domingo, 3 de julho de 2016

FRAMES LAWRENCE DA ARÁBIA

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CONTO A FOGUEIRA

Mia Couto

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    A velha estava sentada na esteira, parada na espera do homem saído no mato. As pernas sofriam o cansaço de duas vezes: dos caminhos idosos e dos tempos caminhados.

    A fortuna dela estava espalhada pelo chão: tigelas, cestas, pilão. Em volta era o nada, mesmo o vento estava sozinho.

    O velho foi chegando, vagaroso como era seu costume. Pastoreava suas tristezas desde que os filhos mais novos foram na estrada sem regresso.

“Meu marido está diminuir”, pensou ela. “É uma sombra.”

Sombra, sim. Mas só da alma porque o corpo quase que não tinha. O velho chegou mais perto e arrumou a sua magreza na esteira vizinha. Levantou o rosto e, sem olhar a mulher, disse:

— Estou a pensar.

— É o quê, marido?

— Se tu morres como é que eu, sozinho, doente e sem as forças, como é que eu vou‑lhe enterrar?

Passou os dedos magros pela palha do assento e continuou:

— Somos pobres, só temos nadas. Nem ninguém não temos. É melhor começar já a abrir a tua cova, mulher.

    A mulher, comovida, sorriu:

— Como és bom marido! Tive sorte no homem da minha vida. O velho ficou calado, pensativo. Só mais tarde a sua boca teve ocasião:

— Vou ver se encontro uma pá.

— Onde podes levar uma pá?

— Vou ver na cantina.

— Vais daqui até na cantina? É uma distância.

— Hei de vir da parte da noite.

    Todo o silêncio ficou calado para ela escutar o regresso do marido. Farrapos de poeira demoravam o último sol, quando ele voltou.

— Então, marido?

— Foi muito caríssima — e levantou a pá para melhor a acusar.

— Amanhã de manhã começo o serviço de covar.

    E deitaram‑se, afastados. Ela, com suavidade, interrompeu‑lhe o adormecer:

— Mas, marido...

— Diz lá.

— Eu nem estou doente.

— Deve ser que estás. Você és muito velha.

— Pode ser — concordou ela. E adormeceram.

    Ao outro dia, de manhã, ele olhava‑a intensamente.

— Estou a medir o seu tamanho. Afinal, você é maior que eu pensava.

— Nada, sou pequena.

    Ela foi à lenha e arrancou alguns toros.

— A lenha está para acabar, marido. Vou no mato levar mais.

— Vai mulher. Eu vou ficar covar seu cemitério.

    Ela já se afastava quando um gesto a prendeu à capulana e, assim como estava, de costas para ele, disse:

— Olha, velho. Estou pedir uma coisa...

— Queres o quê?

    — Cova pouco fundo. Quero ficar em cima, perto do chão, tocar a vida quase um bocadinho.

— Está certo. Não lhe vou pisar com muita terra.

    Durante duas semanas o velho dedicou‑se ao buraco. Quanto mais perto do fim mais se demorava. Foi de repente, vieram as chuvas. A campa ficou cheia de água, parecia um charco sem respeito. O velho amaldiçoou as nuvens e os céus que as trouxeram.

— Não fala asneiras, vai ser dado o castigo — aconselhou ela. Choveram mais dias e as paredes da cova ruíram. O velho atravessou o seu chão e olhou o estrago. Ali mesmo decidiu continuar. Molhado, sob o rio da chuva, o velho descia e subia, levantando cada vez mais gemidos e menos terra.

— Sai da chuva, marido. Você não aguenta, assim.

— Não barulha, mulher — ordenou o velho. De quando em quando parava para olhar o cinzento do céu. Queria saber quem teria mais serviço, se ele se a chuva.

    No dia seguinte o velho foi acordado pelos seus ossos que o puxavam para dentro do corpo dorido.

— Estou a doer‑me, mulher. Já não aguento levantar.

    A mulher virou‑se para ele e limpou‑lhe o suor do rosto.

— Você está cheio com a febre. Foi a chuva que apanhaste.

— Não é, mulher. Foi que dormi perto da fogueira.

— Qual fogueira?

    Ele respondeu um gemido. A velha assustou‑se: qual o fogo que o homem vira? Se nenhum não haviam acendido?

    Levantou‑se para lhe chegar a tigela com a papa de milho. Quando se virou já ele estava de pé, procurando a pá. Pegou nela e arrastou‑se para fora de casa. De dois em dois passos parava para se apoiar.

— Marido, não vai assim. Come primeiro.

    Ele acenou um gesto bêbado. A velha insistiu:

— Você está esquerdear, direitar. Descansa lá um bocado.

    Ele estava já dentro do buraco e preparava‑se para retomar a obra. A febre castigava‑lhe a teimosia, as tonturas dançando com os lados do mundo. De repente, gritou‑se num desespero:

— Mulher, ajuda‑me.

