Um dia ideal para os peixes-banana e livros e cinema e gibis e nus e ataxia espinocerebelar e 𓋹
sexta-feira, 13 de julho de 2012
TRAILER the walking dead
puta trailer para a 3ª temporada - que promete ser a melhor da série até agora.
prequel de sandman
Nas palavras de Gaiman: Quando terminei de escrever Sandman, ainda tinha uma história a ser contada. A história do que aconteceu com Morpheus que o permitiu ser tão facilmente capturado em Sandman 1, e porque ele veio de tão longe, extremamente exausto, e vestido para guerra. Era uma história que eu queria ter contado no aniversário de vinte anos da série, mas o tempo nos escapou. E agora, com o aniversário de 25 anos se aproximando, estou encantado e nervoso porque isso finalmente será revelado.
TRECHO 11/22/63
Stephen King
Eu nunca fui o que você chamaria de um chorão.
Minha ex-mulher dizia que a minha “gradiente emocional não existente” fora a principal razão de ela estar me deixando (como se o cara que ela conheceu nas reuniões do AA fosse irrelevante). Christy disse que ela provavelmente poderia me desculpar por não ter chorado no funeral de seu pai; eu sou o conhecera por seis anos e não poderia entender o homem magnífico e generoso que ele fora (um Mustang convertível como um presente de graduação do ensino médio, por exemplo). Contudo, quando eu não chorei no funeral dos meus próprios pais – eles morreram com dois anos de diferença, Pai de câncer no estômago e Mãe de um ataque cardíaco trovoado, enquanto andava na praia da Flórida – ela começou a entender aquela coisa gradiente não existente. Eu “era incapaz de sentir os meus sentimentos”, na fala dos AA.
“Eu nunca vi você derramar lágrimas,” ela disse, falando no tom monótono que as pessoas usam para expressar o final absoluto em uma relação. “Até mesmo quando você me disse que eu precisava ir para a reabilitação ou que você estava indo embora.” Essa conversa aconteceu cerca de seis semanas antes de ela empacotar suas coisas, dirigir para o outro lado da cidade, e ir morar com Mel Thompson. “Garoto conhece garota na reunião do AA” – esse é outro ditado que eles usam nessas reuniões.
Eu não chorei quando a vi ir embora. Eu também não chorei quando voltei para dentro da pequena casa com uma hipoteca ainda maior. A casa onde nenhum bebê tinha aparecido, e agora nem iria. Eu simplesmente deitei na cama, agora pertencendo somente a mim, e coloquei os braços sobre os meus olhos, e me lamentei.
Sem lágrimas.
No entanto, eu não sou emocionalmente bloqueado. Christy estava errada quanto a isso. Um dia, quando eu tinha nove anos de idade, minha mãe me encontrou na porta, assim que eu voltei da escola. Ela disse que meu collie, Rags, fora atropelado e morto por um caminhão, o qual nem sequer se importou em parar. Eu não chorei quando eu o enterrei, embora meu pai dissesse que ninguém esperaria menos de mim, caso eu chorasse, porém eu chorei quando ela me disse. Parcialmente por ser minha primeira experiência com a morte; principalmente por ser minha responsabilidade ter certeza de que ele estava seguramente encoleirado em nosso quintal.
E eu chorei quando o médico da Mãe me ligou e me contou o que acontecera naquele dia na praia. “Sinto muito, mas não havia chances,” ele disse. “Às vezes, é muito repentino, e os médicos tendem a ver isso como uma benção.”
Christy não estava lá – ela tivera de ficar até mais tarde na escola, naquele dia, e se encontrara com uma mãe, a qual tinha questões sobre o último boletim de seu filho – mas eu chorei, tudo bem. Eu fui até a nossa pequena lavanderia e tirei um lençol sujo de dentro do cesto e chorei nele. Não por muito tempo, porém as lágrimas vieram. Eu poderia ter dito-lhe sobre elas mais tarde, mas eu não vi o porquê, parcialmente pelo fato de ela pensar que eu estaria pescando por compaixão (esse não é um termo do AA, mas talvez pudesse ser), e parcialmente porque eu não acho que a habilidade de explodir em berros no momento certo seja um requerimento para um casamento próspero.
