, atravessava as paredes e o teto, espalhava-se pelo bairro e ia despertar, nas ruas e a té no fundo das casas vizinhas, aquele invencível desejo de saltar, de aquecer-se e divertir-se que dormita no íntimo do animal humano.
E os freqüentadores da festa também vinham dos quatro cantos de Paris, pessoas de todas as classes sociais, amantes de diversões barulhentas, um tanto quanto licenciosas, tocadas de libertinagem. Eram empregados, cáftens, mulheres alegres, que conheciam toda espécie de lençóis, do mais grosseiro algodão à mais fina batista, mulheres ricas, velhas e cheias de diamantes, e mulheres pobres, de dezesseis anos, desejosas de divertir-se, de entregar-se a homens, de gastar dinheiro. Elegantes casacas negras à cata de carne moça, de primícias defloradas, porém saborosas, erravam por entre aquela multidão aquecida, procuravam, pareciam farejar, enquanto os mascarados eram impelidos, sobretudo, pelo desejo de divertir-se. Quartetos famosos de dançarinos já tinham reunido em torno das suas piruetas um largo círculo de assistentes. Aquela cerca ondulante, aquela massa buliçosa de mulheres e de homens, que rodeava os quatro dançarinos, torcia-se como uma serpente, ora se aproximando, ora se afastando, de acordo com os deslocamentos operados pelos artistas. As duas mulheres, cujas coxas pareciam ligadas ao corpo por molas de borracha, moviam as pernas com incrí vel agilidade. Atiravam-nas para cima com tanta violência que pareciam voar em direção às nuvens, depois subitamente as afastavam como se tivessem sido rasgadas até a metade do ventre e, fazendo-as deslizar, uma para a frente, a outra para trás, tocavam o solo com o corpo com um movimento rápido, cômico e repulsivo.
Os dois cavalheiros pulavam, moviam agilmente os pés, agitavam-se, sacudindo os braços levantados como cotos de asas sem penas e, sob as máscaras, percebia-se a sua respiração ofegante.
Um destes últimos, que participava da mais reputada das quadrilhas como substituto de uma celebridade ausente, o belo Songe au Gosse, e que se esforçava para acompanhar a infatigável Arête-de-Vau, executava figuras curiosas, que despertavam a alegria e o sarcasmo do público.
Era magro, vestia-se como um janota e usava uma bonita máscara envernizada, uma máscara de bigodes louros, frisados, e toucada por uma peruca anelada.
Lembrava uma figura de cera do Museu Grévin, estranha e fantástica caricatura de página de figurino, e dançava com esforçada compenetração, porém desajeitadamente, com entusiasmo grotesco. Parecia enferrujado ao lado dos outros, ao tentar imitar-lhes as piruetas; parecia tolhido, pesado como um cão fraldeiro que brincasse com galgos. Encorajavam-no alguns aplausos zombeteiros. E, ébrio de entusiasmo, ele sacudia as pernas com tal frenesi que, de repente, levado por um impulso violento, foi dar de cabeça contra a muralha dos assistentes, que se entreabriu para deixá-lo passar e depois tornou a fechar-se em torno daquele corpo inerte, estendido de borco, o dançarino inanimado.
Alguns homens o levantaram, carregararn-no. Alguém gritou: “Um médico!” Apresentou-se um cavalheiro ainda jovem, muito elegante, de casaca negra com grandes pérolas na camisa branca. “Sou professor da faculdade”, declarou, com entonação modesta. Deixaram-no passar e ele se dirigiu a uma saleta cheia de caixas de documentos, como o escritório de um procurador, onde o dançarino, ainda desacordado, fora estendido sobre cadeiras. Antes de tudo o médico procurou retirar a máscara, e percebeu que fora fixada de maneira embaraçosa, com uma porção de pequenos fios de metal; estes a atavam habilmente às bordas da peruca, e encerravam a cabeça inteira numa sólida ligadura, cujo segredo seria preciso conhecer. O próprio pescoço estava envolto numa pele artificial que prolongava o queixo, e aquela pele de luva, pintada da cor da carne, prendia-se na gola da camisa.
Foi preciso cortar aquilo tudo com grandes tesouras; e depois de ter feito no surpreendente conjunto um talho que ia do ombro à têmpora, o médico entreabriu a carapaça e descobriu um rosto gasto e envelhecido, magro, pálido e enrrugado. Tamanha foi a surpresa dos que tinham trazido o jovem mascarado de cabelos negros, que ninguém se riu nem pronunciou uma única palavra.
