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domingo, 9 de abril de 2023

MÚSICA PARA ABAFAR O FIM DO MUNDO

José Marcelo


Acabou assim. A luz piscava.
__ Eu quero.
__ Me mostra. Quero ver. Tira tudo.
__ Tá.
__ Agora abre. Devagar.
__ Gostou?
__ Claro. Gostei muito.
__ Mas não pode tocar.
__ Ah.
__ Não pode tocar. Foi o que combinamos. Sem toque.
__ Sem toque. Tá bom. Continua. Tira.
__ Vou tirar.
__ Poxa.
__ Tá gostando?
__ Olha como eu estou.
Ela sorri. Gosta de causar esse efeito. Dá para ver em seu olhar.
Lá fora, era o fim. O mundo se desfazia. Algo que era um vislumbre no canto do olho andava lá fora. De acordo com as profecias, era inevitável. Um quadro que escorria da tela.
Dentro do quarto, ele e ela. Olhando-se. Desejando.
__ Continue.
Começara a chover. Olhe: como a chuva escorre pela janela. Uma água escura com um odor forte. Ele fechou as cortinas. Ela ficou olhando-o  enquanto ele caminhava até a janela e voltava a sentar-se na cama.
__ Não pare. Por que você parou? Não pare.
__ Vem.
__ Você disse que eu não podia.
__ Eu quero que me toque. Quero sentir você me tocando.
Alguém gritou na rua. Parecia o lamento de uma banshe. Ele levantou-se e abraçou-a.
__ Eu queria que acabasse logo __ disse ela.
__ Não vai demorar.
O grito continuava.
Ele sentiu-a tremer e percebeu que também tremia.
__ Eu não sei seu nome __ disse ele.
__ Não, nem eu sei o seu. Quer saber? O meu nome?
__ Não, não quero. Vamos para a cama.
Mas o encanto se fora. Estava nos olhos dela. Na falta de jeito dele.
As pás de um helicóptero giravam ao longe. E música. Música pata abafar o fim do mundo, ele pensou.
Eles se deitaram e ele estava ciente da nudez e da respiração dela. Quase podia ouvir o coração. Ela abriu o zíper dele.
__ Quero que você goze na minha boca.
O helicóptero passou. A música foi sumindo aos poucos.
Ele viu a jaqueta de aviador largada sobre uma cadeira e viu o vestido dela no chão.
__ Na minha boca.
Os gritos voltaram. Depois uma tosse seca e contínua. E mais gritos. Tosse. E mais nada.
Ela o chupava com  os olhos fechados. Quando ele gozou, ela sorveu-o desesperadamente.
Então ele ajoelhou-se ao lado da cama e colocou-se entre as pernas dela. Ela tinha um cheiro bom ali e ele tocou-a com a língua.
Ela olhava as manchas no teto e nas paredes. O reflexo de ambos no espelho enorme e sujo do outro lado do quarto. Ela tapou os ouvidos com o travesseiro e fechou os olhos. Algo inominável arranhava a janela na chuva.
__ Me faça esquecer __ disse ela. __ Eu não quero lembrar.
Ele ergueu-se e enfiou-se dentro dela, gemendo. Ela puxou-o e apertou-o contra si.
__ Vai, vai.
Ela apertou-o mais. Ele apertou-a.
A janela partiu-se e entrou a chuva escura e entrou aquilo que arranhara o vidro.
__ Não olhe não olhe não olhe não olhe.
A luz piscava. Claro e escuro claro e escuro. A luz apagou-se.
A pintura escorria e sob a tinta nada restou.



quinta-feira, 13 de outubro de 2022

PIERROT

José Marcelo

enfaixada

A mulher calou-se. Apertava o volante com tanta força que seus dedos estavam brancos demais, como mármore gelado.

__ O que você vai fazer? __ perguntou ela.

O homem desfigurado observava a casa nua através do pára-brisa imundo. Ele pegou a arma no porta-luvas e abriu a porta do carro com a mão enfaixada, manchada de sangue, trêmula. Saiu andando devagar pela estrada enlameada.

A mulher também desceu.

