Um dia ideal para os peixes-banana e livros e cinema e gibis e nus e ataxia espinocerebelar e 𓋹
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
CINEMA E LITERATURA
Rubem Fonseca
Os jovens, da minha geração, queriam ser poetas. Mas alguns sonhavam com a poesia porque o cinema era um sonho que parecia impossível. Hoje os jovens sonham, e se realizam, com o cinema. Eu sempre gostei de cinema, mas tornei-me apenas um cinéfilo. Só fui me envolver com essa atividade depois de ter escrito duas dúzias de livros. Mas o meu envolvimento tem sido como roteirista, não obstante eu deva confessar que gostaria também de ser diretor.
Já escrevi roteiros baseados em romances ou contos meus – A grande arte, O caso Morel, que infelizmente não foi terminado; Bufo&Spallanzani; Relatório de um homem casado e acabo de escrever o roteiro de Diário de um fescenino. Já escrevi roteiros originais (Stelinha, A extorsão) e, finalmente, escrevi roteiros baseados em romances dos outros – O homem do ano, baseado no livro O matador, de Patrícia Melo e dirigido por José Henrique Fonseca.
O que foi mais difícil?
O mais difícil é fazer um roteiro baseado em obra literária já publicada, como no caso de O homem do ano. Até nos casos em que eu mesmo havia escrito a obra literária, como Bufo&Spallanzani, o roteiro foi mais difícil de escrever. Se vocês perguntarem ao Jean-Claude Carrière, que já escreveu dezenas de roteiros, o que foi mais trabalhoso e difícil de fazer, o roteiro de The unbearable lightness of being, baseado no livro de Milan Kundera, ou o roteiro original de Le charme discret de la bourgeoisie, ele responderá que foi o roteiro baseado no romance do Kundera.
Um roteiro é escrito várias vezes. Isso, aliás, é comum na feitura de textos literários em geral, principalmente na poesia. (Um poema nunca termina de ser escrito, ele é abandonado, como disse Valèry, o que vale para os textos literários também). Consta que Platão escreveu a primeira frase de A república cinqüenta vezes. Flaubert ficou trinta anos escrevendo A tentação de santo Antonio. Poderia citar dezenas de exemplos dessa fúria revisória, nos vários gêneros literários, mas toda citação excessiva de nomes, até em textos acadêmicos, é uma chatice.
Com os roteiros cinematográficos ocorre a mesma coisa, a diferença é que além do autor do roteiro, outras pessoas participam dessa revisão, quase sempre o diretor do filme, notadamente aqui no nosso país, e também o produtor. Isso aconteceu comigo, quando trabalhei, entre outros, com os Tambellini (pai e filho, em épocas diferentes), a Suzana Amaral, o Walter Salles, o Miguel Faria, e, mais recentemente, com o José Henrique Fonseca.
O que queremos todos nós envolvidos nesse processo? Os mais pretensiosos (e todo aquele que quer criar alguma coisa deve ser "pretensioso", buscar o seu nível de excelência) querem realizar uma obra de arte. Wagner quando compôs suas óperas almejava alcançar aquilo que ele denominava Gesamtkunstwerk – a obra de arte completa, que englobasse a música, a poesia e o drama, a pintura, a arquitetura, a dança. Estávamos no século XIX e se alguma arte poderia megalomaniacamente dizer isso era a ópera.
Já existia uma coisa chamada "lanterna mágica", que havia surgido no século XVII, um foco de luz que iluminava placas de vidro pintadas à mão. Essas imagens eram projetadas numa parede branca e os temas representados estavam ligados à religião. Chamava a atenção tanto de adultos como de crianças. Certamente não era a Gesamtkunstwerk apregoada por Wagner.
Demorou algum tempo até que os irmãos Lumière – August e Louis – no fim do século XIX, 1895, criassem o cinematógrafo, uma espécie de ancestral da filmadora, movido a manivela, utilizando negativos perfurados para registrar o movimento. O cinematógrafo tornou possível a projeção de imagens para o público. Eram imagens em movimento, não aquela coisa parada da lanterna mágica.
Há mais de cem anos, em 28 de dezembro de 1895, ocorreu a primeira exibição pública das obras dos Lumière, no Grand Café, de Paris – A saída dos operários das usinas Lumière, A chegada do trem na estação, O almoço do bebê, O mar foram alguns dos filmes apresentados, que deixaram os espectadores atônitos. As produções eram rudimentares, e, como vimos, documentários curtos sobre a vida quotidiana, de dois minutos de projeção, filmados. A apresentação pública do cinematógrafo marcou oficialmente o início da história do cinema. Porém faltava uma coisa muito importante – o som. Que somente apareceu três décadas depois, no final dos anos 20.
O invento dos Lumière se desenvolveu. Os cineastas, além dos documentários, partiram para a ficção. Surgiram Max Linder (que teria inspirado Chaplin) e outros comediantes, em vários paises. O americano Edwin S. Porter, em 1903, apresenta um trabalho pioneiro em a Vida de um bombeiro americano e, com O grande roubo do trem, inaugura o western.
Despontam então dois grandes nomes dos primórdios do cinema: George Meliés e David Griffith. Meliés nasceu na França em 1861 e morreu em 1938. Meliés foi um pioneiro na utilização de figurinos, atores, cenários e maquiagem, opondo-se ao estilo documentarista. Realizou os primeiros filmes de ficção, Viagem à lua e A conquista do Pólo, em 1902. O outro precursor é David Griffith, nascido nos Estados Unidos em 1875, onde morreu em 1948. No cinema foi o primeiro a tirar a câmera do tripé e a usar a montagem de uma maneira dinâmica e criativa. Com The birth of a nation (O nascimento de uma nação), de 1915, abriu caminho para a criação da indústria cinematográfica americana. (Dizem que Griffith visualizou o filme inteiro em sua mente e não escreveu um roteiro nem fez quaisquer anotações, mas eu não acredito nisso. Esta sentença "uma idéia na cabeça e uma câmera na mão" é responsável por muita porcaria.) Com Intolerância, de 1916, Griffith fortaleceu o impulso dado com The birth...
Começaram a chamar o cinema de a Sétima Arte. Havia sido encontrada a almejadaGesamtkunswerk do Wagner? Sim? Não?
Não. O cinema era mudo, não tinha a poesia dos textos falados, nem a música, essas formas de arte da maior importância. Como poderia arrogar-se o direito àGesamtkunstwerk? Era um excesso de (bem-vinda) pretensão.
As primeiras experiências de sonorização, feitas por Thomas Edison, em 1889, são seguidas por Auguste Baron (1896) e por Henri Joly (1900), mas os seus sistemas ainda tinham sérias falhas de sincronização imagem-som. O aparelho do americano Lee de Forest, de gravação magnética em película (1907), que permitia a reprodução simultânea de imagens e sons, foi adquirido em 1926 pela Warner Brothers. A companhia produziu o primeiro filme com música e efeitos sonoros sincronizados – Don Juan, de Alan Crosland, e o primeiro com passagens faladas e cantadas, O cantor de jazz (1927), também de Crosland, com Al Jolson, grande nome da Broadway. E ainda o primeiro inteiramente falado, Luzes de Nova York, de Brian Foy (1928). No ano seguinte, 1929, o cinema falado já representava 51% da produção americana. Outros centros, notadamente França, Alemanha, Suécia e Inglaterra começaram a explorar o som. A partir de 1930, Rússia, Japão, Índia e os países da América Latina recorrem à nova descoberta. A adesão de quase todas as produtoras ao novo sistema abalou convicções, causou o afastamento de atores e diretores. A linguagem cinematográfica teve que ser reformulada. Diretores importantes, como Charlie Chaplin e René Clair, entre outros, resistiram, dizendo que o cinema não precisava da fala dos artistas. Mas os dois acabaram aderindo, como sabemos, não obstante o cinema falado de Chaplin seja muito inferior ao que ele fazia antes. Alguns de seus filmes, como A Countess from Hong Kong (1967) eA King in New York (1957) são extremamente decepcionantes.
Durante a I Guerra Mundial, a produção de filmes concentra-se em Hollywood, na Califórnia, onde surgem os primeiros grandes estúdios. Dos anos 1930 até hoje a maior parte da produção mundial converge para Hollywood, mas muitos centros espalhados por todos os continentes produzem obras que merecem destaque.
Afinal, o que é o cinema, hoje? É chamado de a sétima arte, o que é correto. Mas ainda não podemos chamar o cinema de Gesamtkunstwerk, obra de arte completa. O cinema é, por enquanto, uma arte híbrida. E o problema principal é que o filme depois de algum tempo fica "datado", um bom filme antigo não é fruído com a mesma admiração, como ocorre com as outras boas obras de arte. Pode-se ouvir Mozart, ou reler o Dom Quixote, ou contemplar a capela Sistina com o mesmo prazer da primeira visita. No cinema, um filme antigo, com algumas raras exceções, pode ser visto apenas como curiosidade histórica. (Há casos de sofisticados cinéfilos que gostam e revêem filmes antigos, descobrindo novidades neles). Essa datação que o cinema sofre me parece ser o problema que exige que a sétima arte, ou "the industry", como os americanos a definem, seja um objeto de consumo renovado incessantemente. Pensem nisso, meus leitores do Portal Literal.
Para finalizar este artigo que já se estendeu demasiadamente, quero abordar a adaptação cinematográfica de obras literárias.
Antes de mais nada devo dizer que escrever para o cinema é diferente de qualquer outra forma de expressão escrita. Os elementos visuais são tão importantes quanto as descrições e diálogos. Como o investimento é muito grande, o roteiro tem que ser do agrado do produtor. E, como disse acima, o diretor também sempre interfere e o roteiro sempre passa por diferentes tratamentos, que levam em consideração uma porção de aspectos, um deles, talvez o mais importante, a aprovação do público. O escritor de ficção não tem que se incomodar com isso. Contudo, sem a imaginação dos roteiristas, boas histórias nunca são contadas no cinema. O cineasta e teórico russo Lev Vladimirovich Kulechov, que introduziu a arte da montagem, afirma em seu livro A arte do cinema que cinema é basicamente argumento e montagem, ou seja, as duas figuras mais importantes do filme são o roteirista e o montador. Eu concordo com ele, quanto à importância fundamental do roteirista, mas acredito que a figura do diretor é ainda mais importante. Reconheço que o cinema é, como diz a propaganda, "a maior diversão", que o cinema é a sétima arte. Ainda que não seja a obra de arte total é uma arte que usa as outras artes como suportes, da melhor maneira possível.
Mas, apenas para provocar, faço a seguinte pergunta: O que é mais importante como Arte, a palavra escrita – poesia, ficção, teatro – ou o cinema? Qual das duas pode atingir um nível de excelência mais elevado?
Que tal, apenas como exercício, compararmos as vantagens da literatura e as do cinema? Vamos, brevemente, examinar isso.
Vantagens da literatura:
1 - Polissemia e participação criativa. O David Neves, quando resolveu filmar a minha história Lúcia McCartney, disse-me que tinha a Lúcia "perfeita, exatamente como você a descreve no livro" e marcou um almoço nosso. A Lúcia, "exatamente como eu a descrevia no livro", segundo o David, era a Adriana Prieto, uma mulher jovem de cabelos louros, olhos azuis, lábios finos, um rosto bonito que lembrava as atrizes européias nórdicas. "Não é igualzinha?", perguntou o David. Evitei responder. Na verdade eu não descrevo a Lúcia na minha história, ela pode ser branca, mulata, negra, magra ou gorda. Porque essa é a grande riqueza da literatura, a participação do leitor, que preenche as lacunas deixadas pelo autor, do leitor que usa a sua imaginação recriando a história que leu, reinventando os personagens. O cinema não permite isso. A Lúcia era, axiomaticamente, uma linda e elegante mulher loura de olhos azuis. O espectador não precisava (nem podia) usar a sua imaginação. O leitor compartilha do livro não apenas estética e emocionalmente, ele tem uma participação criativa. Ele sempre "reescreve" o livro, à sua maneira.
2 - Permanência. Vejam que tipo de reação despertam os filmes clássicos, Grifith, e outros. Eles ficam "datados".
3 - O filme necessita da palavra escrita, até o cinema mudo precisava. Lembram-se de Kulechov – argumento e montagem?
4 – Literatura é tão importante que diretores do mainstream, como Scorsese, Spielberg e outros, aconselham os diretores a lerem, por considerarem a leitura importante para o trabalho que realizam. Nenhum escritor aconselha outros escritores a irem ao cinema, por ser importante para o trabalho que fazem. Há uma frase interessante do escritor Gore Vidal que, além de romancista famoso escreveu vários roteiros. Vidal afirma: "Cinema é roteiro. Uma coisa é certa: o roteiro é fundamental para o filme. Assim como para o corpo humano uma boa e simétrica estrutura óssea é que vai permitir ao corpo ser bonito e atraente, no cinema isso é feito pelo roteiro". Cinema é argumento e montagem, estou repetindo Kulechov. Chaplin usava menos de dez por cento do que ele filmava, o resto era cortado na sala de montagem.
Vantagem do cinema:
Tem que haver uma razão para a popularidade do cinema.
Com exceção de alguns poucos ensaístas franceses rabugentos, não me lembro de nenhum escritor, músico, pintor que não goste de cinema, todo mundo gosta de cinema. Talvez porque, mesmo tendo por enquanto falhado em tornar-se aGesamtkunstwerk wagneriana, é a arte que mais se aproxima desse ideal, e talvez, um dia, venha a deixar de ser uma arte apenas híbrida para tornar-se uma arte completa.
Concluo, agora realmente, fazendo uma relação, breve – e arbitrária evidentemente – de filmes melhores e filmes piores do que a obra literária.
Alguns filmes melhores do que o livro:
Gone with the Wind ou E o vento levou. O filme dirigido por Victor Fleming é melhor do que o romance da Margareth Mitchell.
The Godfather. O filme de Francis Ford Coppola é melhor do que o livro do Mario Puzzo, do mesmo nome.
Blade Runner. O filme de Ridley Scott é melhor do que o livro do criativo Philip K. Dick, Do Androids Dream of Electric Sheep? no qual se baseia. (Não usaram o nome do livro porque, para os produtores, não devia ser muito comercial).
Filmes piores do que o livro:
Eles são tantos, os filmes piores do que os livros, que seria cansativo arrolar todos aqui. Todos os filmes baseados em Homero, Proust, Kafka, Joyce (com uma ressalva), Tolstoy, Tchecov, Remarque, Victor Hugo, Poe, Thomas Mann, Hemingway, Fitzgerald, não importa a categoria literária, pode até ser romance policial como os de Wilkie Collins, Raymond Chandler, Dashiell Hammett são inferiores ao original literário.
Como sempre, existem exceções, filmes que mantêm o mesmo nível do original literário, como Berlin Alexanderplatz (Alfred Döblin/Fassbinder), The Dead(Joyce/Huston – a ressalva que fiz acima), entre outros.
Essas listas de filmes ocupariam um montão de páginas. Meus leitores do Portal Literal que façam as deles.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
QUEEN & COUNTRY
O mundo em que vivemos é mais sinistro do que a maioria de nós quer admitir. Nas salas dos fundos das embaixadas, ou nos becos mal iluminados das capitais do mundo, acordos são feitos e costas são apunhalhadas para que pessoas no poder possam conseguir mais poder enquanto escalam as pilhas de corpos dos impotentes. Nessa porção misteriosa da nossa sociedade os "Guardiões" agem, atuando na linha tênue que divide as duas partes ( Bem? Mal?), tentando impedir que a sede de poder faça tudo despencar e que sejamos engolidos pelas trevas. Premiada (ganhou na época de seu lançamento o Eisner Award de melhor nova série) HQ de espionagem criada e escrita por Greg Rucka. Scan do Gibiscuits. Para baixar, clique na imagem.
A MARCA DA MALDADE
Sinopse: Ao investigar um assassinato, Ramon Miguel Vargas (Charlton Heston), um chefe de polícia mexicano em lua-de-mel em uma pequena cidade da fronteira dos Estados Unidos com o México, entra em choque com Hank Quinlan (Orson Welles), um corrupto detetive americano que utiliza qualquer meio para deter o poder. Para baixar, clique na imagem. Créditos para o pessoal do Filmes com Legenda.
SIDARTA
Hermann Hesse
Um trecho:
Primeira parte
Dedicada a ROMAIN ROLLAND, meu venerando amigo
O filho do brâmane
À sombra da casa, ao sol da ribeira, perto dos barcos, na penumbra do salgueiral, ao pé da figueira, criou-se Sidarta, belo filho de brâmane, jovem falcão, junto com Govinda, seu amigo, filho de brâmane. O sol tostava-lhes as claras espáduas, à beira do rio, durante o banho, por ocasião das abluções sagradas e dos sacrifícios rituais. A sombra insinuava-se-lhe nos olhos negros, quando ele estava no mangueiral, entretendo-se com jogos infantis, ouvindo o canto da mãe, presenciando os sacrifícios rituais, escutando os ensinamentos do pai, o erudito, ou assistindo aos colóquios dos sábios. Havia muito que Sidarta participava dos colóquios dos sábios. Junto com Govinda, já realizava torneios de eloqüência; junto com Govinda, já se exercitava na arte de contemplar e nos serviços de meditação. Já sabia pronunciar silenciosamente o Om, a palavra das palavras; sabia dizê-lo, silenciosamente de si para si, ao aspirar o ar e proferi-lo, silenciosamente para fora, ao expelir o ar, com a alma concentrada e a fronte aureolada pelo esplendor da inteligência lúcida. Já era capaz de perceber no íntimo da sua natureza a presença do Átman, indestrutível, uno com o Universo.
O coração do pai vibrava de alegria pelo filho dócil, ávido de saber. Pressentia nele um sábio, um sacerdote, um príncipe entre os brâmanes.
O peito da mãe enchia-se de delícia, sempre que o olhava, observando-lhe o modo de caminhar, de sentar-se, de erguer-se, o modo de Sidarta, o belo, o forte, que lá passeava com suas pernas delgadas e a saudava com perfeito recato.
Nas almas das jovens filhas de brâmanes nascia o amor, cada vez que Sidarta andava pelas ruas da cidade, com a testa luzente, os olhos de um rei, a cintura esbelta.
Mais do que todos os outros, porém, adorava-o Govinda, seu amigo, filho de brâmane. Amava o olhar de Sidarta, a voz meiga, a postura, a primorosa correção dos gestos; amava tudo quanto Sidarta fazia ou dizia; e, antes de mais nada, amava-lhe o espírito, os pensamentos sublimes, fervorosos, o ardor da vontade, a alta vocação. Govinda tinha certeza de que o amigo jamais se tornaria um brâmane comum. "Esse aí nunca será nem indolente oficial de templo, nem ganancioso mercador de fórmulas mágicas, nem orador vaidoso e vazio, nem tampouco sacerdote perverso, bifronte. Mas, ainda menos, chegará a ser ovelha bonachona, estúpida, em meio ao rebanho de outras iguais. Nunca!" E o próprio Govinda, por sua vez, não tinha a menor intenção de ser um brâmane qualquer, tal como existem aos milhares.
Queria seguir os passos de seu adorado e maravilhoso Sidarta e se este um dia se transformasse num deus, entrando no círculo dos que resplandecem ao longe, então o acompanharia Govinda, como seu amigo, seu sequaz, seu servo, seu lanceiro, sua sombra. Assim todos amavam Sidarta. A todos causava ele alegrias. Para todos, era fonte de prazer. Mas a si mesmo Sidarta não se dava alegria. Para si, não era nenhuma fonte de prazer.
Enquanto passeava pelas sendas rosadas do figueiral, enquanto se mantinha sentado na penumbra azulada do bosque da contemplação, enquanto abluía o corpo no cotidiano banho expiatório ou fazia sacrifícios rituais no mangueiral envolto em sombras profundas, fazendo gestos de primorosa correção, despertando amor em toda gente, deliciando a todos, não sentia, ainda assim, nenhuma satisfação em sua própria alma. Visões acometiam-no e também pensamentos irrequietos, brotados das águas do rio, a faiscarem nos astros da noite, a fundirem-se sob os raios do sol. Devaneios assomavam-lhe aos olhos. O desassossego do coração invadia-o, vindo da fumaça dos sacrifícios, do som assoprado dos versos do Rig-Veda, dos ensinamentos dos brâmanes anciãos.
Sidarta começava a abrigar em suas entranhas o descontentamento. Começava a sentir que nem o amor do pai, nem o da mãe, nem tampouco o do dedicado Govinda teriam sempre e a cada momento a força de alegrá-lo, de tranqüilizá-lo, de nutri-lo, de bastar-lhe. Começava a vislumbrar que seu venerando pai e seus demais mestres, aqueles sábios brâmanes, já lhe haviam comunicado a maior e a melhor parte dos seus conhecimentos: começava a perceber que eles tinham derramado a plenitude do que possuíam no receptáculo acolhedor que ele trazia em seu íntimo. E esse receptáculo não estava cheio; o espírito continuava insatisfeito; a alma andava inquieta; o coração não se sentia saciado. As abluções, por proveitosas que fossem, eram apenas água; não tiravam dele o pecado; não curavam a sede do espírito; não aliviavam a angústia do coração.
Excelentes eram os sacrifícios e as invocações dos deuses --mas que lhe adiantava tudo isso? Propiciariam os sacrifícios a felicidade? E quanto aos deuses: foi realmente Prajapati quem criou o mundo? E não o Átman? Ele, o único, o indivisível? Não eram os deuses figuras criadas da mesma forma que tu e eu, perecíveis, dependentes do tempo? Seria, portanto, bom e acertado oferecer sacrifícios aos deuses? Era isso realmente uma atividade sensata, sublime? Quem merecia imolações e reverência, senão Ele, o único, o Átman? E onde se podia encontrar o Átman, onde morava Ele, onde pulsava o Seu eterno coração, onde, a não ser no próprio eu, naquele âmago indestrutível que cada um trazia em si? Mas, em que lugar, em que lugar achava-se esse eu, esse âmago, esse último fim? Não era nem carne nem osso, nem pensamento nem consciência, segundo afirmavam os mais sábios.
Onde, onde existia então? Para chegar até ele, até ao eu, até a mim, ao Átman --haveria qualquer outro caminho que valesse a pena procurar? Ai dele!, ninguém lhe indicava tal caminho, ninguém o conhecia, nem o pai, nem os mestres e os sábios, nem os sagrados cânticos do ritual dos sacrifícios! Tudo sabiam eles, os brâmanes com seus livros santificados; tudo sabiam; com tudo se preocupavam, com tudo e mais ainda, desde a criação do mundo e a origem da fala, dos alimentos, da aspiração e da exalação até às categorias dos sentidos e às façanhas dos deuses! Sabiam inúmeras coisas, mas que valor tinha toda essa sabedoria para quem ignorasse aquilo que era uno e único, o mais importante, ao lado do qual coisa alguma tinha importância?
Era bem verdade que numerosos versos dos livros sagrados, sobretudo dos upanixades do Sama-Veda, referiam-se a esse quê derradeiro, mais íntimo. Que versos maravilhosos! "Tua alma é o mundo inteiro" --rezava um deles e estava escrito que o homem durante o sono, o sono profundo, entrava no próprio âmago e habitava o Átman. Sabedoria milagrosa residia nesses poemas. Todos os conhecimentos dos mais sábios encontravam-se ali reunidos, puros qual mel colhido pelas abelhas. Não, absolutamente não convinha desprezar a imensa quantidade de saber que lá estava armazenada e conservada por inúmeras gerações de brâmanes eruditos... Mas, onde se achariam os brâmanes, onde os sacerdotes, os sábios ou os ascetas que lograssem não somente conhecer senão também viver essa profunda sabedoria? Onde estaria o homem perito que fosse capaz de realizar aquele passe de mágica que transportasse a familiaridade com o Átman desde o sono para o estado de vigília, para a vida de todos os momentos e a demonstrasse por atos e palavras? Sidarta tinha contato com grande número de venerandos brâmanes e, em primeiro lugar, com seu pai, homem puro, letrado, sumamente digno de reverência. Admirável, sim, era o pai, no seu comportamento calmo, distinto. Pura era sua vida; ponderada, sua maneira de falar; idéias delicadas e nobres residiam atrás da sua fronte. Quem poderia, porém, afirmar que esse homem, que tanta coisa sabia, levava uma existência feliz? Não seria também ele um pesquisador acossado pela sede? Não se sentia impelido a beber, insaciável, uma e outra vez nas fontes sagradas, a fim de manter-se ao nível dos outros brâmanes? Por que era preciso que tal ser incensurável se lavasse diariamente de seus pecados, empenhando-se dia a dia naquela incessante purificação? Não mora nele o Átman? Não lhe brotava do fundo do coração o manancial dos mananciais? Esse manancial, cumpria encontrá-lo dentro do próprio eu, para apossar-se dele! Todo o resto era apenas busca, desvio, equívoco.
Tais eram os pensamentos de Sidarta, a sua sede, o seu sofrimento.
Freqüentemente recitava de si para si os versetos de um upanixade de Xandogia: "Deveras, o nome do Brama é satiam e quem tiver conhecimento disso entrará todos os dias verdadeiramente no mundo celeste." Amiúde, esse mundo celeste descortinava-se-lhe bem próximo, mas jamais ele conseguiu alcançá-lo, jamais saciou inteiramente a sede. E entre todos os eruditos que conhecia, entre os pensadores mais sábios cujos ensinamentos lhe eram ministrados, não havia nenhum que tivesse chegado até lá, pondo o pé no mundo celeste e matando a sede perene.
- Govinda! - disse Sidarta ao amigo. - Govinda, meu caro, vem comigo até a figueira. À sua sombra, entreguemo-nos à meditação.
Encaminharam-se para a árvore. Assentaram-se, Sidarta num lugar, e Govinda, noutro, a vinte passos de distância. Enquanto tomava assento e se dispunha a pronunciar o Om, Sidarta, num murmúrio, repetia os versos:
"Om é o arco: alma é a seta;
Brama é o alvo da seta;
Cumpre feri-lo constantemente"
Decorrido o tempo habitual do exercício de meditação, levantou-se Govinda. Anoitecera. Convinha fazer a ablução noturna. E ele chamou Sidarta pelo nome. Mas este não respondeu. Mantinha-se absorto, com os olhos fixamente cravados num ponto muito longínquo. A ponta da língua salientava-se um pouco entre os dentes. Era como se ele não respirasse. Assim se quedava Sidarta, envolto na meditação, a pensar no Om, a seta da alma enviada em direção ao Brama.
Certa feita, passava pela cidade de Sidarta um grupo de samanas, ascetas peregrinos, três homens macilentos, esquivos, nem velhos nem moços, de ombros arqueados, cobertos de poeira. Andavam quase nus, tostados pelo sol, cercados pela solidão, estranhos e hostis para com o mundo, forasteiros e magros chacais em pleno território dos homens. Atrás deles fluía, cálida, uma aura de paixão silenciosa, de serviço destruidor, de cruel aniquilamento do próprio eu.
À noite, após a hora da contemplação, Sidarta dirigiu-se a Govinda:
- Meu amigo, amanhã, de madrugada, Sidarta irá ter com os samanas. Ele mesmo se tornará um samana.
Govinda ficou surpreso ao ouvir essas palavras. No rosto impassível do companheiro lia-se a decisão inalterável, qual seta desferida do arco. Imediatamente, num abrir e fechar de olhos, percebeu Govinda o que nesse instante começava a acontecer: que Sidarta iniciava a sua jornada, que seu destino se punha a germinar e, simultaneamente, o seu próprio também. O semblante de Govinda empalideceu como a pele de um morto:
- Ó Sidarta! - exclamou. - Achas que teu pai te permitirá isso? Sidarta olhou-o como quem desperta do sono. Com a rapidez de um raio, decifrava na alma de Govinda o pavor e a abnegação.
- Olha, Govinda! - sussurrou. - Não desperdicemos palavras. Amanhã, ao primeiro clarão do dia, meu caro amigo, Sidarta há de começar a vida dos samanas. Não fales mais nesse assunto.
Sidarta entrou na salinha, onde o pai estava sentado numa esteira de ráfia. Colocou-se atrás dele e ali permaneceu, até que o outro notasse a sua presença.
- És tu, Sidarta? - disse o brâmane. - Dize-me então o que desejas comunicar-me.
- Com a vossa permissão, meu pai... Vim dizer-vos que é meu desejo abandonar amanhã esta casa e encaminhar-me aos ascetas. Almejo tornar-me um samana. Oxalá meu pai não se oponha à minha intenção.
O brâmane manteve-se calado e assim ficou por tanto tempo que na janelinha as estrelas mudaram de posição, tomando outro aspecto, antes que o silêncio que pairava na salinha chegasse a seu fim. Silencioso, imóvel, de braços cruzados, conservava-se o filho; silencioso, imóvel, conservava-se o pai na esteira; e as estrelas singravam pelo céu.
Finalmente falou o pai:
- Não convém ao brâmane proferir palavras violentas ou iradas. Mas o desgosto agita-se no meu coração. Nunca mais desejo ouvir da tua boca semelhante rogo. Lentamente levantou-se o brâmane. Sidarta continuava mudo, os braços cruzados.
- Que esperas? - indagou o pai.
- Vós o sabeis - disse Sidarta.
Agastado, o pai saiu da salinha. Ainda agastado, dirigiu-se ao quarto e deitou-se.
Uma hora após, não podendo conciliar o sono, o brâmane pôs-se de pé. Caminhou pelo recinto. Saiu da casa. Espiou através da janela da sala. Viu como Sidarta se mantinha imóvel, de braços cruzados. Muito clara, luzia a túnica branca. Com o coração inquieto, o pai voltou ao leito.
E reaparecia, outra hora depois, e reaparecia decorridas mais duas horas. Olhava pela janelinha. Via como Sidarta permanecia de pé, ao luar, à luz dos astros, nas trevas. E de hora em hora, o pai ressurgia, silenciosamente. Espreitava a salinha, observava o vulto imóvel, enchia o coração de cólera, enchia-o de desassossego, enchia-o de medo, enchia-o de mágoa.
E, na última hora da noite, antes do amanhecer, retornou mais uma vez. Entrou na salinha e olhou o jovem que lá se quedava de pé e lhe parecia muito grande, como que estranho.
- Sidarta - disse -, que esperas?
- Vós o sabeis.
- Tencionas, por acaso, conservar-te assim, apenas aguardando que venham a manhã, o meio-dia, a noite?
- Hei de conservar-me assim, aguardando.
- Ficarás cansado, Sidarta.
- Ficarei cansado.
- Adormecerás, Sidarta.
- Não adormecerei.
- Morrerás, Sidarta.
- Morrerei.
- E prefere morrer a obedecer teu pai?
- Sidarta sempre obedeceu seu pai.
- Então desistirás do teu propósito?
- Sidarta fará o que lhe ordenar seu pai.
O primeiro clarão da madrugada invadia a salinha. O brâmane notou que os joelhos de Sidarta tremiam levemente. Mas no seu rosto não se deparava nenhum tremor. Os olhos fitavam um ponto muito distante. Foi quando o pai se deu conta de que Sidarta já não se achava junto dele, nem no torrão natal, pois que acabava de separar-se de ambos.
O pai colocou a mão no ombro do filho.
- Hás de embrenhar-te no mato - disse - para que possas ser um samana. Se encontrares a felicidade no mato, volta e ensina-ma. Se encontrares desilusões, procura-me novamente e juntos sacrificar-nos-emos aos deuses. Agora vai-te. Abraça tua mãe e dize-lhe aonde te encaminhas. Para mim, está na hora de ir ao rio a fim de fazer a primeira ablução.
Tirou a mão do ombro do filho e saiu. Sidarta cambaleou, quando tentava pôr-se em movimento. Mesmo assim dominou os seus membros. Depois de inclinar-se diante do pai, foi ter com a mãe, para cumprir com a ordem paterna.
Quando abandonava a cidade ainda silenciosa, à luz da incipiente madrugada, caminhando devagar, com as pernas enrijecidas, avistou nas proximidades da última cabana um vulto que ali estava acocorado. Era Govinda. Ergueu-se e foi com Sidarta, o peregrino.
- Vieste mesmo - disse Sidarta, sorrindo.
- Vim - confirmou Govinda.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
CORAÇÃO SATÂNICO
Para baixar essa maravilhosa trilha sonora, clique na imagem. E não esqueça de agradecer ao pessoal do trilhadomedo que postou as músicas.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
O ENTERRO DOS MORTOS
T.S. Eliot
Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera.
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.
O verão; nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee
Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos
E ao sol caminhamos pelas aléias de Hofgarten,
Tomamos café, e por uma hora conversamos.
Big gar keine Russin, stamm' aus Litauen, echt deutsch.
Quando éramos crianças, na casa do arquiduque,
Meu primo, ele convidou-me a passear de trenó.
E eu tive medo. Disse-me ele, Maria,
Maria, agarra-te firme. E encosta abaixo deslizamos.
Nas montanhas, lá, onde livre te sentes.
Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno.
Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham
Nessa imundície pedregosa? Filho do homem,
Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces
Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,
E as árvores mortas já não mais te abrigam, nem te consola o canto dos grilos,
E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca. Apenas
Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.
(Chega-te à sombra desta rocha escarlate),
E vou mostrar-te algo distinto
De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece
Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;
Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.
Frisch weht er Wind
Der Heimat zu
Mein Irisch Kind,
Wo weilest du?
''Um ano faz agora que os primeiros jacintos me deste;
Chamavam-me a menina dos jacintos."
- Mas ao voltarmos, tarde, do Jardim dos Jacintos,
Teus braços cheios de jacintos e teus cabelos úmidos, não pude
Falar, e meus olhos se enevoaram, eu não sabia
Se vivo ou morto estava, e tudo ignorava
Perplexo ante o coração da luz, o silêncio.
Oed' und leer das Meer.
Madame Sosostris, célebre vidente,
Contraiu incurável resfriado; ainda assim,
É conhecida como a mulher mais sábia da Europa,
Com seu trêfego baralho. Esta aqui, disse ela,
É tua carta, a do Marinheiro Fenício Afogado.
(Estas são as pérolas que foram seus olhos. Olha!)
Eis aqui Beladona, a Madona dos Rochedos,
A Senhora das Situações.
Aqui está o homem dos três bastões, e aqui a Roda da Fortuna,
E aqui se vê o mercador zarolho, e esta carta,
Que em branco vês, é algo que ele às costas leva,
Mas que a mim proibiram-me de ver. Não acho
O Enforcado. Receia morte por água.
Vejo multidões que em círculos perambulam.
Obrigada. Se encontrares, querido, a Senhora Equitone,
Diz-lhe que eu mesma lhe entrego o horóscopo:
Todo o cuidado é pouco nestes dias.
Cidade irreal,
Sob a fulva neblina de uma aurora de inverno,
Fluía a multidão pela Ponte de Londres, eram tantos,
Jamais pensei que a morte a tantos destruíra.
Breves e entrecortados, os suspiros exalavam,
E cada homem fincava o olhar adiante de seus pés.
Galgava a colina e percorria a King William Street,
Até onde Saint Mary Woolnoth marcava as horas
Com um dobre surdo ao fim da nona badalada.
Vi alguém que conhecia, e o fiz parar, aos gritos: "Stetson,
Tu que estiveste comigo nas galeras de Mylae!
O cadáver que plantaste ano passado em teu jardim
Já começou a brotar? Dará flores este ano?
Ou foi a imprevista geada que o perturbou em seu leito?
Conserva o Cão à distância, esse amigo do homem,
Ou ele virá com suas unhas outra vez desenterrá-lo!
Tu! Hypocrite lecteur! - mon semblable -, mon frère
Vi no zumbidownload.
A MONTANHA DOS CANIBAIS
Sinopse: Bela mulher organiza uma expedição à Nova Guiné para encontrar o marido desaparecido. Ao atravessarem a selva, os membros da expedição vão aos poucos sendo eliminados por uma tribo decanibais do local.
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segunda-feira, 8 de novembro de 2010
PANTALEÓN E AS VISITADORAS
Jorge Mario Pedro Vargas Llosa
Um trecho:
1
- Acorde, Panta - diz Pochita. - Já são oito horas. Panta! Pantita!
- Oito horas? Já? Ai, que sono... - boceja Pantita. - E o meu galão, você pregou?
- Preguei, meu tenente - perfila-se Pochita. - Quer dizer, desculpe, meu capitão. Enquanto eu não me acostumo você continua tenentezinho, amor. Preguei, pode deixar, está lindo. Mas levante de uma vez. Seu compromisso não é às...
- Às nove, isso - ensaboa-se Pantita. - Para onde vão nos mandar, Pocha? Passe a toalha, por favor. O que você acha, nega?
- Para cá, para Lima - contempla o céu cinza, os terraços, os carros, os transeuntes Pochita. - Ai, fico com água na boca: Lima, Lima, Lima.
- Não sonhe. Lima nunca, que esperança - olha-se no espelho, dá o nó na gravata Panta. - Se pelo menos fosse uma cidade como Trujillo ou Tacna eu já ficava feliz.
- Que divertida esta notícia do El Comercio - faz uma careta Pochita. - Em Leticia um sujeito se crucificou para anunciar o fim do mundo. Puseram ele no hospício mas as pessoas tiraram à força, acham que é santo. Leticia é a parte colombiana da floresta, não é mesmo?
- Que bonito você fica de capitão, filhinho - põe na mesa a geléia, o pão e o leite dona Leonor.
- Agora é Colômbia, antes era Peru. Tiraram da gente - passa manteiga na torrada Panta. - Um pouquinho mais de café, mamãe.
- E se nos mandassem de novo para Chiclayo? - recolhe as migalhas num prato e retira a toalha dona Leonor. - Afinal, foi tão bom lá, não é mesmo? Para mim o importante é que não nos mandem para muito longe do mar. Ande, filhinho, boa sorte, vá com a minha bênção.
- Em nome do Pai e do Espírito Santo e do Filho que morreu na cruz - ergue os olhos para a noite, baixa os olhos para as tochas o irmão Francisco. - Minhas mãos estão atadas, o lenho é oferenda, persignem-se por mim!
- O coronel López López está me esperando, senhorita - diz o capitão Pantaleón Pantoja.
- Com dois generais - faz biquinho a senhorita. - Vá entrando, capitão. É, essa mesmo, a porta escurinha.
- Aí está o homem - levanta-se o coronel López López. - Entre, Pantoja, parabéns pela nova fitinha.
- Primeiro lugar no exame de promoção, e por unanimidade da banca - aperta a mão, bate no ombro o general Victoria. - Muito bem, capitão. É assim que se faz carreira e pátria.
- Sente-se, Pantoja - aponta um sofá o general Collazos. - Acomode-se e segure-se bem para ouvir o que vai ouvir.
- Não o assuste, Tigre - mexe as mãos o general Victoria. - Ele vai achar que queremos mandá-lo para o matadouro.
- Bom, se os chefões da Intendência tiveram que vir pessoalmente cientificá-lo de seu novo destino, é sinal de que a coisa tem seus senões - adota uma expressão grave o coronel López López. - É, Pantoja, trata-se de um assunto bastante delicado.
- A presença desses chefes é uma honra para mim - bate os calcanhares o capitão Pantoja. - Puxa, o senhor está me deixando muito encasquetado, meu coronel.
- Você quer fumar? - puxa uma cigarreira, um isqueiro o Tigre Collazos. - Mas não fique aí em pé. Sente-se. Como! Não fuma?
- Está vendo? Desta vez o Serviço de Inteligência acertou - acaricia uma fotocópia o coronel López López. - Direitinho. Não fuma, não entorna, não arrasta a asa.
- Um oficial sem vícios! - admira-se o general Victoria. - Nossa arma já tem um representante no Paraíso, para ficar juntinho de santa Rosa e de são Martim de Porres.
- Também não exagerem - fica vermelho o capitão Pantoja. - Devo ter um ou outro vício de que ninguém ficou sabendo.
- Estamos mais informados sobre o senhor do que o senhor mesmo - ergue uma pasta da escrivaninha e torna a pousá-la o Tigre Collazos. - Se soubesse quantas horas passamos estudando sua vida, o senhor ficaria vesgo. Sabemos o que fez, o que não fez e até o que virá a fazer, capitão.
- Podemos recitar sua folha de serviços de memória - abre a pasta, embaralha fichas e formulários o general Victoria. - Nem uma só punição enquanto oficial e cadete, só meia dúzia de advertências leves. Por isso foi escolhido, Pantoja.
- Entre uns oitenta oficiais da Intendência, nem mais nem menos - levanta uma sobrancelha o coronel López López. - Já pode estufar feito pavão-real.
- Agradeço-lhes o bom juízo que fazem de mim - turva-se a vista do capitão Pantoja. - Vou fazer o possível para corresponder a essa confiança, meu coronel.
- O capitão Pantaleón Pantoja? - sacode o telefone o general Scavino. - Não consigo ouvir nada. Você está me mandando o capitão Pantaleón Pantoja? Para quê, Tigre?
- Em Chiclayo o senhor deixou uma impressão magnífica - folheia um relatório o general Victoria. - O coronel Montes estava louco para mantê-lo. Parece que graças ao senhor o quartel funcionou feito um relógio.
- "Organizador nato, sentido matemático da ordem, capacidade executiva" - lê o Tigre Collazos. - "Chefiou a administração do regimento com eficácia e verdadeira inspiração." Nossa, o zambo Montes se apaixonou pelo senhor.
- Estou ficando sem graça com tanto elogio - baixa a cabeça o capitão Pantoja. - Sempre procurei cumprir com o meu dever, só isso.
- O Serviço das quê? - solta uma gargalhada o general Scavino. - Você e o Victoria estão de gozação comigo, Tigre? Olhe que sou um sujeito sério.
- Bom, vamos dar nome aos bois - sela os lábios com um dedo o general Victoria. - O assunto é estritamente confidencial. Refiro-me à missão que vamos lhe confiar, capitão. Abra o jogo, Tigre.
- Em suma: a tropa da floresta anda traçando as cholas* - cria coragem, pestaneja e tosse o Tigre Collazos. - Violações por todo lado e os tribunais não estão dando conta de julgar tanto safado. A Amazônia está que é um falatório só.
- Todo dia nos bombardeiam com queixas e denúncias - belisca o próprio queixo o general Victoria. - Até dos vilarejos mais perdidos aparecem comissões de protesto.
- Seus soldados estão abusando de nossas mulheres - torce o chapéu e perde a voz o prefeito Paiva Runhuí. - Há uns meses fizeram mal a uma cunhadinha minha e na semana passada quase fazem mal à minha senhora.
- Meus soldados não; os soldados da Nação - faz gestos apaziguadores o general Victoria. - Calma, calma, senhor prefeito. O Exército lamenta imensamente o contratempo de sua cunhadinha e fará o possível para ressarci-la.
- Será que agora estupro se chama contratempo? - desconcerta-se o padre Beltrán. - Porque foi o que aconteceu.
- Com Florcita foram dois sujeitos de farda lá da chácara; traçaram ela na estradinha mesmo - rói as unhas e saltita sem sair do lugar o prefeito Teófilo Morey. - Com tanta pontaria que ela agora está grávida, general.
- A senhora vai identificar esses bandidos, senhorita Dorotea - rosna o coronel Peter Casahuanqui. - Sem chorar, sem chorar, vai ver como resolvo isso.
- O senhor está imaginando que vou até lá fora? - soluça Dorotea. - E ficar sozinha na frente de todos os soldados?
- Eles vão desfilar por aqui, vão passar na frente da Guarda - esconde-se por trás da rede metálica o coronel Máximo Dávila. - A senhora fica espiando pela janela e assim que avistar os faltosos me mostra quem são, senhorita Jesús.
- Faltosos? - salpica cuspes o padre Beltrán. - Devassos, canalhas e miseráveis, falando claro. Fazer uma ignomínia dessas com a dona Assunta! Desonrar a farda desse jeito!
- Luisa Cánepa, minha empregada, foi violentada por um sargento, depois por um cabo e depois por um soldado raso - limpa os óculos o tenente Bacacorzo. - Sei lá se ela gostou ou o que foi, meu comandante, mas a verdade é que agora ela pratica a putaria com o nome de Peitinhos e tem como cafetão uma bicha que chamam de Milcaras.
- Agora me mostre com qual destes carinhas deseja se casar, senhorita Dolores - passeia diante dos três recrutas o coronel Augusto Valdés. - E o capelão casa agora mesmo. Escolha, escolha, qual deles prefere para pai de seu futuro filhinho?
- A minha senhora eles agarraram dentro da igreja - permanece duro na beirada do assento o carpinteiro Adriano Lharque. - Não na catedral, mas na igreja do Santo Cristo de Bagazán.
- Essa é a verdade, queridos ouvintes - urra Sinchi. - Nem o temor a Deus, nem o respeito devido à Sua santa casa, nem as nobres cãs dessa digníssima matrona que já é semente de duas gerações de cidadãos de Loreto contiveram os sacrílegos lascivos.
- Começaram num puxa para cá e empurra para lá, meu Jesus querido, queriam me derrubar no chão - chora dona Cristina. - Estavam caindo de bêbados, e precisava ver as sem-vergonhices que diziam. Na frente do altar principal, juro.
- A alma mais caridosa de toda a Loreto, meu general - retumba o padre Beltrán. - Ultrajada cinco vezes!
- Mais a filhinha dela, a sobrinhazinha e a afilhadinha, já estou informado, Scavino - sopra a caspa das ombreiras o Tigre Collazos. - Mas de que lado está esse padre Beltrán, afinal, do nosso ou do deles? Ele é ou não é capelão do Exército?
- Protesto como sacerdote e também como soldado, meu general - encolhe a barriga e estufa o peito o major Beltrán. - Porque esses abusos são tão prejudiciais à instituição quanto às vítimas.
- O que os recrutas queriam com a dama está erradíssimo, evidentemente - contemporiza, sorri, faz vênias o general Victoria. - Mas os parentes dela quase os matam a pau, não esqueça. Veja o laudo médico: costelas quebradas, hematomas, orelha despregada. No caso houve empate, doutorzinho.
- Para Iquitos? - pára de borrifar água na camisa e levanta o ferro Pochita. - Ai, que longe, Panta.
- Com madeira fazes o fogo que cozinha teus alimentos, com madeira constróis a casa onde vives, a cama onde dormes e a balsa com que atravessas o rio - pende sobre o bosque de cabeças imóveis, rostos expectantes e braços abertos o irmão Francisco. - Com madeira fabricas o arpão que pesca o paiche, a pucuna que caça o ronsoco e o caixão onde enterras o morto. Irmãs! Irmãos! De joelhos por mim!
- Eis um problema e tanto, Pantoja - cabeceia o coronel López López. - Em Contamana o prefeito determinou que os moradores trancassem as mulheres em casa nos dias de folga da tropa.
- E, principalmente, que longe do mar - solta a agulha, faz o arremate e corta o fio com os dentes dona Leonor. - Será que lá na floresta tem muito pernilongo? Para mim é um suplício, você sabe.
- Dê uma olhada nesta lista - coça a testa o Tigre Collazos. - Quarenta e três grávidas em menos de um ano. Os capelães do padre Beltrán casaram umas vinte, mas, claro, o mal exige medidas mais radicais do que casamentos forçados. Por enquanto castigos e admoestações não modificaram o panorama: soldado que chega à floresta vira fodão.
- Mas pelo jeito o mais desanimado com o lugar é você, amor - vai abrindo e sacudindo malas Pochita. - Por quê, Panta?
- Deve ser o calor, o clima, não lhe parece? - anima-se o Tigre Collazos.
- Muito possivelmente, meu general - gagueja o capitão Pantoja.
- A umidade morna, aquela exuberância da natureza - passa a língua nos lábios o Tigre Collazos. - Comigo acontece sempre a mesma coisa: é chegar na floresta e começar a respirar fogo, sentir o sangue ferver.
- Se a generala pudesse ouvi-lo - ri o general Victoria -, ai de suas garras, Tigre.
- No início pensamos que era a comida - dá uma palmada na barriga o general Collazos. - Que nas guarnições se usava muito tempero, alguma coisa que atiçasse o apetite sexual das pessoas.
- Consultamos especialistas, inclusive um suíço que custou os olhos da cara - esfrega dois dedos o coronel López López. - Um nutricionista carregado de diplomas.
- Pas d'inconvénient - anota numa caderneta o professor Bernard Lahoé. - Vamos preparar uma dieta que, sem diminuir as proteínas necessárias, enfraqueça a libido dos soldados em mais ou menos oitenta e cinco por cento.
- Não vá exagerar a dose - murmura o Tigre Collazos. - Também não queremos uma tropa de eunucos, doutor.
- De Horcones a Iquitos, de Horcones a Iquitos - impacienta-se o alferes Santana.
- É, gravíssimo, de extrema urgência. Não obtivemos os resultados previstos com a operação Rancho Suíço. Meus homens estão morrendo de fome, pegando tuberculose. Hoje desmaiaram mais dois durante a revista, meu comandante.
- Nada de brincadeiras, Scavino - segura o telefone entre a orelha e o ombro enquanto acende um cigarro o Tigre Collazos. - Já examinamos a questão por todos os lados e essa é a única solução. Aí vai o Pantojita com a mãe e a esposa. Bom proveito.
- Pochita e eu já nos acostumamos com a idéia e estamos felizes com a ida para Iquitos - dobra lenços, empilha saias, empacota sapatos dona Leonor. - Mas você continua com a alma lá embaixo. Por que isso, filhinho?
- O senhor é o nosso homem, Pantoja - levanta-se e segura-o pelos braços o coronel López López. - O senhor vai acabar com a nossa dor de cabeça.
- Afinal de contas é uma cidade, Panta, e linda, ao que dizem - joga panos no lixo, dá nós, fecha bolsas Pochita. - Não fique com essa cara! A puna teria sido pior, não é mesmo?
- Para falar a verdade, meu coronel, não sei de que jeito - engole saliva o capitão Pantoja. - Mas farei o que me ordenarem, naturalmente.
- Por enquanto, partir para a floresta - pega uma vareta e aponta um lugar no mapa o coronel López López. - Seu centro de operações será Iquitos.
- Vamos chegar à raiz do problema e liquidá-lo na origem - bate com o punho na mão aberta o general Victoria. - Porque, como o senhor deve ter adivinhado, Pantoja, o problema não é só as senhoras derrubadas.
- Também há os recrutas, condenados a viver como pombinhas virginais naquele calor tão pecaminoso - estala a língua o Tigre Collazos. - Servir na floresta é fogo, Pantoja, fogo.
- Nos povoados amazônicos todas as saias têm dono - comparece o coronel López López. - Não tem boteco nem mocinhas festeiras nem nada do gênero.
- Eles passam a semana trancados, executando missões na selva, sonhando com a folga - imagina o general Victoria. - Andam quilômetros até o povoado mais próximo. E o que acontece quando chegam?
- Nada, por causa da maldita falta de mulher - encolhe os ombros o Tigre Collazos.
- E os que não conseguem entrar no clima perdem a compostura e se atiram como pumas sobre o que lhes aparece pela frente assim que tomam um copinho de anisado.
- Já houve casos de viadagem e mesmo de bestialismo - explica o coronel López López. - Imagine que um cabo de Horcones foi flagrado levando vida conjugal com uma macaca.
- A símia responde pelo nome absurdo de Mamadeira da Quinta Quadra - segura o riso o alferes Santana. - Ou melhor, respondia, porque acertei um balaço nela. O degenerado está na cadeia, meu coronel.
- Quer dizer, a abstinência transforma o cara num corrupto daqueles - diz o general Victoria. - Provoca desmoralização, nervosismo, apatia.
- É preciso dar de comer àqueles famintos, Pantoja - solene, olha-o nos olhos o Tigre Collazos. - É aí que o senhor entra, é aí que vai aplicar seu cérebro organizador.
- Por que ficar tão perdido e caladinho, Panta? - guarda a passagem na bolsa e pergunta onde é o portão de embarque Pochita. - Vamos ter um grande rio, vamos poder nadar, fazer visitas às tribos. Anime-se, bobo.
- O que você tem que está tão esquisito, filhinho - observa as nuvens, as hélices, as árvores dona Leonor. - Não abriu a boca a viagem inteira. Por que está tão preocupado?
- Nada, mamãe, nada, Pochita - afivela o cinto Panta. - Estou bem, não está acontecendo nada comigo. Olhem, já estamos chegando. Esse aí deve ser o Amazonas, não é?
- Nesses últimos dias você estava parecendo um débil mental - põe os óculos escuros, tira o casaco Pochita. - Não dizia uma palavra, sonhava de olhos abertos. Meu Deus, que coisa infernal. Nunca vi você tão mudado, Panta.
- Estava meio preocupado com o meu novo destino, mas já passou - tira a carteira, estende algumas notas para o motorista Panta. - Isso, chefe, número 549, Hotel Lima. Espere, mamãe, ajudo você a descer.
- Você é militar, não é mesmo? - joga a maleta de viagem sobre uma cadeira, tira os sapatos Pochita. - Sabia que podiam mandar você para qualquer lugar. Iquitos não é ruim, Panta, você não está vendo que parece um lugar simpático?
- Você tem razão, me comportei como um bobo - abre o guarda-roupa, pendura um uniforme, um terno, Panta. - Vai ver que fiquei muito ligado a Chiclayo; juro que já passou. Bom. Vamos desfazer as malas. Que calorzinho danado, não é, minha nega?
- Eu por mim passava a vida morando em hotel - deixa-se cair de costas na cama, espreguiça-se Pochita. - Fazem tudo para você, não é preciso se preocupar com nada.
- E ficaria bem receber o cadete Pantoja num hotelzinho? - tira a gravata, a camisa, Panta.
- O cadete Pantoja? - abre os olhos, desabotoa a blusa, apóia um cotovelo no travesseiro Pochita. - Mesmo? Já podemos encomendá-lo, Pantita?
- Não lhe prometi, quando recebesse a terceira fitinha? - alisa, dobra e pendura as calças Panta. - Ele vai ser de Loreto, o que você acha?
- Maravilhoso, Panta - ri, bate palmas, balança-se no colchão Pochita. - Ai, que felicidade, o cadetinho, Pantita Júnior.
- Precisamos encomendá-lo o quanto antes - abre e aproxima as mãos Pantita. - Para que ele chegue rapidinho. Venha cá, nega, aonde você vai?
- Olhe só, o que é isso - salta da cama, corre para o banheiro Pochita. - Você ficou louco?
- Venha cá, venha cá, o cadetinho - tropeça numa valise, derruba uma cadeira Panta. - Vamos encomendá-lo agora, já. Ande, Pochita.
- Mas são onze da manhã, nós acabamos de chegar - estapeia, afasta, empurra, fica zangada Pochita. - Solte, sua mãe vai ouvir, Panta.
- Para estrear Iquitos, para estrear o hotel - arqueja, luta, abraça, escorrega Pantita. - Venha, amorzinho.
- Veja o que conseguiu com todas aquelas denúncias e queixas - brande um ofício coberto de selos e assinaturas o general Scavino. - A culpa também é sua, comandante Beltrán: veja só o que esse indivíduo veio organizar em Iquitos.
- Você vai rasgar minha saia - protege-se atrás do guarda-roupa, joga um travesseiro, pede trégua Pochita. - Não estou reconhecendo você, Panta! Você sempre tão certinho! O que está havendo com você? Deixe, eu mesma tiro.
- Eu queria sanar um mal, não causá-lo - lê e relê a fisionomia abochornada do comandante Beltrán. - Nunca imaginei que o remédio seria pior que a doença, meu general. Inconcebível, iníquo. O senhor vai permitir esse horror?
- O sutiã, as meias - sua, se joga, se encolhe, se espicha Pantita. - O Tigre tinha razão: a umidade morna, respira-se fogo, o sangue ferve. Ande, me belisque onde eu gosto. Na orelhinha, Pocha.
- De dia fico com vergonha, Panta - se queixa, se enrola na colcha, suspira Pochita. - Depois você vai querer dormir, não tem que estar no Comando às três? Você sempre dorme.
- Tomo uma ducha - se ajoelha, se dobra, se desdobra Pantita. - Não fale comigo, não me distraia. Me belisque a orelhinha. Assim, assim mesmo. Ai, acho que vou morrer, nega, nem sei mais quem eu sou.
- Sei muito bem quem é o senhor e o que vem fazer em Iquitos - murmura o general Roger Scavino. - E desde logo quero lhe dizer que não estou nem um pouco satisfeito com sua presença nesta cidade. Gosto de deixar as coisas claras desde o princípio, capitão.
- Desculpe, meu general - balbucia o capitão Pantoja. - Deve haver algum mal-entendido.
- Não estou de acordo com o serviço que vem organizar - aproxima a careca do ventilador e semicerra os olhos por um momento o general Scavino. - Sou contra desde o começo e continuo achando que é uma barbaridade.
- E principalmente uma imoralidade inominável - abana-se com fúria o padre Beltrán.
- O comandante e eu nada dissemos porque assim determina a hierarquia - desdobra o lenço e seca o suor da testa, das fontes, do pescoço o general Scavino. - Mas não estamos convencidos, capitão.
- Não tenho nada a ver com esse projeto, meu general - transpira imóvel o capitão Pantoja. - Foi a maior surpresa da minha vida quando me comunicaram, padre.
- Comandante - corrige o padre Beltrán. - Não sabe contar os galões?
- Desculpe, meu comandante - bate de leve os calcanhares o capitão Pantoja. - Não tive nenhuma participação, pode ter certeza.
- O senhor não é um dos cérebros da Intendência que idealizaram essa imundície? - pega o ventilador, aponta-o para os próprios rosto e crânio e pigarreia o general Scavino.
- De toda maneira, certas coisas têm que ficar bem esclarecidas. Não posso evitar que a coisa vá em frente, mas vou me esforçar para que as Forças Armadas saiam o menos possível salpicadas. Ninguém vai empanar a imagem que o Exército conquistou em Loreto desde que estou à frente da Quinta Região.
- Também é esse o meu desejo - olha por cima do ombro do general a água barrenta do rio, uma lancha carregada de bananas, o céu azul, o sol ígneo o capitão Pantoja. - Estou disposto a fazer o possível.
- Porque aqui o circo pega fogo se a notícia se espalha - levanta a voz, ergue-se, apóia as mãos no peitoril da janela o general Scavino. - Os estrategos de Lima planejam as sacanagens muito sossegados em seus escritórios porque se a coisa vem a público quem agüenta a tempestade é o general Scavino.
- Concordo com o senhor, acredite - sua, vê as mangas da farda se empaparem, implora o capitão Pantoja. - Eu jamais teria pedido essa missão. É uma coisa tão diferente de meu trabalho habitual que até nem sei se serei capaz de cumpri-la.
- Sobre madeira seu pai e sua mãe se uniram para fazê-lo e sobre madeira aquela que o pariu fez força e abriu as pernas para pari-lo - ulula e troveja, lá do alto, na penumbra, o irmão Francisco. - A madeira sentiu o seu corpo, tingiu-se com o seu sangue, recebeu as suas lágrimas, umedeceu-se com o seu suor. A madeira é sagrada, o lenho traz saúde. Irmãs! Irmãos! Abram os braços por mim!
- Por esta porta vão desfilar dezenas de pessoas, este escritório vai ficar repleto de protestos, de ofícios com assinaturas, de cartas anônimas - agita-se, dá alguns passos, volta atrás, abre e fecha o leque o padre Beltrán. - Toda a Amazônia vai pôr a boca no mundo e imaginar que o arquiteto do escândalo é o general Scavino.
- Já estou ouvindo o demagogo do Sinchi vomitando calúnias contra mim pelo microfone - se vira, se altera o general Scavino.
- Minhas instruções são para que o Serviço funcione cercado do maior sigilo - atreve-se a tirar o quepe, a passar um lenço na testa, a limpar os olhos o capitão Pantoja. - Pretendo ter essa instrução em mente em todos os momentos, meu general.
- E que diabos eu poderia inventar para acalmar as pessoas? - grita, contorna a escrivaninha o general Scavino. - Por acaso alguém pensou, em Lima, no triste papel que vou ter que representar?
- Se o senhor preferir, posso pedir hoje mesmo minha transferência - empalidece o capitão Pantoja. - Para lhe mostrar que não tenho o menor interesse no Serviço de Visitadoras.
- Puta eufemismo os gênios foram encontrar - bate os calcanhares de costas, olhando o rio que cintila, as cabanas, a planície de árvores o padre Beltrán. - Visitadoras, visitadoras.
- Nada de transferências; em uma semana me mandavam outro intendente - torna a sentar-se, a ventilar-se, a enxugar a careca o general Scavino. - Está em suas mãos o Exército não sair prejudicado da história. O senhor carrega nos ombros uma responsabilidade do tamanho de um vulcão.
- Pode dormir tranqüilo, meu general - enrijece o corpo, joga os ombros para trás, olha para diante o capitão Pantoja. - O Exército é a coisa que mais respeito e estimo na vida.
- A melhor maneira de servi-lo neste momento é manter-se afastado dele - suaviza o tom e ensaia uma expressão amável o general Scavino. - Pelo menos enquanto estiver no comando do tal Serviço.
- Perdão? - pestaneja o capitão Pantoja. - O que o senhor disse?
- Não ponha os pés no Comando nem nos quartéis de Iquitos, nunca - expõe a palma, o dorso das mãos às pás sibilantes e invisíveis o general Scavino. - O senhor fica eximido de assistir a todo e qualquer ato oficial, parada, ação de graças. Também fica eximido de envergar a farda. Usará exclusivamente trajes civis.
- Devo comparecer à paisana inclusive ao meu trabalho? - continua pestanejando o capitão Pantoja.
- Seu trabalho vai ficar muito distante do Comando - observa-o com receio, com consternação, com piedade o general Scavino. - Não seja ingênuo, homem. Por acaso imagina que seria possível instalarmos um escritório para o senhor aqui na cidade, para o tráfico que vai organizar? Destinei-lhe um depósito na periferia de Iquitos, na margem do rio. Compareça sempre à paisana. Ninguém deve ficar sabendo que o local tem qualquer tipo de vinculação com o Exército. Entendido?
- Sim, meu general - ergue e baixa a cabeça o boquiaberto capitão Pantoja. - Só que, quer dizer, eu não estava preparado para uma coisa dessas. Vai ser, sei lá, como mudar de personalidade.
- Faça de conta que foi nomeado para o Serviço de Inteligência - sai da janela, aproxima-se dele, concede-lhe um sorriso benevolente o comandante Beltrán -, que sua vida depende de sua capacidade de passar despercebido.
- Vou procurar me adaptar, meu general - balbucia o capitão Pantoja.
- Também não é conveniente que more na Vila Militar, de modo que procure uma casinha na cidade - passa o lenço pelas sobrancelhas, orelhas, lábios e nariz o general Scavino. - E lhe suplico que não mantenha relações com os oficiais.
- O senhor quer dizer relações de amizade, meu general? - impressiona-se o capitão Pantoja.
- De amor é que não vai ser - ri ou ronca ou tosse o padre Beltrán.
- Estou consciente de que é duro, de que vai ser difícil - concorda com amabilidade o general Scavino. - Mas não há outro jeito, Pantoja. Devido à sua missão, o senhor entrará em contato com toda a ralé da Amazônia. A única maneira de evitar que o fato atinja a instituição é o senhor mesmo se sacrificando.
- Curto e grosso: tenho que esconder minha condição de oficial - avista ao longe um garoto nu subindo numa árvore, uma garça rosa e manca, um horizonte de matagais que flamejam o capitão Pantoja. - Vestir-me como civil, andar com civis, trabalhar como civil.
- Mas pensar sempre como militar - dá uma pancadinha na mesa o general Scavino. - Designei um tenente para funcionar como elo de ligação entre nós. Vocês vão se encontrar uma vez por semana e através dele estarei a par de suas atividades.
- Não se preocupe nem um pouco: serei um túmulo - empunha o copo de cerveja e diz saúde o tenente Bacacorzo. - Estou informado de tudo, meu capitão. Podemos nos encontrar às terças-feiras, está bem para o senhor? Acho que nossas reuniões podem ser sempre em barzinhos, botecos. Agora o senhor vai ter que freqüentar muito esses ambientes, não é mesmo?
- Ele me fez sentir um delinqüente, uma espécie de leproso - passa em revista os macacos, papagaios e pássaros dissecados, os homens que bebem em pé no balcão o capitão Pantoja. - Como diabos vou começar a trabalhar se o próprio general Scavino me sabota? Se meus superiores são os primeiros a me desanimar, a me pedir que disfarce, que não me deixe ver?
- Você saiu tão contente para o Comando e mais uma vez volta com cara de tonto - se estica, lhe dá um beijo no rosto Pochita. - O que aconteceu, Panta? Você chegou tarde e levou uma bronca do general Scavino?
- Vou ajudá-lo em tudo o que for possível, meu capitão - oferece-lhe lasquinhas de chonta frita o tenente Bacacorzo.
- Não sou especialista, mas vou fazer o possível. Não se queixe, muitos oficiais dariam qualquer coisa para estar na sua pele. Pense na liberdade que vai ter; o senhor mesmo resolve seus horários, seu sistema de trabalho. Fora outras coisas gostosas, meu capitão.
- Vamos morar aqui, neste lugar tão feio? - olha as paredes descascadas, as divisórias sujas, as teias de aranha do teto dona Leonor. - Por que não lhe deram uma casa na Vila Militar, que é tão bonita? De novo a sua falta de coragem, Panta.
- Não vá imaginar que estou ficando derrotista, Bacacorzo, só que ando terrivelmente atrapalhado - prova, mastiga, engole, murmura delicioso o capitão Pantoja. - Sou um bom administrador, isso sou. Mas me tiraram do meu elemento e agora estou me sentindo um peixe fora d'água.
- O senhor já deu uma olhada no seu centro de operações? - enche novamente os copos o tenente Bacacorzo. - O general Scavino baixou uma circular: nenhum oficial de Iquitos tem permissão para se aproximar desse depósito do rio Itaya, sob pena de trinta dias de prisão incomunicável.
- Ainda não, amanhã cedo eu vou - bebe, limpa a boca, segura um arroto o capitão Pantoja. - Porque, vamos ser bem francos, para desempenhar essa missão a contento seria preciso ter experiência no assunto. Conhecer o mundo da noite, ter sido um pouco farrista.
- Você vai assim para o Comando, Panta? - se aproxima dele, apalpa a camisa de manga curta, fareja a calça azul, o bonezinho Pochita. - E a farda?
- Infelizmente não é o meu caso - se entristece, esboça um trejeito envergonhado o capitão Pantoja. - Nunca fui de aprontar. Nem quando era rapaz.
- Não vamos poder freqüentar as famílias dos oficiais? - esgrime o espanador, a vassoura, um balde, sacode, limpa, varre, se espanta dona Leonor. - Vamos ter que viver como se fôssemos civis?
- Imagine que nos meus tempos de cadete eu preferia ficar na escola estudando nos dias de saída - evoca nostálgico o capitão Pantoja. - Dando duro em matemática, principalmente, a matéria de que eu mais gosto. Nunca ia a festas. Pode parecer mentira, mas só aprendi a dançar as coisas mais fáceis: o bolerinho e a valsa.
- Nem os vizinhos podem saber que você é capitão? - esfrega vidros, enxágua assoalhos, pinta paredes, assusta-se Pochita.
- De modo que o que está acontecendo comigo é gravíssimo - olha em torno com apreensão, fala-lhe bem junto do ouvido o capitão Pantoja. - Como é possível que uma pessoa que jamais teve contato com visitadoras na vida organize um Serviço de Visitadoras, Bacacorzo?
- Uma missão especial? - encera portas, empapela armários, pendura quadros Pochita. - Você vai trabalhar com o Serviço de Inteligência? Ah, já estou desvendando todo o mistério, Panta!
- Imagino esses milhares de soldados à espera, confiantes em mim - examina as garrafas, se emociona, sonha o capitão Pantoja -, contando os dias e pensando já vêm, já vão chegar, e o meu cabelo se arrepia todo, Bacacorzo.
- Que segredo militar porcaria nenhuma - arruma guarda-roupas, costura cortininhas, tira o pó dos abajures, liga lâmpadas dona Leonor. - De segredo com a mamãezinha? Conte, conte!
- Não quero decepcioná-los - angustia-se o capitão Pantoja. - Mas que droga, por onde vou começar?
- Se você não contar, vai ter - estende camas, dispõe tapetes, enverniza móveis, arruma copos, pratos e talheres no aparador Pochita. - Nunca mais beliscõezinhos naquele lugar, nunca mais mordidinhas na orelha. Como você quiser, benzinho.
- Pelo começo, meu capitão - anima-o com um sorriso e um brinde o tenente Bacacorzo. - Se as visitadoras não vêm até o capitão Pantoja, o capitão Pantoja deve ir até as visitadoras. É o mais simples, acho.
- Espião, Panta? - esfrega as mãos, contempla o aposento, murmura como já melhoramos esta pocilga não é mesmo dona Leonor Pochita. - Como nos filmes? Ai, amor, que emocionante!
- Vá dar uma voltinha esta noite pelos bairros putanheiros de Iquitos - anota endereços no guardanapo o tenente Bacacorzo. - O Mao Mao, o 007, o Gato Zarolho, o São Joãozinho. Para se acostumar com o ambiente. Eu adoraria ir junto, mas o senhor sabe como é, as instruções de Scavino são categóricas.
- Aonde vai nessa estica, filhinho? - dona Leonor faz que sim, que ninguém o reconheceria, Pochita, merecemos um prêmio. - Minha nossa, que capricho, até gravata. Você vai torrar de calor. Uma reunião de alto escalão? À noite? Que engraçado você fica de agente secreto, Panta. Está bem, shhht, shhht, vou calar a boca.
- Pergunte em qualquer um desses lugares pelo China Porfirio - dobra e guarda o guardanapo no bolso do outro o tenente Bacacorzo. - É um sujeito que pode ajudá-lo. Consegue "lavadeiras" a domicílio. O senhor sabe do que estou falando, não é mesmo?
- Por isso ele não morreu afogado, nem queimado, nem enforcado, nem apedrejado, nem esfolado - geme e chora sobre a cintilação das tochas e o rumor das preces o irmão Francisco. - Por isso foi cravado num lenho, por isso preferiu a cruz. Ouça quem quiser ouvir, entenda quem quiser entender. Irmãs! Irmãos! Batam três vezes no peito por mim!
- Boa noite, ã-ham, hmmm, atchim - assoa o nariz, senta-se na banqueta, apóia-se no balcão Pantaleón Pantoja. - Isso, uma cerveja, por favor. Acabo de chegar a Iquitos, estou me familiarizando com a cidade. Mao Mao é o nome deste lugar? Ah, por isso as flechinhas, os tótens, agora estou entendendo.
- Aqui está, geladinha - serve, seca o copo, aponta o salão o garçom. - Isso, Mao Mao. Não tem quase ninguém porque hoje é segunda-feira.
- Tem uma coisa que eu gostaria de saber. Ã-ham, hmm, hmmm - limpa a garganta Pantaleón Pantoja -, se for possível. Só para minha informação.
- Onde encontrar mocinhas? - forma uma argola com o polegar e o índice o garçom. - Aqui mesmo, só que hoje elas foram ver o irmão Francisco, o santo da cruz. Veio do Brasil até aqui andando, dizem, e também que é milagreiro. Mas olhe quem está chegando. Ei, Porfirio, venha cá. Lhe apresento este senhor que está interessado em informações turísticas.
- Puteilos e gatinhas? - pisca um olho, faz uma reverência, estende a mão o China Porfirio. - Cralo, senhol. É um plazel. Em dois minutos exprico tudo. Vai custal só uma celvejota. Balato, né?
- Muito prazer - aponta a banqueta ao lado para que o China se instale Pantaleón Pantoja. - Claro, claro, uma cerveja. Não vá ficar imaginando coisas, meu interesse não é pessoal, é uma coisa técnica.
- Técnica? - se engasga o garçom. - Espero que o senhor não seja dedo-duro.
- Puteilos são pouquinhos - mostra três dedos o China Porfirio. - À sua saúde e boa vida. Dois decentes e um hololoso, pala mendigos. E tem ainda as gatinhas que vão de casa em casa, pol conta póplia. As "lavadeilas", sabia?
- Ah, é? Que interessante - estimula-o com sorrisos Pantaleón Pantoja. - Pura curiosidade, eu não freqüento esses lugares. O senhor tem ligações? Quer dizer, amizades, contatos com esses lugares?
- O China está em casa sempre que tem puta por perto - ri o garçom. - O pessoal chama ele de Fumanchu de Belén, não é mesmo, compadre? Belén, o bairro das casas flutuantes, a Veneza da Amazônia, o senhor já deu uma volta por lá?
- Já fiz de tudo na vida e não me alependo, senhol - sopra a espuma e bebe um golaço o China Porfirio. - Não ganhei dinheilo mas ganhei expeliência. Bilheteilo de cinema, motolista de lancha, caçadol de coblas de expoltação.
- E foi despedido de todos os empregos por ser putanheiro e aprontador, irmão - acende-lhe um cigarro o garçom. - Cante para este senhor o que a sua mãezinha profetizou!
China que nasce pobletão
Mole ladlão ou cafetão
Canta e se homenageia às gargalhadas o China Porfirio. - Ai minha mãezinha linda que está no santo céu. Como só se vive uma vez, vamos vivê-la, não é mesmo? Passamos pala a segunda geradinha da noite, senhol?
- Está bem, mas... ã-ham... - ruboriza-se Pantaleón Pantoja. - Tenho uma idéia melhor. Que tal trocar de cenário, meu amigo?
- Seu Pantoja? - transpira mel dona Chuchupe. - Com imenso prazer, pode passar, esteja em casa. Aqui tratamos todo mundo bem, tirando os bundões dos milicos, que pedem desconto. Oi, chininha bandido.
- O senhol Pantoja é de Lima e é amigo nosso - beija rostos, belisca traseiros o China Porfirio. - Vai ablil uma coisinha pol aqui. Você sabe, selviço de luxo, Chuchupe. Esse anão se chama Chupito e é a mascote do local, senhol.
- Explique direito: capataz, barman e leão-de-chácara, fiadaputa - distribui garrafas, recolhe copos, cobra contas, liga o toca-discos, manda mulheres para a pista de dança Chupito. - Quer dizer que esta é a primeira vez que o senhor vem à Casa Chuchupe?
Não há de ser a última, o senhor vai ver. Hoje não há muitas moças porque elas foram ver o irmão Francisco, o tal que ergueu aquela grande cruz na margem do lago Morona.
- Eu também estive lá, uma multidão inclível e os punguistas batalhando na maiol - distribui adeusinhos o China Porfirio. - O imão é bom de papo. Não dava pala entendel dileito, mas todo mundo se emocionava.
- Tudo o que cravas no lenho é oferenda, tudo o que acaba na madeira sobe e aquele que morreu na cruz recebe - salmodia o irmão Francisco. - A mariposa multicor que alegra a manhã, a rosa que perfuma o ar, o morcego de olhinhos fosforescentes na noite e até a farpa que se enfia por baixo das unhas. Irmãs! Irmãos! Plantem cruzes por mim!
- Que cara de homem sério! Mas muito sério ele não deve ser, se anda com esse China - limpa uma mesa com o braço, oferece cadeiras, se açucara Chuchupe. - Mande, Chupito, uma cerveja e três copos. A primeira rodada é por conta da casa.
- Sabe o que é uma chuchupe? - assobia, mostra uma pontinha da língua o China Porfirio. - A selpente mais venenosa da Amazônia. Imagine o que essa senhola não diz do gênelo humano pala melecel esse aperido.
- Fique quieto, seu esfarrapado - tapa-lhe a boca, enche os copos, sorri Chuchupe.
- À sua saúde, seu Pantoja, bem-vindo a Iquitos.
- Uma língua vipelina - aponta as treliças nuas das paredes, o espelho avariado, as proteções vermelhas das lâmpadas, as franjas dançantes da poltrona multicor o China Porfirio. - Só que é uma boa amiga e esta casa, mesmo estando um pouquinho passada, é a melhol de Iquitos.
- Mas dê uma olhada no material que ficou - vai apontando Chupito -: moreninhas, brancas, japonesas, até uma albina. Chuchupe tem muito bom olho para escolher seu pessoal, meu senhor.
- Que música boa, dá coceira nos pés - levanta-se, pega uma mulher pelo braço, arrasta-a para a pista, dança o China Porfirio. - Uma licencinha pala sacudil o esquereto. Venha cá, meu violãozinho.
- Posso lhe oferecer uma cerveja, dona Chuchupe? - força um sorriso sem graça e murmura Pantaleón Pantoja. - Eu gostaria de lhe pedir alguns dados, se não for incômodo.
- Que sem-vergonha mais simpático esse China, anda sempre duro mas como alegra a noite - amassa um papel, arremessa-o na direção da cabeça de Porfirio, acerta em cheio Chuchupe. - Não sei o que ele tem, todas são loucas por ele. Olhe só como ele se desloca.
- Coisas relacionadas com o seu, ã-ham, estabelecimento - insiste Pantaleón Pantoja.
- Claro, com muito gosto - fica séria, concorda, faz uma autópsia dele com o olhar Chuchupe -, mas eu não sabia que o senhor tinha vindo para falar de negócios, achei que era outra coisa, seu Pantoja.
- Estou com uma dor de cabeça horrível - se agacha, cobre-se com os lençóis Pantita. - Estou indisposto, com calafrios.
- Imagine se não ia doer, como você não havia de estar, aliás acho ótimo - sapateia Pochita. - Você se deitou pelas quatro e chegou torto, seu idiota.
- Vomitou três vezes - atarefa-se entre panelas, escovões e toalhas dona Leonor -, deixou o quarto todo cheirando, filhinho.
- Você vai me explicar o que significa isso, Panta - aproxima-se da cama, solta chispas pelos olhos Pochita.
- Eu já disse, amor, é coisa do trabalho - queixa-se entre travesseiros Pantita. - Você sabe de sobra que eu não bebo, que não gosto de noitadas. Fazer essas coisas é um suplício para mim, nega.
- Quer dizer que vai continuar fazendo? - gesticula, faz beicinho Pochita. - Deitar-se ao amanhecer, embriagar-se? Pois está muito enganado, Panta, pode ficar sabendo que está muito enganado.
- Vamos, não briguem - controla o equilíbrio do copo, da jarra, da bandeja dona Leonor. - Ande, filhinho, aplique estes paninhos frios e engula este Alka-Seltzer. Depressa, com as bolhinhas.
- É o meu trabalho, é a missão que me deram - desespera-se, afina, perde a voz Pantita. - Eu odeio isso tudo, você tem que acreditar. Não posso lhe contar nada, não me obrigue a falar, seria gravíssimo para a minha carreira. Tenha confiança em mim, Pocha.
- Você andou com mulheres - começa a soluçar Pochita. - Os homens não ficam bebendo até de manhã sem mulher por perto. Tenho certeza de que você andou com mulheres, Panta.
- Pocha, Pochita, minha cabeça está rachando, estou com dor nas costas - aperta um pano contra a testa, enfia a mão debaixo da cama, aproxima um penico, cospe saliva e bile Pantita. - Não chore, assim eu me sinto um criminoso, e eu não sou, juro que não sou.
- Feche os olhinhos, abra a boquinha - aproxima uma xícara fumegante, franze a boca dona Leonor. - E agora este cafezinho quentinho, filhinho.
(*) Cholas: mestiças de índio com branco. O termo, de uso muito popular, tem uma conotação pejorativa. (N. T.)
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Superman e Shazam: O Retorno de Adão Negro
Sinopse: O desenho mostra Clark Kent entrevistando o garoto Billy Batson, que secretamente é o Capitão Marvel. Juntos, Superman e Capitão Marvel terão de enfrentar o vilão assassino Adão Negro. Assista ao Trailer.
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