“You know how to whistle, dont you, Steve? You just put your lips together and blow.”
Marie Slim Browning (Lauren Bacall) em Uma Aventura na Martinica.
Um dia ideal para os peixes-banana e livros e cinema e gibis e nus e ataxia espinocerebelar e 𓋹
“You know how to whistle, dont you, Steve? You just put your lips together and blow.”
Marie Slim Browning (Lauren Bacall) em Uma Aventura na Martinica.
Uma aventura pulp maravilhosamente escrita e desenhada por Francesco Francavilla. Para ler, clique na imagem.
“Ela exigia ilusões, como outras mulheres exigem jóias.” (Henry Miller sobre Anais Nin)
Jorge Luís BorgesEste é o labirinto de Creta. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações.
Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra
se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como
Maria Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto.
Sheridan Le Fanu
Um trecho:
CAPÍTULO 1
Um pavor precoce
Embora não sejamos de modo algum pessoas muito ricas, aqui na Estíria* vivemos em um castelo, ou schIoss. Com uma pequena renda pode-se viver muito bem nessa parte do mundo. Oitocentas ou novecentas libras por ano - dinheiro que na Inglaterra nos deixaria muito aquém do padrão de vida das pessoas abastadas - aqui são capazes de fazer milagres. Meu pai é inglês e eu assino um nome inglês, embora jamais tenha estado na Inglaterra. E nessa terra solitária e primitiva, onde tudo é tão incrivelmente barato, não vejo como qualquer quantidade de dinheiro a mais pudesse aumentar nosso conforto material ou nos trazer mais luxo.
Meu pai, que serviu no Exército austríaco até se reformar com uma pensão e a renda de seu patrimônio, comprou essa residência feudal junto com a pequena propriedade que a circunda por um preço irrisório.
Nenhum lugar poderia ser mais pitoresco ou solitário. O castelo fica numa pequena elevação dentro de uma floresta. A estrada, estreita e muito antiga, passa diante da ponte levadiça - que jamais vi levantada, em toda minha vida - e do fosso alagado embaixo dela, repleto de carpas, navegado por muitos cisnes e com a superfície tomada por lírios d'água.
Sobre tudo isso se ergue o schloss com a fachada de muitas janelas, suas torres e a capela gótica.
A floresta se abre numa clareira irregular e muito pitoresca diante do portão e, à sua direita, uma antiga ponte gótica, como um arco de pedra, transporta a estrada por sobre um rio que se perde em curvas através das densas sombras da floresta.
Disse que era um lugar muito solitário, veja se não é verdade: partindo da porta de entrada, a floresta que circunda o castelo se estende quinze milhas para a direita e doze para a esquerda. A aldeia habitada mais próxima fica a mais ou menos sete de suas milhas inglesas para a esquerda, e o castelo vizinho, ainda ocupado e com algumas associações históricas, é o schloss do velho general Spielsdorf, que se situa a aproximadamente vinte milhas para a direita.
Disse "a aldeia habítada mais próxima" porque existe, a apenas três milhas para oeste, na direção do castelo do general Spieldorf, uma aldeia em ruínas, com sua pequena igreja, agora destelhada, ao lado da qual estão os túmulos cobertos de musgo da orgulhosa família - hoje extinta - dos Karnstein, antigos proprietários do castelo abandonado que, de dentro da floresta, avista as ruínas silenciosas da aldeia deserta.
Com relação às causas do abandono desse lugar melancólico, existe uma lenda que lhe contarei num outro momento.
Agora devo falar do pequeno grupo familiar que habita nosso schloss. Não incluo os empregados e dependentes que vivem no pavilhão anexo ao castelo. Ouça com espanto! Meu pai, que é o homem mais gentil do mundo - mas está ficando velho - e eu, que na época dessa história, há oito anos, tinha 19. Eu e meu pai constituímos toda a família no castelo. Minha mãe, dama de uma nobre família aqui da região de Graz, morreu na minha primeira infância, mas tive uma governanta, uma boa alma, que está comigo praticamente desde então. Não me lembro do tempo quando seu rosto gordo e bondoso não era uma imagem familiar e querida de minha memória. Chamada Madame Perrodon e nativa de Berna, seus cuidados e bondade de alguma forma compensaram a ausência de minha mãe, de quem não tenho nenhuma lembrança, tão pequena era quando a perdi. Era a terceira comensal em nosso pequeno grupo à mesa de jantar. Havia ainda uma quarta pessoa, Mademoiseile de Lafontaine, a senhora que fazia o que acredito vocês chamem finishing governess e falava francês e alemão. Madame Perrodon falava francês e alguma coisa parecida com inglês; eu e meu pai somávamos a isso nosso inglês que, por motivos patrióticos e para que não se perdesse como língua entre nós, usávamos todos os dias. O resultado era uma Babel que fazia rir os estranhos e que não tentarei reproduzir nessa narrativa. Havia ainda duas ou três jovens amigas, da minha própria idade, que nos visitavam ocasionalmente, por períodos curtos e longos; visitas que algumas vezes eu retribuía.
