sábado, 13 de fevereiro de 2010

UM SOM DE TROVÃO

Ray Bradbury

6a00e54ee984f1883400e54ffb2cdb8834-800wi

O anúncio na parede parecia tremular sob uma película de água quente. Eckels sentiu suas pálpebras estremecerem sobre seu olhar, e o anúncio queimava, na momentânea escuridão:
SAFARIS NO TEMPO, INC.
SAFARIS PARA QUALQUER ANO DO PASSADO
VOCÊ DIZ QUE ANIMAL.
NÓS O LEVAMOS LÁ.
VOCÊ O ABATE.
Uma flegma quente acumulou-se na garganta de Eckels; engoliu e empurrou-a para baixo. Os músculos ao redor de sua boca forma­ram um sorriso enquanto ele estendeu sua mão lentamente pelo ar, e naquela mão, balançava-se um cheque de dez mil dólares, para o ho­mem atrás da escrivaninha.
— Este safári garante que eu volte vivo?
— Não garantimos nada — falou o funcionário — exceto os dinos­sauros. — Voltou-se. — Este é o Sr. Travis, seu Guia, no safári ao pas­sado. Ele vai dizer-lhe o que e aonde atirar. Se ele disser para não ati­rar, não se atira. Se desobedecer às instruções, há uma pesada multa de mais de dez mil dólares, mais um possível processo do governo, quando voltar.
Eckels olhou, através do amplo escritório, numa completa con­fusão disforme, de fios entrelaçados e caixas de aço zumbindo, para uma aurora que agora reluzia laranja, então prateada, e então, azul. Havia um som como uma descomunal pira queimando todo o Tempo, todos os anos e todos os calendários, todas as horas empilhadas e incendiadas.
Um toque da mão e esta queima, instantaneamente, se reverteria lindamente. Eckels lembrou-se literalmente das palavras da propagan­da. De carvões e cinzas, da poeira e das brasas, como salamandras douradas, os velhos tempos, os anos jovens, podem saltar; rosas sua­vizando o ar; cabelo branco enegrecendo-se, rugas desaparecendo; tu­do ,voltando totalmente à origem, fugir à morte, precipitar-se para o começo de tudo, o sol nascendo nos céus ocidentais, e pondo-se glo­riosamente no leste, luas devorando-se a si mesmas no sentido oposto ao costumeiro, e tudo se sobrepondo, como caixas chinesas, coelhos em cartolas, tudo e todos retornando à morte viva, a morte da se­mente, a morte verde, ao tempo de antes do começo. O toque da mão poderia fazê-lo, o mero toque da mão.
— Inacreditável. — Eckels respirava, com a luz da Máquina sobre seu rosto fino. — Uma verdadeira Máquina do Tempo. — Abanou a cabeça. — É de fazer pensar. Se a eleição tivesse ido mal ontem, eu poderia estar agora me afastando dos resultados. Felizmente Keith ganhou. Será um bom presidente para os Estados Unidos.
— Sim — falou o homem por trás da mesa. — Temos sorte. Se Deutscher tivesse ganho, teríamos a pior ditadura. Há sempre um homem anti-tudo, um militarista, um anti-Cristo, anti-humano, anti-intelectual. O povo nos requisitou, sabe, como que brincando, mas a sério. Diziam que se Deutscher se tornasse presidente, queriam vi­ver em 1492. Claro, não é o nosso negócio conduzir Fugas, mas orga­nizar Safáris. De qualquer maneira, Keth é o presidente, agora. Tudo com que precisa preocupar-se agora é...
— Caçar meu dinossauro — Eckels acabou para ele.
— Um Tyranossaurus rex. O Lagarto Tirano, o monstro mais ina­creditável de toda a história. Assine este termo. O que quer que aconteça com você, não somos responsáveis. Esses dinossauros são muito vorazes.
Eckels animou-se, nervoso. — Tentando assustar-me!
— Francamente, sim. Não queremos que vá alguém que entre em pânico ao primeiro tiro. Seis lideres de safári foram mortos no ano passado, e uma dúzia de caçadores. Estamos aqui para dar-lhe a maior emoção que um caçador de verdade jamais almejou. Mandá-lo de volta sessenta milhões de anos, para pegar a maior caça de to­dos os tempos. Seu cheque ainda está aqui. Pode rasgá-lo.
O Sr. Eckels olhou para o cheque. Seus dedos retorceram-se.
— Boa-sorte — falou o homem atrás da escrivaninha. — Sr. Tra­vis, ele é todo seu.
Moveram-se silenciosamente, atravessando a sala, levando suas armas com eles, em direção à Máquina, rumo ao metal prateado e às luzes gritantes.
Primeiro, um dia e então uma noite e então um dia e então uma noite, e então era dia-noite-dia-noite-dia. Uma semana, um mês, um ano. uma década! 2 055 a. D., 2 019 a. D., 1 999! 1 957! Partida! A máquina rugia.
Puseram suas máscaras de oxigênio e testaram os intercomunica­dores.
Eckels inclinou-se no assento estofado, rosto pálido, maxilar enrijecido. Sentia o tremor em seus braços, olhou para baixo e achou suas mãos firmes no novo rifle. Haviam quatro outros homens na Máquinas. Travis, o líder do Safári, seu assistente, Lesperance, e mais dois outros caçadores, Billings e Kramer. Sentavam-se olhando uns para os outros, e os anos ardiam à volta deles.
— Estas armas podem dar conta de um dinossauro? — Eckels sentiu sua boca dizendo.
— Se os acertar direito — disse Travis pelo rádio do capacete. — Alguns dinossauros têm dois cérebros, um na cabeça e outro no fim da espinha. Ficamos longe destes. É abusar da sorte. Atire as duas primeiras vezes nos olhos, se puder, e cegue-os, e volte a atirar no cérebro.
A Máquina bramia. O Tempo era um filme passado ao contrá­rio. Os sóis voavam e dez milhões de luas, atrás deles. — Pense só — disse Eckels. — Todos os caçadores que jamais viveram nos inveja­riam hoje. Isto faz a África parecer com o Illinois.
A Máquina desacelerou; seu grito caiu para um sussurro. A Má­quina parou.
O sol parou no céu.
A névoa que envolvera a Máquina dissipou-se e estavam num tempo antigo, muito antigo mesmo, três caçadores e dois chefes de safári com suas armas metálicas sobre os joelhos.
— Cristo ainda não nasceu — disse Travis. — Moisés ainda não foi à montanha, para falar com Deus. As pirâmides ainda estão na terra, esperando para serem recortadas e montadas. Lembrem-se disso. Ale­xandre; César; Napoleão; Hitler; nenhum deles existe.
O homem fez que sim.
— Aquilo. — Apontou o Sr. Travis — é a selva de sessenta milhões dois mil e cinqüenta e cinco anos antes do presidente Keith.
Mostrou o caminho de metal que cruzava o verde selvagem, so­bre um amplo pântano, por entre fetos e palmeiras.
E aquele — disse — é o Caminho, colocado por Safáris no Tem­po, para seu uso. Flutua a seis polegadas acima da terra. Não toca se­não no máximo uma grama, flor ou árvore. É um metal antigravitacional. Seu propósito é evitar que vocês toquem, de qualquer manei­ra que seja, este mundo do passado. Fiquem no Caminho. Não saiam dele. Repito. Não saiam. Por qualquer razão que seja! Se caírem, se­rão multados. E não disparem em nenhum animal que não aprove­mos.
— Por quê? — perguntou Eckels.
Sentaram-se, na floresta antiga. Gritos distantes de pássaros vie­ram com o vento, e o cheiro de alcatrão e de um velho oceano salga­do, grama úmida, e flores da cor de sangue.
— Não queremos mudar o Futuro. Não pertencemos ao Passado. O governo não gosta de nós aqui. Temos que pagar muita propina para garantir nossa licença. A Máquina do Tempo é um negócio ex­tremamente delicado. Sem saber, poderíamos matar um animal im­portante, um pequeno pássaro, uma barata; mesmo uma flor, assim destruindo um elo importante, numa espécie em evolução.
— Isso não fica muito claro, — falou Eckels.
— Está bem — continuou Travis, — suponhamos que acidental­mente matemos um rato, aqui. Isso quer dizer que todos as futuras famílias deste rato, em particular, serão destruídas, certo?
— Certo.
— E todas as famílias das famílias, daquele rato! Com um pisão de seu pé, você aniquila primeiro um, então uma dúzia, então mil, um milhão, um bilhão de ratos, possivelmente!
— Então estarão mortos; e daí?
— E daí? — Travis torceu o nariz. — Bem, e as raposas que preci­sariam daqueles ratos para sobreviver? Para cada dez ratos a menos, morre uma raposa. Para cada dez raposas a menos, um leão morre de fome. Para cada leão a menos, insetos, abutres, infinitos bilhões de formas de vida são lançados ao caos e à destruição. Eventualmente, tudo recai no seguinte: cinqüenta e nove milhões de anos depois, um troglodita, um, de uma dúzia no mundo inteiro, vai caçar javalis ou tigres de dentes de sabre para comer. Mas você, amigo, pisou em todos os tigres daquela região. Pisando num só rato. Assim o troglodita morre de fome. E este homem das cavernas, note bem, não é qualquer um dispensável, não senhor! Ele é toda uma nação futura. Dele, teriam saído dez filhos. E destes, mais cem, e assim por diante, até a civilização. Destruindo este único homem, destrói-se uma raça, um povo, toda uma história. É comparável a matar um neto de Adão. O pisão de seu pé, num rato, poderia principiar um terremoto, cujos efeitos poderiam abalar nossa terra e destinos pelo Tempo afo­ra, até seus alicerces. Com a morte daquele troglodita, um bilhão de outros ainda não nascidos são mortos no útero. Talvez Roma nunca se erga sobre suas sete colinas. Talvez a Europa fique para sempre uma floresta espessa, e apenas a Ásia cresça, forte e saudável. Pise num rato e esmagará as Pirâmides. Pise num rato e deixará sua mar­ca, como um Grand Canyon, pela Eternidade. A rainha Elizabete poderá nunca nascer. Washington poderá não cruzar o Delaware, po­derá nunca haver Estados Unidos. Portanto, seja cuidadoso. Fique no caminho. Nunca pise fora!
