Um dia ideal para os peixes-banana e livros e cinema e gibis e nus e ataxia espinocerebelar e 𓋹
segunda-feira, 6 de junho de 2011
UM HOMEM BOM VAI À GUERRA
Diálogo do episódio A Good Man Goes To War:
- O que você ouviu?
- Que você deixou de lado uma criatura voraz e falhou em sua fuga
Admiro sua coragem, gostaria de admirá-la à distância.
- Estamos esperando há um mês, ele não fez nada.
- Você acha mesmo?
Existem muitas pessoas por toda a galáxia que devem algo a este homem.
Neste momento devem estar se deparando com uma caixa azul os esperando do lado de fora de casa.
Todos esses devedores.
- Você acha que ele está erguendo um exército?
- Você acha que não?
Se este homem resolver cobrar suas dívidas, então que Deus os ajude. E Deus ajude seus devedores.
- Por que?
- Coronel Manton, todas as estórias que ouviu sobre ele não são estórias, são verdade!
Realmente, não me diga que não sabe o que virá.
- Estamos perdendo nosso tempo aqui
- Eu concordo.
- O asteroide onde vocês fizeram sua base, você sabe porque é chamado de Demon’s Run?
- Como você sabe a localização de nossa base?
- Vocês estão com os monges sem cabeça, eles são meus clientes antigos.
- É o de sempre…
- O de sempre, a notícia mais velha
Demônios correm quando um bom homem vai à guerra.
Para assistir este e outros episódios do clássico DR. WHO, clique em Universo Who.
O TESOURO
EÇA DE QUEIROZ
I
Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guannes e Rostabal, eram então, em todo o Reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados.
Nos paços de Medranhos, a que o vento da serra levara vidraça e telha, passavam eles as tardes desse inverno, engelhados nos seus pelotes de camelão, batendo as solas rotas sobre as lajes da cozinha, diante da vasta lareira negra, onde desde muito não estalava lume, nem fervia a panela de ferro. Ao escurecer devoravam uma côdea de pão negro, esfregada com alho. Depois, sem candeia, através do pátio, fendendo a neve, iam dormir à estrebaria, para aproveitar o calor das três éguas lazarentas que, esfaimadas como eles, roíam as traves da manjedoura. E a miséria tornara esses senhores mais bravios que lobos.
Ora, na Primavera, por uma silenciosa manhã de domingo, andando todos os três na mata de Roquelanes a espiar pegadas de caça e a apanhar tortulhos entre os robles, enquanto as três éguas pastavam a relva nova de abril, - os irmãos de Medranhos encontraram, por trás de uma mouta de espinheiros, numa cova de rocha, um velho cofre de ferro. Como se o resguardasse uma torre segura, conservava as suas três chaves nas suas três fechaduras. Sobre a tampa, mal decifrável através da ferrugem, corria um dístico em letras árabes. E dentro, até às bordas, estava cheio de dobrões de ouro!
No terror e esplendor da emoção, os três senhores ficaram mais lívidos do que círios. Depois, mergulhando furiosametne as mãos no ouro, estalaram a rir, num riso de tão larga rajada, que as folhas tenras dos olmos, em roda, tremiam... E de novo recuaram, bruscamente se encararam, com os olhos a flamejar, numa desconfiança tão desabrida que Guannes e Rostabal apalpavam nos cintos os cabos das grandes facas. Então Rui, que era gordo e ruivo, e o mais avisado, ergueu os braços, como um árbitro, e começou por decidir que o tesouro, ou viesse de Deus ou do demônio, pertencia aos três, e entre eles se repartiria, rigidamente, pesando-se o ouro em balanças. Mas como poderiam carregar para Medranhos, para os cimos da serra, aquele cofre tão cheio? Nem convinha que saíssem da mata com o seu bem, antes de cerrar a escuridão. Por isso ele entendia que o mano Guannes, como mais leve, devia trotar para a vila vizinha de Retortilho, levando já ouro na bolsinha, a comprar três alforges de couro, três maquias de cevada, três empadões de carne e três botelhas de vinho. Vinho e carne eram para eles, que não comiam desde a véspera: a cevada era para as éguas. E assim refeitos, senhores e cavalgaduras, ensacariam o ouro nos alforges e subiriam para Medranhos, sob a segurança da noite sem Lua.
