domingo, 17 de janeiro de 2010

O PANTERA NEGRA

Dr. Jekyll e Mr. Hyde

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Pintado Por Tony Harris.

Doctor Who – The Infinite Quest

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Do Universo Who.

Poster: CARRIE

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Poster: O GRANDE SONO

Big Sleep

Poster: PSICOSE

Psycho Czech

Poster: KILL BABY KILL

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Ignition City

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Do Clã Destino.

Do cigano Gogol

UM SABOTADOR IRLANDÊS EM PARIS

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Kioma

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Trecho de Caim

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Feliz vai também caim, já a sonhar com um almoço no campo, entre verduras, fugidios carreirinhos de água e passarinhos a sinfonizar nas ramagens. À mão direita do caminho, além, vê-se uma fila de árvores de bom porte que promete a melhor das sombras e das sestas. Para lá tocou caim o jumento. O sítio parecia ter sido inventado de propósito para refrigério de viajantes fatigados e respectivas bestas de carga. Paralela às árvores havia uma fileira de arbustos tapando o carreiro estreito que subia em direcção ao teso da colina.

Aliviado do peso dos alforges, o jumento tinha-se entregado às delícias da erva fresca e de alguma rústica flor tresmalhada, sabores estes que jamais lhe tinham passado pela goela. Caim escolheu tranquilamente a ementa e ali mesmo comeu, sentado no chão, rodeado de inocentes pássaros que debicavam as migalhas, enquanto as recordações dos bons momentos vividos nos braços de lilith voltavam a aquecer-lhe o sangue. Já as pálpebras tinham começado a pesar-lhe quando uma voz juvenil, de rapaz, o fez sobressaltar, Ó pai, chamou o moço, e logo uma outra voz, de adulto de certa idade, perguntou, Que queres tu, isaac, Levamos aqui o fogo e a lenha, mas onde está a vítima para o sacrifício, e o pai respondeu, O senhor há de prover, o senhor há de encontrar a vítima para o sacrifício.

E continuaram a subir a encosta. Ora, enquanto sobem e não sobem, convém saber como isto começou para comprovar uma vez mais que o senhor não é pessoa em quem se possa confiar. Há uns três dias, não mais tarde, tinha ele dito a abraão, pai do rapazito que carrega às costas o molho de lenha, Leva contigo o teu único filho, isaac, a quem tanto queres, vai à região do monte mória e oferece-o em sacrifício a mim sobre um dos montes que eu te indicar. O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim. Na manhã seguinte, o desnaturado pai levantou-se cedo para pôr os arreios no burro, preparou a lenha para o fogo do sacrifício e pôs-se a caminho para o lugar que o senhor lhe indicara, levando consigo dois criados e o seu filho isaac. No terceiro dia da viagem, abraão viu ao longe o lugar referido. Disse então aos criados, Fiquem aqui com o burro que eu vou até lá adiante com o menino, para adorarmos o senhor e depois voltamos para junto de vocês. Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso, pronto a enganar qualquer um com a sua língua bífida, que, neste caso, segundo o dicionário privado do narrador desta história, significa traiçoeira, pérfida, aleivosa, desleal e outras lindezas semelhantes. Chegando assim ao lugar de que o senhor lhe tinha falado, abraão construiu um altar e acomodou a lenha por cima dele.

