quarta-feira, 11 de maio de 2011

MINHA TRAVESSIA DO SÉCULO

billy wilder


(Entrevista com Billy Wilder concedida ao jornalista François Forestier, publicada na revista francesa "Le Nouvel Observateur", número 1510, de outubro de 1993, traduzida por Daniel Caetano e publicada na Contracampo.)

-Você tem trabalhado?

Billy Wilder – É claro. Em um roteiro.

-Sobre o que é?

Billy Wilder – Não posso contar.

-Pode sim.

Billy Wilder – Não.

-Pode.

Billy Wilder – Não.

-Está bem, você ganhou. É uma comédia?

Billy Wilder – Não sei, ainda não decidi. Só tenho idéias, cenas, personagens. A única coisa que eu sei é que não terá efeitos especiais. Eu não sei utilizá-los – para falar a verdade, eu não sei sequer fechar um frasco. Eu gosto de diálogos, não de trucagens.

-Vou formular a questão de outro modo: Será uma comédia?

Billy Wilder – Eu não sei nem mesmo se Se Meu Apartamento Falasse é uma comédia, então... É uma sátira do modo de vida americano, é tudo que se pode dizer. Uma visão especial – aprende-se como não fazer carreira e como vencer na vida. Mas é uma comédia? É um assunto bastante sério, coberto por chocolate e creme. Eu faço rir, mas gosto também que as pessoas discutam por uma meia-hora depois da projeção. É a minha mais bela recompensa.

-Você assinou também alguns dramas terríveis, como "Farrapo Humano", em que o assunto era o alcoolismo...

Billy Wilder – Ah, este não foi uma comédia, com certeza! O mesmo para Pacto de Sangue... Talvez Hitchcock tivesse razão em só fazer um gênero de filme... Talvez. Quando se vai assistir a um Hitchcock, sabe-se que haverá trens, cadáveres, um mistério. E eis que já há sessenta anos que faço cinema e ainda não sei o que é uma comédia. Fiz de tudo: roteirista, diretor... Mas não fazer mais que um gênero de filme? Eu me entediaria. Se eu devesse fazer um Hitchocock, faria Testemunha de Acusação, com Charles Laughton, Tyrone Power e Marlene Dietrich.

-Mas... é um filme de Billy Wilder!

Billy Wilder – Hehe... Sim. Se eu fosse Billy Wilder, eu não comeria no mesmo restaurante por toda minha vida.

-Bem... você é Billy Wilder, não?

Billy Wilder – Sim. Portanto, eu não como sempre no mesmo restaurante. Você quer um café?

-Duas pedras de açúcar, por favor. Você ficou com a mesma esposa por quarenta e cinco anos.

Billy Wilder – Ah... eu tive sorte.

-Ela teve paciência.

Billy Wilder – Sim, uma santa paciência.

-É uma santa?

Billy Wilder – Talvez. Devo dizer que a instituição do casamento não é um dos meus assuntos prediletos. A não ser para rir dela.

-Como nos filmes de seu cineasta favorito, Ernst Lubitsch.

Billy Wilder – Ele se casou duas vezes. Uma catástrofe...

-Eu vou lhe cortar , se me permite. Nas suas "Memórias", você diz que chegou em Nova Iorque com onze dólares no bolso. Isso aconteceu em 1934. Qual foi a sua primeira impressão?

Billy Wilder – Meu irmão, que era dois anos mais velho, veio me procurar no porto. Eu tinha feito a travessia no navio mais elegante da Linhas Cunard, o "Aquitânia". Eu tinha visto dezenas e dezenas de filmes americanos, mas devo dizer que nada me preparou para aquela visão: Nova Iorque sob a neve. Eu vinha de Paris e só sabia fazer uma coisa: cinema. Eu não percebia bem que os EUA estavam ainda sob o golpe da Grande Depressão.. Estávamos em janeiro, e o barco estava atrasado. Chegamos às onze da noite. Meu irmão e sua esposa me levaram de carro a Long Island. Tudo estava branco, e eu pedi para passearmos. Passamos pela Rua 42, pela Park Avenue, pela Broadway... os olhos me saltavam da cara, eu estava de queixo caído e vi o milagre dos milagres, o edifício Chrysler. U-lá-lá... Depois comecei a observar as pessoas que dormiam sob as pontes, os mendigos diante dos teatros... Assim que cheguei na casa do meu irmão, fiquei horas olhando pela janela. A manhã chegou, e eu vi um garoto saltar de um Cadillac, jogar o jornal e voltar ao carro, onde um chofer o esperava. Alguns metros adiante, o mesmo ritual. Eu falei comigo mesmo: Que país! Que maravilha! Mesmo os entregadores de jornal andam de limousine! Ou era apenas um estudante que fazia sua volta habitual. Como havia trinta centímetros de neve, ele não podia fazer de bicicleta. Seus pais, excepcionalmente, emprestavam-lhe o carro...

-Você tinha algum emprego em vista?

Billy Wilder – Sim, eu queria escrever roteiros. Eu tinha toda a coragem do mundo. Meu bilhete de entrada era um script que eu tinha vendido durante minha estadia na França, que tinha chegado à Columbia, em Hollywood. Haviam me oferecido, então, um contrato por seis semanas, ganhando cinqüenta dólares por semana.

-Era "Pam-Pam"?

Billy Wilder – Era. Nunca foi filmado.

-Seu amor pelo cinema foi constante. Durante sua estadia em Paris, você passou seu tempo vendo filmes...

Billy Wilder – Sim. Fiquei vidrado durante tempo por 42nd Street, uma comédia musical de Busby Berkeley, eu ia rever este filme todos os dias – assisti ele umas quarenta vezes... Houve alguns meses em que eu fiquei um pouco deprimido. Ao invés de ir a um analista, para me esticar num divã, fui ver A Gaiola das Loucas por uma semana. Era minha cura. Foi menos caro que psicanálise.

-Na sua infância, você teve heróis?

Billy Wilder – Asta Nielsen, a estrela. E Harry Piel, que interpretava detetives. Entre 1926 e 1933, em Berlim, eu ia ver com freqüência os filmes estrelados por Lilian Harvey. E havia os Mabuse de Fritz Lang. Mas era o cinema americano que realmente mexia com meu coração. Com treze anos, no colégio, em Viena, os alunos deviam escolher uma língua viva para estudar, e a moda era de todos escolherem o Francês – eu preferi o Inglês. Minha matéria predileta era Geografia, eu detestava cordialmente a geometria. Você quer outro café?

-Duas pedras de açúcar, por favor. Em 1933, você esteve refugiado em Paris – no Hotel Ansonia, mais precisamente, onde havia toda uma colônia alemã em torno de Erich Maria Remarque...

Billy Wilder – Sim. Rua de Saigon, perto da Avenida Foch – eu era jovem... Foi um momento difícil. Algum tempo antes disso, eu estava com uma amiga na Suíça e ouvi no rádio as notícias – o chanceler alemão tinha sido deposto, Hitler aparecia... Eu soube, imediatamente, que precisava ir embora. A democracia estava morta. Voltei a Berlim. Depois houve o incêndio do Reichstag... Um complô pretensamente comunista...

-Onde você estava neste dia, 23 de fevereiro de 1933?

