terça-feira, 31 de agosto de 2010

O CAVALHEIRISMO

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Bwahahahahahaha.

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Roberto Bolaño

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De que Ivánov tinha medo?, Ansky se perguntava em seus cadernos. Não do perigo físico, já que como ex-bolchevique muitas vezes esteve perto da detenção, da prisão e da deportação, e embora não se pudesse dizer que fosse um tipo valente, também não se podia afirmar, sem faltar com a verdade, que fosse uma pessoa covarde e sem peito. O medo de Ivánov era de índole literária. Isto é, seu medo era o medo que sente a maioria daqueles cidadãos que um belo (ou horrendo) dia decidem transformar o exercício das letras e, sobretudo, o exercício da ficção em parte integrante das suas vidas. Medo de serem ruins. Também, medo de não serem reconhecidos. Mas, sobretudo, medo de serem ruins. Medo de que seus esforços e seus labores caiam no esquecimento. Medo da pisada que não deixa marca. Medo dos elementos do acaso e da natureza que apagam as marcas pouco profundas. Medo de jantarem sozinhos e de que ninguém repare na sua presença. Medo de não serem apreciados. Medo do fracasso e do ridículo. Mas sobretudo medo de serem ruins. Medo de habitar, por todo o sempre, o inferno dos escritores ruins. Medos irracionais, pensava Ansky, sobretudo se os medrosos contrabalançavam seus medos com aparências. O que vinha a ser a mesma coisa que dizer que o paraíso dos bons escritores, segundo os ruins, era habitado por aparências. E que o bom (ou a excelência) de uma obra girava em torno de uma aparência. Uma aparência que variava, claro, de acordo com a época e os países, mas que sempre se mantinha como tal, aparência, coisa que parece e não é, superfície e não fundo, pura pose, e a pose era inclusive confundida com a vontade, cabelos e olhos e lábios de Tolstói e verstas percorridas a cavalo por Tolstói e mulheres defloradas por Tolstói num tapete queimado pelo fogo da aparência.

CORINGA E LEX LUTHOR

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Uma homenagem a Calvin e Harold.

ROTEIRO

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Glauco.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

VINGANÇA

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__ Meu pai foi assassinado por ninjas. Preciso de dinheiro para aulas de karatê.

sábado, 28 de agosto de 2010

PATÓPOLIS

Marcelo Coelho

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NUNCA VIMOS UM PATO NA CRUZ

Há uma lacuna básica na História patopolense, um buraco naquele doughnut, uma interrupção fundamental em sua "frisa do tempo" (...) Essa falha histórica em Patópolis é o Cristianismo. Não podemos imaginar, nem nunca vimos, um pato na cruz. Pode ser que haja um deus daquela cidade; terá barbas brancas, penas brancas, um traseiro branco que se afofa numa nuvem branca, a preferida; mas não existe filho seu, como aliás não há filhos, só sobrinhos, em Patópolis. Um pato crucificado é impossível. Só vimos, até agora, Donald no tédio. Ora, esta expressão nos evoca, digamo-lo com um pigarro que homenageia o "efeito historieta" de algumas páginas atrás (tabagismo e bigodetos, gazetas, falsetas, erres puxados na garanta, rascâncias de pentelho irritando a epiglote de um velho professor de peito cavo, consumido e amarelo), esta expressão nos evoca, repito, a frase que Sérgio Milliet incorpou aos Pensamentos de Pascal na edição dos "Pensadores". Na abertura de um capítulo vertiginoso, doentio e lacônico de Pascal --nome aliás de pato enfermiço--, Sérgio Milliet escreveu: "Jesus no tédio". Jésus dans l'ennui, dizia o original. Mas --cof-- "ennui", no século 17, queria dizer apenas "tortura". Para Pascal, o escândalo, cheio de graça, era ver Jesus torturado. Para nós, as coisas não são tão simples; não se esgotam nesse parco e barato paradoxo. O tédio é o tormento que resta a Donald: não foi Filho do Homem. Ei-lo de volta às moscas

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

ELEMENTAR

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Sherlock: Crying won’t save anyone, John.

Sherlock Holmes. BBC.

