Um dia ideal para os peixes-banana e livros e cinema e gibis e nus e ataxia espinocerebelar e 𓋹
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
ninfeta
LOLITA, LUZ DE MINHA VIDA, LABAREDA EM MINHA CARNE. MINHA ALMA, MINHA LAMA. LO-LI-TA: A PONTA DA LÍNGUA DESCENDO EM TRÊS SALTOS PELO CÉU DA BOCA PARA TROPEÇAR DE LEVE, NO TERCEIRO, CONTRA OS DENTES. LO-LI-TA.
PELA MANHÃ ERA LÔ, NÃO MAIS QUE LÔ, COM SEU METRO E QUARENTA E SETE DE ALTURA E CAlÇANDO UMA ÚNICA MEIA SOQUETE. ERA LOLA AO VESTIR OS JEANS DESBOTADOS. ERA DOLLY NA ESCOLA. ERA DOLORES SOBRE A LINHA PONTILHADA. MAS EM MEUS BRAÇOS SEMPRE FOI LOLITA.
SERÁ QUE TEVE UMA PRECURSORA? SIM, DE FATO TEVE. NA VERDADE, TALVEZ JAMAIS TERIA EXISTIDO UMA LOLITA SE, EM CERTO VERÃO, EU NÃO HOUVESSE AMADO UMA MENINA PRIMORDIAL. NUM PRINCIPADO À BEIRA MAR. QUANDO FOI ISSO? CERCA DE TANTOS ANOS ANTES DE LOLITA TER NASCIDO QUANTOS EU TINHA NAQUELE VERÃO. NINGUÉM MELHOR DO QUE UM ASSASSINO PARA EXIBIR UM ESTILO FLOREADO.
SENHORAS E SENHORES MEMBROS DO JÚRI, O ITEM NÚMERO UM DA ACUSAÇÃO É AQUILO QUE INVEJAVAM OS SERAFINS - OS DESINFORMADOS E SIMPLÓRIOS SERAFINS DE NOBRES ASAS. VEJAM ESTE EMARANHADO DE ESPINHOS.
de Vladmir Nabokov
sábado, 31 de outubro de 2009
a prosa de sérgio rodrigues
A mulher de Botero
João Pontes, o escritor, olhou um dia pela janela ao lado de sua mesa de trabalho, no nono andar de um edifício na Gávea, e viu na cobertura do outro lado da rua, bem à sua frente, entre vasos de planta, uma mulher de Botero. A visão o desagradou, como o desagradavam as mulheres de Botero. Mas logo João a decompôs numa ilusão de folhas amarelas e vasos escuros, tela nublada pela lâmina de vidro que tudo recobria, com seus reflexos e sombras.
Terminou por achar graça: a assombração era um incrível trompe-l’oeil produzido pelo acaso. Concentrou-se então no trabalho por mais meia hora – escrevia seu quinto romance, uma ficção histórica sobre o bando de Lampião – e, mal deixou o olho escapar pela janela atrás de um nome próprio, a palavra cardo, o adjetivo ressequido, lá estava a mulher de Botero outra vez.
Era uma visão súbita, perfeita, de uma nitidez que dava náusea. E de novo, o que era estranho, João a recebeu com a surpresa de um tapa na cara. Não conseguia estar preparado para a mulher de Botero.
Aquilo se repetiu por dias: olhar pela janela, tomar um susto ao ver a mulher de Botero a secar seu progresso penoso do outro lado da rua, como se dissesse: “Escritor? Pois sim…”, e perder mais uma vez o fio da meada de Virgulino, a pegada entre clássica e pop que buscava para o faroeste brasileiro que tinha na imaginação.
Aquela mulher de Botero era ainda mais desagradável do que a média das mulheres de Botero: xale preto, as mãos dois peixes inchados no colo preto, sorrisinho estúpido, o olhar entre frio e lunático – um olhar alienígena, com a hostilidade suprema da indiferença. Aquela coisa toda fofa, teratológica em seu balofismo. Misógina. E sempre chegando de tocaia. Duas semanas depois João parou de escrever.
O que o levou a tomar tal decisão foi o orgulho de autor: tinha perdido o controle da história. Às vezes achava agradável a sensação de estar à deriva em sua própria narrativa, ser levado por ela, mas só quando a direção era mais ou menos a que tinha planejado. E seus planos passavam longe do lugar onde estava agora. A coisa ia descambando de vontade própria de Quixadá para Querétaro: cada cena que lhe saía dos dedos, empurrada pela anterior e já puxando a seguinte, era de um realismo-socialista-quase-fantástico latino-americano de décima terceira categoria. Maria Bonita ficou enorme de gorda, os cangaceiros desenvolveram músculos de peão de Portinari, a luz amarela que tudo banhava era artificiosa, como se fosse de estúdio. Lampião, vanguarda do campesinato, organizava as massas e fundava sovietes. Parou.
