terça-feira, 26 de outubro de 2010

NÃO ME ABANDONE JAMAIS

Kazuo Ishiguro

Keira Knightley, Carey Mulligan and Andrew Garfield in NEVER LET ME GO. ..

(UM TRECHO)

Me chamo Kathy H. Tenho trinta e um anos e sou cuidadora há mais de onze. Tempo demais, eu sei, mas eles querem que eu fique mais oito meses, até o fim do ano. O que dará quase exatos doze anos de serviço. Sei que o fato de ser cuidadora há tanto tempo não significa necessariamente que meu trabalho seja considerado fantástico. Houve alguns ótimos cuidadores que receberam ordem de parar depois de dois ou três anos apenas. E eu conheço pelo menos um que ficou os catorze anos completos, apesar de ter sido um desperdício total de espaço. Portanto, minha intenção aqui não é me vangloriar. Mas não resta a menor dúvida de que eles estão satisfeitos comigo e de modo geral não tenho do que me queixar. Meus doadores sempre foram muito melhores do que eu esperava. Todos se recuperaram com uma rapidez impressionante e quase nenhum chegou a ser classificado como "agitado", nem mesmo antes da quarta doação. Muito bem, talvez eu esteja me vangloriando um pouco agora, admito. É que significa um bocado para mim poder dar conta direito do trabalho, sobretudo essa parte dos doadores continuarem "calmos". Desenvolvi uma espécie de instinto em relação a eles. Sei quando devo permanecer por perto oferecendo consolo e quando é melhor deixá-los em paz; quando escutar o que têm para falar e quando tão-somente encolher ombros e dizer-lhes que não se entreguem ao desânimo.

De todo modo, não estou reivindicando nada de muito grandioso para mim. Conheço cuidadores que trabalham tão bem quanto eu e que não recebem nem a metade dos créditos. Se você for um deles, entendo o motivo de possíveis ressentimentos — em relação a meu conjugado, meu carro e, acima de tudo, ao fato de eu mesma escolher os que vão ficar sob meus cuidados. Sem falar que sou de Hailsham — o que por si só muitas vezes é suficiente para deixar as pessoas de mau humor. Elas dizem, a Kathy H.? Ela escolhe o pessoal a dedo, e sempre da turma dela: gente de Hailsham ou de algum outro estabelecimento igualmente privilegiado. Não é à toa que ela tem uma ficha excelente. Nem sei quantas vezes já escutei isso, e posso imaginar que você ouviu muitas mais, de modo que talvez haja um fundo de verdade aí. Mas não fui a primeira a poder escolher, e duvido que seja a última. De qualquer forma, já fiz minha parte, cuidando de doadores trazidos de tudo quanto foi lugar. Até eu terminar meu serviço, não se esqueça, terei completado doze anos, e só nos últimos seis é que eles me deixaram escolher.

E por que não me deixariam? Cuidadores não são máquinas. Nós tentamos fazer o melhor possível para cada um dos doadores, mas no fim o serviço é exaustivo. Paciência e energia têm limite, e isso vale para todo mundo. De modo que quando surge a oportunidade de escolher, claro que você vai optar por pessoas semelhantes a você. Isso é natural. Eu não teria tido a menor condição de continuar fazendo o que faço durante tanto tempo se porventura deixasse de nutrir sentimentos pelos meus doadores em cada uma das etapas percorridas. Além do mais, se eu não tivesse obtido permissão de escolher, não poderia ter me reaproximado de Ruth e Tommy depois de tantos anos, não é mesmo?

Nos dias que correm, claro, há cada vez menos doadores conhecidos, o que significa que na prática não tenho escolhido tanto assim. E, como eu sempre digo, quanto menos ligação existe com o doador, mais difícil fica fazer o serviço; portanto, mesmo que eu sinta falta de ser cuidadora, acho correto dar finalmente por encerradas minhas atividades no final do ano.

Ruth, por falar nisso, foi apenas a terceira ou quarta doadora que pude escolher. Já havia uma cuidadora designada para ela, na época, e lembro-me que foi preciso uma certa dose de coragem de minha parte. Mas no fim dei um jeito, e assim que a vi de novo, naquele centro de recuperação de Dover, nossas diferenças — ainda que não tivessem exatamente sumido do mapa — não me pareceram nem de longe tão importantes quanto tudo o mais: o fato de termos crescido juntas em Hailsham, o sabermos e nos lembrarmos de coisas que ninguém mais sabia ou das quais ninguém mais se lembrava. Foi dessa época em diante, imagino, que comecei a buscar nos doadores pessoas conhecidas no passado e, sempre que possível, de Hailsham.

Houve épocas, no decorrer desses anos todos, em que tentei esquecer Hailsham e me convencer de que não seria bom ficar olhando tanto para trás. Porém num determinado momento simplesmente parei de resistir. E isso teve a ver com um doador em particular, de quem tomei conta certa feita, no meu terceiro ano como cuidadora; com a reação dele quando comentei que era de Hailsham. Ele tinha acabado de sair da terceira doação, que não dera muito certo, e já devia saber que não iria se safar. Embora mal conseguisse respirar, me olhou e disse: "Hailsham. Aposto como era um lugar lindo". Na manhã seguinte, batendo um papinho na tentativa de distraí-lo daquilo tudo, perguntei de ondeele era; o doador mencionou algum lugar em Dorset e sua expressão, por baixo da pele manchada, passou a um tipo bem diferente de esgar. Foi então que caí em mim e percebi a vontade imensa que ele tinha de não se lembrar de nada. Tudo o que ele queria era que eu falasse de Hailsham.

Portanto, durante os cinco ou seis dias que se seguiram, contei-lhe tudo o que ele quis saber, enquanto, do leito, ele me ouvia fascinado, com um leve sorriso nos lábios. Falei dos nossos guardiões, das caixas com as coleções que eram guardadas debaixo da cama, do futebol, das partidas de rounders, do caminho estreito que contornava todos os cantos e recantos externos do casarão, do lago com os marrecos, da comida, da vista que tínhamos das janelas da Sala de Arte pela manhã, com os campos cobertos de bruma. Às vezes ele me fazia repetir vezes sem conta a mesma coisa; algo que eu mencionara no dia anterior voltava a ser alvo de perguntas, como se ele nunca tivesse escutado uma única palavra sobre o assunto. "Vocês tinham um pavilhão de esportes?" "Quem era seu guardião predileto?" De início, pensei que fosse apenas efeito dos remédios, mas depois me dei conta de que ele estava bem lúcido. Mais do que ouvir falar de Hailsham, ele queria se lembrar de Hailsham como se Hailsham tivesse pertencido a sua própria infância. Sabia que estava perto de concluir, de modo que me fazia descrever as coisas de forma que elas penetrassem de fato em sua lembrança. A intenção dele, talvez— durante as noites insones devido aos remédios, à dor e à exaustão —, era tornar indistintos os contornos que separavam as minhas memórias das suas. Só então compreendi, compreendi de fato, quanta sorte tivéramos — Tommy, Ruth, eu, na verdade todos nós.

Ainda hoje, dirigindo pelas estradas do interior, vejo coisas que me fazem lembrar de Hailsham. Às vezes, passando por um trecho sob neblina ou descendo a encosta de algum vale, ao divisar parte de um casarão ao longe, e até mesmo quando vislumbro o desenho formado por um grupo de choupos plantados no alto de um morro, logo me ocorre pensar: "Talvez seja ali! Achei o lugar! Aquilo é Hailsham, só pode ser!". Depois percebo que é impossível e sigo adiante, com os pensamentos vagando por outras paragens. Em especial, há os pavilhões. Vejo-os por todo o interior, sempre erguidos ao lado de um campo de esportes — pequenas construções pré-fabricadas, pintadas de branco, com uma fileira de janelas numa altura absurda, bem lá em cima, enfiadas quase debaixo dos beirais. Acho que eles devem ter construído um monte desses pavilhões nos anos 50 e 60, época em que muito provavelmente também construíram o nosso. Toda vez que passo perto de um, olho comprido para ele durante o tempo que for possível, e qualquer dia ainda vou causar um acidente por causa disso, mas não consigo evitar. Não faz muito tempo, eu rodava por um trecho deserto de Worcestershire e vi um, ao lado de um campo de críquete, tão parecido com o nosso em Hailsham que cheguei até a fazer o retorno e voltar para dar uma segunda olhada.

Adorávamos nosso pavilhão de esportes, talvez porque nos trouxesse à mente aquelas deliciosas casinhas que apareciam em tudo quanto era livro ilustrado, quando éramos crianças. Lembro-me de nós, ainda nos anos Júnior, implorando aos guardiões para que dessem a aula seguinte lá, e não na sala habitual. Mais tarde, quando cursávamos o Sênior 2 — quando tínhamos doze para treze anos —, o pavilhão se tornou nosso esconderijo predileto, nosso e dos nossos amigos mais íntimos, quando queríamos fugir de tudo e de todos em Hailsham.

