Um dos mais criativos desenhistas de histórias em quadrinhos.
Um dia ideal para os peixes-banana e livros e cinema e gibis e nus e ataxia espinocerebelar e 𓋹
quarta-feira, 27 de julho de 2016
sexta-feira, 8 de julho de 2016
domingo, 3 de julho de 2016
CONTO A FOGUEIRA
Mia Couto
A velha estava sentada na esteira, parada na espera do homem saído no mato. As pernas sofriam o cansaço de duas vezes: dos caminhos idosos e dos tempos caminhados.
A fortuna dela estava espalhada pelo chão: tigelas, cestas, pilão. Em volta era o nada, mesmo o vento estava sozinho.
O velho foi chegando, vagaroso como era seu costume. Pastoreava suas tristezas desde que os filhos mais novos foram na estrada sem regresso.
“Meu marido está diminuir”, pensou ela. “É uma sombra.”
Sombra, sim. Mas só da alma porque o corpo quase que não tinha. O velho chegou mais perto e arrumou a sua magreza na esteira vizinha. Levantou o rosto e, sem olhar a mulher, disse:
— Estou a pensar.
— É o quê, marido?
— Se tu morres como é que eu, sozinho, doente e sem as forças, como é que eu vou‑lhe enterrar?
Passou os dedos magros pela palha do assento e continuou:
— Somos pobres, só temos nadas. Nem ninguém não temos. É melhor começar já a abrir a tua cova, mulher.
A mulher, comovida, sorriu:
— Como és bom marido! Tive sorte no homem da minha vida. O velho ficou calado, pensativo. Só mais tarde a sua boca teve ocasião:
— Vou ver se encontro uma pá.
— Onde podes levar uma pá?
— Vou ver na cantina.
— Vais daqui até na cantina? É uma distância.
— Hei de vir da parte da noite.
Todo o silêncio ficou calado para ela escutar o regresso do marido. Farrapos de poeira demoravam o último sol, quando ele voltou.
— Então, marido?
— Foi muito caríssima — e levantou a pá para melhor a acusar.
— Amanhã de manhã começo o serviço de covar.
E deitaram‑se, afastados. Ela, com suavidade, interrompeu‑lhe o adormecer:
— Mas, marido...
— Diz lá.
— Eu nem estou doente.
— Deve ser que estás. Você és muito velha.
— Pode ser — concordou ela. E adormeceram.
Ao outro dia, de manhã, ele olhava‑a intensamente.
— Estou a medir o seu tamanho. Afinal, você é maior que eu pensava.
— Nada, sou pequena.
Ela foi à lenha e arrancou alguns toros.
— A lenha está para acabar, marido. Vou no mato levar mais.
— Vai mulher. Eu vou ficar covar seu cemitério.
Ela já se afastava quando um gesto a prendeu à capulana e, assim como estava, de costas para ele, disse:
— Olha, velho. Estou pedir uma coisa...
— Queres o quê?
— Cova pouco fundo. Quero ficar em cima, perto do chão, tocar a vida quase um bocadinho.
— Está certo. Não lhe vou pisar com muita terra.
Durante duas semanas o velho dedicou‑se ao buraco. Quanto mais perto do fim mais se demorava. Foi de repente, vieram as chuvas. A campa ficou cheia de água, parecia um charco sem respeito. O velho amaldiçoou as nuvens e os céus que as trouxeram.
— Não fala asneiras, vai ser dado o castigo — aconselhou ela. Choveram mais dias e as paredes da cova ruíram. O velho atravessou o seu chão e olhou o estrago. Ali mesmo decidiu continuar. Molhado, sob o rio da chuva, o velho descia e subia, levantando cada vez mais gemidos e menos terra.
— Sai da chuva, marido. Você não aguenta, assim.
— Não barulha, mulher — ordenou o velho. De quando em quando parava para olhar o cinzento do céu. Queria saber quem teria mais serviço, se ele se a chuva.
No dia seguinte o velho foi acordado pelos seus ossos que o puxavam para dentro do corpo dorido.
— Estou a doer‑me, mulher. Já não aguento levantar.
A mulher virou‑se para ele e limpou‑lhe o suor do rosto.
— Você está cheio com a febre. Foi a chuva que apanhaste.
— Não é, mulher. Foi que dormi perto da fogueira.
— Qual fogueira?
Ele respondeu um gemido. A velha assustou‑se: qual o fogo que o homem vira? Se nenhum não haviam acendido?
Levantou‑se para lhe chegar a tigela com a papa de milho. Quando se virou já ele estava de pé, procurando a pá. Pegou nela e arrastou‑se para fora de casa. De dois em dois passos parava para se apoiar.
— Marido, não vai assim. Come primeiro.
Ele acenou um gesto bêbado. A velha insistiu:
— Você está esquerdear, direitar. Descansa lá um bocado.
Ele estava já dentro do buraco e preparava‑se para retomar a obra. A febre castigava‑lhe a teimosia, as tonturas dançando com os lados do mundo. De repente, gritou‑se num desespero:
— Mulher, ajuda‑me.
Caiu como um ramo cortado, uma nuvem rasgada. A velha acorreu para o socorrer.
— Estás muito doente.