- Bem tramado! - gritou Rostabal, homem mais alto que um pinheiro, de longa guedelha e com uma barba que lhe caía desde os olhos raiados de sangue até à fivela do cinturão.
Mas Guannes não se arredava do cofre, enrugado, desconfiado, puxando entre os dedos a pele negra do seu pescoço de grou. Por fim, brutalmente:
- Manos! O cofre tem três chaves... Eu quero fechar a minha fechadura e levar a minha chave!
- Também eu quero a minha, mil raios! - rugiu logo Rostabal.
Rui sorriu. Decerto, decerto! A cada dono do ouro cabia uma das chaves que o guardavam. E cada um em silêncio, agachado ante o cofre, cerrou a sua fechadura com força. Imediatamente Guannes, desanuviado, saltou na égua, meteu pela vereda de olmos, a caminho de Retortilho, atirando aos ramos a sua cantiga costumada e dolente:
Olé! Olé!
Sale la cruz de la iglesia,
Vestida de negro luto...
II
NA clareira, em frente à mouta que encobria o tesouro (e que os três tinham desbastado a cutiladas), um fio de água, brotando entre rochas, caía sobre uma vasta laje encravada, onde fazia como um tanque, claro e quieto, antes de se escoar para as relvas altas. E ao lado, na sombra de uma faia, jazia um velho pilar de granito, tombado e musgoso. Ali vieram sentar-se Rui e Rostabal, com os seus tremendos espadões entre os joelhos. As duas éguas tosavam a boa erva pintalgada de papoilas e botões de ouro. Pela ramaria andava um melro a assobiar. Um cheiro errante de violetas adoçava o ar luminoso. E Rostabal, olhando o sol, bocejava com fome.
Então Rui, que tirara o sombrero e lhe cofiava as velhas plumas roxas, começou a considerar, na sua fala avisada e mansa, que Guannes, nessa manhã, não quisera descer com eles à mata de Roquelanes. E assim era a sorte ruim! Pois que se Guannes tivesse quedado em Medranhos, só eles dois teriam descoberto o cofre, e só entre eles dois se dividiria o ouro! Grande pena! Tanto mais que a parte de Guannes seria em breve dissipada, com rufiões, aos dados, pelas tavernas.
- Ah! Rostabal, Rostabal! Se Guannes, passando aqui sozinho, tivesse achado este ouro, não dividia conosco, Rostabal!
O outro rosnou surdamente e com furor, dando um puxão às barbas negras:
- Não, mil raios! Guannes é sôfrego... Quando o ano passado, se te lembras, ganhou os cem ducados ao espadeiro de Fresno, nem me quis emprestar três para eu comprar um gibão novo!
- Vês tu! - gritou Rui, resplandecendo.
Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados pela mesma idéia, que os deslumbrava. E, através das suas largas passadas, as ervas altas silvavam.
- E para quê - prosseguia Rui. - Para que serve todo o ouro que nos leva! Tu não o ouves, de noite, como tosse! Ao redor da palha em que dorme, todo o chão está negro do sangue que escarra! Não dura até às outras neves, Rostabal! Mas até lá terá dissipado os bons dobrões que deviam ser nossos, para levantarmos a nossa casa, e para tu teres ginetes, e armas, e trajes nobres, e o teu terço de solarengos, como compete a quem é, como tu, o mais velho dos de Medranhos...
- Pois que morra, e morra hoje! - bradou Rostabal.
- Queres!
Vivamente, Rui agarrara o braço do irmão e apontava para a vereda de olmos, por onde Guannes partira cantando:
- Logo adiante, ao fim do trilho, há um sítio bom, nos silvados. E hás-de ser tu, Rostabal, que és o mais forte e o mais destro. Um golpe de ponta pelas costas. E é justiça de Deus que seja tu, que muitas vezes, nas tavernas, sem pudor, Guannes te tratava de cerdo e de torpe, por não saberes a letra nem os números.
- Malvado!
- Vem!
Foram. Ambos se emboscaram por trás dum silvado, que dominava o atalho, estreito e pedregoso, como um leito de torrente. Rostabal, assolapado na vala, tinha já a espada nua. Um vento leve arrepiou na encosta as folhas dos álamos - e sentiram o repique leve dos sinos de Retortilho. Rui, coçando a barba, calculava as horas pelo sol, que já se inclinava para as serras. Um bando de corvos passou sobre eles, grasnando. E Rostabal, que lhes seguira o voo, recomeçou a bocejar, com fome, pensando nos empadões e no vinho que o outro trazia nos alforges.
Enfim! Alerta! Era, na vereda, a cantiga dolente e rouca, atirada aos ramos:
Olé! Olé!
Sale la cruz de la iglesia
Toda vestida de negro...
Rui murmurou: - “Na ilharga! Mal que passe!” O chouto da égua bateu o cascalho, uma pluma num sombrero vermelhejou por sobre a ponta das silvas.
Rostabal rompeu de entre a sarça por uma brecha, atirou o braço, a longa espada; - e toda a lâmina se embebeu molemente na ilharga de Guannes, quando ao rumor, bruscamente, ele se virara na sela. Com um surdo arranco, tombou de lado, sobre as pedras. Já Rui se arremessava aos freios da égua: - Rostabal, caindo sobre Guannes, que arquejava, de novo lhe mergulhou a espada, agarrada pela folha como um punhal, no peito e na garganta.
- A chave! - gritou Rui.
E arrancada a chave do cofre ao seio do morto, ambos largaram pela vereda - Rostabal adiante, fugindo, com a pluma do sombrero quebrada e torta, a espada ainda nua entalada sob o braço, todo encolhido, arrepiado com o sabor de sangue que lhe espirrara para a boca; Rui, atrás, puxando desesperadamente os freios da égua, que, de patas fincadas no chão pedregoso, arreganhando a longa dentuça amarela, não queria deixar o seu amo assim estirado, abandonado, ao comprido das sebes.
Teve de lhe espicaçar as ancas lazarentas com a ponta da espada: - e foi correndo sobre ela, de lâmina alta, como se perseguisse um mouro, que desembocou na clareira onde o sol já não dourava as folhas. Rostabal arremessara para a relva o sombrero e a espada; e debruçado sobre a laje escavada em tanque, de mangas arregaçadas, lavava, ruidosamente, a face e as barbas.
A égua, quieta, recomeçou a pastar, carregada com os alforjes novos que Guannes comprara em Retortilho. Do mais largo, abarrotado, surdiam dois gargalos de garrafas. Então Rui tirou, lentamente, do cinto, a sua larga navalha. Sem um rumor na selva espessa, deslizou até Rostabal, que resfolgava, com as longas barbas pingando. E serenamente, como se pregasse uma estaca num canteiro, enterrou a folha toda no largo dorso dobrado, certeira sobre o coração.
Rostabal caiu sobre o tanque, sem um gemido, com a face na água, os longos cabelos flutuando na água. A sua velha escarcela de couro ficara entalada sob a coxa. Para tirar de dentro a terceira chave do cofre, Rui solevou o corpo - e um sangue mais grosso jorrou, escorreu pela borda do tanque, fumegando.
III
AGORA eram dele, só dele, as três chaves do cofre!... e Rui, alargando os braços, respirou deliciosamente. Mal a noite descesse, com o ouro metido nos alforges, guiando a fila das éguas pelos trilhos da serra, subiria a Medranhos e enterraria na adega o seu tesouro! E quando ali na fonte, e além rente aos silvados, só restassem, sob as neves de dezembro, alguns ossos sem nome, ele seria o magnífico senhor de Medranhos, e na capela nova do solar renascido mandaria dizer missas ricas pelos seus dois irmãos mortos... Mortos, como? Como devem morrer os Medranhos - a pelejar contra o Turco!
Abriu as três fechaduras, apanhou um punhado de dobrões, que fez retinir sobre as pedras. Que puro ouro, de fino quilate! E era o seu ouro! Depois de examinar a capacidade dos alforges - e encontrando as duas garrafas de vinho, e um gordo capão assado, sentiu uma imensa fome. Desde a véspera só comera uma lasca de peixe seco. E há quanto tempo não provava capão!
Com que delícia se sentou na relva, com as penas abertas, e entre elas a ave loura, que rescendia, e o vinho cor de âmbar! Ah! Guannes fora bom mordomo - nem esquecera azeitonas. Mas por que trouxera ele, para três convivas, só duas garrafas? Rasgou uma asa do capão: devorava a grandes dentadas. A tarde descia, pensativa e doce, com nuvenzinhas cor-de-rosa. Para além, na vereda, um bando de corvos grasnava. As éguas fartas dormitavam, com o focinho pendido. E a fonte cantava, lavando o morto.
Rui ergueu à luz a garrafa de vinho. Com aquela cor velha e quente, não teria custado menos de três maravedis. E pondo o gargalo à boca, bebeu em sorvos lentos, que lhe faziam ondular o pescoço peludo. Oh vinho bendito, que tão prontamente aquecia o sangue! Atirou a garrafa vazia - destapou outra. Mas, como era avisado, não bebeu porque a jornada para a serra, com o tesouro, requeria firmeza e acerto. Estendido sobre o cotovelo, descansando, pensava em Medranhos coberto de telha nova, nas altas chamas da lareira por noites de neve, e o seu leito com brocados, onde teria sempre mulheres.
De repente, tomado de uma ansiedade, teve pressa de carregar os alforges. Já entre os troncos a sombra se adensava. Puxou uma das éguas para junto do cofre, ergueu a tampa, tomou um punhado de ouro... mas oscilou, largando os dobrões que retilintaram no chão, e levou as duas mãos aflitas ao peito. Que é, D. Rui! Raios de Deus! era um lume, um lume vivo, que se lhe acendera dentro, lhe subia até às goelas. Já rasgara o gibão, atirava os passos incertos e, a arquejar, com a língua pendente, limpava as grossas bagas dum suor horrendo que o regelava como neve. Oh Virgem Mãe! Outra vez o lume, mais forte, que alastrava, o roía! Gritou:
- Socorro! Além! Guannes! Rostabal!
Os seus braços torcidos batiam o ar desesperadamente. E a chama dentro galgava - sentia os ossos a estalarem como as traves duma casa em fogo.
Cambaleou até à fonte para apagar aquela labareda, tropeçou sobre Rostabal; e foi com o joelho fincado no morto, arranhando a rocha, que ele, entre uivos, procurava o fio de água, que recebia sobre os olhos, pelos cabelos. Mas a água mais o queimava, como se fosse um metal derretido. Recuou, caiu para cima da relva que arrancava aos punhados, e que mordia, mordendo os dedos, para lhe sugar a frescura. Ainda se ergueu, com uma baba densa a escorrer-lhe nas barbas: e de repente, esbugalhando pavorosamente os olhos, berrou como se compreendesse enfim a traição, todo o horror:
- É veneno!
Oh! D. Rui, o avisado, era veneno! Porque Guannes, apenas chegara a Retortilho, mesmo antes de comprar os alforges, correra cantando a uma viela, por detrás da catedral, a comprar ao velho droguista judeu o veneno que, misturado ao vinho, o tornaria a ele, a ele somente, dono de todo o tesouro.
Anoiteceu. Dois corvos de entre o bando que grasnava, além nos silvados, já tinham pousado sobre o corpo de Guannes. A fonte, cantando, lavava o outro morto. Meio enterrada na erva, toda a face de Rui se tornara negra. Uma estrelinha tremeluzia no céu.
O tesouro ainda lá está, na mata de Roquelanes.
domingo, 5 de junho de 2011
O BOM, O MAL E O FEIO
É um Sergio Leone. Um desses filmes para ver e rever e rever de novo. Uma obra que ultrapassa o gênero em que foi feito e ecoa para sempre como uma indiscutível obra-prima.
sábado, 4 de junho de 2011
DAS FRAUENHAUS
Adoro a combinação das cores e das imagens e das fontes deste poster. E como é um filme do grande Jess Franco, deve ser muito legal.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
COLINAS PARECENDO ELEFANTES BRANCOS
Ernest Hemingway
As colinas por trás do vale do Ebro eram brancas e prolongavam-se no horizonte. Aqui, entretanto, não havia sombra ou árvores, e a estação ficava entre duas linhas de trem. O sol batia no prédio formando uma faixa estreita de sombra quente e uma cortina feita de bambu ficava na porta de entrada do bar, para manter as moscas afastadas. O homem americano e a garota que estava com ele escolheram uma mesa na sombra, do lado de fora do bar. Fazia muito calor e o expresso de Barcelona chegaria em quarenta minutos. Ele parava dois minutos na junção e então continuava seu trajeto, em direção a Madri.
- O que vamos beber? - a garota perguntou. Ela havia tirado o chapéu e colocado sobre a mesa.
- Está fazendo bastante calor - o homem comentou.
- Que tal uma cerveja?
- "Dos cervezas", o homem disse, em direção à cortina.
- Copos grandes? - a mulher perguntou da porta.
- Sim, dois copos grandes.
A mulher trouxe dois copos de cerveja e dois porta-copos. Ela os colocou sobre a mesa e olhou para o casal. A garota estava olhando na direção das colinas. Elas ficavam brancas no sol e o campo, marrom e seco.
- Elas se parecem com elefantes brancos - disse a garota.
- Nunca vi um - o homem tomou um gole de cerveja.
- Não, é claro que você não veria.
- Eu poderia ter visto - o homem replicou. O fato de você dizer que eu não veria não prova nada.
A garota olhou para a cortina de contas.
- Tem alguma coisa pintada ali - disse. O que diz?
- Anis del Toro. Uma bebida.
- Vamos experimentar?
O homem chamou, em direção à cortina:
- Ei!
A mulher saiu do bar.
- Quatro reales.
- Dois Anis del Toro, por favor.
- Com água?
- Você quer com água?
- Sei lá - respondeu a garota. Fica bom com água?
- Fica.
- Os dois com água? - perguntou a mulher do bar.
- É, com água.
- O gosto se parece com o de alcaçuz - a garota observou, e baixou o copo.
- É assim com todas as coisas.
- Sim - disse a garota - tudo tem sabor de alcaçuz. Principalmente as coisas que você espera muito tempo para conseguir, amargas como absinto.
- Ora! Pare com isso.
- Você começou - a garota falou. Eu estava me divertindo. Estava "numa boa".
- Ok, então vamos nos esforçar para manter tudo bem.
- Certo. Eu estava me esforçando. Eu disse que as colinas estavam parecendo com elefantes brancos. Não foi uma comparação inteligente?
- Claro que sim.
- Queria experimentar essa nova bebida. Isto é tudo o que fazemos, não é? Olhar para as coisas e experimentar bebidas diferentes.
- Acho que sim.
A garota olhou para o outro lado, para as colinas.
- São colinas muito bonitas - disse. Na verdade elas não se parecem com elefantes brancos. O que eu queria dizer é que as colinas lembram a cor da pele dos animais através das árvores.
- Vamos tomar outra?
- Tudo bem.
O vento quente que soprava fez com que a cortina de bambu se movesse em direção à mesa.
- A cerveja está ótima, bem geladinha - o homem disse.
- Muito boa - concordou a garota.
- É uma operação muito simples, Jig - o homem comentou - nem sei se podemos dizer que é uma operação.
A garota olhou para o chão, onde os pés da mesa se apoiavam.
- Sei que você não se importaria, Jig. Você vai ver, não é nada. É só para deixar um pouco de ar entrar.
A garota ficou calada.
- Eu vou com você e vou ficar ao seu lado o tempo todo. Eles apenas deixam que o ar entre, e então tudo fica muito natural.
- E o que nós vamos fazer depois?
- Isso é a única coisa que nos incomoda. A única coisa que nos faz infelizes.
A garota olhou para a cortina de bambu, esticou a mão e pegou duas de suas cordas.
- E você acha que então nós vamos ficar bem e felizes.
- Acho que sim. Não precisa ficar com medo. Eu conheço muitas pessoas que já passaram por isso.
- Eu também - disse a garota - E depois de tudo eles foram muito felizes.
- Sim - o homem disse - Se você não quiser, você não tem que fazer isso. Não quero que você faça nada forçada. Mas eu sei que tudo é bastante simples.
- Você quer mesmo fazer isso?
- Acho que é a melhor coisa a se fazer. Mas não quero que você faça nada sem querer.
- E se eu fizer, você vai ficar feliz e as coisas vão ser como eram antes e você vai me amar?
- Eu já amo você. Você sabe disto.
- Eu sei. Mas se eu decidir fazer, tudo ficará bem outra vez se eu disser que as coisas são como elefantes brancos, e você vai gostar?
- Vou gostar muito. Na verdade eu já gosto, mas ainda não consigo pensar nisso. Você sabe como eu fico quando estou preocupado.
- Se eu fizer você nunca mais vai ficar preocupado?
- Não vou ficar preocupado porque isso é perfeitamente simples.
- Então eu vou fazer. Porque eu não me importo comigo.
- O que você está querendo dizer?
- Que eu não me importo comigo.
- Mas eu me importo com você.
- Sei. Mas eu não. E eu vou fazer isto e então tudo vai ficar bem.
- Não quero que você faça isso se sentindo assim.
A garota se levantou e andou até o fim da estação. No outro lado, havia campos com plantações de cereais e árvores ao longo das encostas do Ebro. Longe dali, depois do rio, estavam as montanhas. A sombra de uma nuvem se movia sobre os campos e ela viu o rio por entre as árvores.
- E nós poderíamos ter tudo isto - ela disse. Poderíamos ter tudo e a cada dia tornamos isso mais difícil.
- O que você disse?
- Disse que poderíamos ter tudo.
- Mas nós podemos ter tudo.
- Não, não podemos.
- Nós podemos ter todo o mundo.
- Não podemos.
- Podemos ir a qualquer lugar.
- Não, não podemos. Não é mais nosso.
- É nosso.
- Não, não é. Depois que o tiram, é impossível tê-lo de volta.
- Mas não o tiraram.
- Vamos esperar e ver.
- Volte para a sombra - ele disse. Você não deveria estar se sentindo assim.
- Eu não estou sentindo nada - a garota continuou - É que eu sei o que está acontecendo.
- Não quero que você faça nada que não queira -
- Nem algo que não seja bom para mim - a garota completou. Claro que eu sei. Podemos beber outra cerveja?
- Tudo bem. Mas você tem que entender ...
- Eu entendo sim - a garota disse. Vamos encerrar o assunto?
Eles se sentaram à mesa e a garota olhou para as colinas na parte seca do vale e o homem olhou para ela e para a mesa.
- Você tem que entender - ele disse - que se você não quer fazer, tudo bem. Eu estou pronto para levar as coisas adiante se isso é importante para você.
- Será que isso significa algo para você? Nós poderíamos dar um jeito.
- Claro que significa. Mas eu não quero ninguém além de você. Não quero ninguém mais. Além disso, eu sei que é bastante simples.
- É claro que você sabe que é muito simples.
- Mas é mesmo.
- Você faria uma coisa por mim agora?
- Faria qualquer coisa por você.
- Dá para parar de falar um pouco, pelo amor de Deus?
Ele não disse nada, mas olhou para as malas encostadas na parede da estação. Elas estavam com etiquetas de todos os hotéis onde já tinham ficado.
- Mas eu não quero que... - ele disse - eu não me importo com nada disso.
- Eu vou gritar - a garota ameaçou.
- A mulher apareceu através das cortinas com dois copos de cerveja e os colocou sobre os porta-copos.
- O trem chega em cinco minutos - a mulher do bar disse.
A garota sorriu radiante para a mulher, para agradecê-la.
- É melhor eu levar as malas para o outro lado da estação - o homem disse
Ela sorriu para ele.
- Tudo bem. Depois volte para terminarmos a cerveja.
Ele pegou as duas malas pesadas e as carregou ao redor da estação para a outra linha. Na volta, andou pelo salão do bar, aonde as pessoas que aguardavam o trem estavam bebendo. Ele tomou um Anis no bar e olhou para as pessoas. Elas já estavam esperando pelo trem há um tempo considerável. Ele saiu, passando pela cortina de bambu. Ela estava na mesa e sorriu para ele.
- Está se sentindo melhor? - ele perguntou.
- Estou bem - ela disse. Não há nada de errado comigo. Estou bem.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
ON WRITING
The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they’re brought out. But it’s more than that, isn’t it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you’ve said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That’s the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear. Stephen King
LENORA
Edgar Allan Poe
Ah! foi partida a taça de ouro! o espírito fugiu!
Que dobre o sino! Uma alma santa já cruza o Estígio rio!
E tu não choras, Guy de Vere? Venha teu pranto agora,
ou nunca mais! No rude esquife jaz teu amor, Lenora!
Leiam-se os ritos funerários e o último canto se ouça,
um hino à rainha dentre as mortas, a que morreu mais moça.
E duplamente ela morreu, por que morreu tão moça!
"Pela riqueza a amastes, míseros, o seu orgulho odiando,
e, doente, a bendissestes, quando a morte ia chegando.
E como, então, lereis o rito? Os cantos de repouso
entoareis vós, olhar do mal? Vós, o verbo aleivoso,
que o fim trouxestes à existência tão jovem da inocência?"
Peccavimus; mas não se irrites! O réquiem tão solene
e embalador ascenda aos céus, que a morta já não pene!
Para aguardar-te ela se foi, tendo ao lado a Esperança
e tu ficaste, louco e só, chorando a noiva criança,
meiga e formosa, que ali jaz, magnífica, sem par,
com a vida em seus cabelos de ouro, mas não em seu olhar,
com a vida em seus cabelos, sim, e a morte em seu olhar.
"Ide! Meu coração não pesa! Sem canto funeral,
quero seguir o anjo em seu vôo com um velho hino triunfal.
Não dobre mais o sino! que a alma em seu prazer sagrado
não o ouça, triste, ao ir deixando o mundo amaldiçoado.
Ela se arranca aos vis demônios da terra e sobe aos céus.
Do inferno, à altura se conduz e lá, na luz dos céus,
livre do mal, da dor, se assenta num trono, aos pés de Deus!"
NÃO ENTRES NESSA NOITE ACOLHEDORA COM DOÇURA
Dylan Thomas
Não entres nessa noite acolhedora com doçura, Pois a velhice deveria arder e delirar ao fim do dia; Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.
Embora os sábios, ao morrer, saibam que a treva
[ lhes perdura, Porque suas palavras não garfaram a centelha
[ esguia, Eles não entram nessa noite acolhedora com doçura. Os bons que, após o último aceno, choram pela
[ alvura Com que seus frágeis atos bailariam numa verde
[ baía Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura. Os loucos que abraçaram e louvaram o sol na etérea
[ altura E aprendem, tarde demais, como o afligiram em sua
[ travessia Não entram nessa noite acolhedora com doçura. Os graves, em seu fim, ao ver com um olhar que os
[ transfigura Quanto a retina cega, qual fugaz meteoro, se
[ alegraria, Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura. E a ti,meu pai, te imploro agora, lá na cúpula
[ obscura, Que me abençoes e maldigas com a tua lágrima
[ bravia. Não entres nessa noite acolhedora com doçura, Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.
PROSTITUTA
- Ela é uma senhora ou uma prostituta?
- Insulta-a. Se for uma prostituta, ficará zangada, se for uma senhora, sorrirá.
Em um filme de Godard
quarta-feira, 1 de junho de 2011
SCARFACE
Tony Montana, o traficante mais fodão a se meter entre as pernas arreganhadas de Miami. Aqui, em duas versões action figure muito fodas.
