quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

masochist!

Listen, when you’re giving pain to someone, don’t think about the pain that person is feeling. Just concentrate on how good it feels to be causing someone pain. That’s the best thing you can do for a true masochist!

— Kakihara, Ichi the Killer

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

The Bird People In China

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A poesia de Takashi Miike.

FRASES Ghost World

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“I think only stupid people have good relationships.”

If we don’t, remember me.

FRAMES kagemusha

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DOWNLOAD lady vingança

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Significado de Vingança

subst. f.
1. ato para castigar alguém em retorno; retaliação contra uma ou mais pessoas em resposta a um ou mais atos lesivos. Normalmente o objetivo é causar sofrimento ou consciencializar o que ofendeu do mal que causou ou garantir que o abusador/agressor não volte a repetir o feito. A vingança também pode assumir um carácter cruel quando é desproporcional ao ato causado e movida por instintos vis e sádicos.

Para ver, clique na imagem. Um oferecimento do Filmes com legenda.

TRAILER voz da lua

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A FERA werner herzog

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BATTLE ROYALE Mitsuko Souma

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DOWNLOAD Battle Royale

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Você mataria o seu melhor amigo?

O filme Battle Royale responde por você.  Conheça o ATO BR: a lei consiste em sortear uma classe de estudantes e isola-los em um local (aqui, uma ilha) para participar de um jogo onde a principal regra é matar uns aos outros até restar apenas um. Para ver, clique na imagem. Um oferecimento Filmes com legenda.

CENA:

Satomi Noda: [upon learning their food is poisoned] Who? Who did it? [points gun]
Haruka Tanizawa: Satomi, don’t!
Yukie Utsumi: It’s just some mistake!
Satomi Noda: We’re the only ones here! [turns the gun to Chisato] Chisato, you cooked it right?
Chisato Matsui: It wasn’t me! Haruka cooked it too!
Haruka Tanizawa: Me, poison?
Yukie Utsumi: It was nobody. Cut it out!
Haruka Tanizawa: You’re suspicious yourself!
Yukie Utsumi: Haruka!
Haruka Tanizawa: Last two nights, you didn’t sleep at all…it just means you don’t trust us!
Yukie Utsumi: I forgot my sleeping pills!
Haruka Tanizawa: Insomnia at your age?
Yukie Utsumi: Cut it out! Satomi! Lower that gun! [they all shoot each other]

…

UMA NOVA IDÉIA

A mente humana, uma vez ampliada por uma nova ideia, nunca mais volta ao seu tamanho original.

O. W. Holmes

TUA FOTO NUA

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domingo, 22 de janeiro de 2012

TRECHO Sou feliz na hora errada

Clarice Lispector

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De repente as coisas não precisam mais fazer sentido (…). Satisfaço-me em ser.
Redondo sem início e sem fim, eu sou o ponto antes do zero e do ponto final.
Do zero ao infinito vou caminhando sem parar. Mas ao mesmo tempo tudo é tão fugaz. O dia corre lá fora à toa e há abismos de silêncio em mim. A sombra de minha alma é o corpo. O corpo é a sombra de minha alma (…).
Sou feliz na hora errada. Infeliz quando todos dançam (…).
Nunca a vida foi tão atual como hoje: por um triz é o futuro.
Tempo para mim significa a desagregação da matéria. O apodrecimento do que é orgânico como se o tempo tivesse como um verme dentro de um fruto e fosse roubando a esse fruto toda a sua polpa. O tempo não existe.
O que chamamos de tempo é o movimento de evolução das coisas, mas o tempo em si não existe. Ou existe mutável e nele nos transladamos. O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta. Então - para que eu não seja engolido pela voracidade das horas e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa - eu cultivo um certo tédio. Degusto assim cada detestável minuto. E cultivo também o vazio silêncio da eternidade da espécie. Quero viver muitos minutos num só minuto. Quero me multiplicar para poder abranger até áreas desérticas que dão a idéia da imobilidade eterna.
Na eternidade não existe o tempo. Noite e dia são contrários porque são o tempo e o tempo não se divide. De agora em diante o tempo vai ser sempre atual. Hoje é hoje. Espanto-me ao mesmo tempo desconfiado por tanto me ser dado. E amanhã eu vou ter de novo um hoje (…). Mas há o hábito e o hábito anestesia. O aguilhão da abelha do dia florescendo de hoje. Graças a Deus, tenho o que comer. O pão nosso de cada dia.