Depois atou o fiho e colocou-o no altar, deitado sobre a lenha. Acto contínuo, empunhou a faca para sacrificar o pobre rapaz e já se dispunha a cortar-lhe a garganta quando sentiu que alguém lhe segurava o braço, ao mesmo tempo que uma voz gritava, Que vai você fazer, velho malvado, matar o seu próprio filho, queimá-lo, é outra vez a mesma história, começa-se por um cordeiro e acaba-se por assassinar aquele a quem mais se deveria amar, Foi o senhor que o ordenou, foi o senhor que o ordenou, debatia-se abraão, Cale-se, ou quem o mata aqui sou eu, desate já o rapaz, ajoelhe e peça-lhe perdão, Quem é você, Sou caim, sou o anjo que salvou a vida a isaac. Não, não era certo, caim não é nenhum anjo, anjo é este que acabou de pousar com um grande ruído de asas e que começou a declamar como um actor que tivesse ouvido finalmente a sua deixa, Não levantes a mão contra o menino, não lhe faças nenhum mal, pois já vejo que és obediente ao senhor, disposto, por amor dele, a não poupar nem sequer o teu filho único, Chegas tarde, disse caim, se isaac não está morto foi porque eu o impedi. O anjo fez cara de contrição, Sinto muito ter chegado atrasado, mas a culpa não foi minha, quando vinha para cá surgiu-me um problema mecânico na asa direita, não sincronizava com a esquerda, o resultado foram contínuas mudanças de rumo que me desorientavam, na verdade vi-me em papos-de-aranha para chegar aqui, ainda por cima não me tinham explicado bem qual destes montes era o lugar do sacrifício, se cá cheguei foi por um milagre do senhor, Tarde, disse caim, Vale mais tarde que nunca, respondeu o anjo com prosápia, como se tivesse acabado de enunciar uma verdade primeira, Enganas-te, nunca não é o contrário de tarde, o contrário de tarde é demasiado tarde, respondeu-lhe caim. O anjo resmungou, Mais um racionalista, e, como ainda não tinha terminado a missão de que havia sido encarregado, despejou o resto do recado, Eis o que mandou dizer o senhor, Já que foste capaz de fazer isto e não poupaste o teu próprio filho, juro pelo meu bom nome que te hei de abençoar e hei de dar-te uma descendência tão numerosa como as estrelas do céu ou como as areias da praia e eles hão-de tomar posse das cidades dos seus inimigos, e mais, através dos teus descendentes se hão-de sentir abençoados todos os povos do mundo, porque tu obedeceste à minha ordem, palavra do senhor. Estas, para quem não o saiba ou finja ignorá-lo, são as contabilidades duplas do senhor, disse caim, onde uma ganhou, a outra não perdeu, fora isso não compreendo como irão ser abençoados todos os povos do mundo só porque abraão obedeceu a uma ordem estúpida, A isso chamamos nós no céu obediência devida, disse o anjo. Coxeando da asa direita, com um mau sabor de boca pelo fracasso da sua missão, a celestial criatura foi-se embora, abraão e o filho também já lá vão a caminho do lugar onde os esperam os criados, e agora, enquanto caim ajeita os alforges no lombo do jumento, imaginemos um diálogo entre o frustrado verdugo e a vítima salva in extremis.

De José Saramago

O cristão sadomasoquista

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Por Adão Iturrusgarai.

MARTIN SCORSESE NA HBO

Gangsters e contrabandistas na série de Martin Scorsese para a HBO. Promete. E muito.

BATWOMAN

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Por Adam Hughes.

A NOVA SÉRIE DE DAVID SIMON

A nova série da HBO, Treme, mostra New Orleans depois da passagem do furacão Katrina. Do criador de A Escuta, o que desde já garante uma insuspeita qualidade.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

LER

Menina a ler - 1860

“Sentei, pedi uma gelada, tirei o livro da bolsa. Aquele não era o melhor lugar para se ler um livro, mas eu não escolhia lugar.”

Trecho de O CAMPEONATO, de Flávio Carneiro

Uma conversa com Eric Rohmer

O cineasta francês Eric Rohmer morreu nesta segunda-feira (11 de janeiro de 2010), em Paris, aos 89 anos.

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Naquela manhã com ares de outono, em 2004, quando adentrei em sua sala na sede da produtora Les Films du Losange, em Paris, o cineasta francês Eric Rohmer de pronto me levou até diante da lareira, sobre a qual repousava uma máscara mortuária negra. "Você sabe quem é?", indagou, certo de que eu não decifraria a charada. E sem me dar alguma chance de tentar adivinhar, acrescentou, esboçando um leve sorriso no rosto: "É Murnau". Alcunhado de "poeta" do expressionismo alemão - o "arquiteto" era Fritz Lang (1890-1976) -, Friedrich Wilhelm Murnau (1888-1931) contribuiu para levar o cinema além do teatro filmado. Então com 84 anos, Eric Rohmer, que me recebia para uma entrevista para a revista Bravo!, reivindicava o poder da palavra nas telas, mas, inspirado no mestre alemão, refutava o rótulo de autor de cinema falado. Ele defendia a palavra como um elemento cinematográfico. Razão pela qual igualmente admirava D.W. Griffith (1875-1948) como um grande cineasta do texto e da imagem. "O cinema será sempre uma arte do movimento. Detesto o estatismo. A imagem deve viver por si mesma", dizia.

