segunda-feira, 12 de agosto de 2013

LOBOS E CAPUZES VERMELHOS

José Marcelo
“Quanto mais doce a língua, mais afiados os dentes.”
Charles Perrault
Era uma vez uma garotinha que foi visitar a sua Vovó. O nome dessa garotinha era Chapeuzinho Vermelho e, mais tarde, ela se tornaria protagonista de um famoso conto de fadas que teve várias versões, umas contadas oralmente, outras escritas (a partir daquelas versões orais) — por escritores tão badalados como os Irmãos Grimm e Charles Perrault e outros nem tão famosos assim.
Mas vamos falar de Chapeuzinho Vermelho. Aquela mesma. Vestido curto, olhos claros, rosto inocente e lindo, um capuz e uma capa vermelhos. Ela carregava uma cesta cheia que ia levar para a casa da Vovó.
O Lobo a viu no instante em que ela entrou no bosque. Ele a desejou mais do que tudo e, com seu desejo, ele condenou-se.
Durante um tempo, o Lobo apenas acompanhou-a, sorrateiramente por entre a densa vegetação, os olhos amarelos faiscando, o pelo eriçado, o desejo aumentando.
Então, ele a abordou; não bruscamente como seria de se esperar, mas suavemente.
— Olá, linda garotinha — disse o Lobo.
— Olá — respondeu ela.
— Não sente medo, andando sozinha pelo bosque, garotinha?
— Por que sentiria? E meu nome não é garotinha, é Chapeuzinho Vermelho.
— Um nome apropriado.
— Isso não importa. Nomes nem sempre são apropriados, são apenas nomes. Agora tenho que ir.
— Por que a pressa?
— Vou para a casa da Vovó. Tenho que levar essa cesta para ela.
— Mas sua companhia me é agradável. Gostaria de conversar mais com a senhorita.
Chapeuzinho Vermelho olhou-o demoradamente, de um modo que deixou o Lobo inquieto. Chapeuzinho passou a língua pelos lábios e sorriu.
— Muito bem. Mas eu realmente não posso demorar muito. Vovó pode ficar preocupada.
— Sei que ela vai entender, quando você disser com quem estava.
—Sim.
Ela despiu-se do capuz e soltou os cabelos, macios, longos, claros como seus olhos. Olhos que eram verdes e azuis dependendo da luz.
A claridade de fim de tarde, filtrada por entre os galhos, era dourada, e o cheiro da relva era fresco e macio.
O Lobo desviou os olhos, o coração acelerado. Foi Chapeuzinho quem primeiro falou:
— Nada a dizer?
— Como? — O Lobo parecia confuso, piscou e, recuperando-se, sorriu. — Sim, naturalmente. Não quer sentar-se?
Ela sentou-se e colocou a cesta de lado. O Lobo deitou-se ao seu lado e sorriu.
— Você é uma garotinha estranha.
— Não sou tão nova quanto aparento.
— Entendo.
— Eu sei.
— Bem, qualquer pessoa teria medo em andar sozinha por esse bosque.
— Eu não. Sabe por quê?
— Não.
— Por que eu sei o que é a coisa mais perigosa do bosque, e também sei que ele não me feriria. Não aqui, não agora. Estou errada?
Um brilho de raiva passou pelos olhos do Lobo, mas tão rápido que provavelmente Chapeuzinho nem percebeu. Ou isso ou simplesmente ignorou-o.
— Não esteja tão certa.
— Mas eu estou.
O Lobo ergueu-se e sumiu por entre as folhagens. Era como se nunca estivesse estado ali. Mas ele ainda a observava, de algum lugar no bosque.
Chapeuzinho ergueu-se, arrumou o capuz, limpou a grama do vestido e pegou sua cesta; ela retomou sem caminho e, em nenhum momento, olhou para traz. O Lobo não percebeu que a mão que não segurava a cesta tremia levemente. O Lobo, então, teve uma idéia, e acelerou o passo. Chegaria primeiro à casa da Vovó.
A Vovó abriu a porta e morreu.
O Lobo não tinha tempo para sutilezas. Ele estava com pressa. Ele apoiou as patas sobre o peito da Vovó e começou a arrancar a pele e a carne da senhora. Uma enorme mancha vermelha como vinho antigo espalhou-se pelo assoalho e tornou-se preto no canto da sala. Ele arrancou o coração dela e colocou-o num prato sobre a mesa, recolheu um copo de sangue e colocou-o ao lado do prato.
Então limpou toda a sujeira, enfiou-se sob os lençóis e sobre a cama da Vovó.
E esperou.
Não teve que esperar muito. Logo ouviu Chapeuzinho Vermelho chamando.
