(Uncanny X-Men #251 – Nov 1989)
Um dia ideal para os peixes-banana e livros e cinema e gibis e nus e ataxia espinocerebelar e 𓋹
“You're really not lonely?" she asked one last time. And while I was searching for a good reply, her train came.
— Haruki Murakami - Pinball, 1973
Seguem algumas dicas para escrever contos, da antologia "Bagombo Snuff Box" de Kurt Vonnegut .
1. Utilize o tempo de um completo desconhecido de um jeito que ele não sinta que foi tempo desperdiçado.
2. Dê ao leitor pelo menos um personagem com o qual ele/ela possa se identificar.
3. Cada personagem deve querer algo, mesmo que seja apenas um copo d'água.
4 . Cada sentença deve fazer uma destas duas coisas - revelar o personagem ou avançar a ação.
5. Comece o mais perto possível do final.
6. Seja um sádico. Não importa quão doces ou inocentes sejam seus protagonistas, faça com que coisas horríveis ocorram a eles - de modo que o leitor possa ver do que eles são feitos.
7. Escreva para agradar apenas uma única pessoa. Se você abrir a janela e fizer amor para o mundo, por assim dizer, sua história pegará pneumonia.
8. Dê a seus leitores o máximo de informação possível o mais rápido possível. Que se dane o suspense. Os leitores devem ter uma compreensão tão completa do que está acontecendo, de quando e do porquê, que eles mesmos poderiam terminar a história, deixando as últimas páginas para serem devoradas pelas traças.
Texto original extraído do blog Boing Boing, de Cory Doctorow.
Kurt Vonnegut
Garanto a você que nenhum esquema narrativo moderno, nem mesmo a ausência de enredo, dará ao leitor satisfação genuína, a menos que uma daquelas tramas à moda antiga seja contrabandeada para dentro da história. Não defendo a trama como representação acurada da vida, mas como forma de manter o leitor lendo. Quando eu dava aulas de criação literária, costumava recomendar aos estudantes que fizessem seus personagens desejar alguma coisa imediatamente – mesmo que apenas um copo d’água. Personagens paralisados pela ausência de sentido da vida moderna ainda precisam beber água de vez em quando. Um dos meus alunos escreveu um conto sobre uma freira que ficou com um pedaço de fio dental preso entre os molares inferiores e não conseguia se livrar dele o dia inteiro. Achei isso maravilhoso. A história lidava com questões muito mais importantes do que fios dentais, mas o que mantinha os leitores presos era a ansiedade de saber quando o fio dental seria finalmente removido. Era impossível ler aquele conto sem sentir um incômodo entre os dentes. (…) Se você exclui a trama, se elimina o desejo de alguém por alguma coisa, você exclui o leitor, o que é uma coisa muito feia de fazer.
Josey Wales, o Fora da Lei (1976), um filmaço, um grande western dirigido por Eastwood. Um filme macho, no sentido de duro e violento.
“April is the cruellest month, breeding Lilacs out of the dead land, mixing Memory and desire, stirring Dull roots with spring rain.”
T.S. Eliot - The Wasteland
De @Bertrom (twitter).
Um dos trailer de Grindhouse que mais merecia ter se tornado filme. Sob a batuta esperta de Edgar Wright.
“The film libraries on some of these channels.” Elmina said. “I swear. There was one on last night. I couldn’t sleep. After I saw it, I was afraid ro sleep. Have you seen Black Narcissus, 1947?” Eddie, who was enrolled in the graduate film program at SC, let out a scream of recognition. He’s been working on his doctoral dissertation, “Deadpan to Demoniac – Subtextual Uses of Eyeliner in the Cinema,” and had just in fact arrived at moment in Black Narcissus where Kathleen Byron, as a demented nun, shows up in civilian gear, including eye makeup good for a year’s worth of nightmares.”
– Inherent Vice by Thomas Pynchon.
J.M. Coetzee
Em Desonra
Ele vai se deitar cedo. No meio da noite, é acordado por latidos. Um cachorro em particular late insistentemente, sem parar; os outros acompanham, se aquietam, depois, para não se dar por vencidos, acompanham de novo.
‘Isso acontece toda noite?’, ele pergunta a Lucy, de manhã.
‘A gente acostuma. Desculpe.’
Ele sacode a cabeça.
MARGARET ATWOOD
Em O ASSASSINO CEGO
A ponte
Dez dias após o final da guerra, minha irmã Laura despencou com o carro do alto de uma ponte. A ponte estava sendo consertada: ela passou direto pela placa de Perigo. O carro caiu de uma altura de 30 metros na ribanceira, batendo nas copas das árvores cheias de folhas novas, e então pegou fogo e rolou até o riacho lá no fundo. Pedaços da ponte caíram sobre ele. Não restou quase nada dela além de fragmentos carbonizados.