— Percebo — comentou Eckels. — Então não poderíamos nem tocar a grama?
— Exato. Esmagar certas plantas poderia causar somas infinitesi­mais. Um erro mínimo seria multiplicado por sessenta milhões de anos, desmesuradamente. Claro, talvez nossa teoria esteja errada. Tal­vez o Tempo não possa ser alterado por nós. Ou talvez só possa ser alterado de maneiras sutis. Um rato morto aqui causa um desequilí­brio dos insetos ali, uma desproporção populacional mais tarde, uma colheita má mais adiante, uma depressão, fome, e finalmente uma mudança no temperamento social em países remotos. Algo muito mais sutil, como isso. Talvez algo ainda muito mais sutil. Talvez ape­nas uma respiração, um sussurro, um cabelo, um pólen no ar, uma mudança tão levezinha que se olhasse atentamente, não notaria. Quem sabe? Quem pode dizer que realmente sabe? Não sabemos. Estamos só adivinhando. Mas até que tenhamos certeza, se nossos passeios pelo Tempo podem fazer um barulhão ou um barulhinho na História, seremos cuidadosos.. Esta Máquina, este Caminho, suas rou­pas e corpo, foram esterilizados, como sabem, antes da viagem. Usa­mos estes capacetes de oxigênio de modo que não possamos introdu­zir bactérias nesta atmosfera primitiva.
— Como sabemos que animais abater?
— Estão marcados com tinta vermelha — explicou Travis. — Ho­je, antes da viagem, mandamos Lesperance aqui com a Máquina. Ele veio a esta época em particular e seguiu certos animais.
— Estudando-os?
— Isso — falou Lesperance. — Sigo-os por toda sua vida, obser­vando quais vivem mais. Quantas vezes se acasalam. Poucas vezes. A sua vida é curta. Quando vejo que algum vai morrer com uma árvore caindo em cima dele, ou um que se afoga num poço de alcatrão, ano­to a hora, minuto, e segundos exatos. Disparo um revólver de tinta. Deixa uma marca vermelha em seus flancos. Não podemos nos enga­nar. Então correlaciono com a chegada ao Caminho, de modo que encontremos o monstro a não mais de dois minutos de sua morte, inevitável. Desta forma, matamos apenas animais sem futuro, que nunca vão se acasalar de novo. Vê como somos cuidadosos?
— Mas se esta manhã você voltou no tempo, deve ter cruzado conosco mesmos, nosso safári! Como nos saímos? Tivemos sucesso? Conseguimos voltar todos... vivos?
Travis e Lesperance entreolharam-se.
— Isso seria um paradoxo, — falou este último. — O tempo não permite esse tipo de confusão; um homem encontrando a si mesmo. Quando há o risco de tais situações, o tempo desvia-se. Como um avião passando por um vácuo. Sentiu a Máquina pular antes de pararmos? Éramos nós passando por nós mesmos, a caminho do Futuro. Não vimos nada. Não há meio de dizer se esta expedição teve suces­so; se pegamos nosso monstro, ou se todos nós, isto é, o senhor, Sr. Eckels, saiu vivo.
Eckels sorriu, palidamente.
— Parem com essa conversa — interrompeu Travis. — Todos de pé!
Estavam prontos para deixar a Máquina.
A selva era alta, a selva era larga, e a selva era todo o mundo, pa­ra sempre. Sons como música, e sons como tendas voando, encheram o ar, e eram pterodátilos planando com cavernosas asas cinzentas, morcegos gigantescos de delírio e febre noturna. Eckels, equilibrado no estreito Caminho, apontou seu rifle, bem-humorado.
— Pare! — falou Travis. — Não aponte nem mesmo por brinca­deira, idiota! Se a arma dispara...
Eckels enrubesceu. — Aonde está nosso Tyranossaurus?
Lesperance checou seu relógio de pulso. — Logo à frente. Vamos estar no caminho dele em sessenta segundos. Atenção para a tinta vermelha! Não atire até que eu mande. Fique no caminho. Fique no Caminho!
Moveram-se adiante, pelo vento da manhã.
Estranho — murmurou Eckels. — Lá adiante, daqui a sessenta milhões de anos, fim das eleições. Keith presidente. Todos celebran­do. E aqui estamos, perdidos num milhão de anos, e eles não existem ainda. As coisas que nos preocuparam por meses, por uma vida intei­ra, nem nasceram nem foram idealizadas, ainda.
— Soltar as travas, todos! — ordenou Travis. Você dá o primeiro tiro, Eckels, Billings o segundo, e Kramer o terceiro.
— Já cacei tigre, javali, búfalo, elefante, mas agora, isto é incomparável — disse Eckels. — Estou tremendo como uma criança.
— Ah — fez Travis. Todos pararam.
Travis ergueu a mão. — À frente — falou, em voz baixa. — Na ne­blina. Lá está ele. Ali está Sua Majestade Real, agora.
A selva era ampla, e cheia de gorjeios, farfalhares, murmúrios e suspiros.
Subitamente, tudo cessou, como se alguém tivesse fechado a porta.
Silêncio.
Um som de trovão.
Da neblina, a cem jardas, vinha o Tyranossaurus rex.
— É ele — cochichou Eckels, — é ele... —Psss!
Ele veio sobre grandes pernas, oleosas, resilientes. Erguia-se a trinta pés, acima da metade das árvores, um grande deus do mal, do­brando suas delicadas garras de relojoeiro perto de seu peito oleoso, reptílico. Cada pata inferior era um pistão, mil libras de osso branco, mergulhadas em grossas cordas de músculos, revestidas por um brilho de uma pele pedregosa, como a malha de um terrível guerreiro. Cada coxa, uma tonelada de carne, marfim, e aço trançado. E da grande gaiola arquejante da parte superior do corpo, aqueles dois braços de­licados pendurados para a frente, braços que poderiam erguer e exami­nar os homens como brinquedos, enquanto se dobrava o pescoço de serpente. E a cabeça mesmo, uma tonelada de pedra esculpida, ergui­da com facilidade contra o céu. Sua boca escancarava-se, expondo uma cerca de dentes como dardos. Seus olhos rolavam, ovos de aves­truz, vazios de qualquer expressão, exceto fome. Fechava a boca num sorriso da morte. Corria, seus ossos pélvicos derrubando para os lados árvores e arbustos, seus pés, com garras, afundando-se na terra úmida, deixando marcas de seis polegadas de profundidade aonde quer que apoiasse seu peso. Corria com um passo deslizante de ballet, muito aprumado e equilibrado para suas dez toneladas. Movia-se, cansado, numa arena ensolarada, suas mãos lindamente reptilianas tateando o ar.
— Ora, vejam — Eckels torceu a boca. — Poderia esticar-se e pegar a lua.
— Pssst! — fez Travis, nervoso. — Ele ainda não nos viu.
— Não pode ser morto. — Eckels pronunciou seu veredito, quie­to, como se não pudesse haver discussão. Tinha avaliado a evidência, e era esta sua abalizada opinião. O rifle em sua mão parecia uma ar­ma de brinquedo. — Fomos loucos de ter vindo. Isto é impossível.
— Cale-se! — silvou Travis.
— Pesadelo.
— Dê meia volta — comandou Travis. — Vá em silêncio para a Máquina. Podemos reembolsar-lhe metade de sua passagem.
— Não percebia como seria grande, — falou Eckels. — Avaliei mal, foi isso. E agora, quero desistir.
— Ele nos viu!
Lá está a tinta vermelha em seu peito!
O Lagarto Tirano levantou-se. Sua carne de armadura rebrilhava como mil moedas verdes. As moedas, com uma crosta de lama, fer­viam. No lodo, pequenos insetos esperneavam, de modo que todo o corpo parecia retorcer-se e ondular, mesmo enquanto o monstro não se movia. Expirou. O cheiro de carne crua foi soprado pelos ermos.
— Deixe-me sair daqui — disse Eckels. — Nunca foi como isto, agora. Eu sempre estava certo de que poderia sair vivo. Eu tinha bons guias, bons safáris, e segurança. Desta vez, enganei-me. Encontrei algo que me supera, e reconheço. É demais para eu enfrentar.
— Não corra — falou Lesperance. — Dê a volta. Esconda-se na Máquina.
— Sim, — Eckels parecia entorpecido. Olhou para seus pés, como que tentando fazê-los mover-se. Deu um grunhido, incapaz.
— Eckels!
Deu alguns passos, piscando, hesitante,
— Não por aí!
O Monstro, ao primeiro movimento, impulsionou-se para a fren­te com um grito terrível. Cobriu cem jardas em seis segundos. Os rifles ergueram-se rapidamente e iluminaram-se, com o fogo. Um ven­daval da boca da besta engolfou-os na fedentina do lodo, e sangue envelhecido. O Monstro rugiu, dentes brilhando ao sol.
Eckels, sem olhar para trás, caminhou cegamente para a borda do Caminho, sua arma carregada frouxamente em seus braços, saiu do caminho, e andou, inadvertidamente, pela floresta. Seus pés afun­daram em musgo verde. Suas pernas o carregavam, e ele se sentia só e afastado dos eventos lá atrás.