— Entre — disse o Lobo, imitando a voz de uma velha senhora. — Entre, minha querida.
Chapeuzinho Vermelho abriu a porta, alegre, sorrindo, mas logo fez uma careta.
— Que cheiro estranho — disse ela.
— Não é nada. Não está com fome?
— Sim. Mas esse cheiro...
Chapeuzinho Vermelho largou a cesta no chão e disse:
— Para a senhora.
— Dispa-se.
— Sim, Vovó.
Ela obedeceu; tirou o capuz e o vestido, as sapatilhas e o pingente; novamente ela soltou os cabelos e agora seus olhos tinham uma tonalidade clara e suave.
— Queime suas roupas. — mandou o Lobo.
— Sim, Vovó. — Chapeuzinho jogou as roupas no fogo e ficou observando-as. O fogo dançava uma dança secreta.
— Agora, alimente-se. Você vai se sentir melhor.
— Sim, Vovó.
Ela sentou-se à mesa, comeu o coração de sua avó e bebeu o sangue.
— Agora, venha cá.
Ela caminhou até a cama, enfiou-se sob os lençóis e sentiu o pelo eriçado do Lobo. Ela aninhou-se junto a ele.
— Você não é minha avó — disse ela, calmamente.
— Não, não sou — respondeu o Lobo, desanimado. Ela era suave e macia como ele imaginara.
— Eu soube quando bebi o sangue. Pensei que fosse vinho, mas era sangue.
— Era.
— Tudo bem. Estava bom.
Ela passou a mão sobre o pelo do Lobo e fechou os olhos.
— Você me quer agora?
— Sim.
— Vai doer?
— Não muito.
— Eu confio em você — disse Chapeuzinho Vermelho e sorriu para o Lobo. — O que vem depois?
— Depois?
Ele não soube responder. Colocou carinhosamente a pata sobre ela, aproximou a boca da garganta dela e sentiu o cheiro dela. Ele lembrou-se de alguns tipos de flores que eram raras e desabrochavam apenas uma vez por ano; essas flores cheiravam assim. Como algo intocado e puro.
Na lareira, o fogo queimava as cinzas das roupas dela. Chapeuzinho Vermelho fechou os olhos. Na mesma hora a porta do guarda-roupas abriu-se e o corpo da Vovó, as entranhas penduradas e o rosto desfigurado numa expressão de surpresa e horror, parte da caveira aparecendo, apareceu como que para observar a cena com olhos esbugalhados.
— Que eu morrer, quero dizer. O que vem depois? — perguntou Chapeuzinho Vermelho.
— Não sei — teve que admitir o Lobo.
O Lobo beijou Chapeuzinho Vermelho primeiro, depois a matou rapidamente. Ficou com o focinho enfiado na ferida que lhe fizera na garganta, como se não quisesse mais sair de dentro dela.
Era alta madrugada e a lareira iluminava parcialmente o quarto. O Lobo estava sentado no chão, olhando pesarosamente para a cama. Chapeuzinho Vermelho, nua e morta, estava estendida sobre lençóis brancos manchados de sangue, os olhos fechados, calma como se estivesse dormindo. O Lobo não conseguira devorá-la. Mas por quê?, perguntava-se. Por quê? Ele não queria olhar para Chapeuzinho, mas não conseguia desviar os olhos.
— Por quê? — perguntava-se.
— Não é óbvio, animal estúpido? — disse a velha dentro do guarda-roupas. O Esforço de falar fizera escorrer sangue como baba de sua boca escancarada.
— Você deveria estar morta.
— Talvez. Mas minha neta não.
— Eu... sinto muito.
— Meio tarde para isso, não?
— Espere. Os mortos não falam.
— Não. Você está louco. É apenas isso.
— E o que importa?
— Você deve enterrá-la.
—
— Para que ela descanse em paz — insistiu a Vovó morta. — Você deve fazê-lo.
Com uma pá encontrada nos fundos e sob a lua cheia que era como um olho cheio de cicatrizes, ele cavou uma cova. Observado pelas criaturas do bosque, que se mantinham ocultas no escuro, pois ele era o Lobo, o ser mais perigoso do bosque, e todos o temiam, ele trouxe Chapeuzinho e colocou-a dentro da cova. Ele a cobriu de terra e voltou para dentro da cabana.
Sentou-se na cama, ergueu-se, pegou os lençóis e jogou-os no fogo da lareira; então fez uma tocha e começou a colocar fogo nos móveis e na madeira da casa.
Depois ficou observando o fogo erguer-se e consumir a casa rapidamente, como vermes na carne apodrecida.
Naquela noite, o Lobo subiu numa colina e uivou tristemente; mas dessa vez não era um lamento para a lua... Não, o lobo chorava por Chapeuzinho Vermelho.
