Hunter S. Thompson
Um dia ideal para os peixes-banana e livros e cinema e gibis e nus e ataxia espinocerebelar e 𓋹
quinta-feira, 26 de maio de 2011
quarta-feira, 25 de maio de 2011
A IMPORTÂNCIA DA TOALHA
A toalha é um dos objetos mais úteis para um mochileiro interestelar. Em parte devido a seu valor prático: você pode usar a toalha como agasalho quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla; pode deitar-se sobre ela nas reluzentes praias de areia marmórea de Santragino V, respirando os inebriantes vapores marítimos; você pode dormir debaixo dela sob as estrelas que brilham avermelhadas no mundo desértico de Kakrafoon. Pode usá-la como vela para descer numa mini jangada as águas lentas do rio Moth.
Pode umedecê-la e utilizá-la para lutar em combate corpo a corpo; enrolá-la em torno da cabeça para proteger-se de emanações tóxicas ou para evitar o olhar da Terrível Besta Voraz de Traal (um animal estonteantemente burro, que acha que, se você não pode vê-lo, ele também não pode ver você – estúpido feito uma anta, mas muito, muito voraz). Você pode agitar a toalha em situações de emergência para pedir socorro. E naturalmente pode usá-la para enxugar-se com ela se ainda estiver razoavelmente limpa.
Porém o mais importante é o imenso valor psicológico da toalha. Por algum motivo, quando um estrito (isto é, um não-mochileiro) descobre que um mochileiro tem uma toalha, ele automaticamente conclui que ele tem também escova de dentes, esponja, sabonete, lata de biscoitos, garrafinha de aguardente, bússola, mapa, barbante, repelente, capa de chuva, traje espacial, etc., etc.
Além disso, o estrito terá prazer em emprestar ao mochileiro qualquer um desses objetos, ou muitos outros, que o mochileiro por acaso tenha “acidentalmente perdido”. O que o estrito vai pensar é que, se um sujeito é capaz de rodar por toda a Galáxia, acampar, pedir carona, lutar contra terríveis obstáculos, dar a volta por cima e ainda assim saber onde está sua toalha, esse sujeito claramente merece respeito.
Douglas Adams
PRATICAMENTE INOFENSIVA
A história da Galáxia ficou meio confusa por vários motivos: em parte porque aqueles que tentavam acompanhá-la ficaram meio confusos, mas também porque coisas incrivelmente confusas aconteceram de fato.
Um dos problemas tem a ver com a velocidade da luz e com as dificuldades encontradas em tentar ultrapassá-la. Não dá. Nada viaja mais rápido do que a velocidade da luz, com exceção talvez das más notícias, que obedecem a leis próprias e especiais.Os Hingefreel de Arkintoofle Menor bem que tentaram construir naves espaciais movidas a más notícias, mas elas não funcionavam particularmente bem e, como eram extremamente mal recebidas sempre que chegavam a algum lugar, não fazia o menor sentido estar lá.
Douglas Adams
ATÉ MAIS E OBRIGADO PELOS PEIXES
Oito horas a oeste, um homem sozinho estava sentado em uma praia, lamentando uma perda inexplicável. Só conseguia refletir sobre essa perda em pequenos pacotes de dor um de cada vez, porque se pensasse na coisa toda seria grande demais para suportar.
Observava as grandes e lentas ondas do Pacífico avançando pela areia e esperava e esperava pelo nada que sabia que estava prestes a acontecer. Quando chegou a hora de nada não acontecer, realmente nada não acontecia e assim a tarde se consumia e o sol descia por trás da longa linha do mar e o dia chegava ao fim.
A praia era uma praia cujo nome não vamos citar, porque era onde ficava a sua casa particular, mas era uma pequena faixa arenosa dentre as centenas de milhas do litoral que parte de Los Angeles rumo ao oeste - o mesmo que é descrito em um verbete da nova edição do Guia do Mochileiro das Galáxias como "enlodada, enlameada, emporcalhada, embostada e mais aquela outra palavra que esqueci, além de várias outras coisas ruins", e em outro, escrito poucas horas depois, como "parecido com milhares de milhas quadradas de impressos de marketing do American Express, mas sem mesmo sentido de profundidade moral. E, além disso, por algum motivo o ar é amarelo".
O litoral estende-se pelo oeste, depois faz uma curva em direção ao norte até a nevoenta baía de São Francisco, que o Guia descreve como "um bom lugar para ir. É fácil acreditar que todo mundo que você encontra por lá também é um espacial. Fundar uma nova religião para você é a a que eles usam para dizer 'oi'. Até que você esteja inslado e tenha dominado a manha do lugar é melhor dizer não para três de cada quatro perguntas que lhe fizerem, porque existem coisas estranhíssimas acontecendo por lá e muitas podem ser letais para um alienígena desprevenido". As centenas de milhas sinuosas de penhascos e areia, palmeiras, arrebentações e entardeceres são descritas no Guia como "Impressionante. Mesmo".
E em algum lugar neste longo trecho de litoral ficava a casa desse homem inconsolável, um homem que muitos achavam ser louco. Mas apenas porque, dizia ele às pessoas, ele era louco mesmo.
Um das inúmeras razões pela qual as pessoas achavam que ele era louco era a peculiaridade da sua casa, que, mesmo em uma terra onde a maioria das casas era peculiar de uma maneira ou de outra, era bastante radical em sua peculiaridade.
A sua casa se chamava O Exterior do Asilo. O seu nome era simplesmente John Watson, embora ele preferisse ser chamado - e alguns dos seus amigos haviam relutantemente concordado com isso agora - de
Wonko, o São. Na sua casa havia várias coisas estranhas, incluindo um aquário de vidro acinzentado com seis palavras gravadas nele.