Eram esses nossos parcos recursos regulares de contato social. Havia, é claro, visitas esporádicas de nossos "vizinhos" de apenas cinco ou seis léguas de distância. Posso assegurar-lhe, no entanto, que ainda assim levava uma vida bastante solitária.
Minha governanta exercia tanto controle sobre mim quanto seria possível esperar de uma pessoa responsável sobre uma órfã de mãe, mimada por um pai que lhe permitia praticamente tudo.
O primeiro fato marcante da minha existência que produziu uma impressão terrível em minha mente, a qual, na verdade, nunca se apagou, foi um dos primeiros incidentes de que me lembro. Algumas pessoas pensariam que um fato tão banal não mereceria ser lembrado aqui; mas, com o seguir da narrativa, o senhor entenderá por que o menciono.
Dirigido Alfonso Cuarón y Carlos Cuarón.
"No hay mayor placer que dar placer ¿no?"
"La vida es como la espuma, por eso hay que darse como el mar."
“No es por amarillismo cabrón pero, qué pinche verga tan fea tienes cabrón, no mames pareces monje con capucha güey.”
”Llégale, confiésate güey. Órale cabrón.”
” Yo de esas cosas no sé.”
"¿Qué onda Charolastra, pásate unos “monchis”, ¿no?”
”¿Papitas?”
”¿Y eso de charo… charo qué?”
”¿Charolastras?”
”Sí ¿cómo es?”
”Mira charo-lastra, es una mezcla entre charola y astral y el charro lastre. ¿Suena chido no?”
”Más bien es que el Daniel no se sabía la letra de un rolononón en inglés, güey.”
Manifiesto Charolastra:
Uno: No hay honor más grande que ser un Charolastra.
Dos: Cada quien puede hacer de su culo un papalote.
Tres: Pop mata poesía.
Cuatro: Un toque al día, la llave de la alegría.
Cinco: No te tirarás a la vieja de otro Charolastra.
Seis: Puto el que le vaya al América.
Siete: Que muera la moral y que viva la chaqueta.
Ocho: Prohibido casarse con una virgen.
Nueve: Puto el que le vaya al América.
Diez: La neta es chida pero inalcanzable.
Once: Pierde la calidad de Charolastra, chicolastra el que sea culero para romper con cualquiera de los puntos anteiores.
“Pura caquita de chango.”
“Pues está rica para ser caquita, he.”
“Crescono, sentono lo stimolo della carne,
cadono in braccio al peccato:
bisogna impedirglielo!”
Começa o filme. Mãos feridas cavam a terra. A cova é rasa. O rosto da mulher é bonito, aflito. Seus cabelos longos e escuros caem pesadamente sobre seus olhos. A mulher tira o pequeno corpo da cova, uma criança meio putrefata que exibe ossos brancos e carne fétida. É um filme de Lucio Fulci. Nudez, assassinatos de crianças, ângulos estranhos. Assista.
David Byrne
Um trecho:
O problema da beleza
Matthias menciona um jovem pintor formado em Leipzig que agora está fazendo muito sucesso – um artista que ele preferiu não agenciar alguns anos atrás. Na época, ele achou que as pinturas era “bonitas demais”. Ele me explica que tem alguns problemas com a beleza – e sabe que esse preconceito nem sempre age em seu favor. Stefan cita o falecido Tibor Kalman – o designer para quem trabalhava e que também já trabalhou comigo muitas vezes – que costumava dizer: “Não tenho nada contra a beleza, mas ela não é muito interessante”.
Matthias diz que a beleza, por ser efêmera, frágil e inconstante, nos lembra a morte. Eu nunca teria feito esse tipo de conexão – isso me parece romântico demais, como os poemas de Rilke, mas entendo o que ele quer dizer. A morbidez da beleza. Hum. Acho que tratando-se de pessoas – um homem ou uma mulher de incrível beleza – isso me parece verdadeiro, já que essa beleza tende inevitavelmente a se exaurir até algum dia desaparecer por completo. Então, por esse prisma, folhear uma revista de moda é em essência, uma experiência trágica e melancólica. Bom, e pode ser mesmo, mas por outros motivos. Mas e as pessoas que envelhecem com dignidade – que com o passar dos anos ficam mais interessantes ou mais bonitas de um jeito menos tradicional? Para Matthias, uma visita ao Louvre seria deprimente. Muitas vezes, penso na beleza de uma música (algo que desaparece assim que você acaba de ouvir), da imagem efêmera de uma paisagem que irá se renovar (esperamos nós) ou de alguns tipos de objetos que às vezes ficam ainda mais bonitos conforme envelhecem e começam a mostrar sinais de uso e desgaste. Minha amiga C diz que o mesmo acontece com as pessoas – algumas delas demonstram o crescimento em suas feições, tendo um rosto muito infantil quando jovens, por exemplo, sem serem muito interessantes, mas que se firmam melhor como si mesmas assim que começam a mostrar mais idade. Elas não são muito bonitas quando jovens, não profundamente, pelo menos.
