Um dia ideal para os peixes-banana e livros e cinema e gibis e nus e ataxia espinocerebelar e 𓋹
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
DOWNLOAD the walking dead
The Walking dead volta depois de um longo hiato com um puta episódio. Para ver, clique na imagem.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
TRECHO meridiano sangrento
Cormac McCarthy
Uma legião de horríveis, centenas em número, seminus ou em trajes clássicos ou bíblicos ou tirados de um armário num delírio, com peles de animais e atavios de seda e peças de uniforme ainda manchadas com o sangue dos antigos donos, capotes de dragões chacinados, túnicas de cavalaria com alamares e debruadas, um de cartola e um com um guarda-chuva e um de meias brancas e com um véu de noiva manchado de sangue e alguns com cocares de penas de garça ou capacetes de couro cru com chifres de touro ou de búfalo e com uma casaca vestida ao contrário e com o rosto nu e um com uma armadura de um conquistador espanhol, o peito e as espáduas completamente amassados por antigos golpes de massa ou sabre desferidos em outro país por homens cujos ossos eram pó e muitos com tranças entremeadas com cabelos de outros animais enquanto rastejavam pelo chão e as orelhas e rabos de seus cavalos enfeitadas com pedaços de panos coloridos e um cujo cavalo tinha toda a cabeça pintada de vermelho carmesim e todos os cavaleiros com pinturas espalhafatosas e grotescas no rosto como um regimento de palhaços montados, de matar de rir, todos berrando numa língua bárbara e cavalgando como uma horda saída de um inferno ainda mais terrível do que a terra de enxofre do juízo final cristão, guinchando e uivando e envoltos em fumaça como aqueles seres fantásticos de regiões além do justo conhecimentos onde o olho vagueia e o lábio resseca e baba.
O regimento agora conseguira parar e os primeiros tiros estavam sendo desfechados e a fumaça cinzenta dos rifles rolava em meio à poeira ao mesmo tempo que os lanceiros abriam brechas em suas fileiras. O cavalo do garoto desabou embaixo dele com um suspiro longo e profundo Ele já tinha atirado com seu rifle e agora estava sentado no chão e atrapalhado com sua cartucheira. Um homem perto dele estava sentado com uma flecha pendendo do pescoço. Estava levemente curvado, como se estivesse rezando. O garoto ia puxar a ponta ensangüentada mas então viu outra flecha cravada no seu peito e o homem estava morto. Havia cavalos caídos por todo lado e homens arrastando-se e ele viu um homem sentado carregando seu rifle enquanto sangue escorria de suas orelhas e viu homens com seus revólveres abertos tentando ajustar seus cilindros mal municiados e viu homens de joelhos pendendo e abraçando suas sombras no chão e viu homens transpassados por lanças e agarrados pelos cabelos e escalpelados de pé e viu os cavalos dos guerreiros pisarem em cima dos caídos e um pônei pequeno de focinho branco com um olhar sombrio avançou para ele e tentou mordê-lo como um cachorro e foi embora. Entre os feridos alguns pareciam idiotas e inconscientes e alguns estavam pálidos atrás das máscaras de poeira e alguns tinham se borrado ou cambaleado até as lanças dos selvagens. Agora movendo-se numa fila turbulenta os cavalos impetuosos com olhos esbranquiçados e dentes afiados e cavaleiros nus com feixes de flechas presos entre os dentes e seus escudos cintilando na poeira e indo para o extremo das fileiras destroçadas entre o assobio de flautas de ossos e pendurados de lado em suas montarias com um calcanhar pendendo das correias ressecadas e seus pequenos arcos flectidos sob os pescoços esticados dos pôneis até terem cercado o regimento e cortado suas fileiras em dois e então voltando como vultos ridículos, alguns com figuras assustadoras pintadas no peito, cavalgando entre os saxões a pé e espetando-os e batendo neles de cima de suas montarias com facas e galopando ao redor sobre o solo com um trote cambaio peculiar como criaturas impelidas por estranhas formas de locomoção e arrancando as roupas dos mortos e pegando-os pelos cabelos e passando suas lâminas pelo crânio tanto dos vivos como dos mortos e erguendo no ar os escalpos ensangüentados e cortando e retalhando corpos nus, arrancando membros, cabeças, abrindo os torsos dos brancos estranhos e exibindo punhados de vísceras, órgãos genitais, alguns dos selvagens tão empapados com sangue que deviam ter rolado nele como cães e alguns atiravam-se sobre os agonizantes e os sodomizavam gritando alto para seus companheiros. E agora os cavalos dos mortos surgiram pisoteando da fumaça e da poeira e com os arreios balançando e crinas desgrenhadas e olhos embranquecidos pelo medo como os olhos dos cegos e alguns estavam cheios de flechas e alguns atravessados por lanças e tropeçando e vomitando sangue enquanto andavam pela terra assassina e trotavam de novo fora do alcance da vista. Poeira grudava-se nas cabeças molhadas e nuas dos escalpelados que com a orla de cabelos abaixo das feridas e tonsurados até o osso agora jaziam como macacos mutilados na poeira assentada pelo sangue e por todo lado os agonizantes gemiam e diziam coisas desconexas e cavalos estavam caídos guinchando.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
domingo, 12 de fevereiro de 2012
METAPHYSICAL OBJECT
"AS I ALREADY EXPLANED, I DON’T HAVE ANY FORM. I’M A CONCEPTUAL METAPHYSICAL OBJECT."
