quarta-feira, 25 de maio de 2011

HOJE É O DIA DA TOALHA

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Humans think they are smarter than dolphins because we build cars and buildings and start wars etc…and all that dolphins do is swim in the water, eat fish and play around. Dolphins believe that they are smarter for exactly the same reasons.

Douglas Adams

O DIA DA TOALHA

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A ciência conseguiu algumas coisas fantásticas, não vou negar, mas acho mais importante estar feliz do que estar certo.

Douglas Adams

terça-feira, 24 de maio de 2011

TUDO ACONTECE

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Anything that happens, happens.
Anything that, in happening, causes something else to happen, causes something else to happen.
Anything that, in happening, causes itself to happen again, happens again.
It doesn’t necessarily do it in chronological order, though.

Douglas Adams

Don’t Panic.

TRÓPICO DE CÂNCER

Henry Miller

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Um trecho:

À noite, quando olho o cavanhaque de Boris estendido sobre o travesseiro, fico histérico. Ó, Tânia, onde estão agora aquela sua boceta quente, aquelas ligas gordas e pesadas, aquelas coxas macias e arredondadas? Em meu membro há um osso de quinze centímetros de comprimento. Tânia, alisarei todas as pregas de sua vulva, cheia de semente. Mandá-la-ei de volta para seu Sylvester com a barriga doendo e o útero virado. Seu Sylvester! Sim, ele sabe acender um fogo, mas eu sei inflamar uma vagina. Enfiarei pregos quentes em você, Tânia. Deixarei seus ovários incandescentes. Seu Sylvester agora está um pouco ciumento? Ele sente alguma coisa, não sente? Sente os remanescentes de meu grande membro. Deixei as margens um pouco mais largas. Alisei as pregas. Depois de mim, você pode receber garanhões, touros, carneiros, cisnes e São Bernardos. Pode enfiar pelo reto sapos, morcegos, lagartos. Você pode defecar arpejos ou amarrar uma cítara sobre o umbigo. Eu estou fodendo, Tânia, para que você fique fornicada em público, eu fornicarei privativamente. Arrancarei alguns pelos de sua vulva e os grudarei no queixo de Boris. Morderei seu clitóris e cuspirei moedas de dois francos…

Sorte e azar s/a.

BREAKING BAD

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A série foda está voltando.

UM HAIKAI

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(Minha casa incendiou
agora nada obstrui
a visão da lua)

Mizuta Masahide

Sorte e azar s/a.

A GUERRA DO FOGO

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A aurora do homem – a primeira grande jornada.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

PARA FALAR

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♂ ♀ ou não.

JOLIE

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O CONTO SEGUNDO H. P. LOVECRAFT

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Quanto a como eu escrevo um conto: não há um único modo. Cada um de meus contos tem uma história diferente. Uma ou duas vezes, eu literalmente relatei um sonho; mas usualmente eu começo com uma atmosfera ou uma ideia que gostaria de expressar, e a reviro em minha mente até que eu possa pensar em uma boa maneira de incorporá-la em alguma sequência de ocorrências dramáticas capaz de ser relatada em termos concretos. Costumo fazer uma lista mental das condições ou situações básicas melhor adaptáveis a essa atmosfera, ou ideia, ou imagem, e então começo a especular a respeito das explicações lógicas e naturais de uma certa atmosfera ou ideia ou imagem nos termos das condições e situações básicas escolhidas.

Mundo livro.

PSICOSE

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O que faz de um filme um clássico?

MALDITA SEGUNDA-FEIRA

José Marcelo

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As pessoas são estúpidas. Porque são acomodadas. Porque são preguiçosas. Têm desculpa para tudo e para não fazer nada. É. Todo mundo sabe disso. Nenhuma novidade e foda-se a humanidade. Foda-se. Esqueça isso. Não é nada. Mal e mau humor de segunda-feira. Vamos falar de coisas mais agradáveis…

Ele largou o notebook sobre a cama, foi ao banheiro, onde deu uma longa e prazerosa mijada. Olhou-se no espelho. Estava ficando barrigudo. Estava ficando velho. Estava puto e não tinha certeza sobre o quê. Que dia melhor pra ficar puto, pensou. Maldita segunda-feira. Bateram na porta. Pensou em fingir que não havia ninguém em casa. Depois pensou melhor.  Foi atender. Era Mariana. Ela estava linda. Ela foi logo entrando.