Nessa noite, quando finalmente dormiu, o Lobo sonhou com seios cortados e flores brancas escurecendo rapidamente em um carmim que gotejava e gotejava. Ele andava por entre as flores e era como uma sombra maldita num lugar de luz e serenidade. Mas era uma paz falsa. Com seus sentidos aguçados ele podia perceber o mal, oculto nos cantos, entre as folhagens, na grama, nos espinhos que lhe arranhavam as patas. Ele exibiu os dentes, pontiagudos e a saliva acida. Começou a correr na direção do bosque e por um segundo viu uma mão acenando para ele, uma figura encapuzada (um capuz vermelho) ao longe. Então a figura desapareceu e ele duvidou que realmente a tivesse visto.
Ao amanhecer, ele voltou à casa da Vovó e lá havia apenas madeira queimada e cinzas, o esqueleto chamuscado de uma casa e nada mais. O Lobo deu a volta na casa e ficou diante da cova onde enterrara Chapeuzinho Vermelho. Os olhos dele estreitaram-se e ele recuou instintivamente. A cova fora violada, a terra revolvida. Ele farejou e escavou. Chapeuzinho Vermelho não estava lá.
Ele procurou pelo bosque e todos os habitantes da floresta, animais ou não, todos se esconderam. Então uma velha coruja aproximou-se e pousou num galho alto o suficiente para fugir se ele a atacasse e lhe contou o que acontecera.
— Foi tarde da noite — contou a Coruja. — Eu ouvi sons que não eram o da madeira crepitando no fogo ou mesmo carne velha cozinhando. Não. O fogo já se extinguira. Restara apenas uma fumaça de cheiro azedo subindo no ar. Era outro som. Como um eco de desespero. Era um cavar. Um cavar horrendo, cheio de angústia e terror. Não demorou e percebi de onde vinha. Vinha da cova de Chapeuzinho Vermelho. Seu tolo. Ela estava viva e tentava sair!
— Não. Impossível. Acha mesmo, Coruja, que não sei distinguir um corpo vivo de um morto?
— Sei que você bem o sabe, sim. Mas morta, eu lhe digo, ela não estava.
O Lobo estremeceu.
— Mas como é possível? — perguntou ele.
— E o que não é?
—
— Logo eu vi as pontas dos dedos de Chapeuzinho e o rosto dela e ela estava gritando e gritando e chorando. Ela arrastou-se para fora da cova, cuspindo terra, trêmula. Encolheu-se e ficou assim durante um tempo longo demais, não sei quanto. Então, ela ergueu-se e saiu da clareira e entrou no bosque. Eu a segui. Ela cambaleava entre as raízes até alcançar a trilha. Parecia desorientada. Uma figura estranha, coberta de terra e sangue seco. Ela caminhou até a estrada, onde caiu e ficou lá estendida, os olhos fitando vazios o céu, enquanto ao longe um lobo uivava... até que um carro passou e a levou.
O Lobo nada disse. A imagem de Chapeuzinho lutando para sair da cova o perseguia.
Mais tarde, quando a bala dos homens entrasse em sua carne e ele caísse no rio gelado, sendo arrastado pela forte correnteza, enquanto as balas ainda lhe eram disparadas, ele se lembraria do dia em que, depois de muitos anos, ele decidira novamente vestir a roupa e a aparência dos homens para ir à Vila dos Cantos à procura da garota que ele assassinara.
O Lobo chegou à vila ao amanhecer de um dia cheio de nuvens carregadas e chuva fina e fria. Encolhido dentro de um sobretudo surrado e fora de moda, ele atravessou a pequena ponte que era a entrada para a vila. Peixes nadavam e pulavam na água clara. Do outro lado da ponte, havia uma praça e na praça, uma igreja, bancos, árvores e um pub. O nome do pub era “A Toca” e o Lobo achou aquilo um bom presságio. Entrou no pub e o mesmo estava quase vazio. O Lobo foi até o balcão e um homem muito magro e muito alto perguntou-lhe o que queria.
— Algo para esquentar — disse o Lobo.
O homem assentiu e serviu-lhe uma dose de algo que o Lobo achou ácido demais, mas que realmente espantou um pouco do frio. Ele olhou ao redor. Dois homens jogavam xadrez de modo demasiadamente lento, como duas estátuas sem a menor vontade de mover-se. Uma mulher de roupas e gestos vulgares olhava triste um quadro na parede; no quadro, uma casa feita de doces. A mulher chorava silenciosamente.
O homem alto disse alguma coisa que ele não entendeu.
— Como?
— Perguntei se está só de passagem, veio visitar alguém ou o quê? — perguntou o homem, educadamente.
O Lobo pensou em dizer que estava só de passagem, mas pensou melhor:
— Vim visitar alguém, mas estou com um problema. Não sei onde essa pessoa mora. Talvez possa me ajudar.
— Como assim? Vem visitar uma pessoa e não sabe onde ela mora?
— Faz muitos anos que estive aqui — disse o Lobo, refletindo que isso era verdade.
— Muito bem — disse o homem alto, meio desconfiado. — Quem?
— Chapeuzinho Vermelho.
A expressão de desconfiança do homem mudou para pesar.
— Então você não sabe?
— O quê?
— Algo horrível aconteceu a ela.
— O que aconteceu?
— Ela foi atacada por ladrões quando foi visitar a avó dela. Os malditos a largaram no meio da estrada, em estado deplorável. E queimaram a casa da avó da menina. Pode acreditar? Na minha opinião, deviam ser alguns desses loucos que iam visitar a velha às vezes. Dizem que ela era bruxa, então se morreu queimada, foi algo bem merecido. Porém, Chapeuzinho não tinha que ver isso. Mas você é o quê? Algum parente?
— Isso. Um parente.
O homem alto assentiu, ensinou o caminho para o Lobo e disse que não precisava pagar a dose, é por conta da casa. O Lobo agradeceu e virou-se. Quase bateu de cara com a mulher que antes olhara o quadro. Os olhos dela ainda estavam úmidos.
— Eu o conheço? — perguntou ela. Ela o olhava atentamente, tentando lembrar de onde conhecia aquele homem de roupa surrada e modos estranhos. Sim, ele não era realmente estranho? O jeito como ele olhava tudo, como caminhava. Como se não se lembrasse mais o modo certo de fazê-lo.
— Não creio — respondeu ele, e saiu pela porta.
A casa de Chapeuzinho Vermelho ficava no fim de uma rua que subia num declive quase totalmente vertical, mas o Lobo, acostumado a correr no bosque por longas distâncias, não teve dificuldade em alcançá-la. Ele não bateu na porta imediatamente. Ouviu um rosnar e quando olhou, viu um enorme cachorro preto, o pelo curto e liso, latindo para ele. O Lobo exibiu os dentes e deixou o cachorro vislumbrar seus olhos amarelos. Foi o bastante para que o cachorro saísse correndo.
Quando tornou a olhar para a porta, levou um susto. Uma mulher estava parada na porta, olhando-o curiosa. A mãe de Chapeuzinho, adivinhou o Lobo.
— Posso ajudá-lo, senhor? — perguntou ela.
— Sim, quer dizer, estou procurando Chapeuzinho Vermelho.
A mulher olhou-o.
— E quem é o senhor? — perguntou ela.
— Mamãe?
Ele reconheceu a voz de Chapeuzinho e estremeceu. A chuva batia em seu chapéu e ele encolheu-se mais ainda.
— Entre — disse a mulher, e subiu os degraus que levavam ao andar superior.
O Lobo entrou e era uma sala espaçosa e confortável. Um degrau a separava da sala de jantar, onde havia uma enorme mesa de carvalho. Sobre a mesa, uma espingarda. O Lobo andou até a arma e pegou-a.
Estava examinando-a quando ouviu uma voz ríspida às suas costas:
— Solte-a já.
Ele virou-se. Um homem estava parado na porta, segurando uma caixa de balas e o olhava carrancudo. O Lobo soltou a arma.
— Desculpe. Eu não pretendia... Estava apenas admirando-a.
O homem passou por ele, colocou a caixa de balas sobre a mesa, ao lado da espingarda, e perguntou:
— Quem é o senhor?
— Amigo de Chapeuzinho.
— Estranho. Eu nunca o vi. Qual o seu nome?
— Wolfson.
— Nome engraçado.
— Nomes são apenas nomes.
— É verdade.
— Sua filha me disse isso.
— Como sabe que ela é minha filha?
— Ela o descreveu, certa vez.
— De onde a conhece?
— Ela disse para você subir — disse a mãe de Chapeuzinho, parada na escada.
Ele subiu. O quarto dela era o segundo no corredor. Chapeuzinho Vermelho estava no peitoril da janela, os joelhos apoiando o queixo, e olhava para a rua. A mãe de Chapeuzinho fechou a porta e o Lobo ouviu-a afastar-se.
— Não achei que o veria de novo — disse ela.
— Pensei que estivesse morta.
Ela virou-se para ele. Ainda estava pálida. Não havia nenhuma cicatriz em seu pescoço, apenas em seus olhos. Ela olhou-o com tristeza.
— Você cuidou para que isso fosse verdade, não foi?
Ambos falavam baixo, inconscientemente.
— Sim — respondeu ele, encabulado.
— Mas eu não morro tão fácil. Como pode ver, eu cicatrizo rapidamente também. Mas acordar dentro de uma sepultura, bem, não é fácil para uma garota de dezesseis anos. Não é fácil para ninguém, de qualquer modo.
— Sinto muito.
— Eu sei que sente, lobinho.
Ele estremeceu.
— Infelizmente eu não morri. Alguma coisa que minha avó fez comigo, imagino. Desde que eu era pequena, meus machucados, por mais que parecessem sérios, saravam depressa. Ela era uma bruxa, você deve saber. A minha avó.
— Ouvi algo.
— Você veio me matar?
Ele demorou a responder.
— Não sei — disse, finalmente.
— Não sabe ou não pode?
Ela desceu da janela, sentou-se na cama e olhou para o espelho no outro lado do quarto.
— Você... — começou a dizer o Lobo.
— Eu queria morrer, sabe. Por isso eu fiz tudo que me mandou fazer na casa da minha avó.
— Mas por quê?
— Por que eu queria morrer? Esqueça isso.
— Foi sua avó que me disse para enterrá-la. Levei um susto danado. Ela estava morta e falando comigo.
— Você deve ter imaginado.
— Talvez — disse ele, mas duvidava.
Os dois ficaram em silêncio. O Lobo andou até a janela. Depois virou-se e examinou o quarto atentamente. Havia um calendário perto do espelho; uma imagem de um lago profundo e a data: 18 de novembro de 1917.
— Não imaginei que tivesse passado tantos anos — Ele se referia ao tempo em que abandonara a humanidade e se tornara lobo. Ele a olhou. — Como me reconheceu?
— Lobo em pele de homem. Eu o reconheceria de qualquer modo. Em qualquer lugar.
— Eu vou embora.
— Por que veio aqui?
— Não sei. Talvez você seja tão bruxa quanto sua avó e tenha me enfeitiçado — disse ele, meio brincando, meio sério.
Ela sorriu, andou até ele e beijou-o, um beijo quente, demorado.
— Esse é o único feitiço que eu conheço.
—
— Eu ainda tenho seu cheiro em mim — ela disse e afastou-se. — Desde aquela noite.
— Eu vou embora.
— Você volta para me ver?
— ... Não. Esse lugar é perigoso demais para os da minha espécie.
— Então eu irei vê-lo no bosque.
— Eles permitirão que você volte lá, depois do que aconteceu?
— Eles não precisam saber.
A mãe de Chapeuzinho Vermelho entrou sem bater e encarou-os, desconfiada.
— Seu pai está inquieto com vocês dois aqui em cima, sozinhos — disse ela.
— Já estou de saída — disse o Lobo.
Na semana seguinte, Chapeuzinho Vermelho foi encontrar-se com o Lobo no bosque. Ela havia dito à sua mãe que iria dar uma volta pela cidade e, sim, mãe, vou me manter longe do bosque.
Quando alcançou a trilha que ia dar na casa de sua avó, Chapeuzinho soube que estava sendo observada. O Lobo saltou diante dela, o pelo escuro, os olhos amarelos, e observou-a atentamente.
— Você não me assusta – disse ela.
— Eu sei.
Ele farejou o ar.
— O que foi?
— Você foi seguida.
— Tem certeza? Eu tomei bastante cuidado e...
A bala acertou-o no ombro e ele ganiu. Chapeuzinho gritou. O Lobo caiu, pesadamente. Então, ergueu-se depressa.
Cavalos aproximavam-se rapidamente.
— Fuja — gritou Chapeuzinho.
Ele correu, um tanto lento por causa do ferimento, mas ainda rápido. As balas passavam por ele, arrancando lascas de árvores e terra. Ele olhou para traz e viu os cavalos e os homens armados sobre eles. Ele correu como nunca correra antes e, apesar daquele bosque ser sua morada a centenas de anos e o Lobo conhece-lo como a si mesmo, eles o encurralaram no alto de um precipício. Ele olhou para baixo e viu um rio sinuoso e que seguia a perder de vista. Olhou para traz e viu os homens armados chegando depressa. E saltou.
Os homens desceram dos cavalos e ainda estavam atirando nele quando ele atingiu a água e foi arrastado pela força da água.

              Chapeuzinho Vermelho, de joelhos no meio da trilha, chorava.
              Noite. Lua cheia. Não há uivos essa noite no bosque.

terça-feira, 30 de julho de 2013

A BELA ROSARIO DAWSON

rosario dawson trance

TRECHOS manual da destruição

alexandre dal farra

“as lembranças do passado de merda ficam nas nossas cabeças e não servem para porra nenhuma. eu fico lembrando das coisas, e acho isso uma merda, principalmente se as coisas que eu lembro têm a ver com a porra da rachadura na parede da casa da minha avó…”

“… seria melhor o grito. seria melhor não haver as palavras, só o grito, o grito desarticulado, sem lembranças, sem marcas. todas as palavras são marcas que carregam diversas outras coisas além  do que elas descrevem agora. as palavras vêm sempre maculadas do que elas já disseram antes, são palavras velhas de merda e se conectam todas com as fotos tiradas posteriormente pelo cérebro. palavras filhas da puta, marcadas pelo passado escroto!seria preciso ficar só no grito,  só o grito, o grito, o grito, eu sinto a gosma que reviveu dentro de mim e quer se tornar grito sem palavras…”

“tenho raiva desse mecanismo do meu cérebro,e tenho raiva particularmente da maneira como ele liga as memórias entre si, criando tramas infinitas em que eu me enredo e fico fora do lugar onde estou!(…) estou sentado na frente do meu portão de embarque onde há os animais escrotos esperando para ir viajar, e decidi lembrar de alguma merda, não importa o quê. estou me esforçando para lembrar de algo que não venha da minha relação orgânica com a vida, que não emerja da merda da situação de agora que me remete às outras merdas…”

monte de leituras.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

TRECHO Viva O Povo Brasileiro

João Ubaldo Ribeiro

Ogum desceu sobre o campo de batalha como um vendaval, nada deixando à sua frente, pois que ignora qualquer barreira e é conhecido como o que vai primeiro. Na sua frente, sobre um morrote verde, um grupo de soldados combatia em torno do estandarte da Segunda Companhia de Zuavos dos Voluntários da Pátria, da ilha de Itaparica, estandarte mantido no ar pelo Sargento Matias Melo Bonfim, feito de Ogum desde os sete anos, um de seus filhos mais valorosos. Vinha de Amoreiras, onde florescem os mimos-do-céu e os passarinhos cantam mais. Deixara seus dois filhinhos, Matilde e Baltazar, sua mulher Maricota e sua roça de milho e feijão, deixara sua mãe viúva e sua criação, prometendo voltar assim que ganhasse a guerra. Beijara a filhinha Matilde e o filhinho Baltazar na beira do atracadouro, antes de embarcar com seu vistoso uniforme para lutar pelo Brasil, abraçara sua mulher Maricota e sua mãe viúva e partira com o mesmo sorriso orgulhoso que estampava agora, portando o estandarte intocável da companhia insulana, que flutuava na brisa acima da batalha. Alegre por ser seu filho, Ogum se preparou para animá-lo e dar-lhe conforto, mas o chumbo fervente de uma bala inimiga mordeu o pescoço tenro do rapaz de Amoreiras, apagou seu sorriso e lhe toldou os olhos com o véu pardo da Morte, a qual lhe aspirou a alma pela boca, boca que nunca mais beijaria Matilde e Baltazar, nem nunca mais falaria para contar das belezas de Amoreiras, onde os mimos-do-céu florescem e cantam mais os passarinhos.

