sexta-feira, 27 de maio de 2011

LUA

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É o que me lembro.

Eu me lembro de Sandro no terraço do prédio em uma noite cheia de fumaça e uma lua oculta sob nuvens que eu também não conseguia ver. Sandro usando um vestido curto e a boca suja do batom de todas aquelas garotas que ele beijara na festa. Sandro com a maquiagem borrada de tanto chorar e reclamando que as meias estavam apertando seu pau.

Sandro olhando para o revólver na minha mão, dizendo “Não foi por mal. É importante para mim que você acredite nisso. Não foi por mal”.

“Eu acredito, Sandro”, eu disse. “Eu acredito. Mas isso não muda nada.”

Ele sorriu. “Eu sei”, disse e virou-se de costas para mim. Provavelmente procurava pela lua. “Eu não quero morrer. Eu não quero morrer. Peça o que quiser, eu faço. Juro que faço.”

“Não o que eu quero.”

Ele virou-se e me encarou. “Qualquer coisa. juro.”

“Você pode trazê-la de volta?.”

Ele me olhou, confuso.

“Achei que não.”, eu disse e ergui a arma.

Atirei no rosto dele . A bala entrou pela boca e saiu na nuca, arrancando dentes, carne, ossos e pele. Sandro caiu de joelhos e ficou me olhando, engasgado por uma baba de sangue, chorando de dor e medo. Uma figura patética, imbecil. Andei até ele e o chutei. Ele caiu, as mãos tentando segurar a boca, trêmulas. Então, atirei de novo. Descarreguei o revólver e tornei a carregá-lo e atirar até que o rosto de Sandro era só uma massa esburacada e irreconhecível.

Depois, fui até a beira do prédio e fiquei esperando me buscarem.

CHILDREN OF MEN

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Belo e instigante.

EUFRAT

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PRETO-E-BRANCO

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“Sem dúvida, a vida passa a cores. O preto-e-branco, porém, é mais realista”. Samuel Fuller

Cine café.

O VAMPIRO

Charles Baudelaire

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Tu que, como uma punhalada,
Entraste em meu coração triste;
Tu que, forte como manada
De demônios, louca surgiste,

Para no espírito humilhado
Encontrar o leito e o ascendente;
- Infame a que eu estou atado
Tal como o forçado à corrente,

Como ao baralho o jogador,
Como à garrafa o borrachão,
Como os vermes a podridão,
- Maldita sejas, como for!

Implorei ao punhal veloz
Que me concedesse a alforria,
Disse após ao veneno atroz
Que me amparasse a covardia.

Ah! pobre! o veneno e o punhal
disseram-me de ar zombeteiro:
"Ninguém te livrará afinal
De teu maldito cativeiro.

Ah! imbecil - de teu retiro
Se te livrássemos um dia,
Teu beijo ressuscitaria
O cadáver de teu vampiro!"

quinta-feira, 26 de maio de 2011

THOMAS CROWN

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Charmoso. Sedutor. Elegante. A luxúria sutil em um jogo de xadrez.

Doctor insermini.

À ESPERA DOS BÁRBAROS

J. M. Coetzee

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Um trecho:

Capítulo 1

Nunca vi nada assim: dois disquinhos de vidro presos na frente dos olhos dele com aros de arame. Ele é cego? Dava para entender se quisesse esconder olhos cegos. Mas ele não é cego. Os discos são escuros, parecem opacos do lado de fora, mas dá para enxergar através deles. Ele me conta que são uma invenção nova. "Protegem os olhos contra o brilho do sol", diz. "O senhor ia achar bom aqui no deserto. Evitam que fiquemos apertando os olhos o tempo todo. Dá menos dor de cabeça. Olhe." Toca de leve os cantos dos olhos. "Sem rugas." Recoloca os óculos. É verdade. Ele tem a pele de um jovem. "Na minha terra todo mundo usa isto."

