Um dia ideal para os peixes-banana e livros e cinema e gibis e nus e ataxia espinocerebelar e 𓋹
sábado, 4 de setembro de 2010
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
TERÇA-FEIRA, MAIO 08, 2007
Virada Cultural. Assisto Nosferatu em um telão montado ao lado do muro do Cemitério da Vila Nova Cachoeirinha. Um clássico do terror projetado em um cenário sombrio, à meia-noite.
Nada assustador. O verdadeiro horror ainda está por vir.
Terminada a projeção, eu e os manos vamos pro Centro. O destino é a Praça da Sé. Show dos Racionais MC's, marcado para começar às três da manhã.
A gente se mistura ao público. A praça está insuportavelmente lotada. Tiozinhos passam vendendo um caninho fino e comprido de plástico. Um chup-chup gigante de pinga. Vejo dois manos, cada um com a boca numa extremidade, mamando a cachaça vagabunda. Nojento.
Além da cana, são inúmeros os malucos que entornam garrafas de vinho Chapinha. Eu fico com minha cervejinha, nem sempre gelada (fazer o quê?), comprada dos ambulantes que passam com isopor.
Meu camarada Cão Morto aponta para a marquise na entrada de uma farmácia. Um monte de caras está lá em cima, dançando rap. Poucos minutos depois, vejo uma fila de PMs se dirigindo para o grupo. Os bêbados gritam "FILHA DA PUTA!" e atiram coisas nos policiais. "É assim que as merdas começam", digo pro meu amigo.
Resolvemos ficar entre as palmeiras da Sé para ter uma visão melhor do palco. Mas, em qualquer lugar onde vamos, o som chega muito baixo. Estamos muito longe, do outro lado da praça. E é impossível avançar. Gente pra caralho.
Ficamos mais de uma hora lá, de pé. A porra do show não começa logo e estou impaciente.
Às quatro e meia da manhã, finalmente, os Racionais MC's sobem ao palco. Tocando " Eu sou 157". A praça da Sé inteira se empolga, dança e canta junto. "Hoje eu sou ladrão/ Artigo 157/ As cachorra me ama/ Os playboy se derrete..."
Mas o som tá baixo demais. Logo o grau de empolgação na área onde estamos começa a baixar. Tentamos avançar um pouco. Noto que os malucos voltaram a subir na marquise da farmácia e numa banca de jornais ao lado. Alguns deles trepam em varandas de um antigo edifício comercial. E dançam perto de uma grande placa onde lemos "compra-se ouro".
Se não me engano, o grupo está tocando "Crime vai e Crime vem", quando começa o empurra-empurra. O povo se afasta em pânico. Alguns amigos somem. Eu e o Cão continuamos lá. Parados. "Calma. Sem nóia, sem nóia...", é o que um fala pro outro.
Então vejo um bando de PMs com cassetetes na mão ser alvo de uma chuva de garrafas e latas. A situação fica pequena pros meganhas. Olho em direção à catedral e percebo que o recuo do público abre um corredor que pode nos levar até perto do palco. Lá em cima, os Racionais continuam mandando ver no som. "Vamos pra frente", digo pro brother. E a gente vai correndo curvado, pra não tomar garrafada, ao som de Vida Loka parte 1.
Estamos no meio do caminho e surge a tropa de choque. Escudos, cassetetes, capacetes, bombas de efeito moral e espingardas calibre 12, carregadas com balas de borracha. Eles estão dispostos a passar por cima de qualquer um que entrar na frente.
As bombas estouram e o público reage. Alguns manos quebram cavaletes e tacam os pedaços de pau nos gambés. A Sé vira um campo de batalha.
Pra não tomar garrafada nem bomba, o Cão Morto encosta em um poste. Eu, numa palmeira. Algumas minas, sozinhas ou com namorados, estão desesperadas, agaixadas ao pé das árvores e chorando. "Assim não dá!", diz Mano Brown, interrompendo o show.