Os rifles dispararam de novo. O som perdeu-se no grito e no tro­vão do lagarto. O grande volume da cauda do animal lançou-se para cima, e para o lado. Árvores explodiram em nuvens de folhas e ra­mos. O Monstro torceu suas mãos de joalheiro para acariciar os ho­mens, para dobrá-los ao meio, para esmagá-los, como frutinhas, para empurrá-los para seus dentes e sua garganta ruidosa. Seus olhos, quais rochedos, estavam ao nível dos homens. Viram-se espelhados. Dispararam nas pálpebras metálicas e na luminosa íris.
Como um ídolo de pedra, como uma avalanche de montanha, o Tyranossaurus caiu. Trovejando, agarrou árvores, e puxou-as consigo. Agarrou e cortou o Caminho. Os homens precipitaram-se para trás, e para longe. O corpo abateu-se, dez toneladas de carne fria e pedra. Os rifles dispararam. O Monstro brandiu sua cauda blindada, crispou suas mandíbulas de serpente, e imobilizou-se. Uma fonte de sangue jorrava de sua garganta. Em algum lugar lá dentro, um saco de fluido estourou. Borbotões nauseantes inundaram os caçadores. Lá estavam vermelhos, brilhantes.
O trovão dissipou-se.
A selva estava silenciosa. Depois da avalanche, uma paz verde. Depois do pesadelo, o amanhecer.
Billings e Kramer praguejavam pesadamente, com seus rifles ain­da fumegando.
Na Máquina do Tempo, face abatida, Eckels tremia. Tinha con­seguido voltar ao caminho, e subira na Máquina.
Travis chegou, olhou para Eckels, pegou gaze de algodão e, virou-se para os outros, que estavam sentados sobre o Caminho.
— Limpem-se.
Limparam o sangue de seus capacetes. Começaram a resmungar, também. O Monstro jazia ali como uma montanha de carne. Dentro dele, podia-se ouvir os sopros e murmúrios, enquanto seus recessos iam morrendo, os órgãos parando de funcionar, líquidos circulan do um último instante, de saco para a bolsa, para vesícula, tudo des­ligando-se, parando para sempre. Era como ficar perto de uma loco­motiva acidentada, ou uma escavadeira a vapor, no momento de des­ligar, com todas as válvulas sendo desativadas. Ossos estalavam; a tonelagem de sua própria carne, desequilibrada, peso morto, quebrava os delicados braços, do lado de baixo. A carne se assentava aos tre­mores.
Outro estalido. Mais acima, um enorme galho de árvore partiu de sua pesada ancoragem, caiu. Golpeou certeiramente a fera morta.
— Pronto. — Lesperance verificou seu relógio. — Bem na hora. Essa era a grande árvore que deveria cair e matar este animal, origi­nalmente. — Olhou para os dois caçadores. — Querem tirar a foto de troféu?
— Quê?
— Não podemos levar o troféu para o Futuro. O corpo deve fi­car aqui, aonde deveria originalmente morrer, de modo que os inse­tos, pássaros, e bactérias possam devorá-lo, como devem. Tudo equi­librado. O corpo fica. Mas podemos tirar uma fotografia de vocês a seu lado.
Os dois homens fizeram força para pensar, mas desistiram, aba­nando as cabeças.
Deixaram-se guiar ao longo do Caminho de metal. Afundaram cansados, nos assentos da Máquina. Olharam de novo para o Monstro arruinado, o montículo em estagnação, aonde já estranhos pássaros reptilianos e insetos dourados estavam ocupados com a fumegante armadura.
Um som no chão da Máquina do Tempo deixou-os tensos. Eckels estava lá, tremendo.
— Lamento muitíssimo — disse.
— Levante-se! — gritou Travis. Eckels levantou-se.
— Vá para o Caminho sozinho — falou Travis, com seu rifle apontado. Não vai voltar para a Máquina. Vamos deixá-lo aqui!
Lesperance agarrou o braço de Travis. — Espere...
— Fique fora disto! — Travis desvencilhou-se de sua mão. — Este louco quase matou-nos. Mas isso não é tanto assim. Vejam seus sapa­tos! Vejam! Ele saiu do Caminho. Isso nos arruína! Seremos multa­dos! Milhares de dólares de seguro! Garantimos que ninguém deixa o Caminho, e ele o deixou. Ora, o louco! Terei de informar o Governo
Poderão cancelar nossa licença para viajar. Quem sabe o que ele fez ao Tempo, à História!
— Calma, tudo o que ele fez foi pisar em alguma sujeira.
— Como saber? — gritou Travis. — Não sabemos nada! É um mistério! Saia, Eckels!
Eckels mexeu em sua camisa. — Pago qualquer coisa. Mil dóla­res!
Travis olhou para o talão de cheques de Eckels e cuspiu. — Saia. O Monstro está perto do Caminho. Afunde os braços até os cotove­los na boca dele. Então poderá voltar conosco.
— Isto é irrazoável!
— O Monstro está morto, seu idiota. As balas! As balas não po­dem ser deixadas para trás. Elas não pertencem ao Passado; poderão mudar alguma coisa. Aqui está a minha faca. Cave-as!
A selva estava viva de novo, cheia de antigos tremores e do baru­lho dos pássaros. Eckels voltou-se lentamente para olhar o monte de carniça primordial, aquela montanha de pesadelos e terror. Depois de um longo tempo, como um sonâmbulo, arrastou-se ao longo do Caminho.
Voltou, tremendo, cinco minutos depois, com seus braços enso­pados e vermelhos até os cotovelos. Estendeu as mãos. Cada uma se­gurava algumas balas de aço. Então caiu e ficou lá, imóvel.
— Você não precisava obrigá-lo a isso — comentou Lesperance.
— Não? É cedo ainda para dizer. — Travis tocou o corpo, com o pé. — Viverá. Da próxima vez não vai sair para caçar este tipo de ca­ça. OK. — Ergueu o polegar para Lesperance. — Dê a partida. Vamos para casa.
1492 . 1776 . 1812 .
Limparam suas mãos e faces. Trocaram de roupa. Eckels estava de pé de novo, mudo. Travis olhou para ele por dez minutos.
— Não olhe para mim, — exclamou Eckels. — Não fiz nada.
— Quem pode saber?
— Apenas saí do Caminho, foi tudo, um pouco de lama em meus sapatos; que quer que eu faça? Que me ajoelhe e reze?
— Talvez precisemos disso. Estou lhe avisando, Eckels! Posso matá-lo, ainda. Minha arma está engatilhada.
— Estou inocente. Não fiz nada! 1999 . 2000 . 2055 .
A Máquina parou.
— Saia — ordenou Travis.
A sala lá estava, tal como quando saíram. Mas não exatamente a mesma. O mesmo homem atrás da mesma escrivaninha. Mas o mes­mo homem não parecia estar sentado exatamente atrás da mesma escrivaninha.
Travis olhou em volta, depressa. — Tudo em ordem por aqui? — foi logo perguntando.
— Claro. Bem vindos ao lar!
Travis não relaxou. Parecia estar olhando para os próprios áto­mos do ar, e para o modo pelo qual o sol entrava pela janela alta.
— OK, Eckels, saia. E nunca mais volte. Eckels não podia mover-se.
— Ouviu-me, — falou Travis. — Para o quê está olhando? Eckels ficou, cheirando o ar, e havia algo no ar, uma substância tão tênue, tão sutil, que apenas um fraco aviso de seus sentidos su­bliminares avisavam-lhe que estava ali. As cores, branco, cinza, azul, laranja, na parede, na mobília, no céu, pela janela, eram... eram... E havia uma sensação. Sua carne crispava-se. Ficou bebendo aquela estranheza com os poros de seu corpo. Em algum lugar, alguém devia estar soprando naqueles apitos que só os cães podem ouvir. Seu cor­po gritava silenciosamente, em resposta. Além deste aposento, além desta parede, além deste homem, que não era exatamente o mesmo homem que estava sentado àquela mesa, que não era bem a mesma mesa... estava todo um mundo de ruas e gente. Que espécie de mun­do era agora, não havia como dizer. Ele podia senti-los mover-se ali, além das paredes, quase, como peças de xadrez por um vento quen­te...
Mas a coisa mais imediata era o anúncio pintado na parede do escritório, o mesmo que havia lido hoje ao entrar. De alguma forma, o anúncio havia mudado:
SEFARIS NU TENPO, INC.
SEFARIS PRA QUALQUER ANO PAÇADO.
CÊ DIS QUI ANIMAU.
NÔIS LEVAMOS CÊ LÃ.
CÊOABAT.
Eckels sentiu-se caindo numa cadeira. Ficou mexendo, como louco, na lama em suas botas. Ergueu um pedaço de algo enlameado, tremendo. — Não, não pode ser, não uma coisinha assim, não!
Embebida na lama, brilhando em verde e dourado e preto, havia uma borboleta, muito bela, e muito morta.
Não uma coisa assim! Não uma borboleta! — gritou Eckels.
Caiu ao chão, uma coisa exótica, pequena, que poderia desman­char equilíbrios e derrubar uma fila de dominós pequenos, e então grandes dominós, e então dominós gigantes, por todos os anos atra­vés do Tempo. A mente de Eckels turbilhonava. Não podia mudar as coisas. Matar uma borboleta não podia ser tão importante! Ou pode­ria?
Seu rosto estava frio. Sua boca hesitava, ao perguntar: — Quem... quem ganhou a eleição presidencial ontem?
O homem atrás da escrivaninha riu-se. — Está brincando? Sabe muito bem. Deutscher, claro! Quem mais? Não aquele maluco pusi­lânime do Keith. Temos um homem de ferro, agora, um homem de peito! — O funcionário parou. — O que há de errado?
Eckels gemeu. Caiu de joelhos. Examinava a borboleta dourada com dedos trêmulos. — Não podemos — implorava ao mundo, a si mesmo, aos funcionários, à Máquina. — Não podemos levá-la de vol­ta, não podemos fazê-la viver de novo? Não podemos recomeçar? Não poderíamos...
Não se moveu. Olhos fechados, esperou, abalado. Ouviu Travis ofegando, na sala; ouviu Travis apontar o rifle, destravá-lo.
Houve um som de trovão.