Eu nunca vi meu pai sequer chorar, agora que penso sobre isso; nos seus momentos mais emocionais, ela poderia suspirar profundamente ou grunhir algumas risadas relutantes – nada de peito batendo ou crise de risadas para o William Epping. Ele era do tipo silencioso forte, e na maioria das vezes, minha mãe era igual. Então talvez a coisa de não-chorar-muito-fácil fosse genético. Mas bloqueado? Incapaz de sentir meus sentimentos? Não, eu nunca fora essas coisas.
Além de quando eu recebi a notícia sobre minha Mãe, eu consigo me lembrar de outra vez em que chorei enquanto adulto, e isso fora quando eu li a história do pai do zelador. Eu estava sentado sozinho na sala dos professores da escola Lisbon High, trabalhando com uma pilha de temas, as quais a minha classe adulta de Inglês escrevera. No final do corredor eu podia ouvir a batida de bolas de basquete, o clamor do apito de fim de jogo, e os gritos da multidão, enquanto as feras do esporte lutavam: Lisbon Greyhounds versus Jay Tigers.
Quem pode saber quando a vida está pendurada na balança, e por quê?
O tema que eu pedi fora “O Dia que Mudou Minha Vida.” Grande parte das respostas eram sinceras, mas horríveis: contos sentimentais sobre uma bondosa tia que acolhera uma grávida adolescente, um colega de exército, o qual demostrara o verdadeiro significado de bravura, uma chance de conhecer uma celebridade (o apresentador de “Jeopardy” Alex Trebek, eu acho que era, mas talvez fora o Karl Malden). Os professores entre vocês, os quais pegavam uns três ou quatro mil extras dando aulas para adultos para seu Diploma de Equivalência do Ensino Médio saberão o que deprimente pode ser o trabalho de ler tais temas. O processo de dar notas dificilmente é demonstrado nisso, ou pelo menos para mim; eu passava todo mundo, uma vez que eu nunca tivera um aluno adulto, o qual não dava o melhor de si. Se você entregasse um papel com algo escrito nele, você garantiria uma nota de Jake Epping, do Departamento de Inglês da LHS, e se a redação fosse organizada em parágrafos de verdade, você teria pelo menos um B-menos.
O que deixava o trabalho difícil era a caneta vermelha que se tornara minha ferramenta de ensino primária, ao invés de minha boca, e eu a praticamente a consumia. O que deixava o trabalho deprimente era que, você sabia, muito pouco daquele ensino em caneta vermelha seria absorvido; se você alcançar a idade de vinte e cinto ou trinta sem saber como escrever (simplesmente, e nãosimplismente), ou escrever em maiúsculas nos lugares devidos (Casa Branca, nãocasa-branca), ou escrever uma sentença contendo um substantivo e um verbo, você provavelmente nunca saberá. Mesmo assim, nós continuamos com o trabalho, mesmo que desagradável, bravamente circulado as palavras mal empregadas em sentenças como Meu marido foi muito veloz para me julgar ou cortando tinha nadado e substituindo por nadei na sentença Eu nadei no lago frequentemente depois disso.
Eu um trabalho tão desesperançado e árduo que eu fazia naquela noite, enquanto não muito distante outro jogo de basquete do colégio terminava com outro apito afinal, mundo sem fim, amém. Não foi muito tempo depois de Christy sair da reabilitação, e eu acho que se eu estivesse pensando em algo, era em desejar que eu voltaria para casa e a encontraria sóbria (a qual eu encontrei; ela se segurou em sua sobriedade melhor do que ela se segurou em seu marido). Eu lembro que tive uma pequena dor de cabeça e estava massageando as minhas têmporas, do modo que você faz quando tenta manter uma dorzinha irritante de se transformar em uma grande batida. Eu lembro ter pensado, Mais três desses, só três, e eu posso ir embora daqui. Eu posso ir para casa, fazer uma grande caneca de chocolate instantâneo para mim, e mergulhar na nova novela de John Irving, sem essas sinceras, mas mal idealizadas coisas, fiquem em minha cabeça.
Não houve violinos ou sinos de aviso quando eu puxei a redação do zelador do topo da pilha e a coloquei na minha frente, sem sentir que a minha vidinha estava prestes a mudar. Mas nós nunca sabemos, não é? A vida muda rapidamente.
