Um dia ideal para os peixes-banana e livros e cinema e gibis e nus e ataxia espinocerebelar e 𓋹
quarta-feira, 27 de abril de 2011
IMAGINAÇÃO PERTUBADA
__ Sabe-se que há um número infinito de mundos, simplesmente porque há um espaço infinito para que os haja. Todavia, nem todos são habitados. Assim,deve haver um número finito de mundos habitados. Qualquer número finito dividido pelo infinito é tão perto de zero que não faz diferença, de forma que a população de todos os planetas do Universo pode ser considerada igual a zero. Daí segue que a população de todo o Universo também é zero, e que quaisquer pessoas que você possa encontrar de vez em quando são meramente produtos de uma imaginação perturbada.
Douglas Adams
terça-feira, 26 de abril de 2011
SUBMARINO
Joe Dunthorne
Um trecho:
Capítulo I
Triscedecofobia
Manhã de domingo. Escuto nosso modem para conexão discada tocar um jazz de má qualidade, enquanto mamãe se conecta com a internet. Estou no banheiro.
Descobri recentemente que mamãe tem digitado nomes de doenças mentais ainda não inventadas no buscador Yahoo: “adolescente com síndrome delirante”, “problema de imaginação hiperativa”, “estabilizadores comportamentais holísticos”.
Se o sujeito digita “adolescente com síndrome delirante” no Yahoo, a primeira página que ele lhe oferece tem a ver com a Síndrome de Cotard. A Síndrome de Cotard é uma ramificação do autismo em que as pessoas acham que estão mortas. O site oferece algumas citações seletas de vítimas da doença. Durante algum tempo, andei introduzindo essas frases nos hiatos de conversa na hora do jantar, ou quando a mamãe perguntava por meu dia na escola.
“Meu corpo foi substituído por uma concha.”
“Meus órgãos internos são de pedra.”
“Faz anos que eu morri.”
Parei de dizer essas coisas. Quanto mais eu fingia ser um cadáver, menos franca ela se tornava em matéria de questões de saúde mental.
Eu costumava escrever questionários para meus pais. Queria conhecê-los melhor. Perguntava coisas como:
Que doenças hereditárias tenho probabilidade de herdar?
Quanto dinheiro e imóveis tenho probabilidade de herdar?
Se o seu filho fosse adotivo, com que idade você optaria por lhe falar sobre sua mãe verdadeira?
a) 4-8
b) 9-14
c) 15-18
Tenho quase 15 anos.
Eles davam uma olhada nos questionários, mas nunca os respondiam.
Depois disso, passei a usar a análise disfarçada para descobrir os segredos de meus pais.
Uma das coisas que descobri foi que, embora a barba do papai pareça cor de gengibre, a uma certa distância, chegando perto a gente vê que, na verdade, ela é uma mescla sutil de preto, louro e morango.
Também descobri que meus pais não transam há dois meses. Controlo sua intimidade por meio do regulador da intensidade da luz que eles têm no quarto. Sei quando andaram fazendo das suas porque, na manhã seguinte, o botão ainda continua regulado na metade.
Também descobri que meu pai sofre de surtos depressivos: encontrei um vidro vazio de antidepressivos tricíclicos na cesta de vime que fica embaixo da sua mesinha de cabeceira. Ainda tenho o vidro entre os meus Transformers velhos. A depressão vem em surtos. Feito os assaltos do boxe.
O papai fica no córner azul. Azul de melancolia.
Preciso de toda a minha intuição para descobrir quando começa um dos surtos depressivos do meu pai. Dois sinais são estes: um, do meu quarto no sótão eu o escuto esvaziar a lavadora de louça; dois, ele faz tanta pressão ao escrever que, sob uma certa luz, é possível ver dois ou três dias de bilhetes seus calcados na superfície da nossa toalha de mesa de plástico limpa-fácil:
Fui à ioga,
cordeiro na geladeira,
Ll
Fui à Sainsbury’s,
Ll
Por favor, grave o Canal 4, 21h
Lloyd
Meu pai não assiste à televisão. Só grava coisas.
Há maneiras de identificar quando um surto depressivo acabou: é quando papai faz um trocadilho complicado, ou uma imitação de um gay ou um oriental. São bons sinais.
Para planejar com a devida antecedência, é do meu interesse saber dos problemas mentais de meus pais desde a mais tenra idade.
Não me decidi pela palavra correta para designar a doença da mamãe. Ela tem sorte, porque seus problemas de saúde mental podem ser confundidos com traços de caráter: afabilidade, charme e calma.
Aprendi mais sobre a natureza humana assistindo de manhã aos programas de entrevista da ITV nos dias de semana, do que ela em sua vida inteira. Eu lhe digo: “Você não está querendo abordar o vazio das suas experiências interpessoais”, mas ela não escuta.
Há alguns indícios de que o trabalho da mamãe é responsável pelo estado da sua saúde mental. Ela trabalha no departamento de serviços jurídicos e democráticos do Conselho Municipal. Tem muitos colegas. Uma das regras no escritório dela é que, quando a pessoa faz aniversário, é sua a responsabilidade de levar seu próprio bolo para o trabalho.
E tudo isso me traz de volta ao armário dos remédios.
Afasto para um lado a porta corrediça espelhada; meu rosto desaparece pela lateral, substituído pelas caixas em preto e branco de cremes vendidos mediante receita, comprimidos em embalagens de plástico duro transparente e vidros marrons tampados com fibra de algodão. No armário tem Imodium, Canesten, Piriton, Benylin, Robitussin (antidiarreico, antimicótico, anti-histamínico, xarope antitussígeno e antialérgico, expectorante) e mais uns tratamentos holísticos de aparência suspeita: arnica, equinácea, erva-de-são-joão e umas folhas desidratadas de aloé.
Eles acreditam que tenho problemas afetivos. Acho que é por isso que não querem me sobrecarregar com os seus. O que não parecem entender é que os problemas deles já são meus. Posso herdar os canais lacrimais frágeis da mamãe. Quando ela anda na brisa, as lágrimas lhe saem pelo canto externo dos olhos e descem em direção ao lóbulo das orelhas.
Resolvi que a melhor maneira de fazer meus pais se abrirem é lhes dar a impressão de que sou emocionalmente estável. Direi a eles que consultei um terapeuta e que ele ou ela disse que estou bem, em linhas gerais, só que me sinto isolado de meus pais e que eles deviam ser mais generosos com suas histórias.
Há uma clínica não muito longe da minha casa que contém uma variedade numerosa de terapeutas: fisio, psico e ocupacionais. Ponderei qual deles me daria menos problemas. Meu corpo é praticamente perfeito, por isso optei pelo Dr. Andrew Goddard, um fisioterapeuta com bacharelado e mestrado.
Quando telefonei, atendeu um secretário. Eu lhe disse que precisava marcar hora cedo, porque tinha de ir à escola. Ele respondeu que eu podia ficar com um horário na quinta-feira de manhã. Perguntou se eu já estivera na clínica. Eu disse que não. Perguntou se eu sabia onde era e respondi que sim, ficava perto dos balanços.
Fiquei admirado ao descobrir que existem agências de detetives nas Páginas Amarelas. Agências de detetives de verdade.Uma delas tem esse lema: “Você pode fugir, mas não conseguirá se esconder.” Dobrei o canto da página para facilitar a consulta.
Manhã de quinta-feira. Em geral, deixo mamãe me acordar, mas hoje ajustei o despertador para as sete horas. Mesmo embaixo do meu edredom grosso, consigo ouvi-lo berrando do outro lado do quarto. Escondi-o dentro do meu engradado de plástico para joysticks defeituosos, para ter que me levantar da cama, atravessar o quarto, arrancá-lo lá de dentro pelo fio e só então apertar o botão da soneca. Foi uma manobra tática feita pelo meu eu anterior. Ele sabe ser muito cruel.
AMOR SEM FIM
Ian McEwan
Um trecho:
É fácil precisar como começou. Fazia sol, mas estávamos debaixo de um carvalho que nos protegia parcialmente das fortes lufadas de vento. Ajoelhado na grama, eu segurava um saca?-rolhas enquanto Clarissa me passava a garrafa — um Daumas Gassac de 1987. Esse foi o momento, naquele exato instante foi espetado o alfinete no mapa do tempo: estendi o braço e, quando o gargalo frio e o invólucro metalizado tocaram a palma da minha mão, ouvimos um homem gritar. Voltamo-nos para o outro lado do campo e vimos o perigo. Ato contínuo, comecei a correr em sua direção. A transformação foi total: não me lembro de deixar cair o saca-rolhas, de me pôr de pé, de tomar alguma decisão e nem mesmo de ouvir as palavras de cautela lançadas por Clarissa em meu encalço. Que idiotice, correr para essa história e seus labirintos deixando para trás nossa felicidade no relvado primaveril sob um carvalho frondoso! Ouviu-se outro grito de homem e logo depois o de uma criança, enfraquecido pelo vento que rugia nas altas árvores ao longo das cercas vivas. Acelerei. E de repente reparei que, de pontos diferentes do campo, quatro outros homens convergiam para o local, todos correndo
como eu.