O pavilhão era suficientemente grande para abrigar dois grupos distintos sem que um incomodasse o outro — no verão, um terceiro grupo podia ficar na varanda. Mas o ideal é que você e seus amigos ficassem com o lugar só para si, de modo que era muito freqüente haver discussões e empurra-empurra. Os guardiões viviam nos dizendo para agirmos com civilidade a respeito, mas na prática era preciso contar com personalidades fortes no grupo para ter alguma chance de conseguir exclusividade no pavilhão durante um recreio ou um período livre. Eu própria não era do tipo franzino, mas desconfio que foi de fato graças a Ruth que conseguimos nos reunir lá com a freqüência com que nos reuníamos.

Em geral não fazíamos mais que nos aboletar nas cadeiras e nos bancos — éramos cinco, seis quando Jenny B. ia junto — e bisbilhotar sobre a vida alheia. Havia um tipo de papo que só tinha possibilidade de acontecer quando estávamos escondidas lá no pavilhão; só então podíamos conversar sobre alguma coisa que estivesse nos preocupando, assim como também podíamos acabar às gargalhadas ou num arranca-rabo danado. Na maior parte das vezes, era uma forma de descontrair um pouco, ao lado das amigas do peito.

Nessa determinada tarde à qual me refiro agora, estávamos em pé sobre banquinhos e bancos, amontoadas em volta das janelas altíssimas. Isso nos dava uma visão muito boa do Campo de Esportes Norte, onde cerca de doze meninos, do nosso ano e do Sênior 3, se preparavam para jogar futebol. O tempo estava claro, mas devia ter chovido pouco antes, porque me lembro da luz do sol cintilando na superfície da relva enlameada.

Alguém comentou que não devíamos espiar daquela maneira assim tão óbvia, mas nós mal recuamos da janela. E então Ruth falou: "Ele não desconfia de nada. Olha só para ele. Ele de fato não desconfia de nada".

Quando Ruth disse isso, olhei para ela em busca de algum sinal de reprovação ao que os meninos iriam fazer com Tommy. Mas no segundo seguinte Ruth deu uma risadinha e falou: "Idiota!".

Percebi então que para Ruth e para as outras qualquer coisa que os meninos resolvessem fazer não nos dizia respeito em absoluto; nossa aprovação não vinha ao caso. Estávamos reunidas em volta das janelas naquele momento não porque ansiássemos por ver Tommy ser humilhado de novo, e sim porque simplesmente tínhamos ouvido falar do complô mais recente e sentíamos uma leve curiosidade de acompanhar sua concretização. Naquele tempo, acredito que os assuntos particulares dos meninos mal arranhavam a superfície das nossas preocupações. Para Ruth e para as outras, a distância entre eles e nós era enorme, e é bem provável que eu visse as coisas sob esse mesmo prisma.

Ou talvez essa minha lembrança esteja meio equivocada. Pode ser que já na época, ao ver Tommy correndo pelo campo com aquela sua indisfarçável expressão de deleite no rosto por ter sido aceito de volta, prestes a participar do jogo em que era tão bom, eu tenha sentido uma pequena pontada de dor. O fato é que me lembro muito bem de ter reparado na camisa que ele usava, comprada no Bazar do mês anterior, uma pólo azul-clara da qual tinha o maior orgulho. Lembro-me de ter pensado: "O Tommy é muito burro mesmo, vindo jogar futebol com ela. Vai ficar imprestável, e aí então como é que ele vai se sentir?". Em voz alta, eu disse, para ninguém em especial: "O Tommy está com aquela camisa. A pólo preferida dele".

Não creio que alguém tenha me escutado, porque estavam todas rindo de Laura — a grande palhaça do grupo —, que imitava, uma após a outra, as expressões que surgiam no rosto de Tommy enquanto ele corria, gesticulava, gritava, chutava. Os outros meninos todos se movimentavam pelo campo naquele ritmo propositadamente lânguido de quem está fazendo o aquecimento, mas Tommy, na sua emoção, parecia já estar em plena partida. E eu então disse, um pouco mais alto que da última vez: "Ele vai ficar tão chateado se estragar aquela camisa". Dessa vez, Ruth me ouviu, mas deve ter pensado que eu estava fazendo algum tipo de piada, porque riu de um jeito meio forçado e logo em seguida fez algum gracejo.

Àquela altura os meninos já haviam parado de chutar a bola e estavam todos reunidos, imóveis no campo enlameado, com o peito arfando para cima e para baixo, suavemente, enquanto esperavam o início da escalação. Os dois capitães que surgiram eram do Sênior 3, embora todo mundo soubesse que Tommy jogava melhor do que qualquer um deles. Em seguida foi feita a primeira escolha e o vencedor encarou o grupo.

"Olha só para ele", falou alguém atrás de mim. "Ele tinha certeza absoluta de que ia ser o primeiro escolhido. Olha só para ele!"

De fato, havia algo de cômico na expressão de Tommy naquele momento, algo que fazia você pensar, bem, de fato, se ele vai se comportar de forma assim tão tola então bem-feito, ele merece o que está por vir. Os outros meninos fingiam não estar dando a mínima para o processo de escolha, fingiam não se incomodar com os respectivos lugares na escalação dos times. Alguns conversavam baixinho com os colegas, outros reajustavam o laço dos cadarços e alguns apenas fitavam os pés, amassando o barro. Tommy, porém, olhava ansiosamente para o menino do Sênior 3 como se seu nome já tivesse sido chamado.

Laura continuou seu teatro durante toda a escalação, imitando as diferentes expressões que passavam pelo rosto de Tommy: a animada ansiedade do início; a preocupação aturdida depois de quatro escolhas sem que seu nome tivesse sido chamado; a mágoa e o pânico quando começou a desconfiar do que estava de fato acontecendo. Eu porém não via muito bem o que Laura fazia porque estava vigiando Tommy; só sei das palhaçadas dela porque as outras não paravam de rir e de incentivá-la a prosseguir. E então, depois de Tommy ter sido largado sozinho em campo, enquanto os outros meninos disfarçavam a risada, ouvi Ruth dizer:

"Chegou a hora. Segurem firme. Sete segundos. Sete, seis, cinco..."

Ela nem precisou terminar. Tommy explodiu num berreiro infernal e os meninos, que já então riam abertamente, começaram a correr na direção do Campo de Esportes Sul. Tommy deu alguns passos atrás do bando — difícil dizer se o instinto lhe dissera para ceder ao ímpeto e sair em perseguição raivosa ou se havia entrado em pânico por ter sido deixado para trás. De um modo ou de outro, estacou logo em seguida e ficou ali fuzilando os jogadores com olhares irados, o rosto escarlate. Depois começou a berrar e xingar — ma barafunda incoerente de palavrões e insultos.

Já tínhamos assistido a suficientes acessos de Tommy, àquela altura, de modo que descemos dos nossos banquinhos e nos espalhamos pelo salão. Tentamos conversar sobre outras coisas, mas Tommy não parava de fazer escarcéu lá fora e, apesar do esforço inicial para ignorá-lo, com algumas reviradas de olho, ao fim e ao cabo — é provável que bem uns dez minutos depois de descermos dos banquinhos —, estávamos de volta às janelas.

Não dava mais para ver os outros meninos e os comentários de Tommy já não eram endereçados a ninguém em particular. Ele se limitava a rugir e agitar os braços para lá e para cá, para o céu, para o vento, para o mourão de cerca mais próximo. Laura disse que talvez estivesse "ensaiando seu Shakespeare". Uma outra chamou a atenção para o jeito como ele erguia um pé do chão, apontando-o para fora, "feito um cachorro fazendo xixi". Na verdade, eu já tinha reparado nesse movimento dele, mas o que me preocupava era que toda vez que ele batia o pé no chão respingava barro na canela. Pensei outra vez em sua preciosa camisa, mas havia uma boa distância entre nós e não dava para eu ver se ela também estava muito salpicada de barro.

"Imagino que seja meio cruel", Ruth disse, "o jeito como eles provocam o Tommy. Mas a culpa é toda dele. Se aprendesse a manter a calma, todo mundo deixaria ele sossegado."

"Eles continuariam a provocá-lo do mesmo jeito", disse Hannah. "O Graham K. é tão enfezado quanto o Tommy, mas isso só faz as pessoas tomarem o maior cuidado ao lidar com ele. As pessoas pegam tanto no pé do Tommy porque ele é um vadio."

