Um dia ideal para os peixes-banana e livros e cinema e gibis e nus e ataxia espinocerebelar e 𓋹
sábado, 10 de março de 2012
TRECHO a história do cabelo
Alan Pauls
Ele só se lembra do cartão de noite, bem tarde, na cama, enquanto vê pela televisão um documentário sobre a vida de Elvis Presley que, como de hábito, herda de Eva. Antes de cair no sono, ele, com um último arroubo de entusiasmo, apoderou-se do controle remoto e empreendeu uma dessas turnês geralmente estéreis, desesperadas desde o início, em busca da gague, do cristal de nostalgia, do redutor de cintura, da fugaz epifania pornográfica que lhes permita despedir-se do dia verdadeiramente satisfeitos. De repente, enquanto se deixam adormecer pela vertigem desse carrossel de imagens sem som, ela aponta um dedo sonâmbulo para o televisor e diz: “aí”. “Aí” é a camisa bolero azul, as calças xadrez claras, as pernas espasmódicas de Elvis, que agiganta sua boca aberta como se fosse devorar o microfone. Eva diz “aí” e encosta um lado da cabeça no peito dele, de frente para a tv, e dorme no ato. (…) Curte Elvis, claro, mas não é ele, na verdade, que o cativa. É o cabeleireiro de vinte e quatro anos que numa tarde de 1964, conforme fica sabendo naquele instante, mantém o Rei duas horas fechado no banheiro de Graceland, a mansão de Perugia Way, em Bel Air, e lava, literalmente, o cérebro dele. Larry Geller. Muda sua vida para sempre. Aumenta o volume. “Geller lhe abre as portas da teologia. Hinduísmo, budismo, cristianismo, vegetarianismo, autoajuda…” Em pouco tempo, ao que parece, Elvis o contrata como assessor em tempo integral. Não o chama de meu cabeleireiro, mas de meu guru. Salvo o Coronel, seu lendário manager, não há ninguém na corte de Presley com a mesma categoria. Por Elvis, Geller renuncia a Peter Sellers, Steve McQueen, Paul Newman, a toda sua carteira de clientes. Cortará o cabelo dele para sempre; a última vez, na manhã de 16 de agosto de 1977, no dia de sua morte. “Em um ano, Elvis devora uma bibliografia de mais de cem títulos dedicados a todas as correntes religiosas em busca de uma resposta às perguntas que afligem todo ser humano: quem somos?, de onde viemos? Mas acima de tudo… por que eu fui o eleito?” Um dia, viajando juntos pelo Novo México, Elvis confronta Larry: passou um ano inteiro estudando e Deus não lhe deu uma só resposta concreta. “Você precisa deixar seu ego de lado para deixá-lo entrar”, diz Geller. “Esqueça os livros e o conhecimento e se esvazie para que Deus possa entrar em você.” Elvis reflete sobre a crítica com humildade e dirige em silêncio através do deserto. Logo depois tem a impressão de ver Stálin desenhado numa nuvem. Para o carro, pula sobre o capô e grita fora de si: “Por que Stálin? O que Stálin está fazendo lá em cima?”. Em seguida, o rosto de Stálin se transforma no de Cristo. É o primeiro encontro de Elvis com Deus. “O que meus fãs pensariam se me vissem agora?”, pergunta a seu cabeleireiro guru com lágrimas nos olhos. “Iriam gostar ainda mais de você”, diz Geller. “Assim espero”, diz o Rei, e apanha seu lenço.
sexta-feira, 9 de março de 2012
à luta dos samurais
“A literatura se parece muito à luta dos samurais, mas um samurai não luta contra o outro samurai: luta contra um monstro. Além disso, ele geralmente sabe que será derrotado. Ter coragem, sabendo previamente que você será derrotado, e ir à luta: isso é a literatura.”
Roberto Bolaño
quinta-feira, 8 de março de 2012
quarta-feira, 7 de março de 2012
terça-feira, 6 de março de 2012
segunda-feira, 5 de março de 2012
distinguish
Who can really distinguish between the sea and what’s reflected in it? Or tell the difference between the falling rain and loneliness?
HARUKI MURAKAMI
domingo, 4 de março de 2012
mutilated
There is a loneliness in this world so great that you can see it in the slow movement of the hands of a clock. People so tired, mutilated either by love or no love.
Charles Bukowski
sábado, 3 de março de 2012
POEMA When You are Old
W. B. Yeats
When You are Old
When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;
How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;
And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.
sexta-feira, 2 de março de 2012
ASSISTA Drive
SINOPSE: Historia de um piloto de carros, dublê em Hollywood, que presta serviços de motorista para criminosos do submundo do crime. Quando aceita ajudar o marido de uma amiga, o piloto torna-se alvo de um dos homens mais perigosos de Los Angeles. Quando ele percebe o perigo que está correndo, a única forma de proteger as pessoas que ele mais ama, é fazer o que faz de melhor: dirigir!
