Um dia ideal para os peixes-banana e livros e cinema e gibis e nus e ataxia espinocerebelar e 𓋹
domingo, 26 de fevereiro de 2012
TRECHO A Arte da Distração
Hanif Kureishi
A verdade é que os mais sãos não costumam ser os mais criativos. Como nos recordou Proust: ‘Tudo que existe de bom no mundo procede dos neuróticos. Desfrutamos mil manjares intelectuais, mas não temos ideia do preço pago por seus criadores sob a forma de noites insones, lágrimas, gargalhadas espasmódicas, erupções, asma, epilepsia e medo da morte, que é o pior de tudo.’ O que me tranquilizava era o seu entusiasmo, seu empenho no trabalho. Nossas reuniões lhe proporcionavam uma estrutura útil. Acredito que, na ausência de um professor que acompanhasse esse processo, ele teria dado penosas e intermináveis voltas, vendo-se cada vez mais isolado. Sua criação era uma das mais estranhas e imaginativas que já li, muito distante do realismo rombudo e dos convencionalismos que a maioria dos aprendizes costuma considerar um trabalho inspirado.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
SONHOS E PESADELOS DE
Roberto Bolãno
1. Sonhei que Georges Perec tinha três anos e visitava minha casa. O abraçava, o beijava, lhe dizia que era um menino precioso.
9. Sonhei que Macedonio Fernández aparecia no céu de Nova York em forma de nuvem: uma nuvem sem nariz nem orelhas, mas com olhos e boca.
11. Sonhei que em um cemitério esquecido da África encontrava a tumba de um amigo cujo rosto já não podia recordar.
13. Sonhei que lia Stendhal na Estação Nuclear de Civitavecchia: uma sombra deslizava pela cerâmica dos reatores. É o fantasma de Stendhal, dizia um jovem com botas e nu da cintura pra cima. E você, quem é?, perguntei. Sou o yonqui da cerâmica, o húsar da cerâmica e da merda, disse.
14. Sonhei que estava sonhando, tínhamos perdido a revolução antes de fazê-la e decidia voltar para casa. Ao tentar me enfiar na cama encontrei De Quincey dormindo. Acorda, dom Tomás, lhe dizia, já vai amanhecer, você tem que ir. (Como se De Quincey fosse um vampiro.) Mas ninguém me escutava e eu voltava a sair para as ruas escuras da Cidade do México.
15. Sonhei que via nascer e morrer Aloysius Bertrand no mesmo dia, quase sem intervalo de tempo, com se os dois vivêssemos dentro de um calendário de pedra perdido no espaço.
17. Sonhei que era um detetive velho e enfermo e que buscava gente perdida havia muito tempo. Às vezes me olhava por acaso num espelho e reconhecia Roberto Bolaño.
20. Sonhei que o cadáver voltava à Terra Prometida montado em uma Legião de Touros Mecânicos.
23. Sonhei que voltava da África em um ônibus cheio de animais mortos. Numa fronteira qualquer aparecia um veterinário sem rosto. Sua cara era como um gás, mas eu sabia quem era.
24. Sonhei que Philip K. Dick passeava pela Estação Nuclear de Civitavecchia.
29. Sonhei que traduzia Virgilio com uma pedra. Estava nu sobre uma grande pedra de basalto e o sol, como diziam os pilotos de caça, flutuava perigosamente às 5.
31. Sonhei que a Terra acabava. E que o único ser humano que contemplava o fim era Franz Kafka. No céu, os Titãs lutavam até a morte. De um banco de ferro forjado de um parque em Nova York, Kafka via arder o mundo.
32. Sonhei que estava sonhando e que voltava para casa muito tarde. Na minha cama encontrava Mario de Sá-Carneiro dormindo com meu primeiro amor. Ao descobri-los, percebia que estavam mortos e mordendo-me os lábios até sangrar eu voltava aos caminhos vicinais.
34. Sonhei que era um detetive latino-americano muito velho. Vivia em Nova York e Mark Twain me contratava para salvar a vida de alguém que não tinha rosto. Vai ser um caso condenadamente difícil, senhor Twain, dizia a ele.
36. Sonhei que fazia um 69 com Anaïs Nin em cima de uma enorme rocha de basalto.
37. Sonhei que fodia com Carson McCullers numa casa em penumbras na primavera de 1981. E nós dois nos sentíamos irracionalmente felizes.
40. Sonhei que uma tempestade de números fantasmais era a única coisa que restava dos seres humanos três bilhões de anos depois que a Terra havia deixado de existir.