Não tinha dúvida de que a culpa era da mulher de Botero. Pensou em atravessar a rua, descobrir o número do apartamento em que ela morava e interfonar. Soaria como um louco, mas, de certa forma, não era pedir tanto: será que a senhora se incomodaria de redecorar a cobertura só um pouquinho, um nada? Um vaso deslocado alguns centímetros seria o bastante para me restituir a felicidade.
Tímido, não atravessou a rua. Dizer o quê, sem soar ridículo: tem o fantasma de uma mulher gorda no seu jardim me impedindo de trabalhar?
Meses depois, já quase esquecido da mulher de Botero, tão acostumado estava a vê-la diariamente em seu habitat sombreado, reparou com uma vertigem que ela se fora. Na cobertura do outro lado da rua havia apenas vasos, folhagens – os centímetros de que precisava chegavam por obra do mesmo acaso que tinha engendrado o virago.
Seu primeiro impulso foi sorrir e pensar que voltaria à história engavetada de Lampião. Mas no instante seguinte ficou sério, sério e abatido, porque soube com clareza que voltaria à história de Lampião apenas para abandoná-la definitivamente logo depois – abandoná-la com tal fúria que só lhe restaria deletar qualquer traço de sua existência.
João compreendeu que era tarde, o livro exterminado: seu faroeste brasileiro era um aborto. E a mulher de Botero já nem estava lá para que ele pudesse mirá-la com ódio.
+ em Todoprosa
OGRANDEIRMÃO
"Quer falar o que aconteceu em junho de 1998?"
Greg olhou para ele e disse. "Como?"
"Você colocou uma mensagem em alt.burningman3 em 17 de junho de 1998, sobre os seus planos para ir a um festival. Você perguntou 'São os alucinógenos assim tão nocivos?'"
O interrogador na sala de controle era um homem mais velho, tão magro que de frente parecia estar de lado. E de lado parecia ter ido embora. As suas perguntas iam muito além da curiosidade de Greg sobre alucinógenos.
"Fale-me sobre seus passatempos. Você gosta de aeromodelismo ou lançamento de réplicas de foguetes em miniatura?"
"O quê?"
"Foguetes em miniatura."
"Não," disse Greg, "Não, não lido com isto." Já imaginando o rumo que a conversa ia tomar.
O homem tomou umas notas e digitou qualquer coisa. "Pergunto isto porque vejo um grande número de anúncios relacionados a combústivel de avião nos resultados de suas pesquisas no Google e também no e-Mail."
Greg sentiu um aperto. "Você está vendo os resultados das pesquisas que fiz? Está acessando meu e-Mail?" Greg não tocava num computador há mais de um mês, mas sabia que o quer que tivesse introduzido naquele campo de pesquisa seria bem mais revelador do que tudo o que já tinha dito ao seu psiquiatra.
"Senhor, tenha calma, por favor. Não estou vendo suas pesquisas e nem acessando seu e-Mail”, disse o homem com seriedade. "Isto seria violação de privacidade e é anticonstitucional. Nós apenas vemos os anúncios que aparecem quando você lê seu e- Mail e faz pesquisas no Google. Tenho aqui um folheto da companhia que explica tudo. Poderá lê-lo quando terminarmos."
“Mas os anúncios não significam nada”, contestou Greg. “Eu recebo anúncios de termas toda vez que recebo por e-Mail notícias de uma amiga em meu celular. Ela fala muito de uma cadela que cuida desde filhote!”
O homem acenou em concordância. "Entendo. E é exatamente por isso que estou falando contigo. Porque acha que estes anúncios sobre combústivel de aviação aparecem tão frequentemente?"
Greg pôs os neurônios para funcionar. "Faça isto. Procure por clube do café". Ele era um membro bastante ativo do clube, ajudando-os a lançar o site e o serviço café-do-mês. A mistura que iam lançar chamava-se Jet Fuel4. "Jet Fuel" e "lançamento" – isso faria com que o Google enchesse a página com anúncios de combústivel para motores a jato e aviação.
Já estavam na reta final da entrevista quando o funcionário encontrou as fotos do Halloween. Estavam na terceira página dos resultados da busca por "Greg Lupinski".
"Era uma festa com o tema Guerra do Golfo," disse ele.
"E você está vestido de...?"
"Homem bomba", respondeu meio constrangido.
Dizer aquelas palavras era bastante comprometedor àquela altura do campeonato.
"Venha comigo, Sr. Lupinski," disse o agente.
Vi no Capacitor Fantástico.