Billy Wilder – Eu estava sentado num bistrô, a primavera estava quase chegando. Vi a fumaça... Eu já sabia então que seria minha última semana em Berlim. Vendi tudo imediatamente: meu apartamento, meus móveis, todos meus objetos...

-Você foi jornalista nos anos vinte e entrevistou algumas celebridades, como Arthur Schnitzler...

Billy Wilder – Sim, ele me recebeu muito gentilmente. E tentei entrevistar Freud. Cheguei em seu apartamento na hora do almoço, cerca de meio-dia. Toquei no número 9 da Bergstrasse e a empregada me atendeu dizendo que Herr Professor estava almoçando. Fiquei esperando, olhando o divã e aquela coleção magnífica... Centenas de antigüidades gregas e romanas – sim, centenas! È a única coisa que tínhamos em comum. Ah, não... nós dois somos judeus. Repare que, como disse Woody Allen, eu sou judeu, mas posso me explicar... Logo, Freud saiu para me ver, com o guardanapo preso no pescoço. "Herr Wilder?", perguntou ele. "Jawohl, Herr Doktor", eu respondi. "A porta é por ali", disse ele. Ele detestava jornalistas – eles consideram a psicanálise motivo de piadas. Mas eu ainda prefiro me ferrar sendo mal-recebido por Sigmund Freud que ser recebido com toda a pompa por Saddam Hussein. Seu café está bom?

-Obrigado. Você também entrevistou Von Sternberg.

Billy Wilder – Ah, sim. Ele vivia no Hotel Adlon Esplanade. Ele iria rodar um filme com Emil Jannings para a UFA – ele era célebre. Eu o admirava, mas havia coisas nele de que não gostava. Como cineasta, ele só se interessava pela fotografia. Ele fazia a câmera passar pela mancha de Marlene, depois pela mesa, depois entre a fumaça, depois mostrava uma fatia de pêssego... Era maneirista demais para o meu gosto. Ele era baixinho, um pouco pomposo, mas muito gentil. Ele se vestia como o protótipo do cineasta, com botas e tudo mais. O que eu respeito é que ele foi o primeiro colecionador de arte moderna em Hollywood. Um gosto bastante firme. Ele inventou Marlene...

-Você colaborou no roteiro de "Menschen am Sonntag", que foi o ato fundador do cinema falado alemão, em 1930.

Billy Wilder – Sim. Que equipe! Havia Kurt Siodmak, o autor de "Ski Fever"... Ele ainda está vivo. Tem 90 anos e mora na Califórnia... Havia Fred Zinnemann, que mais tarde dirigiu Matar ou Morrer; Edgar Ulmer, que assinou dezenas de filmes; Eugene Shufftan, operador de câmera genial. E Robert Siodmak, que dirigiu Os Assassinos, com Burt Lancaster e Ava Gardner... Nada mal, não? Nós roubamos, mentimos, improvisamos, mendigamos, mas nós fizemos um filme.

-Sabe-se que você foi dançarino de boate. Mas nunca alguém contou se você era bom dançarino.

Billy Wilder – Eu não era ruim. Eu me garantia no tango...Foi em 1927, em Berlim, creio eu. Eu tinha uma noiva americana que me ensinou o charleston – era novidade, então eu tive a oportunidade de me destacar dos outros. A clientela apreciava. Vinte marcos por meia-hora. Mas isso não era vida.

-Depois você se envolveu com a escrita de roteiros. Qual é a receita para um bom roteiro?

Billy Wilder – O enredo. Se o enredo é bom, o filme tem chances de ser bom. Caso contrário, está ferrado. Atmosfera, intriga, ela vai matá-lo, ele vai matá-la, meu Deus, o que irá acontecer com o filho ilegítimo... não interessa o quê, mas que agarre o espectador.

-Você vendeu seu primeiro roteiro em Berlim...

Billy Wilder – Sim. Uma noite, minha vizinha recebia um amante escondida. De repente, o noivo da garota chegou, prestes a... A porta de comunicação dos apartamentos se abre, e eu vejo entrar um senhor de cuecas, apavorado, com suas roupas na mão. Enquanto ele se vestia, conversamos um pouco. E eu me dei conta de que ele era Herr Galinzenstein, um dos maiores produtores alemães da época. Eu lhe disse: "Tenho algumas coisas aqui que lhe interessariam". Ele me responde: "Passe amanhã no meu escritório". Mas eu sei que amanhã é amanhã e que hoje é agora, e lhe disse: "Você está no meu escritório. Vamos conversar". Ele me encarou, terminou de se vestir, pegou meu roteiro e me deu quinhentos marcos. Foi embora e sem dúvida largou meu roteiro na primeira lata de lixo que apareceu...

-Mais tarde você veio a assinar dezenas de roteiros. O de "Ninotchka" cabe na sua definição de um bom roteiro?

Billy Wilder – Ah sim, muito bom. Foi baseado numa pequena história de um autor húngaro, Melchior Lengyel. A aventura dessa comissária política leninista hospedada em Paris era formidável, e Lubitsch fez dela uma maravilha. Lubitsch era um gênio – ele era muito exigente com seus roteiristas. Quando nós entrávamos em pânico, ele corria para o banheiro e voltava dizendo: "Eu tenho a solução". E tinha, de fato. Nós nos perguntávamos se não havia uma biblioteca secreta nos seus banheiros... Eu fui conferir – não havia nada.

-De todas as pessoas que você encontrou, Lubitsch foi quem mais lhe influenciou...

Billy Wilder – Provavelmente. Mas David Hockney e Charles Eames me causaram um forte impressão. Na verdade, eu encontrei várias pessoas fascinantes – não tenho tempo para perder com imbecis ou com mulheres estúpidas e feias.

-A beleza de uma mulher está sujeita a mudanças.

Billy Wilder – Uma mulher bonita está à beira de se tornar feia, creio eu.

-Qual foi a mulher mais bonita que você já encontrou? Sabe-se da sua carreira de sedutor...

Billy Wilder – Você não acredita que eu vá lhe responder, certo? Para me queimar com todas as outras?

-Greta Garbo?

Billy Wilder – Na tela de cinema, ela era sublime. Gary Cooper, a mesma coisa. A câmera transfigura.

-Você trabalhou em cerca de trinta filmes. De qual você gosta mais?

Billy Wilder – A Montanha dos Sete Abutres, com Kirk Douglas, em 1951. Um filme sobre a manipulação de opinião... E Se Meu Apartamento Falasse, com Jack Lemmon. Woody Allen acha quePacto de Sangue é uma dos dez melhores filmes da história do cinema, mas eu não concordo.

-Um de seus primeiros filmes foi "Mauvaise Graine", que você rodou em Paris, com Danielle Darrieux.

Billy Wilder – Foi o primeiro filme que dirigi. Eu estava muito inseguro, era como um problema de álgebra. Não me saí muito bem. Danielle Darrieux tinha 17 anos... ela era sublime.

-Eu detesto você.

Billy Wilder – Por quê?

-Porque você teve a chance de encontrar Danielle Darrieux com 17 anos.

Billy Wilder – Eu me detesto.

-Por quê?

Billy Wilder – Porque não tenho mais vinte anos de idade...

-Você conheceu Marlene Dietrich, Marilyn Monroe...