Ele escrevera com uma caneta esferográfica barata, a qual borrara as cinco páginas em diversos lugares. Sua escrita era meio laçada, mas um rabisco legível, e ele deveria estar calcando muito, pois as palavras estavam, na verdade, talhadas nas páginas baratas do caderno; se eu fechasse meus olhos e corresse com meus dedos na parte de trás dessas folhas usadas, seria como ler braile. Havia um pequeno rabisco, como um floreio, no final de cada y escrito em letra minúscula. Eu me lembro disso com uma clareza particular.
Eu também me lembro de como sua redação começava. Eu me lembro palavra por palavra.
Não foi um dia, mas foi uma noite. A noite que mudou a minha vida era a noite que meu pai asasinou minha mãe e meus dois irmãos e me machucou bastante. Ele machucou a minha irmã também, tanto que ela acabou ficando em comma. Em três anos ela morreu sem acordar. Seu nome era Ellen e eu a amava muito. Ela adorava pegar frores e colocar em vazos.
No final da metade da primeira página, meus olhos começaram a arder e eu coloquei a minha confiável caneta vermelha de lado. Foi quando eu chequei na parte em que ele se rastejava para baixo da cama com sangue correndo pelos seus olhos (também escorreu pela minha garganta e tinha um gosto horrível) que eu comecei a chorar – Christy teria ficado tão orgulhosa. Eu li até o final sem fazer qualquer anotação, limpando os meus olhos para as lágrimas não caírem nas folhas, as quais obviamente foram feitos com muito esforço por ele. Eu tinha pensado que ele era mais devagar que os outros, talvez somente um meio degrau acima do que era chamado de “retardado educável”? Bem, por Deus, existia uma razão para isso, não existia? E uma razão para a deficiência também. Era um milagre ele sequer estar vivo. Mas ele estava. Um homem bondoso, quem sempre tinha um sorriso e nunca levantava sua voz com as crianças. Um homem bondoso, quem estivera no inferno e estava trabalhando – modesta e esperançosamente, assim como a maioria deles faz – para conseguir um diploma do ensino médio. Embora ele seria um zelador pelo resto de sua vida, simplesmente um caro em calças verdes ou marrons, ou empurrando uma vassoura ou raspando chiclete do chão com uma faca, a qual ele sempre carregava no seu bolso traseiro. Talvez uma vez ele pudesse ter sido algo diferente, porém uma noite sua vida mudou bruscamente, e agora ele era simplesmente um cara em Carhartts, o qual as crianças chamavam de Harry O Sapo Pulador, por causa do jeito que ele andava.
Então eu chorei. Essas foram lágrimas de verdade, do tipo que vem bem do fundo. No final do corredor, eu podia ouvir a banda do Lisbon tocar sua música da vitória – então o time de casa ganhara, e bom para eles. Mais tarde, talvez, Harry e um par de seus colegas iriam jogar os alvejantes e limpar a porcaria derrubada embaixo deles.
Eu rabisque um grande A vermelho no topo do papel. Olhei para ele por um momento ou dois, e então adicionei um grande + vermelho. Pelo fator de ser bom, e porque a sua dor evocou uma reação emocional dentro de mim, seu leitor. E isso não é o que redações A+ teriam de fazer? Evocar uma resposta?
Quanto a mim, eu só desejei que a ex Christy Epping estivesse correta. Eu desejei ter estado emocionalmente bloqueado, no fim das contas. Porque tudo o que se seguiu – cada coisa terrível – fluiu a partir dessas lágrimas.
quinta-feira, 12 de julho de 2012
quarta-feira, 11 de julho de 2012
TRECHO Mistério da Cripta Amaldiçoada
Eduardo Mendoza
Enquanto pisoteava as baratas que corriam pela cama, não tive como não lembrar da cela do manicômio, tão higiênica, e confesso que a nostalgia me tentou. Mas não existe bem maior, dizem, que a liberdade, e não era o caso de menosprezá-la, agora que desfrutava dela. Com esse consolo, enfiei-me na cama e tentei dormir repetindo para mim mesmo a hora em que queria acordar, pois sei que o subconsciente, além de desvirtuar nossa infância, confundir nossos afetos, lembrar-nos do que ansiamos esquecer, revelar-nos nossa abjeta condição e destroçar-nos, em suma, a vida, quando lhe dá na telha e a título de compensação, faz as vezes de despertador.
terça-feira, 10 de julho de 2012
SOBRE 2001
Q. Did you deliberately try for ambiguity as opposed to a specific meaning for any scene or image?
Stanley Kubrick: No, I didn’t have to try for ambiguity; it was inevitable…But it’s the ambiguity of all art, of a fine piece of music or a painting - you don’t need written instructions by the composer or painter accompanying such works to “explain” them. “Explaining” them contributes nothing but a superficial “cultural” value which has no value except for critics and teachers who have to earn a living. Reactions to art are always different because they are always deeply personal.
