Butch Cassidy: Ready? OK, when we get outside and we get to the horses, whatever happens, just remember one thing… hey, wait a minute.
Sundance Kid: What?
Butch Cassidy: You didn’t see Lefors out there, did you?
Sundance Kid: Lefors? No.
Butch Cassidy: Oh, good. For a moment there I thought we were in trouble.
Um dia ideal para os peixes-banana e livros e cinema e gibis e nus e ataxia espinocerebelar e 𓋹
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
FINAL CLÁSSICO
BOARDWALK EMPIRE
Sinopse: Adaptada por Terence Winter com base no livro Boardwalk Empire: The Birth, High Times e Corruption of Atlantic City, de Nelson Johnson, um advogado e agora juíz, a série é situada na década de 20, durante a Lei Seca. Centrada na figura de Enoch Johnson (Steve Busceni), mais conhecido pelo apelido de Nucky, a trama narra o surgimento dos cassinos e a luta entre gângsters e políticos. Nucky é o chefe do submundo local, aspirante à político, que usa seu poder para extorquir figuras públicas, abusar da lei e fortalecer o crime organizado. No elenco da série também estão Michael Pitt, Kelly MacDonald, Michael Shannon, Stephen Graham, Vincent Piazza, Aleksa Palladino, Paul Sparks, Shea Whigham, Anthony Laciura, Michael Kenneth Williams, Dabney Coleman, Michael Stuhlbarg e Paz de la Huerta. Produção de Martin Scorsese. Assista ao Trailer.
Clique na imagem para baixar e vá ao Filmes com legenda.
NOSSO HOMEM EM HAVANA
Graham Greene
Um trecho
Capítulo 1
- Aquele negro que está descendo a rua - disse o dr. Hasselbacher, de pé no Wonder Bar - me lembra o senhor, sr. Wormold.
Era típico do dr. Hasselbacher ainda usar, depois de 15 anos de amizade, o tratamento de "senhor". Uma amizade que prosseguia com a lentidão e a segurança de um diagnóstico cuidadoso. Junto a seu leito de morte, quando o dr. Hasselbacher sentisse que o seu pulso falhava, talvez, então, ele se tornasse Jim.
O negro era cego de um olho e tinha uma perna mais curta do que a outra. Usava um velho chapéu de feltro e suas costelas apareciam, sob a camisa rasgada, como um navio que estivesse sendo desmontado. Caminhava à beira da calçada, fronteira aos pilares amarelos e cor-de-rosa de uma colunata, sob o sol quente de janeiro, contando cada um de seus passos. Ao passar pelo Wonder Bar, subindo a Virtudes, já havia chegado a 1.369. Tinha de andar devagar para poder contar um número assim tão longo. "Mil trezentos e setenta." Era uma figura familiar na praça Nacional, onde às vezes se deixava ficar, interrompendo a sua conta a fim de vender a um turista um maço de fotografias pornográficas. Depois, recomeçava-a, partindo do ponto em que a interrompera. No fim do dia, como um animado passageiro de transatlântico, devia saber, metro a metro, o que havia caminhado.
- Joe? - perguntou Wormold. - Não vejo semelhança alguma. Salvo o coxear, claro.
Mas, instintivamente, lançou um rápido olhar à sua figura no espelho em que se lia Cerveza Tropical, como se ele realmente pudesse ter ficado tão estropiado e escuro durante a caminhada que empreendera desde a loja, na cidade velha. Mas o rosto que o espelho refletia estava apenas um pouco descorado devido ao pó das obras do porto. Era ainda o mesmo rosto, ansioso, quarentão, riscado de rugas - muito mais moço que o do dr. Hasselbacher. Não obstante, um estranho poderia ter a impressão de que se extinguiria primeiro, pois as sombras lá estavam - sombras de angústias que estão além do alcance de um tranqüilizante. O negro, manquitolando, desapareceu da vista de ambos, atrás da esquina do Paseo. O dia estava cheio de engraxates.
- Não me refiro ao coxear. Então não consegue ver nenhuma semelhança?
- Não.
- Ele tem duas idéias na cabeça - explicou o dr. Hasselbacher. - Realizar o seu trabalho e contar os passos. E, além disso, é britânico.
- Ainda assim, não vejo... - respondeu Wormold, refrescando a boca com o seu daiquiri matinal. Sete minutos para chegar ao Wonder Bar; sete minutos para voltar à loja; seis minutos de companhia. Consultou seu relógio. Lembrou-se de que estava um minuto atrasado.
- É digno de confiança, pode-se contar com ele, eis tudo - disse o dr. Hasselbacher com impaciência. - Como está Milly?
- Maravilhosa - respondeu Wormold.
Era sua resposta invariável, mas dizia-a com convicção.
- Dezessete anos no dia 17, hein?
- É verdade.
Olhou rapidamente por cima de seu próprio ombro, como se alguém o estivesse perseguindo, e, depois, tornou a olhar o relógio.
- Vai tomar uma bebida conosco?
- Até agora, ainda não falhei. Quem mais estará lá?
- Bem, pensei apenas em nós três. Como sabe, Cooper voltou para casa, o pobre Marlowe ainda se encontra no hospital e Milly parece não se interessar por ninguém do consulado. De modo que pensei em fazer a coisa tranqüilamente, em família.
- Sinto-me honrado de ser considerado como um dos membros da família, sr. Wormold.
- Talvez uma mesa no Nacional... ou o senhor diria que isso é bem... apropriado?
- Isto aqui não é a Inglaterra nem a Alemanha, sr. Wormold. As moças crescem depressa nos trópicos.
Uma veneziana, do outro lado, soprada pela ligeira brisa do mar, abriu-se com um rangido, e tornou a bater, com regularidade, como um velho relógio. Wormold disse:
- Preciso ir embora.
- Os aparelhos de limpeza poderão passar sem o senhor, sr. Wormold. - Aquele era um dia de verdades incômodas. - Como os meus pacientes - acrescentou, amável, o dr. Hasselbacher.
- As pessoas não podem deixar de ficar doentes, mas não precisam comprar aspiradores elétricos.
- Mas o senhor lhes cobra mais.
- Mas fico apenas com vinte por cento para mim. Não se pode economizar muito com vinte por cento.
- Não estamos numa época para se economizar, sr. Wormold.
- Mas eu preciso... para Milly. Se algo me acontecesse...
- Nenhum de nós espera muito da vida hoje em dia. Assim sendo, por que nos preocuparmos? - Todas essas agitações são muito ruins para o comércio. De que vale um aspirador elétrico, se a eletricidade for cortada?
- Eu poderia conseguir um pequeno empréstimo, sr. Wormold.
- Não, não. Não é isso. Minha preocupação não é quanto a este ano, ou o ano que vem: é uma preocupação a longo prazo.
- Então não vale a pena que a chamemos de preocupação. Vivemos numa época atômica, sr. Wormold. Aperta-se um botão... e pronto!... bum!... onde é que iremos parar? Outro uísque, por favor.
- Há ainda uma outra coisa. Sabe o que a firma fez, agora? Enviou-me um aspirador de pilha atômica.
- Deveras? Não sabia que a ciência havia chegado até esse ponto.
- Oh, claro que não há nada de atômico nisso... Trata-se apenas de um nome. No ano passado, havia o turbojato; este ano, o aspirador atômico. Funciona ligado a uma tomada de eletricidade, como o outro.
- Nesse caso, por que se preocupar? - repetiu, como um refrão, o dr. Hasselbacher, debruçando-se sobre o uísque.
- Eles não percebem que esse nome pode ser muito bom nos Estados Unidos, mas não aqui, onde o clero prega o tempo todo contra o mau uso que se faz da ciência. Milly e eu fomos à catedral no domingo passado... pois o senhor bem sabe o que ela pensa acerca da missa: acha que poderá converter-me - e eu não me surpreenderia nada se isso acontecesse. Bem, o padre Méndez gastou meia hora a descrever os efeitos da bomba de hidrogênio. "Os que acreditam no céu aqui na terra", disse ele, "estão criando um inferno..." Fez com que a coisa soasse assim, de maneira muito clara. E como é que o senhor pensa que me senti segunda-feira pela manhã, quando tive de exibir, numa vitrina, o novo aspirador de pilha atômica? Não me surpreenderia nada se um desses meninos malcriados que andam por aí houvesse quebrado a vitrina. Ação Católica, Cristo Rei, essa tralha toda. Não sei o que fazer, Hasselbacher.
- Venda um aspirador ao padre Méndez, para ser usado no palácio do bispo.
- Mas ele está satisfeito com o turbo. Era um bom aparelho. Claro que este também é. Sucção aperfeiçoada, para estantes de livros. Bem sabe que eu não venderia um aparelho que não fosse bom.
- Sei, sr. Wormold. Não poderia simplesmente mudar o nome?
- Eles não o permitirão. Sentem orgulho dele. Pensam que é a melhor frase que alguém já imaginou desde "Ele bate, aspira e limpa". Como sabe, o turbojato tinha uma espécie de filtro para purificar o ar, como eles diziam. Ninguém se importava, embora fosse uma boa invenção, mas, ontem, uma senhora entrou na loja, pôs-se a observar a pilha atômica e perguntou se um filtro daquele tamanho poderia realmente absorver toda a radiatividade. "E quanto ao estrôncio 90?", indagou ela.
- Podia dar-lhe um certificado médico - disse o dr. Hasselbacher.
- O senhor nunca se preocupa com coisa alguma?
- Tenho uma defesa secreta, sr. Wormold. Interesso-me pela vida.
- Eu também, mas...
- O senhor se interessa por pessoas, não pela vida, e as pessoas morrem ou nos abandonam... Desculpe-me. Não me referia à sua esposa. Mas, se estivermos interessados na vida, ela jamais nos decepcionará. Eu me interesso pelo tom azulado do queijo. O senhor não faz palavras cruzadas, não é, sr. Wormold? Eu faço, e elas são como as pessoas: a gente chega a um fim. Posso terminar qualquer palavra cruzada no espaço de uma hora, mas tenho uma teoria, quanto ao tom azulado do queijo, que jamais chegará a uma conclusão... embora, claro, a gente sonhe que, talvez, possa chegar um momento em que... Qualquer dia lhe mostrarei o meu laboratório.
- Preciso ir embora, Hasselbacher.
- Devia sonhar mais, sr. Wormold. A realidade, em nosso século, é algo que não se deve enfrentar.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
O INCRÍVEL HOMEM QUE ENCOLHEU
Sinopse: vida de um homem muda completamente quando uma bizarra nuvem de poeira atômica atravessa sobre ele, fazendo-o diminuir de tamanho progressivamente. Quanto menor ele fica, maiores são os problemas que ele deve enfrentar como batalhas contra aranhas e até o risco de ser esmagado.
Baseado na obra do ótimo Richard Matheson.
Para baixar, clique na imagem e agradeça ao Filmes com legenda.
TRÓPICO DE CÂNCER
Henry Miller
Um trecho
Estou vivendo na Villa Borghese. Não há um resquício de sujeira em parte alguma, nem uma cadeira fora do lugar. Estamos completamente sozinhos aqui e estamos mortos.