FLUORESCENT ADOLESCENT
ARCTIC MONKEYS
Garoto Desprezível
Você costumava pegá-los na sua meia arrastão
Agora você só consegue se estiver usando sua camisola
Deixou de lado todas as noites de perversão, por educação
Desembarcou em uma crise muito comum
Tudo está em ordem dentro de um buraco negro
Nada parece tão bonito quanto o passado
Aquele Bloody Mary está precisando do Tabasco dela
Lembra quando ele costumava ser um canalha?
Oh, aquele garoto é desprezível
O melhor que você já teve
O melhor que você já teve
É apenas uma memória e aqueles sonhos
Não eram tão estúpidos quanto pareciam
Não tão estúpidos quanto pareciam
Meu amor, quando você os sonhou...
Dando petelecos em um livrinho com dicas de sexo
Lembra quando os garotos ficavam todos elétricos?
Agora quando ela conta que vai conseguir
Eu fico supondo que ela tenha preferido apenas esquecer
Me contendo para não ficar sentimental
Disse que ela não iria mas, apesar disso, ela foi
Como um cavalheiro que não é gentil
Este era o objetivo ou uma aposta escrita a lápis?
Oh, aquele garoto é desprezível
O melhor que você já teve
O melhor que você já teve
É apenas uma memória e aqueles sonhos
Não eram tão estúpidos quanto pareciam
Não tão estúpidos quanto pareciam
Meu amor, quando você os sonhou...
Linda, onde você foi?
Onde você foi?
Onde você foi? Woah.
Descendo a isso
Você abandonou a Travessa da Última Gargalhada
Você apenas deu uma risada
Você não volta mais.
Descendo a isso
Você abandonou a Travessa da Última Gargalhada
Você apenas deu uma risada
Você não volta mais.
Você costumava pegá-los na sua meia arrastão
Agora você só consegue se estiver usando sua camisola
Deixou de lado todas as noites de perversão, por educação
Desembarcou em uma crise muito comum
Tudo está em ordem dentro de um buraco negro
Nada parece tão bonito quanto o passado
Aquele Bloody Mary está precisando do Tabasco dela
Lembra quando ele costumava ser um canalha?
CONVERSA ÀS TRÊS E MEIA DA MADRUGADA
Charles Bukowski
às três e meia da madrugada
a porta se abre
e há passos na entrada
que trazem um corpo,
e uma batida
e você repousa a cerveja
e vai ver quem é.
com os diabos, ela diz,
você não dorme nunca?
e ela entra
com o cabelo nos rolinhos
e num robe de seda
estampado de coelho e passarinho
e ela trouxe a sua própria garrafa
à qual você gloriosamente acrescenta
2 copos;
o marido, ela diz, está na Flórida
e a irmã manda dinheiro e vestidos para ela,
e ela tem estado procurando emprego
nos últimos 32 dias.
você diz a ela
que é um cambista de jóquei e
um compositor de jazz e canções românticas,
e depois de uns dois copos
ela não se preocupa com cobrir
as pernas
com a beira do robe
que está sempre caindo.
não são pernas nada feias,
na verdade são pernas ótimas,
e logo você está beijando uma
cabeça cheia de rolinhos,
e os coelhos estão começando a
piscar, e a Flórida é longe, e ela diz
que não somos realmente estranhos
porque ela tem me visto na entrada.
e finalmente
há muito pouca coisa
para dizer.
SE MEU APARTAMENTO FALASSE
- O espelho... está partido.
- Sim, eu sei. Gosto dele assim. Faz-me parecer do modo como me sinto.
Um filme de Billy Wilder
O DOBRO DE CINCO
Primeira e, até agora, única imagem da prometida adaptação da obra de Lourenço Mutarelli.
“Servimos mais ou menos prá servir de vez em quando.” Diomedes.
O IMPORTANTE NA VIDA
"Só existem duas coisas importantes na vida. A primeira é o sexo e a segunda eu não me lembro." Woody Allen

