segunda-feira, 15 de abril de 2013

TRECHO ‘O CASO MOREL’

Rubem Fonseca

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Capítulo 1
Matos e Vilela se encontram na porta da penitenciária. Sozinho Vilela teria dificuldade para entrar, mas com Matos as portas são abertas. Chegam à cela de Morel.
Cubículo pequeno. Cama estreita com cobertor cinzento. Mesa cheia de livros; rádio portátil; pia; latrina; mais livros empilhados no chão.
Morel é um homem magro, pálido, cabelos escuros, grisalhos nas têmporas. Rugas fundas cortam seu rosto. Veste uma camisa branca e calça cinza, amassadas. Possivelmente dorme com aquela roupa.
"Tenho dois dos seus livros aqui."
Procura os livros, acha apenas um deles. "O outro sumiu. Você não quer sentar?" Morel indica a Vilela a única cadeira da cela.
"Vou deixar vocês sozinhos. Tenho ainda muita coisa para fazer", diz
Matos.
"Obrigado." Morel aperta a mão de Matos.
"Vocês vão se dar bem. Quando quiser sair, bate na porta e manda chamar o inspetor Rangel."
Matos sai.
"Nem sei como começar", diz Morel. "O Rei disse para Alice 'começa no princípio, depois continua, chega ao fim e pára'. Mas onde é o princípio?"
Vilela: "Você também pode começar do fim e terminar no princípio, ou no meio".
"Preciso da sua ajuda."
"Diga como."
"Eu preciso escrever um livro. Matos não lhe falou?"
"Disse que você queria falar com um escritor."
"Quero ajuda para escrever um livro."
"Quanto menos ajuda dos outros, melhor."
Morel reflete por instantes.
"Estou muito arrasado."
"É assim mesmo que se escreve."
"Eu quero ter certeza de que vou ser publicado."
"Essa certeza você não pode ter."
Morel sentado na capa. Deita lentamente, com os braços cruzados sobre os olhos. Vilela pega um livro, sobre a mesa. Visão e invenção.
"Adianta escrever, se ninguém vai ler?"
"Adianta, sempre."
"Passo as noites sonhando com a minha carreira literária", a ironia na voz é forçada.
"Você quer um biscoito?"
Uma lata de biscoitos debaixo da cama.
Comem biscoitos.
"Onde você arranjou esse monte de livros?"
"São meus."
"Quem traz?"
"O doutor Matos. Dei a ele a chave da minha casa. Eu peço os livros ele vai na minha estante e apanha. Às vezes ele me compra um livro, mas o gosto dele não combina muito com o meu."
"Você já escreveu alguma coisa?", pergunta Vilela.
II
AVERTISSEMENT
Ce livre n'est pas fait pour les enfants, ni même pour les jeunes gens, encore moins pour les jeunes filles. Il s'adres- se exclusivement aux gens mariés, aux pères et mères de famille, aux personnes sérieuses et mûres qui se préoccu- pent des questions sociales et cherchent à enrayer le mou- vement de décadence qui nous entraîne aux abîmes. Son but n'est pas d'amuser, mais d'instruire et de moraliser. Dr. Surbled, 1913.
Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.
Lembro-me de que quando entrei no cabaré, em São Paulo, a velha Dorotéia foi logo pedindo que eu tocasse guitarra para ela. Infelizmente não era possível, eu não sabia tocar o instrumento.
Em Belo Horizonte o céu era limpo. Eu saía com os bolsos cheios de tangerinas e andava pelas ruas tentando chutar todos os caroços. Em bh eu não era músico.
"Vi logo pela sua cara que você era um homem do mar", disse Marlene Lima, que passou a vida tentando ser artista de cinema e agora era uma trintona jogada fora. Estávamos na Zona. Eu descrevia para Marlene as minhas aventuras pelos países da Ásia.
No Rio voltei à minha impostura de músico de orquestra. O porteiro do hotel me olhava respeitoso, ele queria ser músico, tentava o sax, o trombone, mas era fraco do peito. Boîtes da cidade.
"Posso oferecer-lhe uma bebida?"
"Quem é você? Um industrial rico ou um vagabundo?"
"Industrial rico."
"De onde?"
"São Paulo."
"Ah. São Paulo... É longe de Porto Alegre?"
Ela tinha um sotaque de gringa européia. Grande, loura, olhos azuis. Havia conhecido um sujeito em Porto Alegre.
"Você conhece ele? Carlos Rocha?"
"Não."
Segurou no meu pau, perguntou: "Quer que eu lhe faça feliz?".
Queria me fazer feliz ali no cantinho do bar. Rápido e sem dor.
"Aqui não, vamos para outro lugar", eu disse.
"As pessoas pagam duzentos para ficar comigo."
"Está bem."
"Mas só se você tiver camisinha."
Saí e fui à farmácia.
Voltei para onde ela estava. Mostrei o pacotinho.
Eram três horas da manhã.
Saímos para pegar um táxi.
"Ilha do Governador."
O motorista não queria ir. Violento bate-boca entre nós. Eu e a mulher vencemos.
Uma pobre casa, incrivelmente quente. Dezembro. As paredes cheias de fotografias. Ela aos seis anos, aos sete. Aos quinze, aos dezoito. Sempre só. Nem pai, nem mãe. Só. Nem amigos.
"Você sabe, nós os trapezistas temos os pés muito afiados", ela disse. Foi então que eu soube que ela tinha sido trapezista, quando menina. Viera com os pais, que trabalhavam no Circo Sarrazani.
Pedi um uísque. Ela só tinha coca ou guaraná.
"Meu amigo de Porto Alegre é um intelectual. Eu não confio em intelectuais."
"Nem eu."
Durante quinze minutos ficou tirando grampos da cabeça.
Era bonita. Abri o fecho da minha calça e me exibi para ela.
"Calma, rapaz, onde é que está a camisinha?"