Logo depois estavam falando todas ao mesmo tempo, comentando que Tommy nunca nem tentava ser criativo, que ele não apresentara nada para a Permuta de Primavera. Desconfio que, àquela altura, a verdade é que todas nós torcíamos em segredo para que algum guardião aparecesse e tirasse Tommy dali. Embora não tivéssemos participado daquele último plano para irritar Tommy, havíamos ocupado nossos assentos na primeira fila da arena e estávamos começando a nos sentir culpadas. Entretanto não houve nem sinal de guardião, de modo que continuamos a desfiar motivos para explicar por que Tommy merecia tudo o que lhe acontecia. Porém na hora em que Ruth olhou o relógio e disse que, embora ainda restasse um tempinho, seria melhor voltarmos, ninguém levantou objeções.

Tommy continuava a plenos pulmões quando saímos de lá. O casarão ficava à esquerda e, uma vez que ele se achava parado no meio do campo, bem na nossa frente, não havia necessidade de passar perto. Mesmo porque ele estava de costas e, pelo visto, nem se dera conta da nossa presença. Eu, porém, enquanto minhas amigas seguiam contornando o campo de esportes, fui me desviando na direção dele. Sabia que elas ficariam intrigadas, mas continuei indo — mesmo quando escutei a voz de Ruth me dizendo, num cochicho urgente, que voltasse.

Desconfio que Tommy não estava acostumado a ser interrompido durante seus acessos, porque a primeira reação dele quando me aproximei foi olhar fixamente para mim durante um segundo antes de retomar o berreiro. Era como se estivesse interpretando alguma coisa de Shakespeare e eu tivesse entrado no palco durante a apresentação. Mesmo quando falei: "Tommy, sua camisa boa. Você vai estragar ela toda", não obtive o menor sinal de que havia me escutado.

De modo que estendi a mão para tocar seu braço. Mais tarde as outras meninas diriam que ele tinha feito de propósito, mas eu tinha certeza absoluta de que não fora por querer. Seus braços continuavam se agitando para lá e para cá e não havia como ele saber que eu iria tocá-lo. De todo modo, ao erguer o braço, ele empurrou minha mão para o lado e me atingiu na lateral do rosto. Não doeu nada, mas deixei escapar uma exclamação de surpresa, assim como a maioria das meninas.

Foi nesse momento que Tommy finalmente se deu conta de mim, das outras meninas, de si mesmo, do fato de estar ali no meio do campo se comportando daquela maneira, e me olhou com uma expressão meio idiota no rosto.

"Tommy", eu disse, com bastante severidade. "Tem barro na sua camisa toda."

"E daí?", ele resmungou. Mas, mesmo enquanto pronunciava isso, baixou os olhos, reparou nos salpicos marrons e por pouco não soltou um grito de alarme. Foi então que reparei na expressão de surpresa estampada em seu rosto por eu saber de seus sentimentos pela camisa pólo.

"Não fique preocupado com o barro", eu disse, antes que o silêncio se tornasse humilhante demais para ele. "Isso sai. Se não conseguir tirar você mesmo, leve para Miss Jody."

Ele continuou examinando a camisa, depois disse, mal-humorado: "Além do mais, isso não é da sua conta".

A impressão que eu tive foi que Tommy se arrependeu na hora desse último comentário. Ele me olhou todo encabulado, como se esperasse de mim alguma palavra de conforto. Mas eu já tivera uma dose mais que suficiente de Tommy para um só dia, sobretudo com as meninas me vigiando, e — e até onde me era dado saber — com uma quantidade bem maior de gente me espiando das janelas do casarão. De modo que dei as costas com um gesto de pouco-caso e fui para perto de minhas amigas.

Ruth pôs o braço em volta dos meus ombros quando nos afastamos. "Pelo menos você conseguiu fazer com que ele baixasse a bola. Você está bem? Criatura mais louca."

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

ESTRELA DISTANTE

Roberto Bolaño

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(UM TRECHO)

A primeira vez que vi Carlos Wieder foi em 1971 ou talvez 1972, quando Salvador Allende era presidente do Chile. Dizia chamar-se Alberto Ruiz-Tagle e às vezes aparecia na oficina de poesia de Juan Stein, em Concepción, a chamada capital do Sul. Não posso dizer que o conhecia bem. Via-o uma vez por semana, ou duas, quando ia à oficina. Não falava muito. Eu sim. A maioria de nós que íamos ali falava muito: não só de poesia, mas de política, de viagens (naquela ocasião, ninguém imaginava que viriam a ser aquilo que foram depois), pintura, arquitetura, fotografia, revolução e luta armada; a luta armada que nos traria uma nova vida e uma nova época, mas que para a maioria de nós era como um sonho ou, mais propriamente, como a chave que nos abriria a porta dos sonhos, os únicos pelos quais valia a pena viver. E embora soubéssemos vagamente que os sonhos muitas vezes se transformam em pesadelos, isso não importava. Tínhamos entre dezessete e vinte e três anos (eu tinha dezoito), e quase todos nós estudávamos na Faculdade de Letras, menos as irmãs Garmendia, que cursavam sociologia e psicologia, e Alberto Ruiz-Tagle, que, segundo ele mesmo afirmou certa vez, era autodidata. Muita coisa poderia ser dita sobre ser um autodidata no Chile daqueles dias que antecederam 1973. A verdade é que ele não parecia um autodidata. Quero dizer: exteriormente, não parecia um autodidata. Estes, no Chile, no começo dos anos 70, na cidade de Concepción, não se vestiam da maneira como Ruiz-Tagle se vestia. Os autodidatas eram pobres. Falava como um autodidata, isso sim. Falava como eu suponho que todos nós falamos agora, aqueles que ainda estamos vivos (falava como se vivesse no meio de uma nuvem), mas se vestia bem demais para quem não tinha sequer pisado numa universidade. Não quero dizer que fosse elegante - embora o fosse, sim, à sua maneira - nem que se vestisse de uma forma determinada; seu gosto era eclético: às vezes aparecia de terno e gravata, outras vezes com roupas esportivas, e não desdenhava do jeans nem de camisetas. Mas, qualquer que fosse o traje, Ruiz-Tagle sempre usava roupas caras, de grife. Em resumo, Ruiz‑-Tagle era elegante, e eu, naquela época, não achava que os autodidatas chilenos, sempre entre os manicômios e o desespero, fossem elegantes. Certa vez disse que seu pai ou seu avô tinha sido dono de umas terras na região de Puerto Montt. Ele contava (ou o ouvimos contar a Verónica Garmendia) que decidiu largar os estudos aos quinze anos para se dedicar ao trabalho no campo e à leitura da biblioteca paterna. Nós, da oficina de Juan Stein, dávamos como certo que ele era um bom cavaleiro. Não sei por quê, já que nunca o vimos montando nenhum cavalo. Na realidade, todas as suposições que podíamos estabelecer a respeito de Ruiz-Tagle eram predeterminadas pelo nosso ciúme, ou talvez por nossa inveja. Ruiz-Tagle era alto e magro, forte e de belas feições. Segundo Bibiano O'Ryan, era um sujeito de feições excessivamente frias para serem belas, mas, claro, Bibiano disse isso bem mais tarde, e assim não vale. Por que tínhamos ciúme de Ruiz-Tagle? O plural, aqui, é exagerado. Quem tinha ciúme era eu. Talvez Bibiano compartilhasse dele. O motivo, claro, eram as irmãs Garmendia, gêmeas univitelinas e estrelas incontestáveis da oficina de poesia. Tanto que às vezes tínhamos a sensação (Bibiano e eu) de que Stein dirigia toda a oficina em função apenas das duas. Eram, admito, as melhores. Verónica e Angélica Garmendia eram tão iguais em certos dias que ficava impossível distinguir uma da outra, e tão diferentes em outros dias (sobretudo em outras noites) que pareciam duas desconhecidas, quando não inimigas uma da outra. Stein as adorava. Além de Ruiz-Tagle, era o único que sempre sabia quem era Verónica e quem era Angélica. Mal consigo falar sobre elas. Às vezes aparecem nos meus pesadelos. Têm a mesma idade que eu, talvez um ano a mais, e são altas, magras, de pele morena e cabelos pretos compridos, como acredito que fosse moda naquela época.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O CASAMENTO DO MAGO

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Sinopse oficial: Muitas coisas conspiraram para que John Constantine nunca se casasse – inclusive o próprio John Constantine. Mas desta vez é diferente – desta vez é a jovem e linda alquimista Epiphany Greaves. Mesmo com a igreja cheia e o noivo envergonhado de cravo na lapela, tudo pode dar errado. Penetras do Céu e do Inferno ameaçam arruinar o casamento do ano. Nesta edição, confete e enxofre misturam-se ao cheiro de sangue no ar, numa edição de núpcias com o dobro de páginas.