Algumas pessoas acham difícil definir a beleza – muitas vezes, as coisas que a princípio achamos feias ou estranhas acabam nos conquistando e descobrimos uma dimensão e uma beleza que podem ser muito mais profundas do que um mero encanto. A definição de beleza é complexa, inconstante e muda conforme o tempo. Ela não é absoluta, não pode ser determinada. Se isso for verdade, ninguém pode olhar para alguma coisa ou pessoa e dizer inequivocamente: “É belo”.
Em uma tentativa de defender a noção de um tipo absoluto de beleza, eu li que existem motivos evolucionários e biológicos que explicam nossos critérios para definir a beleza física das pessoas. Nascemos com preferências visuais inatas que tanto as pessoas como os animais usam para julgar a atratividade e a boa forma. Estudos indicam que a simetria, por exemplo, é evidência de um bom desenvolvimento fisiológico – ou seja, que feições faciais simétricas sinalizam uma maior chance de genes mais saudáveis e vigorosos. A implicação inerente nessa teoria é que nós podemos estar biologicamente programados para identificar certas coisas – bem como pessoas – bonitas. A outra implicação é que nós achamos essas pessoas bonitas na verdade por elas serem adequadas e desejáveis como parceiro reprodutivos. Nós a vemos como bonitas, mas estamos pensando em outra coisa.
Suspeito que se essa teoria for verdadeira, isso poderia se estender também a outras áreas estéticas – paisagens e decorações, por exemplo. Por que não? Afinal, algumas paisagens, com seu ambiente tão particular e único, não teriam motivado algum tipo de critério atemporal que serviu de indício para os nossos ancestrais de que ali seria um bom lugar para se viver, caçar, cultivar alimentos e conhecer um parceiro?
O rumo da conversa desvia em certo sentido para o antônimo da beleza – (…)
EXTRAÍDOS DE UMA ENTREVISTA COM JUAN-LUIS BUÑUEL:
Na Espanha, no início do século, entre 1915 e 1920, havia um ponto de encontro de intelectuais e de estudantes. Era "La residencia", em Madrid. EINSTEIN, por exemplo, vinha dar palestras, e FREUD, filósofos e cientistas vinham dar palestras, e lá meu pai foi estudar engenharia agrícola por que o pai dele queria que ele tivesse um trabalho decente. Ele estava mais interessado em literatura e poesia, mas, afinal estudou insetos. Ali ele encontrou, por sorte um jovem poeta chamado FEDERICO GARCÍA LORCA e um jovem pintor, SALVADOR DALÍ. Ficaram inseparáveis, três amigos que se influenciavam uns aos outros e que pouco a pouco ficaram surrealistas antes, digamos de ouvirem falar do movimento surrealista em Paris. Claro que também fizeram coisas de contestação social. Por exemplo: uma amiga deles se vestia como prostituta. Ela subia no bonde, no centro de Madrid e, na parada seguinte um deles, LORCA ou DALÍ, vestido de padre, subia no bonde e começava a molestar essa jovem prostituta. Era um escândalo! E na terceira parada meu pai, vestido de policial, subia e agarrava o padre e batia nele gritando: "por que padres sempre estão perseguindo prostitutas nas ruas?", o bonde todo ficava chocado. Eles desciam e iam beber juntos num bar.
Meu pai conheceu CHAPLIN em Hollywood, nos anos 30. Ao vê-lo, um dia, CHAPLIN disse que tinha visitantes da Europa e o convidou para a ceia de Natal. Haveria uma grande árvore e a única condição era trazer um presente para ser colocado sob a árvore. À meia-noite cada um pegaria um pacote diferente e todos teriam presentes. Meu pai achou isso muito burguês, bobo e infantil. Mas ele foi, com um outro amigo espanhol e levaram seus presentes. No jantar, ao lado da enorme árvore, meu pai disse que quando acenasse com o lenço, os dois se levantariam e derrubariam a árvore e pisariam em todos os presentes. No meio do jantar ele tirou o lenço e foram até a árvore, a derrubaram e pisaram nos pacotes. CHAPLIN os pôs para fora da casa. Eles deviam ter bebido. Uma semana depois, meu pai reviu CHAPLIN e CHAPLIN disse que fosse jantar naquela noite mesmo, que estava tudo bem, sem ressentimentos. Eles foram e, ao entrar, viram a árvore de Natal. CHAPLIN disse: "LUIS, derrube a árvore agora, assim jantaremos tranquilamente". Riram muito e jantaram bem, com muito gim.
Neil Gaiman
Um trecho:
O piloto do barco era alto, muito magro. Ele - se é que era um ser masculino - usava uma veste branca sem enfeites, e a cabeça pálida que estava em cima da roupa era tão completamente não-humana que Shadow teve certeza de que era algum tipo de máscara: era a cabeça de um pássaro, pequena em cima de um pescoço comprido, com o bico longo e alto. Shadow tinha certeza de já ter visto aquilo antes, aquela figura fantasmagórica, parecida com um pássaro.
Pingos d'água caíam da proa e da popa e ecoavam, e o rastro da embarcação fazia ondas nas águas envidraçadas. O barco era feito de junco, unido e amarrado.