42. Sonhei que tinha 18 anos e via meu melhor amigo de então, que também tinha 18 anos, fazendo amor com Walt Whitman. Faziam numa poltrona, contemplando o entardecer borrascoso de Civitavecchia.
45. Sonhei que Pascal falava do medo com palavras cristalinas em uma taberna de Civitavecchia: “Os milagres não servem para converter, senão para condenar”, dizia.
47. Sonhei que Baudelaire fazia amor com uma sombra numa casa onde haviam cometido um crime. Mas Baudelaire não estava nem aí. “É sempre a mesma coisa”, dizia.
50. Sonhei que depois da chuva um escritor russo e também seus amigos franceses optavam pela felicidade. Sem perguntar nem pedir nada. Como quem se derruba sem sentido sobre seu tapete favorito.
53. Sonhei que voltava às estradas, mas desta vez não tinha 15 anos e sim mais de 40. Só tinha um livro, que levava em minha pequena mochila. De repente, enquanto ia caminhando, o livro começa a arder. Amanhecia e quase não passavam carros. Enquanto jogava a mochila chamuscada em um canal, senti que minhas costas coçavam como se tivesse asas.
55. Sonhei que ninguém morre na véspera.
56. Sonhei que um homem voltava sua vista atrás, sobre a paisagem anamórfica dos sonhos, e que sua mirada era dura como aço mas também se fragmentava em múltiplas miradas cada vez mais inocentes, cada vez mais deslavidas.
57. Sonhei que Georges Perec tinha três anos e chorava desconsoladamente. Eu tentava acalmá-lo. O pegava os braços, lhe comprava guloseimas, livros para pintar. Logo íamos para o Passeio Marítimo de Nova York e enquanto ele descia pelo escorregador eu me dizia a mim mesmo: não sirvo para nada, mas servirei para cuidar de você, ninguém te fará mal, ninguém tentará te matar. Depois começava a chover e voltávamos tranquilamente para casa. Mas onde estava nossa casa?
Tradução: Ronaldo Bressane é jornalista e escritor e assina o blog Impostor.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
Segredos
“O segredo da boa escrita é dizer uma coisa antiga de uma maneira nova ou uma coisa nova de uma maneira antiga.”
Richard Harding David (1864-1916)
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
TRECHO Memórias
Tennessee Williams
"O que significa ser um escritor? Eu diria que significa ser livre.
Sei que muitos escritores não são livres, que são profissionalmente empregados, o que é uma coisa inteiramente diferente.
Profissionalmente, são talvez melhores escritores, no sentido convencional do "melhor". Têm ouvido para as demandas de best-sellers: agradam a seus editores, e presumidamente também ao seu público.
Mas não são livres, e, assim, não são o que considero o que um verdadeiro escritor deve ser.
Ser livre é realizar com êxito sua vida.
Isto compreende qualquer número de liberdades.
Significa a liberdade de parar quando lhe agradar, de ir aonde e quando quiser, de ser um viajante aqui e ali, um viajante que abandona muitos hotéis, triste ou alegre, sem obstrução e sem muita pena.
Significa a liberdade de ser. E - alguém observou sabiamente - se você não pode ser você mesmo, que importância tem ser qualquer coisa?"
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
CONTO Marcas
José Marcelo
O mundo que muda – despindo-se devagar, a camisola caindo no chão sujo do quarto barato. O mundo dela que antes ele achara lindo e que agora mostrava a sua verdadeira face: as marcas, finas, profundas, marcas demais, feridas demais em sua pele clara.
Ela se ajoelha, ainda de costas para ele. Ergue o braço, aponta a mala largada no canto:
__ Na mala. Lá dentro, na mala __ diz ela.
Ele desce da cama, nu, meio encolhido, caminha até a mala, abre-a e pega o pequeno chicote. Ele olha para a mulher e ela deitou-se no chão, de olhos fechados, de bruços:
__ Você disse que era importante me fazer gozar. Vai. Faça isso. É só assim que consigo. Me bata. Me bata até sangrar.
Ele aproximou-se, ele hesitou, então ele ergueu o chicote e começou a bater.
vuuuuuuuup!
Ela gemia, ela chorava, ela pedia mais… enquanto as feridas se abriam e o sangue começava a escorrer sobre a pele nua.
vuuuuuuuup!
Ele sentiu um odor forte e viu a urina escorrer da vagina e entre as pernas da mulher.
vuuuuuuuup!
Ela gemia e agora ela enfiava dois dedos dentro de sí mesma.
vuuuuuuuup!