O casamento acontece em Hellblazer 275 e é Escrito por Peter Milligan e desenhado por Giuseppe Camuncoli.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

CORONEL BASTARDO

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attendez-la-creme:

Col. Hans Landa: Put your foot in my lap.
Bridget von Hammersmark: Colonel, you embarrass me.
[Landa intolerantly points at his lap. Bridget gives in and places her foot in Landa’s lap. Landa gently removes her shoe.]
Col. Hans Landa: Could you please reach into the right pocket of my coat and give me what you find in there.
[Bridget slowly reaches into Landa’s pocket. She discovers her shoe and takes it out of the pocket.]
Col. Hans Landa: May I?

-Inglourious Basterds (2010, dir. Quentin Tarantino)

The part where he tells her to reach into his coat pocket— I legit went “oh shit” out loud in the theatre.

Vi no cheapandjuicy

(SIC) 64

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Orlandeli

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

INGA

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A GUERRA DO FIM DO MUNDO

Mario Vargas Llosa

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O homem era alto e tão magro que parecia estar sempre de perfil. Sua pele era escura, seus ossos, proeminentes, e seus olhos flamejavam com um fogo perpétuo. Usava sandálias de pastor e a túnica roxa que lhe caía sobre o corpo lembrava o hábito daqueles missionários que, vez por outra, visitavam as vilas do sertão batizando multidões de crianças e casando os pares amancebados. Era impossível saber sua idade, sua procedência, sua história, mas havia algo na sua expressão tranqüila, nos seus costumes frugais, na sua imperturbável seriedade que, antes mesmo de começar a dar conselhos, atraía as pessoas.

Aparecia de repente, a princípio sozinho, sempre a pé, coberto da poeira do caminho, de tantas em tantas semanas, ou meses. Sua silhueta longilínea se recortava na luz crepuscular ou nascente quando atravessava a única rua do povoado, a passos largos, com uma espécie de urgência. Avançava decidido entre cabras que chocalhavam, entre cachorros e crianças que abriam passagem e o observavam com curiosidade, sem responder aos cumprimentos das mulheres que já o conheciam e faziam reverências e corriam para lhe trazer jarros de leite de cabra e pratos de farinha e feijão. Mas ele não comia nem bebia nada antes de chegar à igreja da vila e constatar, mais uma vez, uma de tantas vezes, que estava em ruínas, descascada, com as torres semidestruídas, as paredes esburacadas, os pisos levantados, os altares roídos pelos vermes. Seu rosto se ensombrecia com uma dor de retirante a quem a seca matou os filhos e animais e privou de bens, e agora precisa abandonar sua casa, os ossos dos seus mortos, para fugir, fugir, sem saber para onde. Às vezes chorava, e no pranto o fogo negro dos seus olhos recrudescia em terríveis cintilações. Começava logo a rezar. Mas não como rezam os outros homens ou mulheres: deitava-se de bruços na terra ou nas pedras ou nas lajes lascadas, bem diante de onde era ou tinha sido ou deveria ser o altar, e orava, às vezes em silêncio, às vezes em voz alta, uma, duas horas, observado com respeito e admiração pelos moradores. Rezava o credo, o pai-nosso e as ave-marias conhecidos, e também outras rezas que ninguém tinha ouvido antes mas que, ao longo dos dias, dos meses, dos anos, as pessoas iriam memorizando. Onde está o padre?, ouviam-no perguntar, por que não há um pastor aqui para o rebanho? Pois não encontrar um sacerdote nas vilas o afligia tanto como o abandono das moradas do Senhor.

Só depois de pedir perdão ao Bom Jesus pelo estado de sua casa ele aceitava comer e beber alguma coisa, apenas uma amostra do que os moradores do lugar insistiam em oferecer, mesmo nos anos de escassez. Aceitava dormir embaixo de um teto, em alguma das moradias que os sertanejos punham à sua disposição, mas raramente era visto deitado na rede, no catre ou no colchão de quem lhe oferecia hospedagem. Deitava-se no chão, sem nenhuma coberta, e, apoiando no braço sua fervilhante cabeleira cor de azeviche, dormia algumas horas. Sempre tão poucas, que era o último a se deitar e, quando os vaqueiros e pastores mais madrugadores saíam para o campo, já o viam, trabalhando na restauração das paredes e dos telhados da igreja.

Dava seus conselhos ao entardecer, quando os homens voltavam da roça, as mulheres tinham terminado seus afazeres domésticos e as crianças já estavam dormindo. Falava nos descampados lisos e pedregosos que há em todos os povoados do sertão, no cruzamento das ruas principais, e que poderiam ser chamados de praças se tivessem bancos, coretos, jardins ou se ainda conservassem os que tiveram algum dia e foram destruídos pelas secas, pelas pragas, pela negligência. Falava na hora em que o céu do Norte do Brasil, antes de ficar escuro e estrelado, cintila entre flocosas nuvens brancas, cinzentas ou azuladas e se vê lá no alto, sobre a imensidão do mundo, um vasto fogo de artifício. Falava na hora em que se acendem as fogueiras para espantar os insetos e fazer a comida, quando o calor sufocante diminui e sopra uma brisa que deixa as pessoas com mais ânimo para suportar a doença, a fome e os padecimentos da vida.

Falava de coisas singelas e importantes, sem olhar especialmente para nenhuma das pessoas que o cercavam, ou melhor, olhando, com seus olhos incandescentes, através da aglomeração de velhos, mulheres, homens e crianças, para algo ou alguém que só ele podia ver. Coisas que se entendiam, porque eram obscuramente sabidas desde tempos imemoriais e absorvidas junto com o leite materno. Coisas atuais, tangíveis, cotidianas, inevitáveis, como o fim do mundo e o Juízo Final, que podiam acontecer, talvez, antes que o povoado reconstruísse a capela desmoronada. Como ia ser quando o Bom Jesus visse o desleixo com que cuidaram da sua casa? O que diria do comportamento dos pastores que, em vez de ajudar os pobres, raspavam seus bolsos cobrando pelos serviços da religião? Será que as palavras de Deus podiam ser vendidas, não deviam ser dadas de graça? Que desculpa dariam ao Pai os religiosos que, apesar do voto de castidade, forni*cavam? Podiam, por acaso, inventar mentiras para Aquele que lê pensamentos como o rastreador lê na terra as pegadas da onça? Coisas práticas, cotidianas, familiares, tais como a morte, que leva à felicidade se entrarmos nela de alma limpa, como numa festa. Os homens eram animais? Se não fossem, deviam atravessar essa porta engalanados com seu melhor traje, em sinal de reverência Àquele que iam encontrar. Falava do céu e também do inferno, a morada do Cão, forrada de brasas e cascavéis, e de como o Demônio podia se manifestar em inovações de aparência inofensiva.

Os vaqueiros e peões do interior o ouviam em silêncio, intrigados, atemorizados, comovidos, e da mesma maneira o ouviam os escravos e os libertos dos engenhos do litoral e as mulheres, pais e filhos de uns e de outros. Ocasionalmente, alguém — mas era raro, porque sua seriedade, sua voz cavernosa ou sua sabedoria os intimidava — o interrompia para esclarecer alguma dúvida. O século iria terminar? O mundo chegaria a 1900? Ele respondia sem olhar, com uma segurança tranqüila e, muitas vezes, com enigmas. Em 1900 as luzes se apagariam e choveriam estrelas. Mas, antes, iam ocorrer fatos extraordinários. Um silêncio acompanhava a sua voz, e nele se ouviam o crepitar das fogueiras e o zumbido dos insetos que as chamas devoravam, enquanto os presentes, prendendo a respiração, faziam um esforço antecipado de memória para recordar o futuro. Em 1896 mil rebanhos correriam da praia para o sertão, e o mar viraria sertão e o sertão, mar. Em 1897 o deserto se cobriria de grama, pastores e rebanhos se misturariam e, a partir de então, haveria um único rebanho e um único pastor. Em 1898 os chapéus aumentariam e as cabeças diminuiriam, e em 1899 os rios ficariam vermelhos e um novo planeta cruzaria o espaço.

Era preciso, então, preparar-se. Tinham que restaurar a igreja e o cemitério, a construção mais importante depois da casa do Senhor, pois era a antecâmara do céu ou do inferno, e destinar o tempo restante ao essencial: a alma. Por acaso o homem ou a mulher iam para o outro lado usando saias, vestidos, chapéus de feltro, sapatos de cordão e todos aqueles luxos de lã e de seda que o Bom Jesus nunca vestiu?