Ontem à noite, Bóris descobriu que estava com chatos. Tive de raspar-lhe as axilas e mesmo depois disso a coceira não passou. Como pode alguém adquirir chatos num lugar bonito como este? Mas isso não tem importância. Talvez nunca nos tivéssemos conhecido tão intimamente, Bóris e eu, se não fossem os chatos.
Bóris acaba de oferecer-me uma síntese de suas idéias. É um profeta meteorológico. O tempo continuará ruim, diz ele. Haverá mais calamidades, mais morte, mais desespero. Não há a menor indicação de mudança em parte alguma. O câncer do tempo está-nos comendo. Nossos heróis mataram-se ou estão se matando. O herói, então, não é o Tempo, mas a Ausência de Tempo. Precisamos acertar o passo, em ritmo acelerado, em direção à prisão da morte. O tempo não vai mudar.
Estamos no outono do meu segundo ano em Paris. Mandaram-me para cá por uma razão que ainda não consegui compreender.
Não tenho dinheiro, nem recursos, nem esperanças. Sou o mais feliz dos homens vivos. Há um ano, há seis meses, eu pensava ser um artista. Não penso mais nisso. Eu sou. Tudo quanto era literatura se desprendeu de mim. Não há mais livros a escrever, graças a Deus.
E isto então? Isto não é um livro. Isto é injúria, calúnia, difamação de caráter. Isto não é um livro, no sentido comum da palavra. Não, isto é um prolongado insulto, uma cusparada na cara da Arte, um pontapé no traseiro de Deus, do Homem, do Destino, do Tempo, do Amor, da Beleza.... e do que mais quiserem. Vou cantar para você, um pouco desafinado talvez, mas vou cantar. Cantarei enquanto você coaxa, dançarei sobre seu cadáver sujo...
Para cantar é preciso primeiro abrir a boca. É preciso ter um par de pulmões e um pouco de conhecimento de música. Não é necessário ter harmônica ou violão. O essencial é querer cantar. Isto é, portanto, uma canção. Eu estou cantando.
É para você, Tânia, que estou cantando. Desejaria poder cantar melhor, mais melodiosamente, mas então talvez você jamais consentisse em ouvir-me. Você já ouviu outros cantarem e permaneceu fria. Cantavam bonito demais ou não cantavam suficientemente bonito.
Estamos em vinte e tantos de outubro. Não acompanho mais as datas. Que diz você? Meu sonho de 14 de novembro do ano passado? Há intervalos, mas ficam entre sonhos e deles não resta consciência alguma. O mundo ao meu redor está se dissolvendo, deixando aqui e acolá manchas de tempo. O mundo é um câncer que está comendo a si próprio... Estou pensando que, quando o grande silêncio descer sobre tudo e todos, a música triunfará por fim. Quando tudo se retirar de novo para o útero do tempo, o caos será restabelecido, e o caos é a página sobre a qual a realidade está escrita. Você, Tânia, é o meu caos. É por isso que canto. Não sou nem eu, é o mundo morrendo, deixando cair a pele do tempo. Eu ainda estou vivo, dando pontapés em seu útero, uma realidade sobre a qual escrever.
Adormecendo. A fisiologia do amor. A baleia com seu pênis de um metro e oitenta, em repouso. O morcego - penis libre. Animais com um osso no pênis. Daí, um osso espetado... "Felizmente", diz Gourmont, "a estrutura óssea está perdida no homem". Felizmente? Sim, felizmente. Imagine-se a espécie humana andando de um lado para outro com um osso espetado. O canguru tem pênis duplo: um para os dias úteis e outro para os feriados.
Adormecendo. Uma carta de fêmea perguntando se encontrei um título para meu livro. Título? Certamente: "Adoráveis Lésbias".
Sua vida anedótica! Uma frase do Sr. Borowski. É nas quartas-feiras que almoço com Borowski. Sua esposa, que é uma vaca seca, preside. Ela agora está estudando inglês e sua palavra favorita é "filthy". Isso permite ver imediatamente como são chatos os Borowski. Mas espere...
Borowski usa ternos de tecido aveludado e toca harmônica. Combinação insuperável, especialmente se considerarmos que ele não é mau artista. Faz-se passar por polonês, mas naturalmente não é. É judeu, esse Borowski, e seu pai era um filatelista. Na verdade, quase todo Montparnasse é judeu ou meio-judeu, o que é ainda pior. Há Carl e Paula, Cronstadt e Bóris, Tânia e Sylvester, e Moldorf e Lucille. Todos, com exceção de Fillmore.
Henry Jordan Oswald também acabou revelando-se judeu. Louis Nichols é judeu. Até mesmo Van Norden e Chérie são judeus. Frances Blake é judeu ou judia. Titus é judeu. Os judeus estão caindo sobre mim como neve. Estou escrevendo isto para meu amigo Carl, cujo pai é judeu. É importante compreender tudo isto.
De todos os judeus, a mais adorável é Tânia, e por ela eu também ficaria judeu. Por que não? Já falo como um judeu. E sou feio como um judeu. Além disso, quem odeia os judeus mais do que o judeu?
Hora do crepúsculo. Azul indiano, água de vidro, árvores reluzentes e liquescentes. Os trilhos desaparecem no canal em Jaurés. A comprida lagarta com os lados esmaltados mergulha qual montanha-russa. Não é Paris. Não é Coney Island. É uma mistura crepuscular de todas as cidades da Europa e América Central. Os pátios ferroviários embaixo de mim, os trilhos pretos e trançados, não ordenados pelo engenheiro, mas de desenho cataclísmico, como aquelas sombrias fendas no gelo polar que a câmara registra em tons de preto.
Comida é uma das coisas de que gosto tremendamente. E nesta bela Villa Borghese raramente há indícios de comida. É positivamente pavoroso às vezes. Repetidamente pedi a Bóris que encomendasse pão para o desjejum, mas ele sempre se esquece. Parece que faz seu desjejum fora. E quando volta está palitando os dentes e há um pouco de ovo pendurado em seu cavanhaque. Come no restaurante, por consideração a mim. Diz que lhe dói comer uma grande refeição enquanto olho.
Gosto de Van Norden, mas não partilho de sua opinião a respeito de si próprio. Não concordo, por exemplo, em que ele seja um filósofo ou pensador. É obcecado por fêmeas, nada mais. E nunca será um escritor. Sylvester também jamais será um escritor, embora seu nome cintile em lâmpadas vermelhas de 50 000 velas. Os únicos escritores ao meu redor pelos quais tenho algum respeito, atualmente, são Carl e Bóris. São possessos. Brilham por dentro com uma chama branca. Estão mortos e surdos aos tons musicais. São sofredores.
Por outro lado, Moldorf, que também sofre à sua maneira, não é louco. Tem a embriaguez da palavra. Não tem veias ou vasos sangüíneos, nem coração ou rins. É um armário portátil com inúmeras gavetas e nas gavetas há etiquetas escritas com tinta branca, marrom, vermelha, azul, escarlate, cor de açafrão, cor de malva, castanho-avermelhado, damasco, turquesa, ônix, Anjou, arenque, Corona, verdigris, gorgonzola...
Mudei a máquina de escrever para o aposento ao lado onde posso ver-me no espelho enquanto escrevo.
Tânia é como Irene. Espera cartas gordas. Mas existe outra Tânia, uma Tânia semelhante a uma grande semente, que espalha pólen por toda parte -_ou, digamos, um pouco de Tolstói, uma cena de estábulo na qual o feto é desenterrado. Tânia é uma febre também-- les voies urinaires, Café de la Liberté, Place des Vosges, gravatas brilhantes no Boulevard de Montparnasse, banheiros escuros, Porto Sec, cigarros Abdullah, sonata patética em adágio, amplificadores auditivos, sessões de anedotas, peitos castanho-avermelhados queimados, ligas pesadas, que horas são, faisões dourados recheados com castanhas, dedos de tafetá, crepúsculos vaporosos transformando-se em azinheiras, acromegalia, câncer e delírio, véus quentes, fichas de pôquer, tapetes de sangue e coxas macias. Tânia diz para que todos ouçam: "Eu o amo!" E, enquanto Bóris se queima com uísque, ela diz: "Sente-se aqui! Ó Bóris... Rússia... que farei? Estou estourando!"
À noite, quando olho o cavanhaque de Bóris estendido sobre o travesseiro, fico histérico.
Ó Tânia, onde estão agora aquela sua boceta quente, aquelas ligas gordas e pesadas, aquelas coxas macias e arredondadas? Em meu membro há um osso de quinze centímetros de comprimento. Tânia, alisarei todas as pregas de sua vulva, cheia de semente. Mandá-la-ei de volta para seu Sylvester com a barriga doendo e o útero virado. Seu Sylvester! Sim, ele sabe acender um fogo, mas eu sei inflamar uma vagina. Enfiarei pregos quentes em você, Tânia. Deixarei seus ovários incandescentes. Seu Sylvester agora está um pouco ciumento? Ele sente alguma coisa, não sente? Sente os remanescentes de meu grande membro. Deixei as margens um pouco mais largas. Alisei as pregas. Depois de mim, você pode receber garanhões, touros, carneiros, cisnes e São Bernardos. Pode enfiar pelo reto sapos, morcegos, lagartos. Você pode defecar arpejos ou amarrar uma cítara sobre o umbigo. Eu estou fodendo, Tânia, para que você fique fornicada. E se tem medo de ser fornicada em público, eu fornicarei privativamente. Arrancarei alguns pêlos de sua vulva e os grudarei no queixo de Bóris. Morderei seu clitóris e cuspirei moedas de dois francos...
Céu de anil limpo de onde foram varridas as nuvens felpudas, árvores magras infinitamente estendidas, com seus galhos pretos a gesticular como um sonâmbulo. Árvores sombrias e espectrais, de troncos pálidos como cinza de charuto. Silêncio supremo e absolutamente europeu. Venezianas cerradas, lojas fechadas. Um brilho vermelho aqui e acolá para marcar encontro. Fachadas bruscas, quase proibitivas; imaculadas, não fossem as manchas de sombra que as árvores lançam. Passando pela Orangerie, lembrei-me de outra Paris, a Paris de Maugham, de Gauguin, a Paris de George Moore. Penso naquele terrível espanhol que então espantava o mundo com seus saltos acrobáticos de um estilo para outro. Penso em Spengler e seus terríveis pronunciamentos e pergunto se o estilo, o estilo à grande maneira, morreu.
Digo que meu espírito está ocupado com esses pensamentos, mas não é verdade; somente mais tarde, depois de ter atravessado o Sena, depois de ter deixado para trás o carnaval de luzes, é que permito a meu espírito brincar com essas idéias. No momento, não posso pensar em nada - exceto em que sou um ser senciente ferido pelo milagre destas águas que refletem um mundo esquecido. Ao longo de toda a extensão das margens, as árvores curvam-se pesadamente sobre o espelho embaçado; quando o vento se ergue e as enche de um murmúrio farfalhante, elas derramam algumas lágrimas e estremecem sobre a água rodopiante que passa. Estou sufocado por isto. Ninguém a quem possa comunicar sequer uma fração de meus sentimentos...