"Pára com isso.... Vamos usar a inteligência... Tá suave, tá suave...", diz o líder do grupo, tentando acalmar a população. "Eu também sô obrigado a conviver com um monte de coisa que eu não gosto. O mundo é assim. Vocês vê polícia todo dia. Por que, justo hoje, qué arrumá confusão?", prossegue Brown.
Nesse momento, eu e o truta chegamos ao lado do palco. Noto que, pouco a pouco, as pessoas vão parando de atacar a PM. Passam a prestar atenção nas palavras do rapper. Os Racionais também devem ter notado que a situação se acalmava, pois, na seqüência, resolvem seguir em frente. Ouvimos o começo da base de "Negro Drama" e o público delira.
Eu e o Cão entramos na massa bem em frente ao palco.
Estamos lá, pulando e cantando junto com o MC Edy Rock, quando escuto novas explosões de bombas de efeito moral. Na seqüência, a multidão entra em desespero e o tumulto recomeça nervoso. Nesse momento, eu e o Cão somos separados.
Espremido entre os manos, tento sair do meio da multidão em pânico. Mal consigo me mexer. Grito "calma, porra! Calma!". Pouco a pouco vou saindo. Até que, por cima do ombro de um cara à minha frente, vejo um PM apontando a 12 em nossa direção e disparando. "É hoje que tomo bala de borracha", penso.
Os gambés filhos da puta não querem saber. Querem acabar com o show de qualquer jeito. Consigo sair do meio da muvuca. Deixo a multidão com os braços levantados, andando devagar e olhando pros PMs. Nenhum atira em mim. Mas vejo um meganha da tropa de choque mirar a 12 em um grupo de minas que corre em direção à praça João Mendes. O policial covarde está babando pra atirar nas garotas pelas costas. Vejo isso nos olhos dele. Mas outro coxinha lhe fala algo e o cuzão, lentamente, abaixa a 12.
Torno a me virar pra muvuca, à procura do meu camarada. Rapidamente o acho. Ele também sai do meio do povo com os braços pro alto e andando devagar. Caminhamos em direção à João Mendes, enquanto Mano Brown , antes de deixar o palco, diz ao microfone: "parabéns pra PM, hein. Vocês conseguiram acabar com a festa."
Deixando a Sé, vemos fãs dos Racionais revoltados, quebrando vidros e chutando portas de ferro das lojas. Estamos quase atrás da catedral quando sentimos o gás pimenta. A garganta trava e lágrimas saem dos olhos. Ao nosso lado há um jovem casal. A mina não consegue respirar e desmaia. O namorado a pega no colo e sai correndo dali.
Só voltamos a respirar direito no viaduto João Mendes. Horas depois, sou informado de que houve carro incendiado e quebra-quebra em todo entorno da praça. Tudo por causa de meia dúzia de idiotas que resolveu tacar coisa na gloriosa e intocável PM. Mais conhecida como Raça do Caralho.
O VENDEDOR DE ARMAS
Hugh Laurie
Já estamos no meio de dezembro e em breve viajaremos para a Suiça – onde planejamos esquiar um pouco, relaxar um pouco e atirar um pouco em um político holandês.
Estamos nos divertindo, vivendo bem e nos sentindo importantes. O que mais alguém pode querer da vida?
um
Vi um homem esta manhã
Que não queria morrer
P. S. Stewart
Imagine que você precisa quebrar o braço de alguém.
Não interessa se é o direito ou o esquerdo. O ponto é que você precisa quebrá-lo, porque se não o fizer... bom, isso não importa também. Vamos dizer que coisas ruins vão acontecer se você não fizer isso.
O que quero perguntar é o seguinte: você quebraria o braço da pessoa rapidinho - tipo crack, oops, desculpe, deixa eu ajudar você com esta tala improvisada - ou prefere fazer aquele serviço completo que dura uns bons oito minutos, aumentando a pressão aos poucos, até que a dor fique rosa e verde e quente e fria e tudo isso junto, o que a torna dolorosamente insuportável?