Contemplavam o triste rosto que descansava sobre a cadeira, de olhos fechados, cabelos brancos, alguns longos, caindo da fronte sobre o rosto, e curtos os que lhe guarneciam as faces e o queixo; e, ao lado daquela lamentável cabeça, a pequena e bonita máscara envernizada, a máscara jovem, que continuava a sorrir.
O desconhecido voltou a si depois de ter permanecido longamente desacordado; parecia, porém, tão fraco, tão doente, que o médico receou alguma complicação perigosa.
- Onde mora o senhor? – indagou.
O velho dançarino pareceu revolver a memória, e depois se lembrou e deu o nome de uma rua que nenhum dos presentes conhecia. Foi preciso pedir-lhe algumas explicações sobre o bairro. Forneceu-as com enorme dificuldade, com uma lentidão e uma incerteza que bem traiam a confusão da sua mente.
O médico declarou:
- Eu mesmo irei levá-lo.
Acometera-o a curiosidade de saber quem seria aquele estranho bailarino, de verificar onde morava aquele saltador fenômeno.
E pouco depois um carro de praça levou ambos ao outro lado das colinas de Montmartre.
Desceram na frente de um prédio alto, de aspecto pobre, com urna escada viscosa e construído entre dois terrenos baldios, um desses prédios eternamente inacabados, crivados de janelas, nichos imundos que abrigam uma multidão de seres maltrapilhos e miseráveis.
Segurando-se fortemente ao corrimão, um rolo de madeira que girava e no qual a mão ficava grudada, amparou até o quarto andar o ancião aturdido, que começava a recuperar as forças.
Abriu-se a porta à qual bateram e apareceu uma mulher, também velha, asseada, com uma touca de noite muito branca emoldurando-lhe a cabeça de ossos fortes e traços acentuados, um desses rostos grandes, rudes e bons, que freqüentemente possuem as fiéis e ativas esposas de operários. Exclamou:
- Meu Deus! O que teve ele?
Explicado o incidente com vinte palavras, ela se tranqüilizou e tranqüilizou o próprio médico, contando que aquela mesma aventura já acontecera antes, muitas vezes.
- É preciso deitá-lo, doutor, mais nada; ele dormirá e amanhã acordará outro.
O médico observou:
- Mas ele mal pode falar!
- Oh! Não é nada, um pouco de bebida, mais nada. Ele não jantou para sentir-se leve, e depois bebeu dois copos de absinto para animar-se. O senhor vê, o absinto lhe ativa as pernas, mas lhe tira as idéias e as palavras. Não é adequado à sua idade dançar como faz. Não, não há mesmo esperança de que ele tome juízo algum dia!
Surpreso, o médico insistiu:
Mas por que dança ele desse jeito, velho como está? Ela ergueu os ombros, vermelha sob a ação da cólera que pouco a pouco a excitava:
- Ah, sim, por quê? Para falar a verdade, é para que o imaginem moço embaixo da máscara, para que as mulheres ainda o julguem um galanteador e lhe digam libertinagens ao ouvido, para esfregar-se na pele dessas mulheres, peles sujas de perfumes, de pós e cremes … Ah! É incrível! Imagine, doutor, a vida que tenho levado durante os quarenta anos que isto vai durando… Primeiro, porém, precisamos deitá-lo, para que ele não se sinta mal. Não se importa de judar-me? Quando fica neste estado, é muito difícil para mim lidar com ele sozinha.
O velho estava sentado na cama, com jeito de bêbedo, os longos cabelos brancos caídos no rosto.
Sua companheira observava-o com olhos enternecidos e furiosos. Continuou:
- Repare como tem uma bonita cabeça para a idade; não precisava disfarçar-se de malandro para que o supusessem moço. É uma lástima! Não é verdade que ele tem uma bela cabeça, doutor? Espere, vou mostrá-la ao senhor antes que ele se deite.
- Encaminhou-se para uma mesa sobre a qual estavam colocados a bacia de mãos, o jarro de água, o sabão, o pente e a escova. Apanhou a escova, voltou para junto da cama e, depois de lidar por uns momentos com a cabeleira embaraçada do bêbedo, deu-lhe à cabeça a aparência de um modelo de pintor, com grandes madeixas caídas no pescoço. Recuou a fim de contemplá-lo e observou:
- Não é verdade que está bem para a sua idade?
- Muito bem – concordou o médico, que começava a divertir-se bastante.