Vi no jaune.tumblr.com

GLENN ESTERLY SOBRE CHARLES BUKOWSKI

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O rosto, que não teve trégua desde o começo, foi terrivelmente abusado ao longo dos anos. Na adolescência, uma doença sanguínea o deixou meses no hospital, com furúnculos do tamanho de pequenas maçãs no rosto e nas costas (“Era emocional: o ódio pelo meu pai saindo através da pele”), deixando uma coleção de cicatrizes impressas para toda a vida. Mais tarde, putas impiedosas deixaram cicatrizes, arrancando pedaços de carne com as unhas enquanto ele estava bêbado demais para reagir. No meio desses mapas faciais de crises passadas se encontra um nariz redondo, inchado e grosseiro. Ele também é vermelho, em um protesto inútil contra as exorbitantes quantidades de álcool consumidas pelo velho. Acima do nariz, dois pequenos olhos azul-claros, localizados no fundo do crânio imenso, estudam cuidadosamente o mundo. As mãos são um elemento inesperado no corpo de Bukowski: dois membros muito delicados na extremidade de braços musculosos. São mãos de um artista plástico ou de um músico. Belas mãos, sem dúvida (“Digo às mulheres que o rosto é a minha experiência de vida, e que as mãos são a minha alma — vale tudo para ver uma mulher tirando a calcinha.”)

Revista Rolling Stone.

Vi no Boteco Sujo.

A ARTE DE PRODUZIR EFEITO SEM CAUSA

Lourenço Mutarelli

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— Dia estranho, não é mesmo?
— Como?
— Dia estranho.
— Todo dia é estranho.
— Não. Hoje... essa névoa.., as ruas desertas...
— Pra mim, todo dia é estranho. Eles nunca me convencem.
— Quem não te convence?
— Os dias... são falsos... estranhos... isso não pode ser a realidade... não é possível que seja... isso é... sei lá que porra é isso tudo.
— Talvez...
— Sabe? Eu descobri como funciona esse esquema.
— Ah, é?
— Você já viu aquele planetinha daquele livro do Pequeno Príncipe?
— Sei, acho que me lembro.
O outro faz um gesto com as mãos formando uma esfera no ar.
— É um planetinha, pequeno... Tem uma flor e acho que uma casinha... É assim.
Diz isso projetando a pequena esfera na direção de Júnior.
— Sei, sei...
— É isso, porra! É isso...
— Entendo.
— Entende, nada. Entende?!
O outro faz um gesto de desprezo que desmancha a esfera.
— Eles botaram a gente aqui.
— Claro...
— Deus botou a gente nesse planetinha do caralho. Do caralho do Pequeno Príncipe. Aí ele falou: Meu amigo, tudo isso é seu. Tem ali uma plantinha de merda que dá um fruto gostoso. Ali tem uma vaquinha de bosta que dá leite. E tem trigo pra fazer pão. Até aí tudo bem, não é?
— É tudo o que precisamos...
— É. Mas aí ele mostra um buraco na terra. Um buraco feito uma cova.
— Certo...
— Então ele diz: Tudo isso é seu. E ainda vou te mandar uma mulher e umas crianças... Isso eu acho que é só pra encher o nosso saco e distrair a rente dessa merda toda. Assim não sacamos o esquema, tá ligado?
— E qual é o esquema?
— Posso continuar?
— Claro.
— Então faz favor de não ficar me interrompendo. Bom Aí Deus explica o esquema. Ele diz: Meu filho, tudo isso é seu. A única coisa que você precisa fazer é tapar aquele buraco. A tal cova que eu te falei.
— Sei.
— Pois então. Cada vez que esse homenzinho tapa a porra do buraco, acaba fazendo outro do mesmo tamanho. Percebe?
— Entendo.
— Então. É isso. É isso sem fim. Tapa um buraco, faz outro igual. Tapa um, faz outro. Até o dia em que o infeliz morre. Só assim você pode tapar o buraco sem fazer outro igual. O buraco é sob medida.
— Legal.
— Porra! Legal, o caralho!
— A história, quis dizer.
— Ou seja, é pau no teu cu. Percebe? É isso. Pra Deus nós somos apenas os que podem tapar o buraco que ele não conseguiu tapar. Entende? É como na obra. Se falta areia, cê não faz parede. Não adianta tijolo, nem cimento. Eu acho que Deus errou nos cálculos. Aí. como já estava de saco cheio, inventou a gente. Tipo umas formigas. Uns formigões. Sacou?

Vi no Boteco Sujo.

A ENFERMARIA

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The Ward. É John Carpenter de volta. Eba.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

POR QUE NÃO DANÇAM?