Eram conselhos práticos, singelos. Quando o homem ia embora, falavam dele: que era santo, que tinha feito milagres, que tinha visto a sarça ardente no deserto, como Moisés, e que uma voz lhe revelara o nome impronunciável de Deus. E comentavam seus conselhos. Assim, antes do final do Império e depois de proclamada a República, os habitantes de Tucano, Soure, Amparo e Pombal os ouviam; e, mês após mês, ano após ano, foram ressuscitando das ruínas as igrejas do Bom Conselho, de Geremoabo, de Massacará e de Inhambupe; e, seguindo seus ensinamentos, surgiram muros e nichos nos cemitérios de Monte Santo, de Entre Rios, de Abadia e de Barracão, e a morte foi celebrada com enterros dignos em Itapicuru, Cumbe, Natuba, Mocambo. Mês após mês, ano após ano, as noites de Alagoinhas, Uauá, Jacobina, Itabaiana, Campos, Itabaianinha, Geru, Riachão, Lagarto, Simão Dias foram se povoando de conselhos. Todos consideravam que eram bons conselhos, e por isso, a princípio em um, depois noutro e afinal em todos os vilarejos do Norte, o homem que os dava, embora seu nome fosse Antônio Vicente e seu sobrenome Mendes Maciel, começou a ser chamado de Conselheiro.

Uma treliça separa os redatores e funcionários do Jornal de Notícias — cujo nome se destaca, em caracteres góticos, acima da entrada — das pessoas que vão até lá para publicar um anúncio ou trazer uma informação. Os jornalistas não passam de quatro ou cinco. Um deles examina um arquivo embutido na parede; dois conversam animadamente, sem paletós mas com colarinhos duros e gravatinhas-borboleta, ao lado de um calendário onde se lê a data — outubro, segunda-feira 2, 1896 —; e outro, jovem, desmazelado, usando uns óculos grossos de míope, escreve com uma pena de ganso numa mesinha, indiferente ao que acontece ao seu redor. Ao fundo, atrás de uma porta de vidro, é a Diretoria. Um homem de viseira e punhos postiços atende a uma fila de clientes no balcão de Anúncios Pagos. Uma senhora acaba de entregar-lhe um cartão. O caixa, molhando o indicador, conta as palavras — Clisteres Giffoni// Curam as Gonorréias, as Hemorróidas, as Flores-Brancas e todas as moléstias das Vias Urinárias// Preparadas por Madame A. de Carvalho// Rua 1º de Março Nº 8 — e diz o preço. A senhora paga, guarda o troco e, quando se retira, o homem que estava atrás dela se adianta e entrega um papel ao caixa. Está de roupa escura, um fraque de duas pontas e um chapéu-coco que indicam muito uso. Uma cabeleira vermelha cheia de cachos cobre as suas orelhas. É mais alto que baixo, de costas largas, sólido, amadurecido. O caixa conta as palavras do anúncio, fazendo o dedo deslizar sobre o papel. De repente franze a testa, ergue o dedo e aproxima muito o texto dos olhos, para conferir se não tinha lido mal. Por fim, olha perplexo para o cliente, que permanece parado como uma estátua. O caixa pisca, embaraçado, e por fim diz ao homem que espere. Arrastando os pés, atravessa o local com o papel balançando na mão, bate com os nós dos dedos no vidro da Diretoria e abre a porta. Segundos depois reaparece e, com gestos, pede ao cliente que entre. Depois, volta ao seu trabalho.

O homem de escuro cruza o Jornal de Notícias fazendo seus passos ressoarem como se estivesse de ferraduras. Quando entra no pequeno escritório, entulhado de papéis, jornais e propaganda do Partido Republicano Progressista — Um Brasil Unido, Uma Nação Forte —, é recebido por um homem que o olha com uma curiosidade risonha, como se fosse um ser do outro mundo. Está ocupando a única escrivaninha, usa botas, um terno cinza, e é jovem, moreno, com ar enérgico.

— Sou Epaminondas Gonçalves, diretor do jornal — diz. — Entre.

O homem de escuro faz uma ligeira reverência e põe a mão no chapéu, mas não o tira nem diz palavra.

— O senhor pretende que publiquemos isto? — pergunta o diretor, sacudindo o papelzinho.

O homem de escuro confirma. Tem uma barbinha avermelhada como o cabelo, e seus olhos são penetrantes, muito claros; sua boca larga está franzida com firmeza e as fossas do nariz, muito abertas, parecem aspirar mais ar do que precisam.

— Desde que não custe mais de dois mil-réis — murmura, num português difícil. — É todo o meu capital.

Epaminondas Gonçalves fica na dúvida entre rir ou se irritar.

O homem continua em pé, muito sério, observando-o. O diretor opta por passar os olhos pelo papel:

— “Os amantes da justiça são convocados para um ato público de solidariedade aos idealistas de Canudos e a todos os rebeldes do mundo, na praça da Liberdade, dia 4 de outubro, às seis da tarde” — lê, devagar. — Pode-se saber quem convoca este comício?

— Por enquanto, eu — responde o homem, sem vacilar. — Mas se o Jornal de Notícias quiser apoiar, wonderful.

— O senhor sabe o que aquela gente faz, lá em Canudos? — murmura Epaminondas Gonçalves, batendo na mesa. — Ocupam terras alheias e vivem em promiscuidade, como animais.

— Duas coisas dignas de admiração — opina o homem de escuro. — Por isso decidi gastar meu dinheiro com este anúncio.

O diretor fica um instante calado. Antes de falar outra vez, pigarreia:

— Pode-se saber quem é o senhor?

Sem fanfarronice, sem arrogância, com uma solenidade mínima, o homem se apresenta assim:

— Um combatente da liberdade, senhor. O anúncio vai ser publicado?

— Impossível, senhor — responde Epaminondas Gonçalves, já dono da situação. — As autoridades da Bahia só estão esperando um pretexto para fechar o meu jornal. Por mais que da boca para fora tenham aceitado a República, continuam sendo monarquistas. Somos o único jornal autenticamente republicano do Estado, suponho que já notou.

O homem de escuro faz um gesto desdenhoso e resmunga, entre os dentes, “Era o que eu esperava”.

— E lhe aconselho que não leve este anúncio ao Jornal da Bahia — prossegue o diretor, devolvendo o papelzinho. — É do barão de Canabrava, o dono de Canudos. O senhor acabaria na cadeia.

Sem uma palavra de despedida, o homem de escuro dá meia-volta e se afasta, guardando o anúncio no bolso. Atravessa a redação do jornal sem dirigir a vista ou a palavra a ninguém, com seu andar sonoro, observado de esguelha — uma silhueta fúnebre, cabelos ondulantes muito acesos — pelos jornalistas e clientes dos Anúncios Pagos. Após sua passagem, o jornalista jovem, com seus óculos de míope, levanta-se da mesinha com uma folha amarelada na mão e vai até a Diretoria, onde Epaminondas Gonçalves ainda está espiando o desconhecido.

— “Por ordem do governador do Estado da Bahia, o Excelentíssimo Senhor Luis Viana, partiu hoje de Salvador uma companhia do Nono Batalhão de Infantaria, comandada pelo tenente Pires Ferreira, com a missão de expulsar de Canudos os bandidos que ocuparam aquela fazenda e capturar seu chefe, o sebastianista Antônio Conselheiro” — lê, ainda na soleira da porta. — Primeira página ou interna, senhor?

— Embaixo dos enterros e das missas — diz o diretor. Aponta para a rua, onde o homem de escuro desapareceu. — Sabe quem é esse sujeito?

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

PRIMEIRO SANGUE

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Para baixar a trilha, clique na imagem.