Podemos falar sobre ele bem mais tarde - esse foi apenas interlúdio para apreciar o pôr do sol e para dizer que ele estava lá, apreciando-o também.
Perdera tudo o que mais amava e agora estava simplesmente esperando o fim do mundo - sem saber que já tinha chegado e passado.
Douglas Adams
A VIDA, O UNIVERSO E TUDO MAIS
- Quero ouvir seu discurso – respondeu o colchão.
- Eis o que eu disse. Disse: “Gostaria de dizer que é um grande prazer, uma enorme honra, e um privilégio para mim inaugurar esta ponte, mas não posso fazer isso porque todos os meus circuitos de falsidade estão fora de ação. Eu odeio e desprezo todos vocês. A partir deste momento, declaro esta miserável ciberestrutura aberta aos abusos inimagináveis de todos aqueles que irão petulantemente cruzá-la.
Douglas Adams
O RESTAURANTE NO FIM DO UNIVERSO
Um imenso animal leiteiro aproximou-se da mesa de Zaphod Beeblebrox. Era um enorme e gordo quadrúpede do tipo bovino, com grandes olhos protuberantes, chifres pequenos e um sorriso nos lábios que era quase simpático.
- Boa noite – abaixou-se e sentou-se pesadamente sobre suas ancas -, sou o Prato do Dia. Posso sugerir-lhes algumas partes do meu corpo? – Grunhiu um pouco, remexeu seus quartos traseiros buscando uma posição mais confortável e olhou pacificamente para eles.
Seu olhar se deparou com olhares de total perplexidade de Arthur e Trillian, uma certa indiferença de Ford Prefect e a fome desesperada de Zaphod Beeblebrox.
- Alguma parte do ombro talvez? – sugeriu o animal. – Um guisado com molho de vinho branco?
- Ahn, do seu ombro? – Disse Arthur, sussurrando horrorizado.
- Naturalmente que é do meu ombro, senhor – mugiu o animal, satisfeito -, só tenho o meu para oferecer.
Zaphod levantou-se de um salto e pôs-se a apalpar e sentir os ombros do animal, apreciando.
- Ou a alcatra, que também é muito boa – murmurou o animal. – Tenho feito exercícios e comido cereais, de forma que há bastante carne boa ali. – Deu um grunhido brando e começou a ruminar. Engoliu mais uma vez o bolo alimentar. – Ou um ensopado de mim, quem sabe? – acrescentou.
- Você quer dizer que este animal realmente quer que a gente o coma? – cochichou Trillian para Ford.
- Eu? – disse Ford com um olhar vidrado. – Eu não quero dizer nada.
- Isso é absolutamente horrível – exclamou Arthur -, a coisa mais repugnante que já ouvi.
- Qual é o problema, terráqueo? – disse Zaphos, que agora observava atentamente o enorme traseiro do animal.
- Eu simplesmente não quero comer um animal que está na minha frente se oferecendo para ser morto – disse Arthur. – É cruel!
- Melhor do que comer um animal que não deseja ser comido – disse Zaphod.
- Não é essa a questão – protestou Arthur. Depois pensou um pouco a respeito. – Está bem – disse -, talvez essa seja a questão. Não me importa, não vou pensar nisso agora. Eu só… ahn…
O Universo enfurecia-se em espasmos mortais.
- Acho que vou pedir uma salada – murmurou.
- Posso sugerir que o senhor pense na hipótese de comer o meu fígado? Deve estar saboroso e macio agora, eu mesmo tenho me mantido em alimentação forçada há meses.
- Uma salada verde – disse Arthur, decididamente.
- Uma salada? – disse o animal, lançando um olhar de recriminação para ele.
- Você vai me dizer – disse Arthur – que eu não deveria comer uma salada?
- Bem – disse o animal -, conheço muitos legumes que têm um ponto de vista muito forte a esse respeito. E é por isso, aliás, que por fim decidiram resolver de uma vez por todas essa questão complexa e criaram um animal que realmente quisesse ser comido o que fosse capaz de dizê-lo em alto e bom tom. Aqui estou eu!
Conseguiu inclinar-se ligeiramente, fazendo uma leve saudação.
- Um copo d’água, por favor – disse Arthur.
- Olha – disse Zaphod -, nós queremos comer, não queremos uma discussão. Quatro filés malpassados, e depressa. Faz 576 bilhões de anos que não comemos.
O animal levantou-se. Deu um grunhido brando.
- Uma escolha muito acertada, senhor, se me permite. Muito bem – disse -, agora é só eu sair e me matar.
Voltou-se para Arthur e deu uma piscadela amigável.
- Não se preocupe, senhor, farei isso com bastante humanidade.
Encaminhou-se gingando para a cozinha.
Pouco tempo depois o garçom aparece com quatro enormes filés fumegantes. Zaphod e Ford avançaram sobre ele sem pensar duas vezes. Trillian pensou, sacudiu os ombros e se serviu.
Arthur olhou para o céu, sentindo-se levemente enjoado.
- Ei, terráqueo – disse Zaphod, com um sorriso malicioso na boca que não estava se empanturrando -, que bicho te mordeu?
E a banda continuava tocando.
Douglas Adams
O GUIA DO MOCHILEIRO DAS GALÁXIAS
O Guia do Mochileiro das Galáxias – um livro que não é da Terra, jamais foi publicado na Terra e, até o dia em que ocorreu a terrível catástrofe, nenhum terráqueo jamais o tinha visto ou sequer ouvido falar dele. Apesar disso, é um livro realmente extraordinário. Na verdade, foi provavelmente o mais extraordinário dos livros publicados pelas grandes editoras de Ursa Menor – editoras das quais nenhum terráqueo jamais ouvira falar, também.
