quinta-feira, 9 de agosto de 2012

CONTO O BEIJO

Isaac BÁBEL

Tendo em vista a reorganização de nossos quadros, o Estado-Maior nos mandou no começo de agosto para Budiatchi que havia sido ocupada logo no princípio da guerra pelos poloneses, e depois retomada pelos nossos. A brigada entrou na aldeia pela madrugada; quando cheguei, ao meio-dia, os melhores alojamentos já se encontravam distribuídos e só me restava a casa do mestre-escola. Num quarto de teto baixo, entre tinas, com limoeiros frutescentes, estava sentado numa poltrona, um velho paralítico. Tinha um boné tirolês; sua barba branca, coberta de cinzas, ia até ao peito. Os olhos piscavam e ele balbuciava não sei que espécie de oração.

Após haver tomado meu banho, fui até ao Estado-Maior e só voltei depois de meia-noite. Meu ordenança, Miehka Surovtsev, um cossaco astucioso de Oremburgo, me fez um relatório: além do velho paralítico, viviam na casa a filha do mestre-escola, Elizaveta Alexéevna Tomilina e o filho dela, Miehka, homônimo de Surovtsev, de cinco anos de idade. A jovem senhora era viúva de um oficial morto na guerra mundial, sua conduta parecia regular, mas, segundo as informações de Surovtsev, ela não se recusaria a se pôr à disposição de um bom tipo.

— A gente se arranjará, disse ele convicto, e foi para a cozinha de onde vinham, logo mais,i ruídos de panelas. A filha do professor o ajudava nos trabalhos da casa. Preparando a refeição, Surovtsev lhe falou de minha coragem, contou como eu tinha combatido dois oficiais poloneses e ajuntou que o poder soviético me considerava bastante. Elizaveta Alexéevna respondia com uma voz cheia de medo.

— Onde é que você vai dormir? perguntou Surovtsev, deixando a cozinha. Instale-se perto de nós; somos homens vivos, afinal de contas…

Trouxe uma enorme frigideira com ovos estrelados, que depôs na mesa.

— Tudo vai bem, me comunicou, sentando-se à mesa.

Somente não se pronunciou ainda.

Nesse mesmo instante ouvimos murmúrios abafados, atritos, arrastamento de móveis. Barulhos pesados e prudentes. Não tínhamos acabado nossa refeição, quando na casa começou um desfile de velhos de muletas e de velhas com a cabeça meio escondida em chalés. A cama do pequeno Miehka foi levada para a sala de jantar, à sombra dos limoeiros, perto da poltrona do avô. Os hóspedes enfermos, decididos a defender a honra de Elizaveta Alexéena, encostaram-se uns de encontro aos outros, como um rebanho de carneiros surpreendido pela tempestade. Fizeram uma barricada na porta e jogaram cartas a noite inteira, mal ousando anunciar as paradas e tremendo ao menor ruído. Quanto a mim, atormentado e confuso, não consegui dormir atrás dessa porta, e esperei, febrilmente, o dia.

Pela manhã, tendo cruzado com Tomilina no corredor, apressei-me em lhe anunciar:

— É preciso que vocês saibam que sou formado em Direito e que pertenço aos meios intelectuais…

Ela permaneceu diante de mim, amedrontada, os braços soltos, o corpo esbelto moldado num vestido fora de moda. Seus olhos azuis, onde brilhavam lágrimas, dilatavam-se fixando-me com um olhar imóvel.

Ao fim de dois dias éramos amigos. A família do mestre-escola, boa e fraca gente, vivia num terror e numa ignorância sem limites. Os funcionários poloneses tinham-nos convencido de que a Rússia como Roma antiga, estava morta no meio de incêndios e de barbárie. Uma alegria infantil e temerosa apoderou-se deles quando comecei a lhes falar do Teatro de Arte, de Lênin, de Moscou, onde o futuro esbravejava. À noite, juntavam-se a nós alguns generais bolchevistas de vinte e dois anos, barbudos e despenteados. Fumávamos cigarros moscovitas, comíamos refeições feitas por Elizaveta Alexéena com gêneros militares e cantávamos canções estudantis. Debruçado na sua poltrona, o paralítico nos ouvia avidamente, e o boné tirolês se agitava conforme o ritmo de nosso canto.