Do Contos Fantásticos.

LOST!

Os Quatro

the-four

Uma visão Vitoriana do Quarteto Fantástico.

Do Toycutter.

SAM SPADE

morse_spade.thumbnail

Por Scoot Morse.

KANIZSA HILL

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Rachel

12

Clique na imagem.

Milk

Mari-1 

Laranja Mecânica.

Desnudos

Jorge-Miguel-Photography-6

Jorge-Miguel-Photography-10

Jorge Miguel.

TERRIVEL MUNDO NOVO

Dirigido por Wanuri Kahui, um filme de ficção científica com ecos dos anos 1970’s.

TRABALHO XXVIII

181

Do Quadrinhos Gonzo.

A almofada de penas

Horacio Quiroga

mulher_na_cama

Sua lua-de-mel foi um longo estremecimento. Loura, angelical e tímida, o temperamento duro do marido gelou suas sonhadas criancices de noiva. Ela o amava muito, no entanto, às vezes, sentia um ligeiro estremecimento quando, voltando à noite juntos pela rua, olhava furtivamente para a alta estatura de Jordão, mudo havia mais de uma hora. Ele, por sua vez, a amava profundamente, sem demonstrá-lo.
Durante três meses — tinham casado no mês de abril — viveram numa felicidade especial.
Sem dúvida ela teria desejado menos severidade nesse rígido céu de amor, mais expansiva e incauta ternura; mas a impassível expressão do seu marido a reprimia sempre.
A casa em que viviam influenciava um pouco nos seus estremecimentos. A brancura do pátio silencioso — frisos, colunas e estátuas de mármore — produzia uma outonal impressão de palácio encantado. Por dentro, o brilho glacial do estuque, sem o mais leve arranhão nas altas paredes, acentuava aquela sensação de frio desagradável. Ao atravessar um quarto para outro, os passos encontravam eco na casa toda, como se um longo abandono tivesse sensibilizado sua ressonância.
Nesse estranho ninho de amor, Alicia passou todo o outono. Porém tinha terminado por abaixar um véu sobre os seus antigos sonhos, e ainda vivia dormida na casa hostil, sem querer pensar em nada até o marido chegar.
Não é incomum que emagrecesse. Teve um ligeiro ataque de gripe que se arrastou insidiosamente dias e mais dias; Alicia não melhorava nunca. Por fim uma tarde pôde sair ao jardim apoiada no braço dele. Olhava indiferente para um e outro lado. De repente Jordão, com profunda ternura, passou a mão pela sua cabeça, e Alicia em seguida se quebrou em soluços, e o abraçou. Chorou demoradamente seu discreto pavor, redobrando o choro diante da menor tentativa de carícia. Depois, os soluços foram-se acalmando, e ainda ficou um longo tempo escondido no seu ombro, quietinha, sem pronunciar uma palavra.
Foi o último dia que Alicia esteve de pé. No dia seguinte amanheceu desacordada. O médico de Jordão a examinou com toda a atenção, recomendando muita calma e repouso absolutos.
— Não sei — disse para Jordão na porta da casa, em voz ainda baixa. — Tem uma grande debilidade que não consigo explicar, e sem vômitos, nada... Se amanhã ela acordar igual a hoje, você me chama depressa.
No dia seguinte ela piorou. Houve consulta. Constatou-se uma anemia agudíssima, completamente inexplicável. Alicia não teve mais desmaios, mas ia visivelmente andando para a morte. Durante o dia todo, o quarto estava com as luzes acesas e em total silêncio. As horas se passavam sem se ouvir o mínimo barulho. Alicia dormitava. Jordão vivia quase que definitivamente na sala, também com as luzes acesas. Andava sem cessar de um extremo para outro, com incansável obstinação. O tapete abafava seus passos. Algumas vezes entrava no quarto e continuava seu mudo vaivém ao longo da cama, olhando para sua mulher cada vez que caminhava na sua direção.
Não demorou muito para Alicia passar a sofrer alucinações, confusas e flutuantes no início, e que desceram depois até o chão. A jovem, de olhos desmesuradamente abertos, não fazia senão olhar para os tapetes que se encontravam a cada lado da cama. Uma noite ela ficou repentinamente com o olhar fixo. Em seguida abriu a boca tentando gritar, e suas narinas e lábios se molharam de suor.
— Jordão! Jordão! — gritou, rígida de espanto, sem parar de olhar o tapete.
Jordão correu para o quarto, e, ao vê-lo aparecer, Alicia deu um brado de horror.
— Sou eu, Alicia, sou eu!
Alicia olhou para ele com olhar extraviado, olhou para o tapete, voltou a olhar para ele, e depois de um longo momento de estupefata confrontação, serenou. Sorriu e pegou entre as suas as mãos do marido, fazendo carícias e tremendo.
Entre suas alucinações mais obstinadas, houve um antropóide, apoiado no tapete sobre os próprios dedos, que mantinha os olhos fixos nela.
Os médicos voltaram inutilmente. Havia ali, diante deles, uma vida que se acabava, dessangrando-se dia após dia, hora após hora, sem se saber absolutamente por quê. Na última consulta, Alicia jazia em estupor, enquanto eles a pulseavam, passando de um para outro o pulso inerte. Observaram-na um longo momento em silêncio e encaminharam-se para a sala.
— Pst... — Deu de ombros, desanimado, seu médico. — É um caso sério... pouco se pode fazer...
— Era só o que me faltava! — gritou Jordão. E tamborilou bruscamente sobre a mesa.
Alicia foi-se extinguindo no seu delírio de anemia, que se fazia mais grave pe!a tarde, mas que cedia sempre nas primeiras horas da manhã. Durante o dia, sua doença não avançava, mas de manhã ela amanhecia lívida, quase em síncope. Parecia que unicamente à noite a sua vida se fosse em novas asas de sangue. Tinha sempre ao acordar a sensação de sentir-se derrubada na cama com um milhão de quilos por cima. A partir do terceiro dia esse desmoronamento não a abandonou mais. Apenas podia mexer a cabeça. Não deixou que pegassem na sua cama, nem sequer que arrumassem a almofada. Seus terrores crepusculares avançaram na forma de monstros que se arrastavam até sua cama e subiam com dificuldade pela colcha.
Perdeu depois o conhecimento. Nos dias finais, delirou sem cessar a meia-voz. As luzes continuavam fúnebres e acesas no quarto e na sala. No silêncio agônico da casa, não se ouvia mais que o delírio monótono que saía da cama, e o rumor abafado dos eternos passos de Jordão.
Alicia morreu, por fim. A empregada, que entrou depois para desfazer a cama, já vazia, olhou um momento com estranheza para a almofada.
— Senhor! — chamou ao Jordão em voz baixa. — Na almofada há manchas que parecem ser de sangue.
Jordão se aproximou rapidamente. Também se agachou. Efetivamente, sobre a fronha, de ambos os lados da cavidade que tinha deixado a cabeça de Alicia, se viam algumas manchinhas escuras.
— Parecem picadas — murmurou a empregada depois de um momento imóvel na observação.
— Aproxime-o da luz - disse Jordão.
A moça levantou a almofada, mas em seguida deixou-a cair, e ficou olhando para ele, lívida e trêmula. Sem saber por quê, Jordão percebeu que seus cabelos se eriçavam.
— O que é que há? — murmurou com voz rouca.
— Pesa muito — falou a empregada, sem parar de tremer.
Jordão levantou a almofada; pesava extraordinariamente. Saíram com ela, e sobre a mesa da sala Jordão cortou a fronha e a capa. As penas superiores voaram, e a empregada deu um grito de horror com a boca inteiramente aberta, levando as mãos crispadas às bandós. Sobre o fundo, entre as penas, mexendo devagar os pés aveludados, havia um animal monstruoso, uma bola viva e viscosa. Estava tão inchada que quase não se lhe via a boca.
Noite após noite, a partir do dia em que Alicia tinha ficado doente, ele tinha aplicado sigilosamente sua boca — sua tromba, melhor dizendo — às têmporas da mulher, chupando-lhe o sangue. A mordida era quase imperceptível. A remoção diária da almofada tinha impedido sem dúvida seu desenvolvimento, mas assim que a jovem não conseguiu mais se mexer, a sucção foi vertiginosa. Em apenas cinco dias e cinco noites, tinha esvaziado Alicia.
Esses parasitos das aves, diminutos no seu meio habitual, chegam a adquirir proporções enormes em certas condições. O sangue humano parece ser para eles particularmente favorável, e não é raro encontrá-los nas almofadas de penas.

Viver e Morrer no Cinema

vinyan

Dica de blog: VIVER E MORRER NO CINEMA é um ótimo blog para quem curte cinema de qualidade e quadrinhos de qualidade e desenhos de qualidade e arte em geral de qualidade.

Eu sou o coração partido de Jack

NCWintersIAmJacksBrokenHeart16x20ac

O Clube da Luta.

O INCRÍVEL HOMEM QUE ENCOLHEU

2284228041_71b2162db2_o

COLINA VERMELHA

Westerns modernos me atraem – ainda mais com uma fotografia belíssima e um tom poético que mais acentuam que abafam o eco da violência. Filme australiano. Trailer instigante. Promessa de filmaço em cada fotograma.

Kurt Vonnegut. Matadouro 5

SteacyV5.thumbnail

Matadouro 5 é a história do bombardeio da cidade de Dresden (um dos maiores crimes da 2ª guerra) feito pelos aliados, é a história de um rapto alienígena, é a história de um homem que viaja no tempo, é tudo isso e muito mais…

Kurt Vonnegut é um dos poucos autores cujos livros eu compro sem medo, apenas por ter seu nome na capa. A mistura de sátira, drama, comédia, violência e ficção científica em seus livros é contundente e maravilhosa a um tempo.

Abaixo, um de seus personagens recorrentes, que está neste livro e em outros, o escritor Kilgore Trout, trava um diálogo típico de Vonnegut:

 - Isso realmente aconteceu? – perguntou Maggie White.
Ela era uma pessoa sem graça, mas um convite sensacional para se fazer um filho. Os homens olhavam para ela e queriam enchê-la de filhos imediatamente. Ela ainda não havia tido um bebê. Usava métodos anticoncepcionais.
- Claro que sim – Trout lhe disse. – Se eu escrevesse uma história que não aconteceu de verdade e tentasse vendê-la, iria preso. Isso é fraude.
Maggie acreditou nele.
- Nunca pensei nisso antes.
- Pense nisso agora.
- É como propaganda. É preciso dizer a verdade na propaganda, senão dá problema.
- Exatamente. É o mesmo tipo de lei que se aplica em ambos os casos.

Coisas da vida.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Dylan Thomas. A Luz

luz e trevas

A LUZ IRROMPE ONDE NENHUM SOL BRILHA

A luz irrompe onde nenhum sol brilha;
onde não se agita qualquer mar, as águas do coração
impelem as suas marés;
e, destruídos fantasmas com o fulgor dos vermes nos cabelos,
os objectos da luz
atravessam a carne onde nenhuma carne reveste os ossos.

Nas coxas, uma candeia
aquece as sementes da juventude e queima as da velhice;
onde não vibra qualquer semente,
arredonda-se com o seu esplendor e junto das estrelas
o fruto do homem;
onde a cera já não existe, apenas vemos o pavio de uma candeia.

A manhã irrompe atrás dos olhos;
e da cabeça aos pés desliza tempestuoso o sangue
como se fosse um mar;
sem ter defesa ou protecção, as nascentes do céu
ultrapassam os seus limites
ao pressagiar num sorriso o óleo das lágrimas.

A noite, como uma lua de asfalto,
cerca na sua órbita os limites dos mundos;
o dia brilha nos ossos;
onde não existe o frio, vem a tempestade desoladora abrir
as vestes do inverno;
a teia da primavera desprende-se nas pálpebras.

A luz irrompe em lugares estranhos,
nos espinhos do pensamento onde o seu aroma paira sob a chuva;
quando a lógica morre,
o segredo da terra cresce em cada olhar
e o sangue precipita-se no sol;
sobre os campos mais desolados, detém-se o amanhecer

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Lidiya

15

Clique na imagem

Posters para Kill Bill

4341415163_4f9fa50583_o

4341415443_169b9cc29f_o

Ibraheem Youssef.

ROGER CORMAN. LIGÉIA

tomb_of_ligeia1

A Dama e a Morte

Por Samuel Fuller

house-of-bamboo-1955

A Casa de Bambu.

MOON

Sam Bell é um astronauta que trabalha para a Lunar Industries escavando Helium 3 na lua, onde vive solitariamente. Duas semanas antes de concluir seu longo período de trabalho, Sam sofre um acidente que vai fazê-lo perceber que algo pode estar muito errado.

sam-rockwell-in-moon12

Escrito e dirigido pelo filho de David Bowie, Duncan Jones, este filme mistura ficção científica e suspense com uma fantástica performance de Sam Rockwell e um enredo intrigante.

Um dos melhores filmes do ano passado. Para baixar, clique na imagem.

Do Cine Anarquia.

DESEJO

106

O FUTURO ERA ASSIM

56ue5y4ewtyewrer

John Updike. Coelho se Cala

White_Rabbit

AS MULHERES QUE ESCAPARAM

Pierce Junction era uma cidadezinha isolada de New Hampshire, de certo modo enobrecida pela presença de uma pequena faculdade de ciências humanas; para sobreviver, nós nos apegávamos uns aos outros como cobras emboladas numa caverna no meio do deserto. Os anos 60 nos tinham ensinado o elevado valor moral do coito, e relutávamos em abandonar uma atividade ao mesmo tempo tão prazerosa e tão saudável. Mas o fato é que não se podia dormir com todo mundo: éramos burgueses, responsáveis, tínhamos empregos e filhos, e as obrigações demandavam energia e causavam desgaste. Ainda não havíamos aprendido a separar emoção de sexo. Olhando para trás, constato que, no total, nossas conquistas não chegavam ao que um universitário de hoje acumula em quatro anos. Havia mulheres com quem a gente não conseguia dormir, e elas, como se por pirraça, são as que se conservam mais vivas na lembrança; e permaneceram distintas talvez porque, dentro da escorregadia bola de cobras, os contatos fossem tão poucos.

"Ora, Martin", murmurou para mim Audrey Lancaster num verão, ao final de um passeio num barco alugado em Portsmouth, para comemorar o aniversário de quarenta anos de alguém, "finalmente estou entendendo o que dizem sobre você." O "finalmente" era uma espécie de farpa, e o sujeito de "dizem" era aparentemente as mulheres em geral. Fiquei imaginando que tipo de conversa, mais genérica ou mais específica, teriam entre si as esposas e as mulheres divorciadas de nosso grupo. Quando Audrey fez o comentário, eu estava parado junto à amurada, sozinho por um momento, amolecido pelo Chablis da Califórnia que havia tomado, vendo no rio Piscataqua os reflexos trêmulos das luzes do porto no momento em que o barco manobrava para atracar e os alto-falantes tocavam Simon e Garfunkel na noite quente e aquosa.