- E se o senhor o tivesse conhecido quando tinha vinte e cinco anos! – exclamou ela. – Mas é preciso pô-lo na cama; sem isso, os seus absintos lhe ficariam dando voltas na barriga. Olhe, doutor, quer puxar a manga? .. Mais em cima … Assim … Bem … Agora a calça … Espere, vou tirar-lhe os sapatos … Está bem. Agora, conserve-o de pé para que eu arrume a cama. .. Pronto… Vamos deitá-lo. .. Se pensa que ele se afastará daqui a pouco para ceder-me lugar, o senhor está enganado. Terei que arranjar um cantinho, seja onde for. Isso não o preocupa. Ah, que estróina!
Ao sentir que estava estendido debaixo das cobertas, o velho fechou os olhos, tornou a abri-los e novamente os fechou, enquanto uma enérgica determinação de dormir se lhe refletia no rosto satisfeito.
O médico indagou, depois de observá-lo com acrescido interesse:
- Então, ele gosta de fingir-se de moço nos bailes à fantasia?
- Em todos, doutor, e só volta pela manhã, num estado que ninguém pode imaginar. Veja, é a tristeza que o leva aos salões, e que o obriga a colocar um rosto de papelão sobre o próprio. Sim, a tristeza de não ser mais o que já foi, e também de não obter mais o mesmo sucesso que já obteve!
O velho dormia, agora, e começava a roncar. Ela contemplou-o com ar apiedado e prosseguiu:
- Ah! Saiba o senhor que este homem já fez muito sucesso! Muito mais do que seria de supor, mais do que senhores elegantes da sociedade, mais do que todos os tenores e todos os generais.
Realmente? Que fazia ele?
- Oh! O senhor vai ficar surpreendido, no começo, pois não o conheceu nos seus belos tempos. Quando o encontrei, também num baile, porque ele sempre os freqüentou, fiquei presa, ao vê-lo, presa como um peixe no anzol. Ele era bonito, doutor, bonito a ponto de fazer vir lágrimas aos olhos quando o fitávamos, com seus cabelos negros como um corvo, crespos, e uns olhos negros do tamanho de janelas. Ah, sim, era um belo rapaz. Nessa noite ele me levou consigo, e não mais o deixei, nunca, nem por um só dia, apcsar de tudo! Oh! Fez-me comer fogo!
O médico indagou: – Casaram-se?
Ela respondeu, com simplicidade:
- Sim … Sem isso ele me teria largado, como largou as outras. Fui sua mulher e sua criada, tudo, tudo quanto quis … e fez-me chorar … lágrimas que não lhe deixei ver! Pois me descrevia as suas aventuras … a mim … a mim … doutor, sem compreender o mal que me fazia ouvi-lo falar …
- Afinal, que profissão tinha?
- É verdade … Esqueci-me de contar. Era o primeiro ajudante de Martel, mas um primeiro ajudante como não houve outro igual. .. Um artista de dez francos a hora, em média …
- Martel? Quem é esse Martel? …
O cabeleireiro, doutor, o grande cabeleireiro da Ópera, de quem todas as atrizes eram freguesas. Sim, todas as atrizes, mesmo as mais emproadas, faziam questão de ser penteadas por Ambroise, e davam-lhe gratificações que o enriqueceram. Ah, doutor, todas as mulheres são iguais, sim, todas. Quando um homem lhes agrada, elas o tomam. É tão fácil. .. e causa tanta mágoa quando a gente sabe! Pois ele me contava tudo .. .” Não podia calar-se … Não, não podia. Essas coisas causam tanto prazer aos homens! Talvez mais ainda quando as contam do que quando as fazem …
“Quando o via regressar, à noite, um pouco pálido, com um jeito satisfeito, o olhar brilhante, dizia comigo mesma: “Mais uma. Tenho a certeza de que arranjou mais uma.” E sentia vontade de interrogá-lo, uma vontade que me dilacerava o coração, e também vontade de nada saber, de impedir que falasse quando a isso se dispusesse. E nos entreolhávamos.
“Sabia bem que ele não se calaria, que ia tocar no assunto. Sentia-o pelo seu jeito, pelo jeito risonho com que me dava a entender: “Tive uma boa, hoje, Madeleine”. Fingia nada ver, nada perceber; e punha a mesa; trazia a sopa; sentava-me à frente dele.
“Naqueles momentos, doutor, era como se esmagassem com uma pedra, no meu corpo, a minha amizade por ele. Doia, sim, e bastante. Mas ele não percebia, não sabia; tinha necessidade de contar aquilo a alguém, de gabar-se, de mostrar que era amado. .. E só a mim podia contar. .. O senhor compreende. .. Só a mim. ” Então … eu precisava escutá-lo e engolir aquilo como se fosse veneno.
“Ele começava a tomar a sopa e depois dizia: “- Mais uma, Madeleine.
“Eu pensava: “Pronto. Meu Deus, que homem! Por que fui encontrá-lo?