Durante todos esses dias, o velho vivia numa esperança vaga, espontânea e violenta. Para não diminuir sua felicidade, esforçava-se por atenuar o efeito de nossas bravatas sanguinárias pela simplicidade gritadora que nessa época emprestávamos à solução de todos os problemas mundiais.

Após a vitória, por decisão do conselho de família, os Tomiline iriam se instalar em Moscou; nós curaríamos o velho graças à ciência de uma celebridade da Faculdade ; Elizaveta Alexéena seguiria cursos na Universidade, e Miehka entraria para a escola frequentada outrora por sua mãe. O futuro nos parecia como nossa propriedade incontestável, a guerra como o preparativo impetuoso da felicidade, e a felicidade como a própria virtude de nosso caráter.

Só restava acertar os pormenores, e nós discutíamos isso noites inteiras, noites em que o fim da vela se refletia no vidro opaco de uma garrafa de vodka. Elizaveta Alexéena, alegre, era nossa ouvinte silenciosa. Nunca encontrara eu um ser tão exaltado, livre e tímido.

Algumas vezes, o astucioso Surovtsev nos conduzia num velho carro, requisitado em Kuban, em direção à colina onde brilhava, nos clarões do pôr do sol, abandonada dos príncipes Gonsiorovski. Emagrecidos, mas grandes e de raça, os cavalos corriam alegremente, obedientes às rédeas vermelhas; a argola do brinco agitava-se com ar descuidado na orelha de Surovtsev; e torres arredondadas surgiram de um fosso coberto por um lençol de flores amarelas. Os muros em ruína traçavam no céu uma longa curva listada de sangue vermelho; a roseira brava se escondia e um degrau azul, restos de uma escada calçada outrora pelos reis da Polônia, brilhava entre as urzes. Uma tarde, sentado neste degrau, atraí a cabeça de Elizaveta Alexéena e beijei-a. Ela se desprendeu lentamente, levantou-se e se apoiou de encontro ao muro que tinha agarrado com as duas mãos. Ficou imóvel. Em volta de sua cabeça brincava um raio de sol poeirento. Depois, ela estremeceu e voltou a cabeça como se ouvisse um ruído longínquo; seus dedos se desprenderam do muro, e ela se pôs a correr com um passo rápido e incerto. Chamei-a mas não me entendeu.

Em baixo, estendido no carro, dormia Surovtsev, sua figura vermelha luzindo ao sol.

À noite, quando toda dormia, esgueirei-me

até ao quarto de Elizaveta Alexéena: Ela lia, segurando o livro a distância, e sua mão pousada na mesa, parecia inanimada. Ao ruído de meus passos, levantou-se.

— Não! fez ela, fixando o olhar sobre mim. Não, não, meu querido! E, envolvendo meu pescoço com seus longos braços nus, beijou-me silenciosamente, sempre com mais violência, que não acabava mais. O toque do telefone vizinho arrebatou-nos um do outro. O Estado-Maior me chamava.

— Vamos partir, declararam-me ao telefone. Ordem para nos apresentarmos imediatamente ao Comandante.

Saí correndo sem boné, pondo em ordem meus papéis pelo caminho. Tiravam os cavalos das estrebarias, cavaleiros galopavam gritando. O comandante da brigada, vestindo o capote, informou-nos que os poloneses acabavam de transpor as nossas linhas na altura de Lubliany. Tínhamos recebido ordem de executar um movimento envolvente. Os dois regimentos deviam se pôr em marcha dentro de uma hora.

O velho, acordado, espreitava-me com inquietação através da folhagem dos limoeiros.

— Prometa-me que voltará, repetia ele, sacudindo a cabeça.

Elizaveta Alexéena, com uma peliça jogada por sobre a camisola, apareceu no limiar para nos dizer adeus. Um esquadrão invisível passou na escuridão numa carreira louca. Na orla dos campos, voltei-me; Tomilina, debruçada sobre Michka, abotoava-lhe o paletó, e a luz da lâmpada colocada no rebordo da janela coava sobre a nuca suave e ossuda da moça.

Após uma marcha ininterrupta de cem quilômetros, efetuamos a ligação com a XIV.a divisão montada, e retiramo-nos combatendo. Dormimos sobre as selas. Por momentos, vencidos de sono, caíamos por terra, e os cavalos, puxando pelas rédeas, nos arrastavam, adormecidos, através dos campos ceifados. Era o começo do outono; pequenas chuvas, sem ruído, escorriam suas águas sobre nós. Encostados uns de encontro aos outros, formávamos um corpo silencioso e arrepiado; éramos sem direção, descrevemos círculos, caímos no saco amarrado pelos poloneses, saímos de novo. O sentido do tempo abandonou-nos.