Minha mulher dançava devagar no tombadilho de proa com seu amante, Frank Greer. Audrey materializou-se a meu lado e minha mão pousou em sua cintura como se nós dois também fôssemos dançar. E lá ficou minha mão, e, como o formigamento suave proporcionado por um fio mal encapado, a realidade daquelas ancas começou a arder-me nos dedos e na palma. Audrey era uma mulher sólida, de rosto liso, tão míope que andava com os pés muito abertos, com um passo desafiador, como se temesse ser derrubada por alguma coisa que não estivesse vendo direito. Vivia perdendo as lentes de contato nos gramados ou nos cantos dos olhos. Casara-se cedo e era um pouco mais nova que o resto da turma. Não havia como não adorá-la, ao vê-la na quadra de tênis com a bermuda de jeans esfiapada, as pernas fortes e morenas, o sorriso largo e tenso, tentando acertar a bola e errando o alvo por completo. Tinha a cintura lisa e flexível por baixo da roupa de algodão, e, sim, Audrey estava certa: pela primeira vez em todos aqueles anos que nos conhecíamos eu a via como uma companheira em potencial, como uma peça do quebra-cabeça cósmico que talvez se encaixasse na minha.

Porém eu também sentia que, no fundo, ela não gostava de mim, não o bastante para atravessar as barreiras perigosas do adultério, sofrer os espasmos da culpa, saltar por todos aqueles aros de fogo. Ela desconfiava de mim como quem desconfia de um concorrente. Nós dois éramos palhaços, sempre disputando o troféu O Mais Engraçado da Turma. Além disso, já tinha dono, aliás mais de um: não apenas era casada com um certo Spike e tinha os quatro filhos que eram de praxe na nossa geração, como também se metera numa série de flertes e namoricos, um deles com meu melhor amigo, Rodney Miller - até onde era possível uma pessoa ter amigos do mesmo sexo no nosso meio fanaticamente heterossexual. Audrey tinha um jeito delicioso de prolongar comentários venenosos; assim, me disse: "Você não acha que devia avisar à Jeanne e ao Frank que o barco está quase atracando? Eles podem ser presos pela polícia de Portsmouth por atentado público ao pudor".

Retruquei: "Por que eu? Não sou o dono do barco".

Jeanne era a minha mulher. Seu amor por Frank, dentro da lógica perversa da época, me aproximara dela: eu sentia pena de Jeanne por ter que passar a maior parte do tempo comigo e as crianças e não com a pessoa que amava. Era de origem francesa e católica, e havia algo de nobre naquele sofrimento, naquele sacrifício; o cilício invisível que ela sempre usava mantinha seu torso ereto, como o de uma bailarina, e tornava-a ainda mais bela para mim. Não gostei de ouvir Audrey zombando dela. Ou será que gostei? Talvez meus sentimentos fossem mais primitivos, mais tacanhos e possessivos do que eu imaginava na época. Apertei mais a cintura de Audrey, a ponto de quase machucá-la, depois a soltei e segui em direção a Jeanne e Frank, que, tendo a música parado, davam a impressão de haver acordado naquele instante, os rostos ainda inchados, surpresos. Frank Greer fora casado com uma mulher chamada Winifred até um tempo bem recente na nossa pequena história local. O divórcio, que havia dez anos espreitava nosso grupo à medida que nosso imenso contingente de filhos atravessava a escola primária em direção - esperávamos nós - à saúde mental, ainda era uma raridade e destacava-se como uma ferida ainda fresca no rosto de Frank, rubra como a bochecha que ele havia apertado contra a de minha mulher.

Maureen Miller, num daqueles intervalos na cama quando a paixão já estava saciada porém ainda restavam uns constrangidos trinta minutos de tempo utilizável antes que eu tivesse coragem de bater em retirada, uma vez me contou que Winifred incomodava-se de constatar que, durante todos aqueles anos em que o caso de Frank com Jeanne era de domínio público, eu nunca havia tentado cantá-la. Winifred, a quem às vezes chamávamos Freddy, era uma mulher pequenina que parecia uma coruja, uma coruja branca e graciosa, com olhos negros e grandes, uma pele que jamais pegava sol, um penteado à Emily Dickinson no alto de um corpo gorducho que terminava em mãos e pés pequenos e bem-feitos. Se minha mulher andava ereta como uma bailarina, quem sabia dançar bem era a mulher de seu amante; dançava com um aconchego macio e um toque leve que tinham sobre mim um efeito erótico constrangedor. Sempre que eu a tinha nos braços, o resultado era uma ereção, motivo pelo qual a prudência me aconselhava a só dançar com ela no final da noite, quando ou eu ou ela, tentando convencer nossos cônjuges a desgrudar um do outro, já havíamos vestido o casaco. Fora isso, não me sentia atraído por Winifred. Tal como a mulher que inspirara seu penteado, ela nutria ambições literárias e cultivava um estilo dogmático, seco, propositadamente oblíquo. Quando falava, afetava uma firmeza ligeiramente excessiva.

"Bem, não vou dizer não", respondeu ela de forma pouco graciosa certa vez, quando, já bem depois da meia-noite, Jeanne sugeriu que eu acompanhasse Winifred até sua casa, em meio à nevasca que começara a cair durante o jantar e ao período de inércia alcoólica que se seguiu. Os outros casais, e remanescentes de casais, já haviam todos ido embora até só restar Winifred; ela possuía a capacidade de ingerir, séria e impassível, um volume impressionante de álcool, cuja presença em seu organismo só era acusada pelas pálpebras um pouco caídas sobre os olhos negros brilhantes e pelo tom mais pedante que o habitual de sua voz melíflua. Isso foi antes de os Greer se divorciarem. Frank não estava naquela festa porque tinha partido numa misteriosa viagem a negócios. Já era a primeira etapa da separação, percebi depois. Jeanne, que sabia mais do que dava a entender, tratara a mulher solitária como se fosse sua irmã menor. À medida que os convidados iam embora, Jeanne insistia com Freddy para que ela nos contasse mais uma história sobre a oficina literária de que estava participando, como aluna especial, na faculda-de local, Bradbury. Bradbury fora antigamente um macambúzio seminário presbiteriano perdido em nossa pequena cidade, com uma capelinha provida de pilares, nos contrafortes das White Mountains, porém seus laços religiosos tinham se afrouxado havia muito tempo; nos anos 60 passara a aceitar alunos de ambos os sexos, com as mais desenfreadas conseqüências.

"Uma garota", contou Winnifred, aceitando o que jurava ser seu último Kahlúa com conhaque, "leu uma história que estava na cara que era baseada numa separação dolorosa que ela tinha acabado de viver, e o professor fez uns comentários supersarcásticos, ele parece sádico, ou então foi uma tentativa de cantada." Seu rosto deixava claro que ela estava indignada e enfadada com aquela história toda. Imaginei que estivesse deslocando a raiva que tinha de Frank para o professor, um poeta nova-iorquino que certamente sentia saudades de Greenwich Village, onde a revolução sexual era polimorfa. Era um sujeito maçante, azedo, pernóstico - fora a impressão que me ficara após meus rápidos contatos com ele - e, além disso, tão pequeno que chegava a desconcertar.

Aquelas histórias sobre a oficina literária eram fascinantes, a julgar pela animação de Jeanne, a qual insistia com a outra para que ela contasse mais. Havia em Pierce Junction uma regra segundo a qual a pessoa tinha que ser particularmente simpática com o cônjuge do amante - uma prática que não era de modo algum insincera, pois aquele segredo compartilhado gerava um sentimento tortuoso e culposo de gratidão para com o felizardo que convivia com a pessoa amada. Mas até mesmo Winnifred, em meio à névoa de Kahlúa, começou a ficar incomodada, levantou-se na sala fria (o termostato já havia se recolhido horas antes) e cobriu a cabeça com o xale, como se arrufasse a plumagem. Aceitou de testa franzida a sugestão de Jeanne, que insistia que eu a acompanhasse até sua casa. "Claro, não tenho condição de dirigir, mas foi tão divertido", disse ela a Jeanne, com um aperto de mão que minha mulher, de rosto vermelho, transformou num abraço feroz e, por tabela, um tanto frenético (assim me pareceu) de afeto.

O carro de Winnifred estava colado à calçada por uma parede de neve levantada pelas jamantas de luz rodopiante do departamento de estradas, e ela morava a apenas três quarteirões de nós; era só subir uma ladeira coberta por dez centímetros de neve recém-caída. Winnifred precisou apoiar-se em meu braço, mas permanecemos imersos em nossos próprios pensamentos. A neve caía com um sussurro constante, e a presença nas ruas, àquela hora da madrugada, dos limpa-neves, roncando e raspando, criava um efeito de camaradagem - era como se houvesse uma festa maior sob aquele céu carregado, amarelo, que brilhava com a fosforescência estranha e secreta que têm as nevascas. As casas estavam escuras, e a luz da varanda da minha casa foi ficando menor, mais longe, no pé da ladeira. Quando chegamos à porta de sua casa, bem debaixo de um poste de iluminação, Winnifred virou-se para me encarar, como se, embora estivéssemos os dois encasacados, quisesse dançar; mas estava apenas oferecendo seu rosto pálido, oval, gelado e triste para que eu o beijasse. Flocos de neve prendiam-se nos cílios longos de seus olhos fechados e pontilhavam o arco de cabelo negro exposto pelo xale. Como sempre, fiquei excitado. Na casa atrás dela só havia crianças adormecidas. A fachada coberta de ripas precisava de uma pintura; seu estado de abandono traía o casamento em crise por trás dela.

Em Pierce Junction havia todo um folclore em torno das casas dos outros casais - a fusão de gostos, o acúmulo de móveis, as fotos emolduradas do tempo do noivado e de férias anteriores ao casamento. Todos nós gostávamos de receber e visitar, mas preferíamos visitar, invadir, fuçar e bisbilhotar do modo mais irresponsável. Será que ela esperava que eu entrasse? A idéia não me parecia nem um pouco razoável - atrás de mim, ao pé da ladeira, Jeanne certamente estaria recolhendo os destroços da festa na sala e dirigindo um olhar de desânimo ao relógio da cozinha, com seu ponteiro de segundos vermelho sempre em disparada. Também meus cílios estavam pesados de gelo quando, na despedida, beijei nossa convidada, bem na boca mas de leve, de leve, com um toque sutil e alcoolizado de lamento cortês. De todos os beijos que dei e recebi em Pierce Junction, contando crianças, adultos e cachorros, esse beijo, casto e cristalino, permanece intato em minha memória.

Quando voltei para casa, fiquei surpreso de encontrar Frank sentado na sala com uma cerveja na mão, o terno amassado, o rosto comprido vermelho, como se tivesse acabado de fazer um grande esforço. Jeanne, cansada demais para manifestar constrangimento, explicou: "O Frank acabou de voltar da viagem. O avião quase não pôde pousar em Manchester, e quando ele viu que a Freddy não estava em casa resolveu dar um pulinho aqui para pegá-la".

"Subiu e desceu essa ladeira com essa neve toda?", espantei-me. Não me lembrava de ter visto nenhum carro passando.

"Nosso carro tem tração nas quatro rodas", disse Frank, como se isso explicasse tudo.