“E ele continuava: – Mais uma, e bem bonita! – Tratava-se de uma pequena do Vaudeville ou então de uma pequena das Varietés, ou também de alguma dessas senhoras do teatro, das mais importantes, das mais conhecidas. Dava-me seus nomes, descrevia-me seus móveis, e tudo, tudo, sim, tudo, senhor … Pormenores que me dilaceravam o coração. E ele insistia, e recomeçava a história, do começo ao fim, tão contente que eu fingia rir-me para que não se zangasse comigo.
“Talvez nem tudo fosse verdade! Gostava tanto de gabar-se que seria muito capaz de inventar coisas desse gênero! Mas também podia ser verdade! Nessas noites, ele se queixava de cansaço, queria deitar-se logo depois da ceia. Ceávamos às onze horas, pois nunca ele regressava mais cedo, por causa dos penteados dos saraus.
“Quando terminava de contar a sua aventura, fumava cigarros, passeava pelo quarto e era tão bonito, com seus bigodes e seus cabelos crespos, que eu ponderava: “É verdade, mesmo, o que me contou. Já que sou louca por esse homem, por que as outras também não se apaixonariam?” Ah! Muitas vezes tive vontade de chorar, de gritar, de fugir, de atirar-me pela janela, enquanto tirava a mesa e ele continuava a fumar. Bocejava, abrindo a boca para mostrar quão cansado estava, e dizia duas ou três vezes, antes de meter-se na cama: “Meu Deus, como vou dormir bem esta noite!”
“Não lhe guardo rancor, pois não sabia quanto me magoava. Não, não podia saber! Gostava de gabar-se das mulheres como um pavão que desdobra a cauda. Chegara ao ponto de achar que todas o olhavam e o desejavam.
“Foi duro para ele quando envelheceu.
“Oh, doutor, ao ver seu primeiro cabelo branco, senti uma emoção que me fez perder o fôlego, e depois uma alegria – uma alegria perversa, mas tão grande, tão grande!!! Disse comigo mesma: “É o fim … é o fim … ” Pareceu-me que iam tirar-me de uma prisão. Seria meu, só meu, quando as outras não o quisessem mais.
“Era de manhã, estávamos na cama. Ele ainda dormia, e me inclinava para despertá-lo, beijando-o, quando divisei nos seus cabelos, na têmpora, um fiozinho que brilhava como prata. Que surpresa! Não teria acreditado que aquilo fosse possível! Primeiro pensei em arrancá-lo, para que ele não o visse! Porém, examinando melhor, avistei outro, um pouco acima. Cabelos brancos! Ele ia ter cabelos brancos! Meu coração pulsava e eu transpirava; contudo, estava bem contente, no fundo!
“É feio pensar assim, mas tive prazer em cuidar da casa naquela manhã, antes de acordá-lo; e quando ele abriu os olhos espontaneamente, eu lhe disse:
“- Sabe o que descobri enquanto você dormia? “- Não.
“- Descobri que está com cabelos brancos.
“Ele teve um sobressalto de despeito, que o pôs sentado como se eu lhe tivesse feito cócegas, e observou, com uma expressão má:
“- Não é verdade!
“- Sim, na têmpora esquerda. São quatro. “Ele saltou da cama para correr ao espelho.
“Não encontrou os cabelos brancos. Então lhe mostrei o primeiro, aquele crespinho, mais embaixo. E comentei:
“- Não é de admirar, com a vida que você leva. Daqui a dois anos estará acabado.
“Pois bem, doutor, eu falava a verdade: ninguém o reconheceria dois anos depois. Como é possível um homem mudar tão depressa! Ainda era bonito, mas ia perdendo a frescura, e as mulheres já não o procuravam mais. Ah, que vida dura levei naqueles tempos! Bem boas ele me fez sofrer! Nada lhe agradava, absolutamente nada! Abandonou sua profissão para fabricar chapéus, e perdeu dinheiro. Depois quis ser ator e falhou, e em seguida começou a freqüentar bailes públicos. Afinal, teve o bom senso de guardar um pouco de dinheiro, com o qual vivemos. Dá, mas não é grande coisa! E dizer-se que houve um momento em que podia ser considerado quase rico!
“O senhor viu o que ele faz agora. É uma espécie de delírio que o possui. Precisa sentir-se jovem, precisa dançar com mulheres que cheirem a perfume e a brillhantina. Coitado do meu querido velho!”
Emocionada, prestes a chorar, ela contemplava o velho marido, que roncava. Depois, aproximando-se com passos cautelosos, beijou-lhe os cabelos. O médico levantara-se e preparava-se para retirar-se, não encontrando o que dizer ante aquele estranho caso.