Billy Wilder – Marlene foi uma grande amiga dos dias berlinenses. Eu entrevistei ela... Fizeram dela uma vamp, e ela adorava essa imagem. Mas, na verdade, era uma mulher do interior – ela adorava fazer sopa, sempre que alguém aparecia resfriado ela arrumava uma aspirina, ela sempre cuidava dessas besteiras... Marlene era como uma Madre Teresa com pernas bonitas. Quanto a Marilyn, realmente era preciso ter uma paciência de monge zen-budista de sétimo grau para trabalhar com ela. No início das filmagens de Quanto Mais Quente Melhor, nós pedíamos para ela chegar às nove da manhã e ela aparecia ao meio-dia. No final, nós pedíamos que ela viesse em maio e esperávamos que chegasse em setembro. Era um pesadelo – mas, se eu pudesse, não hesitaria em fazer outro filme com ela. À noite, chegando em casa depois de um dia com ela, acontecia de eu vomitar no caminho... Era o estresse...

-E Gloria Swanson?

Billy Wilder – Quando trabalhei com ela, em Crepúsculo dos Deuses, pensava-se que essa grande estrela dos filmes mudos estava acabada! Ela tinha cinqüenta anos! Mas o cinema mudo parecia tão distante... Ela teve uma coragem enorme.

-Havia várias celebridades nesse filme: Erich von Stroheim, Buster Keaton, Cecil B. De Mille..

Billy Wilder – Este último era excelente ator.

-Era também um reacionário demente.

Billy Wilder – Sim. Ele chegou até a tentar transformar a Associação de Diretores em movimento macartista! Na hora, John Huston se levantou e se opôs. Mesmo John Ford, que não era de esquerda, foi contra! Mas Huston foi magnífico: "Onde estava o senhor, senhor De Mille, quando combatemos em Anzio? Você estava se embandeirando em seu patriotismo? Em casa?". E isso pôs fim à manipulação.

-Fale-nos de seus altos e baixos.

Billy Wilder – Há filmes, como Amor na Tarde, Uma Loura por Um Milhão ou A Montanha dos Sete Abutres, que eu adoro e que foram fracassos. Outros, que eu dirigi no piloto automático, foram grandes sucessos. Vai entender...

-Você é famoso por seus diálogos...

Billy Wilder – Sobretudo por "Nobody’s perfect", a última réplica de Quanto Mais Quente Melhor. Na verdade, é uma frase que deixamos lá, eu e meu colaborador I. A. L. Diamond, por falta de alternativa melhor. Por pura preguiça.

-Você tem a fama de cronometrar as cenas durante os ensaios, e depois dizer aos atores: vocês podem refazer isso, mas com quinze segundos a menos?

Billy Wilder – Sim, eu faço isso, mas sem cronômetro. É automático, eu digo para meus atores: "Me dê uma alegria, corte uma semana nessa cena".

- Última questão: Existe um Deus?

Billy Wilder – Sim, e ele se chama Ernst Lubitsch.

Contracampo.

PROFUMO DI DONNA

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O Perfume de Mulher original é desses filmes irretocáveis que nunca deveriam ser refilmados. A história acompanha um jovem soldado que é obrigado a acompanhar o capitão Fausto (Vittorio), um capitão do exército que perdeu a visão e seu braço esquerdo num acidente com bomba, em uma viagem por várias cidades da Itália. A princípio, as aventuras de Fausto parecem inocentes e divertidas, visitando cidades desconhecidas, descobrindo mulheres atraentes por meio de seu olfato apurado, ensinando muitas coisas ao seu inexperiente acompanhante. Mas, conforme os dois homens viajam por Gênova e Roma, um propósito negro acaba sendo revelado.

Para ver este filme perfeito, clique na imagem e vá ao Filmes com legenda.

terça-feira, 10 de maio de 2011

OS HOMENS QUE ENCARAM CABRAS

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Paranormais capazes de matar cabras apenas com o olhar, capazes de atravessar paredes, capazes de ver o futuro, capazes de serem hippies soldados caras de pau. Um filme engraçado e bizarro, uma bela combinação.

NOCHE

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FAMA

Daniel Kehlmann

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Um trecho:

Antes de Ebling chegar em casa, seu celular tocou. Durante anos, ele se recusara a comprar um, afinal ele era um técnico e não confiava naquela geringonça. Como era possível que ninguém se importasse em manter junto à cabeça uma fonte de radiação nociva? Mas Ebling tinha uma mulher, dois filhos e um bando de colegas de trabalho, e sempre havia alguém se queixando da sua inacessibilidade. Assim, ele acabou cedendo, adquiriu um aparelho e pediu ao vendedor que o ativasse ainda na loja. Um pouco a contragosto, Ebling estava impressionado; era um modelo realmente perfeito: bonito, simples e elegante. E agora, sem dúvida, estava tocando.
Hesitante, ele atendeu.
Uma mulher queria falar com um tal de Raff, Ralf ou Rauff, ele não entendeu bem o nome.
Foi engano, ele disse, número errado. Ela pediu desculpas e desligou.
Depois, à noite, mais uma chamada. “Ralf!”, exclamou um homem rouco. “E aí, como vão as coisas, seu malandro?”
“Engano!” Ebling estava sentado na cama. Já eram mais de dez horas e sua mulher lançou-lhe um olhar de reprovação.
O homem pediu desculpas, e Ebling desligou o aparelho.
Na manhã seguinte, três mensagens o esperavam. Ele as ouviu no trem suburbano a caminho do trabalho. Entre risadinhas, uma mulher pedia que retornasse a ligação. Aos berros, um homem lhe dizia que viesse imediatamente, não esperariam mais por ele; ao fundo, ouvia-se o tilintar de copos e música. E depois outra vez a mulher: “Ralf, onde você está?”.
Ebling suspirou e ligou para o serviço de atendimento ao cliente.
Estranho, disse uma mulher com voz de tédio. Era impossível acontecer tal coisa. Ninguém recebia um número que já era de outra pessoa. Havia toda uma série de medidas de segurança.
“Mas aconteceu!”
Não, disse a mulher. Era impossível.
“E agora, o que a senhora vai fazer?”
Ela não tinha ideia, respondeu a atendente. Aquilo era absolutamente impossível.
Ebling abriu a boca e fechou-a novamente. Ele sabia que nesse momento qualquer outro teria se irritado, mas isso não era do seu feitio, e ele nem era bom nisso. Pressionou a tecla “desligar”.
Segundos depois, o telefone tocou novamente. “Ralf?”, perguntou um homem.
“Não.”
“O quê?”
“Este número está... Ele foi por engano... O senhor discou errado.”
“Este é o número do Ralf.”
Ebling desligou e pôs o telefone no bolso do casaco. O trem estava lotado de novo, ele teve que viajar de pé mais uma vez. De um lado, uma mulher gorda se espremia contra ele, do outro, um homem de bigode encarava-o como a um inimigo jurado. Havia muitas coisas de que Ebling não gostava na própria vida. Incomodava-o que sua mulher fosse sempre tão desatenta, que lesse livros tão bobos e que cozinhasse tão deploravelmente mal. Incomodava-o que não tivesse um filho inteligente e que sua filha lhe parecesse tão estranha. Incomodava-o sempre ter que ouvir o vizinho roncando através das paredes finas demais. Mas o que mais o incomodava era ser obrigado a tomar o trem nos horários de pico. Era sempre muito apertado, sempre lotado, e
aquele cheiro era tudo, menos bom.
Mas de seu trabalho ele gostava. Ele e dezenas de colegas ficavam sentados debaixo de lâmpadas muito claras e examinavam computadores defeituosos que eram enviados para lá por comerciantes de todo o país. Ele sabia o quão frágeis eram aquelas pequenas placas pensantes, quão complicadas e enigmáticas. Ninguém as entendia por inteiro; ninguém podia realmente dizer por que de repente paravam de funcionar ou começavam a fazer coisas estranhas. Já não se procuravam mais as causas, simplesmente iam se substituindo partes até que o todo voltasse a funcionar. Às vezes ele pensava em quantas coisas no mundo dependiam daqueles aparelhos que, no entanto — como ele sabia muito bem —, faziam só de vez em quando e como que por milagre o que se esperava deles. À noite, semiadormecido em sua cama, essa ideia o inquietava — todos os aviões, as armas guiadas
eletronicamente, os computadores nos bancos —, às vezes tanto que chegava a sentir palpitações. Então Elke perguntava irritada por que ele não podia ficar quieto, daquele jeito era o mesmo que dividir a cama com uma betoneira, e ele pedia desculpas e se lembrava que a mãe já lhe dizia que ele era sensível demais.
Quando Ebling saiu do trem, o telefone tocou. Era Elke que lhe pedia para comprar pepinos no fim do dia, antes de voltar para casa. Eles estavam em promoção no supermercado da rua em que moravam.
Ebling assentiu e despediu-se rapidamente. O telefone tocou outra vez e uma voz feminina perguntou-lhe se ele havia pensado bem no que estava fazendo, só mesmo alguém muito idiota para dispensar uma mulher como ela. Ou ele pensava outra coisa?
Não, Ebling disse sem refletir, ele pensava exatamente isso.
“Ralf!”, ela riu.
O coração de Ebling palpitava, a garganta estava seca. Ele desligou.
Quando chegou ao trabalho, ele ainda estava perturbado e nervoso. Aparentemente, o proprietário original do
número tinha uma voz parecida com a dele. Ligou mais uma vez para o serviço de atendimento ao cliente.
Não, disse uma mulher, eles não podiam simplesmente lhe dar um novo número, a não ser que ele pagasse por isso.
“Mas este número é de uma outra pessoa!”
Impossível, ela respondeu. Para isso havia...
“Medidas de segurança, eu sei! Mas estou recebendo a toda hora ligações para... Veja bem, eu sou técnico. Sei que a senhora vive atendendo ligações de pessoas que não têm a menor noção de nada. Mas eu sou do ramo. Eu sei como...”
Ela não podia fazer absolutamente nada, disse a mulher. A solicitação dele seria encaminhada.
“E depois? O que vai acontecer depois?”
Depois, ela disse, depois se veria. Só que dessa parte não era ela quem cuidava.
Naquela manhã, ele não conseguiu se concentrar no trabalho. Suas mãos estavam trêmulas e, na hora do almoço, ele não sentiu fome, embora tivesse bife à milanesa. A cantina não servia bife à milanesa com muita frequência e ele costumava ficar com água na boca já no dia anterior. Dessa vez, porém, ele devolveu a bandeja com o prato pela metade, foi para um canto tranquilo do refeitório e ligou o celular.
Três mensagens. A filha pedia que ele a buscasse na aula de balé. Isso o surpreendeu, ele nem sabia que ela dançava. Um homem que lhe pedia para retornar a ligação. Nada naquela mensagem revelava a quem era dirigida: se a ele ou ao outro. E por fim uma mulher, perguntando por que ele dava tão pouco as caras. Aquela voz, grave e ronronante, ele nunca ouvira antes. Justamente quando ia desligar o aparelho, ele tocou novamente.
O número na tela começava com um sinal de mais e o prefixo vinte e dois. Ebling não sabia de que país era. Ele quase não conhecia ninguém no estrangeiro, somente sua prima na Suécia e uma senhora velha e gorda em Minneapolis, que todo ano no Natal mandava uma foto em que aparecia erguendo um copo, sorridente. Para os queridos Ebling, vinha escrito no verso, e nem ele, nem Elke sabiam qual dos dois afinal era parentedela. Ele atendeu.
“Nos vemos mês que vem?”, indagou um homem. “Você estará no Festival de Locarno, não é? Eles não iriam adiante sem você, Ralf, não nessas circunstâncias, certo?”
“Estarei lá, sim”, disse Ebling.
“Esse Lohmann. Já era de se esperar. Você falou com o pessoal de Degetel?”
“Ainda não.”
“Já está na hora! Locarno pode nos ajudar muito, como Veneza há três anos.” O homem riu. “E de resto? Clara?”
“Vamos indo”, disse Ebling.
“Seu velho canalha”, disse o homem. “É incrível.”
“Também acho”, disse Ebling.
“Você está resfriado? Sua voz está estranha.”
“Agora eu preciso... fazer outra coisa. Ligo de volta.”
“Está bem. Você não muda nunca, não é?”
O homem desligou. Ebling apoiou-se na parede e esfregou a testa. Ele precisou de um momento até voltar a si: ali era a cantina, à sua volta seus colegas comiam bife à milanesa. Rogler passou com uma bandeja.
“Oi, Ebling”, disse Rogler. “Tudo bem?”
“Sim, claro.” Ebling desligou o telefone.
Ele passou a tarde inteira meio ausente. A questão sobre que parte de um computador estava com defeito e como poderiam ter ocorrido os problemas que os comerciantes descreviam em suas mensagens cifradas — cliente diz press. tecla reset pq desliga antes display exibe zero — hoje simplesmente não o interessava. Então era essa a sensação de ter algo pelo qual se espera ansiosamente.
Ele adiou o momento. O telefone ficou desligado no trem enquanto voltava para casa, ficou desligado no supermercado enquanto comprava pepinos e, durante o jantar com Elke, enquanto as duas crianças trocavam chutes por baixo da mesa, o celular também ficou quieto em seu bolso, mas Ebling não conseguia
parar de pensar nele.
Então ele foi para o porão. O lugar cheirava a mofo, num canto havia uma pilha de caixas de cerveja, num outro as partes de um armário da ikea, temporariamente desmontado. Ebling ligou o telefone. Duas mensagens. Justamente quando ia ouvi---las, o aparelho vibrou em sua mão: alguém chamava.
“Pois não?”
“Ralf.”
“Pois não?”
“O que é isso agora?”, ela riu. “Está brincando comigo?”
“Jamais faria isso.”
“Que pena!”
Sua mão tremia. “Tem razão. Na verdade, com você... eu gostaria de...”
“De...?”
“... brincar.”
“Quando?”
Ebling olhou ao seu redor. Ele conhecia aquele porão como a palma da mão. Cada objeto fora posto ali por ele próprio.
“Amanhã. Diga quando e onde. Estarei lá.”
“Está falando sério?”
“Descubra você mesma.”
Ele a ouviu respirar profundamente. “No Pantagruel. Às nove.
Você faz a reserva.”
“Está bem.”
“Você sabe que isso não é sensato?”
“E quem está preocupado com isso?”, perguntou Ebling.
Ela riu, e então desligou.
Nessa noite, ele encostou na mulher pela primeira vez depois de muito tempo. No começo, ela ficou surpresa, perguntou o que havia dado nele e se ele tinha bebido, depois cedeu. Não foi demorado, e enquanto a sentia sob seu corpo, pareceu-lhe que estavam fazendo algo indecoroso. A mão dela bateu em seu ombro: ela não estava conseguindo respirar. Ele se desculpou, mas ainda levou alguns minutos até se separar dela e rolar para o lado. Elke acendeu a luz, lançou-lhe um olhar de reprovação e recolheu-se no banheiro.
Claro que ele não foi ao Pantagruel. O telefone ficou desligado o dia inteiro, e à noite, às nove horas, ele estava sentado diante da televisão assistindo a um jogo de futebol da segunda divisão com seu filho. Ele sentiu um formigamento elétrico, era como se naquele momento um sósia, um representante dele num outro universo, entrasse num restaurante caro e encontrasse uma mulher alta e bela, que escutava suas palavras com atenção, que ria quando ele dizia algo espirituoso e cuja mão de vez em quando roçava na dele como que sem querer.