- Olá - disse, sem mexer seu longo bico.
A voz era masculina e, como tudo mais na vida após a morte de Shadow até agora, familiar.
- Suba a bordo. Temo que você vá molhar os pés, mas não posso fazer nada. Estes barcos são velhos e, se eu chegar mais perto, posso cortar o fundo.
Shadow tirou os sapatos e pisou na água. Chegava até o meio das panturrilhas, e era, depois do choque inicial da umidade, surpreendentemente quente. Ele alcançou o barco e o piloto estendeu a mão e o puxou para bordo. O barco de junco balançou e um pouco de água entrou pelas laterais. Depois, nivelou-se.
- Eu conheço você - disse à criatura na proa.
- Conhece mesmo - confirmou o marinheiro. A lamparina pendurada na frente do barco queimava com mais irregularidade, c a fumaça que soltava fez com que Shadow tossisse.
- Você trabalhou para mim. Parece que foi necessário enterrar Lila Goodchild sem você.
A voz era exigente e precisa.
- Senhor Ibis?
- É bom ver você - disse a criatura, com a voz do senhor Ibis. - Você sabe o que é um psicopompo?
Shadow achou que conhecia a palavra, mas já fazia muito tempo. Sacudiu a cabeça.
- É um termo chique para escolta. Nós todos temos tantas funções, tantas maneiras de existir. Na minha visão de mim mesmo, eu sou um catedrático que vive calmamente, e anota seus pequenos contos, e sonha com um passado que pode ou não ter existido. E que é verdade, até onde sei. Mas eu também sou, em uma das minhas habilidades, como muitas das pessoas com quem você resolveu se associar, um psicopompo. Eu escolto os vivos para o mundo dos mortos.
- Eu pensei que este aqui fosse o mundo dos mortos - disse Shadow.
- Não. É mais uma preliminar, O barco escorregava e deslizava pela superfície espelhada do lago subterrâneo. E então o senhor Ibis falou, sem mexer o bico:
- Vocês falam sobre os vivos e sobre os mortos como se fossem duas categorias mutuamente excludentes. Como se um rio também não pudesse ser uma estrada, ou como se uma música não pudesse ser uma cor.
- Não pode - disse Shadow. - Pode?
- O que você precisa lembrar é que a vida e a morte são lados diferentes da mesma moeda. Como cara e coroa.
- E se eu tiver uma moeda com duas caras?
- Você não tem.
Shadow então sentiu um arrepio, enquanto cruzavam a água escura. Ele imaginou que via rostos de crianças debaixo da superfície espelhada da água, olhando para ele com reprovação: os rostos estavam encharcados e inchados, com olhos cegos turvos. Não havia vento naquela caverna subterrânea para per¬turbar a superfície negra do lago.
Gustavo Martins
Ao rever a foto, posso dizer que um homem é capaz de matar por um rostinho daqueles, exatamente aquela foto em que aparece o aparelho. Era uma “menina” de 19 e eu, praticamente, um criminoso.
Porém, se olhar bem para o meu rosto na época, eu também recendia inocência. Passei por muita coisa nestes últimos tempos para chegar até aqui, isso é que me deixou assim, errado como vocês me percebem.
Kinski loved the work and for pretty much the whole time on set he was happy, even though he would throw a tantrum maybe every other day. He was at ease with himself and the world at the time and loved to sit with his Japanese make-up artist Reiko Kruk for hours and hours. He would listen to Japanese music as she sculpted him every morning, putting his ears and fingernails on. We had to do the teeth and ears and shave his head every morning and just seeing him with this enormous patience was a fine sight. I would walk in and sit with him for fifteen minutes. We did not talk, we just looked at each other in the mirror and nodded at each other. He was good with the project, and he was good with himself.
Though the film is close to two hours and Klaus is on screen for maybe seventeen minutes, his vampire dominates absolutely every single scene. That is the finest compliment I can give him for his performance. Everything in the film works towards these seventeen minutes. His character is constantly present because of the story and the images which intensify this sense of doom and terror and anxiety. It took fifty years to find a vampire to rival the one [F.W.] Murnau created, and I say that no one in the next fifty years will be able to play Nosferatu like Kinski has done. This is not a prophecy, rather an absolute certitude. I could give you fifty years and a million dollars to find someone better than Kinski and you would fail.
-Werner Herzog, quoted in Herzog on Herzog
José Marcelo
__ Você já percebeu? O tempo sempre fica mais lento à essa hora.
__ Que hora?
__ Quando você não aguenta mais esperar o amanhecer.
__ Não. Não notei.
__ Claro que não.
__ O que quer dizer?
__ Nada.
__ Nada?
__ É. Nada. Vamos embora.
__ Agora? Ainda não. Vamos ficar mais um pouco. Quero dizer uma coisa.
__ O quê?
__
__ Diga logo. O quê?
__ Acabou.
__ O que acabou? Não. Eu sei o que quer dizer. Está falando de nós.
__ Sim. Você já havia percebido?
__ Já. Tinha.
__ E por que não falou nada?
__ Eu não queria.
__ Nem eu. Mas tem que ser assim.
__ Então, quem vai embora?
__ Eu vou.
__ Quando?
__ Agora.
Ele tirou a arma do porta-luvas, olhou a mulher que amara e sorriu. Depois enfiou a arma na boca e apertou o gatilho: bang e sua nuca estourou em um punhado de sangue e miolos que espalharam-se no banco de trás do carro. Sua mão caiu ao lado do corpo, ainda segurando a arma, apertando-a entre os dedos mortos.