O livro é não apenas uma obra extraordinária como também um tremendo bestseller - mais popular que a Enciclopédia Celestial do Lar, mais vendido que Mais Cinqüenta e Três Coisas para se Fazer em Gravidade Zero, e mais polêmico que a colossal trilogia filosófica de Oolonn Colluphid, Onde Deus Errou, Mais Alguns Grandes Erros de Deus e Quem É Esse Tal de Deus Afinal?
Em muitas das civilizações mais tranqüilonas da Borda Oriental da Galáxia, O Guia do Mochileiro das Galáxias já substituiu a grande Enciclopédia Galáctica como repositório-padrão de todo conhecimento e sabedoria, pois ainda que contenha muitas omissões e textos apócrifos, ou pelo menos terrivelmente incorretos, ele é superior à obra mais antiga e mais prosaica em dois aspectos importantes. Em primeiro lugar, é ligeiramente mais barato; em segundo lugar, traz impressa na capa, em letras garrafais e amigáveis, a frase NÃO ENTRE EM PÂNICO.
Douglas Adams
ZERO
Sabe-se que há um número infinito de mundos, simplesmente porque há um espaço infinito para que os haja. Todavia, nem todos são habitados. Assim,deve haver um número finito de mundos habitados. Qualquer número finito dividido pelo infinito é tão perto de zero que não faz diferença, de forma que a população de todos os planetas do Universo pode ser considerada igual a zero. Daí segue que a população de todo o Universo também é zero, e que quaisquer pessoas que você possa encontrar de vez em quando são meramente produtos de uma imaginação perturbada.
Douglas Adams
IR, ESTAR
Eu posso não ter ido para onde eu pretendia ir, mas eu acho que acabei terminando onde eu pretendia estar.
Douglas Adams
DON’T PANIC
Há uma teoria que indica que sempre que qualquer um descobrir exatamente o que, para que e porque o universo está aqui, o mesmo desaparecerá e será substituído imediatamente por algo ainda mais bizarro e inexplicável... Há uma outra teoria que indica que isto já aconteceu.
Douglas Adams
HOJE É O DIA DA TOALHA
Humans think they are smarter than dolphins because we build cars and buildings and start wars etc…and all that dolphins do is swim in the water, eat fish and play around. Dolphins believe that they are smarter for exactly the same reasons.
Douglas Adams
O DIA DA TOALHA
A ciência conseguiu algumas coisas fantásticas, não vou negar, mas acho mais importante estar feliz do que estar certo.
Douglas Adams
terça-feira, 24 de maio de 2011
TUDO ACONTECE
Anything that happens, happens.
Anything that, in happening, causes something else to happen, causes something else to happen.
Anything that, in happening, causes itself to happen again, happens again.
It doesn’t necessarily do it in chronological order, though.
Douglas Adams
TRÓPICO DE CÂNCER
Henry Miller
Um trecho:
À noite, quando olho o cavanhaque de Boris estendido sobre o travesseiro, fico histérico. Ó, Tânia, onde estão agora aquela sua boceta quente, aquelas ligas gordas e pesadas, aquelas coxas macias e arredondadas? Em meu membro há um osso de quinze centímetros de comprimento. Tânia, alisarei todas as pregas de sua vulva, cheia de semente. Mandá-la-ei de volta para seu Sylvester com a barriga doendo e o útero virado. Seu Sylvester! Sim, ele sabe acender um fogo, mas eu sei inflamar uma vagina. Enfiarei pregos quentes em você, Tânia. Deixarei seus ovários incandescentes. Seu Sylvester agora está um pouco ciumento? Ele sente alguma coisa, não sente? Sente os remanescentes de meu grande membro. Deixei as margens um pouco mais largas. Alisei as pregas. Depois de mim, você pode receber garanhões, touros, carneiros, cisnes e São Bernardos. Pode enfiar pelo reto sapos, morcegos, lagartos. Você pode defecar arpejos ou amarrar uma cítara sobre o umbigo. Eu estou fodendo, Tânia, para que você fique fornicada em público, eu fornicarei privativamente. Arrancarei alguns pelos de sua vulva e os grudarei no queixo de Boris. Morderei seu clitóris e cuspirei moedas de dois francos…
segunda-feira, 23 de maio de 2011
O CONTO SEGUNDO H. P. LOVECRAFT
Quanto a como eu escrevo um conto: não há um único modo. Cada um de meus contos tem uma história diferente. Uma ou duas vezes, eu literalmente relatei um sonho; mas usualmente eu começo com uma atmosfera ou uma ideia que gostaria de expressar, e a reviro em minha mente até que eu possa pensar em uma boa maneira de incorporá-la em alguma sequência de ocorrências dramáticas capaz de ser relatada em termos concretos. Costumo fazer uma lista mental das condições ou situações básicas melhor adaptáveis a essa atmosfera, ou ideia, ou imagem, e então começo a especular a respeito das explicações lógicas e naturais de uma certa atmosfera ou ideia ou imagem nos termos das condições e situações básicas escolhidas.
MALDITA SEGUNDA-FEIRA
José Marcelo
As pessoas são estúpidas. Porque são acomodadas. Porque são preguiçosas. Têm desculpa para tudo e para não fazer nada. É. Todo mundo sabe disso. Nenhuma novidade e foda-se a humanidade. Foda-se. Esqueça isso. Não é nada. Mal e mau humor de segunda-feira. Vamos falar de coisas mais agradáveis…
Ele largou o notebook sobre a cama, foi ao banheiro, onde deu uma longa e prazerosa mijada. Olhou-se no espelho. Estava ficando barrigudo. Estava ficando velho. Estava puto e não tinha certeza sobre o quê. Que dia melhor pra ficar puto, pensou. Maldita segunda-feira. Bateram na porta. Pensou em fingir que não havia ninguém em casa. Depois pensou melhor. Foi atender. Era Mariana. Ela estava linda. Ela foi logo entrando.