Às vezes Maureen era muito provocadora. Seu corpo era largo mas não profundo - tinha quadris grandes e seios pequenos -, e no verão inteiro ela ostentava em torno do pescoço uma extensão de pele queimada, sardenta, descascando, por passar horas no jardim com um blusão sem gola, sem chapéu. Era ruiva, e jamais abandonara a moda dos cabelos longos e escorridos da era hippie, quando os hippies já haviam se transformado em marginais ou malucos ou tinham voltado para a casa dos pais havia muito tempo. Depois que lhe contei esse episódio, deixando de lado apenas o estranho efeito fisiológico que ocorria em mim sempre que eu abraçava Winifred, Maureen riu e atirou a juba para trás, como se estivesse prestes a me devorar com seus dentões muito brancos. "A Jeanne é incrível", disse ela. "Imagine só, marcar encontro com o namorado à uma da manhã, crente que o marido ia estar transando com a mulher do cara! Pelo visto, a nevasca atrasou tudo - por isso ela ficou insistindo com a Freddy pra ela não ir embora."

"Não acredito", eu disse, no tom mais indignado de que era capaz estando nu, recostado na cama, com um cigarro e um copo de vermute vermelho, "que a coisa seja assim, calculada friamente. Pra mim, ele apareceu lá em casa porque achou que a festa ainda não tinha terminado."

"Mas ele viu que não tinha nenhum carro parado na frente!"

"Ah", exclamei, com uma discreta sensação de triunfo, "mas o carro da Freddy estava lá, coberto de neve."

"É como aquela história", disse Maureen. "'Se vós não tivésseis lavrado com a minha novilha' - como é mesmo o resto? - 'não teríeis descoberto o meu enigma'." Ela e Rodney haviam se conhecido num curso de verão sobre a Bíblia, e Rodney ainda conservava aquele jeito - cabelo penteado, ar juvenil - de futuro missionário. "Mas enfim", prosseguiu ela, alegre, sacudindo o colchão de tal modo que derramei um pouco de vermute nos pêlos do peito, onde - que droga! - Jeanne era bem capaz de sentir o cheiro, "eu entendo, você está se sentindo culpado em relação à Freddy, mas não entre nessa, não. Ela anda trepando com aquele poeta de Nova York, aquele sujeitinho horroroso, é o que todo mundo diz lá na faculdade."

"Eu preferia que você não me contasse todas essas coisas. Eu gostaria de manter um pouco de inocência."

"Ah, Martin, você bem que gosta, você adora saber de tudo", disse ela, esfregando o nariz no lugar onde caíra o vermute, com uma seriedade vigorosa, impessoal, leonina, que me assustou um bocado. Para me livrar dela, consegui encontrar suas orelhas no meio de todo aquele cabelo e, puxando-as, afastei sua cabeça do meu peito. O rosto dela nessa posição, o lábio superior levantado, os olhos semicerrados, lembrou-me Winifred erguendo o rosto para que eu a beijasse na neve, e evocou também uma máscara mortuária. Maureen não tinha um corpo de mulher que esconde os ossos, sua fome ávida e mortal. Rindo, mas com um olhar duro, vingativa, embora bem-humorada, prosseguiu: "O Rodney diz que você parece mulher, mete o nariz em tudo".

Esse comentário me magoou e me excitou. Eu e Rodney éramos de uma discrição severa, só conversávamos sobre nossos esportes castos - golfe, pôquer, tênis, esqui. Nunca falamos de política, nem mesmo no auge da guerra do Vietnã, nem depois, durante toda a prolongada queda de Nixon. No entanto era excitante pensar em Maureen e Rodney conversando sobre mim na intimidade do leito nupcial. "Pareço mulher, é?", retruquei rosnando, obrigando-a a trocar de posição comigo e ficar por baixo naquela cama do quarto de hóspedes que eu conhecia tão bem, uma cama de mogno, de baldaquino, com um abacaxi removível no alto de cada coluna. Resistindo, Maureen soltava gritos alegres que ecoavam pelos cômodos da casa em estilo vitoriano, recobertos de carvalho, e - temia eu - chegavam à rua.

Pierce Junction era uma cidade cheia de segredos que viviam vazando, como vaza serragem de uma viga carcomida pelo cupim. Havia uma série de furinhos microscópicos, com um lampejo de vida no fundo de cada um. Quando Jeanne ficou sabendo de meu caso com Maureen, reagiu com um acesso de fúria que me surpreendeu, pois havia anos que eu não dizia nada a respeito de seu relacionamento com Frank. Para demonstrar sua raiva, fez uma coisa imperdoável - foi até a casa dos Miller e contou tudo a Rodney. Maureen, com aquele seu lado religioso, trabalhava às quartas e sábados num abrigo metodista para crianças delinqüentes em Concord, e foi a eficiência da companhia telefônica, que registrava todas as ligações interurbanas, listando-as por cidade e por número, que revelou nosso segredo. Quando tento relembrar nossa paixão, o que me vem à mente não são imagens pornográficas do que fazíamos na cama, e sim um certo sabor neutro, a madeleine de um minuto particularmente vazio num dia à-toa, o anseio que, numa tarde morta e oca, despertava em mim um desejo insaciável pela voz dela - mais grave e rouca ao telefone, mais intensa e musical, do que quando estávamos juntos. Por um momento aquela voz afastava o medo intenso em que eu vivia naqueles anos; a voz e as súbitas inspirações de percepção cáustica por ela trazidas pintavam o mundo, que me parecia envolto num terror vago, com cores vivas e audazes. Ouvir Maureen rir aquele riso tranqüilizador, como se todos nós estivéssemos vivendo uma brincadeira deliciosa e precária, saciava uma sede que me pesava na garganta como um pedaço de ferro. Não estando Maureen presente, nem mesmo como uma voz ao telefone, o mundo ficava descentrado. Eu precisava falar com ela, e foi a conta telefônica que nos entregou.

A fome não era só minha, e sim de todo o nosso círculo, atormentado pela ânsia de necessidades insatisfeitas: Jeanne e Frank, coitados, aproveitando-se daquela meia hora ridícula na nevasca. Para mim, Maureen era como uma fogueira num acampamento, cuja luz faz com que a escuridão exterior pareça absoluta e cujo calor se transforma em frio intenso assim que nos afastamos dela, mesmo que apenas alguns poucos passos.

Jeanne levou horas para voltar da conversa com Rodney. Não imediatamente, e sim depois que a passagem de alguns dias nos havia reduzido a esqueletos exaustos de honestidade, ela confessou que, não estando Maureen em casa, acabou dormindo com Rodney, numa espécie de delírio de vingança, embora ele relutasse.

"Uma das tristezas de Maureen", disse-lhe eu, "era ele ser sempre tão fiel, totalmente satisfeito com ela. Pelo menos era o que ela pensava."

"Engraçado. Você lembra a época em que a Winifred e o Frank tinham acabado de se separar, e a Freddy estava louca para transar? Eu estava morrendo de medo que ela tentasse seduzir você naquela noite da nevasca. Pois bem, o Rodney foi o único homem daqui que não decepcionou a Freddy, que correspondeu à auto-imagem dela. Pelo visto, ela é muito ligada em sexo. O Rodney disse que ficou meio grilado de sentir que àquela altura dos acontecimentos - ih, eu falei igualzinho ao Nixon - ela trepava com qualquer um. Eu preferia não saber dessa história - nem mesmo o Frank está sabendo, eu detesto saber segredos que ele não sabe."

"Mas que belos escrúpulos", eu disse.

"Pode me gozar. Eu mereço, não é?"

"Minha mártir. Minha Jeanne D'Arc", eu disse, mal conseguindo conter a vontade de levá-la para a cama para descobrir de que modo ela fora enriquecida por aqueles novos conhecimentos, por aquela corrupção recente.

No entanto, acabamos nos divorciando, num processo arrastado e doloroso, tal como Maureen e Rodney. Mudei-me para Nashua, mas estava sempre voltando a Pierce Junction para visitar as crianças, tirar a temperatura de Jeanne e jogar com a turma de sempre. Uma noite, após uma rodada de pôquer, não querendo que eu voltasse a Nashua dirigindo depois de tomar muita cerveja, Rodney me convenceu a ir dormir em sua cabana dos tempos de solteiro, na serra; era pouco mais de um quilômetro de subida numa estrada de terra. Enquanto esperava minha vez de usar o banheiro, vi uma anotação largada na bagunça da mesa. A letra arredondada, aprumada, em que os "aa" eram como "oo", pareceu-me surpreendentemente familiar; Audrey Lancaster havia trabalhado como secretária de uma comissão de conservação da qual eu participara. Dizia a nota: Mais uma viagem perdida. Fui eu que entendi mal ou foi outra mancada do frei Laurêncio? Agora minha caminhonete está suja de terra e minhas pernas cheias de picadas de mosquito por conta da hora que passei na sua varanda. Um chato de um pássaro na mata estava tentando me dar um recado, só que eu não entendo linguagem de pássaro. Com o abraço de sempre. E então? Não havia assinatura. Uma página com pautas azuis, arrancada, certamente com raiva, de um caderno de espiral. Um furo no alto indicava o lugar em que fora perfurada pela tacha que a afixara à porta da cabana. Com uma espécie de pontada, senti-me muito próximo de Audrey, tal como na noite em que pus a mão em sua anca. Ela havia subido aquela estrada de terra no escuro, através da floresta, como um salmão nadando rio acima, à toa, e voltara humilhada. A alusão literária em seu bilhete tinha mais a ver com Winifred do que com ela.

Quando Rodney saiu do banheiro, inocente, com um pijama de algodão de menino, o queixo sujo de pasta de dente, senti por ele um ódio que jamais havia sentido em todos aqueles anos que passei entrando em seu casarão, perto da faculdade, passando pelo cortador de grama e pelas latas de óleo na garagem, atravessando a cozinha onde ele devorava o café-da-manhã todos os dias, passando pela prateleira onde ficavam seus troféus de golfe, em direção à cama de mogno no quarto de hóspedes. Enquanto alguns, como eu, se debatiam nas fímbrias da vida, insaciáveis, tentando ver o que se passava lá dentro, ele se esparramava no centro dela, complacente, esperando que a vida viesse até ele - em ondas tão abundantes que, estava claro, ele nem conseguia dar conta do serviço.

Em Nashua, enquanto os anos 70 morriam à míngua com a inflação e o mal-estar do governo Jimmy Carter, fui perdendo de vista as idas e vindas da vida em Pierce Junction. A possibilidade de que eu e Maureen viéssemos a viver juntos de modo respeitável fora rejeitada por ela desde o início. Era criança demais, despesa demais, águas passadas demais. "Você não entende, Marty?", disse-me ela. "A gente fez o que fez. Um ia ficar olhando pro outro e vendo sempre a prova do nosso pecado!"