Eu fui informada do acidente por um policial: o carro era meu, e tinham verificado a placa. O tom dele foi respeitoso: sem dúvida ele reconheceu o nome de Richard. Ele disse que os pneus podiam ter ficado presos num trilho de bonde ou então o freio podia ter falhado, mas também sentiu-se no dever de me informar que duas testemunhas - um advogado aposentado e um caixa de banco, pessoas confiáveis - haviam afirmado ter visto tudo. Eles tinham dito que Laura havia dado uma guinada brusca e proposital no carro e que havia mergulhado da ponte com a mesma naturalidade com que se desce de um meio-fio. Eles haviam notado as mãos dela no volante por causa das luvas brancas que ela estava usando.
Não foi o freio, eu pensei. Ela tinha os seus motivos. Não que fossem os mesmos motivos de outra pessoa qualquer. Ela era totalmente implacável nesse aspecto.
-- Suponho que alguém precise identificá-la -- eu disse. -- Irei assim que puder. -- Eu ouvi a calma da minha própria voz, como que vindo de muito longe. Na verdade, eu mal consegui pronunciar as palavras; minha boca estava dormente, meu rosto estava rígido de dor. Eu tinha a sensação de ter ido ao dentista. Eu estava furiosa com Laura por ela ter feito o que fizera, mas também com o policial por dar a entender que ela o havia feito. Um vento quente soprava em volta da minha cabeça, e mechas do meu cabelo voavam e giravam como tinta derramada na água.
-- Creio que vai ser necessária uma investigação, Sra. Griffen -- ele disse.
-- Naturalmente -- eu respondi. -- Mas foi um acidente. Minha irmã nunca foi boa motorista.
Eu imaginei o rosto oval e delicado de Laura, seu coque bem feito, o vestido que ela estaria usando: um chemisier de gola redonda, numa cor sóbria - azul marinho ou cinza chumbo ou verde corredor de hospital. Cores penitentes - menos uma coisa que ela tivesse escolhido usar e mais algo em que ela estivesse presa. Seu meio-sorriso solene; o erguer espantado das sobrancelhas, como se ela estivesse admirando a vista.
As luvas brancas: um gesto de Pôncio Pilatus. Ela estava lavando as mãos de mim. De todos nós.
Em quê ela estaria pensando quando o carro projetou-se para fora da ponte, enquanto ficou suspenso no sol da tarde, brilhando como uma libélula por aquele breve instante de respiração presa antes da queda? Em Alex, em Richard, em má fé, no nosso pai e sua ruína; em Deus, talvez, e seu trato triangular, fatal. Na pilha de cadernos baratos que ela deve ter escondido nessa mesma manhã na gaveta da cômoda onde eu guardo as minhas meias, sabendo que seria eu a encontrá-los.
Depois que o policial se foi, eu subi para trocar de roupa. Para ir ao necrotério, eu ia precisar de luvas e de um chapéu com um véu. Algo para cobrir os olhos. Podia haver repórteres. Eu teria que chamar um táxi. E também precisava ligar para o escritório para avisar ao Richard: ele ia querer ter uma declaração de pesar pronta. Entrei no meu quarto de vestir: eu ia precisar de uma roupa preta, e de um lenço.
Abri a gaveta, vi os cadernos. Desatei o barbante que os prendia. Notei que meus dentes estavam batendo e que eu estava toda gelada. Eu devo estar em choque, pensei.
Então eu me lembrei de Reenie, de quando éramos pequenas. Era Reenie quem fazia os curativos de arranhões, cortes e outros machucados: mamãe podia estar descansando ou praticando boas ações em outro lugar, mas Reenie estava sempre lá. Ela nos erguia nos braços e nos sentava na mesa branca da cozinha, ao lado da massa de torta que estava preparando ou da galinha que estava cortando ou do peixe que estava limpando e nos dava um torrão de açúcar mascavo para nos fazer calar a boca. Diga-me onde está doendo, ela dizia. Pára de berrar. Fica calma e me mostra o lugar.
Mas algumas pessoas não conseguem dizer onde está doendo. Elas não conseguem ficar calmas. Elas não conseguem nunca parar de berrar.