Q. The final scenes of the film seemed more metaphorical than realistic. Will you discuss them — or would that be part of the “road map” you’re trying to avoid?
Kubrick: No, I don’t mind discussing it, on the lowest level, that is, straightforward explanation of the plot. You begin with an artifact left on earth four million years ago by extraterrestrial explorers who observed the behavior of the man-apes of the time and decided to influence their evolutionary progression.
Then you have a second artifact buried deep on the lunar surface and programmed to signal word of man’s first baby steps into the universe - a kind of cosmic burglar alarm.
And finally there’s a third artifact placed in orbit around Jupiter and waiting for the time when man has reached the outer rim of his own solar system. When the surviving astronaut, Bowman, ultimately reaches Jupiter, this artifact sweeps him into a force field or star gate that hurls him on a journey through inner and outer space and finally transports him to another part of the galaxy, where he’s placed in a human zoo approximating a hospital terrestrial environment drawn out of his own dreams and imagination. In a timeless state, his life passes from middle age to senescence to death. He is reborn, an enhanced being, a star child, an angel, a superman, if you like, and returns to earth prepared for the next leap forward of man’s evolutionary destiny.
That is what happens on the film’s simplest level. Since an encounter with an advanced interstellar intelligence would be incomprehensible within our present earthbound frames of reference, reactions to it will have elements of philosophy and metaphysics that have nothing to do with the bare plot outline itself.
Q. What are those areas of meaning?
Kubrick: They are the areas I prefer not to discuss because they are highly subjective and will differ from viewer to viewer. In this sense, the film becomes anything the viewer sees in it. If the film stirs the emotions and penetrates the subconscious of the viewer, if it stimulates, however inchoately, his mythological and religious yearnings and impulses, then it has succeeded.
-1969, via Stanley Kubrick: Interviews
CONTO LEONOR
Edgar Allan Poe
Sou oriundo duma raça caracterizada pelo vigor da fantasia e pelo ardor da paixão.
Os homens chamaram-me louco; mas ainda não está resolvido o problema ? se a loucura é ou não a suprema inteligência ? se muito do que é glorioso ? se tudo o que é profundo ? não tem a sua origem numa doença do pensamento ? em modalidades do espírito exaltadas a custa das faculdades gerais. Aqueles que sonham de dia sabem muitas coisas que escapam àqueles que somente de noite sonham. Nas suas vagas visões obtêm relances de eternidade e, quando despertam, estremecem ao verem que estiveram mesmo à beira do grande segredo. Penetram sem leme nem bússola, no vasto oceano da “luz inefável”; e de novo, como os aventureiros do geógrafo núbio, agressi sunt mare tenebrarum, quid in eo esset exploraturi.
Diremos, então, que estou doido. Concordo, pelo menos, em que há dois estados distintos da minha existência mental ? o de uma razão lúcida que não pode ser contestada, e pertence à memória de acontecimentos que constituem a primeira época da minha vida ? e um estado de sombra e dúvida, que abrange o presente e a recordação do que constitui a segunda grande era do meu ser. Por conseqüência, acreditai tudo o que eu disser do primeiro período de minha existência; e dai ao que eu vier a contar dos derradeiros tempos o crédito que se vos afigurar justo; ou ponde-o completamente em dúvida; ou, se não puderes duvidar, fazei como Édipo e procurai decifrar o seu enigma.
Aquela que na minha mocidade amei, e de quem agora, serena e lucidamente, estou traçando estas recordações, era a filha única da única irmã de minha mãe havia muito falecida.
Minha prima chamava-se Leonor. Havíamos sempre vivido juntos, sob um sol tropical, no vale de Many-Coloured Crass. Jamais viandante algum aventurou seus passos por aquele vale; pois se estendia por entre uma cadeia de montes gigantescos, que sobre ele debruçavam as suas escarpas, vedando o acesso dos raios solares aos seus mais aprazíveis recônditos. Nas suas proximidades atalho algum jamais fora trilhado, e, para chegarmos ao nosso lar, não precisávamos afastar, com força, a folhagem de milhares de árvores, nem esmagar milhões de fragrantes flores. Assim vivíamos nós sozinhos, nada sabendo do mundo para além do vale ? eu, minha prima e sua mãe.