Fiquei chocado ao ouvir aquela última palavra, tão antiquada, que levantava a possibilidade de que ela - e Jeanne, e todas as mulheres - esse tempo todo estivesse sofrendo em nosso paraíso sexual, vivendo em tensão por estar se desviando da monogamia. Senti-me insultado. Assim, foi com uma certa satisfação vingativa, misturada com outros sentimentos, que fiquei sabendo de sua morte súbita, tarde da noite, na Route 202, num carro dirigido por - logo quem! - Spike Lancaster, um dono de restaurante balofo, que falava aos berros e bebia demais; suas deficiências óbvias haviam investido a imagem de Audrey, em nosso pequeno grupo, de uma aura de santidade. A única coisa que Spike e Audrey tinham em comum era a miopia. Maureen morreu, e ele, o motorista, emergiu do acidente com feridas superficiais e uma fama de garanhão que provavelmente não prejudicou seu restaurante de beira-estrada - que aliás se chamava Lucky Shamrock (Trevo da Sorte).

Eu mal podia acreditar que, depois de nosso romance sublime, Maureen tivesse se envolvido com aquele brutamontes, aquele pateta. Bem feito, quebrou a espinha, aquele pescoço esguio circundado de pele queimada de sol no verão. Esses pensamentos maus, indignos, duraram apenas um instante, claro - um pequeno relâmpago de neurônios amorais antes de ter início a chuva suave da tristeza honesta. Porém a morte de Maureen e esse escândalo final, com marcas de pneu no asfalto e estilhaços de vidro de segurança, foram para mim o fim de Pierce Junction.

Jeanne e Frank casaram-se, e eu também embarquei numa segunda vida, com uma segunda mulher e novos filhos. Meus filhos continuaram a crescer, fizeram faculdade, casaram-se e mudaram-se para outras cidades. Eu tinha cada vez menos motivos para voltar; quando o fazia, a geografia da cidade, que pouco mudara, parecia conter as mesmas correntes elétricas de sempre, só com fios diferentes. Os rostos, e os velhos furos de cupim, se ainda existiam, estavam invisíveis, atravessando vidas mais jovens. Quando pensava nos velhos tempos, que de algum modo haviam se tornado sagrados, era, como eu já disse, menos nas mulheres que me eram mais próximas do que nas que haviam permanecido a meia distância, relativamente virginais, que tinham sido atraídas pelo canto das sereias do desconhecido, levando-o consigo ao desaparecer de meu horizonte.

Um shopping center havia brotado entre Nashua e Pierce Junction, no local onde antes havia uma fazenda cujos silos prateados eu ainda esperava ver, brilhando, naquela curva da estrada. Em vez disso, encontrei uma estrutura fragmentada e reluzente - lojas de grifes com vidraças pós-modernas e um amplo prado de asfalto coalhado de automóveis. Com a intenção de comprar um presente de aniversário para um neto numa dessas lojas de brinquedos cujo nome ostenta um estranho R ao contrário, eu caminhava por uma aléia insistentemente musical, sob uma arcada, ladeada por vitrines que, parodiando uma rua de comércio de cidade do interior de outrora, ostentavam marcas registradas, pontilhada por quiosques pouco freqüentados que ofereciam bijuterias, chás naturais exóticos, balas e biscoitos recobertos de iogurte em compartimentos de plástico leitoso. De repente vi, a meia distância, um passo inconfundível - pés bem abertos, jeito desconfiado, porém determinado e, para meus olhos, sedutoramente juvenil. Escapuli para dentro de uma loja da Gap e, oculto pelas prateleiras de jeans amaciados e suéteres de tons suaves, fiquei vendo passar Audrey, mais cheia, grisalha, porém ainda ágil. As lentes de contato que ela vivia perdendo tinham sido substituídas por óculos grossos, ostensivamente pesadões. Ela apertava a vista e sorria e falava animada, movimentando aquela boca flexível, murmurante, larga.

Seu companheiro, com cabelos brancos curtos e macios, trajando calças e um colete forrado, por um momento pareceu-me totalmente desconhecido, um homenzinho baixo de cara amarrada. Mas então, com uma pontada de reconhecimento que disparou uma excitação senil por trás de minha braguilha e me fez dar um salto para trás, afastando-me da janela, eu vi; impossível não identificar o corpo de coruja, em forma de barril, os olhos negros sob sobrancelhas espessas, as mãos e os pés delicados. Winifred. Ela e Audrey caminhavam com a suave submissão mútua de um velho casal. Estavam de mãos dadas.

Por Sérgio Leone

the-good

the-bad

the-ugly 

O bom o mau e o feio.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Kalki

Por Gore Vidal

kalkidev 

MORGAN DAVIES ME LEVOU AO AEROPORTO na sua limusine com motorista. - Faz parte de meu contrato - afirmou orgulhoso. Ele vivia competindo com Clay Felker. Eu nunca soube o motivo.

Porém Morgan fora generoso comigo. Eu não estava mais falida. E também estava espantada. - Ainda não tenho pista alguma sobre Kalki. - Quando em dúvida, seja honesta. Não acreditarão em você.

- Achei que você tinha ido visitar aquele ashram em Santa Monica Boulevard.

- Ashram. Sim. Passei um dia lá. Todos eles acreditam que ele seja deus na terra. Mas ainda não sei por quê.
- E quanto a drogas?

- Não vi nada. Nem senti o cheiro de nada.

A experiência toda me deixara perplexa. Os discípulos de Kalki (os mandalis, como gostavam de ser chamados) estavam absolutamente convictos de que o fim do mundo chegara e que precisavam se purificar, não apenas através da oração, mas pela abstenção de carne, sexo, drogas e álcool, de modo a renascerem no próximo ciclo da humanidade. Os verdadeiramente santos se tornariam Iluminados como o Buda e alcançariam o Nirvana, que não é absolutamente nada.

- Isso realmente te agrada? - perguntei a Neil, um ex-professor de ginástica. Ele tinha cabelos ruivos nos antebraços, que faziam lembrar os das pernas de tarântulas. Não havia absolutamente nenhuma vibração entre nós. Estávamos sentados no que antes fora a sala de controle da rádio. Do outro lado da janela de blindex havia um grande estúdio, de onde costumavam transmitir orquestras sinfônicas. Agora o estúdio estava cheio de homens e mulheres de aspecto banal, com roupas de ginástica, blue jeans ou calções de banho. Cada um deles na posição de lótus da ioga. Um disco de George Harrison tocando cítara fornecia a música de fundo. A música em primeiro plano era de um sujeito numa túnica amarela. Cantava em sânscrito. Tive a mesma sensação de desânimo que tivera ao assistir a uma reunião de sensity training em Esalen, no ano anterior.

- Isso não vem ao caso. - Neil me exibiu um insípido sorriso cientológico. - Quero dizer, não precisa te agradar. Você é que precisa se conformar às normas, porque o show já terminou. E por isso que Kalki está aqui. A era do homem está prestes a terminar. Precisamos nos purificar. - Não era positivamente uma religião da esperança. Mas convenhamos, para sermos justos, o cristianismo jamais foi uma farra de foliões em relação ao aqui-e-agora.

Neil acompanhou-me até o meu carro. - Pode estar certa que eu te invejo, por conseguir conhecê-lo - disse ele. Eu lhe contara a respeito de minha missão.

- Alguma mensagem para ele? - perguntei, dando-lhe um divertido e radiante sorriso weisseano.

Porém Neil venceu o round. - Não se pode mandar uma mensagem para a mensagem. - Em seguida ele me deu um lótus branco de papel. - Isto - explicou ele franzindo a testa - é um símbolo de Nosso Senhor Vishnu. -Eu tinha razoável certeza de que ele aprendera a cantilena de orelhada, porque palavras-chaves como "símbolo" não lhe haviam sido evidentemente explicadas. - Que nasceu do lótus. Quando o lótus chegar a todos os homens, este mundo acabará. Tem também - acrescentou ele em sua entonação especial - um número impresso no interior de uma folha aí. Se seu número for escolhido, você poderá ganhar um prêmio em dinheiro. Por isso preste atenção aos jornais. Os prêmios em dinheiro estão sendo entregues desde agora até o fim. - Perguntei-lhe quando seria isso, mas Neil disse que não lhe haviam informado.

Observação cultural para historiadores futuros: o ânimo da maior parte do mundo no ano passado era escatológico. As coisas estavam em decadência e a entropia em pé de guerra. Em vista deste estado de espírito prevalecente, aquelas seitas que prometiam salvar algumas almas do desastre iminente gozavam de popularidade. Naquele dia no ashram em Santa Monica, cheguei à conclusão de que Kalki era uma espécie de Testemunha de Jeová hindu. Fiquei impressionada com a certeza, a felicidade e a estupidez de Neil. Delas são feitos os reinos da terra, quando não do céu. Kalki era um especulador astuto.

No aeroporto Morgan me beijou na boca. - Eu te amo - mentiu. - Chegue lá antes da CBS. É só o que eu quero, Teddy. - Morgan não era um sujeito ambicioso.

Ao sobrevoarmos o Havaí, senti um baque no assento a meu lado. Sentara-se um hindu - da Índia - alto, magro, idoso. Usava um terno escuro riscado. Deu-me um sorriso radiante. A fileira superior de seus dentes eram um branco como só o plástico consegue ser. A fileira de baixo era amarelada e irregular. O branco dos olhos era de um dourado pálido, enquanto a íris era de bronze escuro. Graças a H.V. Weiss, eu descrevo - e descrevo. Especialmente personagens importantes. Este será um personagem importante na minha história? Sim.

Por Jock

jock_colour.thumbnail

Carlos Castaneda

Por Simon Bisley

Hellblazer_263 

Hellblazer

FRANGO COM AMEIXAS

Vida, morte, arte, desejo e felicidade são a matéria-prima desta história, que recupera um episódio ocorrido dez anos antes do nascimento da autora: a reviravolta que se desencadeia na vida de um tio-avô querido, artista como ela.

9782844141590

De Marijane Satrapi. A criadora de Persépolis narra um capítulo de suas memórias familiares como quem prepara uma antiga receita de família, com o tempero agridoce do humor e da melancolia. Para baixar, clique na imagem.

Do Gibiscuits.

JALILA

met-art_MAJ_134_13

Clique na imagem.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O Caçador

Joong-ho é um detetive inescrupuloso que passa por problemas financeiros e decide se tornar cafetão. Logo, ele desconfia que suas “filhas” (como as chama), estão sendo assassinadas por um serial killer.

the-chaser_poster_1

Dirigido por Hong-jin Na, é mais um ótimo filme coreano que merece ser visto. Para baixar, clique na imagem.

Do Cine Anarquia.

Ken Russel’s

gothic-mgmuk06

Gothic.

Roger Corman’s

pit

Aconteceu no Natal

tumblr_kv5w07VaWu1qzpkbfo1_500

Do Laerte.

VAMPIRA

Sukia---02--001

Para baixar, clique na imagem.

Do Erotrash.

A SERPENTE EMPLUMADA

quetzalserpent

Estou enojado com a humanidade e a vontade humana, inclusive a minha. Compreendo que minha vontade, por mais inteligente que eu seja, não passa de mais uma irritação na face da terra, quando começo a exercê-la. E a vontade dos outros é ainda pior, cada ser humano exercendo constantemente a sua vontade contra as outras pessoas, contra si mesmo e quase sempre cheio de auto-justificativa. Durante algum tempo é divertido exercer a própria vontade e resistir à dos outros que pretendem impô-la a mim. Mas, a certa altura, a náusea me domina. Minha própria alma fica nauseada e diante de mim só existe a morte, a menos que eu descubra outra coisa. Minha própria vontade acaba tornando-se ainda mais repulsiva simplesmente como minha vontade, é ainda mais desagradável do que a vontade dos outros. Devo abdicar de ser deus de minha própria máquina ou morrer de nojo… nojo de mim mesmo.