Raymond Carver

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Na cozinha, ele serviu-se de outra bebida e olhou para a mobília de quarto que estava no jardim da frente. O colchão estava despido e os lençóis às riscas cor-de-rosa dobrados junto de duas almofadas em cima da cómoda. Tirando isto, as coisas estavam dispostas quase da mesma maneira como tinham estado no quarto — mesa-de-cabeceira e candeeiro de leitura do seu lado da cama, mesa-de-cabeceira e candeeiro de leitura no lado da cama dela. O seu lado, o lado dela. Pensou nisto enquanto bebericava o whisky. A cómoda encontrava-se a curta distância dos pés da cama. Passara os conteúdos das gavetas para dentro de caixotes nessa manhã, e os caixotes estavam na sala de estar. Havia um aquecedor portátil junto da cómoda, e uma cadeira em verga com uma almofada decorativa aos pés da cama. Os móveis da cozinha em alumínio polido ocupavam uma parte da entrada para a garagem. Uma toalha amarela de musselina, demasiado grande, que lhes tinha sido oferecida, cobria a mesa e pendia dos lados. Um feto dentro de um vaso estava em cima da mesa, junto de uma caixa com talheres e um gira-discos, também ofertas. Um grande televisor, modelo de cómoda, estava pousado sobre uma mesa de café, e a alguns passos desta encontravam-se um sofá e uma cadeira e um candeeiro de pé. Tinha ligado uma extensão à tomada e havia electricidade, as coisas funcionavam. A secretária estava encostada à porta da garagem. Havia alguns utensílios em cima da secretária, junto com um relógio de parede e duas gravuras emolduradas. Havia ainda na entrada para a garagem um caixote com copos, chávenas e pratos, cada um dos objectos embrulhado em papel de jornal. Naquela manhã ele esvaziara os armários e, com excepção dos três caixotes na sala de estar, estava tudo fora da casa. Uma vez por outra um carro abrandava e as pessoas olhavam. Mas ninguém parava. Ocorreu-lhe que também ele não pararia.

— Deve ser uma venda de garagem — disse a rapariga ao rapaz.

Esta rapariga e este rapaz andavam a mobilar um pequeno apartamento.

— Vamos ver quanto é que eles querem pela cama — disse a rapariga.

— Gostava de saber quanto é que pedem pela televisão — disse o rapaz.

O rapaz meteu pelo acesso à garagem e estacionou em frente à mesa da cozinha.

Saíram do carro e começaram a examinar as coisas. A rapariga mexeu na toalha de musselina e o rapaz ligou a trituradora e rodou o botão para a posição moer. Ela pegou no aquecedor de comida. Ele ligou o televisor e começou a ajustar a imagem. Sentou-se no sofá para ver televisão. Acendeu um cigarro, olhou em redor, e atirou o fósforo para a relva. A rapariga sentou-se na cama. Tirou um sapato com a ajuda do outro e deitou-se. Conseguia ver a estrela polar.

— Anda cá, Jack. Experimenta esta cama. Traz uma dessas almofadas — disse ela.

— Como é? — perguntou ele.

— Anda experimentar — disse ela.

Ele olhou em redor. A casa encontrava-se na escuridão.

— É um bocado estranho — disse ele. — É melhor vermos se está alguém em casa.

Ela agitou-se em cima da cama.

— Experimenta primeiro — disse ela.

Ele deitou-se na cama e colocou a almofada debaixo da cabeça.

—O que é que achas? — perguntou ela.

— Parece-me firme — disse ele.

Ela voltou-se de lado e enlaçou-lhe o pescoço com o braço.

— Beija-me — disse ela.

— Vamos levantar-nos — disse ele.

— Beija-me. Beija-me, querido — disse ela.

Ela fechou os olhos. E continuou a abraçá-lo. Ele teve de lhe abrir os dedos para se soltar.

Ele disse:

— Vou ver se está alguém em casa — mas apenas se sentou.

O televisor continuava ligado. As luzes acenderam-se nas casas por toda a rua. Ele sentou-se na beira da cama.

— Não achas que seria engraçado se nós... — disse a rapariga, e sorriu, mas não terminou a frase.

Ele riu-se. Ligou o candeeiro de leitura.

Ela afastou um mosquito.

O rapaz levantou-se e meteu a camisa para dentro das calças.

— Vou ver se está alguém em casa — disse ele. — Parece que não está ninguém. Mas, se estiver, vou ver qual é o preço destas coisas.

— Seja o que for que pedirem, oferece menos dez dólares.

— disse ela. — Eles devem estar desesperados, ou coisa assim.

—A televisão é bem boa — disse o rapaz.

— Pergunta-lhes quanto é— disse a rapariga.

Max caminhou pelo passeio com um saco de compras do mercado. Trazia sanduíches, cerveja e whisky. Tinha estado a beber a tarde toda e chegara agora a um ponto em que a bebida parecia deixá-lo mais sóbrio. Mas havia lacunas. Tinha parado no bar junto do mercado, tinha escutado uma canção na jukebox, e de alguma maneira havia escurecido antes que se recordasse das coisas no jardim.