__ Isso vai dar em nada, a não ser dor __ disse ela.

A floresta à beira da estrada parecia uma mortalha, silenciosa e exalando um odor carregado, enquanto ambos se aproximavam da casa.

A mulher disse:

__ Vamos embora.

__ Não.

__ Não? Por que não?

__ Não. Só isso. Não.

__ Você quer morrer?

O homem olhou-a demoradamente, mas sem diminuir o passo, para que ela pudesse ver as cicatrizes, as marcas, a dor. Ela não pareceu abalar-se:

__ Isso não é motivo.

__ É o suficiente.

__ Eu te peço. Não faça isso. Não.

__

__ Você não tem medo?

__ Nada.

__ Como?

__ Antes eu sentia medo, raiva, vontade de chorar, um monte de coisas.  Sentimentos. Agora, agora eu não sinto nada.

__ Deixa pra lá, por favor, deixa pra lá. Esquece. Não faz isso. Eu te peço.

__ Você devia ter ficado no carro.

Ela parou. Começara a chover, uma chuva fina e fria. A chuva pesou sobre seus cabelos e ela ficou olhando o homem desfigurado entrar na casa.

Fechou os olhos e esperou pelo barulho dos tiros.

VESTIDO DE RENDA

José Marcelo

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Ela sentou-se, as mãos em feridas descansando sobre a renda clara do vestido.

__ O que aconteceu? __ perguntou o marido. Era uma pergunta sem nenhuma curiosidade: ele não se importava, não mais, talvez nunca. Ele estava parado, sem camisa, diante da janela, e ela olhou para as marcas das chicotadas nas costas dele, antigas mas suficientemente recentes para ainda doerem. Uma dor mais da alma que da carne. Ele olhou-a e repetiu a pergunta.

__ Eu estava cavando.

__ Cavando?

__ Eu queria sair. Eu não queria ficar lá, sozinha debaixo da terra.

Ele não disse nada. Entrou um vento como um uivo pela janela e o uivo fez a mulher desaparecer como areia que fora soprada.

A CORDA

José Marcelo

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Ela vestiu-se e foi embora. “Eu volto amanhã”, disse ao sair. Depois tomei um banho gelado e voltei para o quarto barato. Dormi até o sol acertar meu rosto com um calor brilhante. Olhei para o lado e lá estava ela. “Eu trouxe a corda”, disse ela, mostrando-me uma corda fina mas que serviria. “Tire a roupa”, eu disse. Deite-se aqui. De bruços. Então, amarrei suas mãos. Apertei com tanta força seus pulsos que ela ficou sem fôlego. Com a mão direita, empurrava-a sobre o colchão. Com a mão esquerda senti o calor nela. Estava úmida. Enfiei um dedo, depois dois, comecei a masturba-la. Ela gemia. Lambi meus dedos. Senti o gosto dela e tirei meu pau para fora da bermuda. Estava doendo de tão duro. Mas não era para isso que ela estava me pagando. Meu prazer não era importante. O dela era importante. Enfiei de uma vez. Eu sentia a carne quente pressionando o meu pau. Ela era apertada. Ela quase gritou. Puxei o pedaço da corda que deixara solto e enrolei no pescoço dela. “Agora”, disse ela. “Vai, vai, vai.” Apertei mais. Ela gozou. O momento exato: eu a estrangulei e ela morreu em êxtase e expelindo também urina e merda de seu corpo. Não foi uma morte limpa. Mas nunca é. Fiquei um tempo deitado em cima dela, veja só, ainda excitado. Continuei metendo nela durante algum tempo, gemendo alto e respirando forte, até gozar. Foi um orgasmo e tanto. Era a primeira vez que eu gozava dentro de uma morta. Foi maravilhoso. Dava vontade de fazer de novo. Mas ainda havia muito o que fazer. Liguei para a recepção. “Acabei”, disse. “Não demorou nada”, respondeu a voz do outro lado. Não, nada. A pessoa do outro lado desligou. Agora ela traria um saco grande de lixo. Me ajudaria a sumir com o corpo. E pronto. Mais uma cliente satisfeita.

Quem sou eu? Isso não é importante. O que eu faço? Ajudo pessoas a morrer, do jeito que elas me pedirem. Esta queria morrer durante o sexo. Algum tipo de fantasia. Eu não julgo. Eu faço o que me pagam para fazer. E é tudo.

 

  

grito

josé marcelo

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em uma hora tardia. a noite quente demais. seca demais. longa e triste. o corpo da menina deitada em uma mesa no meio da sala. parecia uma fada. dormindo dentro de um vestido branco e rodeada de flores. o leve odor ainda era o das flores, mas logo seria o da menina. de perfume à putrefação. as pessoas choravam. falavam baixo.

- ela era muito jovem.

- quinze anos.

- o que aconteceu?

- o que aconteceu?

ninguém sabia. ela fora dormir e não acordara. simples assim. Fora a mãe dela quem a encontrara. entrara no quarto para acordar a filha, atrasada para a escola. a menina nunca mais acordaria.

a mãe dela estava inconsolável, dopada, passaria pelo luto como quem passa por uma nuvem de poeira. o pai estava sentado em um canto da sala. não tirava os olhos da filha. nada dizia. ignorava a todos. não olhava, não falava com ninguém. passaria pelo luto com uma expressão impassiva e dura.

a mãe não foi ao enterro. ficou dormindo em casa. o pai pegou a pá do coveiro e cobriu a filha de terra. depois ficou sozinho, fumando e tossindo ao lado da sepultura. ficou até de noite. parecia esperar algo.

no meio da noite quente, o pai começou a desenterrar a filha. ela estava mais pálida agora. mais fria. mas continuava bela. o pai beijou-lhe a testa. pegou-a no colo.

foi o vigia do cemitério que viu a cena. depois de um tempo ele ofereceu-se para ajudar o pobre homem a enterrar novamente a menina.

o homem gritou com o vigia e acertou-o com a pá. a lâmina passou pela garganta do vigia, fez-lhe um talho de onde esguinchou sangue escuro que escorreu e cobriu-lhe todo o peito. o vigia engasgou em seu próprio sangue e morreu tossindo.

o homem então saiu do cemitério carregando a filha.

alguém chamou a polícia e ele foi preso e a menina devolvida à cova.

- fui eu, ficava repetindo o homem na delegacia. fui eu.

- foi você o quê? perguntou o delegado, já impaciente e inquieto.

- fui eu que a matei.

- você matou o vigia, nós sabemos.

- não, fui eu que matei minha filha.

-

- eu a matei.

- por quê? por que a matou?

- ela ia gritar.

o homem olhou para o delegado como se aquilo explicasse tudo.

- ela ia gritar.

sábado, 1 de outubro de 2022

SANGUE NU



1. DUELO

Enfim, a terra começara a rejeitar os mortos. Corpos putrefatos, inchados de gazes e vermes, coagulados e com rostos carregados de horror e tristeza, brotando como se fossem flores horrendas na terra úmida.

― Pelos deuses ― disse alguém nos portões do cemitério.

Lá dentro, os mortos cambaleavam e gemiam e havia orgia e banquetes; um jovem defunto se esfregava em uma mulher morta, apesar de seu pênis a muito ter caído e ela estar mais interessada em comer uma pequena flor branca que crescera inocentemente na terra nua; alguns mortos se alimentavam de outro, estirado e de entranhas à mostra. Ele gritaria se tivesse língua ou se sentisse dor.

A polícia chegou com lança-chamas e máscaras e mãos trêmulas e os portões foram abertos e a chama lambeu a carne: jatos longos e esganiçados de fogo sobre corpos que se negavam a parar. Não demorou muito. Logo o cemitério era uma enorme fogueira e o cheiro de carne podre e torrada ergueu-se no vento salgado e misturou-se ao sabor do mar.

Da minha janela eu podia ver tanto o mar calmo como a chama inquieta dos mortos; eu podia ouvir os gritos e o horror. Talvez os mortos sentissem dor afinal.

Sentei-me diante da janela e comecei a limpar minha espada; eu a queria perfeita para o duelo do dia seguinte. Aquela era, portanto, a minha última noite em vida. Talvez.

Bateram na porta.

― Entre, seja quem for, eu disse.

― Então é verdade, disse Katerina.

― É, respondi eu. ― É sempre verdade, não importa no que acreditemos.