David Herbert Lawrence

Do Quixotando.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Razão e Sensibilidade e Monstros do Mar

A INVASORA

Sarah, uma jovem fotógrafa, está sozinha na noite de Natal. Ela está assim desde que seu marido morreu num acidente de carro. Só e grávida, recebe apenas as visitas de sua mãe dominadora e de seu chefe egocêntrico. A noite de natal é o último dia antes de ir para o hospital ter o seu bebê. Mas o silêncio de sua casa é quebrado quando uma misteriosa mulher bate à sua porta.

 14-1 

Terror gore de primeira, capitaneado pelos franceses Julien Maury e Alexandre Bustillo. Para baixar, clique na imagem.

Do Filmes com legenda.

Sofi

met-art_sg_542_0

A.D.

Sobre pessoas loucas

4328694274_655490d4c2

 

“Eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas.”

Jack Kerouac

Sonham Os Andróides Com Ovelhas Elétricas?

4328544415_617c29227b_o

Tim Templesmith.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A Longa Noite de Ultraman

4324103165_bc8590bb4a_b

 

Remember Ultraman? Remember how he had that thing where he could grow really large to fight monsters, but only for three minutes, and then he shrunk again?


Turns out he was stuck with that deadline even when there weren't any monsters.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

PURGATÓRIO

Eloy Martínez (1934-2010)

artwork_images_117794_320253_kent-williams

1.Tratando sombra como coisa firme

Purgatório, XXI, 136

Simón Cardoso estava morto fazia trinta anos quando Emilia Dupuy, sua esposa, encontrou-o na hora do almoço no salão reservado do Trudy Tuesday. Dois desconhecidos conversavam com ele num dos boxes do fundo. Emilia pensou que tivesse entrado no lugar errado e seu primeiro impulso foi retroceder, afastar-se, voltar para a realidade de onde vinha. Perdeu a respiração, a garganta ficou seca, e teve de se apoiar no balcão do bar. Passara a vida toda a sua procura e imaginara a cena inúmeras vezes, mas, agora que ela acontecia, dava-se conta de que não estava preparada. Os olhos encheram-se de lágrimas, queria gritar seu nome, correr até a mesa dele e abraçá-lo. Só reuniu forças, porém, para não desabar bem no meio do restaurante, chamando a atenção de todos, feito uma tonta. Recuperada, avançou em direção ao boxe contíguo ao de Simón e se sentou em silêncio à espera de que ele a reconhecesse. Enquanto isso não acontecia, tinha de fingir indiferença e ficar calada, apesar das têmporas latejantes e do coração prestes a sair pela boca. Com alguns sinais, pediu um brandy duplo. Precisava se acalmar, vencer o me do de que seus sentidos a confundissem, como ocorrera com a mãe. Por vezes alguns sentidos a traíam, perdia o olfato, ficava desorientada em ruas que conhecia de cor e se deitava ouvindo canções estúpidas que não sabia como tinham chegado a seu aparelho de som.

Voltou a olhar para o boxe de Simón. Queria ter certeza de que era ele. Viu-o entre os desconhecidos, de frente, falando-lhes com animação. Não havia dúvida: eram os seus gestos, a curva de seu pescoço, a pinta escura sob o olho direito. Não surpreendia apenas que o marido estivesse vivo. O mais inexplicável era que não havia envelhecido. Continuava firme nos trinta e três anos e até a roupa era a mesma. Trajava calça boca de si no que ninguém mais ousava usar, uma camisa aberta de colarinho grande como a de John Travolta em Os embalos de sábado à noite, as costeletas e os cabelos longos de uma outra época. Já para Emilia o tempo tinha passado naturalmente, e ela se sentia incômoda em seu corpo. As olheiras e os músculos da face denunciavam uma mulher de sessenta anos, ao passo que nenhuma ruga sequer podia ser vista no rosto dele. Imaginara infinitas vezes a cena em que voltaria a encontrá-lo e em nenhuma delas, absolutamente nenhuma, ocorrera-lhe a questão da idade. Essa defasagem de tempo levava-a a revisar aquilo que vislumbrara. E se Simón tivesse se casado novamente? A simples ideia de que ele pudesse viver com outra mulher a atormentava. Durante todos aqueles anos, em nenhum momento duvidara de que seu marido continuava a amá-la. Poderia ter tido casos passageiros, seria compreensível, mas, depois do calvário que haviam vivido juntos, não acreditava que a tivesse trocado por outra. A situação, porém, já não era a mesma. Agora ele podia ser seu filho.

Voltou a observá-lo mais detalhadamente. Espantou-a quanto ele destoava da realidade. Aparentava a metade dos sessenta e três anos que seus documentos deviam registrar. Veio-lhe à lembrança uma fotografa de Julio Cortázar tirada em Paris no final de 1964, quando o escritor, nascido no início da Primeira Guerra, parecia também ser o próprio filho. Quem sabe Simón tivesse na pele, assim como Cortázar, algumas rugas fininhas que só se viam bem de perto. Mas o que ela ouvia da conversa da mesa vizinha, às suas costas, era de uma juventude desafiadora, e até mesmo o timbre da voz era de um rapaz, como se o tempo fosse uma esteira sem fm e ele tivesse estado correndo nela sem se adiantar um único dia.

Emilia resignou-se a aguardar. Abriu o romance de Somerset Maugham que trazia consigo. Algo estranho, porém, acontecia na leitura. Ao chegar ao final de uma linha, topava com uma espécie de barreira que a impedia de avançar. Não porque Maugham lhe soasse enfadonho. Ao contrário, divertia-se muito com ele. Tivera uma experiência parecida com a versão em DVD de Morte em Veneza. Logo após o início do filme, quando Dirk Bogarde contemplava perturbado o belo adolescente Tadzio saindo do mar do Lido, a imagem dava um salto e voltava para as conversas em russo - ou seria alemão? - dos banhistas e dos vendedores de framboesas na praia. Por alguns instantes, Emilia supôs que o diretor repetia as vulgaridades dos veranistas para dar mais uma lição de realismo crítico, e passou à cena seguinte. Mas a imagem de Tadzio chacoalhando o corpo para livrar-se da água do mar retornava insistente, acompanhada pelo mesmo acorde da quinta sinfonia de Mahler. Duas noites depois, quando vencia o prazo para devolver o filme, Emilia o colocou de novo no DVD e conseguiu chegar até o trágico final. Sabia que a velhice lhe acentuava a falta de traquejo, mas confiava em que, com um pouco mais de atenção, conseguiria corrigi-la.

As vozes dos homens no boxe ao lado a exasperavam. Queria concentrar-se apenas na voz de Simón, e tudo que a afastasse dele lhe resultava intolerável. Num restaurante onde raramente se ouvia outra coisa que não fosse o sotaque carregado e nasalado de Nova Jersey, os dois homens intercalavam, em meio a seu rústico inglês, palavras técnicas e interjeições escandinavas. Mencionavam os vetores do programa Microstation, que também era usado na Hammond, onde ela trabalhava. Sem se dar conta, um dos desconhecidos pôs-se a repetir lições que se aprendem nas primeiras aulas de cartografia. Os mapas, disse ele, são reproduções imperfeitas da realidade que descrevem em superfícies planas o que na verdade são volumes, cursos de água em movimento perpétuo, montanhas atingidas pela erosão e por deslizes. Os mapas são ficções mal redigidas, prosseguiu. Muita informação e pouca história. Mapas de verdade eram os antigos: criavam mundos do nada. Aquilo quenão se sabia era imaginado. O mapa da África feito por Buonsignori, lembram?, continuou o homem, com o reino de Canze, de Melinde, de Zafan, tudo pura invenção. Do lago de Zafan nascia o Nilo, e assim em diante. Em vez de orientar os caminhantes, levava-os a esquecer o caminho. Os desconhecidos passavam de um assunto para outro ininterruptamente. Emilia rememorou o mapa de Buonsignori. Sonhara com ele ou o vira realmente em Florença ou no Vaticano? As vozes lhe davam náusea. Não conseguia captar as palavras em sua inteireza. Chegavam a seus ouvidos descosidas, em fiapos. Uma frase que parecia prestes a fazer sentido era interrompida pelos caminhões de bombeiros ou pelo grito animalesco das ambulâncias.

O homem de voz mais rouca e envelhecida sugeriu que não perdessem tempo e passassem de uma vez por todas a falar sobre a expedição a Kaffeklubben. Que loucura, Kaffeklubben, pensou Emilia. Uma ilhota de nada, no noroeste da Groenlândia, a última Thule, onde todos os ventos do mundo iam se perder. Organizemos a expedição o quanto antes, insistiu o homem rouco. Em Copenhague acreditam que existe outro penhasco mais ao norte. Se não existe, nada impede que o imaginemos.

Let's think more about that, let's think more, interrompeu-os Simón. Emilia levou um susto. Reconhecia sua voz, mas poucos traços do Simón de antigamente restavam naquilo que ele dizia. Este personagem falava um inglês fluente, pronunciava as consoantes finais com zelo, think, let's, com uma dicção britânica inatingível para o marido, que nunca tinha sido capaz de ler nem mesmo manuais técnicos em outras línguas.

O que faz uma pessoa ser o que ela é? Não o ritmo ou o jeito de falar, não os contornos do corpo, nada que esteja à vista. Equivocara-se mais de uma vez correndo na rua atrás de homens que andavam como Simón, ou que deixavam com a sua passagem o aroma de uma fragrância que evocava sua nuca, e quando os olhava de frente ficava desolada, por que não existem duas pessoas iguais?, por que os mortos não se dão conta de que morreram? O Simón que conversava a três passos de sua mesa era aquele de trinta anos atrás, mas não o mesmo de dez minutos antes. Alguma coisa nele se modificava rápido demais para que pudesse alcançá-la. Escapava mais uma vez, meu Deus, ou era ela que o perdia? Não me abandone de novo, Simón querido. Não vou desgrudar do seu lado. Não permitirei que parta sozinho. A verdadeira identidade das pessoas são as lembranças, tranquilizou-se. Recordo-me de tudo o que ele foi ontem como se fosse hoje, pensou, e o que ele vier a recordar de mim continuará a ser parte de seu verdadeiro ser. Lembre-se dele, traga-o de volta, não o perca.

Emilia se levantou, parou na frente dele e, decidida, fitou-o nos olhos.

Querido, meu querido, por onde você andava?

Ele lhe devolveu o olhar, sorriu sem embaraço nem surpresa, e despediu-se dos escandinavos. Em seguida, olhou para Emilia como se a tivesse visto no dia anterior.

Precisamos conversar, não? Vamos sair daqui.

Não lhe deu nenhuma explicação, não perguntou como ela estava, o que lhe acontecera durante aqueles anos todos. Nada a ver com o Simón cortês e atencioso com quem havia vivido. Emilia pagou o brandy, segurou o braço do marido e avançou em direção à rua.

SASHA

content_012

Clique na imagem