Os romanos inventaram a camisa-de-vênus, conforme Antonius Liberalis conta nas Metamorfoses. Em 1564 o dr. Fallopius redescobriu-a, ao recomendar o uso de um saco de linho como preventivo das infecções venéreas.*
(*) A narrativa de Paul Morel é freqüentemente interrompida por citações. Algumas são dele mesmo, outras de autores provavelmente lidos na prisão.
Me deu vontade de ir embora.
"Vou-me embora."
"Calma, rapaz."
Fui até o espelho que havia no quarto. Na verdade eu estava mesmo com a cara perigosa de sujeito com gonorréia.
Tentei telefonar para um táxi, sem conseguir.
"Vou-me embora."
Pela cara da ex-trapezista vi que ela estava tão na merda quanto eu.
"É por causa da camisinha?" Não tinha mais o ar de uma pessoa de pés espertos. Era uma mulher cansada.
"Não."
"Os duzentos cruzeiros? Essa é a razão?"
"Eu quero ir embora, é só isso."
Colocou o polegar na boca e começou a roer as unhas.
"Até logo", eu disse.
Ela disse: "Você não tem o meu telefone". Sem inflexão, como se não soubesse o que estava dizendo.
Eu: "É, não tenho o seu telefone".
Ela: "Você não tem o meu telefone".
Saí.
Pensei: Jamais alguém andou por estes lugares a pé, de madrugada. Fiquei com medo. Gritei "Paul Morel" várias vezes, para me habituar com o nome.
Na avenida Brasil apanhei um táxi.
Ao chegar no hotel encontrei um telegrama dizendo que minha mãe havia morrido e sido enterrada, na terra dela. Trazer de volta o corpo custava muito dinheiro.
Tempo.
Acordei, como sempre, com uma sensação de desperdício, naquele dia em que tudo começou e reencontrei Joana. Muitos anos se passaram.
Levantei da cama enojado comigo mesmo, sem lembrar direito se o papel ridículo que eu fizera tinha sido ontem ou na semana passada. Onde? Na casa de alguém? O que tinha acontecido?
Meu quarto todo desarrumado. Ao me separar de Cristina, uma neurótica compulsiva, eu dissera "quando você for embora, vou virar esta merda de pernas para o ar, chega de arrumação, aspiradores de pó, faxineiros que mexem nos meus livros e nos meus quadros, isto vai virar uma mata virgem".
As roupas jogadas no chão, junto com câmeras, lentes, fotos, garrafas, livros, pedaços de sucata, telas, tubos de tinta, discos, copos. Minha cabeça um palimpsesto.
Debaixo do chuveiro, sentado no chão, a água fria caindo em cima de mim. Isto que você está sentindo é náusea, eu disse em voz alta. O pior é que não havia vômito nenhum para sair, minha ansiedade era outra.
O telefone tocou. Saí pingando do chuveiro, disse que não estava ninguém em casa, aquilo era uma gravação, "as palavras o vento não leva, cuidado com o acetato".
"Você está sóbrio?"
"Não."
"Espera aí, não desliga, é o Roberto."
Queria que eu fizesse uma foto de cerveja.
"Não vou perder tempo com isso."
"É um challenge."
Em algum lugar da casa havia um monte de revistas internacionais de arte publicitária, e em nenhuma delas existia uma única foto de cerveja. Se houvesse, era uma merda.
"Vamos conversar", insistiu. Era um homem paciente.
"Agora estou todo molhado. Você me tirou do chuveiro."
"Eu ligo depois, então."
Ensaboando meu corpo: cada vez mais magro, as olheiras negras, uma figura romântica. As mulheres todas dando bola para mim. Repugnância.
Naquele dia eu estava decidido a parar de beber, me reintegrar na sociedade, ceder, transigir, maneirar.
"Farei tudo o que quiserem!", exclamei olhando o meu rosto no espelho.
O telefone tocou. Cocktail na casa de Miguel Serpa.
Depois novamente o Roberto. Ele era diretor da Andrade & Leitão.
Nada temos a temer.
Exceto as palavras.
"Você pode conversar?"
"Posso", respondi.
"Então? Topa fazer as fotos?"
Pensei um pouco. "Faço."
"Quando?"
"Amanhã. Hoje estou muito abafado."
"Certo. Amanhã. Um abraço. Conto contigo."
"Pode contar."
O verdadeiro escritor nada tem a dizer. Tem uma maneira de dizer nada.
Miguel Serpa recebeu-me com muita deferência.
Muitas mulheres. Identifiquei logo a sra. Elisa Gonçalves. Coberta por um vestido longo, os movimentos equilibrados, tensos; sentia no meu próprio corpo cada passo que ela dava, como se estivéssemos abraçados. Elisa caminhava impaciente pelos salões, fumando, inquieta. Eu a conhecia de retrato e lenda. Nunca me interessou, mas naquele dia senti, inesperadamente, uma terrível atração por ela.
Elisa novamente: cara magra, ossuda, cabelos negros, boca larga de lábios grossos, olhos escuros brilhantes, um rosto alerta. Fiquei imaginando atos lascivos com ela.
Parei a certa distância, observando-a sem que ela percebesse.
Nesse instante surgiu Joana, acompanhada dos pais, embaixador e embaixatriz Monteiro Viana. Tentei segui-los com o olhar, mas eles logo sumiram no meio da multidão. Havia, no mínimo, trezentas pessoas no enorme apartamento de Serpa. Eu gostaria de ver Joana perto de Elisa. Joana dizia de Elisa: "Uma velhota deslumbrada que todo ano corta as próprias execráveis pelancas". Joana tinha vinte anos, exatos. Elisa no fim dos trinta. Aproximei-me de Elisa. Ela e os circundantes pararam de falar.
"Todos os seus retratos foram malfeitos, nenhum tem profundidade, nenhum é você." "Retratos?", Elisa, polidamente.