~Haruki Murakami
twisted ideas
“I believe life is nothing if you’re not obsessed. I only think terrible thoughts, I do not live them. Thank God I am not my films. If audiences can laugh at my twisted ideas, what’s the great harm? I had a goal in life — I wanted to make the trashiest motion pictures in cinema history. Thanks so much for allowing me to get away with it.”
John Waters
sábado, 11 de fevereiro de 2012
CONTO fazendo a barba
O barbeiro acabou de ajeitar-lhe a toalha ao redor do pescoço. Encostou a mão:
— Ele está quente ainda...
— Que hora que foi? — perguntou o rapazinho.
O barbeiro não respondeu. Na camisa semi-aberta do morto alguns pêlos grisalhos apareciam. O rapazinho observava atentamente. Então o barbeiro olhou para ele.
— Que hora que ele morreu? — o rapazinho tornou a perguntar.
— De madrugada — disse o barbeiro; — ele morreu de madrugada. Estendeu a mão:
— O pincel e o creme.
O rapazinho pegou rápido o pincel e o creme na valise de couro sobre a mezinha. Depois pegou a jarra de água que havia trazido ao entrarem no quarto: derramou um pouco na vasilhinha do creme e mexeu até fazer espuma.
O rapazinho era sempre rápido no serviço mas àquela hora sua rapidez parecia acompanhada de algum nervosismo: o pincel acabou escapulindo de sua mão e foi bater na perna do barbeiro, que estava sentado junto à cama. Ele pediu desculpas, muito sem-graça e mais descontrolado ainda.
— Não foi nada — disse o barbeiro, limpando a mancha de espuma na calça; — isso acontece...
O rapaz, depois de catar o pincel, mexeu mais um pouco, e então entregou a vasilhinha ao barbeiro, que ainda deu uma mexida.
Antes de começar o serviço, o barbeiro olhou para o rapaz:
— Você acharia melhor esperar lá fora? — perguntou, de um modo muito educado.
— Não, senhor.
— A morte não é um espetáculo agradável para os jovens — disse. Aliás, para ninguém...
Começou a pincelar o rosto do morto. A barba, de uns quatro dias, estava cerrada.
Através da porta fechada vinha um murmúrio abafado de vozes rezando um terço. Lá fora o céu ia acabando de clarear; um ar fresco entrava pela janela aberta do quarto.
O barbeiro devolveu o pincel e a vasilhinha; o rapaz já estava com a navalha e o afiador na mão: entregou-os ao barbeiro e pôs na mesa a vasilhinha com o pincel.
O barbeiro afiava a navalha. No salão, era conhecido seu estilo de afiar, acompanhando trechos alegres de música clássica, que ele ia assobiando. Ali, no quarto, ao lado de um morto, afiava num ritmo diferente, mais espaçado e lento: alguém poderia quase deduzir que ele, em sua cabeça, assobiava uma marcha fúnebre.
— É tão esquisito — disse o rapazinho.
— Esquisito? — o barbeiro parou de afiar.
— A gente fazer a barba dele...
O barbeiro olhou para o morto:
— O que não é esquisito? — disse. — Ele, nós, a morte, a vida, o que não é esquisito?
Começou a barbear. Firmava a cabeça do morto com a mão esquerda, e com a direita ia raspando.
— Deus me ajude a morrer com a barba feita — disse o rapazinho, que já tinha alguma barba. — Assim eles não têm de fazer ela depois de eu morto. E tão esquisito...
O barbeiro se interrompeu, afastou a cabeça e olhou de novo para o rosto do morto — mas não tinha nada a ver com a observação do rapaz; estava apenas olhando como ia o seu trabalho.
— Será que ele está vendo a gente de algum lugar? — perguntou o rapazinho.
Olhou para o alto — o teto ainda de luz acesa —, como se a alma do morto estivesse por ali, observando-os; não viu nada, mas sentia como se a alma estivesse por ali.
A navalha ia agora limpando debaixo do queixo. O rapazinho observava o rosto do morto, seus olhos fechados, a boca, a cor pálida: sem a barba, ele agora parecia mais um morto.
— Por que a gente morre? — perguntou. — Por que a gente tem de morrer?
O barbeiro não disse nada. Tinha acabado de barbear. Limpou a navalha e fechou-a, deixando-a na beirada da cama.
— Me dá a outra toalha — pediu; — e molhe o paninho.
O rapaz molhou o paninho na jarra; apertou-o para escorrer, e então entregou ao barbeiro, junto com a toalha.
O barbeiro foi limpando e enxugando cuidadosamente o rosto do morto. Com a ponta do pano, tirou um pouco de espuma que tinha entrado no ouvido.
— Por que será que a gente não acostuma com a morte? — perguntou o rapazinho. — A gente não tem de morrer um dia? Todo mundo não morre? Então por que a gente não acostuma?
O barbeiro fixou-o um segundo:
— É — disse, e se voltou para o morto. Começou a fazer o bigode.
— Não é esquisito? — perguntou o rapazinho. — Eu não entendo.
— Há muita coisa que a gente não entende — disse o barbeiro.
Estendeu a mão:
— A tesourinha.
Na casa, o movimento e o barulho de vozes pareciam aumentar; de vez em quando um choro. O rapazinho pensou alegre que já estavam quase acabando e que dentro de mais alguns minutos ele estaria lá fora, na rua, caminhando no ar fresco da manhã.
— O pente — disse o barbeiro. — Pode ir guardando as coisas.
Quando acabou de pentear, o barbeiro se ergueu da cadeira e contemplou o rosto do morto.
— A tesourinha de novo — pediu.
O rapaz tornou a abrir a valise e a pegar a tesourinha.
O barbeiro se curvou e cortou a pontinha de um fio de cabelo do bigode. Os dois ficaram olhando.
— A morte é uma coisa muito estranha — disse o barbeiro.
Lá fora o sol já iluminava a cidade, que ia se movimentando para mais um dia de trabalho: lojas abrindo, estudantes andando para a escola, carros passando.
Os dois caminharam um bom tempo em silêncio; até que, à porta de um boteco, o barbeiro parou:
— Vamos tomar uma pinguinha?
O rapaz olhou meio sem jeito para ele; só bebia escondido, e não sabia o que responder.
— Uma pinguinha é bom para retemperar os nervos — disse o barbeiro, olhando-o com um sorriso bondoso.
— Bem... — disse o rapaz.
O barbeiro pôs a mão em seu ombro, e os dois entraram no boteco.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
TRECHO Mérimée amordaçado
José Marcelo
Os grilos cantam, alguma coisa com azas passa na frente da lua, e minha filha linda e louca sorri para o reflexo na janela.
O que está fazendo?
Ela se vira. Vendo a garotinha.
Garotinha?
Ela aponta para o reflexo.
A garotinha triste diz.
E por que ela está triste?
Você não sabe?
Não… Me diga.
Ela está morrendo.
Morrendo? Não, ela não está.
Ela me olha muito séria. Está sim, diz. Você deveria saber. É você quem a está matando.
Então ela abre a boca. Muda. Escancarada. E começa a gritar. Minha filha cai no chão e começa a espernear e a se debater até fechar os olhos repentinamente. Um movimento breve, pouco mais que um piscar. Ela voltou a sorrir. Me olha e murmura algo que eu não entendo.
O que foi?
A garotinha se foi. Agora sou só eu diz ela.
E quem é você?
Não seja bobo. Sou sua filha.