Caiu como um ramo cortado, uma nuvem rasgada. A velha acorreu para o socorrer.

— Estás muito doente.

Puxando‑o pelos braços ela trouxe‑o para a esteira. Ele ficou deitado a respirar. A vida dele estava toda ali, repartida nas costelas que subiam e desciam. Neste deserto solitário, a morte é um simples deslizar, um recolher de asas. Não é um rasgão violento como nos lugares onde a vida brilha.

— Mulher — disse ele com voz desaparecida. — Não lhe posso deixar assim.

— Estás a pensar o quê?

— Não posso deixar aquela campa sem proveito. Tenho que matar‑te.

    — É verdade, marido. Você teve tanto trabalho para fazer aquele buraco. É uma pena ficar assim.

— Sim, hei de matar você; hoje não, falta‑me o corpo.

    Ela ajudou‑o a erguer‑se e serviu‑lhe uma chávena de chá.

— Bebe, homem. Bebe para ficar bom, amanhã precisas da força.

    O velho adormeceu, a mulher sentou‑se à porta. Na sombra do seu descanso viu o sol vazar, lento rei das luzes. Pensou no dia e riu‑se dos contrários: ela, cujo nascimento faltara nas datas, tinha já o seu fim marcado. Quando a lua começou a acender as árvores do mato ela inclinou‑se e adormeceu. Sonhou dali para muito longe: vieram os filhos, os mortos e os vivos, a machamba encheu‑se de produtos, os olhos a escorregarem no verde. O velho estava no centro, gravatado, contando as histórias, mentira quase todas. Estavam ali os todos, os filhos e os netos. Estava ali a vida a continuar‑se, grávida de promessas. Naquela roda feliz, todos acreditavam na verdade dos velhos, todos tinham sempre razão, nenhuma mãe abria a sua carne para a morte. Os ruídos da manhã foram‑na chamando para fora de si, ela negando abandonar aquele sonho, pediu com tanta devoção como pedira à vida que não lhe roubasse os filhos.

    Procurou na penumbra o braço do marido para acrescentar força naquela tremura que sentia. Quando a sua mão encontrou o corpo do companheiro viu que estava frio, tão frio que parecia que, desta vez, ele adormecera longe dessa fogueira que ninguém nunca acendera.

Mundo de K.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

FRAMES SAMURAI JACK

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Uma nova temporada está chegando. Eba!

TRAILER THE GREASY STRANGLER

Nojento. Escroto. Bizarro. E legal pra caramba?

FRAMES PONTYPOOL

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Uma misteriosa infecção. Uma equipe de rádio acuada. Claustrofóbico e instigante, Pontypool é um filme que me surpreendeu com sua direção inteligente a cargo de Bruce McDonald e seu roteiro esperto escrito por Tony Burgess, a partir de sua novela – tá aí dois caras a se prestar atenção.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

CAPA PULP JACKIE BROWN

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TRAILER Stranger Things

THE ART OF LIVING

The art of living is based on rhythm - on give and take, ebb and flow, light and dark, life and death. By acceptance of all aspects of life, good and bad, right and wrong, yours and mine, the static, defensive life, which is what most people are cursed with, is converted into a dance, ‘the dance of life,’ metamorphosis. One can dance to sorrow or to joy; one can even dance abstractly. But the point is that, by the mere act of dancing, the elements which compose it are transformed; the dance is an end in itself, just like life. The acceptance of the situation, any situation, brings about a flow, a rhythmic impulse towards self-expression. To relax is, of course, the first thing a dancer has to learn. It is also the first thing a patient has to learn when he confronts the analyst. It is the first thing any one has to learn in order to live. It is extremely difficult, because it means surrender, full surrender.

— 
Henry Miller, The Wisdom of the Heart

segunda-feira, 6 de junho de 2016

FRAMES Das Boot – O BARCO INFERNO NO MAR

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Filmaço claustrofóbico de Wolfgang Petersen – os horrores da guerra passados no interior de um submarino.

sábado, 4 de junho de 2016

DESEJO

Queria voltar a experimentar os encantos que a vida oferecia. A vontade irresistível que se sentia de ir atrás dos prazeres da carne e álcool era a versão civilizada da vontade do homem primitivo de ir a cavalo atrás da caça, de matar e comer carne crua; era semelhante à luxúria que movera ao combate sangrento os samurais da Idade Média em suas suntuosas armaduras. Essas pulsões eram diferentes facetas de uma força sombria e inesgotável: o desejo. A sociedade moderna canalizara essa força para busca do prazer sexual, ou ainda para a competitividade do mundo dos negócios.

Nagai Kafu, Guerra das gueixas

FRAMES BANSHEE

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O POSTE

“Ali está a sua preciosa ordem, aquele poste fino de ferro, feio e infértil; e ali está a anarquia, rica, viva e se reproduzindo — ali está a anarquia, esplêndida em verde e dourado.”