"Fotos. Só conheço as fotos. Permita que eu me apresente."
"Eu sei quem é você e não estou interessada." Elisa voltou a conversar com a pessoa a seu lado.
Vaguei pelos salões do Serpa, depois do desprezo de Elisa, bebendo com rapidez para ficar embriagado.
Encontrei Joana.
"Por que não damos o fora daqui?", perguntou Joana.
"Aonde você quer ir?"
"A um lugar onde você possa me explicar o que são as séries de Fibonnacci", disse Joana, rindo.
"Eu estou sem vontade. Acho que estou ficando impotente."
"Você quer ficar aqui no meio desses arrivistas enfarpelados?"
"Já disse que estou broxa. Ah!, quem me dera ser um campeão de alcova!"
A beleza dela fez o meu pulso martelar violentamente e secou minha boca. Ninguém poderia deixar de admirá-la: era muito delgada, com seios pequenos, a barriga plana, os flancos de linhas retas; o seu triângulo estava apenas eriçado por uma penugem macia. Ela me tantalizava, os meus desejos se exasperaram. Levantei o seu corpo e esmaguei os lábios contra os dela.
"Eu faço você ficar com vontade."
"Não sei."
"Vamos sair daqui e comprar um chicote", Joana disse.
"A esta hora não encontramos uma loja onde comprar isto", eu disse, sentindo um forte tremor correr por dentro do meu corpo.
"Eu vou na Hípica e arranjo um. Você não quer me bater de chicote?"
"Está bem."
"Eu saio na frente. Vou buscar o chicote e te encontro no apartamento."
Exit Joana.
Voltei à sala para ver se apanhava alguma mulher. Eu só pensava nisso. Encontrei.
"Você tem um papel na bolsa?"
"Deixa eu ver. Tenho."
"Tem uma caneta?"
"Tenho lápis de sobrancelha."
"Então escreve nesse papel o seu nome e o número do telefone." Botei o papel no bolso e saí.
No papel estava escrito: Lígia, e o número do telefone.
Peguei meu carro. Fui para o apartamento. Liguei o som. Esperei Joana, pensando.
Acima de tudo, seja verdadeiro com você mesmo.
Joana chegou.
"Trouxe o chicote?"
"Trouxe."
Joana me entregou um embrulho. Abri. Um chicote de cabo de prata, para ser usado em cavalos de raça.
Olhei para Joana, os colares no pescoço, o lenço na cabeça. Senti uma grande ternura por ela. Abracei-a.
"Eu gosto muito de você."
"Eu também gosto muito de você."
"Você quer ficar só namorando, sem fazer nada?", perguntei.
"É uma boa idéia."
Deitamos, abraçados.
"Estou aprendendo tanta coisa com você."
"Coisa nenhuma..."
"Cor. Eu não sabia nada de cor. Que mundo imenso..."
"A percepção da cor é uma experiência pessoal, extremamente subjetiva, é impossível ensinar a ver a cor, até mesmo ensinar a usar a cor é difícil".
"Fico em casa olhando meus livros de pintura e lembrando as coisas que você falou. Ontem, por exemplo, foi a visão esquizóide de Francis Bacon..."
A frase era literalmente minha. Eu tive vontade de dizer a ela que ultimamente eu falava cada vez menos. Arte tradicional, não queria mais fazer. Caixas, objetos, montagens fotográficas, fazia coisas assim, pois na verdade eu havia secado. Os cretinos dos críticos, esses pobres-diabos, rufiões de criatividade, ficavam descobrindo significados esotéricos naquele lixo todo.
Eu estava vazio, minha única saída era soldar sucata, colar, simular, tapear, copiar, enquanto pudesse.
Deitamos de barriga para cima. Joana, uma das pernas levantadas mostrando sua coxa longa e carnuda. Passei as mãos nas pernas de Joana. Ela estava com os braços abertos, as duas mãos sob a nuca; eu via as suas axilas, raspadas.
Não diga sovaco.
Diga axilas.
Beijei a cavidade que existia na junção do braço com o tronco. Fragrância de desodorante. Com a ponta da minha língua toquei o sovaco de Joana.
"Isso me deixa toda arrepiada."
Arrancamos a roupa, apressados.
"No chão", Joana disse.
Joana deitou-se, espreguiçou o corpo magro, esticando braços e pernas.
Deitei-me sobre ela. Joana grudou o rosto no meu. Afastei o rosto dela.
"Quero ver a tua cara enquanto vou entrando dentro de você."
A euforia de Joana me encheu de alegria e exaltação.
"Abre os olhos", eu disse, "olha pra mim!"
Os dois olhando um para o outro, enquanto nossos corpos se movimentavam.
Agarrei com força a cabeça de Joana, puxando-a de encontro a mim.
"Você não vai me bater?"
"Com o chicote?"
Nossos movimentos cada vez mais violentos.
"Como é que você vai me bater com o chicote? Aqui deitada? Ou eu saio correndo e você corre atrás de mim até me encurralar num canto e então me bate, bate, bate!..."
"Não sei, como você quiser", consegui dizer.
"Bate com a mão mesmo", Joana pediu.
Apoiado na mão direta, dei um tapa com a esquerda no rosto de Joana. Joana fechou os olhos, o rosto crispado, não emitiu um som sequer. Dei outro tapa, agora com a mão direita, com mais força.
"Bate, bate!"
Bati com violência. Joana deu um gemido lancinante. Continuei batendo, sem parar.
"Me chama de puta..."
"Sua puta!"
"Mais, mais!..."
Chamei Joana de todos os nomes sujos, bati com força no seu rosto. Nossos corpos cobertos de suor. Lambi o rosto de Joana, em fogo das pancadas recebidas. Nossas bocas sorviam o suor que pingava do rosto do outro. De dentro de mim, de um abismo fundo, vinha o orgasmo, uma pressão acumulada explodindo.

