domingo, 16 de maio de 2021

Para ler: A VEGETARIANA



A Vegetariana, livro escrito por Han Kang. Já li duas vezes. No mesmo ano. Este livro tem tudo que me agrada: a estranheza, o erotismo, os personagens cruéis e ambíguos. A história instigante. As imagens que evocam são a um tempo terríveis e belas. Han Kang é uma autora a se prestar muita atenção. Livraço.

 

Sinopse oficial: A vegetariana, romance perturbador e único, tem sido apontado como um dos livros mais importantes da ficção contemporânea – e uma introdução à fecunda literatura produzida na Coreia do Sul.

“…Eu tive um sonho”, diz Yeonghye, e desse sonho de sangue e escuros bosques nasce uma recusa vista como radical: deixar de comer, cozinhar e servir carne. É o primeiro estágio de um desapego em três atos, um caminho muito particular de transcendência destrutiva que parece infectar todos aqueles que estão próximos da protagonista. A vegetariana conta a história dessa mulher comum que, pela simples decisão de não comer mais carne, transforma uma vida aparentemente sem maiores atrativos em um pesadelo perturbador e transgressivo. Narrado a três vozes, o romance apresenta o distanciamento progressivo da condição humana de uma mulher que decidiu deixar de ser aquilo que marido e família a pressionaram a ser a vida inteira. Este romance de Han Kang tem sido apontado como um dos livros mais importantes da ficção contemporânea. Uma história sobre rebelião, tabu, violência e erotismo escrita com a clareza atordoante das melhores e mais aterradoras fábulas. Esta tradução, diretamente do coreano, restitui o estranhamento da obra original.

 

Para ler, clique na foto/ imagem ou aqui.


A CARONA ACABOU


__ Olhe, eu acho que é melhor você sair... A carona acabou.

__ Eu vou ficar sentado aqui... e você vai continuar dirigindo.

 


Um simples diálogo: tensão a cada frame. Quer aprender a escrever/ dirigir um filmaço de suspense? Assista: A Morte Pede Carona/ The Hitcher (1986), dirigido por  Robert Harmon.

 

Le tease à Venise (Selfie in a city by the sea)

Por © Apollonia Saintclair


 

foder – foder não

 


Hoje ninguém lê livros, todo mundo tem coisas melhores e mais fáceis para fazer, ver televisão, andar de carro, cheirar cocaína, fumar maconha, tomar uísque, falar no celular, mandar mensagem no WhatsApp, foder – foder não, ninguém mais fode, quem quer ter filho faz inseminação artificial. Foder saiu de moda. ~ Rubem Fonseca




SOB O CÉU AZUL DE LOS ANGELES


The Limey (O Estranho) é um filme de 1999dirigido por Steven Soderbergh, com roteiro de Lem Dobbs e atuações de Terence Stamp, Lesley Ann Warren, Luis Guzmán, Barry Newman, e Peter Fonda, onde um criminoso britânico recém-libertado vai para Los Angeles vingar a morte da filha com a ajuda de um comparsa.

Nada de novo, porém Soderbergh é talentoso o suficiente para tirar um algo mais de uma história tão batida. Mas o show é mesmo de Stamp. Cara, que puta ator. 

 

小嶋陽菜


sábado, 15 de maio de 2021

VERGONHOSA

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pecados de guerra

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OU O PROMETEU MODERNO


Frankenstein, no traço fodástico de Bernie Wrightson.

 

SANGUE ERRANTE

JAMES ELLROY


Los Angeles, 24/2/1964



De repente:



O caminhão de leite fez uma curva fechada à direita e raspou  o meio-fio. O motorista perdeu a direção. Pisou no freio em pânico. Causou uma derrapagem de traseira. Um carro blindado da Wells Fargo bateu no caminhão de leite de frente/lado.

Ouve só isso:

7h16. Sul de L.A., esquina da 84 com a Budlong. Área residencial para negros. Casebres desprezíveis com terrenos cobertos de sujeira na frente.

O choque fez os dois veículos pararem. O motorista do caminhão de leite bateu no painel. A porta do lado do motorista se escancarou. O motorista tombou e bateu na calçada. Era um negro com cerca de 40 anos.

O carro blindado ficou com alguns amassados no capô. Três guardas saíram para verificar os estragos. Eram brancos com uniformes cáqui apertados. Usavam cintos Sam Browne com coldres fechados com botões de pressão.