A mulher não gritou e não chorou. A mulher abriu a porta do carro e saiu para a estrada de terra. Ficou um tempo olhando as árvores altas e escuras, sombras que tapavam as nuvens e as estrelas. Depois foi caminhando para casa.
A casa ficava no alto de uma colina, não muito longe de onde seu ex-amado acabara de se matar. Ela despiu-se e tomou um banho demorado, sentindo-se excitada ao lembrar-se das vezes em que ele a possuíra ali mesmo, sob a agua quente, entre o vapor branco que embaçava seus rostos em êxtase.
Deitou-se nua na cama que nunca fora tão grande e dormiu depressa. Acordou no meio da tarde com o barulho da sirene cada vez mais alto e, quando a policia chegou, já estava vestida.
Eles a levaram e ela nada disse. O que poderia dizer? O tempo dos dois havia acabado. Era tudo. Ele partira. Ela logo partiria. Era tudo e mais nada.
Eles disseram que ela estava em choque, só isso, em choque. Eles a internaram um tempo, depois simplesmente disseram que estava melhor e a soltaram.
Ela voltou para casa e o caminho passava pelo lugar onde ele se matara. Ali ela deitou-se e beijou o chão. Depois, enfim, foi para casa. Para a cama enorme e vazia. Onde deitou-se de pernas abertas e ficou molhada e, com seus dedos hábeis, chegou a um orgasmo a um tempo profundo e triste. Os bicos dos seis estavam duros e sensíveis, a boca macia, a respiração estava trêmula. Depois de estremecer e sentir as pernas enfraquecerem, ela chorou.
A irmã veio visita-la e encontrou-a morta. Estirada no quintal e rodeada de animais da floresta. Ela já estava meio apodrecida, mas nenhum deles a tocara.
Q. A critic who admires your work very much said that, in The Trial, you were repeating yourself…
Welles: Exactly, I repeated myself. I believe we do it all the time. We always take up certain elements again. How can it be avoided? An actor’s voice always has the same timbre and, consequently, he repeats himself. It is the same for a singer, a painter…There are always certain things that come back, for they are part of one’s personality, of one’s style. If these things didn’t come into play, a personality would be so complex that it would become impossible to identify it.
It is not my intention to repeat myself, but in my work there should certainly be references to what I have done in the past. Say what you will, but The Trialis the best film I ever made…I have never been so happy as when I made this film.”
-excerpted from Orson Welles: Interviews
Temei os profetas e aqueles que estão dispostos a morrer pela verdade, pois, em geral, farão morrer muitos outros juntamente com eles, frequentemente antes deles, por vezes no lugar deles.
Umberto Eco
Adoro Giallos: sangue, nudez, reviravoltas, muita violência. Um filme de Umberto Lenzi.
Caio Fernando Abreu
Estavam todos mais ou menos em paz quando o rapaz de blusa vermelha entrou agitado e disse que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros três interromperam o que estavam fazendo e ficaram olhando para ele sem dizer nada. Talvez não tivessem entendido direito, ou não quisessem entender. Ou não estivessem dispostos a interromper a leitura, sair da janela nem parar de comer a perna de galinha para prestar atenção em qualquer outra coisa, principalmente se essa coisa fosse Urano entrando em Escorpião, Júpiter saindo de Aquário ou a Lua fora de curso.
Era sábado à noite, quase verão, pela cidade havia tantos shows e peças teatrais e bares repletos e festas e pré-estréias em sessões da meia-noite e gente se encontrando e motos correndo e tão difícil renunciar a tudo isso para permanecer no apartamento lendo, espiando pela janela a alegria alheia ou tentando descobrir alguma lasca de carne nas sobras frias da galinha de meio-dia. Uma vez renunciado ao sábado, os três ali ouvindo um velho Pink Floyd baixinho para que, como da outra vez, os vizinhos não reclamassem e viessem a polícia e o síndico ameaçando aos berros acabar com aquele antro (eles não gostavam da expressão, mas era assim mesmo que os vizinhos, o síndico e a polícia gritavam, jogando livros de segunda mão e almofadas indianas para todos os lados, como se esperassem encontrar alguma coisa proibida) – renunciando pois ao sábado, e tacitamente estabelecida a paz com o baixo volume do som e a quase nenhuma curiosidade em relação uns aos outros, já que se conheciam há muito tempo, eles não queriam ser sacudidos no seu sossego sábia e modestamente conquistado, desde que a noite anterior revelara carteiras e bolsos vazios. Então olharam vagamente para o rapaz de camisa vermelha parado no meio da sala. E não disseram nada.
Aquele que tinha saído da janela fez assim como se estivesse prestando muita atenção na música, e falou que gostava demais daquele trechinho com órgão e violinos, que parecia uma cavalgada medieval. O rapaz de camisa vermelha percebeu que ele estava tentando mudar de assunto e perguntou se por acaso ele já tinha visto alguma vez na vida alguma cavalgada medieval. Ele disse que não, mas que com o órgão e todos aqueles violinos ao fundo ficava imaginando um guerreiro de armadura montado num cavalo branco, correndo contra o vento, assim tipo Távola Redonda, a silhueta de um castelo no alto da colina ao fundo – e o guerreiro era medieval, acentuou, disso tinha certeza. Ia continuar descrevendo a cena, pensou em acrescentar pinheiros, um crepúsculo, talvez um quarto crescente mourisco, quem sabe um lago até, quando a moça com o livro nas mãos tornou a baixar os óculos que erguera para a testa no momento em que o rapaz de camisa vermelha entrou, e leu um trecho assim:
Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco seria uma outra forma de loucura. Necessariamente porque o dualismo existencial torna sua situação impossível, um dilema torturante. Louco porque tudo o que o homem faz em seu mundo simbólico é procurar negar e superar sua sorte grotesca. Literalmente entrega-se a um esquecimento cego através de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua condição que são formas de loucura - loucura assumida, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas de qualquer maneira loucura.
Ernest Becker, A negação da morte
Quando ela parou de ler e olhou radiante para os outros, o que tinha saído da janela voltara para a janela, o rapaz de camisa vermelha continuava parado e meio ofegante no meio da sala enquanto o outro olhava para o osso descarnado da perna de galinha. Disse então que não gostava muito de perna, preferia pescoço, e isso era engraçado porque passara por três fases distintas: na infância, só gostava de perna, na casa dele aconteciam brigas medonhas porque eram quatro irmãos e todos gostavam de perna, menos a Valéria, que tinha nojo de galinha; depois, na adolescência, preferia o peito, passara uns cinco ou seis anos comendo só peito e agora adorava pescoço. Os outros pareceram um tanto escandalizados, e ele explicou que o pescoço tinha delícias ocultas, assim mesmo, bem devagar, de-lí-ci-as-o-cul-tas, e nesse momento o disco acabou e as palavras ficaram ressoando meio libidinosas no ar enquanto ele olhava para o osso seco.
O rapaz de camisa vermelha aproveitou o silêncio para gritar bem alto que Urano estava entrando em Escorpião. Os outros pareceram perturbados, menos com a informação e mais com o barulho, e pediram psiu, para ele falar baixo, se não lembrava do que tinha acontecido a última vez. Ele disse que a última vez não interessava, que agora Urano estava entrando em Escorpião, ho-je, falou lentamente, olhos brilhando. Ele estava lá há uns cinco anos, acrescentou, e os outros perguntaram ao mesmo tempo ele-quem-estava-onde? Urano o rapaz de camisa vermelha explicou, na minha Casa oito, a da Morte, vocês não sabem que eu podia morrer? e pareceria aliviado, não fosse toda aquela agitação. Os outros entreolharam-se e a moça com o livro nas mãos começou a contar uma história muito comprida e meio confusa sobre um garoto esquizofrênico que tinha começado bem assim, ela disse, a curtir coisas como alquimia, astrologia, quiromancia, numerologia, que tinha lido não sabia onde (ela lia muito, e quando contava uma história nunca sabia ao certo onde a teria lido, às vezes não sabia sequer se a tinha vivido e não lido). Acabou no Pinel, contou, é assim que começam muitos processos esquizóides. Olhou bem para ele ao dizer processos esquizóides, os outros dois pareceram muito impressionados e tudo, não se sabia bem se porque respeitavam a moça e a consideravam superculta ou apenas porque queriam atemorizar o rapaz de camisa vermelha. De qualquer forma, ficou um silêncio cheio de becos até que um dos outros se moveu da janela para virar o disco. E quando as bolhas de som começaram a estourar no meio da sala todos pareceram mais aliviados, quase contentes outra vez.
Foi então que o rapaz de camisa vermelha tirou da bolsa um livro que parecia encadernado por ele mesmo e perguntou se eles entendiam francês. Um dos rapazes jogou o osso de galinha no cinzeiro, como se quisesse dizer violentamente que não, olhando para o que estava na janela, e que já não estava mais na janela, mas sobre o tapete, remexendo nos discos. Parou de repente e olhou para a moça, que hesitou um pouco antes de dizer que entendia mais ou menos, e todos ficaram meio decepcionados. O rapaz de camisa vermelha falou baixinho que não tinha importância, e começou a ler um negócio assim:
Laposition de cet astre en secteur situe le lieu ou l’être dégage au maximum son indiuidualitéaans une voie de supersonnalisation, à lafaveur d’un développement d’énergie ou d’une croissance exagerée qui est moins une abondance de force de vie qu’une tension particulière d’enérgie. Ici, l’être tendà affirmer une volontélucide d’independence quipeutie conduire à une expression supérieure et originaledesapersonalité. Dans la dissonance, son exigence conduit à l’insensibilité, à la dureté, à l’excesszf à l’extremisme, au jusqu’au’boutisme, à l’aventure, aux bouleversements.