quinta-feira, 21 de março de 2013

AVENTURA & FICÇÃO

Aventura & Ficção - 01 de 21-02_1

Action e Comics: Aventura e Ficção é uma revista que marcou os quadrinhos adultos publicados no Brasil. Em novembro de 1986 a Editora Abril surpreendeu os leitores de quadrinhos mais exigentes, seja pelo gosto ou pela maturidade, com o lançamento de uma revista de quadrinhos Aventura e Ficção. Um conteúdo de qualidade não é fator preponderante para a longevidade de revistas em quadrinhos, e vendas abaixo do esperado encerraram todos estes títulos. Mas, com relativo sucesso, Aventura e Ficção trouxe boas, quando não ótimas HQs para nossas bancas, entre os anos de 1986 e 1991, num total de 21 números. Clique na capa e leia as 21 EDIÇÕES.

quarta-feira, 20 de março de 2013

CAPA the private eye

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TRAILER Les Revenants

Kathleen Turner talks Crimes Of Passion

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Crimes Of Passion (1984)—“Joanna Crane/China Blue”
KT: Well, Ken Russell, honey. I mean, Ken Russell, he was a genius. Ken called me a few months ago because he wanted to shoot
Alice In Wonderland, and he wanted me for the Red Queen. And we were talking about it just before he died. That was a real shocker. I understand they’re going to go ahead with the film, but for me, the point was Ken. Just to work with Ken. He was absolutely certifiable, the man. But, in truth, a genius.

AVC: That was a very sexual film.

KT: I think that was some of my best work, honestly. That he really challenged me.

AVC: What was it like to be directed by Ken Russell?

KT: Confusing, at times. He drank a lot. He drank from early in the morning on, so as the day progressed, you’d have different levels of comprehensive ability, in terms of what he wanted from his direction. So you kind of had to take that into account, but at the same time, his passions were so contagious, he made you risk more than you normally might with someone else.

AVC: Your leading man in that movie was Anthony Perkins—

KT: Whoa, that was tough. I can say this, because it was all public. He was doing this stuff—I believe it was a form of nitrate that was a step down from amyl. So we’d rehearse, and then just before Ken would roll camera, Anthony would pull out this little bottle and sniff it, and he’d go all red and break into a sweat and you go, “I don’t know what’s going to happen now.” So that was kind of scary at times.

AVC: That’s reflected in the film.

KT: That was really tough. When I came home from that film, my fiancé at that time picked me up from the airport and took me out to our country place, and he told me I slept 22 hours. He said if I got to 24, he was going to take me to the hospital. That was hard.

fuck yeah ken russell.