Estamos sentados na melhor sala da hospedaria com uma garrafa entre nós e uma tigela de nozes. Não comentamos a razão para ele estar aqui. Ele serve aos poderes de emergência, isso basta. Em vez disso, falamos de caçadas. Ele me conta do último grande giro que deu, quando foram mortos milhares de veados, porcos, ursos, tantos que uma montanha de carcaças teve de ser abandonada a apodrecer ("O que foi uma pena"). Conto dos grandes bandos de gansos e patos que pousam no lago todo ano em suas migrações e dos métodos nativos de capturá-los. Sugiro levá-lo pescar uma noite num barco nativo. "É uma experiência que ninguém pode perder", digo; "o pescador leva tochas acesas e toca tambores em cima da água para atrair os peixes para as redes que colocou." Ele concorda balançando a cabeça. Conta da visita que fez a outro ponto da fronteira, onde as pessoas comem certas cobras como especialidades, e de um imenso antílope que matou.

Desloca-se tateando em meio à mobília estranha, mas não remove os óculos escuros. Retira-se cedo. Está aquartelado aqui na hospedaria porque é a melhor acomodação que a cidade oferece. Fiz os funcionários entenderem que se trata de uma visita importante. "O coronel Joll é da Terceira Divisão", disse-lhes. "A Terceira Divisão é a mais importante da Guarda Civil hoje em dia." Pelo menos é isso que ouvimos nos rumores que nos chegam atrasados da capital. O proprietário faz um gesto de concordância, as camareiras baixam a cabeça. "Ele tem de ficar bem impressionado conosco."

Levo meu colchonete para a plataforma, onde a brisa da noite alivia um pouco o calor. Nos tetos planos da cidade, dá para perceber ao luar outros vultos adormecidos. Debaixo das nogueiras da praça ainda escuto o murmúrio de conversas. No escuro, um cachimbo brilha como um vagalume, esmorece, brilha de novo. O verão está rodando devagar para o fim. Os pomares gemem sob sua carga. Não vou à capital desde que era moço.

Acordo antes do amanhecer, passo na ponta dos pés pelos soldados adormecidos, que estão se mexendo e suspirando, sonhando com mães e namoradas, desço a escada. No céu, milhares de estrelas olham para nós. Na verdade aqui estamos no teto do mundo. Acordar à noite, ao ar livre, é deslumbrante.

O sentinela no portão está sentado de pernas cruzadas e dorme profundamente, aninhando o mosquete. O quartinho do porteiro está fechado, sua carroça parada fora. Eu passo.

"Não temos instalações para prisioneiros", explico. "Aqui não há muito crime, e a pena é sempre uma multa ou trabalho compulsório. Esta cabana é apenas um depósito ligado ao celeiro, como pode ver." Dentro está abafado, com um cheiro forte. Não há janelas. Os dois prisioneiros estão amarrados, no chão. O cheiro vem deles, cheiro de urina velha. Chamo o guarda: "Leve estes homens para se limparem, e depressa, por favor".

Mostro a meu visitante a penumbra fresca do celeiro. "Esperamos três mil alqueires da terra comunal este ano. Plantamos só uma vez. O tempo tem sido muito bom conosco." Falamos de ratos e das maneiras de controlar o número deles. Quando voltamos à cabana, ela cheira a cinza molhada e os prisioneiros estão prontos, ajoelhados num canto. Um deles é um velho, o outro um menino. "Foram presos faz poucos dias", digo. "Houve um ataque a uns trinta quilômetros daqui. O que não é comum. Normalmente eles ficam bem longe do forte. Esses dois foram capturados depois. Dizem que não tiveram nada a ver com o ataque. Eu não sei. Vai ver estão dizendo a verdade. Se o senhor quiser falar com eles, eu, é claro, ajudo com a língua."

O rosto do menino está estufado e ferido, um olho fechado pelo inchaço. Agacho-me diante dele e toco sua face. "Escute, menino", digo no patoá da fronteira, "queremos falar com você."

Ele não responde.

"Está fingindo", diz o guarda. "Ele entende."

"Quem bateu nele?", pergunto.