Vejo-nos de uma altura de aproximadamente cem metros pelos olhos do falcão que pouco antes havíamos observado disparando para o alto, dando algumas voltas e descendo como uma flecha no turbilhão das correntes de ar: cinco homens correndo em silêncio rumo ao centro de um campo de uns quarenta hectares. Eu vinha do sudeste, com o vento atrás de mim. Cerca de duzentos metros à minha esquerda, dois homens corriam lado a lado. Eram trabalhadores rurais que consertavam a cerca no sul do campo, onde passa a estrada. A igual distância vinha John Logan, cujo carro estava estacionado no acostamento gramado com a porta escancarada, ou com as portas escancaradas. Sabendo o que sei agora, é estranho evocar a figura de Jed Parry diretamente na minha frente, surgindo de um renque de faias do outro lado do campo, a uns quatrocentos metros de distância, e correndo contra o vento. Para o falcão, Parry e eu, com nossas camisas brancas brilhando contra o fundo verde, éramos figuras diminutas que corriam um para o outro como amantes, desconhecendo o sofrimento que esse encontro iria causar. O envolvimento que nos tiraria dos eixos estava para acontecer dali a alguns minutos, mas sua enormidade era ocultada pela barreira do tempo e pelo colosso no centro do campo, cujo fabuloso poder de atração tornava insignificantes as angústias humanas a
seu redor.
Que fazia Clarissa? Ela disse que tinha caminhado rapidamente para o centro do campo. Não sei como resistiu à compulsão de correr. Quando a coisa aconteceu — o fato que estou prestes a narrar, a queda —, ela havia quase nos alcançado e estava bem situada para observar tudo sem os estorvos da participação direta, das cordas e dos gritos, de nossa falta de cooperação fatal. Minha descrição se baseia também no que Clarissa viu, no que nos dissemos durante as obsessivas recapitulações que se seguiram: as consequências, o que aconteceu num campo que aguardava a ceifa do início do verão. Sim, as consequências, a segunda colheita, o crescimento resultante daquele primeiro corte
feito em maio.
Estou me detendo, retardando a informação. Deixo-me ficar no momento anterior porque, então, outros resultados ainda eram possíveis; quando vista da perspectiva do falcão, a convergência de seis figuras num espaço plano e verde oferece uma geometria confortadora, as limitações bem conhecidas da mesa de sinuca. As condições iniciais, a força e a direção em que ela é aplicada, definem todas as trajetórias subsequentes, todos os ângulos de colisão e repique, ao mesmo tempo em que as luzes de cima inundam com uma claridade reconfortante o campo, o feltro e todos os corpos que nele se movem. Enquanto ainda convergíamos sem fazer contato, nos encontrávamos num estado de graça matemático. Demoro-me na contemplação de nossas posições, das distâncias e dos pontos cardeais porque, no que tange aos acontecimentos que vieram depois, essa foi a última vez que entendi alguma coisa claramente.
Corríamos em direção a quê? Creio que nenhum de nós jamais o soube por completo. Superficialmente, para um balão. Não o espaço que contém a fala ou o pensamento dos personagens de uma história em quadrinhos, ou, por analogia, o tipo que necessita apenas de ar quente para subir. Tratava-se de um enorme balão cheio de hélio, esse gás nobre forjado do hidrogênio nas fornalhas nucleares das estrelas, primeiro passo na cadeia de geração das múltiplas e variadas formas de matéria no universo, inclusive nós próprios e todas as nossas elucubrações.
Corríamos em direção a uma catástrofe, em si mesma um tipo de fornalha cujo calor iria deformar identidades e destinos. Na base do balão, havia uma cesta com um menino dentro e, ao lado dela, agarrando-se por uma amarra, um homem necessitado de ajuda.