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sexta-feira, 15 de março de 2013

veja SADAKO 3D

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Para ver, clique na imagem. Sadako 3D é a mais recente encarnação da personagem maléfica criada por KôjiSuzuki, no seu livro “Ringu”(O Chamado) que deu origem ao primeiro filme. 13 Anos depois do filme original, Sadako regressa aos cinemas. Akane é uma professora de escola que ouve dos seus alunos o rumor de que existem na Internet imagens de alguém cometendo suicídio. Diz-se que as imagens levam a que quem as veja também cometa suicídio. De início, Akane não acredita no rumor mas, quando uma das suas alunas morre após a visualização das imagens, ela e o seu namorado Takanori são fatalmente atraídos para o horror gerado por Kashiwada, o homem que surge no vídeo original. Kashiwada pretende gerar o caos no mundo, trazendo Sadako e a sua maldição de volta. Agora, Akane tem de combater Sadako e Kashiwada de modo a salvar a sua própria vida e a de Takanori.

filmes morrison.

cães

“Eu, que não tenho belas proporções/Errado de feições pela malícia/Da vida; inacabado, vindo ao mundo/Antes do tempo, quase pelo meio/E tão fora de moda, meio coxo/Que os cães ladram, se deles me aproximo (…) Determinei tornar-me um malfeitor/E odiar os prazeres destes tempos./Armei conspirações, graves perigos…”

William Shakespeare, Ricardo III

monte de leituras. 

terça-feira, 12 de março de 2013

CURTA TRUE SKIN

CAPA MULHER MARAVILHA

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Sado? Ou apenas uma sugestão inocente?

Inhaled, not impaled

"You must never ask questions of yourself when writing a story. Never think about stories. Do them. All of these stories came to me, boom, like that!" (p. 150)
"Let’s burn books. Why? And then Captain Beatty tells you. They are dangerous. They get you to thinking and that makes you unhappy. There’s no room for diversity because as soon as you become diverse, you begin to argue with people. And then you go to bed very unhappy. " (p. 160)
"Exploring space is our effort to become immortal. If we stay here on Earth, human beings are doomed, because someday the sun will either explode or go out. By going out into space, first back to the moon, then to Mars, and then beyond, man will live forever." (p. 183)
"WELLER: What about more explicit pornography?
BRADBURY: It shows too much. Women are meant to be inhaled, not impaled." (p. 256)
"Work is the only answer. I have three rules to live by: Get your work done. If that doesn’t work, shut up and drink your gin, and when all else fails, run like hell." (p. 328)
"WELLER: What is the future of humanity on planet Earth?
BRADBURY: We’re going to make it. We’ve already made it this far. We’ve conquered diseases. My sister died of the flu when I was seven. My brother’s twin died in the flu epidemic in 1918. My uncle died in the same outbreak. In those days, there were no medicines. We forget, because today’s generation has grown up with penicillin and sulfonamide. People have stopped dying, but before that we died from the simplest things. So we conquer things. We survive. We always have. We will live on." (p. 346)
Sam Weller. Listen To The Echoes: The Ray Bradbury Interviews.

intergalacticrobot.

sexta-feira, 8 de março de 2013

trailer CONTOS DO EDGAR

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TRECHO com os meus olhos de cão

Hilda Hist

Vi-me afastada do centro de alguma coisa que não sei dar nome, nem porisso [sic] irei à sacristia, teófaga incestuosa, isso não, eu Hillé também chamada por Ehud A Senhora D, eu Nada, eu Nome de Ninguém, eu à procura da luz numa cegueira silenciosa, sessenta anos à procura do sentido das coisas, Derrelição Ehud me dizia, Derrelição—pela última vê Hillé, Derrelição quer dizer desamparo, abandono, e porque me perguntas a cada dia e não reténs, daqui por diante te chama A Senhora D. D de Derrelição, ouviu? Desamparo, Abandono, desde sempre a alma em vaziez, busca nomes, tateava cantos, vincos, acariciava dobras, quem sabe se nos frisos, nos fios, nas torçuras, no fundo das calças, nos nós, nos visíveis cotidianos, no ínfimo absurdo, nos mínimos, um dia a luz, o entender de nós todos o destino, um dia vou compreender, Ehud…

LORD OF ILLUSIONS - Behind the Scenes

segunda-feira, 4 de março de 2013

A BELA FLAUTISTA

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TRECHO A LENTIDÃO

Milan Kundera

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o livro

1.
Sentimos vontade de passar a tarde e a noite num castelo. Muitos deles, na França, foram transformados em hotéis: um quadrado verde perdido numa extensão de feiura desprovida de verde; uma pequena extensão de aleias, e árvores, de pássaros no meio de uma imensa rede de estradas. Estou dirigindo e, pelo retrovisor, observo um carro atrás de mim. A pequena luz à esquerda pisca e o carro todo emite ondas de impaciência. O motorista espera a oportunidade de me ultrapassar; espera esse momento como uma ave de rapina espreita um pássaro.

Vera, minha mulher, me diz: “A cada cinquenta minutos morre um homem nas estradas da França. Repare bem nesses loucos em volta de nós. São exatamente os mesmos que se comportam com uma prudência extraordinária quando uma senhora de idade é assaltada diante deles na rua. Como podem não ter medo quando estão dirigindo?”.