"Não fui eu", diz ele. "Já estava assim quando chegou."

"Quem bateu em você?", pergunto ao menino.

Ele não está me ouvindo. Olha por cima de meu ombro, não para o guarda, mas para o coronel Joll ao lado dele.

Viro-me para Joll "Ele provavelmente nunca viu nada igual antes." Aponto. "Os óculos, quero dizer. Deve pensar que o senhor é cego." Mas Joll não sorri de volta. Na presença de prisioneiros, ao que parece, é preciso manter uma certa postura.

Agacho-me diante do velho. "Vovô, escute aqui. Trouxemos você para cá porque te pegamos depois de um ataque ao rebanho. Sabe que isso é coisa séria. Sabe que pode ser castigado por isso."

Ele põe a língua para fora para umedecer os lábios. Tem o rosto cinzento e exausto.

"Vovô, está vendo esse cavalheiro? Esse cavalheiro é uma visita da capital. Ele visita todos os fortes da fronteira. O trabalho dele é descobrir a verdade. É só isso que ele faz. Descobre a verdade. Se você não falar comigo, vai ter de falar com ele. Está entendendo?"

"Excelência", diz ele. Sua voz falha; ele limpa a garganta. "Excelência, a gente não sabe nada de roubo. Os soldados pararam a gente e amarraram. Por nada. A gente estava na estrada, estava indo ver o médico. Este é o menino da minha irmã. Ele está com uma ferida que não sara. A gente não é ladrão. Mostre a ferida para as Excelências."

Esperto, com mãos e dentes o menino começa a desenrolar os trapos que envolvem seu antebraço. A última volta, dura de sangue e pus, está grudada na pele, mas ele levanta a beirada para me mostrar a borda vermelho-vivo da ferida.

"Tá vendo?", diz o velho, "nada cura isso aí. Eu estava levando ele no médico quando os soldados pararam a gente. Só isso."

Retorno com meu visitante para o outro lado da praça. Três mulheres passam por nós, voltando do dique de irrigação com cestos de roupa na cabeça. Olham-nos com curiosidade, mantendo o pescoço rijo. O sol castiga.

"São os primeiros prisioneiros que fazemos em muito tempo", digo. "Uma coincidência: normalmente não teríamos nenhum bárbaro para mostrar ao senhor. Isso que chamam de banditismo não é coisa grande. Eles roubam uns carneiros ou retiram uma besta de carga de uma tropa. Às vezes, damos o troco. São quase todos gente de tribo pobre com uns rebanhos minúsculos na beira do rio, para sua própria subsistência. Vira um modo de vida. O velho diz que estavam indo ao médico. Pode ser verdade. Ninguém levaria um velho e um menino doente num grupo de ataque."

Tomo consciência de que estou falando em favor deles.

"Claro que não dá para ter certeza. Mas, mesmo que estejam mentindo, que utilidade eles têm para o senhor, gente simples assim?"

Tento controlar minha irritação com seus silêncios crípticos, com o bobo mistério teatral dos escudos escuros que escondem olhos saudáveis. Ele caminha com as mãos entrelaçadas diante do corpo como uma mulher.

"Mesmo assim", diz, "tenho de interrogar os dois. Hoje à noite, se for conveniente. Vou levar meu assistente comigo. Vou precisar também de alguém que me ajude com a língua. O guarda, talvez. Ele fala a língua deles?"

"Nós todos nos fazemos entender. Prefere que eu não esteja lá?"

"O senhor ia achar maçante. Temos procedimentos preestabelecidos a obedecer."

Dos gritos que as pessoas afirmam ter ouvido do celeiro depois, eu não ouço nada. A cada momento daquela noite, enquanto faço o que tenho de fazer, estou alerta para o que possa estar acontecendo, e meu ouvido está até sintonizado para o tom de dor humana. Mas o celeiro é um edifício sólido com portas pesadas e janelas minúsculas; fica além do abatedouro e do moinho no lado sul. Além disso, o que foi um dia um posto avançado e depois um forte na fronteira cresceu até se tornar um assentamento agrícola, uma cidade de três mil almas onde o barulho da vida, o barulho que todas essas almas fazem numa noite quente de verão, não cessa porque em algum lugar alguém está gritando. (A certo ponto, começo a defender minha própria causa.)