__ Ainda não tá pronto? __ ela disse.

__ Não __ respondeu ele, sentando-se no sofá. __ Eu não vou.

__ Claro que vai.

__ Não, não vou.

__ O que foi agora? __ Mariana cruzou os braços e olhou-o como se ele fosse uma criança birrenta.

__ Estou pensando em escrever um livro de auto-ajuda, mas ao contrário. Um que jogue na cara das pessoas o quanto elas são estúpidas. Um que demonstre que as pessoas não têm conserto. Nem final feliz. Shakespeare disse ou escreveu que no final tudo acaba bem. Porra, no final tem a morte. Nada acaba bem. Acaba em podridão.

__ Elas sabem disso.

__ Sabem, mas não admitem.

__ Tem certeza? Tem certeza que não vai?

__ Tenho.

__ Então também não vou.

__ Não por mim, espero.

__ Não seja vaidoso. Claro que não. Aquela festa vai ser uma merda mesmo. Quero que veja uma coisa.

Mariana ergueu a saia e tirou a calcinha, deixando ver uma pelugem rara entre as pernas.

__ Eu não me depilo a pelo menos uma semana, então não enche. Vem cá __ disse ela, sentando-se no sofá menor e erguendo e abrindo as pernas. Com os dedos, ela puxou os lábios entre as pernas e abriu-se delicadamente. __ Tá vendo? Não fica de pau duro. Eu não vou dar pra você. Quero que olhe com cuidado. Tá vendo?

__ O que eu tenho que ver, além do óbvio? __ Então ele viu. __ Caramba. Quando você fez isso?

__ Fiz o quê? Eu não fiz nada. Acordei assim hoje. Fui me masturbar hoje pela manhã e quando me toquei, senti isso.

__ Você é virgem de novo.

__ Sou. Pode isso? Com mais de trinta e pura como uma menininha?

Mariana passou o dedo de leve por sua virgindade, como se ainda não acreditasse, depois tornou a vestir-se.

__ Já contou pro namorado? __ perguntou ele.

__ Não. Nem sei se vou contar __ disse ela, erguendo a calcinha.

__ Ele vai perceber.

__ Não se eu me livrar disso antes.

__ E como você vai fazer isso?

__ Como você acha? __ Ela o olhou como se ele fosse o maior estúpido entre os estúpidos.

__ Pergunta estúpida.

__ É. Pergunta estúpida.

Agora Mariana o olhava com uma expressão safada no rosto.

__ Você disse que não ia dar pra mim __ disse ele.

__ Me ocorreu que é o melhor a fazer no momento. Além do mais você anda muito mal humorado. Anda precisando de uma boa trepada. E eu não quero ter que explicar ao meu namorado como fiquei virgem de novo. O que, aliás, não tenho nem idéia de como veio a acontecer.

__ É, entendo, ia ser difícil explicar isso praquele tapado.

__ Já disse que não gosto quando você fala assim dele, então não estraga o clima.

__ Desculpe. Quer fazer aqui ou na cama?

__ Na cama, claro, não é todo dia que uma garota perde a virgindade.

Mariana foi na frente, despindo-se e largando peças de roupa pelo caminho. Ele também tirou a roupa antes de chegar na cama. Mariana colocou o notebook no chão e ambos deitaram-se na cama.

Ela tinha um cheiro bom, ele pensou. Como algo puro. Algo intocado. Algo que ainda não se perdera. Ele sentiu-se tocando-a, beijando-a.