― Não se faça de engraçado. Não acredito que vá fazer isto, um duelo ao amanhecer. Isso é estupidez.

― Defenderei a sua honra.

― Não seja tolo. Sou prostituta, esqueceu? Sei por que faz isso.

― Não é preciso, no entanto, que o digam como ofensa. Por quê?

― Pelo amor à espada.

― Pode ser. De qualquer modo amanhã poderei estar morto. Não deveria me dar algo mais que uma bronca?

Mas ela já se sentara à cama e começara a despir-se.

― Vou te deixar tão exausto que amanhã desistirá de lutar.

― Você me subestima, disse eu, largando a espada e também deixando minha roupa pelo chão a caminho da cama.

Nua, Katerina abriu suavemente as pernas e então disse:

― Beije-me. Aqui.

Eu vi o morto cambalear lá fora; ouvi seus passos errantes; senti seu odor adocicado; e cortei sua cabeça com um golpe de espada vuuump que a jogou onde ela continuou gemendo. Olhei dentro de casa e vi Katerina dormindo. Encolhida entre as cobertas, sua pela muito branca e seus cabelos muito negros, ela parecia pura como uma virgem, inocente como uma menina. Eu quase a amei naquele instante. Então o sol começou a surgir e seu reflexo tornou o mar um grande espelho onde pairavam as nuvens e a fumaça que ainda se erguia do cemitério na colina. O ronco de um motor. De algum lugar, se aproximava um carro.

― Pois os mortos cavalgam céleres, eu disse e me espantei. Onde ouvira ou vira aquelas palavras?

O carro subiu pela colina e parou diante da casa. Era a hora.

continua

sábado, 5 de fevereiro de 2022

A GLÓRIA DA PUTA

josé marcelo

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O primeiro cliente foi um garoto de 16 ou 17 anos, mas, claro, ele mentiu que tinha 18. Não que eu me importasse. Ele queria me chupar. Não tinha habilidade nenhuma com a língua, mas eu gemi como se ele fosse o melhor chupador do mundo. Depois foi um homem com uma só perna. O pau dele era enorme e ele nunca gozava. Depois dele veio um avô, um velho com uma barba branca longa. Ele se parecia com Papai Noel. Ele gostava só de anal. Logo após o velho, um outro cliente… ele… ele me maltratou e eu fiquei muito puta, irritada de verdade. Eu disse a ele, “você nunca mais deve voltar aqui, nunca mais mesmo”. A noite continuou. Depois disso, um grupo, não sei, talvez 10 clientes, todos juntos dessa vez…

adaptado de um trecho do documentário Whores’ Glory.

domingo, 22 de agosto de 2021

FELIZES

José Marcelo

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Agora. Agora fudeu. Ela estava nua ao lado da cama, puta da vida porque eu não disse o que ela queria ouvir. Queria o quê? Que eu mentisse? Ela não disse. Pegou a sandália e acertou meu rosto com o salto. Porra, doeu pra caralho. Porra porra porra porra. Sangrou pra caralho. Sentei na cama. Que porra, eu disse. Ficou maluca? O sangue escorria entre meus dedos. Levantei-me e corri até o banheiro. Tentei fazer um curativo. Não ficou bonito, mas pelo menos parou de sangrar. Meu rosto no espelho parecia deformado. Então era assim que eu parecia? Pelo menos era assim que eu me sentia. Quando sai do banheiro, ela havia ido embora.

No dia seguinte, ela me ligou. Não me ligue mais, ela disse. Desligou. Claro, que se foda. De noite, sai com uns amigos. Estava no bar, bebendo, e ela aparece acompanhada de um sujeito lá. Os outros me olharam, esperando minha reação. O que eles queriam? Fiquei puto, não porque ela estava em outra. Fiquei puto porque todos achavam que eu me importava. De qualquer modo, fui pra casa mais cedo, com todos pensando que eu estava com ciúmes.

Lá pelo meio da madrugada, ela me ligou. Tou dormindo, porra, eu disse.

Eu não fui embora com ele, disse ela.

Eu não disse nada.

Ela continuou, sai com ele só pra te fazer ciúmes. Ficou com ciúmes?