__ Ai, eu tou gozando, eu tou gozando.
Ela ergueu-se de-repente e puxou o pau dela para a boca e abocanhou-o enquanto ainda se masturbava e
vuuuuuuuup!
ela quase mordeu-o quando chegou ao orgasmo.
vuuuuuuuup!
E continuou chupando-o até que ele também gozasse. E ela lambeu e engoliu quase faminta e com a respiração trêmula.
vuuuuuuuup!
E na cama, logo depois, o homem e a mulher exaustos, o sangue ainda escorrendo nas costas dela e na ponta do chicote, ambos iluminados pelas luzes dos carros que raramente passavam lá fora.
A mulher disse:
__ Isso foi bom. Ainda está doendo.
__ Desculpe.
__ Não estrague o momento, querido.
Ela levantou-se e foi ao banheiro e tomou uma longa ducha fria e lavou o sangue que escorreu e ela sorriu.
Quando voltou ao quarto, ele dormia de bruços. Era muito bonito, pensou. Então ela pegou o chicote e enrolou-o no pescoço dele e subiu em cima dele e começou a apertar. Ele acordou e tentou soltar-se e debater-se, mas ela sabia como desviar de seus murros e apertar mais e mais. Não demorou muito. Ele mijou-se e cagou-se e sangue e saliva saíram de sua boca e nariz e então ele morreu. O fedor era intenso.
Ela vestiu-se e passou batom e viu seu rosto no espelho, um rosto bonito, delicado, inocente até.
__ Obrigado, meu bem __ disse, e saiu do quarto apagando a luz.
Do lado de fora do quarto: uma parada de ônibus e um posto de gasolina. Foi até a bilheteria e comprou uma passagem para algum lugar distante a mais de um dia de viagem. Depois foi até a lanchonete, pediu um sanduiche e um refrigerante, sentou-se em uma mesa gelada e ficou olhando o sol nascer lá fora.
Era de um alaranjado lindo que ia aumentando e tornando-se mais e mais claro à medida que o dia ia surgindo.
O ônibus chegou por volta das sete horas. Ela subiu e sentou-se na última cadeira e pegou o celular e discou um número e disse:
__ Está feito __ E sem dizer mais nada, desligou.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
DOWNLOAD círculo do medo
Sinopse: Cape Fear é Um dos grandes clássicos do suspense dos anos 50-60. Max Cady (Robert Mitchum) é um ex-presidiário determinado a realizar uma terrível vingança contra Sam Bowden (Gregory Peck) e sua família. Sam é advogado numa pequena cidade e seu pior pesadelo se torna realidade quando o criminoso contra o qual testemunhou volta para perseguir sua jovem esposa (Polly Bergen) e sua filha adolescente (Lori Martin). Apesar da ajuda do chefe da polícia local (Martin Balsam) e um detetive particular (Telly Savalas), Sam não tem poderes legais para impedir Max neste jogo sádico de gato e rato. Finalmente Sam deve colocar a vida de sua família numa terrível armadilha e enfrentar seu inimigo em um dos mais aterrorizantes confrontos já mostrados no cinema. O diretor J. Lee Thompson constrói a tensão em cada cena tornando Círculo do Medo ema obra de arte do suspense.
Para ver, clique na imagem. Um oferecimento: Torrent-up turbo.
sábado, 18 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
CONNERY POR CONNERY
Quando me propuseram o papel de James Bond, eu não tinha nada a ver com o personagem. Ele era elegante e requintado, tinha classe e educação. Eu venho de uma família trabalhadora e fui educado na rua. Talvez a única coisa que realmente tínhamos em comum fosse o nosso sentido de humor. À medida que fui fazendo os filmes, cheguei a pensar que James Bond tinha arruinado as possibilidades de expansão da minha carreira. Mas consegui dar a volta a isso, porque, entretanto, fui fazendo os papéis que achava que devia fazer enquanto actor. Foi assim que fiz as pazes com James Bond. Agora é como um velho amigo. Contudo, enquanto espectador, o que menos me agrada na evolução da série Bond é que cada vez mais os filmes se distanciam da essência da personagem original. Falta-lhes o equilíbrio entre acção, história e personagens.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
DOWNLOAD carlos
A história do revolucionário venezuelano Ilich Ramirez Sanchez, também conhecido como Carlos o chacal, que fundou uma organização mundial do terrorismo, e invadiram a sede da OPEP em 1975. Filmaço. Para ver, clique na imagem.
