segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Os Filhos de Assur

Robert E. Howard
kane1
Uma aventura de Solomon Kane
1)

Solomon Kane começou a se mover no escuro, tentando agarrar as armas que jaziam na pilha de peles, a qual lhe servia de catre. Não era o louco tamborilar da chuva tropical, nas folhas do teto da cabana, que o havia acordado, nem o bramir do trovão. Eram gritos de agonia humana; o estrondo do aço que atravessava o barulho da tempestade tropical. Algum tipo de luta estava acontecendo na aldeia nativa na qual ele buscara se refugiar, e soava como um ataque-surpresa em grande escala. Quando Solomon tateou por sua espada, ele se perguntou que homens do mato atacariam uma aldeia à noite e numa tempestade como esta. Suas pistolas estavam ao lado de sua espada, mas ele não as tirou do chão, sabendo que seriam inúteis em tamanha torrente de chuva – uma chuva que molharia instantaneamente suas armas de fogo.
Ele se deitara completamente vestido, exceto por seu chapéu desleixado e manto, e, sem parar para pegá-los, correu até a porta da cabana. Uma linha irregular de relâmpago, a qual parecia abrir o céu, mostrou a ele um vislumbre caótico de figuras se movendo nos espaços entre as cabanas, com o reflexo do brilho ofuscante vindo do aço que faiscava. Acima da tempestade, ele ouviu os gritos estridentes do povo negro e gritos, em tom profundo, numa linguagem que não lhe era familiar. Saltando para fora da cabana, ele sentiu a presença de alguém à sua frente; então, outra explosão trovejante de fogo cortou o céu, clareando tudo numa fantástica luz azul. Naquele instante luminoso, Solomon deu uma estocada selvagem, sentiu a lâmina dobrar em sua mão, e viu uma pesada espada balançando em direção à sua cabeça. Uma explosão de faíscas, mais brilhante que o clarão, estourou diante de seus olhos; logo, uma escuridão maior que a noite da selva o envolveu.
A aurora se espalhava palidamente sobre as extensões de selva gotejante, quando Solomon Kane se moveu e sentou na lama diante da cabana. O sangue havia se empastado em seu couro cabeludo, e sua cabeça doía levemente. Livrando-se de uma leve fraqueza, ele se ergueu. A chuva cessara há muito, e os céus estavam claros. O silêncio jazia sobre toda a aldeia, e Kane viu que era na verdade uma aldeia de mortos. Cadáveres de homens, mulheres e crianças se espalhavam por toda a parte... nas ruas, nas portas das cabanas, dentro das cabanas; alguns deles haviam sido literalmente rasgados em pedaços, fosse em busca de vítimas escondidas, ou em mera lascívia de destruição. Não haviam levado prisioneiros, Solomon percebeu, quem quer que fossem os incursores desconhecidos. Nem haviam levado as lanças, machados, panelas e capacetes emplumados de suas vítimas – este fato parecia demonstrar um ataque de uma raça superior em cultura e artesanato aos rudes aldeões. Mas haviam levado todo o marfim que puderam encontrar, e haviam levado – Kane descobriu – sua longa e fina espada de dois gumes, e seu punhal, pistolas e bolsas de pólvora e munição. E haviam levado seu bastão, de ponta afiada, estranhamente entalhado e com cabeça de gato, o qual seu amigo, N’Longa, o feiticeiro da Costa Oeste, havia lhe dado, assim como o seu chapéu e manto.
Kane se encontrava no centro da aldeia desolada, meditando sobre o assunto – estranhas especulações lhe percorrendo a mente ao acaso. Sua conversa com os nativos da aldeia, à qual havia adentrado na noite anterior, fora da selva castigada pela tempestade, não lhe dera pista sobre a natureza dos atacantes. Os próprios nativos pouco sabiam sobre a terra na qual entraram apenas recentemente, expulsos para uma longa jornada por uma tribo rival e mais poderosa. Eles eram um povo simples, de boa natureza, o qual lhe tinha dado boa acolhida para dentro de suas cabanas e o houvera dado seus benefícios simples. O coração de Kane ardia de fúria contra seus desconhecidos destruidores, mas, mais profundamente que isso, ardia sua insaciável curiosidade – a maldição do homem inteligente.
Pois Kane havia sido espectador de um mistério à noite. E a tempestade – aquela forte chama do relâmpago – o havia mostrado, gravado momentaneamente em seu brilho, um rosto feroz e de barba negra – o rosto de um homem branco. Embora, de acordo com a razão, ali não pudesse haver homens brancos – nem mesmo saqueadores árabes – por centenas e centenas de milhas. Kane não havia tido tempo para observar a roupa do homem, mas ele tinha a vaga impressão de que a figura se vestia bizarramente. E aquela espada que, golpeando rente, o havia derrubado... certamente não era uma tosca arma nativa.
Kane olhou para o rude muro de barro que cercava a aldeia, para os portões de bambu que agora jaziam em ruínas... cortadas em pedaços pelos atacantes. A tempestade havia aparentemente diminuído quando os invasores marcharam para diante, pois ele percebeu uma larga trilha pisada por pés, a qual levava para fora do portão quebrado e para dentro da selva.
Kane apanhou um tosco machado nativo, que jazia próximo. Se alguns dos matadores desconhecidos haviam caído em batalha, seus corpos foram carregados por seus companheiros. Folhas emendadas juntas lhe serviram de chapéu temporário, para lhe proteger a cabeça da força do sol. Logo, Solomon Kane saía pelo portão quebrado, para adentrar a selva gotejante, seguindo a trilha do desconhecido.
Sob as árvores gigantes, as pegadas ficaram mais nítidas, e Kane percebeu que muitas delas eram de sandálias – um tipo de sandália que também lhe era estranho. As pegadas restantes eram de pés nus, indicando que alguns prisioneiros haviam sido levados. Aparentemente haviam partido há muito, pois, embora ele viajasse sem pausa, caminhando incansavelmente sobre suas pernas nômades, não avistou a coluna naquela marcha de um dia.
Alimentou-se com a comida que havia trazido da aldeia em ruínas, e avançou sem parar, consumido pela raiva e com o desejo de desvendar o mistério daquele rosto delineado pelo relâmpago. E mais: os atacantes haviam lhe levado as armas e, naquela terra sombria, as armas de um homem eram sua vida. O dia foi passando. Quando o sol se pôs, a selva deu lugar à terra de florestas e, ao crepúsculo, Kane saiu numa planície coberta de capim e pontilhada de árvores, e viu, na outra extremidade dela, um humilde agrupamento de colinas. As pegadas levavam diretamente para o outro lado da planície, e Kane acreditou que o destino dos incursores fosse aquelas colinas baixas e lisas.