O mal de Irene é ter uma valise em lugar de vulva. Quer cartas gordas para enfiar na valise. Imensa, avec des choses inouïes. Agora, Llona tem uma boceta. Sei disso porque ela nos mandou alguns pêlos arrancados bem do fundo. Llona --uma égua selvagem cheirando prazer no vento. Em todo monte alto ela fez o papel de puta-- e às vezes também em cabinas telefônicas e lavatórios. Ela comprou uma cama para o Rei Carol e um púcaro para sabão de barba com as iniciais dele. Deitava-se em Tottenham Court Road com o vestido levantado e fazia com os próprios dedos. Usava velas, velas romanas, e trincos de porta. Não havia na terra membro tão grande que lhe servisse... nenhum. Homens entravam nela e fraquejavam.
Ela os queria com extensão, foguetes explosivos, óleo fervente feito de cera e creosoto.
Cortaria o seu e o conservaria dentro dela, se você lhe desse permissão. Uma boceta como não se encontra em um milhão, Llona! Uma vagina de laboratório, sem papel de tornassol que pudesse tomar-lhe a cor. Era uma mentirosa também, essa Llona. Jamais comprou uma cama para o seu Rei Carol. Coroou-o com uma garrafa de uísque e sua língua estava cheia de chatos e amanhãs. Pobre Carol, dentro dela ele só poderia fraquejar e morrer. Uma chupada, e ele caiu para fora --qual morta lesma.
Cartas enormes e gordas, avec des choses inouïes. Uma valise sem alças. Um buraco sem chave. Ela tinha boca alemã, orelhas francesas, bunda russa. Vagina internacional. Quando hasteava a bandeira, era vermelha em toda a extensão até a garganta. Você entrava no Boulevard Jules-Ferry e saía na Porte de la Villette. Você jogava seu pâncreas em carrinhos de mão - carrinhos de mão vermelhos, com duas rodas, naturalmente. Na confluência do Ourca e Marne, onde a água escorre através dos diques e pára como vidro sob as pontes. Llona lá jaz agora e o canal está cheio de vidro e de lascas; as mimosas choram e há sobre as vidraças um peido úmido e nevoento. Uma vulva como não se encontra em um milhão, era Llona! Só vulva, e um traseiro de vidro no qual se podia ler a história da Idade Média.
É a caricatura de um homem o que Moldorf apresenta a princípio. Olhos de tireóide. Lábios Michelin. Voz como sopa de ervilha. Por baixo do colete, leva uma pequena pêra. Todavia, olhando-o, a gente sempre vê o mesmo panorama: caixinha de rapé enfeitada, cabo de marfim, peça de xadrez, leque, motivo de igreja. Já fermentou durante tanto tempo, que é amorfo. Fermento privado de suas vitaminas. Vaso sem a sua planta de borracha.
As fêmeas eram cobertas duas vezes no século IX e também durante a Renascença. Ele foi levado durante as grandes dispersões sob barrigas amarelas e brancas. Muito tempo antes do Êxodo, um tártaro cuspiu-lhe no sangue.
Seu dilema é o de um anão. Com o olho pineal enxerga em silhueta projetada sobre tela de incomensurável tamanho. Sua voz, sincronizada com a sombra de uma cabeça de alfinete, intoxica-o. Ele ouve um rugido onde outros ouvem apenas um rangido.
Há sua mente. E um anfiteatro onde o ator tem atuação protéica. Moldorf, multiforme e impecável, vai através de seus papéis - palhaço, prestidigitador, contorcionista, padre, devasso, saltimbanco. O anfiteatro é excessivamente pequeno. Ele põe-lhe dinamite no interior. A platéia está entorpecida. Ele machuca-a.
Estou tentando inutilmente aproximar-me de Moldorf. É o mesmo que tentar aproximar-me de Deus, pois Moldorf é Deus - nunca foi outra coisa. Estou simplesmente registrando palavras...
Tive sobre ele opiniões que abandonei; tive outras, que estou reexaminando. Fixei-o apenas para descobrir que não era um besouro de esterco que tinha nas mãos, mas uma libélula. Ele me ofendeu com sua brutalidade e depois me dominou com sua delicadeza. Mostrou-se volúvel até a sufocação e depois calmo como o Jordão.
Quando o vejo avançando a trote para cumprimentar-me, patinhas estendidas, olhos transpirando, sinto que estou encontrando... Não, esta não é maneira de tratar o caso!
"Comme un oeuf dansant sur un jet d'eau"
Ele tem apenas uma bengala, uma bengala medíocre. Em seu bolso há pedaços de papel com receitas para Weltschmerz. Agora está curado e a mocinha alemã que lhe lavava os pés está desolada. Ê como o Sr. Nulidade, folheando seu dicionário Gujurati em toda parte.
"Inevitável para todos" - querendo dizer, sem dúvida, indispensável. Borowski acharia isto tudo incompreensível.
Borowski tem uma bengala diferente para cada dia da semana, e outra para a Páscoa.
Temos tantos pontos em comum que é como se eu visse minha própria imagem em um espelho rachado.
Estive olhando meus manuscritos, páginas rabiscadas com correções. Páginas de literatura.
Isto me assusta um pouco. É tão parecido com Moldorf! Só que sou um gentio e os gentios têm modo diferente de sofrer. Sofrem sem neuroses e, como diz Sylvester, um homem que nunca foi afligido por neurose não sabe o que significa sofrer.
Recordo-me distintamente de como eu sentia prazer com meu sofrimento. Era como levar um filhote de fera para a cama com a gente. De vez em quando ele arranha --e então se fica realmente assustado. Normalmente, não se tem medo-- podemos soltá-lo a qualquer momento ou cortar-lhe a cabeça.
Há pessoas que não podem resistir ao desejo de entrar em uma jaula contendo animais ferozes e ser lanhadas. Entram mesmo sem revólver ou chicote. O medo torna-as destemidas... Para o judeu o mundo é uma jaula cheia de animais ferozes. A porta está trancada e ele ali está sem chicote ou revólver. Sua coragem é tão grande que nem sequer sente o cheiro do estrume no canto. Os espectadores aplaudem, mas ele não ouve. O drama, pensa, está se desenvolvendo dentro da jaula. A jaula, pensa, é o mundo. Ali em pé, sozinho e indefeso, porta trancada, ele descobre que os leões não compreendem sua língua.
Nenhum leão até hoje ouviu falar em Spinoza. Spinoza? Mas os leões não podem sequer fincar os dentes nele. "Dê-nos carne!" rugem os leões, enquanto ele ali permanece petrificado, com as idéias congeladas, com seu Weltanschauung como um trapézio fora do alcance. Uma simples patada do leão e sua cosmogonia estará esmagada.
Os leões também estão decepcionados. Esperavam sangue, ossos, cartilagem, nervos. Mastigam e mastigam, mas as palavras são chicle, e chicle é indigerível. Chicle é uma base sobre a qual se polvilha açúcar, pepsina, tomilho, alcaçuz. O chicle, quando colhido por chicleros, é muito bom. Os chicleros apareceram na orla de um continente afundado.
Trouxeram consigo uma linguagem algébrica. No deserto do Arizona encontraram-se com os mongóis do Norte, vidrados como berinjela. Pouco tempo depois de a Terra ter assumido sua inclinação giroscópica --quando o Gulf Stream se estava separando da corrente japonesa. No coração do solo eles encontraram tufo calcário. Enfeitaram as próprias entranhas da Terra com sua linguagem. Comeram as vísceras uns aos outros e a floresta fechou-se sobre eles, sobre seus ossos e crânios, sobre seu tufo rendado. Sua língua perdeu-se. Aqui e acolá ainda se encontram os remanescentes de uma coleção de feras, uma placa de cérebro coberta de números.
Que tem isto tudo a ver com você, Moldorf? A palavra em sua boca é anarquia. Diga-o, Moldorf, estou esperando. Ninguém sabe, quando apertamos as mãos, os rios que correm através de nosso suor. Enquanto você está articulando suas palavras, com os lábios entreabertos, a saliva borbulhando na boca, salto através de metade da Ásia. Se eu tivesse apanhado sua bengala, apesar de medíocre, e aberto com ela um pequeno buraco em seu lado, poderia ter colhido material suficiente para encher o Museu Britânico. Ficamos em pé cinco minutos e devoramos séculos. Você é o crivo através do qual minha anarquia se filtra, converte-se em palavras. Por trás da palavra há o caos. Cada palavra é uma listra, um traço, mas não há e nunca haverá traços suficientes para fazer a trama.
Em minha ausência, colocaram as cortinas na janela. Tem aparência de toalhas de mesa tirolesas, molhadas em lisol. O quarto resplandece. Sento-me na cama atordoado, pensando no homem antes de seu nascimento. De repente, sinos começam a dobrar, música fantástica, sobrenatural, como se eu tivesse sido transportado para as estepes da Ásia Central. Alguns retinem num ritmo longo e demorado, outros ressoam bebedamente, chorosamente. Agora tudo está quieto de novo, a não ser por uma última nota que mal corta o silêncio da noite --apenas uma fraca e aguda batida abafada como uma chama.
Fiz comigo mesmo um pacto silencioso de não alterar uma linha do que escrevo. Não estou interessado em aperfeiçoar meus pensamentos, nem minhas ações. Ao lado da perfeição de Turgeniev coloco a de Dostoiévski (Existe algo mais perfeito que "O Eterno Marido"?).
Aqui, portanto, no mesmo meio, temos duas espécies de perfeição. Nas cartas de Van Gogh, porém, existe uma perfeição que vai além dessas duas. É a vitória do indivíduo sobre a arte.
Uma única coisa interessa-me vitalmente agora, e é registrar tudo quanto está omitido nos livros. Ninguém, pelo que posso ver, fez uso daqueles elementos, existentes no ar, que dão direção e motivação a nossas vidas. Somente os assassinos parecem extrair da vida certa medida satisfatória daquilo que nela põem. A época exige violência, mas estamos tendo apenas explosões abortivas. As revoluções são abafadas no nascedouro ou ocorrem muito depressa. A paixão esgota-se rapidamente. Os homens voltam a idéias, comme d'habitude.
Nada se propõe que possa durar mais do que vinte e quatro horas. Estamos vivendo um milhão de vidas no espaço de uma geração. No estudo da entomologia, da vida no fundo do mar ou da atividade celular, conseguimos mais...
O telefone interrompe este pensamento que eu nunca teria sido capaz de completar. Alguém vem vindo para alugar o apartamento...
Parece que isto está acabado, a minha vida na Villa Borghese. Bem, apanharei estas páginas e mudar-me-ei. Acontecerão coisas em outros lugares. Sempre estão acontecendo coisas.
Parece que onde quer que eu vá existe drama. As pessoas são como chatos --penetram na pele da gente e enterram-se lá. A gente coça e coça até sair sangue, mas não pode livrar-se permanentemente dos chatos. Em toda parte onde vou, as pessoas estão fazendo uma trapalhada em suas vidas. - Todos têm sua tragédia particular. Está no sangue agora --infortúnio, tédio, aflição, suicídio. A atmosfera está saturada de desastre, frustração, futilidade. Coça-se e coça-se --até não restar mais pele. Todavia, o efeito sobre mim é estimulante. Em vez de ficar desencorajado ou deprimido, divirto-me. Estou clamando por mais e mais desastres, maiores calamidades, malogros piores. Quero que todo o mundo se desmantele, quero que todos se cocem até morrer.