__ Com cuidado __ disse Mariana. __ A-ai, com cuidado, cuidado. Não me machuque.

Ele pensou, eu nunca faria isso. Então ele lembrou-se do dia em que a levara a uma festa, haviam acabado de se conhecer, e Mariana o largou para transar com um rapaz muito bonito que a seduzira facilmente, apenas com sorrisos perfeitos e olhares pouco discretos, e depois ainda voltara satisfeita e lhe dissera, me leva para casa?, como se ele fosse apenas isso, um motorista, nada mais que um serviçal para ela. Ele lembrou-se disso e de-repente estava com raiva dela, queria faze-la sofrer, vingar-se dela.

__ Mariana, por que eu faria isso? __ disse ele, e apertou a boca dela e pressionou seu corpo sobre o dela, dizendo: __ Por que eu faria isso? Por que eu faria isso, Mariana?

Ele viu a surpresa e o terror nos olhos de Mariana, olhos assustados entre seus dedos. Ele forçou seu peso sobre ela e forçou-a a abrir as pernas e então ela começou a debater-se e mordeu sua mão, fazendo-o sangrar e parar por um instante. Ele esmurrou-a e sentiu o osso do nariz partir-se sob seu punho. Mariana gemeu de dor. Ela estava chorando agora. E ele enfiou o pau de uma vez dentro dela, uma única estocada que a fez quase gritar.

__ Pronto __ disse ele. __ Agora você não é mais virgem.

Ele enfiou-se nela cada vez mais rapidamente e ficou surpreso quando Mariana gozou. Então saiu de dentro dela e começou a rir.

__ Agora, você vai me chupar __ disse ele.

Mariana encolheu-se. __ Não, não vou, não vou.

__ Você vai, se não quiser apanhar mais.

Mariana colocou-o na boca. Ele gozou quase imediatamente, segurando a cabeça dela e fazendo-a engasgar-se com a porra.

__ Engula tudo __ disse ele. __ Tudo.

Ele soltou Mariana depois que ela o fez.

__ Agora, sai daqui.

Ela saiu meio encolhida da cama e, recolhendo suas roupas, praticamente correu para fora do quarto.

Ele ficou olhando o teto, satisfeito.

__ Você tinha razão, Mariana __ disse ele. __ Eu precisava de uma trepada.

Ele sentiu alguém ao lado da cama. Era Mariana, ainda nua, as coxas sujas de sangue, olhando-o com os olhos inchados e o cabelo desarrumado. Ele percebeu porra seca no canto da boca dela. Mas demorou a perceber a arma nas mãos de Mariana. Maldita segunda-feira, pensou ele.

Mariana nem ao menos sorriu, quando atirou.

 

 

domingo, 22 de maio de 2011

O ROSTO DAS MULHERES

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“A man’s face is his autobiography. A woman’s face is her work of fiction.”