Ele hesitou; de um lado a outro da pastagem, chegavam os rugidos trovejantes de leões, ecoando e retumbando de uns vinte pontos diferentes. Os grandes gatos estavam começando a espreitar sua presa, e seria suicídio se aventurar pelo vasto espaço aberto, armado apenas com um machado. Kane encontrou uma árvore gigante e, escalando-a, se acomodou numa bifurcação tão confortavelmente quanto pôde. Lá fora, do outro lado da planície, ele viu um ponto de luz tremeluzindo entre as colinas. Logo, na planície, se aproximando das colinas, viu outras luzes: a tremeluzente linha serpentina de fogo que se movia em direção às colinas, agora mal visíveis contra as estrelas ao longo do horizonte. Era a coluna de atacantes com seus cativos, ele percebeu. Seguravam tochas e viajavam rapidamente. As tochas eram, sem dúvida, para manterem os leões à distância, e Kane imaginou que o destino deles devia estar bastante próximo, vez que eles arriscavam uma marcha noturna naqueles pastos freqüentados por carnívoros.
Enquanto observava, via os tremeluzentes pontos de fogo se moverem para cima e, por pouco tempo, cintilarem por entre as colinas; logo, não viu mais nada. Especulando sobre o mistério de tudo isso, Kane dormiu, enquanto os ventos noturnos sussurravam mistérios obscuros da antiga África por entre as folhas, e os leões rugiam sob sua árvore, açoitando suas caudas peludas enquanto miravam para o alto com olhos famintos.
A aurora mais uma vez iluminou o dia com rosa e ouro, Solomon desceu de seu poleiro e continuou sua jornada. Comeu o restante do alimento que havia trazido, bebeu de um regato que parecia completamente puro e refletiu sobre a chance de encontrar comida por entre as colinas. Se não achasse, poderia estar numa situação precária, mas Kane já havia passado fome antes – sim, já estivera faminto, passando frio e cansado. Sua estrutura longilínea, de ombros largos, era dura como ferro e flexível como aço.
Assim, ele caminhou corajosamente pelas savanas, cautelosamente atento para leões à espreita, mas sem relaxar o passo. O sol subiu ao zênite e mergulhou a oeste. Quando se aproximou da cordilheira baixa, esta começou a ficar mais nítida. Ele viu que, ao invés de colinas ásperas, se aproximava de um baixo planalto que se erguia abruptamente da planície que o cercava, e parecia ser plano e nivelado. Viu árvores e alta grama nas bordas, mas os penhascos pareciam áridos e rugosos. Contudo, não tinham mais do que vinte e poucos metros de altura, até onde ele podia ver, e não imaginou grande dificuldade em galgá-los.
Aproximando-se deles, ele viu que eram quase rocha sólida, embora coberta por uma camada bastante espessa de terra. Havia matacões caídos em vários lugares, e ele viu que um homem ativo era capaz de escalar os penhascos em várias partes. Mas ele viu algo mais: uma larga estrada que serpenteava para o alto da íngreme inclinação do despenhadeiro, e para o alto levavam as pegadas que ele estava seguindo.
Kane se aproximou do caminho, notando a qualidade do trabalho da estrada – certamente, não se tratava de um mero caminho para animais, ou mesmo uma trilha nativa. A estrada havia sido talhada dentro do penhasco com perfeita habilidade, e era pavimentada com blocos polidamente cortados de pedra.
Cauteloso como um lobo, ele evitou a estrada; mais adiante, achou uma inclinação menos íngreme, à qual subiu. Não era um piso seguro; e os matacões, que pareciam se equilibrar no declive, ameaçavam rolar em sua direção; mas ele concluiu a tarefa sem muito perigo, e chegou à beira do penhasco.
Kane se encontrava sobre uma inclinação áspera e salpicada de matacões, a qual se erguia de forma íngreme sobre uma vastidão plana. De onde se encontrava, ele viu o largo planalto se espalhar sob seus pés, atapetado com luxuriante grama verde. E no meio... ele piscou os olhos e sacudiu a cabeça, pensando que olhava para alguma miragem ou alucinação. Não! Ainda estava lá: uma imponente cidade murada, se erguendo na planície gramada. Viu as ameias, as torres além, com pequenas figuras se movendo ao redor delas. Do outro lado da cidade, percebeu um pequeno lago, sobre cujas margens se estendiam jardins e campos luxuriantes, e vastidões de campinas ocupadas por gado que pastava.
O espanto diante da visão congelou o puritano por um instante; logo, o tinido de um calcanhar de aço numa pedra o colocou rapidamente quase encarando o homem, que havia chegado por entre os matacões. Este homem era forte e de constituição larga, quase tão alto quanto Kane e mais pesado. Seus braços nus tinham os músculos salientes, e suas pernas eram como pilares nodosos de ferro. Seu rosto era uma duplicata daquele que Kane tinha visto no clarão do relâmpago... feroz, de barba negra; o rosto de um homem branco com olhos arrogantes e predatório nariz em forma de gancho. Do pescoço taurino aos joelhos, ele vestia um corselete de escamas de ferro, e na cabeça havia um elmo de ferro. Um escudo de madeira de lei e couro, reforçado com metal, se encontrava em seu braço esquerdo, uma adaga no cinto e uma curta, porém pesada, maça de ferro na mão.
Tudo isso Kane viu num relance, quando o homem rugiu e deu um salto. O inglês percebeu, naquele momento, que não haveria algo como uma discussão, e que seria uma luta até a morte. Como um tigre, ele saltou ao encontro do guerreiro, arremetendo o machado com toda a força de sua constituição longilínea. O guerreiro aparou o golpe no escudo. O gume do machado se dobrou, o cabo se estilhaçou na mão de Kane e o escudo se despedaçou.
Levado pelo movimento de sua investida selvagem, o corpo de Kane colidiu contra seu rival, o qual deixou cair o escudo inutilizado e, cambaleando, se engalfinhou com o inglês. Fazendo força e ofegando, eles cambaleavam sobre pés bem firmados, e Kane rosnava feito um lobo ao sentir toda a força do adversário. A armadura dificultava o inglês, e o guerreiro diminuíra o aperto na maça de ferro e se esforçava ferozmente – para espatifá-la na cabeça desprotegida de Kane.
O inglês se esforçava para prender o braço do guerreiro, mas seus dedos que agarravam falharam, e a maça colidiu repugnantemente contra sua cabeça nua. Novamente, ela caiu, enquanto uma bruma de fogo obscurecia a visão de Kane, mas sua violenta torção instintiva a evitou, embora ela houvesse meio amortecido o ombro dele, rasgando a pele de modo que o sangue brotou em pingos.