Já sentado à minha frente, reafirmou sua preferência pela dupla Lang-Murnau: "Gosto dos dois. Não é o mesmo estilo, mas são dois grandes mestres, e são os meus mestres. Eu os revejo por vezes, mas não os copio. Eles me dão uma excitação benéfica", disse.

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Eric Rohmer não alcançou sucesso em sua estréia, com o filme Le Signe du Lion (1959). A experiência, no entanto, não o impediu de construir uma obra expressiva e coerente (o ciclo de Seis Contos Morais - composto de filmes como A Colecionadora (1967), Uma Noite com Ela (1969) ou O Joelho de Claire (1970) -; as séries narrativas Comédia e Provérbios e Contos das Quatro Estações; ou "filmes solitários" como a A Inglesa e o Duque (2001), Agente Triplo (2004) e Les amours d'Astree et de Céladon (2007).

Seu cinema reflete uma inspiração literária, sutil e fiel à construção da ação pela palavra. Não por acaso, o cineasta aprecia particularmente as retrospectivas de seu trabalho, exibindo os títulos num conjunto: "Gosto que meus filmes sejam revistos como se relê um livro. É a parte de escritor que tenho em mim", confessou.

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No caso de Rohmer, o escritor precedeu o cineasta. Na seqüência de sua formação literária, publicou, em 1946, o romance Elisabeth. Mais tarde, antes de se instalar atrás das câmeras, sua relação com o cinema passou pelo texto. Em 1957, lançou, em coautoria com Claude Chabrol, um ensaio sobre Alfred Hitchcock, também uma de suas maiores referências. "Hoje os diretores já não se interessam tanto pela narração. Os filmes são mal feitos e bastante tediosos por causa disso. Não se sabe para onde se vai. O suspense hitchcokiano desapareceu. Hitchcock é alguém que sabe compor de forma extraordinária. O Homem que Sabia Demais (1956) não é o melhor de seu filmes, é um tanto superficial, mas tem uma composição e um rigor extraordinários. Pode-se dizer a mesma coisa dos filmes de Howard Hawks, John Ford. São obras-primas da narração. Hoje, já não se sabe mais contar histórias. Em Hitchcock há um conteúdo ligado à forma. A forma é interessante porque ela exprime temas bastante dostoievskianos, como a duplicidade, o segredo, a transferência. São temas dos quais a crítica ordinária não falava, mas eu, Chabrol, Truffaut, Godard, nós todos insistimos muito sobre esses aspectos de Hitchcock, sobre os quais ele mesmo não parecia, aliás, ter muita consciência", disse, rindo.

Como crítico de cinema, Rohmer exercitou suas análises sobre filmes, diretores e teorias sobre a sétima arte em revistas especializadas como La Revue du Cinéma, Les Temps Modernes, Arts e La Gazette du Cinéma, até a fundação da mítica Cahiers du Cinéma, da qual foi editor-chefe entre 1957 e 1963.