__ Ainda não tá pronto? __ ela disse.
__ Não __ respondeu ele, sentando-se no sofá. __ Eu não vou.
__ Claro que vai.
__ Não, não vou.
__ O que foi agora? __ Mariana cruzou os braços e olhou-o como se ele fosse uma criança birrenta.
__ Estou pensando em escrever um livro de auto-ajuda, mas ao contrário. Um que jogue na cara das pessoas o quanto elas são estúpidas. Um que demonstre que as pessoas não têm conserto. Nem final feliz. Shakespeare disse ou escreveu que no final tudo acaba bem. Porra, no final tem a morte. Nada acaba bem. Acaba em podridão.
__ Elas sabem disso.
__ Sabem, mas não admitem.
__ Tem certeza? Tem certeza que não vai?
__ Tenho.
__ Então também não vou.
__ Não por mim, espero.
__ Não seja vaidoso. Claro que não. Aquela festa vai ser uma merda mesmo. Quero que veja uma coisa.
Mariana ergueu a saia e tirou a calcinha, deixando ver uma pelugem rara entre as pernas.
__ Eu não me depilo a pelo menos uma semana, então não enche. Vem cá __ disse ela, sentando-se no sofá menor e erguendo e abrindo as pernas. Com os dedos, ela puxou os lábios entre as pernas e abriu-se delicadamente. __ Tá vendo? Não fica de pau duro. Eu não vou dar pra você. Quero que olhe com cuidado. Tá vendo?
__ O que eu tenho que ver, além do óbvio? __ Então ele viu. __ Caramba. Quando você fez isso?
__ Fiz o quê? Eu não fiz nada. Acordei assim hoje. Fui me masturbar hoje pela manhã e quando me toquei, senti isso.
__ Você é virgem de novo.
__ Sou. Pode isso? Com mais de trinta e pura como uma menininha?
Mariana passou o dedo de leve por sua virgindade, como se ainda não acreditasse, depois tornou a vestir-se.
__ Já contou pro namorado? __ perguntou ele.
__ Não. Nem sei se vou contar __ disse ela, erguendo a calcinha.
__ Ele vai perceber.
__ Não se eu me livrar disso antes.
__ E como você vai fazer isso?
__ Como você acha? __ Ela o olhou como se ele fosse o maior estúpido entre os estúpidos.
__ Pergunta estúpida.
__ É. Pergunta estúpida.
Agora Mariana o olhava com uma expressão safada no rosto.
__ Você disse que não ia dar pra mim __ disse ele.
__ Me ocorreu que é o melhor a fazer no momento. Além do mais você anda muito mal humorado. Anda precisando de uma boa trepada. E eu não quero ter que explicar ao meu namorado como fiquei virgem de novo. O que, aliás, não tenho nem idéia de como veio a acontecer.
__ É, entendo, ia ser difícil explicar isso praquele tapado.
__ Já disse que não gosto quando você fala assim dele, então não estraga o clima.
__ Desculpe. Quer fazer aqui ou na cama?
__ Na cama, claro, não é todo dia que uma garota perde a virgindade.
Mariana foi na frente, despindo-se e largando peças de roupa pelo caminho. Ele também tirou a roupa antes de chegar na cama. Mariana colocou o notebook no chão e ambos deitaram-se na cama.
Ela tinha um cheiro bom, ele pensou. Como algo puro. Algo intocado. Algo que ainda não se perdera. Ele sentiu-se tocando-a, beijando-a.
__ Com cuidado __ disse Mariana. __ A-ai, com cuidado, cuidado. Não me machuque.
Ele pensou, eu nunca faria isso. Então ele lembrou-se do dia em que a levara a uma festa, haviam acabado de se conhecer, e Mariana o largou para transar com um rapaz muito bonito que a seduzira facilmente, apenas com sorrisos perfeitos e olhares pouco discretos, e depois ainda voltara satisfeita e lhe dissera, me leva para casa?, como se ele fosse apenas isso, um motorista, nada mais que um serviçal para ela. Ele lembrou-se disso e de-repente estava com raiva dela, queria faze-la sofrer, vingar-se dela.
__ Mariana, por que eu faria isso? __ disse ele, e apertou a boca dela e pressionou seu corpo sobre o dela, dizendo: __ Por que eu faria isso? Por que eu faria isso, Mariana?
Ele viu a surpresa e o terror nos olhos de Mariana, olhos assustados entre seus dedos. Ele forçou seu peso sobre ela e forçou-a a abrir as pernas e então ela começou a debater-se e mordeu sua mão, fazendo-o sangrar e parar por um instante. Ele esmurrou-a e sentiu o osso do nariz partir-se sob seu punho. Mariana gemeu de dor. Ela estava chorando agora. E ele enfiou o pau de uma vez dentro dela, uma única estocada que a fez quase gritar.
__ Pronto __ disse ele. __ Agora você não é mais virgem.
Ele enfiou-se nela cada vez mais rapidamente e ficou surpreso quando Mariana gozou. Então saiu de dentro dela e começou a rir.
__ Agora, você vai me chupar __ disse ele.
Mariana encolheu-se. __ Não, não vou, não vou.