TEEN BEAUTY

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STANLEY KUBRICK UMA FILMOGRAFIA

 Martin Woutisseth.

A BELA

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Olivia Wilde

PICNIC NA MONTANHA MISTERIOSA

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Dirigido por Peter Weir de modo que tudo no filme exala beleza, tranquilidade e um mistério insolúvel que continua na cabeça muito tempo depois. Belo, virginal, assustador.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O LONGO ADEUS

Raymond Chandler

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Philip Marlowe: Os franceses tem uma expressão para isso. Os desgraçados dos franceses tem uma frase para tudo e estão sempre com a razão. Dizer adeus é morrer um pouco.

DJANGO

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É um desses filmes inesquecíveis em que cada cena ecoa cinema e arte, aqui na direção perfeita de Sergio Corbucci e na interpretação charmosa de Franco Nero.

MORREU CARLOS TRILLO

Las puertitas López

Pai de Clara de Noche, El loco Cháves, Las puertitas del señor López…

UM LIVRO ABERTO

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__ Minha vida é um livro aberto. Ligeiramente pornográfico, talvez, mas aberto.

Billy Wilder

A PELE QUE HABITO

Pedro Almodóvar em um filme de terror.

ANITA

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THE LADY FROM SHANGHAI

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__ Once, off the hump of Brazil I saw the ocean so darkened with blood it was black and the sun fainting away over the lip of the sky. We'd put in at Fortaleza, and a few of us had lines out for a bit of idle fishing. It was me had the first strike. A shark it was. Then there was another, and another shark again, 'till all about, the sea was made of sharks and more sharks still, and no water at all. My shark had torn himself from the hook, and the scent, or maybe the stain it was, and him bleeding his life away drove the rest of them mad. Then the beasts to to eating each other. In their frenzy, they ate at themselves. You could feel the lust of murder like a wind stinging your eyes, and you could smell the death, reeking up out of the sea. I never saw anything worse... until this little picnic tonight. And you know, there wasn't one of them sharks in the whole crazy pack that survived.

Orson Welles

Cine resort.

SALARIO PARA MATAR

Trilha de Ennio Morricone. Antológica. Arrebatadora.

Por um punhado de euros.

domingo, 8 de maio de 2011

O CRIME DE CRISTINA

José Marcelo

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Meu violino foi jogado na parede e escorreu moribundo. Não satisfeita, minha linda Cristina, a mulher que eu amava, pisou no instrumento, fazendo-o em pedaços. Em lugar dos ecos maravilhosos que eu, mesmo sendo um tanto medíocre, conseguia tirar de suas cordas, o violino apenas estalou, apenas gemeu enquanto era estraçalhado, desmembrado e assassinado.

O crime levou o tempo de um choque, nem mais nem menos. Eu não conseguia me mover. Embrulhado na toalha do banho, as mãos caídas e os olhos úmidos, eu não conseguia. Não podia. Não queria acreditar. Simplesmente não.

Não.

Cristina, quando acabou, olhou-me ainda com raiva e empurrou-me e foi para o quarto e bateu a porta e trancou-a. Eu não dormiria na cama naquela noite.

Ouvi-a ao telefone com uma amiga, falando alto demais provavelmente para que eu a ouvisse: Destruí aquela coisa, eu avisei, eu avisei um monte de vezes, eu odeio aquela maldita coisa, o maldito barulho estridente, ele nem sabe tocar direito, eu avisei que ia fazer aquela coisa em mil pedaços, hoje foi, hoje perdi a paciência, ele saiu do banho e em vez de vir para a cama, ficou lá, ficou lá com aquela coisa, nem sabe tocar direito, eu peguei aquilo e joguei na parede e aquela coisa fiz em pedaços, em pedaços, nunca mais ele vai tocar aquilo, e ele que nem pense em comprar outro, faço a mesma coisa, mesma coisa.

Parei de ouvir porque fui à cozinha, bebi água, sentei à mesa. Fiquei brincando um tempo com uma faca. Girava a lâmina sobre a madeira, meio desajeitado. Fui até os pedaços do violino. Voltei e bati levemente na porta.

Ela: Vá embora. Não quero falar com você.

Eu: Mas minhas roupas estão aí dentro.

Ela: Não me importa. Quero que vá embora.

Eu: Então me deixe entrar.

Ela: Não.

Chutei a porta. Não foi fácil derrubá-la. Nos filmes sempre é fácil. Precisei chutar várias vezes.

Ela: Pare com isso. Ficou louco?

A porta abriu-se. Ela me olhava espantada, talvez mesmo com medo, o telefone apertado entre os dedos, encolhida de roupa curta sobre a cama. Maravilhosa. Aproximei-me dela e soltei a toalha. Estava de pau duro. Olhei ao redor.

Ela: O que você vai fazer?

Eu: O que você acha?

Minha roupa estava dobrada sobre uma cadeira.

Ela: O que você vai fazer?

Olhei-a, pisquei, vesti minha roupa, olhei para ela e sai do quarto sem nada dizer.

Ela veio atrás e segurou meu braço. Senti as unhas dela arranhando.

Ela: Não vai.

Eu: Você me mandou ir.

Ela: Não quero que vá. Fica.

Cristina segurou meu pau por cima da calça. Aproximou-se e beijou-me. Pronto. Ela me tinha agora. Era sempre assim. Não importava o quanto ela me ofendesse, me arranhasse, me ferisse, me humilhasse. Ela era minha dona. Bastava estalar os dedos, tocar-me e eu me ajoelharia aos seu pés, a seguiria como um cachorrinho. Um escravo.

Ela: Me come, aqui, me come.

Ela gostava de ficar de quatro e erguer a bunda: Me come assim, vai, assim, me come.

Ela estava molhada, apertada, macia. Eu gozei dentro dela e senti as contrações dela apertando-me quando ela também gozou. Ficamos na mesma posição, eu ainda dentro dela, tentando prolongar o prazer, e ela olhou para trás.

Deve ter sido a expressão em meu rosto. Ou a corda do violino em minhas mãos. Algo aterrorizou-a. Ela tentou fugir. Mas eu era maior e mais forte.

Passei a corda afiada por seu pescoço e puxei o suficiente para rasgar a pele e a carne. O sangue escorreu e espirrou do corte em seu pescoço e eu a senti engasgar-se e o cheiro de merda e urina que saia dela nas contrações da morte. Não parei de puxar até que Cristina parou de debater-se e a cabeça praticamente separou-se do corpo. Larguei-a no chão e fui tomar banho.

No dia seguinte, comprei outro violino. Um melhor que o anterior.

A BELA

leave hear to heaven

Gene Tierney

OS PÁSSAROS

A Hitchcock The Birds

Há um eco do inexplicável, talvez sobrenatural, neste filme de Hitchcock. O velho tema do homem acuado pela mãe natureza aqui rende sequências que não são menos que clássicas. Obrigatório.

ASTRUD

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AUTOESTIMA MASCULINA

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Linha do trem.

INVERNO DE SANGUE EM VENEZA

Adoro este filme. A beleza. O horror. O vislumbre. Os pesadelos. As mortes. Julie Christie. Donald Sutherland. O the end.

sábado, 7 de maio de 2011

GRITO

José Marcelo

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O grito. Ouvi o grito na hora que deveria ouvir: no meio da noite. Na madrugada quente e mal dormida, esparramado na cama bagunçada e quente, quente demais. Era uma noite suada, um inferno entrecortado por vislumbres de sonhos ocos e trêmulos. Sonhos de prazer e cacos de vidros mastigados e sorrisos com babas escuras. Sonhos breves e de-repente interrompidos. Por um grito.

Eu acordei e já estava sentado, antes do fim do grito. Confuso, não sabia dizer de onde viera. Acendi a luz. Coloquei os pés descalços no chão. E estremeci. Era outro som agora. Também aterrorizante. Pancadas duras e secas, longas e agonizantes.

Olhei ao redor. Meus olhos enxergavam melhor agora a cela estreita e as barras que iam dar em um corredor mais estreito ainda.

Tornei a deitar-me e cobri os ouvidos com as mãos. Quase consegui não chorar.

BAHIA DE SANGUE

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É Mario Bava. Não se precisa dizer mais nada.

SOLAR

Ian McEwan

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Um trecho:

PARTE UM
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Ele pertencia àquele gênero de homens --vagamente feiosos, quase sempre carecas, baixos, gordos e inteligentes-- que exercem uma atração inexplicável sobre certas mulheres bonitas. Ou achava que pertencia, o que parecia ser suficiente para transformar o desejo em realidade. No que era ajudado pelo fato de algumas mulheres o tomarem por um gênio que precisava ser salvo. Entretanto, naquela altura da vida Michael Beard era um homem de funções mentais limitadas, desprovido de impulsos hedônicos, monotemático, ferido. Seu quinto casamento estava se desintegrando e ele deveria saber como se comportar, como enxergar as coisas numa perspectiva de longo prazo, como aceitar a culpa. E não era verdade que os casamentos, ou seus casamentos, se assemelhavam às marés, uma vazando pouco antes que outra subisse? Mas este era diferente. Ele não sabia o que fazer, a visão do futuro o machucava e, por uma vez, a seu juízo não lhe cabia nenhuma culpa. Sua mulher é que estava tendo um caso, e de forma ostensiva, para puni-lo, certamente sem sentir remorso algum. Em meio a outras emoções, ele se via exposto a momentos de intensa vergonha e desejo. Patrice estava se encontrando com o sujeito que fizera uma reforma na casa deles, aplicando argamassa entre os tijolos das paredes externas, instalando uma cozinha nova e substituindo os azulejos no banheiro, o mesmo indivíduo corpulento que, durante uma pausa para tomar chá, certo dia mostrara a Michael a fotografia da casa em falso estilo Tudor restaurada e tudorizada com suas próprias mãos --onde, no caminho cimentado para a garagem, se via uma lancha sobre um reboque debaixo de um lampião supostamente vitoriano e o espaço onde seria instalada uma desativada cabine telefônica vermelha. Beard havia se surpreendido ao descobrir como era complicado ser um corno. O sofrimento não era simples. Prova de que, mesmo tão tarde na vida, ele não estava imune a novas experiências.
Tinha de acontecer. As quatro mulheres anteriores --Maisie, Ruth, Eleanor e Karen--, que ainda mantinham um interesse longínquo por sua vida, teriam ficado exultantes, e ele esperava que ninguém lhes contasse nada. Nenhum dos casamentos durara mais de seis anos, e já era notável o fato de ele nunca haver tido filhos. Bem cedo, compreendendo que Beard tinha tudo para ser um pai horrível, elas haviam se protegido e tratado de dar o fora. Ele gostava de pensar que, se houvesse causado alguma infelicidade, nunca fora por muito tempo, não sendo à toa que mantinha um relacionamento amigável com todas as quatro.
Não, porém, com a atual. Em outros tempos, poderia haver imaginado que assumiria uma atitude cinicamente machista, com acessos de fúria assassina, talvez uma sessão de gritos no jardim dos fundos tarde da noite após se embriagar, ou o cancelamento do registro do carro dela enquanto cortejava deliberadamente uma mulher mais moça --em suma, se fazer de Sansão para derrubar o templo matrimonial. Em vez disso, estava paralisado pela vergonha, pela enormidade de sua humilhação. Pior ainda, surpreendia-se com o desejo inconveniente que sentia por ela. Naqueles dias, a vontade de possuir Patrice o acometia assim sem mais nem menos, como um ataque de cólicas. Era obrigado a sentar sozinho em algum canto e esperar que passasse. Aparentemente, havia certo tipo de marido que se excitava com a ideia de que sua mulher estava com outros homens. Eram capazes de conseguir que alguém os manietasse e amordaçasse, fechando-os à chave no armário do quarto enquanto, a poucos passos dali, sua cara-metade estava em plena função. Será que, enfim, Beard havia percebido ter uma queda pelo masoquismo sexual? Nenhuma mulher jamais parecera ou soara tão desejável quanto a esposa que ele de repente não podia mais possuir. Deixando claras suas intenções, viajou para Lisboa a fim de se encontrar com uma velha amiga, porém foram três noites sem alegria. Precisava ter sua mulher de volta, não ousando afastá-la de vez com berros, ameaças ou momentos brilhantes de insanidade. Nem era de sua natureza suplicar. Estava congelado, desprezível, não podia pensar em mais nada. Na primeira vez em que ela lhe deixou um bilhete --Vou passar a noite na casa do R. Patrice--, Beard deveria ter ido à reles casa geminada em falso estilo Tudor, com a lancha coberta na entrada da garagem e uma banheira no quintal diminuto, para arrebentar a cabeça do sujeito com sua própria chave-inglesa. Em vez disso, ficou vendo televisão durante cinco horas sem tirar o casacão, bebeu duas garrafas de vinho e tentou não pensar. Mas fracassou.

ZWEI AKTE IM RAUM

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Ernst Ludwig Kirchner

Ordinary finds.

HIERARQUIA INTELECTUAL

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Overdose homeopática.

CHANTELLE

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sexta-feira, 6 de maio de 2011

JOANINHA!

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Contratempos modernos.

ANNA Q.

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CONSELHOS LITERÁRIOS

Sérgio Rodrigues

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Não tenha preguiça de reescrever. O escritor que não reescreve o que acabou de escrever, mesmo que por pura mania, mesmo que para deixar o texto indiscutivelmente pior, não merece ser chamado de escritor. Será, no máximo, um excretor a sujar de palavras fisiológicas em estado bruto um mundo que não precisa de sua contribuição para se assemelhar a um aterro sanitário de símbolos. Se escrever dez linhas, reescreva-as dez vezes em dez horas, e mais dez vezes a cada dez horas dos dez dias seguintes: corte, amplie, pregue, serre, lixe, solde, cole, mude tempos verbais e a ordem dos parágrafos, exercite a sinonímia e a intolerância. (Este conselho, por exemplo, foi reescrito ao longo de nove meses de trabalho diário. Em sua primeira versão, dizia: nunca reescreva o que acabou de escrever.) E caso ocorra a circunstância nada improvável de retornar nesse processo de edição a um texto muito semelhante ao original, ou mesmo idêntico a ele, saiba que a sensação de tempo perdido será uma ilusão e que o fruto da reescritura, como o Quixote de Pierre Menard, terá por trás das mesmas palavras uma densidade incomparavelmente superior. Claro que também é preciso reconhecer o momento de parar de reescrever, aquele ponto a partir do qual, como nas cirurgias plásticas em série, qualquer nova mexida só pode resultar em desastre, mas isso não é tão difícil: ele costuma vir acompanhado do impulso de golpear repetidamente o cristal líquido com o teclado para ver qual quebra primeiro.

*

Todoprosa.

A BELA

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Monica Vitti

quinta-feira, 5 de maio de 2011

EMOÇÕES

Fausto Salvadori

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Então você finalmente conseguiu aquela garota que vinha embalando há semanas a trilha sonora das suas punhetas. E é claro que você acaba dando um chute para fora antes dos 15 minutos do primeiro tempo (lembrando que não dá para ir muito longe com comparações envolvendo sexo e futebol, então melhor passar para as metáforas bélicas).
Tudo bem, cara. Dali a pouco você estará recuperado, inclusive com mais munição de longo alcance para dar conta das necessidades do campo de batalha, e até lá você pode matar o tempo com a língua e os dedos que Deus lhe deu. Então, bola(s) para frente.
O que você não pode fazer é tentar se sair com uma desculpa sentimental:
— Sabe o que é, baby? Eu te queria há tanto tempo... Quando vi que estava dentro de você, eu fiquei emocionado.
Se você estiver comendo uma mulher de verdade, ela não vai perdoar.
— Você ficou O QUÊ?
— Emocionado...
— Emocionado? Então chorasse pelo olho e não pelo pau, porra!

Boteco sujo.

TARÂNTULAS

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quarta-feira, 4 de maio de 2011

O MAGO RETORNA

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Constantine de volta ao Universo DC.

O ÚLTIMO DOS INOCENTES

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CAMPO DE BATALHA

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__ um filme é um campo de batalha. é amor, ódio, ação, violência, morte. em uma palavra: emoção. ¨ Samuel Fuller

Filmes falam.

EUFRAT

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O HOMEM LENTO

J.M. Coetzee

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Um trecho:

O choque o colhe pela direita, duro, surpreendente e doloroso, como uma faísca elétrica, e levanta seu corpo da bicicleta. Relaxe!, ele diz a si mesmo enquanto voa pelo ar (voa pelo ar tão cheio de graça!)* e de fato sente os membros obedientemente moles. Como um gato, diz a si mesmo: role, depois se ponha de pé, pronto para o que vier em seguida. A palavra pouco usual limber ou limbre** também está à vista.

Mas não é bem assim que as coisas acontecem. Seja porque suas pernas desobedecem, seja porque de momento está tonto (ouve, mais do que sente, o impacto do crânio no asfalto, distante, oco, como um golpe de marreta), ele absolutamente não se levanta; ao contrário, desliza metro após metro, sem parar, até se sentir quase embalado pelo deslizar.

* "He flies through the air with the greatest of ease, this daring young man on his flying trapeze" ["Ele voa pelo ar tão cheio de graça, o ousado rapaz do trapézio voador"]: verso de uma conhecida canção norte-americana. (N. T.) ** Maleável. (N. T.)

Fica esticado no chão, em paz. É uma manhã gloriosa. O toque do sol é suave. Há coisas piores do que largar o corpo, esperar a força voltar. Na verdade, pode haver coisas piores do que tirar uma soneca rápida. Fecha os olhos; o mundo oscila debaixo dele, roda; ele apaga.

Por um momento, breve, volta a si. O corpo que voou tão leve no ar ficou pesado, tão pesado que não consegue levantar nem um dedo. E alguém está parado em cima dele, tirando-lhe o ar, um jovem de cabelo arrepiado e espinhas na testa. "Minha bicicleta", ele diz ao rapaz, enunciando a palavra difícil sílaba por sílaba. Quer perguntar o que aconteceu com sua bicicleta, se cuidaram dela, já que, como é bem sabido, uma bicicleta pode desaparecer num relâmpago; mas antes de chegarem essas palavras ele apaga de novo.

2.

Está sendo embalado de um lado para outro, transportado. De longe, chegam-lhe vozes, um tumulto que sobe e desce com ritmo próprio. O que está acontecendo? Se abrisse os olhos, saberia. Mas não consegue ainda. Alguma coisa está vindo até ele. Uma letra de cada vez, claque claque claque, uma mensagem sendo datilografada em uma tela rosada que treme como água cada vez que ele pisca e é, portanto, muito provavelmente, a parte interna de sua própria pálpebra. e-r-t-y, dizem as letras, depois f-r-i-v-o-l, depois um tremor, depois e, depois q-w-e-r-t-y, e assim por diante

Frivole.* É tomado por algo como pânico. Se retorce; da caverna interior um gemido cresce e explode de sua garganta.

"Dói muito?", diz uma voz. "Calma." A picada de uma agulha. Um instante depois, a dor é lavada, depois o pânico, depois a consciência em si.

Desperta em um casulo de ar morto. Tenta sentar-se, mas não consegue; é como se estivesse revestido de concreto. Em torno dele, uma brancura inexorável: teto branco, lençóis brancos, luz branca; também uma brancura granulosa como pasta de dentes velha em que sua mente parece envolta, de forma que não consegue pensar direito e se desespera. "O que é isso?", pronuncia ou talvez grite mesmo, querendo dizer O que é isto que está acontecendo comigo? ou Que lugar é este onde eu me encontro? ou mesmo Que destino é esse que me coube?

* Em francês, "frívolo". (N. T.)

Aparece do nada uma garota de branco, faz uma pausa, olha para ele vigilante. Em sua confusão mental, ele tenta criar uma interrogativa. Tarde demais! Com um sorriso e um tapinha tranqüilizador no braço que ele parece estranhamente ouvir, mas não sentir, ela segue seu rumo.

Isto é grave?: se houver tempo para uma pergunta apenas, a pergunta deverá ser essa, embora ele prefira não se deter no que a palavra grave possa significar. Ainda mais urgente, porém, que a questão da gravidade, mais urgente que a espreita da pergunta do que realmente aconteceu na rua Magill para atirá-lo nesse lugar morto, é a necessidade de encontrar seu rumo para casa, fechar a porta, sentar-se em ambiente familiar, recuperar-se.