Ela se levanta e caminha na direção do corredor. Vou tomar banho diz. Ela vai andando e despindo-se do vestido amarrotado e da calcinha minúscula. Percebo com uma pontada que ela se tornou uma bela mulher. Ela entra no banheiro, mas não fecha a porta.
Ouço o chuveiro e a voz dela, suave como sempre fica quando está tranquila, agora cantarolando uma canção que desconheço, algo infantil e agradável.
Olho pra minhas mãos. Estão tremendo.
…
TRECHO onde os velhos não tem vez
Cormac McCarthy
Chigurh estendeu um dólar sobre o balcão. O homem abriu a caixa registradora e empilhou o troco diante dele do modo como um carteador de cassino coloca as fichas. Chigurh não tinha tirado os olhos dele. O homem desviou o olhar. Tossiu. Chigurh abriu o pacote plástico de castanhas-de-caju com os dentes e despejou um terço do pacote na palma da mão e começou a comer.
Mais alguma coisa? o homem disse.
Não sei. Será?
Tem algo errado?
Com o quê?
Com alguma coisa.
É isso o que você está me perguntando? Se tem algo errado com alguma coisa?
O homem se virou e colocou o punho fechado sobre a boca e tossiu outra vez. Olhou para Chigurh e ele desviou o olhar. Olhou pela janela para a frente da loja. As bombas de gasolina e o carro parado lá. Chigurh comeu mais um punhadinho de castanhas-de-caju.
Mais alguma coisa?
Você já me perguntou isso.
Bem é que eu preciso fechar.
Fechar.
Sim senhor.
A que horas você fecha?
Agora. Fechamos agora.
Agora não é um horário. A que horas você fecha?
Normalmente ao escurecer. Quando escurece.
Chigurh ficou ali mastigando devagar. Você não sabe o que está dizendo, não é mesmo?
Perdão?
Eu disse você não sabe o que está dizendo não é mesmo.
Estou dizendo que é hora de fechar. Isso é o que eu estou dizendo.
A que horas você vai para a cama.
Perdão?
Você é meio surdo, não? Eu disse a que horas você vai para a cama.
Bem. Eu diria que por volta das nove e meia. Mais ou menos por volta das nove e meia.
Chigurh despejou mais castanhas na palma da mão.
Eu poderia voltar a essa hora, ele disse.
Nós vamos estar fechados.
É verdade.
Bem por que então o senhor ia voltar? Vamos estar fechados.
Você já disse isso.
Bem vamos mesmo.
Você mora naquela casa atrás da loja?
Moro sim.
Morou ali a vida toda?
O proprietário levou um tempo para responder. Essa era a casa do pai da minha mulher, ele disse. Originalmente.
Você se casou só para poder ficar com a casa.
Nós moramos em Temple Texas durante vários anos. Criamos uma família ali. Em Temple. Viemos para cá há uns quatro anos.
Você se casou só para poder ficar com a casa.
Se é o que o senhor acha.
Não é assim que eu acho. É assim que é.
Bem agora eu preciso fechar.
Chigurh despejou o restante das castanhas na palma da mão e amassou o pacote de plástico e colocou em cima do balcão. Estava de pé de forma estranhamente ereta, mastigando.
O senhor parece ter uma porção de perguntas, o proprietário disse. Para alguém que não quer dizer de onde veio.
Qual foi o máximo que você já perdeu jogando cara ou coroa?
Perdão?
Eu disse qual foi o máximo que você já perdeu jogando cara ou coroa.
Cara ou coroa?
Cara ou coroa.
Não sei. As pessoas normalmente não fazem apostas com cara ou coroa. Habitualmente é mais só para resolver alguma coisa.
Qual a maior coisa que você já viu ser resolvida?
Não sei.
Chigurh pegou uma moeda de vinte e cinco centavos no bolso e jogou-a para cima fazendo com que ela rodopiasse em meio ao brilho azulado das luzes fluorescentes lá no alto.Apanhou-a e prendeu-a de encontro à parte de trás de seu antebraço logo acima da atadura ensangüentada.
Escolha, ele disse.
Escolher?
Sim.
Por quê?
Só escolha.
Bem eu preciso saber o que é que nós estamos decidindo aqui.
Isso iria mudar alguma coisa?