__ Você vai, se não quiser apanhar mais.
Mariana colocou-o na boca. Ele gozou quase imediatamente, segurando a cabeça dela e fazendo-a engasgar-se com a porra.
__ Engula tudo __ disse ele. __ Tudo.
Ele soltou Mariana depois que ela o fez.
__ Agora, sai daqui.
Ela saiu meio encolhida da cama e, recolhendo suas roupas, praticamente correu para fora do quarto.
Ele ficou olhando o teto, satisfeito.
__ Você tinha razão, Mariana __ disse ele. __ Eu precisava de uma trepada.
Ele sentiu alguém ao lado da cama. Era Mariana, ainda nua, as coxas sujas de sangue, olhando-o com os olhos inchados e o cabelo desarrumado. Ele percebeu porra seca no canto da boca dela. Mas demorou a perceber a arma nas mãos de Mariana. Maldita segunda-feira, pensou ele.
Mariana nem ao menos sorriu, quando atirou.
domingo, 22 de maio de 2011
PENÉLOPE
CRISTOVÂO TEZZA
Sempre fui um desenhista sem ambição. Despercebido em minha saleta, desenhava letras, garrafas, automóveis. Voltando ao meu apartamento, abria enlatados e esquentava minha comida. Continuo assim.
Cheguei à solidão através de três mulheres. Só na primeira houve paixão. Nas outras, um ceticismo prático. Enquanto isso, me iludia: cinema, jogo, praia, viagens de fim-de-semana. Também isso se perdeu. Ao fim (nem tanto: quarenta anos), restei numa exaustão conformada, fitando a parede branca, asas tortas se debatendo em silêncio. Mas a capacidade de ficar sozinho alimentou minha soberba: a sensação de liberdade, a ilusão da escolha.
Passei a desenhar também à noite, por conta própria. Formas: ruas, casas, homens, mulheres. O que parecia uma fuga - nos meus desenhos eu estava em casa - se transformou em prazer. O painel da aparência se ordenava nos meus traços. Nas minhas ruas, eu mesmo fazia a História. Punha os desenhos na parede e me protegia neste mundo inventado, que ia se desdobrando, folhas sobre folhas. Rosto na janela, multidões nas ruas, prédios vazios, alguém perdido no beco. Uma rua, um bairro, uma cidade inteira parecida com a minha ramificava-se em vizinhos, primos, mães, órfãos, árvores, risadas e socos. Uma mulher apressada, um rosto súbito que se volta no vento da tarde, me atraiu. Chamava-se Penélope, um nome a um tempo clássico e falso. Perdi muitas horas olhando para ela, que, não mais que um vulto, parecia pronta.
Tentei esquecê-la, mas a cada novo desenho eu voltava à minha Penélope suspensa na parede, imperfeita e acabada, completa para sempre como um sol morto. A sensação de alguém conhecido, mas que não conhecemos. De onde? De nenhum lugar. Talvez... e eu abria mais uma folha em branco, prosseguindo o mapa em outra direção. Por pouco tempo; uma distração e meus olhos voltavam a ela, com medo - muito que eu olhasse, e Penélope súbita revelaria o amarelo do tempo, o truque do traço, a invenção do papel.
Precisava enfrentá-la. Recortei Penélope da multidão e coloquei-a diante de mim. Como era incompleta! E no entanto... Decidi, presunçoso, lhe dar todos os traços do meu realismo. Lá ia eu, bêbado de uma idéia, empilhando Penélopes em preto-e-branco, a começar pelo rosto. Sempre a sensação de alguém conhecido, uma sombra, um sinal, uma inexistente prima da infância, uma funcionária de supermercado, um esbarrão na praça da Figueira (a face inquisitiva se voltando), um suspiro esperando o ônibus que não chega, mãos que se tocam no mesmo jornal da banca, mas quando? Ao me perder - não, esses olhos não são dela - rasgava o papel e recomeçava, voltando sempre ao primeiro esboço, o verdadeiro. Um cego tateando estátuas.
Afinal - um cigarro saboroso nos lábios, uma tragada na alma - dominei sua face, cada linha e nuance. Que prazer, olhando o teto! Desdobrei Penélope, cada vez mais dócil. De frente. Olhando para mim. De longe. Cabeça erguida. Tirando o sapato. Escovando os dentes. Silenciosa. Triste. Alegre. Com os cabelos compridos - compridos, negros e espessos. Depois, cortei seus cabelos. Fiz Penélope chorar. Dormir. Pensar. Lado a lado, comparava os desenhos. Ela mesma se comparava ao espelho, rigorosamente a mesma mulher.
E como eu ria, feliz da vida! O desespero de voltar do emprego - agora pintando cartazes de filmes, vida útil de uma semana, O Exterminador do Passado, A Viúva Faceira, Longo Teto Noite Adentro, Bambolê III, O Incrível Homem que Esquecia - o desespero de me entregar à Penélope, desvendá-la, nua, na intimidade do banho, de abrir a porta de seu guarda-roupa e pendurar lá tudo que ela quisesse. Desenhei quatro diamantes na gaveta do seu criado-mudo.
Braços, pernas, seios, curvas. Como era exatamente Penélope? Nas primeiras tentativas ela entristeceu, porque eu estava mentindo, enganado pelos padrões dos outros. Até que, sem saída - nem fui trabalhar naquela tarde - descobri o corpo que correspondia exatamente ao seu rosto. Um corpo, uma altura, um peso. Os braços me pareceram desproporcionais; ao refazê-los, as medidas teimavam - braços, mãos, unhas. Inteira, e com pudor. Nua, fechava os olhos, a mão cobrindo a pequena mancha da perna, uma queimadura da infância? Outra página desenhada, a expressão a um tempo íntima e distante. De onde essa mulher tão familiar?