Instalando-me à noite na igreja de Totchenko, nem me lembrava que nos encontrávamos a dez quilômetros de Budiatchi. Foi Surotsev que me recordou.

— Se os cavalos pelo menos não morressem de cansaço, a gente bem que poderia dar um pulo, disse ele, sorrindo.

Respondi que isso era impossível: no correr da noite, perceberiam a nossa ausência… Mas fomos, assim mesmo. Antes de partir, amarramos às nossas selas alguns presentes: um capote de peliça, um cabrito vivo de quinze dias, um pão de açúcar.

A estrada ia através de uma floresta de árvores molhadas que o vento agitava; uma estrela de aço errava entre a folhagem dos carvalhos. Em menos de uma hora, atingimos a aldeia meio queimada e cheia cie caminhões embranquecidos pela poeira da farinha, carretas de canhões e timões partidos.

Sem apear, bati à janela familiar; uma nuvem branca atravessou o quarto. Tomilina apareceu correndo pela escada, vestida com a mesma camisola de rendas estragadas. Tomou-me as mãos com sua mão quente e me conduziu para casa. Na sala grande, camisas de homens secavam sobre os limoeiros devastados; homens desconhecidos dormiam em camas de campanha alinhadas como num hospital. Mostrando os pés sujos, as bocas marcadas por uma careta, gritavam no sono com voz rouca, e sua respiração, ávida e rumorosa, enchia o quarto.

A casa estava habitada pela nossa Comissão de Ocupação. Os Tomiline tinham que se- contentar com um quarto só.

— Quando você nos levará daqui? perguntou Elizaveta Alexéena segurando minha mão.

O velho acordado sacudia a cabeça. O pequeno Michka, apertando o cabrito contra o peito, ria, com um riso feliz e silencioso. Surovtsev que o ultrapassava pelo tamanho, remexia com um ar brusco nos bolsos de seu largo culote de cassaco e tirava deles esporas, pedaços de moedas furadas, um apito preso a um grosso cordão amarelo.

Nesta casa habitada pela comissão de ocupação, era impossível alguém se isolar. Tivemos que nos refugiar, eu e Tomilina, no celeiro onde se guardavam para o inverno, as batatas e os acessórios das colmeias. Aí, nesse quarto, compreendi como era perigoso o caminho do beijo inaugurado no castelo dos príncipes Gonsiorovski…

Pouco antes da aurora, Surotsev bateu à porta.

— Quando você nos levará embora? perguntou Elizaveta Alexéena, desviando os olhos.

Nada respondi e me dirigi para a casa para me despedir do velho.

— Não temos tempo… Vamos, monte… Surovtsev me barrou o caminho.

Empurrou-me para a rua e me aproximou o cavalo. Tomilina me estendeu a mão tornada subitamente fria… Os cavalos que tinham descansado durante toda a noite, levaram-nos a trote. O sol flamejante levantava-se no tecido negro dos carvalhos. A alegria triunfante da manhã enchia todo o meu ser.

Na floresta apareceu uma clareira; afrouxei a rédea, e, voltando a cabeça, gritei para Surovtsev:

— Bem que eu poderia ter ficado mais um pouco… Você nos acordou muito cedo. ..

— Não pense nisso.. . respondeu-me afastando com as mãos os ramos úmidos e luzidios. Foi por causa do velho; poderia até ter ido ainda mais cedo. . . Ele falava sem parar. Estava num dos seus momentos. De repente caiu de lado… Salto para perto dele e que é que vejo? Morto, o velho… de olhos vidrados.

Saímos da floresta e nos encontramos num campo arroteado, sem caminho. Surovtsev se endireitou, olhou à direita e à esquerda, assobiou e, adivinhando a boa direção, aspirou-a com o ar, agachou-se e desandou a galope.

Chegamos a tempo. Os homens do esquadrão começavam a se levantar. O sol brilhava anunciando um dia quente. Algumas horas mais tarde, nossa brigada transpunha a antiga fronteira do reino da Polônia.

Nenhum comentário: