Um dia ideal para os peixes-banana e livros e cinema e gibis e nus e ataxia espinocerebelar e 𓋹
sexta-feira, 14 de junho de 2013
quinta-feira, 13 de junho de 2013
quarta-feira, 12 de junho de 2013
TRECHO Grande sertão: veredas
Guimarães Rosa
O que eu agora queria! Ah, acho que o que era meu, mas que o desconhecido era, duvidável. Eu queria ser mais do que eu. Ah, eu queria, eu podia. Carecia. “Deus ou o demo?” – sofri um velho pensar. Mas, como era que eu queria, de que jeito, que? Feito o arfo de meu ar, feito tudo: que eu então havia de achar melhor morrer duma vez, caso que aquilo agora para mim não fosse constituído. E em troca eu cedia às arras, tudo meu, tudo o mais – alma e palma, e desalma… Deus e o Demo! – “Acabar com o Hermógenes! Reduzir aquele homem!…” –; e isso figurei mais por precisar de firmar o espírito em formalidade de alguma razão. Do Hermógenes, mesmo, existido, eu mero me lembrava – feito ele fosse para mim uma criancinha moliçosa e mijona, em seus despropósitos, a formiguinha passeando por diante da gente – entre o pé e o pisado. Eu muxoxava. Espremia, p’r’ali, amassava. Mas, Ele – o Dado, o Danado – sim: para se entestar comigo – eu mais forte do que o Ele; do que o pavor d’Ele – e lamber o chão e aceitar minhas ordens. Somei sensatez. Cobra antes de picar tem ódio algum? Não sobra momento. Cobra desfecha desferido, dá bote, se deu. A já que eu estava ali, eu queria, eu podia, eu ali ficava. Feito Ele. Nós dois, e tornopio do pé-de-vento – o ró-ró girado mundo a fora, no dobar, funil de final, desses redemoinhos: …o Diabo, na rua, no meio do redemunho… Ah, ri; ele não. Ah – eu, eu, eu! “Deus ou o Demo – para o jagunço Riobaldo!” A pé firmado. Eu esperava, eh! De dentro do resumo, e do mundo em maior, aquela crista eu repuxei, toda, aquela firmeza me revestiu: fôlego de fôlego de fôlego – da mais-força, de maior-coragem. A que vem, tirada a mando, de setenta e setentas distâncias do profundo mesmo da gente. Como era que isso se passou? Naquela estação, eu nem sabia maiores havenças; eu, assim, eu espantava qualquer pássaro.
Sapateei, então me assustando de que nem gota de nada sucedia, e a hora em vão passava. Então, ele não queria existir? Existisse. Viesse! Chegasse, para o desenlace desse passo. Digo direi, de verdade: eu estava bêbado de meu. Ah, esta vida, às não-vezes, é terrível bonita, horrorosamente, esta vida é grande. Remordi o ar:
– “Lúcifer! Satanás!…”
Só outro silêncio. O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.
– “Ei, Lúcifer! Satanás, dos meus Infernos!”
Voz minha se estragasse, em mim tudo era cordas e cobras. E foi aí. Foi. Ele não existe, e não apareceu nem respondeu – o que é um falso imaginado. Mas eu supri que ele tinha me ouvido. Me ouviu, a conforme a ciência da noite e o envir de espaços, que medeia. Como que adquirisse minhas palavras todas; e fechou o arrocho do assunto. Ao que eu recebi de volta um adejo, um gozo de agarro, daí umas tranquilidades – de pancada. Lembrei dum rio que viesse adentro a casa de meu pai. Vi as asas. Arquei o puxo do poder meu, naquele átimo. Aí podia ser mais? A peta, eu querer saldar: que isso não é falável. As coisas assim a gente mesmo não pega nem abarca. Cabem é no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas!
terça-feira, 11 de junho de 2013
segunda-feira, 10 de junho de 2013
domingo, 9 de junho de 2013
sábado, 8 de junho de 2013
POR MACBETH
[...]”O amanhã, o amanhã, o amanhã,
avança em pequenos passos,
de dia para dia,
até a última sílaba da recordação,
e todos os nossos ontens
iluminaram para os loucos
o caminho da poeira da morte.
APAGA-TE, APAGA-TE, TOCHA FUGAZ !!!
A VIDA NÃO É MAIS
QUE UMA SOMBRA QUE PASSA .
UM POBRE PALHAÇO QUE SE PAVONEIA
E SE AGITA UMA HORA EM CENA,
E, DEPOIS, NÃO SE OUVE MAIS FALAR DELE.
A VIDA É UMA HISTÓRIA
CONTADA POR UM IDIOTA,
CHEIA DE SOM E DE FÚRIA,
SIGNIFICANDO NADA.”
William Shakespeare. Macbeth, ato v, cena v
TRECHO ‘OS INVASORES DE CORPOS’
Jack Finney
A casa de Jack é verde, assentada na encosta de uma colina. A garagem é parte do porão. A garagem estava vazia, a porta aberta. Jack fez-me sinal para que entrasse.
Saímos do carro e Jack acendeu a luz e fechou a porta da garagem.
Depois, abriu uma porta que dava para o porão propriamente dito, fazendo um gesto para que passássemos na sua frente.
Entramos num porão comum: uma antiquada tina de lavar roupa, uma moderna máquina de lavar roupa, um cavalete de madeira, jornais empilhados, algumas caixas de papelão e diversas latas de tinta usadas encostadas numa parede. Jack passou por nós, atravessando o portão até outra porta. Parou ali, virando-se para nós, com a mão na maçaneta. Eu sabia que Jack tinha lá dentro uma boa mesa de bilhar, comprada em segunda mão. Ele me contara que a usava constantemente, jogando sozinho, enquanto imaginava o que iria posteriormente escrever. Olhando para Becky e depois para a esposa, ele murmurou:
— Fiquem calmas.
Em seguida, Jack entrou naquela outra sala do porão e puxou o cordão que acendia a lâmpada pendurada do teto. Fomos atrás.
A luz sobre uma mesa de bilhar é projetada para iluminar intensamente a superfície verde de feltro. Fica suspensa bem baixa, a fim de não incidir nos olhos dos jogadores, deixando o teto na escuridão. Aquela possuía um anteparo retangular para confinar a luz somente à superfície da mesa, deixando o resto da sala na semi-escuridão. Eu não podia ver direito o rosto de Becky, mas a ouvi suspirar bruscamente. Estendido sobre o feltro verde da mesa, sob a luz forte de uma lâmpada de 150 watts, coberto com o encerado que Jack mantinha ali como proteção, estava o que era inegavelmente um corpo.
Virei-me para Jack, que me disse:
— Pode puxar o encerado.
Eu estava irritado. Aquela situação me preocupava e assustava, havia mistério demais para me agradar. Ocorreu-me que o escritor que havia em Jack estava forçando exageradamente o comportamento dramático. Peguei uma ponta do encerado e puxei-o para um canto da mesa.
Estendido no feltro verde, de costas, encontrava-se o corpo nu de um homem. Devia ter em torno de l,75m de altura, mas não posso afirmar com certeza. Não é fácil calcular a altura de um corpo deitado. Era branco, a pele muito pálida sob a luz forte. Parecia, ao mesmo tempo, irreal e teatral, contudo era terrivelmente real.
O corpo era esguio, talvez com 65 quilos, mas visivelmente bem nutrido e musculoso. Não dava para definir a idade, exceto que não era velho. Os olhos estavam abertos, fitando diretamente a luz, de um jeito que faria com que os olhos de qualquer outra pessoa parecessem inteligentes. Eram azuis e límpidos. O corpo não tinha qualquer ferimento visível nem alguma outra causa de morte evidente.
Fui postar-me ao lado de Becky, passei o braço pelo dela e virei-me para Jack.
— E então?
Ele meneou a cabeça, recusando-se a fazer qualquer comentário.
— Continue a olhar. Examine o corpo. Não está notando nada estranho? — indagou ele.
Voltei-me novamente para o corpo sobre a mesa. Estava ficando cada vez mais irritado. A situação não me agradava. Havia mesmo algo de estranho naquele homem morto estendido sobre a mesa, mas eu não sabia explicar o quê. E isso só contribuía para me deixar ainda mais furioso.
— Ora, Jack, não estou vendo mais nada além de um cadáver. Vamos acabar com o mistério. Qual é o problema?
Ele tornou a menear a cabeça, franzindo o rosto, numa expressão suplicante.
— Não fique nervoso, Miles. Por favor. Não lhe quero dizer a minha impressão do que está errado, para não influenciá-lo. Se realmente existe, quero que o descubra pessoalmente. E se não existe coisa alguma, se estou apenas imaginando coisas, também quero saber. Atenda a meu pedido, Miles. Dê uma boa olhada nessa coisa.
Examinei o cadáver, contornando lentamente a mesa, parando a fim de olhar de diversos ângulos. Jack, Becky e Theodora se afastavam do meu caminho, enquanto eu me deslocava em torno da mesa. Pouco depois, relutantemente, pedindo desculpas a Jack no tom de voz, murmurei:
— Tem razão, Jack. Há mesmo algo estranho nesse corpo. Não está imaginando coisas. Ou se está, o mesmo acontece comigo.
Talvez por mais meio minuto fiquei olhando para o que estava em cima da mesa, em silêncio, antes de finalmente voltar a falar:
- Por um lado, não é com freqüência que se encontra um corpo assim, vivo ou morto. De certa forma, faz-me lembrar de uns poucos pacientes tuberculosos que já examinei... os que passaram quase toda a vida em sanatórios. — Virei-me e olhei para os três. — Não se pode levar uma vida comum sem se ficar com umas poucas cicatrizes, alguns cortes, aqui e ali. Mas esses pacientes que vivem em sanatórios não têm oportunidade de arrumar cicatrizes, pois seus corpos praticamente não são usados. E é exatamente assim que esse corpo parece... — Acenei com a cabeça para o corpo pálido e imóvel sob a luz forte. — Mas não se trata de um tuberculoso. É um corpo saudável, bem formado. Aqueles músculos são vigorosos. Mas ele nunca jogou futebol ou hóquei, jamais caiu de uma escada, nunca quebrou um osso. Parece. .. um corpo que não foi usado. Foi essa também a impressão que teve?
- Foi, sim — concordou Jack. — E que mais?
- Você está bem, Becky? — Olhei para ela, por sobre a mesa.
- Estou, sim — assentiu Becky, mordendo o lábio inferior.
- O rosto... — murmurei, respondendo a Jack. Fiquei contemplando o rosto, branco como cera, sereno, absolutamente imóvel, os olhos azuis virados para cima. — Não é... exatamente imaturo. — Eu não sabia direito como explicar. — Os ossos são sólidos, é um rosto adulto. Mas parece... — fiz outra pausa, procurando a palavra certa, sem conseguir encontrar — ... vago. Parece...
Jack interrompeu-me, a voz tensa e ansiosa. Na verdade, ele estava até sorrindo, ligeiramente.
- Já viu alguma vez como se fazem medalhas?
- Medalhas?
- Isso mesmo. Medalhas de categoria. Medalhões.
- Não.
Jack começou a explicar, sem que eu pudesse compreender par quê:
- Para se fazer um trabalho realmente bom, em metal duro, é preciso fazer duas gravações. Primeiro, eles pegam um molde e fazem a gravação número um, dando ao metal o formato inicial, ainda tosco. Depois, fazem a gravação com o molde número dois. É esse segundo molde que grava os detalhes, as linhas suaves e os contornos delicados que se encontram num medalhão de categoria. Eles são obrigados a fazer isso porque o segundo molde, o que contém os detalhes, não poderia deixar qualquer marca no metal liso. É necessário gravar o formato tosco inicial, com o molde número um. — Jack parou de falar, olhando de
Becky para mim, a fim de verificar se estávamos acompanhando sua explicação.
- E daí? — indaguei, impacientemente.
- Geralmente, um medalhão mostra um rosto. E quando se o contempla, depois da primeira gravação, o rosto ainda não está acabado. Está tudo lá, é verdade, mas não se encontram os detalhes que proporcionam a individualidade. — Jack fez nova pausa, olhando para mim. — Miles, é assim que esse rosto parece. Está tudo aí. Possui lábios, nariz, olhos, pele, uma estrutura óssea por baixo. Mas não há linhas, não há detalhes, não há individualidade. É informe! Olhe só! — A voz dele se alteou, estridentemente. — É como um rosto vazio, esperando que os detalhes finais sejam gravados!
Jack tinha razão. Nunca antes, em toda a minha vida, eu vira um rosto assim. Não era um rosto débil, sem força, com toda certeza. Mas era de certa forma indefinido, sem personalidade. Não era realmente um rosto; ainda não. Não havia qualquer vida nele, não estava marcado pela experiência. Creio que essa é a única maneira pela qual posso explicar. Finalmente perguntei:
- Quem é ele?
- Não sei. — Jack foi até a porta e acenou com a cabeça para a outra parte do porão e a escada que levava lá para cima. — Há um pequeno espaço por baixo da escada, fechado com madeira compensada para proporcionar uma espécie de depósito. Está cheio de coisas velhas, como roupas em caixas de papelão, aparelhos elétricos sem funcionar, um velho aspirador de pó, um ferro de passar, alguns abajures, coisas assim. E há também alguns livros velhos. Foi ali que o encontrei. Estava procurando uma referência que precisava e pensei que poderia estar num daqueles livros. Ele estava estendido lá, por cima das caixas de papelão, exatamente como o está vendo agora. Fiquei apavorado. Saí correndo como um gato num canil, acabei ficando com um galo na cabeça... Depois, voltei e tirei-o de lá. Pensei que ainda poderia estar vivo. Miles, quanto tempo demora para haver o rigor mortis?
- De oito a dez horas.
- Pois pegue nele. — De certa forma, Jack estava apreciando a situação, como um homem que fez uma promessa e a está cumprindo.
Peguei, pelo pulso, um braço do corpo em cima da mesa. Achava-se relaxado e flexível. Nem mesmo estava pegajoso ou particularmente frio.
- Não há rigor mortis — disse Jack. — Certo?
- Certo. Mas o rigor mortis não é invariável. Há determinadas condições... — Parei de falar no meio da frase. Não sabia que conclusões tirar naquele caso.
- Se quiser, Miles, pode virá-lo. Mas também não vai encontrar quaisquer marcas de ferimentos nas costas. Nem no couro cabeludo. Não há o menor sinal do que o matou.
Hesitei por um instante. Mas, legalmente, não podia tocar naquele corpo. Peguei o encerado e puxei-o por cima do corpo cobrindo-o pela metade.
- Muito bem, Jack, e agora? Vamos subir?
- Vamos. — Jack acenou com a cabeça na direção da porta e continuou onde estava com a mão no cordão da luz, até que todos tivessem saído.
Lá em cima, na sala de estar, Theodora polidamente convidou-nos a sentar e circulou acendendo abajures e providenciando cinzeiros. Depois, foi para a cozinha e voltou sem o avental. Sentou-se numa poltrona. Becky e eu estávamos no sofá, enquanto Jack sentava junto à janela, numa cadeira de balanço de madeira, contemplando a cidade. Quase toda a parede da frente da sala é constituída por uma única placa de vidro.
Pode-se ver todas as luzes da cidade, espalhadas pelas colinas. É uma sala das mais agradáveis.
— Querem um drinque ou alguma outra coisa? — indagou Jack.
Becky sacudiu a cabeça e eu disse:
— Não, obrigado. Mas podem tomar, se quiserem.
Jack disse que não estava com vontade e olhou para a esposa, que também sacudiu a cabeça. Depois, ele começou a falar:
— Nós o procuramos, Miles, porque é médico, mas também porque é um cara que pode enfrentar os fatos.
Mesmo quando eles não são o que devem ser. Não é um homem de se empenhar a fundo para transformar o preto em branco, só porque isso lhe parece mais conveniente. Para você, as coisas são o que são, como já tivemos oportunidade de constatar. Dei de ombros, sem dizer nada.
— Tem mais alguma coisa a dizer a respeito do corpo lá embaixo? — perguntou Jack.
Fiquei calado por um momento, mexendo num botão do casaco, depois tomei a decisão de dizer o que estava pensando.
— Tenho, sim. Sei que não faz sentido, não faz absoluta¬ mente o menor sentido, mas eu gostaria de efetuar uma autópsia naquele corpo. Querem saber o que acho que descobriria? — Corri os olhos pela sala, fixando-os em Jack, Theodora e depois em Becky. Nenhum deles respondeu. Continuaram sentados onde estavam, esperando. — Tenho a impressão de que não encontraria nenhuma causa para a morte. Acho que descobriria que todos os órgãos se encontram em perfeitas condições, assim como o corpo está externamente. Tudo em perfeitas condições de funcionamento, pronto para fazê-lo.
Deixei-os pensar a respeito por um momento, depois acrescentei algo mais. Sentia-me extremamente tolo ao dizê-lo, mas também absolutamente convencido de que estava certo:
- E isso não é tudo. Acho que, ao abrir o estômago, não encontraria coisa alguma lá dentro. Nem uma migalha, nenhuma partícula de alimento, digerida ou não. Nada, absolutamente nada. Tão vazio quando o estômago de um recém-nascido. E se abrisse os intestinos, a mesma coisa aconteceria. Não encontraria absolutamente nada. Por quê? — Fiz uma pausa, novamente correndo os olhos ao redor. — Porque não acredito que aquele corpo lá embaixo tenha morrido. E nunca morreu porque jamais esteve vivo.
Dei de ombros e recostei-me no sofá. — É isso o que penso. Pode conceber uma coisa dessas, Jack?
- Posso, sim — falou Jack lentamente, e maneando a cabeça para aumentar a ênfase, enquanto as mulheres nos observavam em silêncio. — Desde o início que achei a coisa totalmente absurda. Queria apenas que outra pessoa confirmasse.
— Becky... — Virei-me para fitá-la. — O que acha?
Ela sacudiu a cabeça, franzindo o rosto, depois suspirou.
— Estou... atordoada. Mas começo a achar que, no final das contas, bem que estou precisando daquele drinque.
Todos sorrimos, e Jack começou a se levantar. Mas Theodora interrompeu-o, levantando-se e dizendo:
— Pode deixar que eu providencio. Todo mundo vai querer?
Todos assentimos. Ficamos sentados, esperando, mudando de posição nervosamente e olhando pela janela, até que Theodora voltou e distribuiu os drinques. Depois que todos tomaram um gole, Jack comentou:
- Penso exatamente como você, Miles. E o mesmo acontece com Theodora. E devo dizer que não falei nada a ela sobre minhas impressões. Deixei-a olhar a coisa e tirar suas próprias conclusões, exatamente como fiz com você. Foi ela quem fez a comparação com os medalhões. Certa ocasião, em Washington, vimos como se fazem medalhões. — Jack suspirou, sacudindo a cabeça. — Conversamos e pensamos a respeito durante o dia inteiro, Miles. Só depois é que decidimos chamá-lo.
- Falou com mais alguém?
- Não.
- Por que não chamou a polícia?
- Não sei. — Jack fitou-me, um pequeno sorriso contraindo os cantos dos lábios. — Não quer chamar?
- Não.
- Por que não?
- Não sei — respondi, também sorrindo. — Mas não quero.
- Sinto-me do mesmo jeito.
Jack meneou a cabeça em concordância e depois todos ficamos em silêncio por um longo tempo, tomando os drinques, Jack sacudiu o gelo no copo, lentamente, contemplando-o, e depois murmurou:
- Tenho o pressentimento de que esta é uma ocasião para se fazer algo mais do que apenas chamar a polícia. Não é o momento de passar a bola adiante e deixar que os outros se preocupem. O que exatamente a polícia poderia fazer? Não se trata de um mero cadáver e sabemos disso. É... — deu de ombros, uma expressão sombria no rosto — ... algo terrível. Algo... Não sei direito o quê. — Tirou os olhos do copo, fitando-nos. — Sei apenas... mais do que isso, de alguma forma tenho certeza absoluta de que não devemos cometer um erro neste caso. De que há alguma coisa... a coisa sensata, a coisa correta, a única coisa possível, para se fazer. Se não a fizermos, se não descobrirmos o que é, algo terrível vai acontecer.
- Fazer o que, por exemplo? — perguntei.
- Não sei. — Jack virou a cabeça e ficou olhando pela janela por um momento. Depois, voltou a fitar-nos, com um sorriso. — Tenho um impulso terrível de... ligar diretamente para o Presidente na Casa Branca ou para o comandante do Exército, FBI, Fuzileiros, Cavalaria, qualquer coisa assim. — Meneou a cabeça, sorrindo, achando graça de si mesmo.
No instante seguinte, o sorriso se desvaneceu. — Miles, o que estou querendo dizer é que quero que alguém, exatamente a pessoa certa, quem quer que seja, compreenda desde o início como este caso é importante. E quero que essa pessoa... ou até pessoas... faça exatamente o que deve ser feito, sem cometer qualquer erro. E o problema maior é que a pessoa com quem eu entrar em contato, mesmo que me escute e acredite, pode ser exatamente a pessoa errada, alguém que irá fazer exatamente a pior coisa possível. O que quer que possa ser. Mas, de qualquer forma, sei que não se trata de um caso para a polícia. É... — Jack deu de ombros, percebendo que se estava repetindo. Achou melhor parar de falar.
— Sei de tudo isso, Jack — declarei. — Tenho o mesmo pressentimento... de que o mundo deve torcer para que saibamos cuidar direito do caso.
Na Medicina, há ocasiões em que a solução ou uma pista para um caso desconcertante surge abruptamente do nada. Creio que é a mente subconsciente em ação.
- Jack, qual é a sua altura? — indaguei.
- Tenho um metro e setenta e cinco.
- Exatamente?
- Exatamente. Por quê?
- Em sua opinião, qual é a altura do corpo lá embaixo? Ele me olhou, aturdido, por um momento, antes de responder:
- Um metro e setenta e cinco.
- E qual é o seu peso?
- Tenho sessenta e cinco quilos. O que deve pesar também o corpo lá embaixo. Creio que acertou em cheio, Miles. É o meu tamanho, o mesmo, a mesma compleição. Mas não se parece especialmente comigo.
- Nem com qualquer outra pessoa. Tem uma almofada de tinta em casa?
- Temos? — indagou Jack, virando-se para a esposa.
- Uma o quê?
- Uma almofada de tinta. Do tipo que se costuma usar para carimbos de borracha.
- Temos, sim. — Theodora levantou e atravessou a sala, até uma escrivaninha. — Há uma aqui, em algum lugar.
Depois de uma rápida busca, a mulher encontrou-a. Jack caminhou até lá, pegou a almofada de tinta, abriu outra gaveta e tirou uma folha de papel timbrado.
Fui também até a escrivaninha, com Becky atrás de mim. Jack passou tinta nas pontas dos dedos da mão direita, estendendo-a em seguida para mim. Peguei a mão e comprimi os dedos sobre o papel, um de cada vez, rolando cuidadosamente. Obtive assim um conjunto de impressões digitais bastante nítidas. Depois, peguei a almofada de tinta e o papel e disse para as mulheres, acenando com a cabeça na direção da porta:
— Querem descer também?
Elas se entreolharam. Não queriam voltar àquela mesa de bilhar, mas também não queriam ficar sozinhas lá em cima, esperando. Becky finalmente disse:
— Não quero, mas vou descer.
Theodora fez um gesto de concordância.
Lá embaixo, Jack acendeu a luz sobre a mesa de bilhar. Estava balançando um pouco e levei a mão à antepara, para firmar. Mas meus dedos tremeram e só serviu para aumentar o balanço. A antepara continuou a mover-se num pequeno arco, a luz se derramando pela borda da mesa, voltando para os olhos abertos do corpo, deixando a testa lisa na semi-escuridão por um instante. Dava a impressão de que o corpo estava-se movendo ligeiramente. Peguei o pulso direito, concentrando-me no trabalho, sem olhar para o rosto.
Passei tinta na extremidade dos cinco dedos, depois coloquei a folha de papel com as impressões digitais de Jack em cima da mesa, ao lado da mão direita do corpo. Levantei-a, pousando-a sobre o papel branco. Rolando cada dedo, tirei uma impressão de todos, diretamente abaixo das impressões de Jack. Depois, tirei a mão de cima do papel.
Becky soltou um gemido angustiado, quando vimos as impressões. Todos estávamos profundamente abalados. Porque uma coisa é especular sobre um corpo que nunca esteve vivo, mas outra muito diferente, algo que afeta o que possa haver de primitivo no fundo do nosso cérebro, é ver confirmada a especulação. Não havia impressões digitais, apenas cinco círculos solidamente pretos, absolutamente lisos. Removi a tinta dos dedos da melhor forma possível, e todos nos inclinamos, agrupados num semicírculo, sob a luz a balançar. Os dedos eram lisos como a face de um bebê. Theodora murmurou:
— Jack, acho que vou vomitar...
O marido virou-se para ampará-la, pois Theodora estava inclinada inteiramente para a frente, ajudando-a a subir a escada.
Sentados novamente na sala de estar, sacudi a cabeça e disse para Jack:
— Você encontrou a maneira apropriada de descrever. É um corpo vazio, em branco, inacabado, ainda esperando pelas impressões finais.
- O que vamos fazer? — indagou Jack. — Tem alguma idéia?
- Tenho, sim... — Fitei-o em silêncio por um momento. — Mas é apenas uma sugestão. E se não quiser aceitar, ninguém poderá culpá-lo. Muito menos eu.
- Qual é a sugestão?
- Não se esqueça de que é apenas uma sugestão. — Inclinei-me para a frente no sofá, os antebraços apoiados nos joelhos, e virei-me para Theodora. — E devo avisá-la de que, se acha que não vai conseguir, é melhor nem tentar. — Fiz uma pausa, olhando novamente para Jack, antes de acrescentar: — Deixe o corpo onde está, lá embaixo, na mesa. Esta noite você irá dormir. Darei alguma coisa para que possa dormir. —
Virei-me outra vez para Theodora. — Mas você deve ficar acordada. Não durma por um instante sequer. De hora em hora, se for capaz, quero que desça e dê uma olhada naquele... corpo. Se tiver qualquer impressão de uma mudança, suba correndo e acorde Jack imediatamente. Tire-o da casa... os dois saiam daqui sem demora. Podem ir para a minha casa.
Jack olhou para Theodora por um momento e depois disse, calmamente:
— Quero que diga não, se acha que não vai conseguir enfrentar isso.
A mulher mordeu nervosamente o lábio, olhando para o tapete. Depois, fitou-me primeiro e em seguida a Jack.
— Como poderia ser essa mudança? Começaria a parecer o quê?
Ninguém respondeu. Depois de um momento, ela baixou os olhos novamente para o tapete, voltando a mastigar o lábio, sem repetir a pergunta.
- Jack despertaria sem qualquer dificuldade? — Theodora olhou para mim. — Eu poderia acordá-lo a qualquer momento?
- Claro que sim. Um tapa no rosto e ele acordaria imediatamente. Mas mesmo que nada aconteça, acorde-o se chegar à conclusão de que não consegue mais agüentar. Os dois podem ir para a minha casa a fim de passar o resto da noite, se quiserem.
Theodora assentiu, voltando a olhar para o tapete, até que finalmente murmurou:
- Acho que posso. — Levantou os olhos, fixando-os em Jack. — Contanto que possa acordá-lo a qualquer momento, acho que posso agüentar.
- Não podemos ficar com ela? — indagou Becky.
- Não sei — respondi, dando de ombros. — Mas acho que não. Creio que só as pessoas que moram aqui é que devem ficar na casa. Não tenho certeza se de outra forma poderá funcionar. E nem mesmo sei direito por que digo isso. É apenas uma impressão, um pressentimento. Mas acho que somente Jack e Theodora devem ficar na casa.
Jack acenou com a cabeça, em concordância. Depois de olhar para Theodora, a fim de confirmar a decisão dela, ele declarou:
— Vamos tentar.
Conversamos mais um pouco... isto é, não um pouco, mas bastante... contemplando as luzes da cidade no pequeno vale lá embaixo. Mas ninguém falou qualquer coisa que já não fora dita. Por volta da meia-noite, com a maioria das luzes da cidade lá embaixo já apagadas, Becky e eu nos levantamos para ir embora. Os Belicecs pegaram seus casacos e foram conosco, a fim de buscar o carro de Jack. Estava no estacionamento do Cinema I. Quando paramos ao lado do carro e eles saltaram, repeti para Theodora o que já dissera a respeito de despertar Jack e deixar a casa imediatamente, caso o corpo no porão começasse a se alterar, por qualquer forma. Peguei um Seconal em minha maleta e entreguei-o a Jack informando-o que bastaria um para que ele dormisse prontamente. Depois nos despedimos, Jack sorrindo ligeiramente, Theodora nem se dando ao trabalho de tentar. Ambos entraram no carro, acenaram e se afastaram.
Já em Mill Valley, avançando pelas ruas desertas, a caminho da casa de Becky, ela me disse baixinho:
— Não há uma relação, Miles? Entre este caso... e o caso de Wilma?
Fitei-a rápido, mas ela estava olhando fixamente para a frente, através do pára-brisa.
- Qual é sua opinião? Acha que há alguma relação?
- Há, sim. — Becky não olhou para mim em busca de confirmação, limitando-se a menear a cabeça como se tivesse certeza absoluta. Depois de um momento, acrescentou: — Tem havido outros casos como o de Wilma?
- Uns poucos.
Eu olhava para a rua asfaltada iluminada pelos faróis, mas também a observava, pelo canto do olho. Mas a moça não reagiu nem disse nada por quase um quarteirão. Depois, quando o carro entrou na rua dela e eu aproximei o carro do meio-fio e parei diante da casa, Becky disse, ainda olhando fixamente para a frente, pelo pára-brisa:
— Miles, pretendia contar-lhe uma coisa esta noite, depois do cinema. — Respirou fundo, antes de continuar. — Desde a manhã de ontem... — começou a falar lentamente, mantendo a voz calma, para depois aumentar o ritmo e acabar dizendo as últimas palavras numa explosão de pânico: — ... tenho a impressão ... de que meu pai não é absolutamente meu pai!
Lançando um olhar horrorizado para a varanda de sua casa, imersa em sombras, a luz apagada, Becky cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar, desesperadamente.
sexta-feira, 7 de junho de 2013
quinta-feira, 6 de junho de 2013
quarta-feira, 5 de junho de 2013
full of
If you stuff yourself full of poems, essays, plays, stories, novels, films, comic strips, magazines, music, you automatically explode every morning like Old Faithful. I have never had a dry spell in my life, mainly because I feed myself well, to the point of bursting. I wake early and hear my morning voices leaping around in my head like jumping beans. I get out of bed to trap them before they escape.
— Ray Bradbury
terça-feira, 4 de junho de 2013
segunda-feira, 3 de junho de 2013
domingo, 2 de junho de 2013
sábado, 1 de junho de 2013
ESCREVER
Escrevi um conto a partir do ponto de vista de um violentador de uma menininha. E as pessoas passaram a me acusar. Diziam: ‘Você gosta de violentar criancinhas?’. Eu disse: ‘Claro que não. Estou fotografando a vida’. De repente, estava envolvido com uma porrada de problemas. Por outro lado, os problemas vendem livros. Em última instância, eu escrevo para mim. [Bukowski dá uma longa tragada em seu cigarro.] É assim. A tragada é para mim, a cinza é para o cinzeiro. Isto é publicar. Nunca escrevo de dia porque é como ir pelado a um supermercado – todos te podem ver. À noite é quando saem os truques da manga… E vem a magia.
- Charles Bukowski
quarta-feira, 29 de maio de 2013
segunda-feira, 27 de maio de 2013
TRECHO ‘ALVO NOTURNO’
Ricardo Piglia
Tony Durán era um aventureiro e um jogador profissional e viu a oportunidade de estourar a banca quando topou com as irmãs Belladona. Foi um ménage à trois que escandalizou o povoado e ocupou a atenção geral durante meses. Ele sempre aparecia com uma delas no estaurante do Hotel Plaza mas ninguém conseguia saber qual era a que estava com ele porque as gêmeas eram tão iguais que até a letra delas era igual. Tony quase nunca se deixava ver com as duas ao mesmo tempo, isso ele reservava para a intimidade, e o que mais impressionava todo mundo era pensar que as gêmeas dormiam juntas. Não tanto que partilhassem o homem, mas que partilhassem a si mesmas.
Não demorou e os comentários se transformaram em versões e conjecturas e ninguém mais falou de outra coisa; nas casas ou no Club Social ou no armazém dos irmãos Madariaga as notícias circulavam a todo momento como se fossem as informa-ções do tempo. Naquele povoado, como em todos os povoados da província de Buenos Aires, havia mais novidades em um dia do que em qualquer cidade grande em uma semana, e a distância entre as notícias da região e as informações nacionais era tão abissal que os habitantes podiam ter a ilusão de viver uma vida interessante. Durán chegara para enriquecer essa mitologia, e sua pessoa atingiu uma altura legendária muito antes do momento de sua morte.
Seria possível fazer um diagrama com as idas e vindas de Tony pelo povoado, seu deambular sonolento pelas calçadas altas, suas caminhadas até as cercanias da fábrica abandonada e dos campos desertos. Em pouco tempo ele teve uma percepção da ordem e das hierarquias do lugar. As casas maiores e as mais simples se elevam divididas claramente em camadas sociais, o território parece organizado por um cartógrafo esnobe. Os povoadores principais moram no alto das ladeiras; depois, numa faixa de oito quadras, está o chamado centro histórico,* com a praça, a prefeitura, a igreja e também a rua principal, com as lojas e os sobrados; por fim, do outro lado dos trilhos, estão os bairros baixos, onde morre e vive a metade mais obscura da população.
Com sua popularidade e a inveja que suscitou entre os homens, Tony poderia ter feito o que bem entendesse, mas o acaso, que na verdade fora o que o trouxera até aqui, foi sua perdição. Era extraordinário ver um mulato tão elegante naquele povoado de bascos e de gaúchos piemonteses, um homem que falava com o sotaque do Caribe mas parecia correntino ou paraguaio, um forasteiro misterioso perdido num lugar perdido do pampa. * O povoado se localiza ao sul da província de Buenos Aires, a trezentos e quarenta quilômetros da Capital. Fortaleza militar e local de assentamento de tropas na época da guerra contra o índio, foi fundado efetivamente em 1905, quando se construiu a estação ferroviária, delimitaram-se os lotes do centro urbano e distribuíram-se as terras do município. Na década de 40, a erupção de um vulcão cobriu a planície e as casas com um manto de cinza. Os homens e as mulheres se defendiam do pó cinzento com o rosto coberto com escafandros de apicultor e máscaras de fumigar os campos.
— Ele estava sempre contente — disse Madariaga, e olhou pelo espelho um homem que circulava, nervoso, com um rebenque na mão, pela adega do armazém. — E o senhor, comissário, aceita uma genebrinha?
— Pode ser uma grapa, mas não bebo em serviço — respondeu o comissário Croce.
Alto, de idade indefinida e rosto vermelho, bigode cinza e cabelo cinza, Croce mastigava pensativo um charuto Avanti enquanto caminhava de um lado para o outro dando pancadas nas pernas das cadeiras com o rebenque, como se quisesse espantar seus próprios pensamentos que engatinhavam pelo chão.
— Como é possível que ninguém tenha visto Durán naquele dia? — disse, e os presentes olharam para ele, calados e culposos.
Depois disse que sabia que todos sabiam mas que ninguém falava nada e que andavam inventando coisa só pelo prazer de procurar cinco patas no gato.
— De onde será que saiu essa expressão? — disse, e se interrompeu intrigado, pensando, e perdeu o rumo no zigue-zague de suas ideias, que se acendiam e se apagavam como vaga-lumes na noite. Sorriu e começou de novo a andar pelo aposento.
— Como o Tony — disse, e se lembrou do que estava falando antes. — Um gringo que não parecia gringo mas era gringo.
Tony Durán havia nascido em San Juan de Puerto Rico e
seus pais se mudaram para Trenton quando ele estava com cinco
anos, de modo que se criara como um norte-americano de Nova
Jersey. Da ilha ele só lembrava que o avô era galista e que aos domingos o levava para assistir às rinhas, e também se lembrava dos homens que cobriam as calças com folhas de jornal para evitar que o sangue que escorria dos galos lhes manchasse a roupa.
Quando chegou aqui e conheceu um rinhadeiro clandestino em Pila e viu os peões de alpargatas e os galinhos pigmeus botando banca na arena, começou a rir e a dizer que não era assim que se fazia em seu país. Mas no fim se entusiasmou com a valentia suicida de um batará que usava os esporões como um boxeador canhoto peso leve usa as mãos para se soltar esmurrando do corpo a corpo, veloz, mortífero, impiedoso, buscando apenas a morte do rival, sua destruição, seu fim, e ao vê-lo Durán começou a apostar e a se entusiasmar com a briga, como se já fosse um dos nossos (one of us, para dizê-lo como teria dito o próprio Tony).
— Mas ele não era um dos nossos, era diferente, só que não foi por isso que o mataram, e sim porque era parecido com o que
imaginávamos que devia ser — disse, enigmático como sempre e como sempre um pouco irritado, o comissário.
— Ele era simpático — acrescentou, e olhou para o campo. — Eu gostava dele — disse o comissário, e ficou estaqueado no chão, perto da janela, costas apoiadas na grade, perdido em seus pensamentos.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
QUINZE PALAVRAS!
“Parece”, disse minha amiga com ar de entendida, quando observávamos McEwan rodopiar com sua nova esposa pela pista de dança, “que ele escreve apenas quinze palavras por dia.” Eis uma informação infeliz para se dar a um escritor aspirante. Eu era terrivelmente suscetível ao poder do exemplo. Se me dissessem que Borges corria três milhas toda manhã e depois plantava bananeira numa tina de água antes de se sentar para escrever, eu me sentiria obrigada a tentar isso. O espectro do limite de quinze palavras ficou comigo por um longo tempo. Três anos depois, quando estava escrevendo “Dentes brancos”, lembro-me de pensar que todos os meus problemas se originavam do excesso de palavras que me sentia impelida a escrever todos os dias. Quinze palavras por dia! Por que você não escreve apenas quinze palavras por dia?
Zadie Smith (autora de Sob a Beleza)
domingo, 19 de maio de 2013
das palavras de Gene Roddenberry
Jornada nas Estrelas foi uma tentativa de dizer que a humanidade chegará à maturidade e sabedoria no dia em que ela começar não apenas a tolerar, mas a deleitar-se com as diferentes ideias e diferentes formas de vida. Se não aprendermos a valorizar essas pequenas diferenças, a nos encantar com as pequenas diferenças entre os vários membros de nossa espécie aqui neste planeta, então não somos merecedores de desbravar o espaço sideral e encontrar a diversidade que certamente existe lá fora.
sábado, 18 de maio de 2013
sexta-feira, 17 de maio de 2013
quinta-feira, 16 de maio de 2013
trecho O poço e o pêndulo
Edgar Allan Poe
E então insinuou-se em minha imaginação, como uma rica nota musical, o pensamento do doce descanso que devia ser o túmulo (…) Desmaiara;mas mesmo assim não direi que perdi de todo a consciência. O que dela restava não tentarei definir, nem sequer descrever; contudo, nem tudo estava perdido. No sono mais profundo—não! No delírio—não! Em um desmaio—não! Na morte—não! até mesmo no túmulo, nem tudo está perdido. Despertando do mais profundo dos sonos, rompemos a teia diáfana de algum sonho. E, contudo, um segundo depois (por mais frágil que pudesse ser a teia),não lembramos de ter sonhado. No regresso à vida após o desfalecimento há dois estágios; primeiro, o da sensação de existência mental ou espiritual; segundo, o da sensação de existência física. Parece provável que, ao atingir esse segundo estágio, se pudéssemos recordar as impressões do primeiro, deveríamos julgar essas impressões eloqüentes em lembranças do abismo que jaz além. E esse abismo é—o quê? Como de algum modo distinguir suas sombras daquelas que há na tumba?
… um asco para o qual o mundo não tem um nome…
domingo, 12 de maio de 2013
trecho As Benevolentes
Jonathan Littell
Um Scharführer aproximava-se e saudou Ott. “Herr Untersturmführer, não há nada aqui.” Ott estava nervosíssimo. “Vasculhem mais! Tenho certeza de que estão escondendo alguma coisa.” Outros soldados e Orpo retornavam. “Herr Untersturmführer, olhamos, não há nada.” – “Vasculhem, já disse.” Naquele instante ouvimos um grito agudo ali perto. Uma forma indistinta corria pela ruazinha. “Ali!”, gritou Ott. O Scharführer mirou e atirou através da cortina de chuva. A forma desabou na lama. Os homens correram em sua direção, tentando enxergar. “Imbecil, era uma mulher”, disse uma voz. – “É você que está se chamando de imbecil!”, ladrou o Scharführer. Um homem revirou o corpo na lama: era uma jovem camponesa, com um pano colorido na cabeça, e grávida. “Ela simplesmente entrou em pânico”, disse um dos homens. “Não precisava atirar desse jeito.” – “Ainda não está morta”, disse o homem que a examinava. O enfermeiro do destacamento aproximou-se: “Levem-na para casa.” Vários homens a levantaram; sua cabeça pendia para trás, o vestido enlameado estava colado na enorme barriga, a chuva fustigava o corpo. Foi carregada para casa e depositada sobre uma mesa. A não ser por uma velha chorando num canto, a isbá estava vazia. A moça agonizava. O enfermeiro rasgou seu vestido e a examinou. “Está fodida. Mas está prestes a parir, e com um pouco de sorte ainda podemos salvar o bebê.” Começou a dar instruções aos dois soldados ali presentes. “Providenciem água quente.” Saí sob a chuva e fui me encontrar com Ott, que fora até os veículos. “O que está acontecendo agora?” – “A moça vai morrer. Seu enfermeiro está tentando fazer uma cesariana.” – “Uma cesariana?! Ficou maluco, caramba!” Voltou a subir a ruela chafurdando até a casa. Segui-o. Ele entrou bruscamente: “Que porra é essa, Greve?” O enfermeiro segurava uma coisinha sangrenta embrulhada num pano e terminava de amarrar o cordão umbilical. A moça, morta, jazia com os olhos esbugalhados sobre a mesa, nua, coberta de sangue, rasgada do umbigo até o sexo. “Funcionou, Herr Untersturmführer”, disse Greve. “É possível que sobreviva. Mas temos que achar uma ama-de-leite.” – “Enlouqueceu!”, gritou Ott. “Me dê isso!” – “Por quê?” – “Me dê isso!” Ott estava branco, tremia. Arrancou o recém-nascido das mãos de Greve e, segurando-o pelos pés, esmagou seu crânio na quina do forno de argila. Depois jogou-o no chão. Greve espumava: “Por que fez isso?!” Ott também berrava: “Você teria feito melhor enterrando-no na barriga da mãe, imbeciloide! Deveria tê-lo deixado tranquilo! Por que o fez sair? Não era suficientemente quente ali?” Girou nos calcanhares e saiu. Greve chorava: “O senhor não devia ter feito isso, o senhor não devia ter feito isso.” Fui atrás de Ott, que vociferava na lama e na chuva diante do Scharführer e alguns homens reunidos. “Ott…”, chamei. Atrás de mim ecoou um chamado: “Untersturmführer!” Olhei: Greve, com as mãos ainda sujas de sangue, saía da isbá com o fuzil apontado. Esquivei-me, ele caminhou na direção de Ott. “Untersturmführer!” Ott virou a cabeça, viu o fuzil e começou a gritar: “Que é, seu veado, que quer ainda? Quer atirar, é isso, vá em frente!” O Scharführer berrava também: “Greve, em nome de Deus, abaixe esse fuzil!” – “O senhor não devia ter feito isso”, gritava Greve, continuando a avançar para Ott. – “Vá em frente, imbecil, atire!” – “Greve, pare imediatamente!”, vociferava o Scharführer. Greve atirou; Ott, atingido na cabeça, voou para trás e caiu numa poça, fazendo um grande estrépito. Greve mantinha o fuzil em posição de mira; todo mundo havia se calado. Só se ouvia a chuva castigando as poças, a lama, os capacetes dos homens, o colmo dos telhados. Greve tremia como uma folha, fuzil no ombro. “Ele não devia ter feito isso”, repetia estupidamente. – “Greve”, eu disse mansamente. Com ar feroz, Greve apontou o fuzil na minha direção. Abri muito lentamente os braços sem dizer nada. Greve voltou a visar o Scharführer com o fuzil. Por sua vez, dois soldados apontavam seus fuzis para Greve. Greve mantinha o fuzil apontado para o Scharführer. Os homens poderiam abatê-lo, mas nesse caso ele decerto também mataria o Scharführer. “Greve”, disse calmamente o Scharführer, “você fez uma grande besteira. Ott era um lixo, tudo bem. Mas você está realmente na merda.” – “Greve”, eu disse. “Abaixe a arma. Caso contrário, vamos ser obrigados a matá-lo. Caso se renda, testemunharei a seu favor.” – “Estou fodido de qualquer maneira”, disse Greve. Não parava de apontar para o Scharführer. “Se o senhor atirar, levo alguém comigo.” Desviou novamente o fuzil na minha direção, bruscamente. A chuva escorria do cano, bem diante dos meus olhos, corria no meu rosto. “Herr Hauptsturmführer!”, chamou o Scharführer. “Concorda que eu resolva isso à minha maneira? Para evitar outras baixas?” Fiz um sinal afirmativo. O Scharführer voltou-se para Greve. “Greve. Dou-lhe cinco minutos. Depois iremos atrás de você.” Greve hesitou. Em seguida abaixou o fuzil e chispou para dentro da floresta.
segunda-feira, 6 de maio de 2013
a imortalidade
A imortalidade é uma forma de ditadura da vida sobre a morte. Sendo ditador e vivo só me resta tornar-me imortal. E hei-de sê-lo! Nem que morra para isso!
– J.F.Choublanc (Escritos diversos, Paris 2023)
sábado, 4 de maio de 2013
sexta-feira, 3 de maio de 2013
TRECHO Berlim Alexanderplatz
Alfred Döblin
O ex-presidiário de casaco amarelo de verão, o sujeito grandalhão, andou para trás do sofá, pegou seu chapéu, espanou-o, colocou-o sobre a mesa, tirou seu casaco, tudo em silêncio, desabatoou o coleto: Aqui, olhem, minha calça. Eu era gordo assim e ela ficou larga desse jeito, cabem dois punhos grandes juntos, de tanto passar fome. Foi-se tudo. A pança toda para o diabo. É assim que vem a ruína, porque nem sempre a gente é como deveria ser. NÃO ACREDITO QUE OS OUTROS SEJAM MUITO MELHORES. Nada, não acredito não. Querem é enlouquecer a gente.
O castanho cochichou para o ruivo: Pronto, aí está. Está o quê? Ora, um presidiário. E daí? O egresso: Aí dizem: a gente está livre e vai preso de novo no meio da sujeira e ainda a mesma sujeira de antes. Não há razão alguma para rir. Voltou a abotoar o colete: Estão vendo o que fizeram. .. É, será que não somos nada só porque fizemos algo errado? Todos podem se erguer de novo, todos que cumpriram pena e podem ter feito o que for (Arrepender-se o quê! É preciso desafogar-se! Sair batendo! Depois tudo fica para trás, depois tudo pasa, o medo e o resto)… Meu ome é Biberkopf, Franz. Bonito de sua parte ter me acolhido.Meu passarinho já cantou no pátio. Ora, viva, tudo vai passar. Os dois judeus lhe apertaram a mão, sorriam. O ruivo reteve sua mão por um tempo, radiante: Ora,o cavalheiro está mesmo melhor ? E será um prazer, se o cavalheiro tiver tempo, passe por aqui. Obrigado, farei isso, tempo é fácil de achar, só dinheiro é que não…. Acompanharamo homem até a porta… O ex-presidiário, caminhando ereto, sacudiu a cabeça, balançou os braços no ar (a gente precisa de ar, ar, muito ar, e mais nada)~: Não se preocupem. Podem me deixar seguir adiante, fiquem tranquilos. O senhor falou sobre os pés e os olhos. Esses ainda tenho. Ainda não foram arrancados por ninguém… E lá se foi caminhando sobre o pátio estreito, atulhado, os dois ficaram olhando para ele do alto da escada. Tinha o chapéu-coco enterrado sobre o rosto, resmungou quando meteu o pé numa poça de óleo: Droga de veneno. É hora dum conhaque. Quem se aproximar vai levar um soco na cara. Vamos ver onde se consegue um conhaque…