Ogum soltou um grito superior à canhonada e suas lágrimas quentes, de dor pelo filho morto, regaram o chão, tornando mais fumegante o sangue dos caídos. O estandarte oscilou, foi para um lado, foi para o outro, até que seu mastro tombou e ele se perdeu entre as cabeças dos combatentes. Como um cardume de atuns desbaratando uma manta de tainhas, como onças acossando a presa, como um enxame de abelhas enfurecidas, como matilhas de guarás despedaçando uns aos outros, paraguaios e itaparicanos se atiraram à luta pela posse do estandarte. Os Cabos Benevides e Arimatéa, brandindo as carabinas como cacetes, fizeram uma parede em torno do estandarte, para que seu companheiro Cabo Líbio o levantasse outra vez. Mas Cabo Líbio, ao erguer-se, teve a cabeça fendida pela cutilada de um sabre e caiu morrendo, a lembrança de sua linda Gamboa, terra onde os mariscos são fartos e as tardes frescas, esvoaçando ao ar de seus miolos partidos. Uma mão paraguaia apoderou-se do hastil, uma lançada no peito derrubou o Cabo Benevides e já o inimigo se preparava para amarfanhar o pavilhão intocável, quando Ogum, senhor das batalhas, mestre das armas, cujo nome é a própria guerra, disparou do alto e arrebatou a bandeira num puxavão que por um momento fez com que ela tremulasse entre as nuvens. Disse então o grande Ogum, ao Cabo Arimatéa:

– José de Arimatéa, mantém firme o estandarte intocável de tua terra, que agora te passo às mãos! Quem te fala é teu pai Ogum, senhor das batalhas, invencível no combate, cujo nome é a própria guerra! Não esqueci os meus filhos e estou aqui para não deixar que pereçam nas mãos do cruel inimigo. É imensa a minha dor, porque demorei a chegar e não pude evitar que matassem um de meus filhos mais valorosos, Matias Melo Bonfim, galardão de Amoreiras, onde florescem os mimos-do-céu e os passarinhos cantam mais. E pela mesma razão é também desmedida a minha fúria, que agora farei desabar sobre o inimigo. Estou a teu lado, vencerás! Ogum-ê!

E logo, como um redemoinho, como um catavento de aço, como vinte mil facões esfarinhando o ar, o grande Ogum, invencível no combate, cercou seu filho Cabo Arimatéa, enquanto ele suspendia bem alto o pavilhão, imune às balas e estocadas do inimigo.

todoprosa.

terça-feira, 16 de julho de 2013

TRECHO O Emblema Vermelho da Coragem

Stephen Crane

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Virou-se e viu o amigo correndo aos trancos e tropeções na direção de um pequeno grupo de arbustos. Diante da cena, seu coração parecia querer abandonar o corpo. Deu um gemido de dor. Em pouco tempo, ele e o maltrapilho saíam no encalço do outro. Era uma estranha corrida.

Quando alcançou o praça alto, começou a lhe dirigir apelos com todas as palavras que conseguia encontrar. “Jim… Jim… o que você está fazendo… o que houve… você vai se machucar!

Havia determinação no rosto do praça, que protestava mecanicamente, mantendo os olhos fixos no plano místico de suas intenções. “Não… não… não toca em mim… Me deixa, me deixa!”

O jovem, horrorizado e cheio de assombro com o comportamento do amigo, começou a questioná-lo com voz trêmula. “Aonde você vai, Jim? O que você está pensando? Hein, Jim, me diz…”

O praça alto se virou como se estivesse encarando perseguidores implacáveis. Havia em seus olhos um apelo enérgico. “Me deixa, está bem? Me deixa um minuto!”

O jovem se ressentiu. “Mas, Jim…”, disse, atordoado, “o que que há com você?”