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No Cahiers, fermentou, junto com os companheiros cineastas cinéfilos Jean-Luc Godard, François Truffaut, Jacques Rivette e o próprio Chabrol o surgimento da estética da Nouvelle Vague, desconstrução narrativa e subversão na forma de se fazer cinema na época. "Acredito que a Nouvelle Vague mudou muita coisa. O cinema não foi o mesmo depois. Antes, no cinema francês, se filmava na maior parte do tempo em estúdio e as cenas exteriores eram negligenciadas. A Nouvelle Vague trouxe também um tom mais pessoal. Há uma forma de atuar na qual há mais naturalidade do ator. Surgiram também novos atores, como Jean-Pierre Léaud, que começou bastante jovem com François Truffaut. O mesmo se deu com Godard e Jen-Paul Belmondo. No geral, renovamos o elenco, não filmamos com os atores de nossos precursores. Os italianos gostam de dizer que a Nouvelle Vague mudou a forma de produzir, mas não criou um novo estilo, como no caso do neo-realismo. Eu não concordo. As coisas estão relacionadas. Uma nova forma de produzir filmes, com mais leveza de meios, menos técnicos, tudo isso influi no estilo. Atualmente, há um retorno a um cinema mais pesado, realizado mais no estúdio e menos na rua. Não se faz mais filmes como Os Incompreendidos (François Truffaut, 1959), Paris Nos Pertence (Jacques Rivette, 1958), Acossado (Jean-Luc Godard, 1960) ou Le Signe du Lion, nos quais havia mais liberdade de filmagem e uma certa improvisação", disse.

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Rohmer defendia a vinculação da cena com os bastidores e uma direção de ator mais livre: "Nós demos mais liberdade aos atores. Por vezes, fizemos mesmo filmes que eram pura improvisação. Tínhamos um mestre, que, aliás, morreu recentemente, e era nosso precursor, Jean Rouch (1917-2004), que filmou na África. Pessoalmente, em Paris, eu fiz um filme no qual não havia roteiro, os atores inventavam seus diálogos. Foi o único que fiz assim, O Raio Verde (1986). Em outros filmes meus, há roteiros, mas há também uma forte colaboração com os atores, na forma de falar, na linguagem, nas expressões. Em A Árvore, o Prefeito e a Mediateca (1992), um dos que prefiro, me inspirei de coisas do momento, da atualidade, no décor. Essa forma de partir da realidade, em vez de partir de uma invenção e buscar a realidade correspondente, é algo próprio a mim e também a Nouvelle Vague". Com uma certa nostalgia, disse lamentar a perda do poder da palavra no cinema contemporâneo: "Escutamos muito menos a palavra hoje do que antes. Os atores articulam mal. Eles falam baixo, muitas vezes há músicas cobrindo suas vozes, e com freqüência eles não dizem coisas muito interessantes. Antes, a palavra era mais clara. O cinema perdeu nessa área. Mas poderíamos dizer também que ele perdeu no domínio da imagem. Em filmes mudos vemos imagens extremamente expressivas e fortes. Hoje, todas essas imagens se diluem num tipo de caos bastante inexpressivo. Vejo menos imagens fortes no cinema atual, talvez, do que no cinema mudo e dos anos 1930, um período extraordinário para o cinema".

Em seus filmes, o diretor recusava a etiqueta do moralismo fácil e defendia uma "verdade de linguagem": "O bom e o mau são a mesma pessoa, esse é o lado Dostoiévski. É preciso remontar aos gregos para encontrar essa definição. Aristóteles disse que o herói da tragédia não deve ser nem totalmente bom nem totalmente mau. Fui fiel a essa regra. Milan Kundera disse que não pode haver romance num regime totalitário, porque num bom romance não pode haver o lado dos bons e o dos maus". Normalmente avesso a rótulos, Rohmer, diretor e roteirista da grande maioria de seus filmes, assumia e defendia a etiqueta de "cinema de autor". Mais apreciado no exterior do que em seu próprio país, produzia mais preocupado com a fidelidade de seu público do que com as bilheterias de seus filmes. "Prefiro um público restrito, mas fiel, e ao mesmo tempo um público disperso em diferentes países. Na França, não tenho muito sucesso, mas sim no estrangeiro, nos Estados Unidos, Japão, Alemanha, Espanha, Itália. Atualmente, meus primeiros filmes começam a ser distribuídos na Rússia. Mais um país".

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Ao final de nosso encontro matinal, antes de se despedir, buscou na prateleira um exemplar da edição brasileira de Ensaio sobre a Noção de Profundidade na Música - Mozart em Beethoven (ed. Imago, 1997), de sua autoria. Abriu na primeira página, pegou uma caneta e escreveu na dedicatória: "Para falar de outra coisa que de cinema".

Fernando Eichenberg
De Paris

Do Terra Magazine