Oscar Wilde

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A ARTE DE DAVE MCKEAN

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Voodoo Anenome

A FERA

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Bruce Lee

PENÉLOPE

CRISTOVÂO TEZZA

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Sempre fui um desenhista sem ambição. Despercebido em minha saleta, desenhava letras, garrafas, automóveis. Voltando ao meu apartamento, abria enlatados e esquentava minha comida. Continuo assim.
Cheguei à solidão através de três mulheres. Só na primeira houve paixão. Nas outras, um ceticismo prático. Enquanto isso, me iludia: cinema, jogo, praia, viagens de fim-de-semana. Também isso se perdeu. Ao fim (nem tanto: quarenta anos), restei numa exaustão conformada, fitando a parede branca, asas tortas se debatendo em silêncio. Mas a capacidade de ficar sozinho alimentou minha soberba: a sensação de liberdade, a ilusão da escolha.
Passei a desenhar também à noite, por conta própria. Formas: ruas, casas, homens, mulheres. O que parecia uma fuga - nos meus desenhos eu estava em casa - se transformou em prazer. O painel da aparência se ordenava nos meus traços. Nas minhas ruas, eu mesmo fazia a História. Punha os desenhos na parede e me protegia neste mundo inventado, que ia se desdobrando, folhas sobre folhas. Rosto na janela, multidões nas ruas, prédios vazios, alguém perdido no beco. Uma rua, um bairro, uma cidade inteira parecida com a minha ramificava-se em vizinhos, primos, mães, órfãos, árvores, risadas e socos. Uma mulher apressada, um rosto súbito que se volta no vento da tarde, me atraiu. Chamava-se Penélope, um nome a um tempo clássico e falso. Perdi muitas horas olhando para ela, que, não mais que um vulto, parecia pronta.
Tentei esquecê-la, mas a cada novo desenho eu voltava à minha Penélope suspensa na parede, imperfeita e acabada, completa para sempre como um sol morto. A sensação de alguém conhecido, mas que não conhecemos. De onde? De nenhum lugar. Talvez... e eu abria mais uma folha em branco, prosseguindo o mapa em outra direção. Por pouco tempo; uma distração e meus olhos voltavam a ela, com medo - muito que eu olhasse, e Penélope súbita revelaria o amarelo do tempo, o truque do traço, a invenção do papel.
Precisava enfrentá-la. Recortei Penélope da multidão e coloquei-a diante de mim. Como era incompleta! E no entanto... Decidi, presunçoso, lhe dar todos os traços do meu realismo. Lá ia eu, bêbado de uma idéia, empilhando Penélopes em preto-e-branco, a começar pelo rosto. Sempre a sensação de alguém conhecido, uma sombra, um sinal, uma inexistente prima da infância, uma funcionária de supermercado, um esbarrão na praça da Figueira (a face inquisitiva se voltando), um suspiro esperando o ônibus que não chega, mãos que se tocam no mesmo jornal da banca, mas quando? Ao me perder - não, esses olhos não são dela - rasgava o papel e recomeçava, voltando sempre ao primeiro esboço, o verdadeiro. Um cego tateando estátuas.
Afinal - um cigarro saboroso nos lábios, uma tragada na alma - dominei sua face, cada linha e nuance. Que prazer, olhando o teto! Desdobrei Penélope, cada vez mais dócil. De frente. Olhando para mim. De longe. Cabeça erguida. Tirando o sapato. Escovando os dentes. Silenciosa. Triste. Alegre. Com os cabelos compridos - compridos, negros e espessos. Depois, cortei seus cabelos. Fiz Penélope chorar. Dormir. Pensar. Lado a lado, comparava os desenhos. Ela mesma se comparava ao espelho, rigorosamente a mesma mulher.
E como eu ria, feliz da vida! O desespero de voltar do emprego - agora pintando cartazes de filmes, vida útil de uma semana, O Exterminador do Passado, A Viúva Faceira, Longo Teto Noite Adentro, Bambolê III, O Incrível Homem que Esquecia - o desespero de me entregar à Penélope, desvendá-la, nua, na intimidade do banho, de abrir a porta de seu guarda-roupa e pendurar lá tudo que ela quisesse. Desenhei quatro diamantes na gaveta do seu criado-mudo.
Braços, pernas, seios, curvas. Como era exatamente Penélope? Nas primeiras tentativas ela entristeceu, porque eu estava mentindo, enganado pelos padrões dos outros. Até que, sem saída - nem fui trabalhar naquela tarde - descobri o corpo que correspondia exatamente ao seu rosto. Um corpo, uma altura, um peso. Os braços me pareceram desproporcionais; ao refazê-los, as medidas teimavam - braços, mãos, unhas. Inteira, e com pudor. Nua, fechava os olhos, a mão cobrindo a pequena mancha da perna, uma queimadura da infância? Outra página desenhada, a expressão a um tempo íntima e distante. De onde essa mulher tão familiar?