The Toronto Star, 26 de maio, 1945
QUESTÕES LEVANTADAS SOBRE MORTE NA CIDADE
Especial para o Star
A investigação realizada acerca da fatalidade ocorrida na Avenida St. Clair na semana passada resultou num veredicto de morte acidental. A Srta. Laura Chase, de 25 anos, estava se dirigindo para oeste na tarde do dia 18 de maio quando o seu carro fez um desvio na direção de uma barreira de proteção de um conserto que estava sendo efetuado na ponte e rolou a ribanceira, pegando fogo. A Srta. Chase teve morte instantânea. Sua irmã, Sra. Richard E. Griffen, esposa do conhecido industrial, testemunhou dizendo que a Srta. Chase sofria de dores de cabeça muito fortes que afetavam sua visão. Em resposta a uma pergunta que lhe foi feita, ela negou qualquer possibilidade de embriaguês, uma vez que a Srta. Chase não bebia.
Segundo a polícia, uma das causas pode ter sido o pneu ter ficado preso num trilho exposto de bonde. Foram feitos alguns questionamentos quanto à adequação das medidas de segurança adotadas pela prefeitura, mas após o testemunho dado pelo engenheiro da prefeitura, Gordon Perkins, esses questionamentos foram abandonados.
O acidente ocasionou renovados protestos acerca do estado dos trilhos de bonde naquele trecho da estrada. O Sr. Herb T. Jolliffe, representante dos contribuintes, disse aos repórteres do Star que este não foi o primeiro acidente causado pelos trilhos abandonados. A Prefeitura devia tomar uma providência.
L'amour réciproque, tel que je l'envisage, est un dispositif de miroirs qui me renvoient, sous les mille angles que peut prendre pour moi l'inconnu, l'image fidèle de celle que j'aime, toujours plus surprenante de divination de mon propre désir et plus dorée de vie.
—
André Breton, L'amour fou, 1937
Yasunari Kawabata
— Não faça nenhuma brincadeira de mau gosto, por favor. Não vá, por exemplo, enfiar o dedo na boca da menina adormecida — recomendara insistentemente a mulher da hospedaria ao velho Eguchi.
No andar superior só havia dois cômodos, uma sala de oito tatames onde Eguchi e a mulher conversavam e, ao lado, provavelmente um quarto de dormir. Até onde se podia perceber, no andar térreo, pouco espaçoso, também não havia quarto para hóspedes; assim, a casa não poderia ser chamada de hotel. Não havia nenhuma placa com letreiro anunciando uma hospedaria. Além do mais, os segredos daquela casa não permitiriam colocar tal anúncio. Não se ouvia ali nenhum ruído. Além da mulher que recebera o velho Eguchi no portão com cadeado e que continuava à sua frente a conversar, ele não vira nenhuma outra pessoa. Se ela era a proprietária ou uma empregada, Eguchi, que estava ali pela primeira vez, não podia precisar. De qualquer forma, seria mais sensato não fazer perguntas desnecessárias.
~ Em A casa das Belas Adormecidas
E saiu a capa da novelização do filme de Tarantino, Era uma vez em Hollywood, feita por ele mesmo, e onde ele promete expandir a história. Não viu o filme ainda? Como assim? Veja AQUI.
O Motorista de táxi (Taxi Driver), de Martin Scorsese, vai da paranoia ao massacre de maneira gradual, quase inevitável, sempre fascinante - quando o sangue esguicha na tela é a um tempo inesperado e esperado.
Um tour de force, como se diz, um filmaço da porra. Não viu ainda? Veja AQUI.
“Without a second thought I leave behind a trail of friends betrayed, a dead policeman, a ruined hospital ward. But I slough off this burden with the furious joy of a slave shedding his shackles. Like Typhoid Mary trailing the plague in my wake, I move on to fresh fields.” – John Constantine.
From “Hellblazer” #8 by Jamie Delano and John Ridgway. Drawing by JWMCasavant.
1. O público é instável.
2. Agarre-o pela garganta e não o deixe fugir.
3. Crie uma clara linha de ação para o personagem principal.
4. Saiba aonde você está indo.
5. Quanto mais sutil e elegante for a forma pela qual você camufla seus pontos de desenvolvimento da trama, melhor escritor você será.2. Agarre-o pela garganta e não o deixe fugir.
3. Crie uma clara linha de ação para o personagem principal.
4. Saiba aonde você está indo.
5. Quanto mais sutil e elegante for a forma pela qual você camufla seus pontos de desenvolvimento da trama, melhor escritor você será.
6. Se você tem um problema com o terceiro ato, o problema verdadeiro está no primeiro ato.
7. Uma dica de Lubitsch: deixe o público somar dois mais dois. Vai amá-lo para sempre.
8. Em narrações em "off", tenha cuidado para não descrever o que o público já está vendo. Acrescente ao que ele está vendo.
9. O evento que acontece no fim do segundo ato desencadeia o fim do filme.
10. O terceiro ato deve ser construído, construído, construído em ritmo e ação até o último evento, e então...
11. ...É isso. Não vagabundeie.