Me deixa dormir, eu disse, e desliguei. Tirei o telefone do gancho, só para ter certeza de uma noite tranquila. Mas provavelmente ela não tornou a ligar.

De manhã cedo, acordo e lá está ela do lado da cama, me olhando com uma expressão que me deixou inquieto.

O que foi? perguntei.

A gente não pode terminar, disse ela.

Tá maluca? Você que terminou comigo. Agora quer voltar? Não.

Tem certeza? Ela fez aquela cara de safada que sabe que me excita. Deixa pelo menos eu ver esse corte, disse. Não seja criança.

Não. Vá embora. Tchau.

Ela me olhou magoada. Pensei que ia tirar a sandália (de novo) e me acertar (de novo). Mas apenas saiu do quarto, batendo a porta.

Aí – aí fudeu mesmo. Levei um susto. A porta abriu-se com um ribombar estrondoso. Ela veio pra cima de mim com uma faca enorme. Então, eu te mato, disse ela. Antes que eu pudesse ao menos me encolher de maneira digna, ela me acertou.

(Segundo o relatório policial, foram quarenta e sete perfurações. A cama deve ter ficado uma bagunça.)

Depois que eu morri, ela me arrastou até a varanda, me colocou em uma cadeira de praia e ficou do meu lado. Olhe que sol lindo que tá hoje, disse ela, ainda segurando a faca suja de sangue. Como se eu pudesse ver, mesmo depois dela ter me arrancado os olhos. Eu, por minha vez, empapava o chão de vermelho. Ela pegou minha mão e sorriu.

De longe, parecíamos mesmo um casal de namorados relaxando um ao lado do outro em inegável prazer. De longe, parecíamos felizes.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

dora dorinha

José Marcelo


Veludo Azul de madrugada na tv e uma garrafa de vinho vagabundo pela metade.
__ Isso não ia dar em boa coisa mesmo __ como diria Dorinha com aquele sorriso safado que ela sabe dar tão bem.
Mas ela não está aqui. É. Nada de Dorinha tirando a roupa e tocando o bico de um dos seios:
__ Me beija. Aqui.
Aqui só o Veludo e o vinho.
E ele – velho, barrigudo, sozinho na madrugada de sábado para domingo. De novo pensando em morrer. Não em se matar. Apenas em morrer.
Mas na tv: A candy-colored clown they call the sandman tiptoes to my room every night just to sprinkle stardust and to whisper go to sleep.
Dorinha.
Eles tiveram bons momentos juntos. Muitos bons momentos. Momentos felizes. Dias e noites.
Felizes, Dorinha, felizes.
Mas agora, ele não está mais feliz. Muito menos ela. Ela nunca mais vai estar. Morta. Dorinha morta. Dorinha morta e enterrada. Sepultada.
A candy-colored clown they call the sandman tiptoes to my room every night just to sprinkle stardust and to whisper go to sleep.
Mas ele não consegue dormir. O sono não vem. Desconfia que nunca mais.
A candy-colored clown they call the sandman tiptoes to my room every night just to sprinkle stardust and to whisper go to sleep.
Quando percebe, já vestiu uma roupa qualquer, já saiu pela rua, já chegou no cemitério e já está no cemitério, já está diante da sepultura dela e já está chorando.
Quando se dá por si, já tirou o pau para fora e começou a masturbar-se. Ele se ajoelha sobre a terra fofa da sepultura e o contato daquela terra o faz lembrar do contato macio de Dora. Ele não demora a gozar. Um filete branco e longo que se espalha em um prazer grande demais e que o faz estremecer.
Ele quase pode ouvi-la:
__ Que gostoso, meu amor, que gostoso.


terça-feira, 23 de março de 2021

segunda-feira, 1 de março de 2021

TOQUE-ME

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Foi o que ela fez. Ela apenas tocou a amiga. Ela apenas beijou-a. A amiga entendeu errado. A amiga apaixonou-se. Claro que não poderia acabar bem.


domingo, 28 de fevereiro de 2021

TANTAS FLORES

josé marcelo

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Todas aquelas borboletas voando ao meu redor e o perfume maravilhoso de tantas flores e eu olho para um céu azul onde pairam nuvens suaves...