Viu o carro na entrada para a garagem e a rapariga deitada na cama. O televisor estava ligado. Depois viu o rapaz no alpendre. Fez o caminho pela relva.

— Olá — disse Max à rapariga. — Vejo que encontraste a cama. Ainda bem.

— Olá — disse a rapariga, e levantou-se. — Estava só a experimentá-la. — Deu umas palmadas no colchão. — É uma cama bem boa.

—É uma boa cama — disse Max. — O que é que eu digo agora?

Ele sabia que devia dizer alguma coisa em seguida. Pousou o saco de compras e tirou de lá a cerveja e o whisky.

— Julgávamos que não estava ninguém aqui — disse o rapaz.

— Estamos interessados na cama e, quem sabe, na televisão. Talvez também na secretária. Quanto é que quer pela cama?

— Estava a pensar em cinquenta dólares pela cama — disse Max.

— Aceita quarenta? — perguntou a rapariga.

— Está bem, aceito quarenta — disse Max.

Tirou um copo do caixote, desembrulhou o copo do papel de jornal e rodou a tampa da garrafa de whisky quebrando- lhe o selo.

—E quanto à televisão? — perguntou o rapaz.

— Vinte e cinto.

— Aceita vinte? — perguntou a rapariga.

— Vinte, está bem. Posso aceitar vinte — disse Max. A rapariga olhou para o rapaz.

— Miúdos, querem uma bebida?— disse Max. — Os copos estão no caixote. Vou sentar-me. Vou sentar-me no sofá.

Sentou-se no sofá, recostou-se, e ficou a olhar para eles.

O rapaz encontrou dois copos e serviu-os de whisky.

— Quanto é que queres disto? — perguntou à rapariga.

Tinham apenas vinte anos, o rapaz e a rapariga, e faziam anos com a diferença mais ou menos de um mês.

— Já chega — disse a rapariga. — Acho que quero água no meu.

Ela puxou uma cadeira e sentou-se à mesa da cozinha.

— Há água naquela torneira ali — disse Max. — Abre aquela torneira.

O rapaz deitou água nos dois whiskies. Aclarou a garganta antes de também se sentar à mesa da cozinha. Depois sorriu. Pássaros esvoaçavam por cima deles, à caça de insectos.

Max olhava para a televisão. Terminou a sua bebida. Alcançou o interruptor do candeeiro de pé e deixou cair o cigarro no espaço entre as almofadas do sofá. A rapariga levantou-se para o ajudar a encontrá-lo.

— Queres mais alguma coisa, querida? — disse o rapaz.

Ele sacou do livro de cheques. Serviu-se a si, e à rapariga, de mais whisky.

— Oh, quero a secretária — disse a rapariga. — Quanto é que custa a secretária?

Max fez um aceno com a mão perante esta pergunta disparatada.

— Diz-me tu um número — disse.

Olhou para eles, sentados à mesa. À luz do candeeiro havia alguma coisa peculiar na expressão dos seus rostos. Durante um minuto esta expressão pareceu conspiratória e depois tornou-se terna — não havia outra palavra. O rapaz tocou na mão dela.

— Vou desligar a televisão e pôr um disco a tocar — disse Max. — O gira-discos também está à venda. Barato. Façam- -me uma oferta.

Ele serviu-se de mais whisky e abriu uma garrafa de cerveja.

— Está tudo à venda.

A rapariga ergueu o copo e o homem serviu-a de whisky.

— Obrigada — disse ela.

— Isto sobe à cabeça — disse o rapaz. — Estou a sentir isto chegar-me à cabeça.

Acabou a bebida, aguardou, e serviu-se novamente. Estava a escrever um cheque quando Max encontrou os discos.

— Escolhe alguma coisa de que gostes — disse Max à rapariga, e mostrou-lhe os discos.

O rapaz continuava a escrever o cheque.

— Este — disse a rapariga, apontando. Não conhecia os discos, mas não tinha importância. Aquilo era uma aventura. Levantou-se da mesa e depois tornou a sentar-se. Não lhe apetecia estar sentada e quieta.

— Vou passar o cheque ao portador — disse o rapaz, ainda a escrever.

— Claro — disse Max. Bebeu o que restava do whisky e depois começou a beber a cerveja. Sentou-se outra vez no sofá e cruzou as pernas.

Beberam. Ouviram o disco até ao final. E depois Max pôs outro disco a tocar.

— Por que não dançam? — disse Max. — É uma boa ideia. Por que não dançam?

— Não, não me parece — disse o rapaz. — Queres dançar, Carla?