Vi no godvsgodard

COMO A GERAÇÃO SEXO-DROGAS-ROCK'N'ROLL SALVOU HOLLYWOOD

Peter Biskind

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Introdução:
KNOCKIN' ON HEAVEN'S DOOR


__ Alguns amigos meus estavam falando que os anos 70 foram a última Era de Ouro. Eu disse: 'Como vocês podem dizer uma coisa dessas?' Eles retrucaram: 'Olha só, tinha todos esses grandes diretores fazendo um filme atrás do outro. Tinha Altman, Coppola, Spielberg, Lucas...
- MARTIN SCORSESE

Nove de fevereiro de 1971, 6h01. Um punhado de carros, faróis brilhando vagamente na neblina do amanhecer, já havia começado a trafegar nas freeways, seus motoristas sonolentos bebendo café em copos de plástico, ouvindo o noticiário do rádio. A máxima prevista era de 23 graus. O julgamento de Charles Manson, agora na fase da sentença, ainda intrigava e excitava Los Angeles. De repente, o chão começou a sacudir violentamente, mas não com o movimento ondulante, quase confortável, de terremotos anteriores. Dessa vez era um corcovear terrível, para cima e para baixo, abrupto, intenso, longo, que parecia durar para sempre. Para muitos, o terremoto de 6.5 na escala Richter pareceu ser o Big One. As garotas da Família Manson disseram, depois, que o próprio Charlie tinha provocado o abalo para punir os pecadores que o atormentavam.
Em Burbank, Martin Scorsese foi ejetado da cama com um sacolejão. Tinha conseguido sua primeira grande oportunidade, um emprego como montador na Warner Bros., e havia chegado de Nova York algumas semanas antes. Marty estava hospedado no Motel Toluca, do outro lado da rua do estúdio. Ele sonhava com livros raros quando ouviu um ronco surdo e imaginou estar no metrô. "Pulei da cama e olhei pela janela", recorda. "Tudo tremia. O céu estava riscado de raios - eram os fios de alta tensão se soltando dos postes e caindo no chão. Era horrível. Eu pensei: 'Tenho que dar o fora daqui.' Quando finalmente calcei minhas botas de caubói, peguei meu dinheiro e as chaves do quarto do motel e saí porta afora, tinha acabado. Fui para o Copper Penny e, quando tomava meu café, houve um tremendo choque secundário. Eu me levantei e saí correndo e um cara olhou para mim e perguntou: 'Para onde você está indo?' E eu disse: 'Você está certo. Estou preso aqui.'"
Para Scorsese, não havia mesmo lugar algum para ir. Ele tinha seguido a trilha de seus sonhos até Hollywood e, se a viagem se tornasse difícil demais, suas opções eram aguentar firme ou voltar para Nova York, fazer filmes industriais, morar no velho bairro de seus pais e comer cannoli, sabendo, o tempo todo, que não tivera a coragem necessária para fazer sucesso no cinema. Antes que a poeira tivesse assentado, 65 pessoas tinham perecido no terremoto. Nenhum dos personagens deste livro está entre elas. Os ferimentos deles foram criados por eles mesmos.
PARA OS PROPÓSITOS DESTE LIVRO, O TERREMOTO DE 1971 foi supérfluo, desnecessário, um exagero, como é tão típico de Hollywood. O verdadeiro terremoto, a convulsão cultural que transformou a indústria do cinema, começara uma década antes, quando as placas tectônicas debaixo dos estúdios começaram a se mover, rachando as verdades absolutas da Guerra Fria - o medo universal da União Soviética, a paranoia do Terror Vermelho, a ameaça da bomba - e libertando uma nova geração de cineastas do gelo do conformismo dos anos 50. Logo a seguir vieram, todos misturados, uma série de abalos premonitórios - o movimento dos direitos civis, os Beatles, a pílula, o Vietnã e as drogas - que, combinados, abalaram seriamente os estúdios e fizeram com que o "tsunami" demográfico que são os "baby boomers" desabasse sobre eles.
Como os filmes são caros e demorados de fazer, Hollywood é sempre a última a saber, a mais lenta a reagir e, nessa época, estava pelo menos meia década atrás das outras artes populares. Por isso, um bom tempo se passou até que o odor acre de cannabis e gás lacrimogêneo chegasse até as piscinas de Beverly Hills e a gritaria atingisse os portões dos estúdios. Mas quando o "flower power" bateu no final dos anos 60, bateu com tudo. Enquanto o país ardia, os Hells Angels desfilavam em suas motos pelo Sunset Boulevard e garotas dançavam na rua de peitos de fora ao som da música do The Doors, que emanava dos clubes da Sunset Strip. "Era como se o chão estivesse em chamas e, ao mesmo tempo, tulipas estivessem brotando", recorda Peter Guber, na época estagiário na Columbia e, mais tarde, presidente da Sony Pictures Entertainment. Tudo era uma grande festa. O velho era sempre ruim, o novo era sempre bom. Nada era sagrado; tudo podia ser mudado. Era, na realidade, uma revolução cultural à moda americana.
Lá pelo final dos anos 60 e começo dos 70, para quem era jovem, ambicioso e tinha talento não havia lugar melhor em toda a Terra do que Hollywood. O buchicho em torno dos filmes atraía os melhores e mais brilhantes da geração "baby boom" para as escolas de cinema. Todo mundo queria entrar na onda. Norman Mailer preferia fazer cinema a escrever livros; Andy Warhol preferia fazer cinema a reproduzir latas de sopa Campbell. Astros de rock como Bob Dylan, Mick Jagger e os Beatles mal podiam esperar para estar na frente e, no caso de Dylan, atrás das câmeras. Nas palavras de Steven Spielberg: "Os anos 70 foram a primeira vez em que as restrições de idade foram abolidas, e jovens tiveram permissão para tomar tudo de assalto com toda a sua ingenuidade e toda a sua sabedoria e todos os privilégios da juventude. Foi uma avalanche de ideias novas e ousadas e, por isso, os 70 tornaram-se um marco."

LOBISOMEM

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Lon Chaney Jr.

O HOMEM DE HONG KONG

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PALAVRAS DE UM PREGADOR

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__ Só existem dois lugares onde você pode encontrar Deus: na igreja e no fundo de uma garrafa. E eu vou lhe contar uma coisa: na igreja, ele não está! __ Jesse Custer.

Garth Ennis, em Preacher.

MINA MURRAY

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Adam Hughes.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

LA CRUZ DEL DIABLO

Gustavo Adolfo Becquer

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Hace mucho tiempo atrás existió un grupo de moros que se apoderó de un pueblo. El líder de este grupo era un tipo desgraciado y temido por la gente del lugar.

Cierto día decide partir junto con varias de sus tropas de moros en una campaña por todo el territorio en busca de cristianos para matar, a modo de diversión, pues se había aburrido de aquel lugar.

El caso es que el tiempo pasó y el rey de los moros no volvió.

La gente del lugar recobró la fe y reconstruyó por fin una sociedad. Llegaron los misioneros y fundaron una Iglesia. Todos recobraron la alegría, trabajaban y vivían en paz.

Pasaron 3 años... y el tirano volvió.

Volvió montando su caballo, acompañado por varios moros; todos ellos con el cuerpo ensangrentado y lleno de tierra, como si vinieran de sobrevivir a una de las más terribles batallas. El rey, al ver todo cambiado, al ver que inclusive habían fundado un Iglesia y se había impuesto el cristianismo, estalló de ira.

Pero la gente al ver que su tirano había vuelto decide atacarle en sus dominios y acabar por fin con semejante hombre.

Fue una terrible batalla. Se dijo que el rey había hecho un pacto con Satanás para que los cristianos no ganaran. Pero no fue así. Cientos de hombres murieron, entre ellos el rey. Nadie se atrevió a enterrar los cuerpos, por lo que a aquel lugar lo denominaron tierra maldita y nadie se atrevía a entrar al lugar.

Otra vez paso el tiempo.

No se sabe en realidad como ni por qué paso. Se cree que fue una venganza del diablo mismo. Pero cierto día en aquel lugar empezaron a pasar cosas muy raras. Primero se decía que había luces, y que se escuchaban voces.

Empezaron a enviar hombres a ver que había allí, pero no volvían.

Solo uno logró volver, arrastrando su cuerpo, con el rostro deforme y el cuerpo cubierto en sangre. Según él, lo que vio fue un grupo de bandidos que se escondían en la tierra maldita. El alcalde decidió organizar un grupo de personas para ir atrapar a los bandidos. Cuando llegaron al lugar los bandidos escaparon y solo atraparon a uno, que había sido alcanzado por un cuchillo en la espalda. El alcalde le pregunto que hacían en aquel lugar. El bandido moribundo le contó que ellos eran bandidos que huían y que decidieron venir a aquel lugar porque sabían que allí nadie entraba. Les dijo que una noche en que ellos discutían pensando en quien seria el líder, apareció un hombre cubierto totalmente por una armadura. Este hombre les infundió un terror y un respeto tal que ellos decidieron hacerlo su líder.

Entonces el bandido murió con una sonrisa en el rostro. La gente volvió aterrada al pueblo tras escuchar aquel relato. ¿Podía ser que el temido rey hubiera vuelto a vengarse?

La gente decidió acudir al padre Venancio. Él era el cura mas viejo del pueblo y la gente le respetaba. Cuando el alcalde le contó los hechos al cura, éste le respondió que lo mejor era pedirle un consejo al santo. El santo era un hombre adulto que se llamaba Bartolomé, pero le decían San Bartolomé. Pues el cura lo recogió una noche en la puerta de la Iglesia, cuando era un bebito abandonado y estaba cubierto por una manta que tenia el rostro de Cristo. Desde entonces se crío en medio de los curas y de la Iglesia, y por sus actos y su sabiduría, lo denominaron Santo.