Para ver, clique na imagem e não se esqueça de agradecer ao pessoal do Filmes Morrison.
quinta-feira, 1 de março de 2012
CONTO Aquele Diogo Tácito
Sérgio Rodrigues
Eu nunca disse, ele disse, que o escritor Diogo Tácito inventou o ebook. Eu não sou maluco. O que eu disse foi que o escritor Diogo Tácito se aproveitou da invenção do ebook – invenção feita por outrem, que aqui não vem ao caso – para me vilipendiar de forma torpe em meus direitos de autor. Sim, o que eu disse, ele disse, e configura nada menos que a pura verdade é que cada um dos quatro romances de sucesso que Diogo Tácito publicou nos últimos anos foi roubado de mim, surrupiado de meus arquivos inéditos por um escritor bloqueado que o desespero transformou em hacker diletante ou quem sabe por um hacker profissional a serviço de um escritor em crise. No entanto, estes crimes do farsante Diogo Tácito eu estou lamentavelmente impossibilitado de provar, ele disse, em virtude do já referido ineditismo de meus manuscritos e também do fato de, como todo artista que merece este nome, eu sempre haver trabalhado em radical solidão. Se os quatro primeiros livros de Diogo Tático estavam fora do meu alcance, porém – raciocinei – o quinto não estaria, pois me encontraria prevenido, meu manuscrito registrado nos órgãos competentes, carimbado, firma reconhecida e o escambau, advogados de sobreaviso, divulgadores de plantão para apregoar ao mundo a súbita ruína de um esteliteraturionatário. E foi aí, ele disse, que a marcha da tecnologia me pegou no contrapé. O quinto romance de Diogo Tácito saiu apenas em ebook. Quando lhe pulei em cima, ele o alterou imediatamente, reescreveu-o de cabo a rabo, mudou tudo. De um minuto para o outro, seu livro já não tinha nada a ver com o meu, o que deu a todo mundo a certeza de que era eu o maluco, ele disse, eu o farsante, e não aquele bandido do Diogo Tácito, que, se não inventou o ebook, certamente concebeu uma de suas mais diabólicas aplicações.
CONTO Dia dos Namorados
Marçal Aquino
O rapaz e a moça entraram na pousada e, de um jeito tímido, ele perguntou o preço da diária. O velho Lilico informou e o rapaz e a moça trocaram um olhar em que faiscaram jóias de diversos tamanhos. A maior delas era a cumplicidade.
Enquanto o rapaz preenchia a ficha de entrada, a moça se afastou um pouco para examinar melhor o quadro na parede — e pude vê-la por inteiro.
Era muito bonita. Tinha os cabelos e a pele claros. Alta, magra, ossos salientes nos ombros. Estava no mundo há pouco mais de uma década e meia e, com certeza, alguém que recusara já havia escrito poemas desesperados pensando nela. Ou cortado os pulsos — o que é quase a mesma coisa.
Embora não merecesse, o quadro recebeu toda sua atenção por alguns instantes. Era uma pintura ordinária. Eu já tivera a oportunidade de analisá-la durante as longas tardes em que a chuva me impedia de sair para caminhar pela cidade. Uma cidade habitada, fora da temporada turística, por velhos, aposentados e hippies extemporâneos. Gente que tentava, de um jeito ou de outro, ser esquecida.
O quadro: penso que o artista havia experimentado um momento de genuína felicidade ao contemplar, em algum canto do país, aquelas montanhas, aquele prado, aqueles cavalos. E, generoso, decidira compartilhar esse momento com o resto da humanidade. Mas a verdade é que fracassara. A arte não é feita de boas intenções.
O olhar com que a moça se despediu — para sempre — daquela obra continha um pouco de piedade. E, com isso, ela me conquistou em definitivo.
O velho Lilico entregou a chave ao rapaz, que se voltou e sorriu para a moça. Seu ar era de alguém vitorioso. Mas sou capaz de apostar que a mão que ele juntou à dela, antes de subirem a escada de madeira, tinha a palma molhada de suor. Havia um princípio de rubor no rosto dela. Eram muito jovens e estavam vivendo um grande momento, mas não sabiam disso ainda. Essas coisas a gente só compreende depois.
Lilico deixou o balcão da recepção e foi até a copa, onde falou alguma coisa para Jair, um de seus empregados. Em seguida veio até a mesa que eu ocupava.
"Gosto de gente que chega para hospedar-se sem nenhuma bagagem", ele comentou.
"E a felicidade que eles carregam, não conta?", eu perguntei.
Ele examinou o tabuleiro, como se estivesse tentando rememorar a jogada que pretendia fazer antes de ser interrompido pela chegada do casal.
"Mandei o Jair levar uma garrafa de champanhe para eles. Cortesia da casa”.
"Fez bem", eu disse.
"Gozado, sabe quem essa moça me lembrou?"
Eu disse: "Sei".
"Acho que foram os olhos dela", ele falou. "Muito parecidos."
Retomamos o jogo e não falamos mais do casal. Eu, porém, continuei pensando neles. Num dia como aquele, anos antes, uma mulher, que entrava comigo num hotel bem diferente daquela pousada, me dissera: "Hoje eu vou te dar um presente muito especial".
Um pouco depois da meia-noite interrompemos o jogo e o velho Lilico recolheu as peças e guardou o tabuleiro. E eu já estava no meio da escada, a caminho do meu quarto, quando ele perguntou:
"Você ainda pensa nela?"
"De vez em quando eu penso."
"E por que você não vai atrás dela? Vocês dois ainda têm alguns anos pela frente."
"A mágica não acontece duas vezes", eu disse.
O velho Lilico balançou a cabeça.
"Você sabe que só em filme francês antigo o herói termina seus dias em hotéis vagabundos, escrevendo livros que nunca irá publicar”.
Eu me limitei a sorrir. Então ele me desejou "boa noite" e voltou para a recepção.
Eu subi a escada e, ao chegar ao corredor, parei diante da porta do quarto que o casal ocupava e tentei ouvir alguma coisa. Mas tudo estava silencioso. Entrei nó meu quarto e, enquanto me despia, pensei no velho Lilico. Ele tinha razão: ainda me restavam alguns anos pela frente. E essa era a pior parte da história.