Rachinha.

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DOWNLOAD O Artista

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O Artista é desses filmes que encantam. Filme mudo e em preto e branco, narra as desventuras de um grande astro do cinema mudo que é ameaçado pela chegada do som aos filmes. O roteiro esperto, cheio de metalinguagem e homenagens ao próprio cinema, é um alívio de inteligência em meio a tantos filmes porcamente escritos. É um prazer insuspeito de se assistir e inesquecível findada a sessão. Recomendadíssimo.

Para ver, clique na imagem e não se esqueça de agradecer ao pessoal do Filmes Morrison.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

OS DETETIVES

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Sherlock

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E acabou a segunda temporada de uma das minhas séries preferidas: Sherlock.

Foi um episódio esperto e fascinante (que você pode baixar aqui, juntamente com o restante da série ), cheio de enigmas e truques de metalinguagem que se amontoam, nunca confusos, mas certamente inteligentes.

É o embate definitivo entre Moriarty e Sherlock, duas mentes iguais em projeção e totalmente diferentes em ambição – sendo a primeira um prodígio criminoso e a de Sherlock, do lado dos anjos…

“Mas não pense, nem por um segundo, que ao estar do lado dos anjos, eu seja um deles”, diz Sherlock Holmes em um climático momento.

Sherlock Holmes faz parte da velha tradição de detetives excêntricos e arrogantes, talvez um pouco anormais, que desde há muito fascinam os leitores, e esta versão inglesa e contemporânea do detetive é a minha preferida.  Até mais que a original.

Agora começa a longa espera pela terceira (e última! será?) temporada.

A 5ª DIMENSÃO

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Onde eu sempre me perco…

ALQUIMISTA E PIGMEU E MUNDO

“Newton era um alquimista, que disse que era um pigmeu sobre os ombros de gigantes. Um deles era o doutor John Dee, que praticamente inventou o Império Britânico. Pessoas como essas eram os cientistas da época, ou filósofos naturais, cujo trabalho era mensurar o imensurável, ou imaginar o inimaginável. Esse trabalho continua até hoje, dividido entre cientistas e artistas.

(…)

“(O mundo material e espiritual) …são ambos reais de sua própria maneira. Tudo o que é físico e criado pelo homem começou como um ideia, dentro da cabeça de alguém.

(…)

A racionalidade está sob sitio, em sua maioria por fundamentalistas cristãos americanos. Eles preferem acreditar que Adão e Eva existiram em um tempo em que sabemos que os dinossauros caminhavam sobre a Terra. Isso é assustador. Tudo isso é conhecimento pelo qual lutamos tanto tempo e de forma tão difícil para obter… é um retorno ao abismo da Idade das Trevas. Informação é nosso bem mais precioso e se a perdermos estamos ferrados. Mesmo que percamos tudo o que é físico, contanto que tenhamos a memória de como reconstruir não teremos perdido nada. O problema é que isso aflige tanto os nossos cientistas que eles estão tomando posições que também beiram a religião para defendê-las. Etimologicamente, a palavra religião não tem nada a ver com espiritualidade, mas com união, ligação em torno de algo. Nesse sentido, o Marxismo é uma religião. As várias escolas da Física também o são. O problema é que as religiões, no sentido que conhecemos a palavra hoje, criam dogmas, que são limitações ao pensamento – e isso nunca é uma coisa boa.”