Ajoelharam-se ao lado do motorista do caminhão de leite. O cara estremeceu e ofegou. A pancada no painel tinha aberto um talho na testa. Sangue pingava nos seus olhos.

Ouve só isso:
7h17. Céu nublado de inverno. Rua calma. Sem tráfego de pedestres. Sem burburinho provocado pela batida de carro, ainda.

O  caminhão  de  leite  arfou. O  radiador  estourou. Uma  nuvem de vapor sibilou e se espalhou até longe. Os guardas  tossiram e enxugaram os olhos. Três homens saíram de um Ford 62 parado mais atrás.

Usavam máscaras  e  luvas. Calçavam  sapatos  com  solas  de borracha. Usavam cintos carregando bombas de gás em bolsas pequenas. Usavam blusas de manga comprida abotoadas. A cor
da pele estava oculta.

O vapor os cobria. Andaram e sacaram armas com silenciadores. Os guardas tossiram. Isso forneceu cobertura sonora. O motorista do caminhão de leite sacou uma arma com silenciador e atirou na cara do guarda mais próximo.

O  som  foi uma pancada  surda. A  testa do guarda explodiu. Os  outros  dois  guardas  tentaram  sacar  as  pistolas. Os mascarados atiraram neles pelas costas. Estremeceram e tombaram para a  frente. Os mascarados atiraram na cabeça dos dois, à queima-roupa. Os estampidos e o estalar dos crânios
soaram abafados.

São 7h19. Ainda está silencioso. Ainda não há tráfego de pedestres ou burburinho causado pelo acidente de carro.

Barulho agora — dois tiros mais ecos altos. Fogo saindo dos canos, formas estranhas, estampidos vindo das fendas para armas do carro blindado.

Os tiros ricochetearam no pavimento. Os mascarados e o motorista do  caminhão de  leite  se  levantaram. Rolaram na direção do carro blindado. Isso atrapalhava o ângulo de tiro. Mais quatro disparos soaram. Quatro mais dois — uma carga de revólver.

O Mascarado 1 era  alto  e magro. O Mascarado 2 tinha estatura mediana. O Mascarado 3 era pesadão. São 7h20. Ainda não há tráfego de pedestres. Um grande dirigível no céu puxava flâmulas de uma loja de departamento.

O Mascarado 1 se levantou e correu para baixo da fenda para arma do blindado. Pegou uma bomba de gás na bolsa e arrancou a  tampa. A  fumaça se espalhou. Ele enfiou a bomba na  fenda. O guarda lá dentro berrou e teve ânsias de vômito, fazendo um muito barulho. A porta de trás se escancarou. O guarda pulou e caiu de joelhos no pavimento. Sangrava pelo nariz e pela boca. O Mascarado 2 atirou duas vezes na cabeça dele.

O motorista do caminhão de leite pôs uma máscara de gás. Os mascarados puseram máscaras de gás por cima das máscaras. O gás saía pela porta traseira. O Mascarado 1 pegou mais uma bomba de gás e jogou lá dentro.

A  fumaça  explodiu  e  se  acomodou,  formando  uma  névoa ácida — vermelha, cor-de-rosa, transparente. Começou um burburinho na rua. Há alguns curiosos nas janelas, algumas portas abertas, algumas pessoas de cor nas varandas.

São 7h22. A fumaça se dispersou. Não há um segundo guarda dentro.

E eles entram. (...)






AZUL PERFEITO

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Perfect Blue, do saudoso Satoshi Kon.

 


BELA MAYU WATANABE

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Continua aqui:  https://anciao.tumblr.com/

O HULK DE ROSS


 

TIRED, DEPRESSED, 1962


'L'Eclisse / Eclipse', dirigido por Michelangelo Antonioni / 1962.



PENÉLOPE

Dalton Trevisan




Naquela rua mora um casal de velhos. A mulher espera o marido na varanda, tricoteia em sua cadeira de balanço. Quando ele chega ao portão, ela está de pé, agulhas cruzadas na cestinha. Ele atravessa o pequeno jardim e, no limiar da porta, beija-a de olho fechado.


Sempre juntos, a lidar no quintal, ele entre as couves, ela no canteiro de malvas. Pela janela da cozinha, os vizinhos podem ver que o marido enxuga a louça. No sábado, saem a passeio, ela, gorda, de olhos azuis e ele, magro, de preto. No verão, a mulher usa um vestido branco, fora de moda; ele ainda de preto. Mistério a sua vida; sabe-se vagamente, anos atrás, um desastre, os filhos mortos. Desertando casa, túmulo, bicho, os velhos mudam-se para Curitiba.