TRECHO o filho da mãe
Bernado Carvalho
Andrei sai do quartel a tempo de chegar à praça da estação às nove da noite. Não deve ser visto. As ruas ainda não estão completamente desertas, mas a essa hora, pelo menos, sua figura solitária não despertará tanta suspeita quanto se passasse por ali de madrugada. Terá que voltar antes do último metrô, pelo mesmo motivo, para não ser visto como exceção. Leva a mochila vazia nas costas, como se estivesse de licença, a caminho de casa. É um disfarce inútil. No quartel, não engana ninguém. Não volta para casa desde que entrou para o serviço militar, vai fazer um ano. Não poderia voltar nem se estivesse de licença, já que foi ex-pulso de casa. A mãe e a irmã vivem onde termina o país, sete fusos horários à frente. Não recebe notícias das duas desde que chegou a São Petersburgo. Mesmo se tivesse permissão, não se atreveria a ligar, correndo o risco de ter que falar com o padrasto, no caso de ele atender. As cartas que escreve eventualmente, à noite, não passam de exercícios de comunicação, para não perder a prática, já que não pode enviá-las. Vai rasgá-las de qualquer jeito. Não conversa com ninguém. Não fala nem mesmo com as paredes, um vício de infância ao qual costumava recorrer, quando estava só, em Vladivostok, mas que interrompeu, providencialmente, nem que tenha sido por um espírito igualmente inconsciente de sobrevivência, quando chegou ao quartel. No dia da partida, em Vladivostok, a mãe foi ter com ele na estação. Apareceu de surpresa, quando Andrei já não a esperava, e lhe entregou um farnel para a viagem; disse ao filho que ele tinha a vida pela frente e o beijou na testa. Nem a raiva que a frase lhe despertou naquele momento - e que, no decorrer dos dias, ao longo da linha de trem até São Petersburgo, foi aos poucos sendo substituída pela saudade - seria capaz de fazê-lo desejar que a mãe soubesse o que a vida se tornou, que vida é essa que ele leva agora. O soldado na guarita sabe muito bem aonde é que ele vai (é possível que também tenha sido obrigado a passar pela mesma humilhação quando recruta) e não perde a oportunidade de fazer uma gracinha. Andrei finge que não ouve. Os rumores correm à boca miúda entre os soldados e os oficiais do regimento. A asneira foi ter retrucado, a sério, que era o único filho varão de sua mãe e, portanto, arrimo de família, quando o capitão, sem deixar transparecer o tom de zombaria, ameaçou mandá-lo para a guerra como punição por um descuido qualquer. Não há nada pior para um recruta do que se recusar a partir para a guerra - ou levar a sério a zombaria dos superiores. O que no início pode não ter passado de provocação se transformou em represália. Desde então, nunca mais teve paz. Se tivesse ficado calado, e se resignado à bazófia do capitão, possivelmente não teria sido selecionado para uma missão como esta, forçado a arrecadar verbas para completar o salário dos superiores e sustentar o quartel falido. No ponto de ônibus, ele ajusta o capuz do moletom. Segue à risca as instruções do sargento Krássin. É melhor não ser interpelado por policiais - a cabeça raspada não deixa dúvida quanto ao recruta que ele é e que a esta hora devia estar na caserna, a menos que seja um desertor. Até que não seria mau se, graças a um contratempo qualquer, ele fosse preso e obrigado a revelar a verdade à polícia. Mas, nesse caso, só um milagre o salvaria quando voltasse para o quartel no dia seguinte.