Exatamente. É claro. O certo a fazer, a única coisa a se fazer, é resolver a coisa logo, o mais rápido possível. Quebre o braço, ofereça um conhaque e seja um bom cidadão. Não pode haver nenhuma outra resposta.
A menos que.
A menos que, a menos que, a menos que...
E se você odiasse a pessoa do braço? Quero dizer, se odiasse muito, mas muito mesmo.
Isso era algo que eu tinha que considerar agora.
Quando digo agora, quero dizer naquela hora, naquele momento em que eu estava querendo descrever; o momento em câmera lenta, ah, maldita câmera lenta, antes de o meu punho alcançar a parte de trás do meu pescoço e meu úmero esquerdo se quebrar em pelo menos dois, ou muito possivelmente mais, pedaços moloides presos um ao outro.
O braço do qual estávamos falando, como pode ver, era o meu. Não é um braço abstrato, filosófico. O osso, a pele, os pelos, a pequena cicatriz branca no cotovelo, ganha da quina de um armário na Escola Primária de Gateshill - tudo isso pertence a mim. E agora é o momento no qual devo considerar a possibilidade de que o homem atrás de mim, prendendo meu braço e o levantando pelas minhas costas com um cuidado quase sexual, me odeia. Quero dizer, me odeia muito, muito mesmo.
Ele está fazendo isso há uma eternidade.
O sobrenome dele era Rayner. Primeiro nome desconhecido. Por mim, na verdade, e por causa disso, presumivelmente, pra você também.
Imagino que alguém, em algum lugar, sabia o primeiro nome dele - deve tê-lo batizado com esse nome, chamado ele para o café da manhã, ensinado como soletrá-lo - e alguém deve tê-lo gritado do outro lado do bar oferecendo uma bebida, ou murmurado durante o sexo, ou escrito no campo de um formulário de seguro de vida. Sei que devem ter feito todas essas coisas. É apenas difícil imaginar, só isso.
Estimo que Rayner era uns dez anos mais velho do que eu. E tudo bem. Nada errado com isso. Tenho relações ótimas e sem braços quebrados com várias pessoas que têm dez anos a mais do que eu. Em geral, pessoas dez anos mais velhas do que eu são admiráveis. Mas Rayner também era uns oito centímetros mais alto do que eu, 30 quilos mais pesado e pelo menos uns oito qualquer-que-seja-a-medida-para-a-violência mais violento. Ele era mais feio do que não sei o quê, com uma cabeça enorme e careca; seu nariz, amassado de lutador, parecia ter sido desenhado na cara dele por alguém usando a mão esquerda, ou talvez até mesmo o pé esquerdo, saía do rosto em um sinuoso e assimétrico triângulo abaixo de sua testa áspera e grossa.
Aliás, benza Deus, que testa! Tijolos, facas, garrafas e argumentos que faziam sentido, cada um a seu tempo, bateram e voltaram naquela massiva superfície frontal, deixando apenas pequenas marcas entre seus poros profundos e espaçadamente gigantes. Acho que eram os poros mais profundos e espaçados que já vi em uma pele humana, por isso me vi pensando no conselho do verde de Dalbeattie, no fim do longo e seco verão de 1976.
Mudando agora para a parte lateral, descobrimos que as orelhas de Rayner foram, há muito tempo, arrancadas com mordidas e depois colocadas de volta, porque a esquerda só podia estar de cabeça para baixo, ou talvez do avesso, ou algo que fizesse você olhar para ela um longo tempo até pensar "ah, é uma orelha".
E além de tudo isso, se você ainda não entendeu, Rayner usava uma jaqueta de couro preta por cima de uma camiseta preta de gola alta, tipo cacharel.