“Mesmo assim”, replicou Syme paciente, “neste exato momento você só está vendo a árvore à luz do poste. Eu fico aqui pensando quando é que você iria ver o poste à luz da árvore.”

G. K. Chesterton, O homem que era quinta-feira

sexta-feira, 3 de junho de 2016

FRAMES Twin Peaks: Fire Walk With Me

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TRAILER CLUBE DA LUTA II

CONTO BALA DE PRATA OU OS PEDAÇOS AZEDOS DE DOCES MORTOS

José Marcelo da Silva
Robin (larissa louise)
O tempo é nada mais que aqui. Agora. O lugar é uma cidadezinha açoitada por uma poeira vermelha e por ondas escuras de um mar poluído e fétido. É o lugar que, como um elefante velho e exausto, escolhi para morrer. É uma droga de lugar mas desconfio que eu acharia uma droga qualquer lugar em que estivesse.
Ontem sentei na praia e fiquei olhando as nuvens, deitado na areia úmida e desagradável à pele, mastigando doces vencidos que achei por aí. As nuvens eram disformes e pesadas. Abafavam o calor sufocante entre a terra e o céu. Ocasionalmente o sol que espiava entre essas nuvens era como um olho ferido de onde escorria sangue amarelo e quente. Era como pus.
O meu estado de espírito ultimamente tem sido como se eu estivesse terrivelmente doente. Provavelmente porque eu realmente estou. Doente. Morrendo.
Sinto muito, dissera a médica na semana anterior. Não há muito a se fazer.
Eu realmente não ouvi tudo o que ela disse, embora concordasse educadamente a cada vez que ela pausava. Ela parecia nervosa. Acho que nunca dera uma notícia tão terrível a alguém. Atrás dela havia uma pintura de uma garotinha sorrindo e segurando o fio de uma balão vermelho. A garotinha fora pintada de modo incrivelmente detalhado e realista, mas o balão e a rua ao seu fundo eram borrados como se tudo não passasse de imaginação. Um sonho que se esvanecia, embora a garotinha não se desse conta disso.
Quanto tempo?
Não muito. Algumas semanas. Talvez menos. Dias, talvez.
Entendo.
Sinto muito.
Depois que saí do consultório, pensei em ir a um bar qualquer e encher a cara até desmaiar, mas estava sem grana. No entanto, fui assim mesmo.
Bebi demais, sozinho, pateticamente, até que uma puta acabada chegou e disse, me paga uma dose?
Claro. Beba o que quiser. Depois você me dá uma chupada, uma grande chupada, e ficamos quites.
Ela sorriu, vai precisar me pagar mais que uma dose para isso.
Por mim tudo bem.
Depois da segunda dose, ela me disse, vem comigo, vou te dar aquela chupada agora, mas só porque gostei de você.
Então tá.
Ela me levou ao banheiro, um lugar feio e sujo, empapado pelo cheiro forte de urina, e ajoelhou-se e colocou meu pau para fora e chupou com um ânimo que eu não via a muito tempo. Eu acariciava os cabelos dela, eram macios e muito bonitos, e olhava meu rosto no espelho carcomido sobre a pia. Eu tentava sorrir, mas tudo o que consegui foram caretas horríveis. Quando gozei, ela engoliu tudo, claro, realmente era muito boa no que fazia.
Você tem um gosto bom, ela disse.
Obrigado.
Tenho que ir. Ela levantou-se e lavou a boca na pia e deu uma boa olhada em si mesma no espelho. Aparentemente gostou do que viu. A gente se vê.
Até lá então.
Da próxima vez, vou fazer serviço completo. Saiu e me deixou com o pau murchando fora da calça.
Nunca mais a vi.
Voltei para a mesa. A cerveja era amarela, gelada, amarga. Na hora de pagar o porre, sorri e disse que não tinha dinheiro. O cara do bar ficou puto, acho que pensou em me bater, chegou mesmo a me puxar pela camisa, mas desistiu. Não era um homem violento. Disse suma daqui. Não sei por que não chamou a polícia. Deve ter percebido que havia algo errado comigo. Não sei e não me importei.
Realmente não sei como cheguei em casa.
Agora eu me sento na cama e corto os braços. São cortes longos que vão do cotovelo ao pulso. Eu o faço calmamente, como se não doesse. Minha cama logo fica empapada de sangue. Eu largo a faca, deito na cama e fecho os olhos.
Minha última lembrança é a memória de uma criança correndo e girando e uivando como um lobo. Eu queria ser um lobisomem quando criança.
Agora sou apenas um velho morrendo sozinho por aí, mais um, e nem preciso de uma bala de prata para isso.

FRAMES ANIVERSÁRIO MACABRO

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BASTIDORES O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA

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