— Força — disse Max. — O jardim é meu. Podem dançar se quiserem.

Braços em volta um do outro, corpos unidos, rapaz e rapariga subiram e desceram a entrada da garagem. Estavam a dançar.

Quando o disco chegou ao fim, a rapariga pediu a Max para dançar com ela. Ainda estava descalça.

— Estou bêbedo — disse ele.

— Não estás bêbedo — disse a rapariga.

— Bom, eu estou bêbedo — disse o rapaz.

Max voltou o disco ao contrário e a rapariga aproximou- -se. Começaram a dançar.

A rapariga olhou para as pessoas que se reuniam na janela de sacada do outro lado da rua.

— Aquelas pessoas que ali estão. A observar-nos — disse ela. — Há problema?

— Não faz mal — disse Max. — É o meu jardim. Podemos dançar. Achavam que já tinham visto acontecer de tudo por aqui, mas isto nunca viram — disse ele.

Ele começou a sentir o hálito dela no pescoço, e disse:

— Espero que gostes da tua cama.

— Vou gostar — disse a rapariga.

— Espero que os dois gostem — disse Max.

— Jack! — disse a rapariga. — Acorda!

Jack segurava o queixo e observava enquanto eles dançavam.

— Jack — disse a rapariga.

Ela fechou e depois abriu os olhos. Empurrou o rosto contra o ombro de Max. Puxou-o para mais próximo de si.

— Jack — murmurou ela.

Ela olhou para a cama e foi incapaz de compreender o que estava aquilo a fazer no jardim. Olhou para o céu, por cima do ombro de Max. Segurou-se a Max. Estava tomada de uma felicidade insuportável.

Mais tarde, a rapariga disse:

— O tipo era de meia-idade. Tinha as coisas todas ali no jardim. Não estou a brincar. Apanhámos um grande pifo e dançámos. Na entrada para a garagem. Oh, meu Deus. Não te rias. Ele pôs discos a tocar. Olha para este gira-discos que ele nos ofereceu. E estes discos velhos também. O Jack e eu dormimos na cama dele. O Jack estava de ressaca e teve de alugar uma carrinha pela manhã. Para transportar as coisas todas do gajo. Acordei uma vez. Ele estava a tapar-nos com o cobertor, o tipo. Este cobertor. Toca-lhe.

Ela continuou a falar. Contou a toda a gente. Havia alguma coisa por dizer, ela sabia-o, mas não o conseguia exprimir em palavras. Passado algum tempo deixou de falar no assunto.

Vi no Diário Digital.

PARTES

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__ Meu conselho mais importante a todos vocês, aspirantes a escritor: ao escrever, tentem deixar de fora as partes que os leitores pulam.

Elmore Leonard

A ARTISTA DO CORPO

Don DeLillo

confusão

O tempo parece passar. O mundo acontece, desenrolando-se em momentos, e você pára e olha de relance para uma aranha comprimida contra a teia. Há uma nitidez de luz e a sensação de que as coisas estão precisamente delimitadas e listras reluzentes na superfície da baía. Você sabe melhor quem você é num dia de luz forte depois de uma tempestade, em que a mais miúda folha que cai é transfixada pela autoconsciência. O vento arranca um som dos pinheiros e o mundo se faz, irreversivelmente, e a aranha paira na teia balançada pelo vento.

Aconteceu nessa última manhã de eles estarem ali ao mesmo tempo, na cozinha, um se esgueirando do outro, passo arrastado, pegando coisas em armários e gavetas, depois cada um esperando sua vez de usar a pia ou a geladeira, os dois ainda um pouco imersos na poça dos sonhos derretidos, e ela abriu a torneira para lavar um punhado de mirtilos e fechou os olhos para sentir o aroma.

Jornal na mão, ele mexia o café. Eram dele o café e a xícara. O jornal era lido pelos dois mas na verdade, tacitamente, era dela.
"Quero dizer uma coisa mas o quê."

A água escorria da torneira e ela pareceu notar. Era a primeira vez que ele notava.

"Sobre a casa. É isso", disse ele. "Uma coisa que eu queria te dizer."

Ela notou que a água da torneira ficava opaca em segundos. Saía cristalina e aí segundos depois ficava opaca e o engraçado era que depois de todos esses meses e todas as vezes que ela abriu a torneira da pia da cozinha ela nunca tinha notado que a água saía límpida no início e depois ficava não exatamente turva mas opaca, ou então nunca tinha acontecido antes, ou ela tinha notado e depois esquecido.

PRETO NO BRANCO

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Allan Sieber

CABO DO MEDO

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Martin Scorcese.