Sou agora forçado a viver tão rápida e furiosamente que mal há tempo para escrever até mesmo estas notas fragmentárias. Depois do telefonema, chegaram um cavalheiro e sua esposa. Subi para deitar-me enquanto durasse a transação. Fiquei deitado pensando qual seria meu movimento seguinte. Certamente não seria voltar para a cama do veado e virar a noite inteira de um lado para outro afastando migalhas de pão com a ponta dos pés. Aquele nojento bastardinho! Se há algo pior do que ser veado, é ser sovina. Um patifezinho tímido e covarde que vivia no constante temor de ficar sem dinheiro um dia --talvez em 18 de março ou precisamente em 25 de maio. Café sem leite ou açúcar. Pão sem manteiga. Carne sem molho ou nada de carne. Sem isto e sem aquilo! O pequeno e sujo sovina! Um dia abri a gaveta do armário e encontrei dinheiro escondido em uma meia.
Mais de dois mil francos --e cheques que ele nem sequer havia descontado. Nem isso me teria aborrecido tanto se não fosse haver sempre borra de café em minha boina e lixo no chão, para não mencionar os potes de creme, as toalhas engorduradas e o ralo sempre entupido. Ainda mais, o pequeno bastardo cheirava mal --exceto quando se ensopava com água-de-colônia. Suas orelhas eram sujas, os olhos eram sujos, a bunda era suja. Ele era molóide, asmático, piolhento, desprezível, mórbido. Poderia ter-lhe perdoado tudo se pelo menos me tivesse dado um desjejum decente! Mas um homem que tem dois mil francos escondidos numa meia suja e se recusa a usar camisa limpa ou passar um pouco de manteiga em seu pão não é apenas um veado, não é nem mesmo apenas uma sovina --é um imbecil! Mas isso do veado não quer dizer nada. Estou com os ouvidos voltados para o que acontece lá embaixo. Um Sr. Wren e sua esposa vieram ver o apartamento.
Estão falando em ficar com ele. Só falando, graças a Deus. A Sra. Wren tem uma risada solta --complicações à vista. Agora o Senhor Wren está falando. Sua voz é rouca, rangente, retumbante, como uma arma pesada e sem corte que abre caminho através de carne, osso e cartilagem.
Bóris chamou-me para ser apresentado. Esfrega as mãos, como um agiota. Estão falando sobre uma história que o Sr. Wren escreveu, uma história a respeito de um cavalo doente.
"Mas eu pensei que o Sr. Wren fosse pintor!"
"Claro", diz Bóris, com um brilho nos olhos - "mas no inverno ele escreve. E escreve bem... notavelmente bem."
Procuro induzir o Sr. Wren a falar, a dizer alguma coisa, qualquer coisa, a falar sobre o cavalo doente, se necessário. Mas o Sr. Wren é quase inarticulado. Quando tenta falar sobre aqueles sombrios meses que passou com a pena na mão, torna-se ininteligível. Leva meses e meses para pôr uma palavra no papel. (E há apenas três meses de inverno!) De que cogita ele durante todos aqueles meses e meses de inverno? Valha-me Deus, mas não posso ver neste sujeito um escritor. Todavia, a Sra. Wren diz que, quando ele se senta para escrever, a coisa jorra sozinha.
A conversa desenvolve-se sem rumo. É difícil acompanhar a mente do Sr. Wren porque ele nada diz. Ele pensa à medida que avança - é como fala a Sra. Wren, que coloca sob luz encantadora tudo quanto se refere ao Sr. Wren. "Ele pensa à medida que avança" - muito encantador, realmente encantador, como diria Borowski, mas na verdade muito penoso, particularmente quando o pensador não é senão um cavalo doente.
Bóris dá-me dinheiro para comprar bebida. Só de buscar a bebida, já estou embriagado. Sei exatamente como começarei quando voltar para casa. Descendo a rua, a coisa começa, o grandioso discurso, borbulhando dentro de mim como a risada solta da Sra. Wren. Parece-me que ela já está um pouco excitada. Ouve maravilhosamente quando bêbeda. Saindo da loja de vinhos, ouço o urinol borbulhar. Tudo está solto e esparramado. Quero que a Sra. Wren ouça...
Bóris esfrega as mãos de novo. O Sr. Wren ainda está balbuciando e gaguejando. Tenho uma garrafa entre as pernas e estou enfiando o saca-rolhas. A Sra. Wren está com a boca aberta, expectantemente. O vinho derrama-se entre minhas pernas, o sol derrama-se através da janela e dentro de minhas veias borbulham e esparramam-se milhares de coisas loucas, que começam agora a jorrar para fora de mim em confusão. Estou dizendo a eles tudo quanto me vem à cabeça, tudo quanto estava fechado dentro de mim e que a risada solta da Sra. Wren libertou de uma maneira qualquer. A garrafa entre as pernas, e o sol derramando-se através da janela, experimento mais uma vez o esplendor daqueles dias miseráveis em que cheguei a Paris, indivíduo desorientado e ferido pela pobreza, a rondar pelas ruas como fantasma num banquete. Tudo me volta num jato: os lavatórios que não funcionavam, o príncipe que engraxou meus sapatos, o Cinema Splendid onde dormi sobre o capote do "patron", as grades na janela, a sensação de sufocação, as baratas gordas, as bebedeiras que aconteciam de tempos a tempos, Rose Cannaque e Nápoles morrendo sob o sol. Dançando nas ruas com a barriga vazia e de vez em quando procurando pessoas estranhas --Madame Delorme, por exemplo.
Como cheguei até Madame Delorme, não consigo mais imaginar. Mas cheguei lá, entrei de um jeito qualquer, passei pelo mordomo, passei pela criada de aventalzinho branco, cheguei bem dentro do palácio, com minhas calças aveludadas e minha jaqueta de caça --e sem um botão na braguilha. Ainda agora posso sentir novamente o gosto do ambiente dourado daquela sala onde Madame Delorme ficava sentada num trono em seus trajes masculinos, os peixes dourados nos aquários, os mapas do mundo antigo e os livros belamente encadernados; posso sentir-lhe de novo a mão pesada descansando sobre meu ombro, assustando-me um pouco com seu forte ar lésbico. Mais confortável lá embaixo com aquele grosso cozido derramando-se para dentro da Gare St. Lazare, as putas nas portas, garrafas de "seltzer" em todas as mesas; espessa onda de sêmen inundando as sarjetas.
Nada melhor, entre as cinco e as sete, do que ser empurrado de um lado para outro no meio daquela multidão, seguindo uma perna ou um busto bonito, avançando com a maré, e com tudo girando na cabeça. Uma espécie fantástica de contentamento naqueles dias. Nenhum encontro marcado, nenhum convite para jantar, nenhum programa, nenhum dinheiro. O período dourado, quando eu não tinha um único amigo. Toda manhã a sombria caminhada até o American Express e toda manhã a inevitável resposta do funcionário.
Correndo de um lado para outro como um percevejo, apanhando tocos de cigarro de vez em quando, às vezes furtivamente, outras vezes descaradamente; sentando num banco e apertando a barriga para que parasse de roer, ou caminhando através do Jardin des Tuileries e tendo uma ereção ao olhar para as estátuas mudas. Ou vagueando ao longo do Sena à noite, vagueando e vagueando, enlouquecendo com a beleza do rio, as árvores inclinadas sobre ele, as imagens quebradas na água, o sussurrar da corrente sob as luzes sangrentas das pontes, as mulheres dormindo em vãos de porta, dormindo sobre jornais, dormindo sob a chuva; por toda parte, os pórticos embolorados das catedrais, mendigos, piolhos e velhas megeras com dança de São Vito; carrocinhas amontoadas como barris de vinho nas ruas transversais, o cheiro de frutas no mercado e a velha igreja cercada de hortaliças e lâmpadas azuis, as sarjetas que o lixo tornava escorregadias, e mulheres de sapatos de cetim cambaleando no meio da sujeira e da gentalha ao fim de uma farra que durou a noite inteira.
A Place St. Sulpice, tão quieta e deserta, onde toda noite, lá pela meia-noite, surge a mulher com a sombrinha quebrada e o véu maluco; toda noite ela dorme lá num banco, embaixo de sua sombrinha rasgada; as varetas penduradas, o vestido ficando verde, os dedos ossudos e o cheiro de podridão desprendendo-se de seu corpo; e, de manhã, eu estava sentado lá, tirando uma sossegada soneca sob o sol, praguejando contra os malditos pombos que recolhem migalhas por toda parte. St. Sulpice! Os gordos campanários, os avisos berrantes na porta, as velas ardendo lá dentro. A praça tão querida de Anatole France, com o zunzum e o zumbido do altar, o jorro de água da fonte, os pombos arrulando, as migalhas desaparecendo como mágica e apenas um surdo ronco no oco da barriga. Ali eu me sentava dia após dia, pensando em Germaine e naquela suja ruazinha perto da Bastille onde ela vivia, e aquele zunzum lá atrás do altar, os ônibus passando zumbindo, o sol batendo até dentro do asfalto e o asfalto penetrando em mim e em Germaine, dentro do asfalto, e toda Paris dentro dos grandes e gordos campanários.
E era pela Rue Bonaparte que apenas um ano antes Mona e eu costumávamos caminhar toda noite, depois de termo-nos despedido de Borowski. St. Sulpice então não significava muito para mim, nem qualquer outra coisa em Paris. Cheio de conversa. Enjoado de rostos. Cansado de catedrais, e praças e jardins zoológicos, e não sei que mais. Apanhando um livro no quarto vermelho, e a incômoda cadeira de vime; cansado de sentar-me sobre a bunda o dia inteiro, cansado do papel de parede vermelho, cansado de ver tanta gente tagarelando sobre coisa nenhuma. O quarto vermelho e o baú sempre aberto; seus vestidos espalhados num delírio de desordem. O quarto vermelho com minhas galochas e bengalas, os cadernos de notas que nunca toquei, os manuscritos abandonados, frios e mortos. Paris! Significando o Café Select, o Dôme, o Mercado de Pulgas, o American Express. Paris! Significando as bengalas de Borowski, os chapéus de Borowski, os guaches de Borowski, o peixe pré-histórico de Borowski - e piadas pré-históricas. Daquela Paris de 28 somente uma noite permanece em minha memória - a noite anterior à partida para a América. Uma noite rara, Borowski ligeiramente embriagado e um pouco desgostoso comigo por eu dançar com toda sirigaita que encontrava. Mas nós vamos partir amanhã cedo! É isso que digo a toda vulva que consigo agarrar - partir amanhã cedo! É isso que estou dizendo à loura de olhos cor de ágata. E, enquanto digo isso, ela toma minha mão e enfia-a entre suas pernas. No lavatório, fico em pé diante da pia com uma ereção terrível; parece leve e pesado ao mesmo tempo, como um pedaço de chumbo com asas. E enquanto estou ali em pé, entram duas bocetas - americanas.