André Barbault, Astrologie
Parou de ler e olhou para os outros três devagar, um por um, mas só a moça sorriu, dizendo que não sabia o que era bouleversements. Um dos rapazes lembrou que boulevard era rua, e que portanto devia ser qualquer coisa que tinha a ver com rua, com andar muito na rua. Ficaram dando palpites, um deles começou a procurar um dicionário, o rapaz de blusa vermelha olhava de um para outro sem dizer nada. Depois que todos os livros foram remexidos e o dicionário não apareceu e o outro lado do disco também terminou, ele repetiu separando bem as sílabas e com uma pronúncia que os outros, sem dizer nada, acharam ótima:
L’être tendà affirmer une volonté lucide d’independence qui peut le conduire à une expression supérieure et originale de sapersonalité.
Então perguntou se os outros entendiam, eles disseram que sim, era parecidinho com português, lucide, por exemplo, e originale, era superfácil. Mas não pareciam entender. Aí os olhos dele ficaram muito brilhantes outra vez, parecia que ia começar a chorar quando de repente, sem que ninguém esperasse, deu um salto em direção à janela gritando que ia se jogar, que ninguém o compreendia, que nada valia mais a pena, que estava de saco cheio e não apostava um puto na merda de futuro.
O rapaz de camisa vermelha chegou a colocar uma das pernas sobre o peitoril, abrindo os braços, mas os outros dois o agarraram a tempo e o levaram para o quarto, perguntando muito suavemente o que era aquilo, repetindo que ele estava demais nervoso, e que estava tudo bem, tudo bem. A moça de óculos ficou segurando a mão dele e passando os dedos no seu cabelo enquanto ele chorava, um dos rapazes disse que ia até a cozinha fazer um chá de artemísia ou camomila, a moça falou que cidró é que era bom pra essas coisas, o outro falou que ia colocar aquele disco de música indiana que ele gostava tanto, embora todo mundo achasse chatíssimo, só que precisou botar bem alto para que pudessem ouvir do quarto. O chá veio logo, quente e bom, apareceu um baseado que eles ficaram fumando juntos, um de cada vez, e tudo foi ficando muito harmonioso e calmo até que alguém começou a bater na porta tão forte que pareciam pontapés, não batidas.
Era o síndico, pedindo aos berros para baixar o som e falando aquelas coisas desagradáveis de sempre. A moça de óculos disse que sentia muito, mas infelizmente naquela noite não podia baixar o volume do som, não era uma noite como as outras, era muito especial, sentia muito. Tirou os óculos e perguntou se o síndico não sabia que Urano estava entrando em Escorpião.
Lá no quarto, o rapaz de blusa vermelha ouviu e deu um sorriso largo antes de adormecer com os outros segurando nas suas mãos. Então sonhou que deslizava suavemente, como se usasse patins, sobre uma superfície dourada e luminosa. Não sabia ao certo se um dos anéis de Saturno ou uma das luas de Júpiter. Talvez Titã.
“Eu inventei todas as festas, todos os triunfos, todos os dramas; tentei inventar novas flores, novos astros, uma nova linguagem. Acreditei que tinha poderes sobrenaturais… Que nada! Devo enterrar minha imaginação e minhas lembranças! Uma bela glória de artista e de criador arrebatado!” Rimbaud
Laura Restrepo
Um trecho:
— Preciso saber como foi — Mateo diz à sua mãe.
— O lance obscuro, quero saber exatamente como foi.
— Já te contei mil vezes — ela responde.
O próprio Mateo o tinha batizado assim, o lance obscuro, porque o que aconteceu naquela vez foi nocivo, mas também porque estava sepultado sob uma montanha de meias verdades. O pior de tudo era sua falta de lembranças; aquilo tinha acontecido quando ele era pequeno demais para fixar na memória. Bengaladas de cego. Era uma expressão que tinha ouvido por aí. Ele se sentia assim, dando bengaladas de cego em meio a uma história que não compreendia, mas de que fazia parte e que o prendia como uma rede.
— Vamos, Lolé — diz Mateo, suavizando a voz e chamando-a assim, Lolé, como quando era pequeno. Agora prefere chamá-la por seu nome, Lorenza, e quando se irrita com ela a chama de mãe.
— Vamos, Lolé, me conte de novo. Vamos começar pelo negócio do parque.
— Você tinha dois anos e meio. Era uma quinta?feira, de tarde. Nós três estávamos em Bogotá, no parque da Independência.
— E ele usava um suéter grosso de lã.
— Pode ser.
— Vi nas fotos que ele usava suéteres grossos de lã.
— Suéteres não, pulôveres.
— Pulôveres? O que são?
— Suéteres. É que ele dizia assim, pulôver. Nós, colombianos, dizemos suéter. Os argentinos dizem pulôver. Ridículo: em inglês são as duas coisas.