O PEQUENO PRÍNCIPE
Antoine Saint-Exupery
Um trecho:
O pequeno príncipe atravessou o deserto e encontrou apenas uma flor. Uma flor de três pétalas, uma florzinha insignificante....
- Bom dia - disse o príncipe.
- Bom dia - disse a flor.
- Onde estão os homens? - Perguntou ele educadamente.
A flor, um dia, vira passar uma caravana:
- Os homens? Eu creio que existem seis ou sete. Vi-os faz muito tempo. Mas não se pode nunca saber onde se encontram. O vento os leva. Eles não têm raízes. Eles não gostam das raízes.
-Adeus - disse o principezinho.
-Adeus - disse a flor.
O pequeno príncipe escalou uma grande montanha. As únicas montanhas que conhecera eram os três vulcões que batiam no joelho. O vulcão extinto servia-lhe de tamborete. "De uma montanha tão alta como esta", pensava ele, "verei todo o planeta e todos os homens..." Mas só viu pedras pontudas, como agulhas.
- Bom dia! - disse ele ao léu.
- Bom dia... bom dia... bom dia... - respondeu o eco.
- Quem és tu? - perguntou o principezinho.
- Quem és tu... quem és tu... quem és tu... - respondeu o eco.
- Sejam meus amigos, eu estou só... - disse ele.
- Estou só... estou só... estou só... - respondeu o eco.
"Que planeta engraçado!", pensou então. "É completamente seco, pontudo e salgado. E os homens não têm imaginação. Repetem o que a gente diz... No meu planeta eu tinha uma flor; e era sempre ela que falava primeiro."
Mas aconteceu que o pequeno príncipe, tendo andado muito tempo pelas areias, pelas rochas e pela neve, descobriu, enfim, uma estrada. E as estradas vão todas em direção aos homens.
- Bom dia! - disse ele.
Era um jardim cheio de rosas.
- Bom dia! - disseram as rosas.
Ele as contemplou. Eram todas iguais à sua flor.
- Quem sois? - perguntou ele espantado.
- Somos as rosas - responderam elas.
- Ah! - exclamou o principezinho...
E ele se sentiu profundamente infeliz. Sua flor lhe havia dito que ele era a única de sua espécie em todo o Universo. E eis que havia cinco mil, iguaizinhas, num só jardim!
"Ela teria se envergonhado", pensou ele, "se visse isto... Começaria a tossir, simularia morrer, para escapar ao ridículo. E eu seria obrigado a fingir que cuidava dela; porque senão, só para me humilhar, ela seria bem capaz de morrer de verdade..."
Depois, refletiu ainda: "Eu me julgava rico por ter uma flor única, e possuo apenas uma rosa comum. Uma rosa e três vulcões que não passam do meu joelho, estando um, talvez, extinto para sempre. Isso não faz de mim um príncipe muito poderoso..."
E, deitado na relva, ele chorou.
E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia - disse a raposa.
- Bom dia - respondeu educadamente o pequeno príncipe, olhando a sua volta, nada viu.
- Eu estou aqui - disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? - Perguntou o principezinho. - Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa - disse a raposa.
- Vem brincar comigo - propôs ele. - Estou tão triste...
-Eu não posso brincar contigo - disse a raposa. - Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa - disse o principezinho.
Mas, após refletir, acrescentou:
- Que quer dizer "cativar"?
- Tu não és daqui - disse a raposa. - Que procuras?
- Procuro os homens - disse o pequeno príncipe. - Que quer dizer "cativar"?
- Os homens - disse a raposa - têm fuzis e caçam. É assustador! Criam galinhas também. É a única coisa que fazem de interessante. Tu procuras galinhas?
- Não - disse o príncipe. - Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?
- É algo quase sempre esquecido - disse a raposa. Significa "criar laços"...
- Criar laços?
- Exatamente - disse a raposa. - Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
- Começo a compreender - disse o pequeno príncipe. - Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...
- É possível - disse a raposa. - Vê-se tanta coisa na Terra...
- Oh! Não foi na Terra - disse o principezinho.
- A raposa pareceu intrigada:
- Num outro planeta?
- Sim.
- Há caçadores nesse planeta?
- Não.
- Que bom! E galinhas?
- Também não.
- Nada é perfeito - suspirou a raposa.