Cumprimento-as cordialmente, de membro na mão. Dão-me uma piscadela e passam. No vestíbulo, enquanto abotôo a braguilha, reparo em que uma delas está esperando a amiga sair da privada. A música ainda está tocando e talvez Mona venha buscar-me, ou Borowski com sua bengala de cabo de ouro, mas agora estou nos braços dela, ela me agarra e não me importa quem venha ou o que aconteça. Entramos contorcendo-nos na privada e lá eu a ergo, encosto-a à parede e tento penetrá-la, mas não dá certo. Por isso, sentamo-nos na bacia e tentamos desse jeito, mas também não dá certo. De todo jeito que tentamos, não dá certo. E todo o tempo ela segura meu membro, agarra-se a ele como a um salva-vidas, mas não adianta, estamos muito excitados, muito ansiosos. A música ainda está tocando e saímos dançando da privada para o vestíbulo. Enquanto estamos dançando ali no lavatório, eu descarrego tudo sobre seu belo vestido e ela fica louca de raiva. Volto cambaleando para a mesa e lá estão Borowski com seu rosto corado e Mona com seu olhar desaprovador. E Borowski diz: - Vamos todos a Bruxelas amanhã.
Todos concordamos e quando voltamos para o hotel eu vomito por toda parte; na cama, na bacia, sobre os ternos e vestidos, nas galochas e bengalas, nos cadernos de notas que nunca toquei e nos manuscritos abandonados, frios e mortos.
Alguns meses mais tarde. O mesmo hotel, o mesmo quarto. Olhamos para o pátio lá fora, onde há bicicletas estacionadas, e lá em cima, abaixo do sótão, fica o quartinho onde um jovem sabido tocava o fonógrafo o dia inteiro e repetia coisinhas engraçadas com o máximo de sua voz. Digo "nós", mas estou exagerando, pois Mona foi-se embora há muito tempo e é só hoje que vou encontrar-me com ela na Gare St. Lazare. Ao anoitecer, lá estou com o rosto apertado contra as grades, mas não há Mona alguma, e leio e releio o cabograma, mas de nada adianta. Volto para o Quartier e apesar de tudo faço uma copiosa refeição. Caminhando ao léu diante do Dôme um pouco mais tarde, vejo de repente um rosto pálido e pesado, com olhos ardentes - e o vestidinho de veludo que sempre adorei porque embaixo do veludo macio sempre houve uns seios quentes e pernas de mármore, frias, firmes, musculares. Ela se ergue do mar de rostos e abraça-me, abraça-me apaixonadamente - milhares de olhos, narizes, garrafas, janelas, bolsas, pires, tudo nos fitando e nós, um nos braços do outro, esquecidos. Sento-me ao seu lado e ela fala - uma torrente de palavras. Notas selvagens e consumptivas de histeria, perversão, lepra. Não ouço uma só palavra porque ela é bela, eu a amo e agora estou feliz e desejando morrer.
Descemos a Rue du Château, à procura de Eugene. Atravessamos a ponte ferroviária onde eu ficava observando os trens passarem e sentindo-me todo doente por dentro, ao imaginar onde, diabo, ela poderia estar. Tudo macio e encantador, enquanto caminhamos na ponte. Fumaça subindo entre nossas pernas, os trilhos rangendo, semáforos em nosso sangue. Sinto-lhe o corpo perto do meu - todo meu agora - e paro para esfregar as mãos sobre o veludo quente. Tudo à nossa volta está ruindo, ruindo e o corpo cálido, sob o veludo quente, ansiando por mim...
De volta ao mesmo quarto e com cinqüenta francos de sobra, graças a Eugene. Olho para o pátio lá fora, mas o fonógrafo está silencioso. O baú, aberto e coisas dela espalhadas por toda parte como antes. Ela se deita vestida na cama. Uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes... Tenho medo de que ela fique louca... na cama, sob as cobertas, como é bom sentir-lhe novamente o corpo! Mas por quanto tempo? Durará desta vez? Já tenho um pressentimento de que não durará.
Ela fala comigo febrilmente --como se não houvesse amanhã. (Fique quieta, Mona! Olhe apenas para mim... não fale!) Finalmente adormece e eu puxo meu braço debaixo dela. Meus olhos fecham-se. Seu corpo está ali ao meu lado... estará ali até amanhã, sem dúvida... Foi em fevereiro que saí da baía sob uma nevada cegante. A última visão que tive dela foi acenando-me adeus, na janela. Um homem estava em pé do outro lado da rua, na esquina, chapéu puxado sobre os olhos, as bochechas repousando sobre as lapelas do capote. Um feto observando-me. Um feto de charuto na boca. Mona acenando-me adeus, na janela. Rosto branco e pesado, cabelos caindo selvagemente. Agora, um quarto abafado, respirando regularmente através das guelras, o líquido ainda escorrendo entre as pernas dela, um odor quente e felino, e seus cabelos na minha boca. Meus olhos estão fechados. Respiramos calidamente um na boca do outro. Bem juntos, a América a três mil milhas de distância. Nunca mais quero ver a América. Tê-la aqui na cama comigo, respirando sobre mim, com seus cabelos em minha boca - considero isso um milagre. Nada pode acontecer agora até amanhã cedo...
Acordo de sono profundo, para olhá-la. Uma luz pálida está entrando. Olho seus belos cabelos soltos. Sinto algo rastejando pelo meu pescoço. Olho-a de novo, bem de perto. Seus cabelos são vivos! Puxo o lençol - mais cabelos. Estão enxameando sobre o travesseiro. É um pouco depois do amanhecer. Arrumamos nossas coisas às pressas e saímos furtivamente do hotel. Os cafés ainda estão fechados. Caminhamos e, enquanto caminhamos, coçamo-nos. O dia abre-se em leitosa brancura, traços de céu rosa-salmão, lesmas deixando suas conchas.
Paris. Paris. Tudo acontece aqui. Velhas paredes ruindo e o barulho agradável da água correndo nos mictórios. Homens lambendo os bigodes no bar. Venezianas erguendo-se com estrondo e pequenas correntes sussurrando nas sarjetas. Amer Picon em enormes letras escarlates. Zigzag. Para que lado iremos e por que, ou onde, ou o quê?
Mona está com fome e seu vestido é fino. Nada, a não ser agasalhos para noite, vidros de perfume, brincos bárbaros, pulseiras, depilatórios. Sentamo-nos em um salão de bilhar na Avenue du Maine e pedimos café quente. O lavatório não está funcionando. Teremos de ficar sentados algum tempo antes de podermos ir para outro hotel. Entrementes, cada um de nós cata percevejos nos cabelos do outro. Nervosa, Mona está perdendo a calma. Precisa tomar um banho. Precisa disto. Precisa daquilo. Precisa, precisa, precisa...
- Quanto dinheiro ainda lhe resta?
Dinheiro! Havia-me esquecido disso.
Hotel des États-Unis. Um elevador. Vamos para a cama em plena luz do dia. Quando nos levantamos já está escuro e a primeira coisa a fazer é arranjar dinheiro para mandar um cabograma à América. Um cabograma para o feto com o comprido e suculento charuto na boca.
Entrementes, há a espanhola no Boulevard Raspail - ela está sempre disposta a servir uma refeição quente. Amanhã cedo alguma coisa há de acontecer. Pelo menos, vamos dormir juntos. Agora não há mais percevejos. A estação das chuvas começou. Os lençóis são imaculados...
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
THE WALKING DEAD
Sinopse: Na trama, criada pelo quadrinista Robert Kirkman, um grupo de sobreviventes de um holocausto zumbi é conduzido pelo policial Rick Grimes (Andrew Lincoln) em busca de um local seguro para viver.
Para baixar o primeiro episódio, clique na imagem e vá ao Filmes com Legenda.
O CASO MOREL
Rubem Fonseca
Um trecho
I
Matos e Vilela se encontram na porta da penitenciária. Sozinho Vilela teria dificuldade para entrar, mas com Matos as portas são abertas. Chegam à cela de Morel.
Cubículo pequeno. Cama estreita com cobertor cinzento. Mesa cheia de livros; rádio portátil; pia; latrina; mais livros empilhados no chão.
Morel é um homem magro, pálido, cabelos escuros, grisalhos nas têmporas. Rugas fundas cortam seu rosto. Veste uma camisa branca e calça cinza, amassadas. Possivelmente dorme com aquela roupa.
"Tenho dois dos seus livros aqui."
Procura os livros, acha apenas um deles. "O outro sumiu. Você não quer sentar?" Morel indica a Vilela a única cadeira da cela.
"Vou deixar vocês sozinhos. Tenho ainda muita coisa para fazer", diz Matos.
"Obrigado." Morel aperta a mão de Matos.
"Vocês vão se dar bem. Quando quiser sair, bate na porta e manda chamar o inspetor Rangel."
Matos sai.
"Nem sei como começar", diz Morel. "O Rei disse para Alice 'começa no princípio, depois continua, chega ao fim e pára'. Mas onde é o princípio?"
Vilela: "Você também pode começar do fim e terminar no princípio, ou no meio".
"Preciso da sua ajuda."
"Diga como."
"Eu preciso escrever um livro. Matos não lhe falou?"
"Disse que você queria falar com um escritor."
"Quero ajuda para escrever um livro."
"Quanto menos ajuda dos outros, melhor."
Morel reflete por instantes.
"Estou muito arrasado."
"É assim mesmo que se escreve."
"Eu quero ter certeza de que vou ser publicado."
"Essa certeza você não pode ter."
Morel sentado na capa. Deita lentamente, com os braços cruzados sobre os olhos. Vilela pega um livro, sobre a mesa. Visão e invenção.
"Adianta escrever, se ninguém vai ler?"
"Adianta, sempre."
"Passo as noites sonhando com a minha carreira literária", a ironia na voz é forçada.
"Você quer um biscoito?"
Uma lata de biscoitos debaixo da cama.
Comem biscoitos.
"Onde você arranjou esse monte de livros?"
"São meus."
"Quem traz?"
"O doutor Matos. Dei a ele a chave da minha casa. Eu peço os livros ele vai na minha estante e apanha. Às vezes ele me compra um livro, mas o gosto dele não combina muito com o meu."
"Você já escreveu alguma coisa?", pergunta Vilela.
II
AVERTISSEMENT
Ce livre n'est pas fait pour les enfants, ni même pour les jeunes gens, encore moins pour les jeunes filles. Il s'adres- se exclusivement aux gens mariés, aux pères et mères de famille, aux personnes sérieuses et mûres qui se préoccu- pent des questions sociales et cherchent à enrayer le mou- vement de décadence qui nous entraîne aux abîmes. Son but n'est pas d'amuser, mais d'instruire et de moraliser. Dr. Surbled, 1913.
Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.
Lembro-me de que quando entrei no cabaré, em São Paulo, a velha Dorotéia foi logo pedindo que eu tocasse guitarra para ela. Infelizmente não era possível, eu não sabia tocar o instrumento.
Em Belo Horizonte o céu era limpo. Eu saía com os bolsos cheios de tangerinas e andava pelas ruas tentando chutar todos os caroços. Em bh eu não era músico.