Mas é claro que você tinha entendido. Rayner podia ter se enrolado em seda brilhante, colocado uma orquídea atrás de cada orelha e, ainda assim, pedestres nervosos dariam dinheiro primeiro e depois iam pensar se deviam algo a ele ou não.
Com tudo que aconteceu, eu não devia dinheiro a ele. Rayner pertencia àquele seleto grupo de pessoas às quais eu não devia nada, e se as coisas tivessem ido um pouco melhor entre nós, eu teria sugerido que seus colegas tivessem um cumprimento especial, que representasse uma sociedade. Um tema dos caminhos que se cruzavam, talvez.
Mas, como disse antes, as coisas não iam bem entre nós dois.
Um instrutor de combate de um braço só chamado Cliff (sim, eu sei, ele ensinava combate sem armas e só tinha um braço - muito raramente a vida é assim mesmo) me disse uma vez que a dor é algo que você inflige a você mesmo. Outras pessoas fazem coisas com você - batem, esfaqueiam ou tentam quebrar seu braço -, mas quem produz a dor é você. Portanto, dizia Cliff que tinha passado duas semanas no Japão e que por isso se sentia no direito de descarregar esse tipo de merda em seus alunos - está sempre em seu poder parar a sua própria dor. Cliff foi morto em uma briga de pub três meses depois por uma viúva de 55 anos, por isso não terei a chance de dizer a ele que isso não era verdade.
A dor é um evento. Ela acontece com você, e você lida com ela da melhor maneira possível.
A única coisa a meu favor era que, até agora, eu não tinha emitido nenhum som.
E quero que entenda que não tinha nada a ver com bravura, eu simplesmente não tinha tido a oportunidade. Até esse momento, Rayner e eu tínhamos nos debatido em paredes e mobílias em um másculo e suado silêncio, com um ou outro grunhido para mostrar que ambos ainda estávamos concentrados. Mas agora, apenas alguns segundos antes de eu desmaiar ou do meu osso ceder e se quebrar, era o momento ideal para introduzir um novo elemento. E um som foi tudo o que consegui pensar.
Então, respirei fundo pelo nariz, me endireitei para ficar o mais perto possível do rosto dele, segurei a respiração por um momento e soltei o que os japoneses lutadores de artes marciais chamam de kiai - você provavelmente chamaria de barulho muito alto, e isso seria uma boa descrição - um grito tão cegante, chocante e de uma intensidade do tipo que-porra-de-barulho-alto-foi-esse que eu mesmo fiquei assustado com ele.
Em Rayner, o efeito foi o que eu esperava, porque ele involuntariamente foi um pouco para o lado, soltando aos poucos o meu braço por um vigésimo de segundo. Joguei minha cabeça para trás o mais rápido que pude para acertar a cara dele, sentindo a cartilagem de seu nariz se ajustando ao contorno do meu crânio e um líquido sedoso se espalhando pela minha cabeça, então levantei meu calcanhar e bati no saco dele, arranhando a parte interna de suas coxas antes de alcançar sua impressionante genitália. Quando o vigésimo de segundo acabou, Rayner não estava mais tentando quebrar meu braço, e percebi de repente que eu estava encharcado de suor.
Saí de perto dele dançando na ponta dos pés como um velho cão São Bernardo, procurando por alguma arma.
O local desse campeonato de luta-livre de amadores que teve um round de quinze minutos era uma sala de estar pequena e deselegantemente decorada no bairro de Belgravia. O decorador tinha feito um trabalho perfeitamente horrível, como todos os decoradores de interiores em geral fazem, todas às vezes, sem exceções - mas, bem naquela hora, o gosto dele ou dela por objetos portáteis e pesados coincidiu com o meu. Escolhi um Buda de 40 centímetros que estava na lareira e o peguei com meu braço bom, descobrindo que as orelhas do gordinho eram perfeitas para uma boa pegada da minha única mão que funcionava bem.