Das obscuras regiões de além dos montes, no extremo superior de nossos domínios, descia um estreito e profundo rio, que excedia em brilho e limpidez tudo menos os claros olhos de Leonor; e, serpenteando furtivamente em intrincados meandros, embrenhava-se por fim através de uma sombria garganta, por entre montes ainda mais negros do que aqueles de que brotara. Denominávamo-lo o “Rio do Silêncio”, pois as suas águas pareciam ter a faculdade de tudo emudecer. Do seu leito nenhum murmúrio se erguia, e tão de mansinho ia desfiando seu curso que os diáfanos seixinhos que esmaltavam o fundo e que nós tanto gostávamos de contemplar, permaneciam absolutamente imóveis, refulgindo eternamente no lugar onde um dia se quedaram.
A margem do rio e de muitos cintilantes riachos que, por tortuosos rodeios, a ele afluíam, bem como os espaços que as margens desciam até o leito de seixos do fundo das águas ? todos estes lugares, não menos de que toda a superfície do vale, desde o rio até as montanhas que o circundavam, eram tapetados por uma relva verde, macia, espessa, curta, perfeitamente lisa e perfumada, mas tão profusamente matizada com botões de ouro, margaridas, violetas e asfódelos que a sua extraordinária beleza dilatava nossos corações com eloquência e paixão, do amor e da glória de Deus.
E, aqui e além, em maciços que se diriam antes matas de sonhos, brotavam fantásticas árvores, cujos altos e esguios troncos se não erguiam a prumo, mas, torcendo-se, inclinavam-se para a luz que ao meio-dia irrompia pelo centro do vale. A sua casca apresentava ao mesmo tempo o esplendor do marfim e da prata, e seria mais suave do que tudo não fosse a suave face de Leonor; de sorte que, se não fora o verde brilhante das enormes folhas que das suas copas se alastravam em linhas compridas e trêmulas, embaladas pelos zéfiros, poderia alguém imaginá-las gigantescas serpentes da Síria, prestando homenagem ao seu soberano, o Sol.
De mãos dadas, durante 15 anos, vaguei com Leonor por este vale, antes de o Amor penetrar em nossos corações. Era uma tarde, ao cerrar-se o terceiro lustro da sua vida e o quarto da minha: estávamos sentados, abraçados, debaixo das árvores-serpentes e contemplávamos as nossas imagens refletidas no espelho das águas do rio. Nem mais uma palavra pronunciamos durante o resto daquele doce dia, e na manhã seguinte ainda as nossas palavras eram trêmulas e raras. Do fundo das águas havíamos tirado o deus Eros, e agora sentíamos que havíamos ateado dentro de nós as almas ardorosas dos nossos maiores. As paixões que durante séculos haviam caracterizado a nossa raça acudiam agora de tropel com as fantasias que os haviam igualmente distinguido e bafejavam venturas e bênçãos sobre o vale de Many-Coloured Crass. Tudo como por encanto mudou. Sobre as árvores onde jamais se conhecera uma flor desabrocharam agora estranhas flores em forma de estrela. Tornaram-se mais carregados os tons das alfombras de verdura; e quando uma a uma murcharam as brancas margaridas, surgiram em seus lugares, dez a dez, os asfóidelos da cor dos rubis. E a vida brotava em nossos atalhos; pois o alto flamingo, até aqui nunca visto, com todas as álacres e variegadas aves, ostentava ante nós a sua plumagem escarlate. Peixes de ouro e de prata acorriam agora ao rio, de cujo seio se erguia, de mansinho, um murmúrio que, por fim, foi engrossando até se transformar numa suave melodia mais divina de que a da harpa de Éolo, mais doce do que tudo, não fosse a voz de Leonor. E agora, também uma enorme nuvem, que por muito tempo dominara as regiões do Hesper, avançara num deslumbramento carmesim e ouro e viera pairar serenamente sobre nós, descendo dia a dia até pousar sobre os cumes dos montes, transfigurando-os com o seu glorioso esplendor e encerrando-nos, como que para sempre, dentro duma mágica prisão de magnificência e glória.