— O que eu quero saber é se também nessa tarde, no parque, ele estava com um pulôver grosso de lã.
— Sei lá. O que eu me lembro mesmo é que andava com o cabelo comprido. Na Argentina tinha que andar com ele curto, a ditadura não tolerava cabeludos. Mas deixou crescer ao chegar à Colômbia. Se quer saber como era teu pai, Mateo, dê uma olhada no espelho e se veja com uns dez anos mais. Ramón era assim naquele tempo.
— Não é verdade, eu não tenho os ombros largos. Meu tio Patrick me contou que Ramón tinha os ombros largos.
— Logo você vai ter também.
— E aquela tarde no parque?
— Estamos passeando, Ramón e eu, e levamos você pela mão. O céu é de um azul hortênsia, como são os céus de Bogotá quando…
— Não quero saber como são os céus de Bogotá — diz Mateo. — Quero entender o que aconteceu.
Às vezes Lorenza diz ao filho que o mais horroroso do lance obscuro é que aconteceu exatamente quando o horror estava para terminar. A ditadura argentina ia ficando para trás, e Ramón e ela tinham sobrevivido à clandestinidade. Depois de cinco anos militando juntos na resistência, tinham se afastado do partido e abandonado o país, desconcertados como monges que saíram do mosteiro e enfiaram o nariz no mundo lá fora. Para Lorenza, que era colombiana, a mudança não havia sido tão difícil; no fim das contas a volta a Bogotá tinha permitido que ela estivesse de novo com sua gente, num mundo conhecido em que se reintegrou sem muito drama. Ramón, em troca, sendo argentino, ficou flutuando no ar. Acabou por detestar tudo o que o rodeava, achou a família dela detestavelmente burguesa e começou a ver a própria Lorenza como um ser desconhecido que pouco tinha a ver com a mulher por quem havia se apaixonado em Buenos Aires. Uma vez quebrada a cumplicidade que os unira durante a clandestinidade, tinham se transformado em dois estranhos.
— Em Bogotá teu pai se tornou invisível pra mim — Lorenza confessa ao filho.
— Como invisível? Ninguém fica invisível.
— Talvez eu andasse ocupada demais com você, com o trabalho, com a família, vai ver comigo mesma. É, essas coisas costumam acontecer com pessoas muito unidas em tempos de perigo. O perigo passa, aí descobrem que só isso as unia. A verdade é que já não achava lugar pra teu pai. Imagina um casaco muito pesado em pleno verão.
— Um pulôver de lã em pleno verão.
— Você não sabe o que fazer com isso, não pertence a esse momento, nem a esse lugar. E Ramón também não ajudava. Começou a se comportar de uma maneira, digamos, esquisita. Não conseguia entender o que era a vida fora do partido. Bem, era mais sério ainda, acho que não conseguia entender como se vive sem a ditadura, sem ter um inimigo pela frente a quem você deve destruir pra que não te destrua. Tudo isso fez com que a convivência se tornasse um mal?estar permanente, e nos separamos.
— Pare, Lorenza. Nos separamos? Você diz nos separamos e fim de papo? Quem se separou? De quem foi a ideia da separação?
— Minha. (...)
“Seja grande ou pequeno, tudo que você faz tem consequências, assim como na água, seja uma pedra ou um grão de areia, ambos afundam.”
José Marcelo
- Eu tenho que acreditar.
Em você, quero dizer.
- Não faça isso. É estupidez.
- Por quê?
- Você não sabe? Sou um mentiroso. Não é por mal.
É apenas algo patológico. O médico que disse.
- Quer dizer
- Que eu tenho licença clinica para mentir.
- Isso não existe.
- Existe e posso provar.
- Então prove.
- Tenho um papel aqui, em algum lugar. Só não me lembro onde.
Em algum lugar.
- Você está mentindo.
- De que adianta ter uma licença para qualquer coisa, se não usá-la.
- Não tem graça. Nenhuma graça.
- Acenda a luz.
- Não.
- Por que não?
- Não. Não quero. Não quero.
- O que foi?
- Não sei. Estou
- Arrependida?
- Não, não é isso.
- O que é então?
- Não sei. É uma sensação
Como se fosse tudo acabar ao acender a luz. Como se o nosso tempo aqui tivesse acabado.
- Mas acabou. Acabou ontem.
- Ontem?
- Não percebeu? Nas cortinas. Olhe.
Já está amanhecendo.
- Por que a noite não pode durar?
Eu te amo. Você sabe disso, não é? Que eu te amo.
- Amava.
Nosso tempo acabou.
Tom Ripley é charmoso e inteligente e inescrupuloso e amoral e capaz de roubar e mentir e assassinar sem nenhum remorso. Talvez por tudo isso, ele seja tão fascinante. Lapidado pela talentosíssima Patricia Highsmith em uma série de livros policiais cheios de reviravolta, humor e suspense, o senhor Ripley tem um sorriso dos mais sedutores, aquele tipo de sorriso sempre acompanhado de uma arma oculta.