Tudo bonito e tranquilo...

Quer dizer que eu morri em um jardim?

Por que nada disso me serve de consolo enquanto meu corpo começa a apodrecer?


sábado, 27 de fevereiro de 2021

GANSU NU

José Marcelo


Eu costumava acordar babando numa sala fria que tinha cheiro de mijo e merda. Eu me levantava e cambaleava até a janela gradeada. Eu gostava de ficar olhando as nuvens que tinham formas bizarras e a cor do céu que para mim sempre lembrou desespero e outra coisa que não gosto de lembrar. Eu gritava à noite e chorava e balançava o corpo de dia. Em meus melhores dias eu simplesmente ficava parado no meio da sala, sem me importar com os ecos e risos e choros e esbarrões dos outros. Em meus piores dias eu era amarrado em uma cama velha e sedado. Eu sonhava com uma mulher muito alta e muito bela que me deixava em êxtase e aterrorizado – depois eu acordava molhado e com marcas nos pulsos e tornozelos. Durante um tempo eu fui um louco e indigente internado em um hospício e durante um tempo parecia que seria assim para sempre. E durante muito tempo foi.

Mas para sempre é tempo demais e um dia eu fui declarado curado e colocado em um ônibus.

Saltei na última parada e estava chovendo. Havia um bar do outro lado da rua – o nome GANSO NU pintado na vidraça – e pisei em poças úmidas e corri até entrar em seu interior razoavelmente seco. Lá dentro estava abafado, embora chovesse, abafado como em um forno. Um velho ventilador girava como se fosse cair do teto de metal onde a chuva batia com força. O bar estava vazio. Eu me sentei em um canto. Enfiei a mão no bolso de onde tirei um punhado de notas amassadas. Não era muito, apenas o suficiente para uma semana, se eu economizasse bastante.

Uma garota de quinze ou quatorze anos apareceu ao meu lado e perguntou o que eu desejava. Ela sorria. Logo eu descobriria que sorrir para ela era algo tão natural como, não sei, respirar talvez. Eu olhei desanimado para meu dinheiro bagunçado e tentei sorrir. Acho que ela percebeu meu embaraço, porque disse, o prato do dia é bem barato. Eu, ah tudo bem. Ela, eu não demoro. E afastou-se.

Sobre o balcão havia um enorme pintura mal feita de um ganso com palavras tão apagadas entre suas pernas que praticamente ninguém poderia ler. Havia uma prateleira com garrafas de tantas cores que eu não reconheci muitas delas. Atrás do balcão, um homem com um pano cobrindo a cabeça lavava copos de costas para mim.

Alguém entrou, um sujeito de sobretudo, chapéu e barba rala, e sentou-se ao balcão. Eu vou beber um desses seus vinhos incrivelmente ruins, disse ele. Um homem inquieto, estendeu ambas as mãos abertas sobre o balcão, sorrindo muito, olhando ao redor, me vendo e sorrindo. Tirou o chapéu, exibindo uma cabeça raspada. Como vai, meu chapa?

Eu, Como?

Ele, perguntei como vai. Não precisa responder, tudo bem. Chuva dos diabos, não?

A menina voltou (o homem com o pano na cabeça continuava lavando copos e ignorando as pessoas ao redor). A menina perguntou, o que vai querer, senhor?

Ele virou-se para ela. Um vinho, disse, qualquer vinho. Sei que vou detestar de qualquer jeito.

Ora, você não pode ter tanta certeza.

Sim, posso, respondeu ele. Acredite em mim.

Qualquer um?

É. Qualquer um. Aquele com o pirata seria bom.

Hein?

Qualquer um.

A menina serviu-lhe uma dose. Deixe a garrafa, disse ele.

Ela deixou a garrafa e virou-se para mim. Não demora agora, disse ela. E voltou para a cozinha.

O careca tornou a encher o copo. Desviei o olhar. A menina trouxe o prato do dia e um refrigerante. Mas não afastou-se. Eu o conheço?

Eu, duvido. Desculpe.

Ela, é. Eu sou Cristina.

Eu, Mérimée.

Ela, Mérimée? Nome engraçado. Bem, vou deixá-lo em paz.

Está tudo bem.