Só os dois, sem cachorro, gato, passarinhos. Por vezes, na ausência do marido, ela traz um osso ao cão vagabundo que cheira o portão. Engorda uma galinha, logo se enternece, incapaz de mata-la. O homem desmancha o galinheiro e, no lugar, ergue-se caco feroz. Arranca a única roseira no canto do jardim. Nem a uma rosa concede o seu resto de amor.




Além do sábado, não saem de casa, o velho fumando cachimbo, a velha trançando agulhas. Até o dia em que, abrindo a porta, de volta do passeio, acham a seus pés uma carta. Ninguém lhes escreve, parente ou amigo no mundo. O envelope azul, sem endereço. A mulher propõe queimá-lo, já sofridos demais. Pessoa alguma lhes pode fazer mal, ele responde.


Não queima a carta, esquecida na mesa. Sentam-se sob o abajur da sala, ela com o tricô, ele com o jornal. A dona baixa a cabeça, morde uma agulha, com a outra conta os pontos e, olhar perdido, reconta a linha. O homem, jornal dobrado no joelho, lê duas vezes cada frase. O cachimbo apaga, não o acende, ouvindo o seco bater das agulhas. Abre enfim a carta. Duas palavras, em letra recortada de jornal. Nada mais, data ou assinatura. Estende o papel à mulher que, depois de ler, olha-o. Ela se põe de pé, a carta na ponta dos dedos.


— Que vai fazer?


— Queimar.


Não, ele acode. Enfia o bilhete no envelope, guarda no bolso. Ergue a toalhinha caída no chão e prossegue a leitura do jornal.


A dona recolhe a cestinha, o fio e as agulhas.


— Não ligue, minha velha. Uma carta jogada em todas as portas.


O canto das sereias chega ao coração dos velhos? Esquece o papel no bolso, outra semana passa. No sábado, antes de abrir a porta, sabe da carta à espera. A mulher pisa-a, fingindo que não vê. Ele a apanha e mete no bolso.


Ombros curvados, contando a mesma linha, ela pergunta:


— Não vai ler?


Por cima do jornal admira a cabeça querida, sem cabelo branco, os olhos que, apesar dos anos, azuis como no primeiro dia.


— Já sei o que diz.


— Por que não queima?


É um jogo, e exibe a carta: nenhum endereço. Abre-a, duas palavras recortadas. Sopra o envelope, sacode-o sobre o tapete, mais nada. Coleciona-a com a outra e, ao dobrar o jornal, a amiga desmancha um ponto errado na toalhinha.




Acorda no meio da noite, salta da cama, vai olhar à janela. Afasta a cortina, ali na sombra um vulto de homem. Mão crispada, até o outro ir-se embora.


Sábado seguinte, durante o passeio, lhe ocorre: só ele recebe a carta? Pode ser engano, não tem direção. Ao menos citasse nome, data, um lugar. Range a porta, lá está: azul. No bolso com as outras, abre o jornal. Voltando as folhas, surpreende o rosto debruçado sobre as agulhas. Toalhinha difícil, trabalhada havia meses. Recorda a legenda de Penélope, que desfaz a noite, à luz do archote, as linhas acabadas no dia e assim ganha tempo de seus pretendentes. Cala-se no meio da história: ao marido ausente enganou Penélope? Para quem trançava a mortalha? Continuou a lida nas agulhas após o regresso de Ulisses?


No banheiro fecha a porta, rompe o envelope. Duas palavras... Imagina um plano? Guarda a carta e dentro dela um fio de cabelo. Pendura o paletó no cabide, o papel visível no bolso. A mulher deixa na soleira a garrafa de leite, ele vai-se deitar. Pela manhã examina o envelope: parece intacto, no mesmo lugar. Esquadrinha-o em busca do cabelo branco — não achou.


Desde a rua vigia os passos da mulher dentro de casa. Ela vai encontra-lo no portão — no olho o reflexo da gravata do outro. Ah, erguer-lhe o cabelo da nuca, se não tem sinais de dente... Na ausência dela, abre o guarda-roupa enterra a cabeça nos vestidos. Atrás da cortina espiona os tipos que cruzam a calçada. Conhece o leiteiro e o padeiro, moços, de sorrisos falsos.