Enlouquecido, Kane investiu ferozmente contra o corpo robusto daquele que brandia a maça, e uma mão a agarrar cegamente se fechou no cabo da adaga, no cinto do guerreiro. Puxando-a, esfaqueou cega e selvagemente.
Engalfinhados, os lutadores cambalearam para trás, um esfaqueado em silêncio venenoso, e o outro se esforçando para libertar o braço de modo que pudesse acertar um golpe destruidor. Os golpes curtos e meio estorvados do guerreiro resvalavam na cabeça e ombro de Kane, rasgando a pele e derramando sangue. Lanças vermelhas de agonia perfuravam o cérebro nublado do inglês. E, silenciosamente, a adaga em sua mão a estocar resvalava nas escamas de aço que protegiam o corpo de seu rival.
Ofuscado, atordoado e lutando instintivamente e sozinho como um lobo, Kane afundou os dentes, feito presas, no grande pescoço taurino de seu inimigo. A carne rasgada e um jorro abundante de sangue arrancaram um grito angustiado daquele corpo poderoso. A maça que açoitava cambaleou, e o guerreiro recuou. Eles cambalearam na beira de um precipício baixo e caíram, rolando rapidamente e agarrados. Chegaram ao pé da inclinação, e Kane mais acima. A adaga em sua mão cintilou acima de sua cabeça e reluziu para baixo, afundando até o cabo na garganta do guerreiro. O corpo de Kane balançou para a frente com o golpe, e ele jazeu inconsciente sobre seu inimigo morto.
Jaziam num poço largo de sangue. No céu, apareceram pequenos pontos, negros contra o azul, girando, circulando e mergulhando cada vez mais para baixo. Logo, de dentro dos desfiladeiros, apareceram homens, similares em trajes e aparência ao que jazia morto sob o corpo inconsciente de Kane. Haviam sido atraídos pelos ruídos da luta, e agora estavam próximos, discutindo o assunto em tons ásperos e guturais. Havia escravos um pouco distantes deles em total silêncio.
Eles arrastaram os corpos dali e descobriram que um estava morto, e o outro provavelmente morrendo. Então, após alguma discussão, fizeram uma padiola com suas lanças e suspensórios de couro para bainhas de espadas, e ordenaram a seus escravos que erguessem os corpos e os carregassem. O grupo partiu em direção à cidade, que luzia estranhamente no meio da planície gramada.

2)

Solomon Kane recuperou a consciência. Estava deitado num leito coberto com peles finamente ornamentadas, num quarto espaçoso, cujo chão, paredes e teto eram de pedra. Havia uma janela, fortemente trancada, e uma única porta. Do lado de fora, havia um guerreiro robusto, muito parecido com o homem que ele havia matado.
Então, Kane descobriu outra coisa: havia correntes douradas em seus pulsos, pescoço e tornozelos. Estavam unidas num padrão intrincado, e amarradas a um aro fixo na parede com uma forte tranca de prata.
Kane descobriu que seus ferimentos haviam sido enfaixados, e ponderou sobre sua situação de escravo, acolhido com comida e um tipo de vinho púrpura. O inglês não deu atenção à conversa e bebeu intensamente. O vinho estava drogado e ele logo caiu no sono. Várias horas depois, ele acordou, e percebeu que as ataduras haviam sido trocadas. Um guarda diferente se encontrava do lado de fora da porta... um homem do mesmo aspecto do soldado anterior, contudo: musculoso, de barba negra e vestido em armadura.
Desta vez em que acordou, ele se sentiu forte e revigorado. Kane rapidamente decidiu que, quando o escravo retornasse, ele procuraria aprender algo dos curiosos arredores no qual caíra. O barulho de sandálias de couro nos azulejos anunciou a chegada de alguém, e Kane se ergueu sentado em seu leito quando a figura adentrou o quarto.
No fundo, se movia furtivamente o escravo que havia trazido a comida de Kane. Diante dele, um bando de homens se reunia num pequeno grupo: vestidos com túnicas, inescrutáveis, com rostos barbeados e cabeças raspadas. E, um pouco afastado deles, havia um homem cujo aspecto dominava todo o cenário. Era alto, com roupas de seda presas por um cinto de escamas douradas. Seu cabelo e barba preto-azulados eram curiosamente encaracolados; e seu rosto era aquilino, cruel e predatório. A arrogância dos olhos, a qual Kane percebeu como característica da raça desconhecida, estava muito mais evidente neste homem do que nos outros. Em sua cabeça havia um aro de ouro curiosamente entalhado, e em sua mão um bastão dourado. A atitude dos outros em relação a ele era de extrema subserviência, e Kane acreditou que estava olhando para o rei, ou para o sumo-sacerdote da cidade.
Ao lado desta pessoa, havia um homem mais baixo e gordo, de rosto e cabeça raspados, vestido em túnicas iguais às usadas pelas pessoas menos importantes no fundo, mas muito mais suntuosas. Na mão, ele levava um chicote composto de seis tiras de couro, amarradas a um cabo incrustado de jóias. As tiras terminavam em puas triangulares de metal, e o todo representava o instrumento mais cruel de castigo que Kane já havia visto. O homem que o segurava tinha olhos pequenos, astutos e ardilosos, e toda a sua atitude era uma mistura de bajuladora subserviência ao homem com o cetro, e de intolerante tirania para com os seres inferiores.
Kane lhes devolveu o olhar, tentando reconhecer um indefinível senso de familiaridade. Havia algo nas feições desse povo que sugeria vagamente os árabes – embora fossem estranhamente diferentes de qualquer árabe que ele tivesse visto. Falavam simultaneamente, e sua linguagem tinha, às vezes, um som de alguma forma familiar. Mas ele não conseguia definir estes vagos lampejos de meia-lembrança.
Por fim, o homem alto com o cetro se virou e caminhou majestosamente para a frente, seguido pelos seus companheiros submissos. Kane foi deixado sozinho. Após algum tempo, o gordo segundo-em-comando retornou, com meia-dúzia de soldados e acólitos. Entre eles, estava o jovem escravo que trouxe a comida de Kane, e uma figura alta e sombria, usando apenas uma tanga, e que trazia uma chave grande no cinto. Os soldados cercaram Kane, com as lanças preparadas, enquanto este homem soltava as correntes do aro na parede. Eles o cercaram e, agarrando-lhe as correntes, indicaram para que ele os seguisse. Rodeado por seus captores, Kane saiu do quarto para o que parecia ser uma série de largas galerias, serpenteando ao redor da vasta estrutura. Piso após piso, eles subiram e finalmente adentraram um compartimento muito semelhante ao que haviam deixado e com mobília semelhante. As correntes de Kane foram presas a um aro, na parede de pedra próxima à única janela. Ele podia ficar de pé, deitado ou sentado no leito coberto de peles, mas não conseguia dar meia dúzia de passos em qualquer direção. Vinho e comida foram colocados à sua disposição.