"Vi logo pela sua cara que você era um homem do mar", disse Marlene Lima, que passou a vida tentando ser artista de cinema e agora era uma trintona jogada fora. Estávamos na Zona. Eu descrevia para Marlene as minhas aventuras pelos países da Ásia.
No Rio voltei à minha impostura de músico de orquestra. O porteiro do hotel me olhava respeitoso, ele queria ser músico, tentava o sax, o trombone, mas era fraco do peito. Boîtes da cidade.
"Posso oferecer-lhe uma bebida?"
"Quem é você? Um industrial rico ou um vagabundo?"
"Industrial rico."
"De onde?"
"São Paulo."
"Ah. São Paulo... É longe de Porto Alegre?"
Ela tinha um sotaque de gringa européia. Grande, loura, olhos azuis. Havia conhecido um sujeito em Porto Alegre.
"Você conhece ele? Carlos Rocha?"
"Não."
Segurou no meu pau, perguntou: "Quer que eu lhe faça feliz?".
Queria me fazer feliz ali no cantinho do bar. Rápido e sem dor.
"Aqui não, vamos para outro lugar", eu disse.
"As pessoas pagam duzentos para ficar comigo."
"Está bem."
"Mas só se você tiver camisinha."
Saí e fui à farmácia.
Voltei para onde ela estava. Mostrei o pacotinho.
Eram três horas da manhã.
Saímos para pegar um táxi.
"Ilha do Governador."
O motorista não queria ir. Violento bate-boca entre nós. Eu e a mulher vencemos.
Uma pobre casa, incrivelmente quente. Dezembro. As paredes cheias de fotografias. Ela aos seis anos, aos sete. Aos quinze, aos dezoito. Sempre só. Nem pai, nem mãe. Só. Nem amigos.
"Você sabe, nós os trapezistas temos os pés muito afiados", ela disse. Foi então que eu soube que ela tinha sido trapezista, quando menina. Viera com os pais, que trabalhavam no Circo Sarrazani.
Pedi um uísque. Ela só tinha coca ou guaraná.
"Meu amigo de Porto Alegre é um intelectual. Eu não confio em intelectuais."
"Nem eu."
Durante quinze minutos ficou tirando grampos da cabeça.
Era bonita. Abri o fecho da minha calça e me exibi para ela.
"Calma, rapaz, onde é que está a camisinha?"
Os romanos inventaram a camisa-de-vênus, conforme Antonius Liberalis conta nas Metamorfoses. Em 1564 o dr. Fallopius redescobriu-a, ao recomendar o uso de um saco de linho como preventivo das infecções venéreas.*
(*) A narrativa de Paul Morel é freqüentemente interrompida por citações. Algumas são dele mesmo, outras de autores provavelmente lidos na prisão.
Me deu vontade de ir embora.
"Vou-me embora."
"Calma, rapaz."
Fui até o espelho que havia no quarto. Na verdade eu estava mesmo com a cara perigosa de sujeito com gonorréia.
Tentei telefonar para um táxi, sem conseguir.
"Vou-me embora."
Pela cara da ex-trapezista vi que ela estava tão na merda quanto eu.
"É por causa da camisinha?" Não tinha mais o ar de uma pessoa de pés espertos. Era uma mulher cansada.
"Não."
"Os duzentos cruzeiros? Essa é a razão?"
"Eu quero ir embora, é só isso."
Colocou o polegar na boca e começou a roer as unhas.
"Até logo", eu disse.
Ela disse: "Você não tem o meu telefone". Sem inflexão, como se não soubesse o que estava dizendo.
Eu: "É, não tenho o seu telefone".
Ela: "Você não tem o meu telefone".
Saí.
Pensei: Jamais alguém andou por estes lugares a pé, de madrugada. Fiquei com medo. Gritei "Paul Morel" várias vezes, para me habituar com o nome.
Na avenida Brasil apanhei um táxi.
Ao chegar no hotel encontrei um telegrama dizendo que minha mãe havia morrido e sido enterrada, na terra dela. Trazer de volta o corpo custava muito dinheiro.
Tempo.
Acordei, como sempre, com uma sensação de desperdício, naquele dia em que tudo começou e reencontrei Joana. Muitos anos se passaram.
Levantei da cama enojado comigo mesmo, sem lembrar direito se o papel ridículo que eu fizera tinha sido ontem ou na semana passada. Onde? Na casa de alguém? O que tinha acontecido?
Meu quarto todo desarrumado. Ao me separar de Cristina, uma neurótica compulsiva, eu dissera "quando você for embora, vou virar esta merda de pernas para o ar, chega de arrumação, aspiradores de pó, faxineiros que mexem nos meus livros e nos meus quadros, isto vai virar uma mata virgem".
As roupas jogadas no chão, junto com câmeras, lentes, fotos, garrafas, livros, pedaços de sucata, telas, tubos de tinta, discos, copos. Minha cabeça um palimpsesto.
Debaixo do chuveiro, sentado no chão, a água fria caindo em cima de mim. Isto que você está sentindo é náusea, eu disse em voz alta. O pior é que não havia vômito nenhum para sair, minha ansiedade era outra.
O telefone tocou. Saí pingando do chuveiro, disse que não estava ninguém em casa, aquilo era uma gravação, "as palavras o vento não leva, cuidado com o acetato".
"Você está sóbrio?"
"Não."
"Espera aí, não desliga, é o Roberto."
Queria que eu fizesse uma foto de cerveja.
"Não vou perder tempo com isso."
"É um challenge."
Em algum lugar da casa havia um monte de revistas internacionais de arte publicitária, e em nenhuma delas existia uma única foto de cerveja. Se houvesse, era uma merda.
"Vamos conversar", insistiu. Era um homem paciente.
"Agora estou todo molhado. Você me tirou do chuveiro."
"Eu ligo depois, então."
Ensaboando meu corpo: cada vez mais magro, as olheiras negras, uma figura romântica. As mulheres todas dando bola para mim. Repugnância.
Naquele dia eu estava decidido a parar de beber, me reintegrar na sociedade, ceder, transigir, maneirar.
"Farei tudo o que quiserem!", exclamei olhando o meu rosto no espelho.
O telefone tocou. Cocktail na casa de Miguel Serpa.
Depois novamente o Roberto. Ele era diretor da Andrade & Leitão.
Nada temos a temer.
Exceto as palavras.
"Você pode conversar?"
"Posso", respondi.
"Então? Topa fazer as fotos?"
Pensei um pouco. "Faço."
"Quando?"
"Amanhã. Hoje estou muito abafado."
"Certo. Amanhã. Um abraço. Conto contigo."
"Pode contar."
O verdadeiro escritor nada tem a dizer. Tem uma maneira de dizer nada.
Miguel Serpa recebeu-me com muita deferência.
Muitas mulheres. Identifiquei logo a sra. Elisa Gonçalves. Coberta por um vestido longo, os movimentos equilibrados, tensos; sentia no meu próprio corpo cada passo que ela dava, como se estivéssemos abraçados. Elisa caminhava impaciente pelos salões, fumando, inquieta. Eu a conhecia de retrato e lenda. Nunca me interessou, mas naquele dia senti, inesperadamente, uma terrível atração por ela.
Elisa novamente: cara magra, ossuda, cabelos negros, boca larga de lábios grossos, olhos escuros brilhantes, um rosto alerta. Fiquei imaginando atos lascivos com ela.
Parei a certa distância, observando-a sem que ela percebesse.
Nesse instante surgiu Joana, acompanhada dos pais, embaixador e embaixatriz Monteiro Viana. Tentei segui-los com o olhar, mas eles logo sumiram no meio da multidão. Havia, no mínimo, trezentas pessoas no enorme apartamento de Serpa. Eu gostaria de ver Joana perto de Elisa. Joana dizia de Elisa: "Uma velhota deslumbrada que todo ano corta as próprias execráveis pelancas". Joana tinha vinte anos, exatos. Elisa no fim dos trinta. Aproximei-me de Elisa. Ela e os circundantes pararam de falar.
"Todos os seus retratos foram malfeitos, nenhum tem profundidade, nenhum é você." "Retratos?", Elisa, polidamente.
"Fotos. Só conheço as fotos. Permita que eu me apresente."
"Eu sei quem é você e não estou interessada." Elisa voltou a conversar com a pessoa a seu lado.
Vaguei pelos salões do Serpa, depois do desprezo de Elisa, bebendo com rapidez para ficar embriagado.
Encontrei Joana.
"Por que não damos o fora daqui?", perguntou Joana.
"Aonde você quer ir?"
"A um lugar onde você possa me explicar o que são as séries de Fibonnacci", disse Joana, rindo.
"Eu estou sem vontade. Acho que estou ficando impotente."
"Você quer ficar aqui no meio desses arrivistas enfarpelados?"
"Já disse que estou broxa. Ah!, quem me dera ser um campeão de alcova!"
A beleza dela fez o meu pulso martelar violentamente e secou minha boca. Ninguém poderia deixar de admirá-la: era muito delgada, com seios pequenos, a barriga plana, os flancos de linhas retas; o seu triângulo estava apenas eriçado por uma penugem macia. Ela me tantalizava, os meus desejos se exasperaram. Levantei o seu corpo e esmaguei os lábios contra os dela.
"Eu faço você ficar com vontade."
"Não sei."
"Vamos sair daqui e comprar um chicote", Joana disse.
"A esta hora não encontramos uma loja onde comprar isto", eu disse, sentindo um forte tremor correr por dentro do meu corpo.
"Eu vou na Hípica e arranjo um. Você não quer me bater de chicote?"
"Está bem."
"Eu saio na frente. Vou buscar o chicote e te encontro no apartamento."
Exit Joana.
Voltei à sala para ver se apanhava alguma mulher. Eu só pensava nisso. Encontrei.
"Você tem um papel na bolsa?"
"Deixa eu ver. Tenho."
"Tem uma caneta?"
"Tenho lápis de sobrancelha."
"Então escreve nesse papel o seu nome e o número do telefone." Botei o papel no bolso e saí.
No papel estava escrito: Lígia, e o número do telefone.
Peguei meu carro. Fui para o apartamento. Liguei o som. Esperei Joana, pensando.
Acima de tudo, seja verdadeiro com você mesmo.
Joana chegou.
"Trouxe o chicote?"
"Trouxe."
Joana me entregou um embrulho. Abri. Um chicote de cabo de prata, para ser usado em cavalos de raça.
Olhei para Joana, os colares no pescoço, o lenço na cabeça. Senti uma grande ternura por ela. Abracei-a.
"Eu gosto muito de você."
"Eu também gosto muito de você."
"Você quer ficar só namorando, sem fazer nada?", perguntei.
"É uma boa idéia."
Deitamos, abraçados.
"Estou aprendendo tanta coisa com você."
"Coisa nenhuma..."
"Cor. Eu não sabia nada de cor. Que mundo imenso..."
"A percepção da cor é uma experiência pessoal, extremamente subjetiva, é impossível ensinar a ver a cor, até mesmo ensinar a usar a cor é difícil".
"Fico em casa olhando meus livros de pintura e lembrando as coisas que você falou. Ontem, por exemplo, foi a visão esquizóide de Francis Bacon..."