Reconstitui os gestos da amiga: pós nos móveis, a terra nos vasos de violetas úmida ou seca... Pela toalhinha marca o tempo. Sabe quantas linhas a mulher tricoteia e quando, errando o ponto, deve desmanchá-lo, antes mesmo de contar na ponta da agulha.


Sem prova contra ela, nunca revelou o fim de Penélope. Enquanto lê, observa o rosto na sombra do abajur. Ao ouvir passos, esgueirando-se na ponta dos pés, espreita à janela: a cortina machucada pela mão raivosa.


Afinal compra um revólver.


— Oh, meu Deus... Para quê? — espanta-se a companheira.


Ele refere o número de ladrões na cidade. Exige conta de antigos presentes. Não fará toalhinhas para o amante vender? No serão, o jornal aberto no joelho, vigia a mulher — o rosto, o vestido — atrás da marca do outro: ela erra o ponto, tem de desmanchar a linha.


Aguarda-o na varanda. Se não a conhecesse, ele passa diante da casa. Na volta, sente os cheiros no ar, corre o dedo sobre os móveis, apalpa a terra das violetas — sabe onde está a mulher.


De madrugada acorda, o travesseiro ainda quente da outra cabeça. Sob a porta, uma luz na sala. Faz o seu tricô, sempre a toalhinha. É Penélope a desfazer na noite o trabalho de mais um dia?


Erguendo os olhos, a mulher dá com o revólver. Batem as agulhas, sem fio. Jamais soube por que a poupou. Assim que se deitam, ele cai em sono profundo.


Havia um primo no passado... Jura em vão, a amiga: o primo aos onze anos morto de tifo. No serão ele retira as cartas do bolso — são muitas, uma de cada sábado — e lê, entre dentes, uma por uma.


Por que não em casa no sábado, atrás da cortina, dar de cara com o maldito? Não, sente falta do bilhete. A correspondência entre o primo e ele, o corno manso; um jogo, onde no fim o vencedor. Um dia tudo o outro revelará, forçoso não interrompê-la.


No portão dá o braço à companheira, não se falam durante o passeio, sem parar diante das vitrinas. De regresso, apanha o envelope e, antes de abri-lo, anda com ele pela casa. Em seguida esconde um cabelo na dobra, deixa-o na mesa.


Acha sempre o cabelo, nunca mais a mulher decifrou as duas palavras. Ou — ele se pergunta, com nova ruga na testa — descobriu a arte de ler sem desmanchar a teia?


Uma tarde abre a porta e aspira o ar. Desliza o dedo sobre os móveis: pó. Tateia a terra dos vasos: seca.


Direto ao quarto de janelas fechadas e acende a luz. A velha ali na cama, revólver na mão, vestido brando ensangüentado. Deixa-a de olho aberto.


Piedade não sente, foi justo. A polícia o manda em paz, longe de casa à hora do suicídio. Quando sai o enterro, comentam os vizinhos a sua dor profunda, não chora. Segurando a alça do caixão, ajuda a baixá-lo na sepultura; antes de o coveiro acabar de cobri-lo, vai-se embora.


Entra na sala, vê a toalhinha na mesa — a toalhinha de tricô. Penélope havia concluído a obra, era a própria mortalha que tecia — o marido em casa.


Acende o abajur de franja verde. Sobre a poltrona, as agulhas cruzadas na cestinha. É sábado, sim. Pessoa alguma lhe pode fazer mal. A mulher pagou pelo crime. Ou — de repente o alarido no peito — acaso inocente? A carta jogada sob outras portas... Por engano na sua.


Um meio de saber, envelhecerá tranqüilo. A ele destinadas, não virão, com a mulher morta, nunca mais. Aquela foi a última — o outro havia tremido ao encontrar porta e janela abertas. Teria visto o carro funerário no portão. Acompanhado, ninguém sabe, o enterro. Um dos que o acotovelaram ao ser descido o caixão — uma pocinha d’água no fundo da cova.


Sai de casa, como todo sábado. O braço dobrado, hábito de dá-lo à amiga em tantos anos. Diante da vitrina com vestidos, alguns brancos, o peso da mão dela. Sorri desdenhoso da sua vaidade, ainda morta...


Os dois degraus da varanda — “Fui justo”, repete, “fui justo” —, com mão firme gira a chave. Abre a porta, pisa na carta e, sentando-se na poltrona, lê o jornal em voz alta para não ouvir os gritos do silêncio. 