Rayner estava agora ajoelhado e vomitando em um tapete chinês, o que melhorava a falta de cor dele. Escolhi uma boa posição, me preparei e acertei ele com tudo, batendo a parte de baixo do Buda logo atrás da orelha esquerda dele. Ouve um barulho surdo e seco, daqueles que apenas a pele humana faz ao ser atacada, e então ele rolou para o lado.
Não me preocupei em ver se ele ainda estava vivo. Insensível? Talvez, mas a vida é assim. Limpei um pouco do suor do rosto e fui até o corredor. Tentei ouvir algo, mas, se havia algum som vindo da casa ou da rua, eu nunca teria ouvido, porque meu coração batia como uma britadeira. Ou talvez tivesse mesmo uma britadeira lá fora. Eu estava preocupado demais em respirar grandes quantidades de ar para notar qualquer coisa.
Abri a porta da frente e logo senti uma garoa fria no rosto. Ela se misturou com o suor, se diluindo, diluindo a dor no meu braço, diluindo tudo, por isso fechei os olhos e a deixei cair. Foi uma das melhores coisas que já experimentei. Você pode dizer que a vida que eu levo deve ser bem pobre. Perceba, então, que o contexto é tudo na vida.
Fechei a porta, saí para a calçada e acendi um cigarro. Gradualmente e meio irritado, meu coração foi entrando em seu ritmo normal, e minha respiração o seguiu a distância. A dor em meu braço era terrível, e eu sabia que me acompanharia por dias, ou talvez semanas, mas pelo menos não era no braço da minha mão de fumar.
Voltei para dentro da casa e vi que Rayner estava exatamente onde eu o havia deixado, deitado em uma poça de vômito. Ou ele estava morto, ou seriamente ferido, o que significava no mínimo cinco anos de prisão em qualquer dos casos. Dez, com o tempo sendo aumentado por mau comportamento. E isso, do meu ponto de vista, era muito mau.
Eu já estive na prisão, entende? Apenas três semanas, e era só uma prisão preventiva, mas quando você precisa jogar xadrez duas vezes por dia com um torcedor monossilábico do West Ham que tem a palavra ÓDIO tatuada em uma mão e ÓDIO tatuada na outra também - usando um jogo sem seis peões, as torres e dois bispos -, você começa a agradecer pelas pequenas coisas da vida. Como não estar na prisão.
Estava eu contemplando esse e outros assuntos relacionados e começando a pensar em todos os países tropicais que eu ainda não conhecia quando percebi que um barulho - algo leve, meio rangendo e arranhando - definitivamente não vinha do meu coração batendo. Nem dos meus pulmões ou de qualquer parte do meu corpo, ele vinha de fora, com certeza.
Alguém, ou algo, tentava com muita vontade, mas sem sucesso, descer as escadas em silêncio.
Deixei o Buda onde estava e peguei um acendedor de lareira de alabastro horroroso, seguindo em direção à porta, que por sinal também era horrorosa. "Como alguém pode fazer uma porta horrorosa?", você poderia perguntar. Bem, dá um certo trabalho, claro, mas pode acreditar no que digo, os decoradores de interiores conseguem fazer algo assim antes de tomar café da manhã.
Tentei segurar a respiração, mas não consegui, então esperei, fazendo um pequeno barulho. Um interruptor acendeu uma luz em algum lugar, e logo depois apagou. Uma porta se abriu, houve uma pausa, nada ali também, e a porta foi fechada. Fique parado. Pense. Tente a sala de estar.
Houve um farfalhar de roupa, um passo leve e então eu estava relaxando o aperto da minha mão em torno do grande isqueiro de alabastro e me recostando na parede com algo parecido com um alívio. Mesmo em meu estado de pavor e dor, tinha certeza absoluta de que o Fleur de Fleurs da Nina Ricci não era o perfume de um lutador.