Seus captores o deixaram, e Kane percebeu que a porta não estava trancada e que não havia nenhum guarda colocado diante dela. Ele imaginou que eles achavam suas correntes suficientes para contê-lo, e, após testá-las, percebeu que estavam certos. Do contrário, não haveria outra razão para a aparente negligência deles, como havia percebido.
O inglês olhou para fora da porta, a qual era maior que a outra, e não tão obstruída. Estava olhando para baixo, em direção à cidade, desde uma altura considerável. Abaixo dele, havia ruas estreitas, largas avenidas flanqueadas pelo que pareciam serem colunas e leões de pedra entalhada, e acima, grandes extensões de casas com tetos planos. Muitas das construções eram de pedra, e as outras, de tijolos secos ao sol. Havia uma imponência vagamente desagradável ao redor desta arquitetura – um tema sombrio e pesado, que parecia sugerir um caráter taciturno e levemente inumano dos construtores.
Um muro que cercava a cidade era alto e grosso, com torres espaçadas a intervalos regulares. Ele viu figuras com armaduras se moverem como sentinelas ao longo da muralha, e meditou sobre o aspecto guerreiro deste povo. As ruas e mercados abaixo dele apresentavam um labirinto colorido, enquanto o povo ricamente vestido se movia num panorama sempre mutável.
Quanto à construção que lhe servia de prisão, Kane pouco conseguiu imaginar de sua natureza. Contudo, abaixo de si, ele viu uma série de andares sólidos descendo como degraus gigantes. Deveria ser, ele achou com uma sensação bastante desagradável, construída como a fabulosa Torre de Babel: uma camada sobre outra.
Kane voltou sua atenção ao quarto. Os muros eram ricos em decorações murais, entalhes pintados em várias cores, bem-matizadas e combinadas. De fato, a arte era de um padrão tão elevado quanto qualquer uma que o inglês havia visto na Ásia ou Europa. Muitas das cenas eram de guerra ou de caça – homens fortes, com barbas negras que eram freqüentemente encaracoladas, em armaduras, matando leões ou expulsando outros guerreiros diante deles. Alguns dos guerreiros perseguidos eram negros nus; outros lembravam bastante seus perseguidores.
As figuras humanas não eram tão bem retratadas quanto as das feras; eram convencionadas a um ponto que freqüentemente dava a elas um aspecto um tanto rígido. Mas os leões eram retratados com vívido realismo. Algumas das cenas mostravam os matadores de barbas negras em carruagens, puxadas por cavalos de respiração ardente, e Kane teve novamente aquela estranha sensação de familiaridade, como se já houvesse visto estas cenas – ou cenas semelhantes – antes. As carruagens e cavalos, ele percebeu, eram inferiores aos leões em aparência de vida. A imperfeição não estava na estilização, mas na ignorância do artista em relação ao tema, Kane percebeu, notando erros que pareciam inadequados, considerando-se a habilidade com a qual haviam sido retratados.
O tempo passou rapidamente, enquanto ele refletia sobre os entalhes. No momento seguinte, o escravo silencioso entrou com comida e vinho.
Quando ele serviu os alimentos, Kane falou com ele num dialeto das tribos do mato, a uma das quais ele acreditou que o homem pertencia, pois notara certas cicatrizes em suas feições. O rosto obtuso brilhou levemente, e o homem respondeu numa língua similar o bastante para Kane entendê-lo.
- Que cidade é esta?
- Ninn, mestre.
- Quem é esta gente?
O escravo bronco sacudiu a cabeça, em dúvida:
- Eles ser povo muito antigo, mestre. Têm morado aqui há muito tempo.
- Foi o rei deles que veio ao meu quarto com os homens dele?
- Sim, mestre. Aquele ser Rei Asshur-ras-arab.
- E o homem com o chicote?
- Yamen, o sacerdote, mestre persa.
- Por que me chama assim? – perguntou Kane, embaraçado.
- Os amos lhe nomearam assim, mestre...
O escravo recuou e sua pele ficou pálida, quando a sombra de uma figura alta atravessou o vão da porta. Um gigante seminu, de cabeça raspada, entrou, e o escravo caiu de joelhos, lamentando o próprio terror. Dedos poderosos se fecharam ao redor do pescoço apavorado, e Kane viu os olhos do infeliz escravo se sobressaindo e sua língua saindo rapidamente da boca aberta. Seu corpo se contorcia e agitava em vão; mãos se agarravam cada vez mais fracamente em pulsos de ferro. Logo, ele amoleceu nas mãos de seu matador. Quando o guerreiro de cabeça raspada o soltou, o cadáver despencou flácido ao chão. O guerreiro bateu palmas, e um par de escravos entrou. Seus rostos ficaram pálidos diante da visão do corpo de seu companheiro, mas com um gesto, eles indiferentemente agarraram os pés do homem morto e lhe arrastaram o corpo.
O guerreiro se virou para a porta, e seus olhos escuros e implacáveis encontraram o olhar de Kane, como que em aviso. O ódio latejou nas têmporas de Kane, e foram os olhos sombrios que caíram diante da fúria fria do olhar feroz do inglês. O homem partiu silenciosamente, deixando Kane com suas meditações.
Quando a comida foi novamente trazida para Kane, ela foi levada por um jovem escravo, de membros longos e esguios, e aparência benévola e inteligente. Kane não tentou falar com ele; aparentemente, os amos não desejavam que seu cativo aprendesse qualquer coisa sobre eles por algum motivo ou outro.
Por quantos dias Kane ficou no quarto alto, ele nunca soube. Cada dia era exatamente como o anterior, e ele perdeu a conta do tempo. Às vezes, o sacerdote Yamen aparecia e o observava com um ar satisfeito, que fazia os olhos de Kane se avermelharem com o desejo de matar; às vezes, o gigante assassino aparecia silenciosamente, para desaparecer também silenciosamente.
Os olhos de Kane se firmavam na chave que pendia do cinto do gigante silencioso. Se ele pudesse por apenas um momento alcançar... Mas seu captor tinha o cuidado de ficar fora do alcance, exceto quando Kane era cercado por guerreiros com azagaias prontas.
Então, uma noite naquele quarto, chegou o sacerdote Yamen, com o gigante silencioso chamado Shem e uns 50 acólitos e soldados. Foi Shem quem destrancou as correntes de Kane da parede e, entre duas colunas de soldados e sacerdotes, o inglês foi escoltado ao longo dos corredores serpenteantes, que eram iluminados por tochas resplandecentes, fixas nos nichos ao longo das paredes, e seguras nas mãos dos sacerdotes.