Puxando‑o pelos braços ela trouxe‑o para a esteira. Ele ficou deitado a respirar. A vida dele estava toda ali, repartida nas costelas que subiam e desciam. Neste deserto solitário, a morte é um simples deslizar, um recolher de asas. Não é um rasgão violento como nos lugares onde a vida brilha.
— Mulher — disse ele com voz desaparecida. — Não lhe posso deixar assim.
— Estás a pensar o quê?
— Não posso deixar aquela campa sem proveito. Tenho que matar‑te.
— É verdade, marido. Você teve tanto trabalho para fazer aquele buraco. É uma pena ficar assim.
— Sim, hei de matar você; hoje não, falta‑me o corpo.
Ela ajudou‑o a erguer‑se e serviu‑lhe uma chávena de chá.
— Bebe, homem. Bebe para ficar bom, amanhã precisas da força.
O velho adormeceu, a mulher sentou‑se à porta. Na sombra do seu descanso viu o sol vazar, lento rei das luzes. Pensou no dia e riu‑se dos contrários: ela, cujo nascimento faltara nas datas, tinha já o seu fim marcado. Quando a lua começou a acender as árvores do mato ela inclinou‑se e adormeceu. Sonhou dali para muito longe: vieram os filhos, os mortos e os vivos, a machamba encheu‑se de produtos, os olhos a escorregarem no verde. O velho estava no centro, gravatado, contando as histórias, mentira quase todas. Estavam ali os todos, os filhos e os netos. Estava ali a vida a continuar‑se, grávida de promessas. Naquela roda feliz, todos acreditavam na verdade dos velhos, todos tinham sempre razão, nenhuma mãe abria a sua carne para a morte. Os ruídos da manhã foram‑na chamando para fora de si, ela negando abandonar aquele sonho, pediu com tanta devoção como pedira à vida que não lhe roubasse os filhos.
Procurou na penumbra o braço do marido para acrescentar força naquela tremura que sentia. Quando a sua mão encontrou o corpo do companheiro viu que estava frio, tão frio que parecia que, desta vez, ele adormecera longe dessa fogueira que ninguém nunca acendera.
sábado, 2 de julho de 2016
quinta-feira, 30 de junho de 2016
sexta-feira, 24 de junho de 2016
segunda-feira, 20 de junho de 2016
sábado, 18 de junho de 2016
quinta-feira, 16 de junho de 2016
FRAMES PONTYPOOL
Uma misteriosa infecção. Uma equipe de rádio acuada. Claustrofóbico e instigante, Pontypool é um filme que me surpreendeu com sua direção inteligente a cargo de Bruce McDonald e seu roteiro esperto escrito por Tony Burgess, a partir de sua novela – tá aí dois caras a se prestar atenção.
terça-feira, 14 de junho de 2016
domingo, 12 de junho de 2016
sábado, 11 de junho de 2016
sexta-feira, 10 de junho de 2016
THE ART OF LIVING
The art of living is based on rhythm - on give and take, ebb and flow, light and dark, life and death. By acceptance of all aspects of life, good and bad, right and wrong, yours and mine, the static, defensive life, which is what most people are cursed with, is converted into a dance, ‘the dance of life,’ metamorphosis. One can dance to sorrow or to joy; one can even dance abstractly. But the point is that, by the mere act of dancing, the elements which compose it are transformed; the dance is an end in itself, just like life. The acceptance of the situation, any situation, brings about a flow, a rhythmic impulse towards self-expression. To relax is, of course, the first thing a dancer has to learn. It is also the first thing a patient has to learn when he confronts the analyst. It is the first thing any one has to learn in order to live. It is extremely difficult, because it means surrender, full surrender.
—
Henry Miller, The Wisdom of the Heart
quarta-feira, 8 de junho de 2016
segunda-feira, 6 de junho de 2016
FRAMES Das Boot – O BARCO INFERNO NO MAR
Filmaço claustrofóbico de Wolfgang Petersen – os horrores da guerra passados no interior de um submarino.
domingo, 5 de junho de 2016
sábado, 4 de junho de 2016
DESEJO
Queria voltar a experimentar os encantos que a vida oferecia. A vontade irresistível que se sentia de ir atrás dos prazeres da carne e álcool era a versão civilizada da vontade do homem primitivo de ir a cavalo atrás da caça, de matar e comer carne crua; era semelhante à luxúria que movera ao combate sangrento os samurais da Idade Média em suas suntuosas armaduras. Essas pulsões eram diferentes facetas de uma força sombria e inesgotável: o desejo. A sociedade moderna canalizara essa força para busca do prazer sexual, ou ainda para a competitividade do mundo dos negócios.
Nagai Kafu, Guerra das gueixas
O POSTE
“Ali está a sua preciosa ordem, aquele poste fino de ferro, feio e infértil; e ali está a anarquia, rica, viva e se reproduzindo — ali está a anarquia, esplêndida em verde e dourado.”
“Mesmo assim”, replicou Syme paciente, “neste exato momento você só está vendo a árvore à luz do poste. Eu fico aqui pensando quando é que você iria ver o poste à luz da árvore.”
G. K. Chesterton, O homem que era quinta-feira