A frase era literalmente minha. Eu tive vontade de dizer a ela que ultimamente eu falava cada vez menos. Arte tradicional, não queria mais fazer. Caixas, objetos, montagens fotográficas, fazia coisas assim, pois na verdade eu havia secado. Os cretinos dos críticos, esses pobres-diabos, rufiões de criatividade, ficavam descobrindo significados esotéricos naquele lixo todo.
Eu estava vazio, minha única saída era soldar sucata, colar, simular, tapear, copiar, enquanto pudesse.
Deitamos de barriga para cima. Joana, uma das pernas levantadas mostrando sua coxa longa e carnuda. Passei as mãos nas pernas de Joana. Ela estava com os braços abertos, as duas mãos sob a nuca; eu via as suas axilas, raspadas.
Não diga sovaco.
Diga axilas.
Beijei a cavidade que existia na junção do braço com o tronco. Fragrância de desodorante. Com a ponta da minha língua toquei o sovaco de Joana.
"Isso me deixa toda arrepiada."
Arrancamos a roupa, apressados.
"No chão", Joana disse.
Joana deitou-se, espreguiçou o corpo magro, esticando braços e pernas.
Deitei-me sobre ela. Joana grudou o rosto no meu. Afastei o rosto dela.
"Quero ver a tua cara enquanto vou entrando dentro de você."
A euforia de Joana me encheu de alegria e exaltação.
"Abre os olhos", eu disse, "olha pra mim!"
Os dois olhando um para o outro, enquanto nossos corpos se movimentavam.
Agarrei com força a cabeça de Joana, puxando-a de encontro a mim.
"Você não vai me bater?"
"Com o chicote?"
Nossos movimentos cada vez mais violentos.
"Como é que você vai me bater com o chicote? Aqui deitada? Ou eu saio correndo e você corre atrás de mim até me encurralar num canto e então me bate, bate, bate!..."
"Não sei, como você quiser", consegui dizer.
"Bate com a mão mesmo", Joana pediu.
Apoiado na mão direta, dei um tapa com a esquerda no rosto de Joana. Joana fechou os olhos, o rosto crispado, não emitiu um som sequer. Dei outro tapa, agora com a mão direita, com mais força.
"Bate, bate!"
Bati com violência. Joana deu um gemido lancinante. Continuei batendo, sem parar.
"Me chama de puta..."
"Sua puta!"
"Mais, mais!..."
Chamei Joana de todos os nomes sujos, bati com força no seu rosto. Nossos corpos cobertos de suor. Lambi o rosto de Joana, em fogo das pancadas recebidas. Nossas bocas sorviam o suor que pingava do rosto do outro. De dentro de mim, de um abismo fundo, vinha o orgasmo, uma pressão acumulada explodindo.
A GENIALIDADE DA MULTIDÃO
Charles Bukowski
Há bastante deslealdade, ódio,
violência,
Absurdo no ser humano comum
Para suprir qualquer exército em qualquer dia.
E O Melhor No Assassinato São Aqueles
Que Pregam Contra Ele.
E O Melhor No Ódio São Aqueles
Que Pregam AMOR
E O MELHOR NA GUERRA
--FINALMENTE--SÃO AQUELES QUE
PREGAM
PAZ
Aqueles Que Pregam DEUS
PRECISAM de Deus
Aqueles Que Pregam PAZ
Não têm paz.
AQUELES QUE PREGAM AMOR
NÃO TÊM AMOR
CUIDADO COM OS PREGADORES
Cuidados com os Sabedores.
Cuidado
Com Aqueles Que
Estão SEMPRE
LENDO
LIVROS
Cuidado Com Aqueles Que Detestam
Pobreza Ou Que São Orgulhosos Dela
CUIDADO Com Aqueles Que Elogiam Fácil
Porque Eles Precisam De ELOGIOS De Volta
CUIDADO Com Aqueles Que Censuram Fácil:
Eles Têm Medo Daquilo Que Não Conhecem
Cuidado Com Aqueles Que Procuram Constantes Multidões; Eles Não São Nada Sozinhos
Cuidado
Com O Homem Comum
Com A Mulher Comum
CUIDADO Com O Amor Deles
O Amor Deles É Comum, Procura O Comum
Mas Há Genialidade Em Seu Ódio
Há Bastante Genialidade Em Seu
Ódio Para Matar Você, Para Matar
Qualquer Um.
Sem Esperar Solidão
Sem Entender Solidão
Eles Tentarão Destruir
Qualquer Coisa
Que Seja Diferente
Deles Mesmos
Incapazes
De Criar Arte
Eles Não Irão
Compreender Arte
Eles Vão Considerar Sua Falha
Como Criadores
Apenas Como Uma Falha
Do Mundo
Incapazes De Amar Completamente
Eles Vão ACREDITAR Que Seu Amor É
Incompleto
E ELES VÃO ODIAR
VOCÊ
E Seu Ódio Será Perfeito
Como Um Diamante Brilhante
Como Uma Faca
Como Uma Montanha
COMO UM TIGRE
COMO Cicuta
Sua Mais Fina
ARTE
Vi em A Taverna do Bárbaro.
OS ASSASSINOS
Ernest Hemingway
A porta da lanchonete Henry’s abriu-se e entraram dois homens. Sentaram ao balcão.
- O que é que vai ser? – perguntou George.
- Não sei – disse um dos homens. – O que é que você quer comer, Al?
- Não sei – disse Al. – Não sei o que quero comer.
Escurecia lá fora. A luz da rua entrava pela janela. Os dois homens ao balcão leram o cardápio. Da outra extremidade do balcão, Nick Adams observava-os. Ele conversava com George quando eles entraram.
- Eu quero lombo de porco assado com molho de maçã e purê de batatas – disse o primeiro homem.
- Não está pronto ainda.
- Então por que diabos põem isto no cardápio?
- Isto é o jantar – explicou George. Você pode pedi-lo as seis da tarde.
George olhou para o relógio arás do balcão.
- São cinco horas.
- O relógio marca cinco e vinte – disse o segundo homem.
- Está vinte minutos adiantado.
- Ah, pro inferno com o relógio – disse o primeiro homem. – O que você tem para comer?
- Posso servir qualquer tipo de sanduíche – disse George. – Posso fazer presunto e ovos, bacon e ovos, fígado e bacon, ou um bife.
- Me dê croquetes de galinha com ervilhas verdes ao molho de nata e purê de batatas.
- Isto é o jantar.
- Tudo o que queremos é jantar, hein? Isso é jeito de servir?
- Eu posso servir presunto e ovos, bacon e ovos, fígado…
- Vou querer presunto e ovos – disse o homem chamado Al. Ele usava um chapéu-coco e um sobretudo preto abotoado na frente. O rosto era pequeno e pálido e tinha os lábios finos.Usava um cachecol de seda e luvas.
- Me dê bacon e ovos – disse o outro homem. Tinha quase o mesmo tamanho de Al. Os rostos eram diferentes, mas estavam vestidos como gêmeos. Ambos usavam sobretudos muito pequenos para eles. Sentaram e apoiaram os cotovelos no balcão.
- Tem algo para beber? – perguntou Al.
- Cerveja, sucos e refrigerantes.
- Perguntei se tinha alguma coisa para beber?
- Só o que eu disse.
- Esta é uma cidade quente – disse o outro. – Como se chama?
- Summit.
- Já tinha ouvido? – perguntou Al ao amigo.
- Não – disse o amigo.
- O que fazem por aqui à noite? – perguntou Al.
- Eles jantam – disse o amigo. Ele vem todos aqui e comem a grande janta.
- É isso mesmo – disse George.
- Então você acha isso mesmo? – Al perguntou a George.
- Claro.
- Você é um rapaz espertinho, não é?
- Claro – disse George.
- Bem, mas não é – disse o outro sujeito. – Você acha que ele é, Al?
- Ele é um bobo – disse Al. Virou-se para Nick. – Qual é o seu nome?
- Adams.
- Outro espertinho – disse Al. – Ele não é um espertinho, Max?
- A cidade está cheia de espertinhos – disse Max.
George pôs as duas travessas, uma com presunto e ovos e outra com bacon e ovos, sobre o balcão. Juntou dois pratos de batatas fritas e fechou o postigo da cozinha.
- Qual é o seu – perguntou a Al.
- Não se lembra?
- Presunto e ovos.
- É mesmo um espertinho – disse Max. Inclinou-se e pegou o presunto com ovos. Os dois homens comeram sem tirar as luvas. George observava-os comer.
- O que está olhando? Max olhou para George.
- Nada.
- Vá pro inferno. Você estava me olhando.
- Talvez o rapaz o fez por brincadeira, Max – disse Al.
George riu.
- Você não tem que rir – disse Max. Não tem nada para rir, viu?
- Está bem – disse George.
- E ele pensa que está tudo certo – disse Max virando-se para Al. – Ele acha que está tudo certo. É um cara legal.
- Ora, ele é um filósofo – disse Al. Continuaram comendo.
- Qual é o nome do espertinho lá do fim do balcão? – perguntou Al para Max.
- Ei, espertinho – disse Max a Nick. Passe para o outro lado do balcão, com seu amiguinho.
- Qual é a idéia? – perguntou Nick.
- Não há idéia nenhuma.
- É melhor dar a volta, espertinho – disse Al. Nick passou para trás do balcão.
- Qual é a idéia? – perguntou George.
- Não é da sua maldita conta – disse Al. – Quem está na cozinha?
- O negro.
- O que quer dizer com “o negro”?
- O negro da cozinha.
- Diga-lhe para entrar.
- Onde pensam que estão?
- Maldição, sabemos muito bem onde estamos – disse o homem chamado Max. – Parecemos tolos?
- Você fala como um tolo – disse-lhe Al. Que diacho quer discutir com esse cara? Escute aqui – disse a George -, diga ao negro para vir aqui.
- O que vão fazer com ele?
- Nada. Use a cabeça espertinho. O que iríamos fazer com um negro?
George abriu o postigo da cozinha. – Sam – chamou. – Venha aqui um minuto.
A porta da cozinha abriu-se e o negro entrou. – Que foi? – perguntou. Os dois homens no balcão olharam-no.
- Muito bem, negro. Fique parado aí mesmo – disse Al.
Sam, o negro, vestindo seu avental, olhou os dois homens sentados ao balcão. – Sim, senhor – disse. Al desceu do seu banco.
- Vou à cozinha com o negro e o espertinho – disse ele. – Volte para a cozinha, negro. Você vai com ele, espertinho. – O sujeito foi atrás de Nick e Sam, o cozinheiro, até a cozinha. A porta fechou-se atrás deles. O homem chamado Max ficou sentado ao balcão defronte George. Não olhava para George, mas olhava para o espelho atrás do balcão. O Henry’s tinha sido transformado de salão em lanchonete.
- E então, espertinho – disse Max olhando para o espelho – por que não diz alguma coisa?
- E por que tudo isso?
- Ei, Al – chamou Max – o espertinho quer saber por que tudo isso.
- Por que não diz a ele? – a voz de Max veio da cozinha.
- O que você pensa de tudo isso?
- Não sei.
- Que acha?
Max não deixou de olhar para o espelho, enquanto falava.
- Eu não diria.
- Ei, Al, o espertinho diz que não diria o que pensa de tudo isso.