ALAN MOORE

DUAS CARAS

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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

FRAMES chinatown

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“Have you ever heard the expression ‘Let sleeping dogs lie’? Sometimes you’re better off not knowing.”

fuckyeahnewhollywood.

sábado, 7 de janeiro de 2012

TRECHO o som da montanha

Yasunari Kawabata

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Capítulo I
O som da montanha
I
Com os sobrolhos um pouco apertados e os lábios ligeiramente abertos, Shingo Ogata estava mergulhado numa reflexão. Talvez um estranho achasse que ele não estava pensando, mas que estava um pouco tristonho.
Shuichi, seu filho, percebeu, mas não se preocupou, pois estava habituado a ver o pai com aquela expressão.
Para ele, era claro o que acontecia. Não achava, simplesmente, que seu pai estivesse pensando em algo. Shingo tentava lembrar-se de alguma coisa.
O pai tirou o chapéu e continuou segurando-o com as pontas dos dedos da mão direita, mantendo-o sobre o joelho. Sem dizer nada, Shuichi o pegou e pôs no porta-bagagem acima dele.
- Eh, bem..., quero dizer... - Nessas ocasiões, Shingo tinha dificuldade de encontrar as palavras.
- A criada que se despediu no outro dia, como se chamava?
- Está falando de Kayo?
- Ah, sim. Kayo. Quando ela foi embora mesmo?
- Na última quinta-feira. Faz cinco dias.
- Só cinco dias? Ela nos deixou há apenas cinco dias, e não consigo me lembrar de seu rosto, nem das roupas que usava. Que coisa espantosa! Shuichi achou que seu pai estava exagerando um pouco.
- Essa Kayo, acho que uns três dias antes de ela ir embora - contou Shingo. - Eu estava saindo para dar uma volta e, ao calçar os tamancos, comentei que meus pés poderiam estar com micose; então ela disse: "O senhor está com o pé ferido." Fiquei encantado, achando que ela falara de modo muito elegante. Eram feridas causadas pelas tiras do tamanco durante meu passeio anterior. Achei que ela mostrara respeito pelo ferimento ao dizer aquilo. Fiquei, de fato, muito encantado. Mas há pouco me dei conta do engano. Ela dissera "ozure" [ferimento causado pela tira]. Não era "o" de respeito, mas "o" de "tira". Nada além disso. A pronúncia dela é que era esquisita e me causou confusão. Só há pouco percebi isso.
- Diga então ozure de respeito - pediu ao filho.
- Ozure.
- E o causado pela tira.
- Ozure.
- Bem, minha observação estava correta. A pronúncia de Kayo estava errada.
De origem provinciana, Shingo não se sentia seguro com a pronúncia de Tóquio. Já Shuichi nascera e crescera em Tóquio.
- Pensar que ela se referiu à ferida do pé com respeito me soou gentil, elegante.
Ela me acompanhou até o vestíbulo e disse aquilo sentada no soalho da entrada. Agora que percebi a verdade, perdeu a graça. Além disso, não conseguia me lembrar do nome da empregada. Não me recordo direito de seu rosto nem das roupas que usava. Ela ficou conosco pelo menos seis meses, não foi?
- Sim. - Acostumado a lidar com o pai, Shuichi não demonstrou a menor compaixão por ele.
O próprio Shingo, apesar de estar acostumado com essas ocorrências, não podia deixar de sentir certo temor. Por mais que tentasse lembrar-se de Kayo, não conseguia formar uma imagem clara. Algumas vezes, ele conseguia amenizar esses esforços inúteis e a ansiedade de sua mente agarrando-se ao sentimentalismo.
Era o que acontecia naquele momento. Poderia vê-la sentada no soalho do vestíbulo, à sua frente e com as mãos postas no chão diante dos joelhos. Lembrava-se de que fora nessa postura, inclinando-se um pouco, que ela dissera:
- Está é com o pé ferido, senhor.
A criada Kayo ficara cerca de seis meses na casa deles e seria lembrada apenas por causa desse episódio no vestíbulo. Isso fez Shingo sentir que aos poucos sua vida estava desaparecendo.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

CLIPE minha namorada é uma gumiho

Outro que ‘quase’ me fez chorar. Ótimo dorama.