Texto extraído do livro "Vozes do Retrato", Editora Agir, São Paulo, 1998, pág. 52.



O DEPOIMENTO DE RANDOLPH CARTER

OS VINGADORES


Espionagem à moda 1960's. A melhor e a mais estranha. 


HISTÓRIA DO OLHO

Georges Bataille

Para os outros, o universo parece honesto. Parece honesto para as pessoas de bem porque elas têm os olhos castrados. É por isso que temem a obscenidade. Não sentem nenhuma angústia ao ouvir o canto do galo ou ao descobrirem o céu estrelado. Em geral, apreciam os "prazeres da carne" na condição de que sejam insossos.

Mas, desde então, não havia mais dúvidas: eu não gostava daquilo a que se chama "os prazeres da carne" justamente por serem insossos. Gostava de tudo o que era tido por "sujo". Não ficava satisfeito, muito pelo contrário, com a devassidão habitual, porque ela só contamina a devassidão e, afinal de contas, deixa intacta uma essência elevada e perfeitamente pura. A devassidão que eu conheço não suja apenas o meu corpo e os meus pensamentos, mas tudo o que imagino em sua presença e, sobretudo, o universo inteiro.


NINJAS

dirigido por Dennison Ramalho (à disposição no Vimeo).

 

quinta-feira, 13 de maio de 2021

FICÇÃO DE POLPA


“You okay?” Butch asks Marsellus.

“No, man,” he replies, as Zed howls in pain. “I’m pretty fucking far from okay.”

“What now?” Butch asks.


Pulp Fiction, dirigido por Quentin Tarantino. Aqui. Mais, aqui.



sexta-feira, 7 de maio de 2021

terça-feira, 27 de abril de 2021

CACHORRO IDIOTA! CUJO!

"Frank Dodd está morto e a cidade de Castle Rock pode ficar em paz novamente. O serial-killer que aterrorizou o local por anos agora é apenas uma lenda urbana, usada para assustar criancinhas. Exceto para Tad Trenton, para quem Dodd é tudo, menos uma lenda. O espírito do assassino o observa da porta entreaberta do closet, todas as noites. Você pode me sentir mais perto… cada vez mais perto."

“Aquele monstro que fugira de seu closet. Junto dos ratos não havia monstros.”

“Era um som grave e forte, como de um motor de popa em marcha lenta. Ronnie sabia que só um cachorro enorme produziria um som daqueles.”

Cujo, de Stephen King.

Aqui, um trecho de uma entrevista de Stephen King sobre o livro:

“ENTREVISTADOR
Cujo é incomum porque o livro inteiro é um único capítulo. Você planejou isso desde o início?

KING
Não, Cujo era um livro normal em capítulos quando foi concebido. Mas eu me lembro de pensar que queria que o livro atingisse o leitor como se fosse um tijolo jogado pela janela. Sempre achei que o tipo de livro que eu escrevo – e meu ego é grande o bastante para pensar que todo escritor devia fazer isso – devia ser uma espécie de agressão pessoal. Devia ser alguém pulando por cima da mesa, devia agarrar e intimidar o leitor. Devia provocá-lo. Devia incomodá-lo, perturbá-lo. E não só porque ele ficou com nojo. Quer dizer, se alguém me mandar uma carta e disser que não conseguiu jantar, o que eu penso é: ‘Ótimo!'”


Você por ler Cujo aqui.



quarta-feira, 21 de abril de 2021

UM MORCEGO

Que trecho maravilhoso:

Uma testemunha ocular retratava o assassinato de um cafetão, atingido a curta distância com um tiro no olho: "De trás de sua cabeça saiu voando um morcego e bateu contra o papel de parede. Meu coração quase parou de bater".

O Medo do Goleiro Diante do Penalti, por Peter Handke.


O MESTRE E O MORTO



Tom Savini e uma de suas criaturas, em 'O dia dos Mortos', do fantástico George A. Romero.



 

sexta-feira, 16 de abril de 2021

O ODOR, A MORTE, O FASCÍNIO

 


"...as pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podiam escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração - ele penetra nas pessoas, elas não podem escapar-lhe caso queiram viver. E bem para dentro delas é que vai o aroma, diretamente para o coração, distinguindo lá categoricamente entre atração e menosprezo, nojo e prazer, amor e ódio. Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas."