Cobri os meus espaços de Penélope. Horas e horas contemplando alguém que me criava. Tão completa! Mas eu não tinha o poder de desvendá-la. Desenhei-a se oferecendo, até implorando que eu me lançasse naquele aquário de nada - e sempre uma redoma preservando-a. Deixei Penélope em paz, imóvel nas minhas paredes. Abria uma lata de cerveja e passeava pelos desenhos, com a falsa indiferença de quem já desistiu. Meses depois, bêbado, tentei redesenhá-la, e fracassei. Senti medo. Idêntica a ela mesma, Penélope achou graça. Eu também, ressentido e mais velho.
A onipresença das minhas paredes se transformou numa sombra das ruas: senti que me vigiavam. No ônibus, na praça, nas curvas da Trindade, a sombra de Penélope me acompanhava, como quem depende, como quem se diverte, como quem não tem saída. Uma proximidade inquieta: de algum lugar, em algum momento, alguém vai segurar minha mão para um encontro assustador e inevitável. Onde andará Penélope? Um tanto por vingança, um tanto por desejo, tomei seu rosto emprestado para um outdoor na beira-mar anunciando xampu de farmácia, a serviço de um novo emprego. Tão deformada assim, colorida!
Num sábado bissexto, passei o dia no Pântano do Sul, bebendo só. Esperava o ônibus das cinco. Alguém me chamou para empurrar um carro na areia:
- Penélope?
Ela não disse nem sim nem não, mostrando o pneu enterrado. Pensei que estivesse assustada, mas não; apenas distante, perguntou se eu ia à cidade. Fiz que sim, o sol na cabeça. Ela acelerou, eu empurrei, e o carro saiu fácil, mas me encheu de areia. Ela abriu a porta, eu entrei, inseguro. Por dez minutos falamos banalidades: o banco sujo de areia, o vento, o calor, o cinto de segurança, que não funciona. Depois, extensões agoniantes de silêncio, ao longo do caminho que ela já sabia. Eu vigiava aquele perfil: idêntica. Na Trindade, Penélope estacionou o carro e desligou o motor. Olhou para mim, muito séria. Alguém que se destaca de uma página em branco, na precisão do meu lápis. Leviano e cavalheiro, abri a porta para ela e segurei sua mão: mão firme e quente. Gostei de Penélope assim, em silêncio: um medo terrível de que a voz alta diminuísse minha obra.
Entramos no apartamento e ela foi direto aos desenhos. Nem espanto, só um quase sorriso:
- Essa sou eu?!
Não respondi, nem ela esperava resposta. Caminhou pelas paredes, vendo-se tão perfeitamente imóvel.
- Você me vigiava.
- Você me vigiava...
Afinal ela achou graça, previsivelmente inclinando a cabeça e passando a mão nos cabelos, exata no meu desenho. Seguiu-se um buraco de silêncio, tão pesado que não saía do lugar. Atravessar esse terror, a fala: a interminável tortura dos detalhes, a profissão, o corte da roupa, o leite na geladeira, o prazo, o troco no cinema, a memória, o acúmulo despropositado das coisas que se deve fazer, cada uma delas nos tirando um pedaço. Insisti no silêncio: cada palavra e estamos menores - medo de olhar para Penélope e descobrir um erro. Que horror é esse que ameaça minha solidão?
Nos meses que se seguiram - sei lá onde vivia Penélope, sei lá que espaço ocupava no mundo! - jamais pronunciei seu nome. Quem sabe nele se evidenciasse o engano e o desastre? Mas não: lá estava a pequena mancha na perna, que ela movia com a leveza de um bico-de-pena, nua no nosso desejo. Uma ânsia corrosiva de descobri-la mais e mais, mas tudo nela já estava desenhado, página a página. Amei Penélope com desespero, pressentindo o fim.
Depois, começou lentamente a morte de Penélope. Semana a semana ela perdia a cor, a firmeza, a voz. Perdia a leveza, a elegância e o brilho dos olhos, surtos de escuridão numa página em branco. Uma noite, minha mão trespassou seu braço, como a um vento. Metade do rosto eclipsava-se, uma lua sem rumo. Eu vi Penélope sofrer: suas últimas frases, sem sintaxe, imploravam alguma coisa que parecia salvação. Há três dias, acordei definitivamente sem Penélope, todas as paredes em branco. Ontem, da janela do quarto, vi oficiais do trânsito rebocando seu carro, abandonado na calçada estreita.
sábado, 21 de maio de 2011
A CRUZ DE FERRO
Ninguém filma uma matança como Peckimpah. Sujo, violento, cínico. Um filmaço que nunca me canso de assistir.
CRIMES
Ferdinand Von Schirach
Um trecho:
Fähner
Friedhelm Fähner passara a vida inteira como clínico geral em Rottweil; 2.800 consultas por ano, consultório na rua principal, presidente do Centro Cultural Egípcio, membro do Lions Club, sem antecedentes criminais ou sequer pequenos desvios de conduta. Além da sua casa, tinha outros dois imóveis alugados, um Mercedes Classe E com três anos de fabricação, estofamento de couro e ar-condicionado, cerca de 750 mil euros em ações e obrigações do tesouro e um seguro de vida. Fähner não tinha filhos. Seu único parente ainda vivo era a irmã seis anos mais nova, que vivia com o marido e dois filhos em Stuttgart. A vida de Fähner realmente nada tinha de interessante.
Exceto o caso Ingrid.
Aos 24 anos, Fähner conhecera Ingrid no 60º aniversário de seu pai, que também fora médico em Rottweil.