OS DETETIVES SELVAGENS
Roberto Bolaño
Acordei em casa de Catalina O’Hara. Enquanto tomava o café da manhã, bem cedinho (María não estava, o resto da casa dormia), com Catalina e seu filhinho Davy, que ela precisava levar para o berçário, lembrei-me de que na noite anterior, quando só restávamos uns poucos, Ernesto San Epifanio dissera que existia literatura heterossexual, homossexual e bissexual. Os romances, geralmente, eram heterossexuais, já a poesia era absolutamente homossexual, os contos, deduzo, eram bissexuais, mas isso ele não disse.
Dentro do imenso oceano da poesia, [San Epifanio] distinguia várias correntes: bichonas, bichas, bicharocas, bichas-loucas, bonecas, borboletas, ninfos e bâmbis. Walt Whitman, por exemplo, era um poeta bichona. Pablo Neruda, um poeta bicha. William Blake era uma bichona, sem sombra de dúvida, e Octavio Paz, bicha. Borges era bâmbi, quer dizer, de repente podia ser bichona e de repente simplesmente assexuado. Rubén Dario era uma bicha-louca, na verdade a rainha e o paradigma de todas as bichas-loucas (...) Uma louca, segundo San Epifanio, estava mais próxima do hospício florido e das alucinações em carne viva, enquanto as bichonas e as bichas vagavam sincopadamente da Ética à Estética, e vice-versa. Cernuda, o querido Cernuda, era um ninfo e, em ocasiões de grande amargura, um poeta bichona, enquanto Guillén, Aleixandre e Alberti podia ser considerados bicharoca, boneca e bicha, respectivamente. Os poetas tipo Carlos Pellicer eram, via de regra, bonecas, enquanto poetas como Tablada, Novo, Renato Leduc eram bicharocas. (...)
O panorama poético, afinal de contas, era basicamente a luta (subterrânea), o resultado da pugna entre poetas bichonas e poetas bichas para se apropriarem da palavra. As bicharocas, segundo San Epifanio, eram poetas bichonas no sangue, que por fraqueza ou comodidade acatavam --se bem que nem sempre-- os parâmetros estéticos e vitais das bichas. [Na Itália], bichas feito Ungaretti, Montale e Quasimodo [rivalizam com] um poeta bichona feito Leopardi (...) Com Pavese não me meto, era uma bicha-louca triste, exemplar único em sua espécie, nem me meto com Dino Campana, que come em mesa à parte, a mesa das bichas-loucas terminais.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
A EMOÇÃO MAIS ANTIGA
A emoção mais forte e mais antiga do homem é o medo, e a espécie mais forte e mais antiga de medo é o medo do desconhecido. Poucos psicólogos contestarão esses fatos e a sua verdade admitida deve firmar para sempre a autenticidade e dignidade das narrações fantásticas de horror como forma literária.
H.P. Lovecraft
2666
Roberto Bolaño
De que Ivánov tinha medo?, Ansky se perguntava em seus cadernos. Não do perigo físico, já que como ex-bolchevique muitas vezes esteve perto da detenção, da prisão e da deportação, e embora não se pudesse dizer que fosse um tipo valente, também não se podia afirmar, sem faltar com a verdade, que fosse uma pessoa covarde e sem peito. O medo de Ivánov era de índole literária. Isto é, seu medo era o medo que sente a maioria daqueles cidadãos que um belo (ou horrendo) dia decidem transformar o exercício das letras e, sobretudo, o exercício da ficção em parte integrante das suas vidas. Medo de serem ruins. Também, medo de não serem reconhecidos. Mas, sobretudo, medo de serem ruins. Medo de que seus esforços e seus labores caiam no esquecimento. Medo da pisada que não deixa marca. Medo dos elementos do acaso e da natureza que apagam as marcas pouco profundas. Medo de jantarem sozinhos e de que ninguém repare na sua presença. Medo de não serem apreciados. Medo do fracasso e do ridículo. Mas sobretudo medo de serem