O que responder? Talvez isso: o homem curvado em sua motocicleta só pode se concentrar naquele exato momento de seu voo; agarra-se a um fragmento retirado tanto do passado quanto do futuro; é arrancado da continuidade do tempo; está fora do tempo; em outras palavras, está num estado de êxtase; em tal estado, não sabe nada de sua idade, nada de sua mulher, nada de seus filhos, nada de suas preocupações e, portanto, não tem medo, pois a fonte do medo está no futuro e quem se liberta do futuro nada tem a temer.

A velocidade é a forma de êxtase que a revolução técnica deu de presente ao homem. Ao contrário do motociclista, quem corre a pé está sempre presente em seu corpo, forçado a pensar sempre em suas bolhas, em seu fôlego; quando corre, sente seu peso, sua idade, consciente mais do que nunca de si mesmo e do tempo de sua vida. Tudo muda quando o homem delega a uma máquina a faculdade de ser veloz: a partir de então, seu próprio corpo fica fora do jogo e ele se entrega a uma velocidade que é incorpórea, imaterial, velocidade pura, velocidade em si mesma, velocidade êxtase.

Curiosa aliança: a fria impessoalidade da técnica e as chamas do êxtase. Lembro-me daquela americana que, há trinta anos, com expressão severa e entusiasmada, uma espécie de apparatchik do erotismo, me deu uma aula (glacialmente teórica) sobre a liberação sexual; a palavra que surgia com maior frequência em seu discurso era a palavra orgasmo; eu contei: quarenta e três vezes. O culto do orgasmo: o utilitarismo puritano projetado na vida sexual; a eficácia em contraposição à ociosidade; o coito reduzido a um obstáculo que é preciso ultrapassar o mais rápido possível para chegar a uma explosão extática, único objetivo verdadeiro do amor e do universo.

Por que o prazer da lentidão desapareceu? Ah, para onde foram aqueles que antigamente gostavam de flanar? Onde estão eles, aqueles heróis preguiçosos das canções populares, aqueles vagabundos que vagavam de moinho em moinho e dormiam sob as estrelas? Será que desapareceram junto com as veredas campestres, os prados e as clareiras, com a natureza? Um provérbio tcheco define a doce ociosidade deles com uma metáfora: eles estão contemplando as janelas de Deus. Aquele que contempla as janelas de Deus não se aborrece; é feliz. Em nosso mundo, a ociosidade transformou-se em desocupação, o que é uma coisa inteiramente diferente; o desocupado fica frustrado, se aborrece, está constantemente à procura do movimento que lhe falta.

Olho pelo retrovisor: ainda é o mesmo carro, que não pode me ultrapassar por causa do trânsito no sentido contrário. Ao lado do motorista está sentada uma mulher; por que será que o homem não lhe conta alguma coisa engraçada? Por que não põe a mão no joelho dela? Em vez disso, amaldiçoa o motorista que, diante dele, não anda rápido o bastante, e a mulher também não pensa em tocá-lo com a mão, dirige mentalmente com ele e também me amaldiçoa.

E penso naquela outra viagem de Paris para um castelo no campo que aconteceu há mais de duzentos anos, a viagem de Madame de T. e do jovem cavalheiro que a acompanhava. É a primeira vez que estão tão perto um do outro, e a indizível atmosfera de sensualidade que os cerca nasce justamente da lentidão da cadência: balançados pelo movimento da carruagem, os dois corpos se tocam, primeiro sem querer, depois querendo, e a história começa.

2.
Eis o que narra o conto de Vivant Denon: um fidalgo de vinte anos está certa noite no teatro. (Nem seu nome nem seu título são mencionados, mas eu o imagino um cavalheiro.) No camarote vizinho, vê uma mulher (o conto indica apenas a primeira letra de seu nome: Madame de T.): é uma amiga da condessa que é a amante do cavalheiro. Ela pede que ele a acompanhe depois do espetáculo. Surpreso com esse comportamento decidido e mais confuso ainda porque conhece o favorito de Madame de T., um certo marquês (não
sabemos seu nome; entramos no mundo dos segredos, onde não existem nomes), o cavalheiro, sem compreender nada, se vê na carruagem ao lado da bela mulher. Depois de uma viagem doce e agradável, a carruagem para no campo, diante da escadaria do castelo onde, aborrecido, o marido de Madame de T. os recebe. Os três jantam num ambiente taciturno e sinistro, depois o marido pede desculpas e os deixa a sós.

Nesse momento, começa a noite deles: uma noite composta como um tríptico, uma noite que é como um percurso em três etapas: primeiro, passeiam no parque; em seguida, fazem amor num pavilhão; e finalmente continuam a se amar num quarto secreto do castelo.

De manhã bem cedo, eles se separam. Sem conseguir encontrar seu quarto no labirinto de corredores, o cavalheiro volta para o parque onde, espantado, encontra o marquês, o mesmo que ele sabe que é o amante de Madame de T. O marquês, que acaba de chegar ao castelo, cumprimenta-o alegremente e explica a razão do convite misterioso: Madame de T. precisava de alguém que servisse de biombo para que ele, o marquês, continuasse insuspeito aos olhos do marido. Satisfeito que a farsa tivesse dado certo, ele caçoa do cavalheiro que foi obrigado a cumprir a missão bastante ridícula de falso amante. Este, cansado depois da noite de amor, volta para Paris na carruagem que o marquês, agradecido, lhe oferece.