Essa história de obsessão e crime, escrita belamente (em uma mistura de Umberto Eco, De Sade, Poe entre outros) conta a história de uma obsessão e a procura pelo cheiro perfeito. Crime, a alma e a torpeza humana. Um livro que deveria ser mais lido. (Estou relendo-o.) Delicie-se.

~ O perfume, por Patrick Suskind, pode ser comprado Aqui.



quinta-feira, 15 de abril de 2021

há pulhas em demasia

'Em decorrência da fetidez que assola o país, só tenho vontade de escrever textos sórdidos, coléricos, cínicos, degradantes ou estufados de um humor cruel e até me permitiria sugerir ao caríssimo editor que bolasse uma maneira de a crônica ser fechada assim como certas revistas envelopam um pequeno mimo, uma tirinha de seda, um saquinho de perfume, e envelopariam minha crônica e colocariam sobre ela uma fitinha negra: 'censurado' ou 'só para cínicos', ou 'só para fazer sorrir os desesperados'. Ou quem sabe, à maneira de Hesse: 'só para raros'. Porque, convenhamos, há pulhas em demasia.'

~Hilda Hilst sobre suas crônicas que, imagino, cairiam muito bem nos dias que se passam em terras brasilis.

 Leia mais Hilda Hilst, é bom para a alma, acredite: aqui.

  


quarta-feira, 14 de abril de 2021

segunda-feira, 12 de abril de 2021

VACINA VACINA PARA TODOS

Ilustração de Natália Gregorini para Women in Times no Instagram (vi em @Debora_D_Diniz no twitter).


domingo, 11 de abril de 2021

Uma solitária voz humana


Não sei do que falar… Da morte ou do amor? Ou é a mesma coisa? Do quê?

Estávamos casados havia pouco tempo. Ainda andávamos na rua de mãos dadas, mesmo quando entrávamos nas lojas. Sempre juntos. Eu dizia a ele "eu te amo". Mas ainda não sabia o quanto o amava. Nem imaginava… Vivíamos numa residência da unidade dos bombeiros, onde ele servia. No segundo andar. Ali viviam também três famílias jovens, e a cozinha era comunal. Embaixo, no primeiro andar, guardavam os carros, os carros vermelhos do corpo de bombeiros. Esse era o trabalho dele. Eu sempre sabia onde ele estava e o que se passava com ele. No meio da noite, ouvi um barulho. Gritos. Olhei pela janela. Ele me viu: "Feche a persiana e vá se deitar. Há um incêndio na central. Volto logo".

A explosão, propriamente, eu não vi. Apenas as chamas, que iluminavam tudo… O céu inteiro… Chamas altíssimas. Fuligem. Um calor terrível. E ele não voltava. A fuligem se devia à ardência do betume, o teto da central estava coberto de asfalto. As pessoas andavam sobre o teto como se fosse resina, como depois ele me contou. Os colegas sufocavam as chamas, enquanto ele rastejava. Subia até o reator. Arrastavam o grafite ardente com os pés… Foram para lá sem roupa de lona, com a camisa que estavam usando. Não os preveniram, o aviso era de um incêndio comum…

Quatro horas… Cinco horas… Seis… Nós tínhamos combinado de ir às seis horas à casa dos pais dele, para plantar batatas.

(...)

Às vezes parece que escuto a voz dele… Que está vivo… Nem as fotografias me tocam tanto quanto a voz dele. Mas ele nunca me chama. Nem em sonhos… Sou eu que o chamo… Sete horas… Às sete horas me avisaram que ele estava no hospital. Corri até lá, mas havia um cordão de policiais em torno do prédio, ninguém passava. As ambulâncias chegavam e partiam. Os policiais gritavam: "Os carros estão com radiação, não se aproximem". Eu não era a única, todas as mulheres cujos maridos estavam na central naquela noite vieram correndo, todas. Quando vi saltar de um carro uma conhecida que trabalhava como médica no hospital, corri e a segurei pelo jaleco:

"Me deixe entrar!"
“Não posso! Ele está mal. Todos estão mal.”
Agarrei‑a com força: "Só quero ver o meu marido."
"Está bem", ela disse. "Vamos correr. Mas só por quinze, vinte minutos."
Eu o vi… Estava todo inchado, inflamado… Os olhos quase não apareciam…
"Ele precisa de leite. Muito leite!”, ela me disse. “Eles devem beber ao menos três litros."
"Mas ele não bebe leite."
"Agora vai ter de beber."