Naquela luz, Kane observou novamente as figuras entalhadas, que avançavam interminavelmente ao redor das paredes maciças dos corredores. Muitas delas estavam em tamanho natural; algumas obscurecidas e um tanto desfiguradas como se pela idade. Muitas delas, Kane notou, retratavam homens em carruagens puxadas por cavalos, e ele concluiu que as figuras posteriores e imperfeitas, de montarias e carruagens, haviam sido copiadas destes entalhes mais velhos. Aparentemente, não havia mais cavalos ou carruagens na cidade. Várias diferenças raciais eram evidentes nas figuras humanas – os narizes curvos e negras barbas encaracoladas da raça dominante se mostravam claramente distintos. Seus oponentes eram, às vezes, homens negros; às vezes, homens como eles; e ocasionalmente, homens altos, de membros longos, com feições inconfundivelmente árabes. Era surpreendente notar que, em algumas das cenas mais antigas, os homens desenhados tinham aparência e feições totalmente diferentes das dos ninnitas. Estes estranhos eram sempre retratados em cenas de batalhas e de forma significativa, Kane notou; mas nem sempre em retratos. Freqüentemente, pareciam estar ganhando a luta, e em nenhum lugar o inglês conseguiu encontrá-los retratados como escravos. Mas o que o interessava era a familiaridade: aquelas feições entalhadas eram como a fisionomia de um amigo, numa terra estranha ao aventureiro. Apesar de suas armas e roupas estranhas e bárbaras, poderiam ser ingleses, com suas feições européias e cachos amarelos.
Em algum lugar, há muito, muito tempo, Kane sabia, os ancestrais dos homens de Ninn haviam guerreado contra homens aparentados com os próprios ancestrais dele. Mas, em que era, e em qual terra? Certamente, as cenas não estavam postas no país que agora era a terra dos ninnitas, pois estas cenas mostravam planícies férteis, colinas cobertas de grama e rios largos. Sim, e grandes cidades como Ninn, mas estranhamente diferentes.
E, subitamente, Kane se lembrou onde tinha visto entalhes semelhantes, onde reis com negras barbas encaracoladas matavam leões, desde as carruagens. Ele os vira em pedaços desagregados de alvenaria, que marcavam o local de uma cidade há muito esquecida da Mesopotâmia, e os homens haviam lhe dito que aquelas ruínas eram tudo e que restava de Nínive a Sangrenta, a amaldiçoada por Deus.
O inglês e seus captores haviam alcançado a camada térrea do grande templo, e passaram por entre colunas enormes, atarracadas e esculpidas como as paredes. Finalmente, chegaram a um vasto espaço circular, entre a parede maciça e os pilares que flanqueavam. Esculpido da pedra da enorme parede, havia um ídolo colossal – feições entalhadas, tão desprovidas da fraqueza e bondade humana quanto o rosto de um monstro da Idade da Pedra.
Diante do ídolo, num trono de pedra na sombra dos pilares, sentava-se o Rei Asshur-ras-arab. A luz da fogueira salpicava-lhe o rosto fortemente esculpido, de modo que Kane, a princípio, pensou que fosse um ídolo que se sentasse no trono.
Diante do deus e de frente para o trono do rei, havia um trono menor. Um braseiro, num tripé dourado, se encontrava diante deste; carvões ardiam no braseiro, e a fumaça se encaracolava indolentemente para cima.
Uma graciosa túnica, de tremeluzente seda verde, foi posta sobre Kane, escondendo suas roupas esfarrapadas e manchadas, e as correntes douradas. Ele foi levado a se sentar no trono diante do braseiro, e o fez silenciosamente. Então, seus calcanhares e pulsos foram habilmente presos ao trono, escondidos pelas dobras da túnica de seda.
Os sacerdotes menores e os soldados foram embora, deixando apenas Kane, o sacerdote Yamen e o rei sobre seu trono. Atrás das sombras, por entre as colunas em forma de árvores, se vislumbrava ocasionalmente um brilho de metal, como vagalumes no escuro. Guerreiros ainda estavam à espreita lá, fora da luz. Ele sentiu que algum tipo de cena seria estabelecido. Kane percebeu uma sugestão de charlatanismo em todo o procedimento.
Agora, Asshur-ras-arab erguia um bastão dourado e batia uma vez sobre um gongo que pendia próximo ao seu trono. Uma nota cheia e doce, como um carrilhão distante, ecoou entre as extensões obscuras do templo sombreado. Ao longo da avenida escura por entre as colunas, veio um grupo de homens, os quais Kane imaginou serem os nobres daquela cidade fantástica. Eram homens altos, de barbas negras e modos soberbos, vestidos em seda tremeluzente e ouro lampejante. E, entre eles, caminhava alguém preso por correntes douradas: um jovem, cuja atitude parecia uma mistura de apreensão e desafio.
O grupo se ajoelhou diante do rei, curvando suas cabeças até o chão. A uma palavra dele, eles se levantaram, e encararam o inglês e o deus atrás dele. Agora Yamen – com a luz da fogueira reluzindo em sua cabeça raspada e dentro de seus olhos malignos, de modo que parecia um demônio barrigudo – gritou algum tipo de canto sobrenatural e lançou um punhado de pó dentro do braseiro. Instantaneamente, uma fumaça esverdeada se encapelou para o alto, ocultando parcialmente o rosto de Kane. O inglês teve ânsias de vômito; o cheiro e sabor eram extremamente desagradáveis. Ele se sentiu embriagado e drogado. Seu cérebro ficou tonto, como o de um bêbado, e ele puxou violentamente suas correntes. Apenas semi-consciente do que dizia, pragas fora do comum explodiram de seus lábios.
Ele estava fracamente consciente de que Yamen bradou ferozmente diante de suas pragas, o sacerdote se curvando para a frente em atitude de escuta. Então, o pó se apagou, a fumaça diminuiu e Kane ficou embriagado e desnorteado sobre o trono.
Yamen se virou em direção ao rei e se curvou profundamente. Endireitou-se e, com os braços estendidos, falou num tom sonoro. O rei solenemente repetiu suas palavras e Kane viu o rosto do nobre prisioneiro ficar branco. Então, seus captores lhe agarraram os braços, e o grupo se afastou devagar, seus passos voltando medonhamente pela vastidão sombreada.
Como fantasmas silenciosos, os soldados saíram das sombras e o desacorrentaram. Novamente, eles se agruparam ao redor de Kane e o levaram cada vez mais para cima, através dos corredores obscuros, até seu quarto, onde Shem novamente lhe prendeu as correntes à parede. Kane se sentou em seu leito, com a mão no queixo, tentando achar alguma razão em todas as ações bizarras que havia testemunhado. E, dali a pouco, ele percebeu que havia uma agitação exagerada nas ruas abaixo.