Rottweil é uma cidade essencialmente burguesa. O estrangeiro que chega não precisa perguntar para saber que a cidade foi fundada pelos Staufer e é a mais antiga do estado de Baden-Württemberg. Com efeito, pode-se encontrar aqui fachadas medievais e lindos brasões do século XVI. Os Fähner sempre viveram aqui. Pertenciam às chamadas primeiras famílias, gerações de conceituados médicos, juízes e farmacêuticos.
Friedhelm Fähner se parecia com o jovem John F. Kennedy. Tinha um rosto afável, e todos o consideravam uma pessoa despreocupada, de bem com a vida. Olhando cuidadosamente, no entanto, percebia-se um quê de tristeza em sua fisionomia, algo de velho e sombrio que não se vê com muita frequência por estas bandas, entre a Floresta Negra e os Alpes da Suábia.
Os pais de Ingrid, farmacêuticos em Rottweil, levaram sua filha à festa de aniversário. Três anos mais velha do que Fähner, ela exibia uma pujante beleza provinciana e seios fartos. De olhos azulados, cabelos negros e pele muito clara, tinha consciência da impressão que causava. Sua voz metálica, de tom singularmente elevado e monocórdio, irritava Fähner. Mas, quando falava baixo, suas palavras soavam como uma melodia.
Não chegara a concluir o ensino médio e trabalhava como garçonete. “Temporariamente”, disse ela a Fähner. Isso não lhe importava. Em outras áreas que mais lhe interessavam, ela já era formada. Até então, Fähner tivera apenas dois breves contatos sexuais com mulheres, que só lhe haviam trazido insegurança.
Imediatamente apaixonou-se por Ingrid.
Dois dias após a festa, ela o seduziu, na volta de um piquenique.
Debaixo de uma marquise, Ingrid deu conta do recado com perfeição. Fähner ficou tão perturbado que, uma semana depois, a pediu em casamento. Sem hesitar, ela aceitou. Fähner era o que se chamava de bom partido; estudava Medicina em Munique, era atraente e carinhoso e estava às vésperas dos primeiros exames finais. Porém, o que mais a atraía era a sua seriedade. Ela não sabia como descrevê-la, mas dizia às amigas que Fähner jamais a abandonaria. Quatro meses depois, estava morando com ele.
Na lua de mel, viajaram para o Cairo, conforme ele desejava. Mais tarde, quando lhe perguntavam sobre o Egito, ele dizia que “não sentira a força da gravidade”, embora soubesse que ninguém o entendia. Lá, ele foi o jovem Parsival, imune aos males do mundo, e foi feliz. Pela última vez em sua vida.
Na noite que antecedeu a viagem de volta, ficaram deitados no quarto do hotel. As janelas estavam abertas, mas o calor persistia; o ar quente parecia estar preso no interior do pequeno aposento. Era um hotel barato, que cheirava a fruta podre, e eles podiam ouvir os ruídos que vinham da rua.
Apesar do calor, haviam feito sexo. Fähner, deitado de costas, acompanhava o movimento do ventilador de teto. Ingrid fumava um cigarro. Virando-se de lado, ela apoiou a cabeça em uma das mãos e pôs-se a contemplá-lo. Ele sorriu. Durante um bom tempo, permaneceram calados.
Então, ela começou a falar. Falou dos homens antes de Fähner, das decepções que tivera e dos erros que cometera, mas sobretudo do tenente francês que a engravidara e do aborto que quase a matara. Estava chorando. Surpreso, ele a abraçou. Em seu peito, sentia o coração dela pulsar, desamparado. Ela confia em mim, pensou.
“Você tem de jurar que vai cuidar de mim. Você não pode me abandonar.” A voz de Ingrid era trêmula.
Comovido, ele tentou acalmá-la. Já o havia jurado na igreja, durante as bodas, era feliz com ela, queria...
Ela o interrompeu bruscamente, e sua voz se elevou, assumindo aquele tom metálico e vulgar. “Jure!”
De súbito, ele entendeu. Não se tratava de uma conversa entre amantes. Num átimo, haviam desaparecido todos os clichês — o ventilador, o Cairo, as pirâmides, o calor do quarto de hotel. Ele a afastou um pouco, a fim de poder olhar em seus olhos, e depois falou. Falou lentamente, e sabia o que estava dizendo. “Eu juro.”
Puxando-a novamente para si, ele a beijou no rosto. E mais uma vez fizeram sexo. Dessa vez foi diferente. Ela se sentou sobre ele e fez dele o que quis. Foram momentos de autenticidade, alheamento e solidão. Ao gozar, ela o esbofeteou. Ele ainda permaneceu acordado por muito tempo, olhando fixamente para o teto. Faltou luz, e o ventilador parou de girar.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
quinta-feira, 19 de maio de 2011
BREAKING BAD
Série impressionante, uma dessas que demonstra que há inteligência, sim, entre os roteiristas atuais.
quarta-feira, 18 de maio de 2011
TINTIN
O repórter aventureiro em uma grande produção para os cinemas. Não botava fé, mas o teaser está muito legal.
terça-feira, 17 de maio de 2011
segunda-feira, 16 de maio de 2011
domingo, 15 de maio de 2011
sábado, 14 de maio de 2011
FUMAÇA HUMANA
Nicholson Baker
Um trecho:
ALFRED NOBEL, o fabricante de explosivos, conversava com a amiga baronesa Bertha von Suttner, autora de Lay Down Your Arms [Deponham as armas]. Cofundadora do movimento pacifista europeu, ela acabava de participar da Conferência Mundial da Paz em Berna. Era agosto de 1892.