CLIPE Ghost Friends

Este é um clipe de um dos muitos doramas que tenho assistido ultimamente. Aos poucos, vou colocando dos outros. Que coisa! Dorama é mesmo viciante.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

TRECHO Kafka à Beira-Mar

Haruki Murakami

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Capítulo 1

Não é só dinheiro o que pego às escondidas do gabinete do meu pai no momento em que saio de casa. Pego também um pequeno isqueiro de ouro (gosto do seu design e do seu peso) e um canivete de ponta aguçada. Feito para esfolar cervos, tem 12 centímetros de lâmina e pesa consideravelmente na palma da minha mão. Meu pai deve tê-lo comprado numa de suas viagens ao exterior. Resolvo também levar a lanterna de bolso que achei numa gaveta da escrivaninha dele. E preciso dos óculos de sol para disfarçar a idade. Óculos Revo, lente azul-celeste escuro.

Penso também em levar o relógio Rolex que meu pai guarda com muito zelo, mas, depois de curta hesitação, desisto. O belo mecanismo me fascina, mas não quero carregar coisas caras desnecessárias e chamar a atenção para a minha pessoa. Ademais, em termos de praticidade, o relógio de pulso Casio com cronômetro e alarme que uso todos os dias satisfaz plenamente. Acho também mais fácil de usar. Abro mão do Rolex e o devolvo à gaveta.

Além destes itens, levo comigo uma foto que tirei na infância lado a lado com minha irmã. O instantâneo estava guardado no fundo de uma gaveta. Foi batido numa praia qualquer, e nos mostra sorrindo alegremente. Minha irmã se volta para o lado, de modo que tem a metade do rosto na sombra. Em decorrência, seu sorriso ficou partido. Semelhante à máscara de teatro grego que ilustra meu livro escolar, seu rosto parece encerrar dois sentidos. Luz e sombra. Esperança e desespero. Riso e tristeza. Confiança e solidão. A seu lado, eu encaro a câmara sem reserva alguma no olhar. Não há mais ninguém na praia além de nós dois. Estamos ambos de roupa de banho. O maiô de minha irmã é inteiriço com motivo floral vermelho; minha sunga é feia, grande demais para mim. Tenho alguma coisa na mão. Parece um bastão de plástico. Uma onda que se transformou em espuma branca lava os nossos pés.

Não tenho idéia de quem tirou esta foto, nem onde ou quando. Qual o motivo desta minha expressão feliz? Aliás, como pode alguém parecer tão feliz? E por que meu pai conservou apenas esta foto? Há em tudo um quê de mistério. Devo ter cerca de 3 anos, e minha irmã, uns 9. Nossa relação terá sido realmente tão carinhosa? Eu mesmo não me lembro de ter feito excursão alguma à praia com a família. Aliás, a lugar algum. Seja como for, não quero que meu pai conserve este tipo de lembrança. Guardo a foto envelhecida na minha carteira. Não tenho nenhuma de minha mãe. Tudo indica que meu pai se desfez de todas em que ela aparecia.

Depois de ponderar alguns instantes, resolvo levar o telefone celular. Pode ser que meu pai contate a companhia telefônica e cancele a assinatura quando se der conta de que o aparelho desapareceu. Nesse caso, não vai adiantar nada tê-lo comigo. Sei disso, mas ainda assim ponho-o na mochila. Guardo também o carregador de bateria. Afinal, são coisas leves. Posso muito bem me desfazer delas mais adiante, caso perceba que a linha está muda.