O inglês olhou, curioso, para fora de sua janela. Grandes fogos brilhavam na praça do mercado e silhuetas de homens, curiosamente destacadas, iam e vinham. Pareciam estar se ocupando ao redor de uma figura no centro do mercado, mas se reuniam tão densamente ao redor dela, que ele não conseguiu entender nada daquilo. Um círculo de soldados rodeava o grupo; a luz das fogueiras se refletia em suas armaduras. Ao redor deles, gritava uma multidão desordenada e turbulenta, berrando e bradando.
Súbito, um grito de agonia medonha atravessou a algazarra, e os gritos se apagaram por um instante, para serem renovados com mais força que antes. A maior parte do clamor soou como protesto, Kane pensou, embora, misturado com ele, houvesse o som de escárnios, uivos zombeteiros e risada diabólica. E, durante toda a tagarelice, soaram aqueles guinchos horríveis e insuportáveis.
Um rápido ruído de pés descalços soou nos ladrilhos, e o jovem escravo chamado Sula correu para dentro e enfiou a cabeça na janela, ofegando de agitação. A luz das fogueiras lá de fora brilhava em seu rosto contorcido.
- O povo luta com os lanceiros. – ele exclamou, esquecendo, em sua agitação, a ordem de não conversar com o forasteiro cativo – A maioria do povo amava muito o jovem Príncipe Bel-lardath... ó, mestre, não havia perversidade nele! Por que você ordenou que o rei o esfolasse vivo?
- Eu?!! – exclamou Kane, surpreendido e assombrado – Não falei nada! Nem sequer conheço este príncipe! Nunca o vi.
Sula virou a cabeça e olhou diretamente para o rosto de Kane.
- Agora sei o que eu havia pensado secretamente, mestre. – ele disse na língua Bantu que Kane entendia – Você não é deus, nem porta-voz de um deus, mas um homem como eu havia visto, antes que os homens de Ninn me capturassem. Outrora, quando eu era pequeno, vi homens fundidos em seu molde, os quais vieram com seus servos nativos e mataram nossos guerreiros com armas que falavam com fogo e trovão.
- De fato, sou apenas um homem. – respondeu Kane, atordoado – Mas, o que... Eu não entendo. O que estão fazendo lá na praça do mercado?
- Estão esfolando vivo o Príncipe Bel-lardath – respondeu Sula – Foi dito livremente entre os mercados que o rei e Yamen odiavam o príncipe, que é do sangue de Abdulai. Mas ele tinha muitos seguidores entre o povo, especialmente entre os Arbii, e nem mesmo o rei ousava condená-lo à morte. Mas quando você foi trazido para dentro do templo, secretamente, sem que ninguém na cidade o soubesse, Yamen disse que você era porta-voz dos deuses. E disse que Baal havia revelado a ele que o Príncipe Bel-lardath havia despertado a fúria dos deuses. Assim, lhe trouxeram para diante do oráculo dos deuses...
Kane praguejou nauseado. Que coisa incrível... e horrível... pensar que suas fortes blasfêmias em Inglês haviam condenado um homem a uma morte horrível. Sim... o astuto Yamen havia traduzido suas palavras impensadas ao seu próprio modo. E assim, o príncipe, a quem Kane nunca tinha visto antes, se contorcia diante das facas esfoladoras de seus executores na praça do mercado lá embaixo, onde a multidão guinchava ou escarnecia.
- Sula – ele disse –, como se chama este povo?
- Assírios, mestre. – respondeu o escravo, desatento, olhando com horrorizado fascínio para a cena pavorosa abaixo.

3)

Nos dias seguintes, Sula encontrava oportunidades, de tempos em tempos, para conversar com Kane. Ele pouco podia dizer ao inglês sobre as origens dos homens de Ninn. Só sabia que eles tinham vindo do leste há muito, muito tempo, e construído sua imponente cidade no planalto. Apenas as lendas obscuras de sua tribo falavam dele. Seu povo vivia nas planícies onduladas bem ao sul, e havia guerreado contra o povo da cidade por eras incalculáveis. Sua tribo era chamada de Sulas, e eles eram fortes e guerreiros, ele disse. De tempos em tempos, faziam ataques-surpresa aos ninnitas, e ocasionalmente os ninnitas retribuíam a incursão, mas não se aventuravam freqüentemente para longe do planalto. Num daqueles ataques-surpresa, Sula havia sido capturado. Ultimamente, os ninnitas haviam sido forçados a irem mais longe, em busca de escravos, quando as tribos evitavam o planalto sombrio, e geração a geração, voltavam cada vez mais para dentro da selva.
A vida de um escravo em Ninn era dura, disse Sula, e Kane acreditava nele ao ver as marcas de chicote, cavalete e ferro quente no corpo do jovem. O passar das eras não havia suavizado o espírito dos assírios, nem lhes modificado a violência... uma máxima no Leste antigo.
Kane tinha muita curiosidade diante da presença deste povo antigo nesta terra desconhecida, mas Sula não tinha mais nada para dizê-lo. Vieram do Leste, há muito, muito tempo – era tudo o que Sula sabia. Agora o inglês sabia por que suas feições e linguagem haviam parecido remotamente familiares. Suas feições eram os traços originais semitas, agora modificados nos habitantes modernos da Mesopotâmia, e muitas de suas palavras tinham uma inconfundível semelhança com certas palavras e frases hebraicas.
Kane soube, através de Sula, que nem todos os habitantes eram de um só sangue. Eles não se miscigenavam com seus escravos; ou, se o faziam, o filho de tal união era instantaneamente morto. A raça dominante, Sula havia aprendido, era assíria; mas havia algumas pessoas do povo, tanto plebeus quanto nobres, que eram chamadas “Arbii”. Eram como os assírios, embora um pouco diferentes.
Outro grupo eram os “Kaldii” – feiticeiros e adivinhos, que não eram grandemente estimados pelos verdadeiros assírios. Shem, disse Sula, e a classe dele, era elamita, e Kane se sobressaltou diante do termo bíblico. Não havia muitos deles, mas eles eram os instrumentos dos sacerdotes – matadores e autores de feitos estranhos e desumanos. Sula havia sofrido nas mãos de Shem, como todos os outros escravos do templo.
E era neste mesmo Shem em quem Kane concentrava os olhos ansiosos. No seu cinto pendia a chave dourada que significava liberdade. Mas, com que lendo a expressão nos olhos frios do inglês, Shem andava com cuidado – um lúgubre gigante escuro, com um sombrio rosto entalhado. Ele não chegava ao alcance dos longos braços de aço do cativo, exceto quando acompanhado por guardas armados.