O praça alto se virou e, capengando de modo periclitante, seguiu em frente. O jovem e o maltrapilho seguiram timidamente atrás, como se tivessem levado uma chibatada e se sentissem incapazes de enfrentar de novo o homem debilitado. Ideias solenes começaram a lhes ocorrer. Havia algo de ritualístico na ação do moribundo, algo que o aparentava a um devoto de alguma religião insana, capaz de chupar sangue, espremer carne, amassar osso. Sentiam um misto de reverência e medo. Deixaram-se ficar para trás, receando um possível acesso do homem a poderes ocultos e tenebrosos.

Por fim, viram-no parar e ficar imóvel. Apressando o passo, distinguiram em seu rosto a expressão de quem finalmente havia encontrado o lugar pelo qual lutara. Seu vulto magro estava ereto; as mãos pendiam calmas ao lado do corpo. O homem esperava pacientemente algo que viera encontrar. Estava no local combinado. O jovem e o maltrapilho aguardaram.

Houve um silêncio.

De repente, o peito do condenado começou a subir e descer num movimento tenso. A violência do ataque foi crescendo até que parecia haver um animal dentro dele, pulando e escoiceando furiosamente para se libertar.

Aquele espetáculo de estrangulamento gradual fez o jovem tiritar. A certa altura, quando o amigo revirou os olhos, viu neles algo que o levou a jogar-se no chão, chorando. Ergueu a voz, num último e supremo chamado.

“Jim… Jim… Jim…”

O praça alto abriu a boca e disse, erguendo a mão: “Me deixa… não toca em mim… me deixa…”.

Fez-se um novo silêncio de expectativa.

De repente, o corpo do homem se enrijeceu e se aprumou. Depois, foi sacudido por um demorado tremor. Ele fitava o vazio. Pareceu aos dois observadores que havia uma profunda, estranha dignidade nas linhas firmes de seu rosto medonho.

Uma estranheza aos poucos o envolvia. Por alguns instantes, a tremedeira de suas pernas o fez dançar uma horrenda quadrilha. Seus braços desferiam golpes no ar, junto da cabeça, com entusiasmo demoníaco.

O corpo alto estava teso e esticado ao máximo. Houve um leve ruído de dilaceramento e ele começou a tombar para a frente, lento, reto, como uma árvore caindo. Uma contorção muscular brusca fez seu ombro esquerdo tocar primeiro no chão.

O corpo pareceu quicar levemente ao encontrar a terra.

“Nossa!”, disse o soldado maltrapilho.

O jovem acompanhara, enfeitiçado, essa cerimônia no local combinado. As expressões de seu rosto traduziam toda a agonia que imaginava sentir o amigo.

Então, de um salto, chegou mais perto e olhou o rosto vítreo. A boca estava aberta, mostrando os dentes num riso.

Olhando a aba do casaco, aberta ao lado do corpo, o jovem notou que ela parecia ter sido mastigada por lobos.

Voltou-se, pálido e furioso, na direção do campo de batalha. Ergueu um punho ameaçador. Parecia a ponto de disparar um insulto.

“Inferno…”

O sol vermelho estava pregado no céu, como um lacre.

todoprosa.

terça-feira, 25 de junho de 2013

TRAILER The Counselor

o primeiro roteiro original de CORMAC MCCARTHY promete mais uma história fodona de um escritor não menos que genial.

LEMBRE O MEU NOME

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uma puta série que está para acabar…

O jeito que isso é

Charles Bukowski

“O inferno está lotado ainda, você sempre pensa que você está sozinho. E você nunca pode dizer a ninguém que você está no inferno ou eles vão pensar que você está louco. Mas ser louco é estar no inferno e ser sensato também. Aqueles que escapam do inferno nunca falam sobre isso e nada mais os incomoda depois disso. Quero dizer, coisas como falta de uma refeição, ir para a cadeia, bater seu carro ou mesmo morrer. Quando você perguntar-lhes, ‘como as coisas estão indo?’ eles vão responder: ‘bem, muito bem …’ Uma vez que você foi para o inferno e voltou é o bastante, é a mais silenciosa celebração conhecida. Uma vez que você foi para o inferno e voltou, você não olha para trás quando o chão range. O sol está no alto à meia-noite. E coisas como os olhos de ratos ou um velho pneu em um terreno baldio pode torná-lo feliz. Uma vez que você foi para o inferno e voltou.”

FRAMES O EXTERMINADOR DO FUTURO

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terça-feira, 18 de junho de 2013

FILME OS DEMÔNIOS

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para ver, clique na imagem: um filme de ken russel, baseado em livro de aldous huxley. livraço. filmaço. impressionante.