Quando vejo o coronel Joll de novo, quando ele tem tempo, puxo o assunto tortura. "E se o prisioneiro estiver dizendo a verdade", pergunto, "mas descobre que não acreditam nele? Não é uma situação terrível? Imagine: estar preparado para ceder, ceder, não ter mais nada a ceder, estar quebrado, e ser pressionado a ceder mais! E que responsabilidade para o interrogador! Como o senhor pode ter certeza de que um homem disse a verdade?"

"Há um certo tom", Joll diz. "Um certo tom que aparece na voz de um homem que está dizendo a verdade. Treino e experiência ensinam a reconhecer esse tom."

"O tom da verdade! Dá para perceber esse tom na conversa de todo dia? O senhor consegue escutar quando eu estou dizendo a verdade?"

É o momento mais íntimo que tivemos até agora, o qual ele afasta com um pequeno aceno de mão. "Não, o senhor está me entendendo mal. Estou falando de uma situação especial apenas, estou falando de uma situação em que estou procurando a verdade, em que tenho de exercer pressão para descobrir a verdade. Primeiro eu consigo mentiras, entende—é isso que acontece—, primeiro mentiras, depois pressão, depois mais mentiras, depois mais pressão, depois a quebra, depois mais pressão, depois a verdade. É assim que se consegue a verdade."

A dor é a verdade; tudo o mais está sujeito a dúvida. É isso que concluo de minha conversa com o coronel Joll, a quem, com suas unhas que tamborilam, os lenços roxos, os pés finos em sapatos macios, fico imaginando de volta à capital pela qual ele está obviamente tão impaciente, cochichando com os amigos nos corredores do teatro entre os atos.

(Por outro lado, quem sou eu para afirmar minha distância dele? Bebo com ele, como com ele, mostro-lhe os lugares, presto-lhe toda a assistência que a carta de comissionamento dele requer, e mais. O Império não exige que seus súditos amem uns aos outros, simplesmente que cumpram seu dever.)

A FERA

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Hunter S. Thompson

quarta-feira, 25 de maio de 2011

NÃO ENTRE EM PÂNICO

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QUANDO O UNIVERSO FOI CRIADO

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A IMPORTÂNCIA DA TOALHA

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A toalha é um dos objetos mais úteis para um mochileiro interestelar. Em parte devido a seu valor prático: você pode usar a toalha como agasalho quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla; pode deitar-se sobre ela nas reluzentes praias de areia marmórea de Santragino V, respirando os inebriantes vapores marítimos; você pode dormir debaixo dela sob as estrelas que brilham avermelhadas no mundo desértico de Kakrafoon. Pode usá-la como vela para descer numa mini jangada as águas lentas do rio Moth.
Pode umedecê-la e utilizá-la para lutar em combate corpo a corpo; enrolá-la em torno da cabeça para proteger-se de emanações tóxicas ou para evitar o olhar da Terrível Besta Voraz de Traal (um animal estonteantemente burro, que acha que, se você não pode vê-lo, ele também não pode ver você – estúpido feito uma anta, mas muito, muito voraz). Você pode agitar a toalha em situações de emergência para pedir socorro. E naturalmente pode usá-la para enxugar-se com ela se ainda estiver razoavelmente limpa.
Porém o mais importante é o imenso valor psicológico da toalha. Por algum motivo, quando um estrito (isto é, um não-mochileiro) descobre que um mochileiro tem uma toalha, ele automaticamente conclui que ele tem também escova de dentes, esponja, sabonete, lata de biscoitos, garrafinha de aguardente, bússola, mapa, barbante, repelente, capa de chuva, traje espacial, etc., etc.
Além disso, o estrito terá prazer em emprestar ao mochileiro qualquer um desses objetos, ou muitos outros, que o mochileiro por acaso tenha “acidentalmente perdido”. O que o estrito vai pensar é que, se um sujeito é capaz de rodar por toda a Galáxia, acampar, pedir carona, lutar contra terríveis obstáculos, dar a volta por cima e ainda assim saber onde está sua toalha, esse sujeito claramente merece respeito.