O homem olhou para os olhos de Chigurh pela primeira vez. Azuis como lápis-lazúli. Ao mesmo tempo brilhantes e totalmente opacos. Como pedras molhadas. Você precisa escolher, Chigurh disse. Não posso escolher por você. Não seria justo. Não seria nem mesmo correto. Só escolha.
Eu não apostei nada.
Apostou sim. Está apostando a vida inteira. Você apenas não sabia. Sabe qual a data que está na moeda?
Não.
É 1958. Ela viajou durante vinte e dois anos para chegar aqui. E agora está aqui. E eu estou aqui. E estou com a mão sobre ela. E vai ser cara ou coroa. E você tem que dizer. Escolha.
Não sei o que posso ganhar.
À luz azulada o rosto do homem estava coberto por uma camada fina de suor. Ele lambeu o lábio superior.
Você pode ganhar tudo, Chigurh disse. Tudo.
FRAME gran torino
Um dos melhores filmes de Eastwood. Sóbrio e elegantemente filmado. Aquele final não é qualquer coisa.
TRECHO algumas palavras sobre o ciclo das rãs
Patricio Pron
"(...) Naturalmente eu não sabia que seria vizinho do escritor argentino vivo antes de me tornar seu vizinho; simplesmente eu estava buscando um apartamento e um amigo que costumava passar longas temporadas fora da capital havia se disposto a emprestar-me o dele, que ficava num bairro de uma cidade em que eu ia morar durante muito tempo. Farto da cidade provinciana onde nascera, eu decidi ir para a capital; ali, acreditava, poderia estar perto das coisas que me interessavam e longe das coisas que não me interessavam, ou simplesmente em outro lugar, com outros rostos e ruas de nomes diferentes ou distribuídas de outro modo, e onde talvez poderia existir uma pessoa com o meu nome que pensasse de outro modo e fizesse as coisas de outra forma, talvez mais satisfatória.
Naturalmente, tampouco nisso eu era original, pois a vida literária deste país se compunha sobretudo de jovens provincianos que aspiravam se tornar escritores e percorriam todo o caminho desde as tristes províncias até a capital e ali viviam mal e nunca mandavam cartas para a família e às vezes voltavam para a província e às vezes ficavam e se convertiam em escritores da capital de pleno direito, ou seja, em escritores que só escreviam sobre a capital e seus problemas, que eles pretendiam fazer passar pelos problemas de uma cidade pobre do sul da Europa e não pelos de uma capital latino-americana, que é o que realmente era aquela cidade. Um desses problemas — embora um dos menos importantes, evidentemente — eram os próprios escritores de províncias, que costumavam visitar as oficinas literárias de outros escritores de províncias chegados há mais tempo à capital e já não eram escritores de províncias ou fingiam não ser, ou escreviam em pensões imundas ou nas casas que compartilhavam com amigos, provenientes geralmente das mesmas províncias, e depois trabalhavam em lojas ou tabacarias, ou — se tinham sorte — em livrarias, quase sempre em horários ridículos que os impediam de poder se dedicar seriamente a escrever, com o que, cedo ou tarde, os escritores de províncias acabavam por odiar a literatura, que praticavam de língua para fora, escrevendo em ônibus repletos ou no metrô, porque esta lhes roubava algumas horas de sonho imprescindíveis para aguentar o chefe e os clientes e o clima e os longos deslocamentos em ônibus ou metrô, e porque esta sempre parecia estar um passo além do lugar aonde eles tinham chegado; sempre dava a impressão de que os escritores de províncias iam alcançar a literatura no seu próximo conto ou no poema seguinte, de que estavam às portas de uma descoberta que, no entanto, os escritores de províncias não estavam em condição de realizar porque, lamentavelmente, para escrever é preciso ter dormido pelo menos seis horas e ter o estômago cheio e, se possível, não trabalhar numa tabacaria. E mais: é possível escrever depois de uma noite maldormida e com uma fome atroz, mas nunca trabalhando numa tabacaria; é triste, mas é assim. (...)"
AMIGOS E INIMIGOS
"Não revele aos amigos os seus segredos, porque você não sabe se algum se tornará seu inimigo. Não cause ao seu inimigo todo o mal que lhe possa fazer, porque você não sabe se ele se tornará um dia seu amigo."
William Blake
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
POSTER Uma aventura na Martinica
Lauren Bacall belíssima e Humphrey Bogart com sua habitual forte presença cinematográfica em um filme memorável, com personagens fascinantes e diálogos inspiradíssimos.