- Estou escutado, certo -disse Al, da cozinha. Ele tinha escorado o postigo por onde passam os pratos da cozinha com uma garrafa de molho de tomate, para mantê-lo aberto. – Escute, espertinho – disse a George, da cozinha. – Fique em pé um pouco mais à frente no bar. Você movimente-se um pouco mais para a esquerda, Max. – Parecia um fotógrafo que organiza para uma foto de grupo.
- Fale comigo, espertinho – disse Max. – O que você acha que vai acontecer?
George não disse nada.
- Vou lhe dizer – disse Max. – Vamos matar um sueco. Você conhece um sueco enorme chamado Ole Anderson?
- Sim.
- Ele vem jantar todas as noites, não vem?
- Ele vem aqui às vezes.
- Ele vem às seis horas, não vem?
- Quando vem.
- Sabemos de tudo, espertinho – disse Max. Diga mais alguma coisa. Vai alguma vez ao cinema?
- De vez em quando.
- Você deve ir mais ao cinema. Os filmes são bons para um menino esperto como você.
- Por que vão matar o Ole Anderson? O que ele fez a vocês?
- Ele nunca teve chance para nos fazer qualquer coisa. Ele nem mesmo chegou a nos ver.
E ele só nos vai ver uma vez – disse Al, da cozinha.
- Então, por que vão matá-lo? – perguntou George.
- Nós o estamos matando para um amigo. É só um favor para um amigo, espertinho.
- Cale-se – disse Al, da cozinha. Você fala demais, maldito.
- Preciso entreter o espertinho. Não é espertinho?
- Você fala demais, droga – disse Al. O negro e o meu espertinho se divertem sozinhos. Eu os amarrei como amiguinhas de conventos.
- Eu suponho que você esteve num convento.
- Nunca se sabe.
- Você esteve num convento muito legal. Lá é que você esteve.
George olhou o relógio.
- Se alguém entrar você diz que o cozinheiro está de folga, e se insistirem, diga que você mesmo vai entrar e cozinhar. Você entendeu, espertinho?
- Tudo bem – disse George. – O que vai ser com a gente depois?
- Isso depende – disse Max. Isso é dessas coisas que você nunca sabe antes da hora.
George olhou o relógio. Eram seis e quinze. A porta da rua abriu-se. Entrou um motorneiro de bonde.
- Oi, George – disse ele. – Posso jantar?
- Sam saiu – disse George. Ele volta em mais ou menos meia hora.
- É melhor eu procurar outro lugar – disse o motorneiro. George olhou o relógio. Eram seis e vinte.
- Muito bom, espertinho – disse Max. Você até que é um cavalheiro.
- Ela sabia que eu lhe estouraria a cabeça – disse Al, da cozinha.
- Não – disse Max. Não é isso. O espertinho é legal. Ele é um menino legal. Eu gosto dele.
Às seis e cinqüenta e cinco George disse: – Ele não vem.
Duas outras pessoas tinham entrado na lanchonete. Uma vez George fora à cozinha e fizera um sanduíche de presunto com ovos para “viagem”, que o homem quis levar com ele. Dentro da cozinha viu Al, com o chapéu-coco empurrado para trás, sentado num tamborete, atrás do postigo, com uma espingarda de cano serrado apoiada na borda. Nick e o cozinheiro estavam costas contra costas, num canto, cada um com uma toalha amarrada na boca. George preparara o sanduíche, embrulhara-o em papel impermeável, metera-o num saquinho, trouxera-o e o homem pagara e fora embora.
- O espertinho sabe fazer de tudo – disse Max. – Ele sabe cozinhar e tudo o mais. Você faria de qualquer moça uma boa dona-de-casa, espertinho.
- É? – disse George. Seu amigo, Ole Anderson, não vai aparecer.
- Vamos dar-lhe dez minutos – disse Max.
Max observava o espelho e o relógio. Os ponteiros do relógio marcaram sete horas, e depois sete e cinco.
- Vamos, Al – disse Max. – É melhor ir embora. Ele não vai aparecer.
- É melhor dar-lhe mais cinco minutos – disse Max, da cozinha.
- Nesses cinco minutos, entrou um homem e George disse que o cozinheiro estava doente.
- Por que diabos não arranjam outro cozinheiro? – perguntou o homem. – É assim que é. Saiu.
- Vamos, Al – disse Max.
- Que vamos fazer com os dois espertinhos e o negro?
- Não tem problema.
- Você acha?
- Claro. Já terminamos com isso.
- Não gosto disso, disse Al. Foi mal feito. Você fala demais.
- Ah, mas que inferno – disse Max. Temos que nos divertir, não temos?
- Dá no mesmo, você fala demais – disse Al. Saiu da cozinha. Os canos serrados da arma salientavam levemente sob a cintura do sobretudo apertado. Ele endireitou o casaco com as mãos enluvadas.
- Até logo, espertinho – disse ele a George. – Você tem muita sorte.
- É verdade – disse Max. Você devia apostar nas corridas, espertinho.
Os dois saíram porta a fora. George observou-os, através da janela, passar sob a luz do poste e atravessar a rua. Com seus sobretudos pequenos e chapéus-coco eles pareciam uma dupla teatral. George voltou a entrar na cozinha pela porta vaivém e desatou Nick e o cozinheiro.
- Eu não quero mais nada disso – disse Sam, o cozinheiro. – Eu não quero mais nada disso.
Nick levantou-se. Nunca tivera estado antes com uma toalha enfiada na boca.
- Escutem – disse ele. – Que diabos foi isso? Estava tentando bancar o valentão.
- Eles iam matar Ole Anderson – disse George. – Iam dar-lhe um tiro quando entrasse para comer.
- Ole Anderson?
- Sim.
O cozinheiro apalpou os cantos da boca com os polegares.
- Foram todos embora? – perguntou.
- Sim – disse George. Já foram.
- Eu não gosto disso – disse o cozinheiro. Eu não gosto de nada disso.
- Escute – disse George a Nick. – É melhor você procurar Ole Anderson.
- Certo.
- É melhor você não se meter em nada disso – disse Sam, o cozinheiro. Fique fora disso.
- Irei procurá-lo – disse Nick a George. – Onde ele mora?
O cozinheiro se afastou.
- Garotos sempre fazem o que querem – disse ele.
- Vive na pensão de Hirsch – disse George a Nick.
- Vou até lá.
Fora, a luz do poste brilhava entre os galhos nus de uma árvore. Nick subiu a rua pelos trilhos dos bondes e, no poste seguinte, entrou numa rua lateral. A pensão de Hirsch era a terceira casa da rua. Nick subiu os dois degraus e tocou a campainha. Uma mulher veio até a porta.
- Ole Anderson está?
- Você quer vê-lo?
- Se ele estiver.
Nick seguiu a mulher por uma escadaria e até o fim de um corredor. Ela bateu à porta.
- Quem é?
- É alguém que quer vê-lo, senhor Anderson – disse a mulher.
- É Nick Adams.
- Entre.
Nick abriu a porta e entrou no quarto. Ole Anderson estava metido na cama, completamente vestido. Ela fora um pugilista peso-pesado e era grande demais para a cama. Tinha a cabeça apoiada em dois travesseiros. Não olhou para Nick.
- O que foi – ele perguntou.
- Eu estava no Harry’s – disse Nick, – e dois sujeitos entraram, amarraram a mim e ao cozinheiro, e disseram que iam matá-lo.
Soou absurdo quando ele disse. Ole Anderson não falou nada.
- Eles nos puseram na cozinha – continuou Nick. Eles iam atirar em você quando entrasse para jantar.
Ole Anderson olhava para a parede e não dizia nada.
George achou melhor eu vir contar a você.
- Não há nada que eu possa fazer a respeito – disse Ole Anderson.
- Vou lhe dizer como eles eram.
- Eu não quero saber como eles eram – disse Ole Anderson, olhando para a parede. – Obrigado por vir me contar.
- Tá certo.
Nick olhava para o homenzarrão deitado na cama.
- Não quer que eu vá a polícia?
- Não – disse Ole Anderson. Isso não adianta nada.
- Tem alguma coisa que eu possa fazer?
- Talvez fosse apenas um blefe.
- Não. Não foi um blefe.
Ole Anderson virou-se para a parede.
- O pior é que – disse ele, voltado para a parede – eu simplesmente não consigo me decidir a sair. Fiquei aqui o dia todo.
- Você não poderia sair da cidade?
- Não – disse Ole Anderson. Estou cansado de viver fugindo.
Olhava para a parede.
- Já não há mais nada a fazer agora.
- Não dá para resolver isso de algum modo?
- Não, eu errei. – Falava com a voz neutra e sempre igual. – Não há nada a fazer. Daqui a pouco me decido a sair.
- É melhor eu voltar e falar com George – disse Nick.
- Até logo – disse Ole Anderson. Não olhou para Nick. – Obrigado por vir até aqui.
Nick saiu. Quando fechou a porta viu Ole Anderson, completamente vestido, metido na cama, olhando para a parede.
- Ele está no quarto o dia todo – disse a senhoria no andar de baixo. – Acho que ele não se sente bem. Eu disse a ele: “Sr. Anderson, o senhor deve sair e dar um passeio num dia agradável de outono como este”, mas ele não estava com vontade.
- Ele não quer sair.
- Lamento que não se sinta bem – disse a mulher. – Ele é um homem muito agradável. Ele era do ringue, você sabe.
- Sei.
- A gente nunca saberia se fosse pelo seu rosto – disse a mulher. Ficaram em pé, conversando diante da porta da rua. – É um senhor tão gentil.
- Boa noite, senhora Hirsch – disse Nick.
- Eu não sou a senhora Hirsch – disse a mulher. Ela é a proprietária. Eu só tomo conta disto para ela. Sou a senhora Bell.
- Bem, boa noite, senhora Bell – disse Nick.
- Boa noite – disse a mulher.
Nick caminhou pela rua escura até a esquina onde estava o poste, e depois seguiu pelos trilhos de bonde até a lanchonete Harry’s. George estava lá dentro, atrás do balcão.
- Esteve com Ole?
- Sim – disse Nick. Ele está em seu quarto e não quer sair.
O cozinheiro abriu a porta da cozinha quando ouviu a voz de Nick.
- Não quero nem mesmo ouvir – disse, e fechou a porta.
- Você falou sobre o que aconteceu? – perguntou George.
- Claro. Contei, mas ele já sabia do que se tratava.
- O que ele vai fazer?
- Nada.
- Eles vão matá-lo.
- Acho que vão.
- Ele deve ter-se envolvido em algo em Chicago.
- Acho que sim – disse Nick.
- Que coisa infernal!
- É uma coisa terrível – disse Nick.
Não disseram mais nada. George abaixou-se para pegar uma toalha e limpou o balcão.
- Queria saber o que ele fez – disse Nick.
- Enganado alguém. Por isso se matam pessoas.
- Vou sair desta cidade – disse Nick.
- Sim – disse George. É uma boa coisa a se fazer.
- Não posso pensar nele esperando no quarto e sabendo que será apanhado. É uma coisa terrível.
- Bem – disse George, – é melhor você parar de pensar nisso.