Ela assentiu e voltou a desaparecer.

O careca disse, uma gracinha, hein? Linda.

Ignorei-o e comecei a comer. Estava com mais fome do que imaginara.

O careca sentou-se diante de mim. Não se lembra de mim? disse ele. Não, não, não se lembra. Se se lembrasse, não estaria tão calmo, certo?

Larguei o garfo. Muito bem, disse eu. Quem é você?

Puta merda. Você não se lembra mesmo. Assim não vai ter graça.

O que não vai ter graça?

Quando eu te matar.

Cai fora, lunático. Eu estava perdendo a paciência.

Ei, não é justo. Não era eu que estava internado na casa dos loucos. Bem…

O careca deu de ombros e colocou a pistola sobre a mesa. Ouvi um grito de susto. Era a menina, os olhos fixos na arma.

Sem olhar para ela, o careca disse, ei, menina bonita, por que você e o esquisito ai não vão para a cozinha e ficam por lá. Isso não é com vocês.

Quando o sujeito largou os copos na pia (eu o imaginara com uma expressão indiferente, mas agora ele parecia praticamente aterrorizado) e empurrou a menina para a cozinha, o careca acrescentou, estou num daqueles dias de ser bonzinho. Mas não se anime. Não vou ser bonzinho com você. Coma.

Perdi o apetite.

Não seja tolo. É sua última refeição.

Não, obrigado.

Hunf. Ele coça a cabeça, torna a me olhar. Hora da história, então. Mãos na mesa, anda, não vai fazer besteira agora.

Eu não preciso saber.

Eu preciso que você saiba.

Não faz diferença para mim.

Para mim faz. Para mim faz muita diferença.

Eu me levanto.

O que está fazendo? ele pergunta.

Se vai atirar, faça logo.

Hunf.

O barulho da chuva havia silenciado. Havia apenas o ventilador, girando e estalando.

Então tá, disse o careca. E atirou em mim.

Sabe, eu te segui desde a porra do hospício, disse ele. Imaginei que teríamos uma longa conversa. Eu lhe diria quem sou. Contaria o que você fez. Te mataria. Iria para casa e comemoraria. Simples. Mas você tinha que ser mal educado e estragar tudo.

Ele falava e eu estava estirado no chão, sangrando.

Ele continuou, puta que pariu, velho. Puta que pariu. Está certo. Isso já se prolongou demais. Não quis comer sua última refeição. Não quis ouvir minha história. Vai pelo menos dizer suas últimas palavras?

Eu cuspi sangue, me virei e tentei erguer-me. Não consegui. Eu comecei a arrastar-me, deixando um rastro vermelho. O careca caminhava sem pressa atrás de mim.

Isto é por Lara, disse ele. Este nome te diz alguma coisa? Lara. Lara. Nada?

Eu lembrei de uma mulher linda olhando a lua lá fora. Uma lua vermelha em uma noite quente. Ela virando-se para mim, meio trêmula, assustada, perguntando, eu vou ficar bem?

Eu vou ficar bem?

Sim, eu menti, não se preocupe.

O careca, agora, apontando a arma para minha nuca e sorrindo ao ver a expressão em meu rosto. Você se lembra.

Quem… era… ela?

Ele não responde. Apenas atira.


 


sábado, 23 de janeiro de 2021

A MULHER INSECTO

José Marcelo
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Ela disse Eu não estou com medo. Eu te amo. Eu não tenho medo.
Eu disse Me mostra a língua me beija.
Ela disse Só se você fizer aquilo.
Eu disse Aquilo o quê.
Ela disse Aquilo que me faz gozar.
Eu disse Primeiro me beija.
Ela disse Promete.
Eu disse Prometo.
Ela me beijou. Eu a fiz gozar. Também gozei.
Então, uma vez cumprida a promessa, a matei. Estrangulei-a com minhas mãos, enquanto lá fora o trem passava, ruidoso demais, fazendo tudo estremecer levemente.
Depois observei-a, estirada sobre a cama, as pernas levemente abertas, a vagina ainda úmida e vazando meu sêmen, linda e perfeita. Minha irmã morta.
Fui até a cozinha e peguei uma faca e cortei a língua da minha irmã e guardei a língua na geladeira.
Naquela noite tornei a sonhar com baratas que voavam e pousavam em meu prato e eu as comia com um enorme sorriso de satisfação.
Enterrei minha irmã em uma cova no quintal. Fiz um belo jardim sobre a terra morta. Muitas flores de muitas cores.


domingo, 17 de janeiro de 2021

KIMONO

José Marcelo

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Como uma boneca de linda porcelana: pele suave e olhos sinceros. Ela me seduziu sem palavras; despiu-se do kimono colorido e esqueceu-se de todo pudor.