Decido carregar só o estritamente necessário na mochila. O mais difícil é escolher as roupas. De quantas cuecas e meias vou precisar? De quantos suéteres? E camisas, calças, luvas, cachecóis, shorts e casacos, quantos? Uma vez começada, a lista parece infindável. Mas uma coisa sei com certeza. Não vou vagar por terras estranhas arrastando uma bagagem volumosa, típica de garoto que fugiu de casa. Desse jeito, chamarei a atenção num instante. E logo a polícia me trará de volta para casa sob custódia. Será isso ou lidar com os marginais da localidade.

Basta não ir para regiões frias. Essa é a conclusão a que chego. Muito simples, ora. Vou para uma terra quente. Assim, não preciso levar meu casaco. Nem luvas. Eliminada a eventualidade de dias frios, a quantidade de roupas se reduz pela metade. Escolho só as de tecido fino, que fazem pouco volume e são fáceis de lavar e secar. Dobro-as de maneira compacta antes de metê-las na mochila. Além das roupas, levo um saco de dormir inflável — do tipo que, esvaziado, se transforma num rolo minúsculo —, um conjunto de artigos de higiene, capa de chuva, caderno e esferográfica, um walkman MD Sony, dez discos (não abro mão das minhas músicas), bateria recarregável sobressalente… e isso deve ser tudo. Não vou levar utensílios para cozinhar. São volumosos e pesados. Vou comprar comida pronta em lojas de conveniência. Reduzir a lista me toma um longo tempo. Acrescento diversos itens e em seguida elimino os que considero supérfluos. Acrescento outros tantos e torno a eliminar.

* * *

Achei que o dia do meu décimo quinto aniversário seria ideal para fugir de casa. Antes disso é cedo e, se deixar para depois, será tarde demais.

Nestes dois últimos anos, ou seja, desde que comecei o curso ginasial, concentrei-me em fortalecer o físico e me preparei para este dia. Tive aulas de judô desde os primeiros anos do primário e continuei a tê-las durante certo período do curso ginasial. Evitei porém participar de grêmios esportivos. Nas horas livres, eu corria sozinho no pátio da escola, nadava e, para fortalecer a musculatura, me exercitava nos aparelhos do ginásio esportivo municipal. Uma equipe de jovens instrutores me ensinou a maneira correta de usar esses aparelhos, de fazer alongamentos e de fortalecer os músculos com a maior eficiência possível. Os instrutores me ensinaram também quais músculos são solicitados em atividades cotidianas e quais só podem ser fortalecidos em aparelhos, assim como a maneira correta de executar a série de exercícios bench press. Para minha sorte, sou alto por natureza e, graças aos exercícios diários, meus ombros se alargaram e meus peitorais se avolumaram. Quem não me conhece acha que eu tenho 17 anos. Se aparentasse os 15 que realmente tenho, na certa me envolveria em dificuldades onde quer que eu vá de agora em diante.

Excetuando as poucas palavras que troco com os instrutores da academia e com a empregada — ela aparece em casa dia sim, dia não —, assim como a conversa estritamente necessária que mantenho com os colegas de classe, quase não falo com ninguém. Quanto ao meu pai, já faz algum tempo que não o vejo. Vivemos sob o mesmo teto, mas nossos horários são bem diferentes, sem contar que ele costuma se encerrar quase o dia inteiro num ateliê longe de casa. Ademais, e isso nem preciso dizer, faço tudo para não vê-lo.

Minha escola, particular, é frequentada principalmente por crianças ricas e de classe alta. Uma vez matriculado, você progredirá automaticamente do primário até o colegial, desde que não se meta em nenhuma encrenca pesada. Todos os alunos têm dentes bonitos e bem nivelados, usam roupas limpas e são maçantes. E, é claro, nenhum deles gosta de mim. Eu tinha erguido uma cerca alta em torno de mim e, da mesma maneira que me empenhava em não deixar ninguém passar para dentro dela, eu próprio fazia de tudo para não me expor fora dela. Obviamente, ninguém gosta desse tipo de gente. Meus colegas me mantinham a respeitosa distância e me observavam com precaução.