Porém, ao vê-lo sair, ela indagou:
- Assim mesmo, não quer deixar o seu endereço? Se ele piorar, irei chamá-lo.
Extraído do site A Gata por um Fioterça-feira, 22 de abril de 2014
quinta-feira, 20 de março de 2014
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
sábado, 15 de fevereiro de 2014
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
QUASE NUNCA MAIS
Quase nunca mais. A correria e a faculdade e o trabalho e a doença e a preguiça mental (principalmente essa) quase me fizeram parar de escrever ou de colocar imagens ou videos aqui. Mas é como diz aquele velho deitado: “Aqui estou morto”. Então é preciso continuar etc.
Mas o que há para contar? Do tempo em que aqui não estive, quase nada. Ou melhor, nada. Nada que já não tenha citado aí em cima, nada que mereça ser explorado em detalhes.
Do que vem a seguir, veremos. Por ora, isto é apenas para lembrar aos poucos que aqui ainda vem que o Ancião ainda não morreu. Estava apenas deitado.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
Rick and Morty
uma mistura de o guia do mochileiro das galaxias e Dr. Who, segundo os realizadores. então promete. eba.
sábado, 9 de novembro de 2013
trailer O DIA DO DOUTOR
adoro essa série. sci-fi, inteligente, romântica, trash, emocionante e com um dom de se reinventar de tempos em tempos que é simplesmente admirável.
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
Darkness Visible
“The madness of depression is, generally speaking, the antithesis of violence. It is a storm indeed, but a storm of murk. Soon evident are the slowed-down responses, near paralysis, psychic energy throttled back close to zero. Ultimately, the body is affected and feels sapped, drained.”
—
William Styron, Darkness Visible
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
OS BÊBADOS
“
Os bêbados das três horas da manhã, em todos os Estados Unidos, fitavam as paredes, depois de terem finalmente desistido. Não era preciso ser bêbado para se machucar, para cair sob a mira de uma mulher; mas a gente podia se machucar e se tornar um bêbado. Você podia pensar por algum tempo, sobretudo quando era jovem, que estava com sorte, e às vezes estava mesmo. Mas havia todo tipo de médias e leis em ação das quais você nada sabia, mesmo quando imaginava que tudo ia indo bem. Uma noite, uma quente noite veranil de quinta-feira, você se tornava o bêbado, você estava lá fora sozinho num quarto de aluguel barato, e por mais que tivesse visto isso antes, não adiantava, era até pior, porque você tinha pensado que não teria que enfrentar aquilo de novo. A única coisa que podia fazer era acender mais um cigarro, servir outra bebida, examinar as paredes descascadas em busca de olhos e lábios. O que homens e mulheres se faziam uns aos outros estava além da compreensão.
”
—
Charles Bukowski.
domingo, 3 de novembro de 2013
Die Moritat von Mackie Messer
Here's the original song 'Die Moritat von Mackie Messer' from the 'Threepenny opera' sung by Bertolt Brecht. He wasn't a great singer but I like it anyway. I hope you like it too and enjoy the original version!
FILME Aku No Kyôten
lição do mal é um festival de sangue e psicopatia divinamente orquestrado pelo talentosíssimo takashi miike. um filme elegante e sangrento. cheio de sequências antológicas, elegantes e violentas. um dos melhores que vi este ano. para ver, clique na imagem.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
TRECHO VIAGEM AO FIM DA NOITE
“O GRANDE CANSAÇO DA EXISTÊNCIA TALVEZ SEJA APENAS, EM SUMA, ESSE ENORME ESFORÇO QUE FAZEMOS PARA MANTERMOS VINTE ANOS, QUARENTA ANOS, MAIS, O BOM SENSO, PARA NÃO SERMOS SIMPLESMENTE, PROFUNDAMENTE NÓS MESMOS, QUER DIZER, ABJETOS, ATROZES, ABSURDOS. PESADELO TER QUE SEMPRE APRESENTAR COMO UM PEQUENO IDEAL UNIVERSAL, SUPER-HOMEM DE MANHÃ À NOITE, O SUB-HOMEM CLAUDICANTE QUE NOS DERAM.”
– LOUIS-FERDINAND CÉLINE
sábado, 26 de outubro de 2013
TRAILER The Counsellor
Promete. Principalmente por causa do autor do roteiro, um puta escritor, Cormac McCarthy.
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
Shingeki no Kyojin 進撃の巨人 OP
TRAILER CAPITÃO AMÉRICA O SOLDADO INVERNAL
Se este for realmente o tom do filme, vai ser melhor que o anterior.