Cobri os meus espaços de Penélope. Horas e horas contemplando alguém que me criava. Tão completa! Mas eu não tinha o poder de desvendá-la. Desenhei-a se oferecendo, até implorando que eu me lançasse naquele aquário de nada - e sempre uma redoma preservando-a. Deixei Penélope em paz, imóvel nas minhas paredes. Abria uma lata de cerveja e passeava pelos desenhos, com a falsa indiferença de quem já desistiu. Meses depois, bêbado, tentei redesenhá-la, e fracassei. Senti medo. Idêntica a ela mesma, Penélope achou graça. Eu também, ressentido e mais velho.
A onipresença das minhas paredes se transformou numa sombra das ruas: senti que me vigiavam. No ônibus, na praça, nas curvas da Trindade, a sombra de Penélope me acompanhava, como quem depende, como quem se diverte, como quem não tem saída. Uma proximidade inquieta: de algum lugar, em algum momento, alguém vai segurar minha mão para um encontro assustador e inevitável. Onde andará Penélope? Um tanto por vingança, um tanto por desejo, tomei seu rosto emprestado para um outdoor na beira-mar anunciando xampu de farmácia, a serviço de um novo emprego. Tão deformada assim, colorida!
Num sábado bissexto, passei o dia no Pântano do Sul, bebendo só. Esperava o ônibus das cinco. Alguém me chamou para empurrar um carro na areia:
- Penélope?
Ela não disse nem sim nem não, mostrando o pneu enterrado. Pensei que estivesse assustada, mas não; apenas distante, perguntou se eu ia à cidade. Fiz que sim, o sol na cabeça. Ela acelerou, eu empurrei, e o carro saiu fácil, mas me encheu de areia. Ela abriu a porta, eu entrei, inseguro. Por dez minutos falamos banalidades: o banco sujo de areia, o vento, o calor, o cinto de segurança, que não funciona. Depois, extensões agoniantes de silêncio, ao longo do caminho que ela já sabia. Eu vigiava aquele perfil: idêntica. Na Trindade, Penélope estacionou o carro e desligou o motor. Olhou para mim, muito séria. Alguém que se destaca de uma página em branco, na precisão do meu lápis. Leviano e cavalheiro, abri a porta para ela e segurei sua mão: mão firme e quente. Gostei de Penélope assim, em silêncio: um medo terrível de que a voz alta diminuísse minha obra.
Entramos no apartamento e ela foi direto aos desenhos. Nem espanto, só um quase sorriso:
- Essa sou eu?!
Não respondi, nem ela esperava resposta. Caminhou pelas paredes, vendo-se tão perfeitamente imóvel.
- Você me vigiava.
- Você me vigiava...
Afinal ela achou graça, previsivelmente inclinando a cabeça e passando a mão nos cabelos, exata no meu desenho. Seguiu-se um buraco de silêncio, tão pesado que não saía do lugar. Atravessar esse terror, a fala: a interminável tortura dos detalhes, a profissão, o corte da roupa, o leite na geladeira, o prazo, o troco no cinema, a memória, o acúmulo despropositado das coisas que se deve fazer, cada uma delas nos tirando um pedaço. Insisti no silêncio: cada palavra e estamos menores - medo de olhar para Penélope e descobrir um erro. Que horror é esse que ameaça minha solidão?
Nos meses que se seguiram - sei lá onde vivia Penélope, sei lá que espaço ocupava no mundo! - jamais pronunciei seu nome. Quem sabe nele se evidenciasse o engano e o desastre? Mas não: lá estava a pequena mancha na perna, que ela movia com a leveza de um bico-de-pena, nua no nosso desejo. Uma ânsia corrosiva de descobri-la mais e mais, mas tudo nela já estava desenhado, página a página. Amei Penélope com desespero, pressentindo o fim.
Depois, começou lentamente a morte de Penélope. Semana a semana ela perdia a cor, a firmeza, a voz. Perdia a leveza, a elegância e o brilho dos olhos, surtos de escuridão numa página em branco. Uma noite, minha mão trespassou seu braço, como a um vento. Metade do rosto eclipsava-se, uma lua sem rumo. Eu vi Penélope sofrer: suas últimas frases, sem sintaxe, imploravam alguma coisa que parecia salvação. Há três dias, acordei definitivamente sem Penélope, todas as paredes em branco. Ontem, da janela do quarto, vi oficiais do trânsito rebocando seu carro, abandonado na calçada estreita.