Não passou um dia sem que Kane ouvisse o bater do açoite, os gritos de escravos agonizantes sob o ferro quente, o chicote ou a faca de esfolar. Ninn era um verdadeiro Inferno, ele refletiu, governado pelo demoníaco Asshur-ras-arab e seu ardiloso e lascivo subalterno, o sacerdote Yamen. O rei também era sumo-sacerdote, como haviam sido seus ancestrais da realeza na antiga Nínive. E Kane percebeu por que eles o chamavam de persa, vendo em si próprio uma semelhança com aqueles selvagens e antigos homens tribais arianos, que haviam cavalgado de suas montanhas para varrerem o império assírio da terra. Certamente, foi fugindo daqueles conquistadores loiros que o povo de Ninn havia adentrado a África.
Os dias passaram, e Kane permaneceu prisioneiro na cidade de Ninn. Mas ele não foi mais ao templo como oráculo.
Um dia, houve confusão na cidade. Kane ouviu as trombetas soando sobre o muro, e o rufar de timbales. O aço retiniu nas ruas e o som de homens marchando se ergueu até seu ninho. Olhando para fora, além do muro e de um lado a outro do planalto, ele viu uma horda de desnudos homens negros se aproximar da cidade em formação livre. Suas lanças cintilavam ao sol, seus capacetes de plumas de avestruz esvoaçavam na brisa, e seus gritos chegavam levemente até ele.
Sula entrou correndo, com os olhos brilhando.
- Meu povo! – ele exclamou – Eles vêm contra os homens de Ninn. Meu povo é de guerreiros! Bogaga é chefe de guerra... Katayo é o rei. Os chefes de guerra dos Sulas defendem suas honras pela força de suas mãos, pois qualquer homem forte o bastante para matá-lo com as mãos nuas se torna chefe de guerra em seu lugar. Assim, Bogaga ganhou o cargo de chefe, mas demorarão muitos dias antes que alguém o mate, pois ele é o mais forte chefe de guerra deles todos!
A janela de Kane fornecia uma visão melhor por cima do muro do que qualquer outra, pois seu quarto estava no andar mais alto do templo de Baal. Yamen veio ao seu quarto, com seus guardas sombrios, Shem e outro elamita sombrio. Estavam fora do alcance de Kane, olhando através de uma das janelas.
Os enormes portões se abriram: os assírios estavam marchando para fora, para encontrarem seus inimigos. Kane calculou que ali havia 1500 guerreiros armados; ainda havia 300 na cidade, a guarda pessoal do rei, as sentinelas e tropas residenciais dos vários nobres.
A hoste, Kane notou, estava dividida em quatro partes. A central, que consistia em 600 homens, enquanto cada flanco ou ala era composto de 300. Os 300 restantes marchavam em formação compacta atrás da central, entre as alas.
Os guerreiros estavam armados com azagaias, espadas, maças e pesados arcos curtos. Em suas costas, havia aljavas eriçadas de flechas.
Os ninnitas saíram em marcha para a planície em perfeita formação e tomaram suas posições, aparentemente aguardando o ataque. Este não demoraria a acontecer. Kane estimou que os atacantes fossem pelo menos 3000 guerreiros, e mesmo àquela distância, ele pôde apreciar sua esplêndida estatura e coragem. Mas eles não tinham sistema ou formação para a guerra. Era numa grande, irregular e desordenada horda que eles corriam para a frente, para serem encontrados por uma fulminante chuva de flechas que lhes atravessava os escudos de pele de touro, como se fossem feitos de papel.
Os assírios haviam suspendido seus escudos ao redor dos pescoços, e estavam puxando e atirando metodicamente, não em rajadas regulares, como os arqueiros de Crécy e Azincourt fariam, mas firmemente e sem pausa. Com coragem indiferente, os Sulas se arremessavam para a frente, para dentro dos dentes da terrível saraivada. Kane viu linhas inteiras se dissiparem, e a planície ficar coberta de mortos. Mas os invasores avançavam, desperdiçando suas vidas como água. Kane se maravilhava diante da perfeita disciplina dos soldados semitas, que atravessavam seus movimentos como se estivessem na área de exercícios. As alas haviam se movido para a frente, suas pontas frontais se unindo ao fim da fila central e apresentando uma frente intacta. Os homens na companhia entre as alas mantinham suas posições, imóveis, não tendo ainda tido qualquer participação na batalha.
A horda invasora foi quebrada, cambaleando para trás sob os disparos mortíferos, contra os quais carne e sangue eram incapazes de resistir. A grande crescente desorganizada foi partida em pedaços e os Sulas estavam caindo desordenadamente, devido aos disparos do flanco direito e central, perseguidos pelas linhas de tiro das setas dos guerreiros ninnitas. Mas, no flanco direito, uma turba espumante de talvez 400 lutadores selvagens havia irrompido através da temível barragem e, gritando feito demônios, se chocaram contra a ala assíria. Mas, antes que as lanças se colidissem, Kane viu a subdivisão da reserva entre as alas girar e marchar aceleradamente para apoiar a ala ameaçada. Contra essa dupla muralha de 600 guerreiros encouraçados, o furioso ataque cambaleou, se quebrou e oscilou para trás.
Espadas lampejavam por entre as lanças, e Kane viu os guerreiros nus caindo como trigo diante da foice e as azagaias dos assírios dizimando-os. Nem todos os cadáveres no solo sangrento eram dos atacantes, mas onde jazia um assírio morto ou ferido, dez Sulas haviam morrido.
Agora, os atacantes estavam em fuga total pela planície, e as fileiras de ferro se moviam para a frente em passo rápido, porém organizado, disparando a cada passo, caçando os vencidos de um lado a outro do planalto e brandindo a adaga nos feridos. Não levaram prisioneiros. Os Sulas não eram bons escravos, como Solomon acabava de ver.
No quarto de Kane, os espectadores estavam aglomerados nas janelas, com os olhos grudados de fascínio diante da cena selvagem e sangrenta. O peito de Sula ofegava de fúria; seus olhos resplandeciam com a sede de sangue do selvagem, à medida que os gritos, a matança e as lanças dos homens de sua tribo inflamavam toda a ferocidade dormente em sua alma de guerreiro
Com o grito de uma pantera louca por sangue, ele se lançou às costas de seus amos. Antes que qualquer um pudesse erguer a mão, ele se apoderou da adaga no cinto de Shem e enfiou-a até o cabo entre as espáduas de Yamen. O sacerdote guinchou como uma mulher ferida e caiu de joelhos, com o sangue jorrando, e os elamitas se aproximaram do escravo furioso. Shem tentou lhe agarrar o pulso, mas o outro elamita e Sula giraram rapidamente para um abraço mortífero, brandindo suas facas, as quais ficaram instantaneamente vermelhas até o cabo.