'Talvez as minhas fábricas acabem com a guerra antes dos seus congressos', disse Nobel. 'No dia em que dois exércitos forem capazes de se aniquilar mutuamente em um segundo, é provável que todas as nações civilizadas recuem com horror e desmobilizem suas tropas.'
STEFAN ZWEIG, o jovem escritor de Viena, estava num cinema em Tours, na França, assistindo ao noticiário. Era o verão de 1914. A imagem do imperador Guilherme II da Alemanha apareceu fugazmente na tela. No mesmo instante, a audiência explodiu num grande alarido. 'Todos se puseram a vaiar e assobiar, homens, mulheres e crianças, como se tivessem sido insultados pessoalmente', escreveu ele. 'O povo afável de Tours, que só sabia do mundo e da política pelo que lia nos jornais, enlouqueceu por um instante.'
Zweig ficou assustado. 'Tudo durou apenas um segundo, mas um segundo que me mostrou a facilidade com que as pessoas se enfurecem numa época de crise, em qualquer lugar, apesar de todas as tentativas de compreensão do outro.'
WINSTON CHURCHILL, primeiro lorde do Almirantado da Inglaterra, instituiu o bloqueio naval da Alemanha. 'O bloqueio britânico', escreveu ele posteriormente, 'ameaçava toda a Alemanha como se fosse uma fortaleza sitiada e, confessadamente, procurava impor a fome ao conjunto da população --homens, mulheres e crianças, velhos e jovens, feridos e sãos-- até que eles cedessem.' Isso em 1914.
STEFAN ZWEIG estava no front oriental, colhendo proclamações de guerra russas para os arquivos austríacos. Era a primavera de 1915.
Ele subiu no vagão de carga de um trem-hospital. 'Dei com uma fileira de macas toscas', escreveu, 'todas ocupadas por homens mortalmente pálidos que gemiam, suavam e arfavam na densa atmosfera de excremento e iodofórmio.' Havia vários mortos entre os vivos. Desesperado, o médico lhe pediu que arranjasse água. Não tinha morfina nem ataduras limpas, e eles ainda estavam a 24 horas de Budapeste.
De regresso a Viena, Zweig iniciou uma peça teatral pacifista, Jeremiah. E escreveu:
Eu reconheci o inimigo que devia combater: o falso heroísmo que prefere mandar os outros para o sofrimento e a morte, o otimismo barato dos profetas sem consciência política nem militar que, prometendo audaciosamente a vitória, prolongam a guerra, e, atrás deles, o vendido coro de 'apregoadores da guerra', como os chamou Werfel, com reprovação, em seu belo poema.
JEANNETTE RANKIN, de Montana, a primeira mulher eleita deputada, votou contra a declaração de guerra à Alemanha. Foi no dia 6 abril de 1917.
'Eu me debrucei na balaustrada da galeria e a observei', disse sua amiga Harriet Laidlaw, do Woman Suffrage Party [Partido do Sufrágio Feminino]. 'Ela estava sob a mais terrível pressão.' Quase todas as suas companheiras sufragistas, inclusive Laidlaw, queriam que ela votasse pelo sim.
Fez-se silêncio quando a chamaram. 'Eu quero ser leal ao meu país', disse Rankin. 'Mas não posso votar a favor da guerra. Voto pelo não.' Outros cinquenta membros da Câmara acompanharam seu voto; 374 preferiram o sim. 'Eu senti', disse ela depois, 'que, na primeira vez em que uma mulher tivesse oportunidade de dizer não à guerra, o seu dever era fazê-lo.'
Um jornal de seu estado, o Independent de Helena, chamou-a de 'otária do Kaiser, membro de um exército huno nos Estados Unidos e uma normalista chorona'.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
quinta-feira, 12 de maio de 2011
quarta-feira, 11 de maio de 2011
NÃO TORTURE OS PATOS
José Marcelo
A jaqueta branca com a pintura de um pato mostrando os dentes em vermelho vivo nas costas. Ele encostou o carro diante da delegacia e desceu e entrou lá dentro e matou o policial atrás da mesa.
“Ei. Olha pra mim”, disse ele.
O policial, cabo Antunes, casado e pai de dois filhos, ergueu os olhos da papelada e encarou o homem diante dele. O homem estava de costas, mostrando o pato na jaqueta.
“Tá vendo isso? Tá vendo o pato?”, disse o homem, olhando por cima do ombro.
Antes que o cabo Antunes dissesse algo, o homem virou-se fazendo a pose de um pistoleiro de western spaghetti e disse: “Que tal como última coisa a se ver?” apontando a automática.
O homem atirou no peito e no rosto de Antunes: as balas entraram na carne em uma confusão de pedaços e sangue e dentes espalhados.
Então, o homem girou a pistola e guardou-a no cinto da calça. Avaliou a massa ensanguentada do outro lado da mesa, colocou os óculos escuros e saiu assobiando da delegacia.
Uma garotinha de sete anos, Carina, estava parada do lado de fora e ele piscou para ela, mesmo que ela não conseguisse ver o gesto sob os óculos. Ela ficou observando-o entrar no carro e sair cantando pneu.
Depois Carina entrou na delegacia. Trazia a marmita com o almoço do seu pai, o cabo Antunes.
INVERNO DE SANGUE EM VENEZA
Após o trágico acidente que culminou na morte de sua filha, o casal Laura (Julie Christie) e John Baxter (Donald Sutherland) mudam-se para Veneza, a fim de esquecer a tragédia. Porém, lá chegando, uma mulher diz que sua filha está enviando mensagens do mundo dos mortos, iniciando uma perigosa relação de curiosidade sobre o outro lado da vida.
Dirigido por Nicolas Roeg. Um grito contínuo de horror. Para baixar, clique na imagem.