Douglas Adams

Garotas geeks.

PRATICAMENTE INOFENSIVA

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A história da Galáxia ficou meio confusa por vários motivos: em parte porque aqueles que tentavam acompanhá-la ficaram meio confusos, mas também porque coisas incrivelmente confusas aconteceram de fato.

Um dos problemas tem a ver com a velocidade da luz e com as dificuldades encontradas em tentar ultrapassá-la. Não dá. Nada viaja mais rápido do que a velocidade da luz, com exceção talvez das más notícias, que obedecem a leis próprias e especiais.Os Hingefreel de Arkintoofle Menor bem que tentaram construir naves espaciais movidas a más notícias, mas elas não funcionavam particularmente bem e, como eram extremamente mal recebidas sempre que chegavam a algum lugar, não fazia o menor sentido estar lá.

Douglas Adams

ATÉ MAIS E OBRIGADO PELOS PEIXES

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Oito horas a oeste, um homem sozinho estava sentado em uma praia, lamentando uma perda inexplicável. Só conseguia refletir sobre essa perda em pequenos pacotes de dor um de cada vez, porque se pensasse na coisa toda seria grande demais para suportar.
Observava as grandes e lentas ondas do Pacífico avançando pela areia e esperava e esperava pelo nada que sabia que estava prestes a acontecer. Quando chegou a hora de nada não acontecer, realmente nada não acontecia e assim a tarde se consumia e o sol descia por trás da longa linha do mar e o dia chegava ao fim.
A praia era uma praia cujo nome não vamos citar, porque era onde ficava a sua casa particular, mas era uma pequena faixa arenosa dentre as centenas de milhas do litoral que parte de Los Angeles rumo ao oeste - o mesmo que é descrito em um verbete da nova edição do Guia do Mochileiro das Galáxias como "enlodada, enlameada, emporcalhada, embostada e mais aquela outra palavra que esqueci, além de várias outras coisas ruins", e em outro, escrito poucas horas depois, como "parecido com milhares de milhas quadradas de impressos de marketing do American Express, mas sem mesmo sentido de profundidade moral. E, além disso, por algum motivo o ar é amarelo".
O litoral estende-se pelo oeste, depois faz uma curva em direção ao norte até a nevoenta baía de São Francisco, que o Guia descreve como "um bom lugar para ir. É fácil acreditar que todo mundo que você encontra por lá também é um espacial. Fundar uma nova religião para você é a a que eles usam para dizer 'oi'. Até que você esteja inslado e tenha dominado a manha do lugar é melhor dizer não para três de cada quatro perguntas que lhe fizerem, porque existem coisas estranhíssimas acontecendo por lá e muitas podem ser letais para um alienígena desprevenido". As centenas de milhas sinuosas de penhascos e areia, palmeiras, arrebentações e entardeceres são descritas no Guia como "Impressionante. Mesmo".
E em algum lugar neste longo trecho de litoral ficava a casa desse homem inconsolável, um homem que muitos achavam ser louco. Mas apenas porque, dizia ele às pessoas, ele era louco mesmo.
Um das inúmeras razões pela qual as pessoas achavam que ele era louco era a peculiaridade da sua casa, que, mesmo em uma terra onde a maioria das casas era peculiar de uma maneira ou de outra, era bastante radical em sua peculiaridade.
A sua casa se chamava O Exterior do Asilo. O seu nome era simplesmente John Watson, embora ele preferisse ser chamado - e alguns dos seus amigos haviam relutantemente concordado com isso agora - de
Wonko, o São. Na sua casa havia várias coisas estranhas, incluindo um aquário de vidro acinzentado com seis palavras gravadas nele.
Podemos falar sobre ele bem mais tarde - esse foi apenas interlúdio para apreciar o pôr do sol e para dizer que ele estava lá, apreciando-o também.
Perdera tudo o que mais amava e agora estava simplesmente esperando o fim do mundo - sem saber que já tinha chegado e passado.