As regras mudaram na última hora (houve denúncias recentemente). Não é que o sargento tenha optado pelo perigo por puro sadismo, que não lhe falta, porque assim estaria pondo a própria operação sob ameaça. A exigência partiu do próprio cliente, um oficial da reserva que, para não ter de passar mais uma vez pelo constrangimento de explicar aos policiais durante a ronda noturna o que fazia com o carro parado, à noite, nas imediações do quartel - e, não os satisfazendo com a explicação, ser obrigado a suborná-los para não ser indiciado por atentado ao pudor, por corrupção de militares ou por outra delinquência qualquer -, estabeleceu regras mais seguras para si. É o recruta quem terá de arcar com o ônus de chegar até o ponto de encontro e voltar para o quartel, com o dinheiro, durante o horário de funcionamento do transporte público. Andrei sabe o que o espera. É a primeira vez, mas não é difícil imaginar. Procura não imaginar. Como o ônibus não vem, decide tomar o metrô. É um pequeno ato de insubordinação. O que lhe resta de livre-arbítrio é também o que aumenta a sua margem de risco. Procura não pensar em nada para não sentir vertigem no alto da escada rolante que desce até a plataforma subterrânea. O movimento dos degraus subindo e descendo lhe revolve o estômago. Não há metrô mais profundo que o de São Petersburgo. Foi construído sob um enorme pântano onde jazem as ossadas dos servos e prisioneiros que ergueram as fundações da antiga capital. Enquanto ele desce aos subterrâneos, seu olhar cruza com o de um rapaz - barba por fazer e cabelos sebentos, presos num rabo-de-cavalo -, que sobe pela escada rolante ao lado, para a superfície e o frescor da noite de final de verão. Se existissem almas que pudessem abandonar os corpos em movimento, deixava a carcaça seguir só, inconsciente, e tomava o corpo de alguém na escada rolante ao lado, que sobe para a rua, assumindo uma nova vida, fora do quartel. Às vezes imagina que, no seu lugar, um homem de brios tivesse preferido levar outra surra e passar, com sorte, uma semana na enfermaria. Mas uma coisa não elimina a outra. Não há escolha no regimento. A única vantagem da surra seria perder a consciência, esse peso que vai se tornando insustentável - se não fosse preciso recobrá-la e voltar para o quartel, para novas surras e punições. A verdade é que Andrei pode apanhar até cair, mesmo depois de ser humilhado. Não adianta querer entender por que o simples fato de ser quem ele é, um mero recruta, o obriga a fazer o que não quer. É o seu lugar e a sua hora. Não é ele quem está subindo as escadas rolantes no lugar do rapaz de cabelos sebentos. Está descendo aos infernos. Procura não imaginar para evitar a vertigem e a náusea. Tenta se convencer de que está apenas cumprindo ordens. Para poder seguir em frente com alguma dose de irresponsabilidade.
A esta hora, não há filas diante das portas que dão acesso aos trens, alinhadas dos dois lados da plataforma, à imagem de elevadores no lobby de um prédio comercial. Quem trabalha já voltou para casa e o movimento está reduzido a tipos solitários e eventuais. Pelo menos até a chegada do próximo trem de Moscou ou dos balneários, quando famílias carregadas de malas, voltando das férias, serão despejadas nas principais estações da cidade, infiltrando-se pelas artérias do transporte urbano, como uma inundação. Por enquanto, a estação de metrô onde ele entra está vazia. Poderia ter escolhido qualquer uma das portas, mas vai se plantar justamente atrás do único passageiro além dele na plataforma - um velho com uma sacola de supermercado em cada mão, que espera diante da segunda porta à direita e que se afasta, resmungando algo incompreensível mas que obviamente tem a ver com o recruta, ao perceber a presença dele às suas costas. O velho procura outra porta diante da qual possa esperar sozinho. A escolha de Andrei traduz uma lógica simplória e infantil, como se na companhia do velho tivesse menos chances de ser desmascarado - e sua missão, de ser descoberta pela polícia -, como se, aos olhos dos outros (que ali não estão), pudesse estar acompanhando o avô de volta para casa. Se o velho não tivesse mudado de porta, era bem capaz que Andrei tivesse se oferecido para ajudá-lo com as sacolas de supermercado. O trem chega e as portas se abrem. No vagão em que ele entra, há apenas uma mulher com maquiagem carregada. Andrei senta, sem se dar conta, no banco diante do dela. É uma espécie de compulsão inconsciente. Evita ficar sozinho. Como se a proximidade dos outros pudesse desviar a atenção de si mesmo. É uma mulher destruída. Os cabelos louros embranquecidos e esfiapados mal cobrem a cabeça oval e o rosto macilento, com dois olhos azuis aguados, manchados de preto, e os lábios muito finos, quase inexistentes, borrados de vermelho, como se o batom fosse o resquício de sangue de uma fenda cosida. A mulher o encara. Andrei a imagina careca, com a cabeça raspada, como ele, ou morta, de olhos fechados e mãos gélidas. Arruma o capuz para cobrir melhor a cabeça, e se encolhe. A mulher não tira os olhos dele. Está a ponto de dizer.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
The Justice League Of Hanna Barbera
Topo: O Jovem Sansão e seu leão Golias; Homem-Vapor, Flutuadora e Homem-Meteoro (o Galaxy Trio); Tara, Igoo e Zandor, dos Herculoides; Centro: Homem Pássaro e sua águia Vingador; Space Ghost; Embaixo: O Falcão Azul e Dinamite, o bionicão; Mightor;