♂ ♀ ou não.


sábado, 16 de janeiro de 2021

PORNOGRAFIA ASIÁTICA

José Marcelo

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De-repente a puta meio china disse:

– Pagamento adiantado, meu bem.

- E se eu não gostar?

- Garanto que te faço gozar. Não é isso que tu quer?

- Gozar por gozar eu gozo com minha mão, que é de graça e tudo o mais.

- Você quem sabe.

- Eu que sei. Tá caro, hein. Não rola um desconto não?

- Não. Sabe como é, cara. Eu tenho que me valorizar.

- Como assim se valorizar? Você é uma puta.

- Ei, velho, essa é só minha profissão. Não quem eu sou.

- E quem é você?

- Pra descobrir isso você tem que gastar muito mais.

- Não vai rolar. Eu fico só com a trepada. O que você faz?

- Sem beijo na boca, taras estranhas ou essas porras sadomasô e violentas…

- E anal?

- Anal é por fora. No anal você pode gozar dentro.

- Parece bom.

- Eu sou boa.

- Quanto?

Ela disse. Em valores.

- Muito boa então.

- Eu garanto.

- Mesmo?

- Não sou boba. Sei que cliente satisfeito volta.

- Garota esperta.

- Fala baixo.

As freiras passaram pelo corredor entre os bancos de madeira. Eu tinha entrado na igreja porque estava com dor de cabeça e um bocado cansado. Precisava de uns minutos de sossego. Não sou religioso nem nada disso. Mas gosto da tranquilidade dentro das igrejas, apesar dos inúmeros santos com expressão de sofrimento que encontramos em todas elas. Acho que a puta me viu assim que entrei e veio atrás.

- Noite fraca? – perguntei.

- É o meio da semana no meio do mês. Sempre é fraco. E aí, tá a fim ou não?

- Tou. Tem um lugar…?

- Tem um hotelzinho aqui perto.

- Prefiro na minha casa.

- E onde é?

- Aqui perto também.

- Como nunca te vi por aqui?

- É num hotelzinho. Vai ver é o mesmo.

- Tá só de passagem?

- Isso. Só de passagem. Você é chinesa?

- Japonesa. Meio. É bem diferente.

- Desculpe.

- Vamos então.

Dei uma olhada no Cristo sofrendo pregado na cruz atrás do altar.

- Você na frente, querida.

E saímos da igreja sob o olhar do Senhor: a puta jovenzinha e o velho depravado.


quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

VULGO VUGAR

José Marcelo
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Queria ser outra. Diferente. Nada recatada. Meio puta que nada! Putona. Dessas que dão para todo mundo e não cobram nada. Dessas para uma rapidinha encostada no muro. Uma chupada dentro do carro. De joelhos, com o pau de qualquer um na boca. De quatro e levando por trás. Na bunda! Será que dói? Ouviu dizer que dói, mas que também é bom. Gemendo e gozando e ficando mal falada por aí. Não importa. Tem inveja dessas mal faladas. São procuradas. São desejadas. Fodem direto. Quando querem e como querem. Não ficam só na siririca, que nem ela. Vulgares mas realizadas, pensava ela.
Pensava essas coisas, sentada no banco de madeira dura, ficando meio molhada, não podia evitar – enquanto lá na frente o pastor pregava contra os pecados da carne:
– Impuras, sujas, imundas, pessoas pecadoras que arderão no inferno, todas elas!
É verdade, ela pensava, mas de que vale a carne se não pode ser aproveitada.
Depois desse dia, ela caiu na putaria. Ficou mal falada. E se lhe perguntassem, diria que nunca antes fora tão feliz.