O encanto de Leonor era o de um Serafim, mas ela era uma adolescente ingênua e simples como a curta vida que vivera entre as flores. Nenhum artifício mascarava o amor que lhe estuava no coração, e ela examinava comigo os seus mais íntimos recessos, quando passeávamos no vale de Many-Coloured e conversávamos sobre as notáveis transformações que nele ultimamente se haviam operado.
Um dia, finalmente, tendo falado, banhada em pranto da triste e derradeira transformação que a Humanidade deve sofrer, nunca mais deixou de discutir este doloroso assunto, intercalando-o em todas as nossas conversas, como nos cantos do bardo de Schiraz estão constantemente ocorrendo as mesmas imagens, a cada passo repetidas em cada impressionante variação de frase.
Ela tinha visto que o dedo da morte se lhe cravara no seio ? que, como o efêmero, ela fora feita perfeita em encanto e beleza somente para morrer; mas para ela os terrores do túmulo apenas consistiam numa apreensão, que uma tarde, ao crepúsculo, ela me revelou, passeando comigo pelas margens do Rio do Silêncio. O que a penalizava era pensar que, após havê-la sepultado no vale de Many-Coloured, eu abandonaria para sempre aquelas ditosas paragens, transferindo o amor, que só dela tão apaixonadamente agora era, para alguma jovem do mundo exterior e banal. E, então, ao ouvir-lhe expressar este pesar, atirei-me aos pés de Leonor e jurei que nunca me ligaria pelo casamento a filha alguma da Terra ? que jamais eu, fosse de que maneira fosse, trairia a sua querida recordação. Invoquei o Onipotente Senhor como testemunha da pia solenidade do meu juramento. E a maldição de que Deus e dela impetrei, no caso de eu atraiçoar meu juramento, envolvia uma pena cujo extraordinário horror me não permite referi-la aqui.
Os olhos de Leonor se tornaram mais claros, quando eu assim exprimi o carinho que a prendia à minha vida; como se do peito arrancassem um peso mortal; tremeu e chorou amargamente; mas (que era ela senão uma criança?) aceitou o juramento, que lhe tornava mais suave o leito de morte. E disse-me, não muitos dias depois, finando-se tranqüilamente, que, em vista do que eu fizera para alívio e consolo do seu espírito, velaria sempre por mim depois de morta, e se tal lhe fosse permitido, voltaria visivelmente a visitar-me nas vigílias da noite; se, porém, isto ultrapassasse o que às almas no Paraíso é permitido, dar-me-ia, pelo menos, freqüentes indicações de sua presença, suspirando sobre mim nos ventos da tarde ou enchendo o ar que eu respirasse com o perfume dos turíbulos dos anjos. E, com estas palavras, exalou a sua inocente vida, ponto termo à primeira época da minha.
Até aqui é fiel o relato que fiz. Mas, quando transponho a barreira formada pela morte de minha amada e penetro na segunda era da minha existência, sinto uma sombra empolgar-me o cérebro e não confio na perfeita sanidade das minhas palavras. Mas, prossigamos.
Os anos foram-se arrastando pesadamente e eu continuei habitando no vale ? mas uma segunda transformação se operara em todas as coisas. As flores em forma de estrela secaram nas árvores e não mais reapareceram. Apagaram-se os matizes do verde tapete de relva; e, um a um, murcharam os rubros asfódelos e, em seu lugar, surgiram, dez a dez, escuras violetas sempre carregadas de orvalho.
A vida desapareceu dos nossos atalhos; o alto flamingo já não exibia ante nós a sua plumagem escarlate, mas tristemente fugiu do vale para os montes com todas as álacres aves multicores que em sua companhia tinham vindo. Os peixes de ouro e prata nunca mais esmaltaram o nosso doce rio. A suave melodia que encantara mais do que a harpa e Éolo e fora mais divina do que tudo menos a voz de Leonor, foi-se pouco a pouco extinguindo, sumindo-se em murmúrios cada vez mais débeis, até que, por fim, o rio voltou à solenidade do seu primitivo silêncio. E então ergueu-se de novo a enorme nuvem e, abandonando os píncaros dos montes à sua antiga tristeza, recuou para as regiões de Hesper, e consigo levou o áureo esplendor e todas as magnificências que por alguns anos transfiguraram o vale de Many-Coloured Crass.