Bartolomé les enseño una oración que según él serviría para inmovilizar al mismo demonio.

El alcalde volvió a organizar un gran grupo de personas, todas esperanzadas con la oración del santo.

Entonces la gente fue rezando al atacar a los bandidos y a capturar a su líder.

Como por un milagro del cielo la gente salió victoriosa y lograron capturar al líder. Uno de los hombres decide sacarle el casco al jefe para ver su rostro. Mas cuando se lo quita se da cuenta de que este no tenia cabeza. ‘No tiene cabeza, el hijo de puta no tiene cabeza...’ - se fue gritando. Y la gente quedó atemorizada. El alcalde lo manda llevar a una celda, para que a la mañana siguiente lo ejecuten.

Pero el cura al escuchar los rumores de que no tenia cabeza, decide ir donde Bartolomé a contarle. Bartolomé queda pensativo y decide ir a ver al prisionero. ‘Escúchame bien padrecito... - le indica Bartolomé - ...vamos a ir a la celda. Pero tu sólo me acompañas hasta la puerta. Yo entro solo y tu cierras la puerta con llave. Solo la abres cuando yo te lo pida, si no, corres para donde el alcalde y lo llamas. Yo voy a ver si realmente no tiene cabeza.’

Así pues en medio de la noche los dos van a la celda. Tal como lo indica Bartolomé, este entra solo con una antorcha y el cura cierra con llave.

El cura apenas podía ver la luz que la antorcha desprendía, ‘ten cuidado San Bartolomé’- le pidió el cura. Bartolomé caminó despacio y logró ver el cuerpo encadenado del hombre con la armadura. De repente, como por arte de magia, la antorcha se apagó. Bartolomé quedó en medio de las tinieblas. El cura, al percibir que se había apagado la luz de la antorcha, se sorprendió. ‘San Bartolomé, pasa algo? Entonces escuchó que el santo empezó a rezar. Rezaba y rezaba hasta que no se escuchó mas. El cura se desesperó, ‘San Bartolomé, San Bartolomé, estás bien? Bartolomé, que ocurre?

De pronto sintió unas pisadas que se acercaban a la puerta, y vio como alguien trataba de abrir la puerta. ‘Padre,... ya me puede abrir la puerta’- escuchó una voz. ‘San Bartolomé, que pasó?- le respondió. ‘Padre, ábrame la puerta, le pido...’. El cura deslizó lentamente la llave a la cerradura. Mas de repente sintió que forcejeaban la puerta. ‘Padre, le he dicho que me abra la puerta... ábrame la puerta, le pido.... vamos! Abre la maldita puerta cura desgraciadooo!!!’

El cura casi se desmaya. Sin perder un segundo se fue corriendo en medio de la oscuridad. Entonces escuchó como la puerta se derrumbaba... y de repente sintió un golpe en la espalda que lo dejó plantado en el suelo...

Al día siguiente el cura se despertó y se halló tirado en el suelo. Fue a la celda y no había nada. Desesperado corrió a donde el alcalde y le contó todo lo sucedido.

El rumor circuló por todo el pueblo. La gente se organizó nuevamente para encontrar a Bartolomé o para dar con el bandido. No lo encontraron por todo el pueblo. Hasta que decidieron ir a la tierra maldita.

Allí encontraron al hombre de la armadura todo deshecho en el suelo en una alfombra de sangre. Entonces el alcalde decidió quitarle el casco para comprobar que no tenia cabeza. Más que terrible fue su impresión al ver el rostro de Bartolomé con un 666 en su frente pintado con sangre...

La gente decidió incinerar el cuerpo con la armadura, para después enterrarlo y sobre el sepulcro colocar una gran cruz de metal al revés para advertir que nadie se atreva jamas a acercarse allí, por ello la bautizaron la cruz del diablo.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

BRAVO TRAILER

2º trailer.

MOLINA’S FEROZZ

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De Jorge Molina

A TEMPESTADE

O FILME MAIS MACHO DO ANO

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A MÚSICA DE DJANGO

O FIO DA NAVALHA

William Somerset Maugham

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1º Capítulo

Nunca senti maior apreensão ao começar um romance. E se digo romance é por não saber de que outra maneira chamá-lo. Não tem grande enredo, não acaba com morte nem com casamento. A morte põe termo a todas as coisas e é, portanto, fim lógico para uma história; mas também o casamento é solução muito correta e os blasés fariam mal em escarnecer daquilo que comumente se diz que “acabou bem”. O instinto popular anda acertado ao afirmar que, com isto, tudo o que devia ser dito foi dito. Quando, depois de inúmeras vicissitudes, macho e fêmea finalmente se reúnem, sua função biológica foi cumprida e o interesse passa à geração vindoura. Mas estou deixando o meu leitor no escuro. Este livro consiste das recordações que tenho de um homem com quem, em épocas muito espaçadas, tive íntimo contato; mas pouco sei do que lhe aconteceu nos intervalos. Creio que, recorrendo à imaginação, eu poderia preencher plausivelmente as lacunas e tornar mais coerente a minha narrativa; mas a tal não me sinto atraído. Quero unicamente relatar fatos de que tenho conhecimento.

Há anos escrevi um romance intitulado Um gosto e seis vinténs. Nele destaquei um famoso pintor, Paul Gauguin, e, valendo-me do privilégio do romancista, imaginei vários incidentes, no intuito de ilustrar o tipo que eu criara inspirado nos escassos fatos que conhecia da vida do artista francês. Na obra atual nada tentei de semelhante. Não inventei coisa alguma. Para poupar constrangimento a pessoas que ainda vivem, dei aos personagens desta história nomes fictícios e procurei, por outros meios, evitar que sejam reconhecidos. O homem sobre quem escrevo não é célebre; talvez nunca chegue a sê-lo. É possível que, ao atingir o fim da vida, não deixe, de sua passagem pela terra, vestígio maior que aquele que a pedra, atirada ao rio, deixa na superfície das águas. Neste caso, se o meu livro for lido, sê-lo-á exclusivamente pelo interesse intrínseco que possa ter. Mas é possível que o gênero de vida que esse homem escolheu para si próprio e a singular força e doçura do seu caráter tenham uma influência sempre crescente sobre seus semelhantes, de modo que, mesmo muito tempo depois de sua morte, talvez se compreenda que nesta época viveu uma criatura extraordinária. Ficará, então, claro sobre quem escrevi neste livro, e aqueles que desejarem conhecer alguma coisa dos primeiros anos da existência desse homem talvez aqui encontrem algo que lhes satisfaça. Creio que o meu livro, dentro de suas possibilidades, que reconheço limitadas, será uma útil fonte de informações para os biógrafos do meu amigo.

Não é minha intenção fazer crer que as conversas foram registradas literalmente. Não tomei nota sobre o que foi dito nesta ou naquela ocasião, mas tenho boa memória quanto ao que me diz respeito e creio que, embora expressas em minhas próprias palavras, essas conversas representam fielmente o que foi dito. Há pouco declarei nada ter inventado; quero agora modificar essa asserção. Tomei a liberdade, que desde o tempo de Heródoto os historiadores têm tomado, de pôr nos lábios dos meus personagens palavras que eu, pessoalmente, não poderia ter ouvido. Agi pela mesma razão que os fez agir; para dar vida e verossimilhança a cenas que teriam sido incolores se apenas relatadas. Quero ser lido, e creio estar no meu direito quando faço o possível para tornar agradável a leitura do meu livro. O leitor inteligente facilmente perceberá em que ocasiões me vali deste artifício e tem toda a liberdade de rejeitá-lo.