Muitos médicos, enfermeiras e, sobretudo, as auxiliares daquele hospital, depois de algum tempo, começaram a adoecer. Mais tarde morreriam. Mas na época ninguém sabia disso…

(...)

Ela imediatamente me perguntou: "Querida! Pobrezinha… Você tem filhos?".

Como dizer a verdade? Estava claro que eu devia esconder a minha gravidez, ou não me deixariam vê‑lo! Ainda bem que eu era muito magra e não se notava nada.

"Tenho", respondi.
"Quantos?"
Eu pensei: "É melhor dizer dois. Se disser um, talvez não passe".
"Um menino e uma menina."
"Se são dois, então, creio que não terá mais. Agora escute: o sistema nervoso central foi completamente atingido, a medula está totalmente afetada."
"Bem", pensei, "ele deve estar mais nervoso."
"Mais uma coisa: se você chorar, eu a retiro de lá imediatamente. É proibido abraçar e beijar. Não se aproxime muito. Você tem meia hora."

Mas eu sabia que não iria embora dali. Só iria com ele. Eu havia jurado a mim mesma!

(...)

Há um fragmento de uma conversa… Agora me veio à lembrança. Alguém tentava me convencer:

"Você não deve se esquecer de que isso que está na sua frente não é mais o seu marido, a pessoa que você ama, mas um elemento radiativo com alto poder de contaminação. Não seja suicida. Recobre a sensatez."

Mas eu estava como louca:
"Eu te amo! Eu te amo!"

Enquanto ele dormia, eu sussurrava: “Eu te amo!”. Caminhava no pátio do hospital: "Eu te amo!". Levava a comadre: "Eu te amo!". Ficava me lembrando de como vivíamos antes, da nossa casa… Ele só dormia segurando a minha mão. Tinha esse hábito, pegar no sono segurando a minha mão. A noite toda.

'Vozes de Tchernóbil', de Svetlana Alexiévitch. Uma autora de livros contudentes e necessários, que você pode ler aqui.



sexta-feira, 9 de abril de 2021

MINHA CONCEPÇÃO DE CINEMA


 I accept or reject a film based on my conception of cinema. The definition of political cinema is one I don't agree with, because every film, every show, is typically political in nature. ~ Gian Maria Volontè Actor, Director & Writer (1933–1994)

 


quarta-feira, 7 de abril de 2021

dora dorinha

José Marcelo


Veludo Azul de madrugada na tv e uma garrafa de vinho vagabundo pela metade.
__ Isso não ia dar em boa coisa mesmo __ como diria Dorinha com aquele sorriso safado que ela sabe dar tão bem.
Mas ela não está aqui. É. Nada de Dorinha tirando a roupa e tocando o bico de um dos seios:
__ Me beija. Aqui.
Aqui só o Veludo e o vinho.
E ele – velho, barrigudo, sozinho na madrugada de sábado para domingo. De novo pensando em morrer. Não em se matar. Apenas em morrer.
Mas na tv: A candy-colored clown they call the sandman tiptoes to my room every night just to sprinkle stardust and to whisper go to sleep.
Dorinha.
Eles tiveram bons momentos juntos. Muitos bons momentos. Momentos felizes. Dias e noites.
Felizes, Dorinha, felizes.
Mas agora, ele não está mais feliz. Muito menos ela. Ela nunca mais vai estar. Morta. Dorinha morta. Dorinha morta e enterrada. Sepultada.
A candy-colored clown they call the sandman tiptoes to my room every night just to sprinkle stardust and to whisper go to sleep.
Mas ele não consegue dormir. O sono não vem. Desconfia que nunca mais.
A candy-colored clown they call the sandman tiptoes to my room every night just to sprinkle stardust and to whisper go to sleep.
Quando percebe, já vestiu uma roupa qualquer, já saiu pela rua, já chegou no cemitério e já está no cemitério, já está diante da sepultura dela e já está chorando.
Quando se dá por si, já tirou o pau para fora e começou a masturbar-se. Ele se ajoelha sobre a terra fofa da sepultura e o contato daquela terra o faz lembrar do contato macio de Dora. Ele não demora a gozar. Um filete branco e longo que se espalha em um prazer grande demais e que o faz estremecer.
Ele quase pode ouvi-la:
__ Que gostoso, meu amor, que gostoso.