Douglas Adams

A VIDA, O UNIVERSO E TUDO MAIS

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- Quero ouvir seu discurso – respondeu o colchão.

- Eis o que eu disse. Disse: “Gostaria de dizer que é um grande prazer, uma enorme honra, e um privilégio para mim inaugurar esta ponte, mas não posso fazer isso porque todos os meus circuitos de falsidade estão fora de ação. Eu odeio e desprezo todos vocês. A partir deste momento, declaro esta miserável ciberestrutura aberta aos abusos inimagináveis de todos aqueles que irão petulantemente cruzá-la.

Douglas Adams

O RESTAURANTE NO FIM DO UNIVERSO

Douglas Noël Adams - Série O Guia do Mochileiro das Galáxias - 02 - O Restaurante no Fim do Universo

Um imenso animal leiteiro aproximou-se da mesa de Zaphod Beeblebrox. Era um enorme e gordo quadrúpede do tipo bovino, com grandes olhos protuberantes, chifres pequenos e um sorriso nos lábios que era quase simpático.

- Boa noite – abaixou-se e sentou-se pesadamente sobre suas ancas -, sou o Prato do Dia. Posso sugerir-lhes algumas partes do meu corpo? – Grunhiu um pouco, remexeu seus quartos traseiros buscando uma posição mais confortável e olhou pacificamente para eles.

Seu olhar se deparou com olhares de total perplexidade de Arthur e Trillian, uma certa indiferença de Ford Prefect e a fome desesperada de Zaphod Beeblebrox.

- Alguma parte do ombro talvez? – sugeriu o animal. – Um guisado com molho de vinho branco?

- Ahn, do seu ombro? – Disse Arthur, sussurrando horrorizado.

- Naturalmente que é do meu ombro, senhor – mugiu o animal, satisfeito -, só tenho o meu para oferecer.

Zaphod levantou-se de um salto e pôs-se a apalpar e sentir os ombros do animal, apreciando.

- Ou a alcatra, que também é muito boa – murmurou o animal. – Tenho feito exercícios e comido cereais, de forma que há bastante carne boa ali. – Deu um grunhido brando e começou a ruminar. Engoliu mais uma vez o bolo alimentar. – Ou um ensopado de mim, quem sabe? – acrescentou.

- Você quer dizer que este animal realmente quer que a gente o coma? – cochichou Trillian para Ford.

- Eu? – disse Ford com um olhar vidrado. – Eu não quero dizer nada.

- Isso é absolutamente horrível – exclamou Arthur -, a coisa mais repugnante que já ouvi.

- Qual é o problema, terráqueo? – disse Zaphos, que agora observava atentamente o enorme traseiro do animal.

- Eu simplesmente não quero comer um animal que está na minha frente se oferecendo para ser morto – disse Arthur. – É cruel!

- Melhor do que comer um animal que não deseja ser comido – disse Zaphod.

- Não é essa a questão – protestou Arthur. Depois pensou um pouco a respeito. – Está bem – disse -, talvez essa seja a questão. Não me importa, não vou pensar nisso agora. Eu só… ahn…

O Universo enfurecia-se em espasmos mortais.

- Acho que vou pedir uma salada – murmurou.

- Posso sugerir que o senhor pense na hipótese de comer o meu fígado? Deve estar saboroso e macio agora, eu mesmo tenho me mantido em alimentação forçada há meses.

- Uma salada verde – disse Arthur, decididamente.

- Uma salada? – disse o animal, lançando um olhar de recriminação para ele.

- Você vai me dizer – disse Arthur – que eu não deveria comer uma salada?