Outro motivo que me fez iniciar esta obra com apreensão foi o fato de eu aqui lidar a maior parte do tempo com americanos. É difícil a gente compreender bem as criaturas e não creio que possamos conhecer ninguém a fundo, a não ser os nossos próprios compatriotas. Pois os homens não são somente eles; são também a região onde nasceram, a fazenda ou o apartamento da cidade onde aprenderam a andar, os brinquedos que brincaram quando crianças, as lendas que ouviram dos mais velhos, a comida de que se alimentaram, as escolas que freqüentaram, os esportes em que se exercitaram, os poetas que leram e o Deus em que acreditaram. Todas essas coisas fizeram deles o que são, e essas coisas ninguém pode conhecê-las somente por ouvir dizer, e sim se as tiver sentido. Só pode conhecê-las quem é parte delas. E, por não se poder conhecer as pessoas de um país estrangeiro a não ser por observação, é difícil torná-las reais nas páginas de um livro. Mesmo um observador sutil e cuidadoso como Henry James, embora tivesse vivido quarenta anos na Inglaterra, jamais conseguiu criar um inglês que fosse cem por cento inglês. Quanto a mim, a não ser em alguns contos, nunca tentei manejar a não ser os meus próprios compatriotas; e, se nas histórias curtas me aventurei à exceção, foi porque nelas o escritor pode tratar os tipos mais sumariamente. Dá ao leitor indicações gerais e deixa por conta dele os detalhes. Possivelmente perguntarão por que motivo, já que transformei Paul Gauguin em inglês, não pude fazer o mesmo com os personagens deste livro. A resposta é simples: não pude. Eles não teriam sido quem são. Não quero dizer que sejam americanos como os americanos vêem a si mesmos; são americanos, sob o ponto de vista inglês. Não tentei reproduzir as singularidades do seu modo de falar. A barafunda que fazem os escritores ingleses quando se atiram à empreitada só pode ser comparada à confusão que fazem os escritores americanos quando tentam reproduzir o idioma inglês como é falado na Inglaterra. A gíria é a grande arapuca. Nos seus contos ingleses, Henry James sempre fez uso dela, mas nunca da mesma maneira que os ingleses; assim sendo, em vez de conseguir o desejado efeito coloquial, a maior parte das vezes dá ao leitor inglês um desagradável sobressalto.

2

Aconteceu-me estar em Chicago em 1919, a caminho do Extremo Oriente, pretendendo, por motivos que nada têm com esta história, ali me demorar durante duas ou três semanas. Pouco tempo antes eu publicara um romance que obtivera sucesso; estando, portanto, em evidência, fui entrevistado assim que desembarquei. No dia seguinte meu telefone tocou. Atendi.

- Quem fala aqui é Elliott Templeton.

- Elliott? Pensei que você estivesse em Paris.

- Não; vim visitar minha irmã. Queremos que você venha almoçar conosco.

- Com muito prazer.

Ele indicou a hora e o endereço.

Meu conhecimento com Elliott datava de quinze anos. Na ocasião em que me telefonou ele devia estar perto dos sessenta anos, homem alto e elegante, de traços agradáveis e espessos cabelos escuros e ondulados, com a nota grisalha apenas suficiente para acentuar a distinção de sua aparência. Ele comprava os acessórios de toalete em Charvet, mas seus ternos, chapéus e sapatos eram de Londres. Tinha em Paris um apartamento na Rive Gauche da elegante Rue St. Guillaume. As pessoas que não o apreciavam diziam que ele era negociante, acusação que o indignava. Elliott tinha gosto e entendia de arte, não se importando de confessar que, em anos idos, quando pela primeira vez se instalara em Paris, dera a ricos colecionadores o favor de sua opinião; e, quando devido às suas relações sociais ouvia falar de algum fidalgo arruinado, inglês ou francês, que estava disposto a vender um bom quadro, ficava satisfeito de poder pô-lo em contato com os diretores de museus americanos que, acontecia ele saber, estavam à procura de uma obra-prima de tal ou tal mestre. Havia na França e na Inglaterra muitas famílias antigas cujas circunstâncias as obrigavam a dispor de uma peça assinada, de Buhl, ou de uma escrivaninha feita pelo próprio Chippendale, se o negócio pudesse ser feito sem alarde, e que gostavam de conhecer um homem de grande cultura e finas maneiras que saberia tratar discretamente do assunto. Supunha-se, naturalmente, que Elliott lucrava com essas transações, mas a boa educação não deixava que se tecessem comentários a respeito. Pessoas pouco generosas afirmavam que em seu apartamento tudo estava à venda e que, depois de ter oferecido a milionários americanos um ótimo almoço, com vinhos velhos, uma ou duas de suas valiosas telas desapareceriam, ou uma cômoda de madeira entalhada seria substituída por uma outra, laqueada. Quando lhe perguntavam por que razão sumira determinada peça, ele muito logicamente explicava que não a achara bem à sua altura e resolvera, portanto, substituí-la por outra de superior qualidade. Acrescentava que era enfadonho estar sempre a ver as mesmas coisas.

- Nous autres américains, nós, americanos, gostamos de variar – dizia ele. – É, ao mesmo tempo, a nossa fraqueza e a nossa força.

Algumas das senhoras americanas residentes em Paris, que se gabavam de saber tudo a respeito de Elliott, diziam que sua família era muito pobre e que, se ele conseguia manter-se no padrão em que vivia, era por ter sido muito hábil. Não sei a quanto montava a sua fortuna, mas o duque de quem era inquilino certamente o fazia pagar muito pelo apartamento que, além do mais, era mobiliado com peças de valor. Havia, nas paredes, desenhos dos grandes mestres franceses, Watteau, Fragonard, Claude Lorraine e outros; tapetes Savonnerie e Aubusson exibiam sua beleza em soalhos de parquete; e na sala de visitas havia um conjunto Luís XV, em petit point, de tal elegância que poderia ter pertencido, como afirmava ele, a madame Pompadour. Em todo caso, Elliott possuía bastante para viver no estilo que considerava correto para um cavalheiro, sem precisar para isso ganhar dinheiro, e o método que no passado usara para consegui-lo era assunto que, a não ser que se quisesse romper relações com ele, era conveniente evitar. Liberto assim de preocupações materiais, ele se dedicou à paixão máxima de sua vida – relações sociais. Suas transações comerciais com os fidalgos empobrecidos, tanto na França como na Inglaterra, consolidaram a posição que ele conseguira ao chegar à Europa, moço, com cartas de apresentação a pessoas importantes. Sua origem o favorecia aos olhos das titulares americanas a quem vinha recomendado, pois ele pertencia à antiga família da Virgínia, e do lado materno podia reclamar parentesco direto com um dos signatários da Declaração da Independência. Tinha boa aparência, era vivo, dançava bem, atirava regularmente e sobressaía no tênis. Era elemento que valia a pena ter-se em qualquer festa. Ninguém mais pródigo, em se tratando de flores e caixas de bombons. Embora recebesse pouco, quando o fazia era com originalidade que agradava; aquelas ricaças achavam divertido ser convidadas a restaurantes boêmios em Soho ou bistrôs no Quartier Latin. Ele estava sempre pronto a servir e não havia favor, por maçante que fosse, que se lhe pedisse, que ele não fizesse com prazer. Esforçava-se bastante por ser agradável a senhoras maduras e rapidamente se tornava o ami de la maison, o queridinho de muita mansão imponente. Era extrema a sua gentileza; nunca se ofendia por ser convidado à última hora, quando alguém deixava a dona da casa em apuros, e a gente podia colocá-lo ao lado de uma velhota enfadonha, tendo certeza de que seria espirituoso e amável como só ele sabia ser.

Dentro de dois anos, tanto em Londres – para onde ia durante a última parte da temporada, e no princípio do outono para fazer algumas visitas a casas de campo – como em Paris, onde se instalara definitivamente, Elliott conhecia todas as pessoas que era possível a um jovem americano conhecer. As senhoras que o tinham introduzido na sociedade surpreenderam-se ao verificar como se alargara o seu círculo de relações. Os sentimentos dessas senhoras eram confusos. Por um lado, ficaram satisfeitas com o sucesso do seu protégé e, por outro, um tanto despeitadas ao vê-lo em tais termos de intimidade com pessoas com quem elas continuavam a manter relações de absoluta cerimônia. Embora Elliott continuasse a ser obsequioso e serviçal, elas tinham a desagradável impressão de que ele as usara como escada para o seu avanço social. Desconfiavam que ele fosse esnobe. Claro que o era. Incrivelmente esnobe. Um esnobe sem a menor vergonha. Ele engoliria qualquer afronta, ignoraria qualquer desfeita, toleraria qualquer descortesia para ser convidado a uma festa a que desejasse ir ou para conseguir aproximar-se de alguma rabugenta duquesa-mãe. Neste particular era incansável. Quando fixava o olhar na presa, perseguia-a com a tenacidade do botânico que, para conseguir uma orquídea rara, desafia enchentes, terremotos, febres e nativos hostis. A guerra de 1914 deu-lhe a sua oportunidade decisiva. Logo no início, entrou para o Corpo de Saúde e serviu, primeiro em Flandres, depois em Argonne; voltou ao fim de um ano com uma fita vermelha na lapela e conseguiu um posto na Cruz Vermelha de Paris. Nessa época, já estava em ótima situação financeira e contribuiu generosamente para obras de caridade patrocinadas por pessoas importantes. Com seu fino gosto e dom de organização, estava sempre pronto a trabalhar para qualquer festa de caridade que fosse amplamente anunciada. Ficou sócio de dois dos mais seletos clubes de Paris. Era ce cher Elliott para as maiores damas da França. Finalmente vencera.

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