Intitulado Point de lendemain, o conto foi publicado pela primeira vez em 1777; o nome do autor foi substituído (já que estamos no mundo dos segredos) por seis maiúsculas enigmáticas, m.d.C.o.d.r., em que se pode ler “M. Denon, Cavalheiro Ordinário do Rei”. Depois, com uma tiragem minúscula, e de modo totalmente anônimo, foi republicado em 1779, antes de reaparecer no ano seguinte sob o nome de
outro escritor. Novas edições surgiram em 1802 e em 1812, ainda sem o verdadeiro nome do autor; finalmente, depois de um esquecimento que durou meio século, reapareceu em 1866. A partir daí, foi atribuído a Vivant Denon e, no decorrer de nosso século, ganhou fama sempre crescente. Está hoje em dia entre as obras literárias que parecem melhor representar a arte e o espírito do século XVIII.

3.
Na linguagem corrente, a noção de hedonismo designa uma inclinação amoral para uma vida voltada para o prazer, até mesmo para o vício. Certamente a noção é inexata: Epicuro, o primeiro grande teórico do prazer, entendeu a vida feliz de um modo extremamente cético: sente prazer aquele que não sofre. É o sofrimento, portanto, que é a noção fundamental do hedonismo: somos felizes na medida em que
sabemos afastar o sofrimento; e como os prazeres trazem muitas vezes mais infelicidade do que felicidade, Epicuro não recomenda senão os prazeres modestos e prudentes. A sabedoria epicurista tem um fundo melancólico: atirado à miséria do mundo, o homem constata que o único valor evidente e seguro é o prazer, mesmo pequeno, que ele próprio pode sentir: um gole de água fresca, um olhar para o céu (para as janelas de Deus), uma carícia.

Modestos ou não, os prazeres só pertencem àquele que os experimenta, e um filósofo, com toda razão, poderia criticar no hedonismo seu fundamento egoísta. Entretanto, na minha opinião, não é o egoísmo que é o calcanhar de Aquiles do hedonismo, mas seu caráter (ah, tomara que eu esteja enganado!) desesperadamente utópico: na verdade, duvido que o ideal hedonista possa se realizar; receio que a vida que ele nos recomenda não seja compatível com a natureza humana.

O século XVIII , com sua arte, fez com que os prazeres saíssem da bruma das interdições morais; fez nascer a atitude que chamamos de libertina e que emana dos quadros de Fragonard, de Watteau, das páginas de Sade, de Crébillon filho e de Duclos. É por isso que o meu jovem amigo Vincent adora esse século e, se pudesse, usaria como distintivo na lapela de seu casaco o perfil do marquês de Sade. Compartilho de sua admiração mas acrescento (sem porém ser ouvido) que a verdadeira grandeza dessa arte não reside numa propaganda qualquer do hedonismo, mas em sua análise. É essa a razão pela qual considero As ligações perigosas de Choderlos de
Laclos um dos maiores romances de todos os tempos.

Seus personagens não se ocupam senão da conquista do prazer. No entanto, pouco a pouco, o leitor compreende que é menos o prazer e mais a conquista que os tenta. Que não é o desejo de prazer, mas o desejo de vitória que conduz a dança. Que aquilo que aparece primeiro como um jogo alegre e obsceno se transforma imperceptível e inevitavelmente numa luta de vida e de morte. Mas o que tem em comum a luta com o hedonismo? Epicuro escreveu: “O homem sábio não procura nenhuma atividade ligada à luta”.

A forma epistolar das Ligações perigosas não é um simples procedimento técnico que poderia ser substituído por outro. Essa forma é eloquente em si mesma e nos diz que tudo aquilo que os personagens viveram foi vivido para ser contado, transmitido, comunicado, confessado, escrito. Num mundo em que tudo se conta, a arma ao mesmo tempo mais facilmente acessível e a mais mortal é a divulgação. Valmont, o herói do romance, envia à mulher que ele seduziu uma carta de ruptura que a destruirá; ora, foi sua amiga, a marquesa de Merteuil, quem a ditou, palavra por palavra. Mais tarde, essa mesma Merteuil, por vingança, mostra uma carta confidencial de Valmont a seu rival; este irá provocá-lo para um duelo e Valmont morrerá. Depois de sua morte, a correspondência íntima entre ele e Merteuil será divulgada e a marquesa acabará sua vida desprezada, perseguida e banida.

Nada nesse romance é segredo exclusivo de dois seres; todo mundo parece estar dentro de uma imensa concha sonora em que cada palavra sussurrada ressoa, ampliada, em ecos múltiplos e intermináveis. Quando eu era pequeno, diziam-me que colocando uma concha na orelha eu ouviria o eterno murmúrio do mar. É assim que, no mundo de Laclos, cada palavra continua audível para sempre. Será isso o século XVIII? Será isso o paraíso do prazer? Ou será que o homem, sem se dar conta, sempre viveu numa dessas conchas
ressonantes? Em todo caso, uma concha ressonante não é o mundo de Epicuro, que ordena a seus discípulos: “Viverás escondido!”.