Não sei se me julgavam desagradável, ou se tinham medo de mim, mas a verdade é que eu gostava de ser solitário. Eu tinha tanta coisa para fazer… Nos intervalos, eu sempre ia à biblioteca e lia muitos livros com avidez.

Ainda assim, eu prestava total atenção às aulas. Nisso eu seguia o conselho do menino chamado Corvo.

Também acho que conhecimentos e técnicas ministrados durante o curso ginasial não têm grande utilidade na vida prática. Os professores também são quase sempre um bando de idiotas. Sei disso. Mas preste atenção: você vai fugir de casa. Depois disso, é quase certo que não terá oportunidade de frequentar escolas; trate portanto de memorizar tudo que lhe ensinarem durante as aulas, independentemente de gostar ou não das matérias. Você simplesmente terá de absorver todas as informações que lhe forem apresentadas. Mais tarde poderá decidir quais descartar e quais conservar.

Segui o conselho dele. (Aliás, eu havia decidido que seguiria os conselhos do menino chamado Corvo sempre que possível.) Concentrei-me, transformei meu cérebro em esponja, apurei os ouvidos a cada palavra pronunciada durante as aulas e permiti que penetrassem meu cérebro. E dentro do limitado espaço de tempo de uma aula esforcei-me por compreender e memorizar tudo. Graças a isso, e apesar de não estudar quase nada fora da classe, sempre obtive notas altas e me conservei no grupo dos melhores alunos.

Com o tempo, meus músculos se enrijeceram como se contivessem aço, e fui ficando cada vez mais lacônico. Evitava da melhor maneira possível que meu rosto revelasse qualquer emoção e que cole- gas e professores percebessem o que me ia na mente. Muito em breve, eu me veria sozinho no selvagem mundo adulto e nele teria de sobreviver. Eu tinha de ser mais valente que qualquer um.

Ao me olhar no espelho, percebia que meus olhos brilhavam frios como os de um lagarto e que minha fisionomia adquiria dia a dia uma expressão dura, impenetrável. Pensando bem, já não me lembrava de quando fora a última vez que eu havia rido. Ou sorrido. Para alguém ou para mim mesmo.

Contudo, nem sempre eu conseguia defender essa tranqüila independência. Às vezes, a cerca, que eu pensava haver erguido bem alto em torno de mim, ruía por completo. Não foram muitas as vezes em que isso aconteceu, mas houve algumas. Sem que eu me desse conta disso, a parede desaparecia e, de repente, eu me via completamente nu e exposto perante o mundo. Nessas ocasiões, eu me perturbava por completo. E havia também a profecia. Ela era uma água escura sempre presente.

A profecia é água escura e misteriosa, sempre presente.

Normalmente, ela fica submersa em lugar desconhecido. Mas, quando o momento chegar, a água transbordará e, silenciosa, banhará em gelo cada uma de suas células, irá afogá-lo num turbilhão cruel que o fará ofegar. Você se agarra ao respiradouro existente no alto, próximo ao teto, e busca desesperado o puro ar externo. Mas

o ar que lhe vem dali é seco e quente, queima a sua garganta. Água e sede, frio e calor: elementos que deviam se opor juntam-se então para atacá-lo simultaneamente. Tanto espaço neste vasto mundo, mas você não encontra — e bastava apenas um, bem pequeno — nenhum capaz de acomodá-lo. E, quando ansiar por uma voz, ali encontrará apenas o silêncio. Não obstante, quando buscar o silêncio, ali encontrará a voz da profecia sussurrando sem parar. E pode ser que um dia essa voz aperte algo semelhante a um interruptor misterioso, oculto nalgum lugar dentro de sua cabeça.

Sua alma se assemelha a um rio cujas águas a chuva incessante transformou em caudal. A correnteza submergiu e ocultou todas as placas de sinalização terrestre e provavelmente já as carregou para um lugar escuro. Mas a chuva, copiosa, continua a cair sobre o rio. E toda vez que você vir em noticiários tais cenas de inundação, você pensará: Realmente, assim é a minha alma.