ruins. Medo de habitar, por todo o sempre, o inferno dos escritores ruins. Medos irracionais, pensava Ansky, sobretudo se os medrosos contrabalançavam seus medos com aparências. O que vinha a ser a mesma coisa que dizer que o paraíso dos bons escritores, segundo os ruins, era habitado por aparências. E que o bom (ou a excelência) de uma obra girava em torno de uma aparência. Uma aparência que variava, claro, de acordo com a época e os países, mas que sempre se mantinha como tal, aparência, coisa que parece e não é, superfície e não fundo, pura pose, e a pose era inclusive confundida com a vontade, cabelos e olhos e lábios de Tolstói e verstas percorridas a cavalo por Tolstói e mulheres defloradas por Tolstói num tapete queimado pelo fogo da aparência.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
domingo, 29 de agosto de 2010
sábado, 28 de agosto de 2010
PATÓPOLIS
Marcelo Coelho
NUNCA VIMOS UM PATO NA CRUZ
Há uma lacuna básica na História patopolense, um buraco naquele doughnut, uma interrupção fundamental em sua "frisa do tempo" (...) Essa falha histórica em Patópolis é o Cristianismo. Não podemos imaginar, nem nunca vimos, um pato na cruz. Pode ser que haja um deus daquela cidade; terá barbas brancas, penas brancas, um traseiro branco que se afofa numa nuvem branca, a preferida; mas não existe filho seu, como aliás não há filhos, só sobrinhos, em Patópolis. Um pato crucificado é impossível. Só vimos, até agora, Donald no tédio. Ora, esta expressão nos evoca, digamo-lo com um pigarro que homenageia o "efeito historieta" de algumas páginas atrás (tabagismo e bigodetos, gazetas, falsetas, erres puxados na garanta, rascâncias de pentelho irritando a epiglote de um velho professor de peito cavo, consumido e amarelo), esta expressão nos evoca, repito, a frase que Sérgio Milliet incorpou aos Pensamentos de Pascal na edição dos "Pensadores". Na abertura de um capítulo vertiginoso, doentio e lacônico de Pascal --nome aliás de pato enfermiço--, Sérgio Milliet escreveu: "Jesus no tédio". Jésus dans l'ennui, dizia o original. Mas --cof-- "ennui", no século 17, queria dizer apenas "tortura". Para Pascal, o escândalo, cheio de graça, era ver Jesus torturado. Para nós, as coisas não são tão simples; não se esgotam nesse parco e barato paradoxo. O tédio é o tormento que resta a Donald: não foi Filho do Homem. Ei-lo de volta às moscas
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
GLENN ESTERLY SOBRE CHARLES BUKOWSKI
O rosto, que não teve trégua desde o começo, foi terrivelmente abusado ao longo dos anos. Na adolescência, uma doença sanguínea o deixou meses no hospital, com furúnculos do tamanho de pequenas maçãs no rosto e nas costas (“Era emocional: o ódio pelo meu pai saindo através da pele”), deixando uma coleção de cicatrizes impressas para toda a vida. Mais tarde, putas impiedosas deixaram cicatrizes, arrancando pedaços de carne com as unhas enquanto ele estava bêbado demais para reagir. No meio desses mapas faciais de crises passadas se encontra um nariz redondo, inchado e grosseiro. Ele também é vermelho, em um protesto inútil contra as exorbitantes quantidades de álcool consumidas pelo velho. Acima do nariz, dois pequenos olhos azul-claros, localizados no fundo do crânio imenso, estudam cuidadosamente o mundo. As mãos são um elemento inesperado no corpo de Bukowski: dois membros muito delicados na extremidade de braços musculosos. São mãos de um artista plástico ou de um músico. Belas mãos, sem dúvida (“Digo às mulheres que o rosto é a minha experiência de vida, e que as mãos são a minha alma — vale tudo para ver uma mulher tirando a calcinha.”)
Revista Rolling Stone.
Vi no Boteco Sujo.