4.
O homem da recepção é gentil, mais gentil do que geralmente se costuma ser nas portarias dos hotéis. Lembrando¿se de que havíamos estado ali havia dois anos antes, conta que muita coisa mudou desde então. Criaram uma sala de conferências para diversos tipos de seminários e construíram uma bela piscina. Interessados em vê-la, atravessamos um hall muito claro, com grandes janelas dando para o parque. No fim do hall, uma grande escada desce para a piscina, grande, azulejada, com um teto de vidro. Vera me lembra: “Da última vez havia aqui um pequeno jardim de rosas”.

Instalamo-nos em nosso quarto, depois saímos para o parque. As sacadas verdes descem em direção ao rio, o Sena. É bonito, ficamos deslumbrados, com vontade de dar um grande passeio. Depois de alguns minutos aparece uma estrada por onde os carros passam correndo; voltamos para trás.

O jantar é excelente, todos bem vestidos, como se quisessem prestar homenagem ao passado cuja lembrança palpita ainda sob o teto da sala. Ao nosso lado, instala-se um casal com seus dois filhos. Um deles canta em voz alta. O garçom inclina-se sobre sua mesa com uma bandeja. A mãe olha fixamente para ele, querendo incitá-lo a elogiar a criança que, orgulhosa por ser observada, fica de pé na cadeira e aumenta a voz ainda mais. No rosto do pai aparece um sorriso de felicidade.

Um maravilhoso vinho bordeaux, pato, uma sobremesa — segredo da casa —, conversamos, satisfeitos e despreocupados. Depois, voltando para o quarto, ligo um pouco a televisão. Também ali, crianças. Dessa vez, são negras e agonizantes. Nossa estada no castelo coincidiu com a época em que, durante semanas, todos os dias, mostravam crianças de um país africano com um nome já esquecido (tudo isso aconteceu pelo menos há dois ou três anos, como guardar todos esses nomes!), devastado pela guerra civil e pela fome. As crianças estão magras, esgotadas, não têm mais forças para fazer um gesto e espantar as moscas que passeiam em seus rostos.

Vera me diz: “Será que existem também velhos morrendo nesse país?”. Não, não, o que foi interessante nessa fome, o que a tornou única entre milhões de fomes que acontecem na Terra, é que ela atingiu apenas as crianças. Nunca vimos um adulto sofrer na tela, mesmo que olhássemos o noticiário todos os dias, exatamente para confirmar essa circunstância jamais vista.

É portanto inteiramente normal que não fossem os adultos, mas as crianças, que tivessem se revoltado contra essa crueldade dos velhos e, com toda a espontaneidade que lhes é própria, lançassem a célebre campanha “As crianças da Europa enviam arroz para as crianças da Somália”. A Somália! Mas claro! Esse famoso slogan me fez encontrar o nome perdido! Ah, pena que tudo isso já esteja esquecido! Compraram pacotes de arroz, uma quantidade infinita de pacotes. Os pais, impressionados por esse sentimento de solidariedade planetária que existia em seus filhos, ofereceram dinheiro, e todas as instituições deram sua ajuda; o arroz foi juntado nas escolas, transportado até os portos, embarcado em navios em direção à África, e todo mundo pôde seguir a gloriosa epopeia do arroz.

Imediatamente depois das crianças moribundas, a tela é invadida por meninas de seis, oito anos, estão vestidas como adultas e se comportam com a maneira simpática de velhas coquetes; ah, é tão encantador, tão comovente, tão engraçado quando as crianças se comportam como adultos, as meninas e meninos beijam-se na boca, depois aparece um homem com um bebê nos braços e, enquanto nos explica a melhor maneira de lavar a roupa que o bebê acaba de sujar, aproxima-se uma bela mulher, entreabre a boca e mostra uma língua terrivelmente sensual que começa a penetrar a boca terrivelmente abobalhada do carregador de bebê. “Vamos dormir”, diz Vera, e apaga a televisão.

5.
As crianças francesas correndo para ajudar suas pequenas companheiras africanas sempre me lembram o rosto do intelectual Berck. Eram então seus dias de glória. Como muitas vezes acontece com a glória, a dele foi provocada por um fracasso; recordemos: nos anos 80 de nosso século, o mundo foi atingido pela epidemia de uma doença chamada Aids, que se transmitia pelo contato amoroso e, a princípio, atingia sobretudo os homossexuais. Para colocar-se contra os fanáticos que viam na epidemia um castigo divino justo e evitavam os doentes como se fossem pestilentos, os espíritos tolerantes manifestavam fraternidade e tentavam provar que não havia
perigo nenhum em conviver com eles. Assim, o deputado Duberques e o intelectual Berck almoçaram num célebre restaurante parisiense com um grupo de aidéticos; o almoço transcorreu numa atmosfera excelente e, a fim de não deixar passar nenhuma oportunidade de dar um bom exemplo, o deputado Duberques convocou as câmeras para a hora da sobremesa. Assim que apareceram na porta, ele se levantou, aproximou-se de um doente, levantou-o de sua cadeira e deu--lhe um beijo na boca ainda cheia de musse de chocolate.