Tenta tocar a perna direita, a perna que manda obscuros sinais de que agora é a perna errada, mas sua mão não sai do lugar, nada sai do lugar.

Minha roupa: talvez essa deva ser a inócua questão preparatória. Onde está minha roupa? Onde está minha roupa e até que ponto é grave a minha situação?

A garota flutua de novo para seu campo de visão. "Roupa", ele diz, com um imenso esforço, levantando o mais que pode as sobrancelhas para indicar urgência.

"Não se preocupe", diz a garota e dá-lhe a bênção de mais um de seus sorrisos, seus sorrisos positivamente angélicos. "Está tudo certo, tudo sob controle. O médico vem falar com o se- nhor daqui a pouquinho." E, de fato, antes que se passe um minuto um jovem que deve ser o médico mencionado se materializa ao lado da garota e murmura no ouvido dela.

"Paul?", diz o jovem médico. "Está me ouvindo? É esse mesmo o seu nome, Paul Rayment?"

"É", ele responde com cuidado.

"Bom dia, Paul. Deve estar se sentindo um pouco tonto agora. É porque tomou uma dose de morfina. Vamos entrar em cirurgia daqui a pouquinho. Você levou uma trombada, não sei até que ponto se lembra, e a sua perna ficou muito comprometida. Vamos dar uma olhada e ver quanto podemos salvar."

Ele arqueia as sobrancelhas de novo. "Salvar?", tenta dizer.

"Salvar sua perna", repete o médico. "Vamos ter de amputar, mas vamos salvar o que for possível."

Algo deve acontecer com o rosto dele nesse momento, porque o jovem faz uma coisa surpreendente. Estende a mão para tocar seu rosto e deixa a mão pousada ali, aninhando sua cabeça de velho. É o tipo de coisa que uma mulher poderia fazer, uma mulher com uma pessoa que amasse. O gesto o deixa constrangido, mas por educação não pode recuar.

"Vai confiar em mim?", diz o médico.

Tonto, ele pisca os olhos.

"Ótimo." Uma pausa. "Não temos escolha, Paul", diz ele. "Este não é um daqueles casos em que temos escolha. Você entende? Dá sua permissão? Não vou pedir que assine nada, mas temos o seu consentimento para prosseguir? Vamos salvar o que for possível, mas você levou uma pancada e tanto, o dano foi muito grande, não sei dizer agora se vamos conseguir salvar o joelho, por exemplo. O joelho foi quase completamente esmagado e uma parte da tíbia também."

Como se soubesse que estão falando a respeito dela, como se essas terríveis palavras a acordassem de um sono inquieto, a perna direita emite uma pontada de dor branca e aguda. Ele ouve a própria respiração entrecortada e depois o sangue latejando nos ouvidos

"Certo", diz o jovem, e dá-lhe um tapinha no rosto. "Hora de ir."

terça-feira, 3 de maio de 2011

A FERA

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Nicolas Cage

PALAVRA DO IMPERADOR

Dom Pedro II, 1876, 245

__ Não conheço missão maior e mais nobre que a de dirigir as inteligências jovens e preparar os homens do futuro. ¨ Dom Pedro II, O Magnânimo.

CALVIN, HAROLD E O SENTIDO DA VIDA

CHSV

Não me culpem pelo aspecto sinistro.

STEVIE

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UMA FOME

Leandro Sarmatz

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Um trecho:

Harry Abbott
Harry Abbott, o ator americano, um ex-viciado em metadona, estava ficando louco --pelo menos é o que andavam dizendo no set. Vivendo havia mais de três meses isolado na Amazônia com W.H., o diretor alemão, além de uma numerosa equipe de atores e figurantes das mais diversas nacionalidades, Abbott estava ali para protagonizar um filme fantasioso sobre ninguém menos que Adolf Hitler. O enredo deveria se concentrar na suposta captura de um Führer já octogenário, que sobrevivia como bicho no meio da floresta brasileira.
Às vezes Abbott chorava o dia inteiro, às vezes preferia ficar pelado dentro d’água até sair completamente murcho quatro horas mais tarde, ou então se punha a provocar alguém da equipe até que isso resultasse numa briga. Na maior parte do dia, porém, o ator parecia um autista ou alguém muito perturbado: olhar empastado, mãos entrelaçadas, murmurava algo completamente ininteligível. Ele não estava batendo bem, comentavam.
Talvez tivesse seus motivos. Aos 42 anos de idade e escondendo de todos o fato de que poucas horas antes da viagem à floresta seu médico em Los Angeles lhe havia diagnosticado um linfoma, Abbott era obrigado a suportar diariamente quatro penosas horas na barraca de maquiagem para parecer um velho em estado deplorável. Sinceramente, ninguém sabia como ele tolerava essa tortura. Na verdade, passava a maior parte do tempo embriagado. Após a maquiagem, era preciso que a equipe estivesse bem coordenada: as altas temperaturas e a umidade provocavam o suor, e este fazia a cara maquiada do ator se decompor em menos de uma hora de filmagem. Havia imensos ventiladores para onde quer que se voltasse o olhar, mas toda essa parafernália se mostrava inútil diante do poder da selva. O calor impregnava tudo como uma segunda pele. Aí só restava filmar cenas em que o Führer não aparecia ou então interromper o trabalho até o dia seguinte. Nem é preciso dizer o quanto essa rotina era desgastante para todos.

Para recriar um mínimo de condições civilizadas, fora montada uma espécie de assentamento indígena de luxo. Duas dezenas de barracas, dispostas segundo a lógica muito particular de W.H. --um diretor calejado em filmar em meio às dificuldades e em locações nos lugares mais inóspitos do planeta--, serviam de moradia, sala de preparação dos atores, refeitório, enfermaria, sala de reuniões. Esta última era destinada aos dois financiadores que apareciam de helicóptero uma vez por mês para conferir o andamento dos trabalhos, ficavam ali pouco mais de cinco horas e depois voltavam para Manaus, onde um jato particular os conduzia de volta à Europa. Havia também, é claro, a barraca particular de Abbott, que chamava a atenção por ser a maior de todas e que mais parecia o bangalô de um daqueles velhos administradores da África colonial.
Ninguém, nem mesmo o diretor alemão, se aventurava nesses domínios. Parte disso se devia a motivos concretos (exigência contratual), outra parte era preocupação sanitária. Que tipo de fedor e sujeira estariam à espera de um visitante? Quando não estava filmando ou se metendo em confusão, Abbott se encerrava na barraca e dali não saía sequer para realizar as refeições, único momento em que a equipe inteira, do diretor ao mais humilde dos operários do set --em sua maioria recrutados entre a população ribeirinha da região--, confraternizava sem hierarquia. Somente Lewgoy, um experiente ator brasileiro já na casa dos 60 anos, que fazia o papel de um famoso caçador de nazistas, vez por outra se arriscava a saber como Abbott estava passando. Aparentemente, suas visitas eram toleradas. Mas Lewgoy também sempre se esquivou de tocar no assunto com os outros.

A FERA

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Al Pacino