- Bem – disse o animal -, conheço muitos legumes que têm um ponto de vista muito forte a esse respeito. E é por isso, aliás, que por fim decidiram resolver de uma vez por todas essa questão complexa e criaram um animal que realmente quisesse ser comido o que fosse capaz de dizê-lo em alto e bom tom. Aqui estou eu!

Conseguiu inclinar-se ligeiramente, fazendo uma leve saudação.

- Um copo d’água, por favor – disse Arthur.

- Olha – disse Zaphod -, nós queremos comer, não queremos uma discussão. Quatro filés malpassados, e depressa. Faz 576 bilhões de anos que não comemos.

O animal levantou-se. Deu um grunhido brando.

- Uma escolha muito acertada, senhor, se me permite. Muito bem – disse -, agora é só eu sair e me matar.

Voltou-se para Arthur e deu uma piscadela amigável.

- Não se preocupe, senhor, farei isso com bastante humanidade.

Encaminhou-se gingando para a cozinha.

Pouco tempo depois o garçom aparece com quatro enormes filés fumegantes. Zaphod e Ford avançaram sobre ele sem pensar duas vezes. Trillian pensou, sacudiu os ombros e se serviu.

Arthur olhou para o céu, sentindo-se levemente enjoado.

- Ei, terráqueo – disse Zaphod, com um sorriso malicioso na boca que não estava se empanturrando -, que bicho te mordeu?

E a banda continuava tocando.

Douglas Adams

O GUIA DO MOCHILEIRO DAS GALÁXIAS

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O Guia do Mochileiro das Galáxias – um livro que não é da Terra, jamais foi publicado na Terra e, até o dia em que ocorreu a terrível catástrofe, nenhum terráqueo jamais o tinha visto ou sequer ouvido falar dele. Apesar disso, é um livro realmente extraordinário. Na verdade, foi provavelmente o mais extraordinário dos livros publicados pelas grandes editoras de Ursa Menor – editoras das quais nenhum terráqueo jamais ouvira falar, também.

O livro é não apenas uma obra extraordinária como também um tremendo bestseller -  mais popular que a Enciclopédia Celestial do Lar, mais vendido que Mais Cinqüenta e Três Coisas para se Fazer em Gravidade Zero, e mais polêmico que a colossal trilogia filosófica de Oolonn Colluphid, Onde Deus Errou, Mais Alguns Grandes Erros de Deus e Quem É Esse Tal de Deus Afinal?

Em muitas das civilizações mais tranqüilonas da Borda Oriental da Galáxia, O Guia do Mochileiro das Galáxias já substituiu a grande Enciclopédia Galáctica como repositório-padrão de todo conhecimento e sabedoria, pois ainda que contenha muitas omissões e textos apócrifos, ou pelo menos terrivelmente incorretos, ele é superior à obra mais antiga e mais prosaica em dois aspectos importantes. Em primeiro lugar, é ligeiramente mais barato; em segundo lugar, traz impressa na capa, em letras garrafais e amigáveis, a frase NÃO ENTRE EM PÂNICO.

Douglas Adams

ZERO

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Sabe-se que há um número infinito de mundos, simplesmente porque há um espaço infinito para que os haja. Todavia, nem todos são habitados. Assim,deve haver um número finito de mundos habitados. Qualquer número finito dividido pelo infinito é tão perto de zero que não faz diferença, de forma que a população de todos os planetas do Universo pode ser considerada igual a zero. Daí segue que a população de todo o Universo também é zero, e que quaisquer pessoas que você possa encontrar de vez em quando são meramente produtos de uma imaginação perturbada.

Douglas Adams

IR, ESTAR

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Eu posso não ter ido para onde eu pretendia ir, mas eu acho que acabei terminando onde eu pretendia estar.

Douglas Adams

DON’T PANIC

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Há uma teoria que indica que sempre que qualquer um descobrir exatamente o que, para que e porque o universo está aqui, o mesmo desaparecerá e será substituído imediatamente por algo ainda mais bizarro e inexplicável... Há uma outra teoria que indica que isto já aconteceu.

Douglas Adams