Todavia, as promessas de Leonor não ficaram no olvido; pois eu ouvia os sons do balouçar dos turíbulos dos anjos; correntes dum sagrado perfume flutuavam permanentemente sobre o vale; nas horas ermas, quando meu coração palpitava pesadamente, os ventos que me refrescavam a fronte vinham carregados de brandos suspiros; indistintos murmúrios ? oh, mas só uma vez! fui desperto de um sono, que se me afigurava o sono da morte, pela pressão de uns lábios espirituais sobre os meus.
Mas o vácuo dentro do meu coração recusava-se, ainda assim, a ser preenchido. Tinha saudades do amor que o enchera a transbordar. Por fim o vale fazia-me sofrer pelas recordações, e abandonei-o então para sempre, trocando-o pelas vaidades e pelos turbulentos triunfos do mundo.
Encontrei-me dentro duma estranha cidade, onde todas as coisas podiam ter servido para me apagaram da lembrança os doces sonhos que por tanto tempo sonhara no vale. O luxo e a pompa de uma corte majestosa, o doido clangor das armas e a radiosa beleza das mulheres desvairaram-me e embriagaram-me o cérebro. Até aqui, porém, ainda a minha alma permanecera fiel aos seus juramentos, e nas horas silentes da noite ainda até mim chegavam as revelações da presença de Leonor.
De súbito, cessaram estas manifestações; mundo escureceu de todo ante os meus olhos, e quedei-me espavorido ante o escaldante pensamento que me possuía ? ante as terríveis tentações que me empolgavam; pois de muito longe, de uma terra distante e ignota, viera para a alegre corte do rei que eu servia, uma donzela a cuja beleza todo o meu perjuro coração imediatamente se rendeu ? a cujos pés me curvei sem uma luta, no mais ardente, no mais abjeto culto de amor.
Que era, na verdade, a minha paixão pela adolescente do vale comparada com o fervor e o delírio, o alucinado êxtase de adoração com que eu depunha toda a minha alma em pranto aos pés da etérea Hermengarda? ? Oh, que deslumbrante era a angélica Hermengarda! E na minha alma para ninguém mais havia lugar. ? Oh, que divina era a celestial Hermengarda! E quando eu sondava as profundezas dos olhos inolvidáveis, só neles pensava ? só neles e nela!
Casei; não me arreceei da maldição que invocara; nem senti o amargor de haver infringido um juramento solene.
Mas uma vez, no silêncio da noite, chegaram até mim, através das minhas persianas, os brandos suspiros que havia muito eu já não ouvia e, numa voz familiar e doce, percebi estas palavras que jamais esquecerei:
- Dorme em paz! ? pois o Espírito do Amor reina e governa e, acolhendo no teu apaixonado coração aquela que se chama Hermengarda, tu és absolvido, por motivos que só no céu serão explicados, dos juramentos que fizeste a Leonor!
segunda-feira, 9 de julho de 2012
trecho ESTRELA DISTANTE
Roberto Bolaño
Em 1968, enquanto os estudantes erguiam barricadas e os futuros romancistas da França quebravam com tijolos as janelas de suas escolas ou faziam amor pela primeira vez, ele decidiu fundar a seita ou o movimento dos Escritores Bárbaros. Assim, enquanto alguns intelectuais saíam de suas casas para ocupar as ruas, o ex-legionário se fechou em seu cubículo de zelador da rue Des Eaux e começou a dar forma à sua nova literatura. A aprendizagem se fazia em dois passos aparentemente simples. O confinamento e a leitura (…) O segundo passo era mais complicado. Segundo Delorme, era preciso se fundir com as obras-primas. Isso se obtinha de uma forma bastante curiosa: defecando sobre as páginas de Stendhal, assoando o nariz com as páginas de Victor Hugo, masturbando-se e espalhando esperma sobre as páginas de Gautier ou Banville, vomitando nas páginas de Daudet, urinando sobre as páginas de Lamartine, cortando-se com lâminas de barbear e fazendo respingar o sangue nas páginas de Balzac ou Maupassant, submetendo os livros, enfim, a um processo de degradação que Delorme chamaca de humanização. O resultado, depois de uma semana de ritual ´bárbaro´, era um apartamento ou quarto cheio de livros destroçados, sujeira e mau-cheiro onde o aprendiz de escritor se punha a boquear relaxadamente, nu ou de shorts, sujo e convulso como um recém-nascido ou, mais precisamente, como o primeiro peixe a ter decidido dar o salto e viver fora da água…