Antes de sair, vou ao banheiro e lavo as mãos e o rosto com sabonete. Corto as unhas, limpo as orelhas, escovo os dentes. Gasto tempo me limpando da melhor maneira possível. O asseio é a coisa mais importante do mundo em certas situações. Depois, volto-me para o espelho sobre a pia e examino com atenção minhas próprias feições. Aí está o rosto que herdei de meu pai e de minha mãe, embora desta não me reste nenhuma lembrança. Por mais que me empenhe em suprimir a expressão, por mais que embace o brilho do olhar, por mais que fortaleça a musculatura, jamais serei capaz de alterar a conformação do meu rosto. Por mais que eu queira, não há como extirpar as sobrancelhas espessas e de traçado longo, nem o vinco profundo entre elas, os quais só posso ter herdado de meu pai. Posso até matar meu pai, caso queira (com a força física que possuo agora não será difícil). Posso também eliminar a imagem materna da memória. Não posso contudo expulsar o gene que os dois me legaram. Pois fazê-lo significaria banir a mim mesmo do meu corpo.

E depois, há a profecia. Esse mecanismo embutido em mim.

Esse mecanismo embutido em mim.

Apago a luz e saio do banheiro.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

TRECHO a passagem do dragão

Pedro Salgueiro

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Foi assim de repente, quando menos se esperava (em plena tarde morna) o sol tornou-se pálido, para sumir logo em seguida. O povo ainda não havia acabado de se assustar—ouvimos no meio da escuridão um bater de asas atravessando o vilarejo, como se um bando de pássaros saísse em revoada. Um pouco antes de os moradores da vila abandonarem suas casas em grande alvoroço, os bichos já alarmavam o acontecido: galinhas cacarejavam, galos cantavam em desespero, porcos fugiam pelas ruas atropelando as pessoas…

    O relógio do mundo parecia ter sido alterado, os sons se intensificavam mais e mais; e não havia quem não gritasse ou corresse de um lado para o outro. Mulheres procuravam seus maridos, mães chamavam pelos filhos, ninguém se entendia.

    Alguém com voz desesperada anunciou  o fim do mundo: suas palavras ecoaram  em outras bocas, e o que se ouviu depois foi um desfiar de rezas e choros. Os mais agitados gritavam o nome de Deus, pedindo ajuda; outros sussurravam um padre-nosso em meio  ao soluço intenso. A maioria andava de um canto a outro feito barata tonta.

    (Estávamos apreensivos desde a semana anterior ao acontecimento, quando a chegada de três grupos de forasteiros fez com que todos saíssem para as ruas e corressem, admirados, atrás dos automóveis, que pela primeira vez cortavam a poeira de nossas ruas. Das três equipes somente uma falava de maneira compreensível, as outras duas apenas trocavam entre si uns mungangos. De início se instalavam na praça da matriz, armaram barracas de lona e começaram a abrir grandes caixas trazidas nos automóveis [...] Com uma semana todos os aparelhos já estavam montados, grandes canhões apontavam, de diversos cantos da praça, para o céu. Os mais entendidos da vila, fingindo compreender as explicações dos invasores, tentavam acalmar a maioria, que permanecia apreensiva com tudo aquilo. Antes que os moradores dos povoados se acostumassem com os visitantes e suas extraordinárias maquinas de apontar para o céu, o mundo escureceu pela primeira vez às três da tarde.)

    Mas também de repente, como tinha escurecido, começou a clarear [...] Na praça, os estrangeiros davam pulos de alegria e estouravam garrafas de espuma [...] os que falavam melhor tentaram, em vão, explicar aos curiosos o que havia acontecido [...]  porém não souberam explicar de onde surgiu e para onde foi o imenso pássaro que sobrevoou a vila na escuridão.

    No mesmo dia desmontaram os aparelhos e foram embora…