Com os olhos resplandecendo e espuma em seus lábios, eles rolaram e se revolveram, talhando e apunhalando. Shem, tentando agarrar o pulso de Sula, foi atingido pelos corpos que colidiam, sendo lançado violentamente para o lado. Ele escorregou e se estatelou contra o leito de Kane.
Antes que ele pudesse se mover, o inglês acorrentado estava sobre ele, como um grande gato. Finalmente, havia chegado o momento pelo qual esperava! Shem estava ao seu alcance e, quando tentou se erguer, o joelho de Kane lhe golpeou o peito, quebrando-lhe as costelas. Os dedos de ferro de Kane se fecharam na sua... garganta. Solomon mal percebia os terríveis esforços de animal selvagem do elamita, que procurava em vão se livrar daquele aperto. Uma bruma vermelha cobria a visão do inglês e, através dela, ele viu o horror crescendo nos olhos inumanos de Shem... viu aqueles olhos se dilatando e ficando injetados de sangue... viu a boca escancarar e a língua sair, quando a cabeça raspada foi curvada para trás num ângulo horrível; logo, o pescoço de Shem se quebrou como um galho grosso, e o corpo retesado ficou mole nas mãos de Kane.
O inglês se apoderou da chave no cinto do morto e, no instante seguinte, se ergueu livre, sentindo uma onda selvagem de alegria cair sobre ele enquanto flexionava os membros tolhidos. Olhou ao redor do quarto. Yamen perdia a vida entre golfadas sobre os ladrilhos, e Sula e o outro elamita jaziam mortos, agarrados aos braços férreos uns dos outros, literalmente cortados em pedaços.
Kane correu rapidamente do quarto. Não tinha nenhum plano, exceto escapar do templo ao qual passara a odiar como um homem odeia o Inferno. Desceu correndo as escadas sinuosas, sem se deparar com ninguém. Evidentemente, os criados do templo estiveram amontoados nos muros, assistindo à batalha. Mas, no andar mais baixo, ele ficou cara a cara com um dos guardas do templo. O homem ficou estupidamente boquiaberto diante dele... e o punho de Kane se espatifou contra seu queixo barbudo, deixando-o inconsciente ao chão. Kane se apoderou de sua pesada azagaia. Veio-lhe o pensamento de que talvez as ruas estivessem desertas enquanto o povo assistia à batalha, e ele podia atravessar a cidade e escalar o muro, no lado próximo ao lago.
Correu através do templo arborizado por colunas e para fora do enorme portal. Havia um grupo disperso de pessoas, que guincharam e fugiram à visão da estranha figura que saía do templo sombrio. Kane desceu apressadamente a rua, em direção ao portão oposto, não vendo mais que umas poucas pessoas. Logo, ao virar para uma rua lateral, pensando em cortar caminho, ele ouviu um rugido trovejante.
À sua frente, ele viu quatro escravos carregando uma liteira ricamente ornamentada, como as que os nobres usam para passear. O ocupante era uma jovem, cujas roupas enfeitadas de jóias mostravam sua importância e riqueza. E agora, ao redor da esquina, vinha rugindo uma grande forma castanho-amarelada. Um leão, solto nas ruas da cidade!
Os escravos largaram a liteira e fugiram, guinchando, enquanto as pessoas no alto das casas gritavam. A garota deu um só grito, se arrastando para cima no próprio caminho do monstro que atacava. Ela ficou encarando-o, congelada de terror.
Solomon Kane, ao primeiro urro da fera, experimentou uma feroz satisfação. Ninn se tornara tão odiável para ele, que o pensamento de um animal selvagem, rugindo por entre suas ruas e devorando seus cruéis habitantes, tinha dado ao puritano uma indiscutível satisfação. Mas agora, ao ver a figura lastimosa da jovem encarando o devorador de homens, ele sentiu um tormento de piedade por ela, e agiu.
Quando o leão se lançou no ar, Kane arremessou a azagaia com toda a força de sua constituição férrea. Ela atingiu bem atrás da grande espádua, trespassando o corpo castanho-amarelado. Um urro ensurdecedor irrompeu da fera, que girou a uma grande distância para o lado, como se houvesse deparado com uma parede sólida; e, ao invés de garras dilacerantes, foi o pesado ombro peludo que bateu na figura frágil de sua vítima, arremessando-a para o lado enquanto a grande fera se espatifava na terra.
Kane, esquecido de sua própria situação, se lançou para a frente e ergueu a garota, tentando verificar se ela estava ferida. Esta foi uma tarefa fácil, vez que a roupa dela, assim como a da maioria das mulheres nobres assírias, era tão escassa a ponto de consistir mais em ornamentos que em revestimento. Kane se certificou de que ela estava apenas machucada e muito assustada.
Ele ajudou-a a se levantar, ciente de que uma multidão de espectadores curiosos o cercava. Passou por entre eles, que não fizeram qualquer tentativa de pará-lo. Súbito, um sacerdote apareceu e gritou algo, apontando para ele. O povo instantaneamente recuou, mas meia dúzia de soldados em armadura se adiantou, com as azagaias prontas. Kane encarou o sacerdote, a fúria lhe fervendo na alma. Estava pronto para saltar no meio deles e fazer o maior estrago possível, com as mãos nuas, antes de morrer... quando de cima das pedras da rua, soou o caminhar de homens em marcha. Um grupo de guerreiros apareceu, com as lanças vermelhas pela luta recente.
A garota gritou e correu para a frente, para lançar os braços ao redor do pescoço robusto do jovem oficial no comando. Seguiu-se um rápido ardor de conversa, a qual Kane naturalmente não conseguiu entender. Então, o oficial falou laconicamente com os guardas, os quais se afastaram. Ele avançou em direção a Kane, com as mãos vazias estendidas e um sorriso nos lábios.
Sua atitude era extremamente amigável, e o inglês percebeu que ele estava tentando expressar sua gratidão pelo salvamento da garota, a qual era sem dúvida sua irmã ou namorada. O sacerdote espumou e praguejou, mas o jovem nobre lhe respondeu em poucas palavras e fez sinais para Kane acompanhá-lo. Então, quando o inglês hesitou, desconfiado, ele puxou a própria espada e a ofereceu para Kane, com o cabo em direção a este. Kane pegou a arma; poderia ser uma forma de cortesia tê-la recusado, mas Kane estava pouco disposto a arriscar-se, e sentiu muito mais seguro com uma arma na mão.

Tradução: Fernando Neeser de Aragão.

Do blog Crônicas da Ciméria.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

diana

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ser uma pessoa má

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As pessoas boas dormem muito melhor à noite do que as pessoas más. Claro, durante o dia as pessoas más se divertem muito mais. 
                                                              

woody allen

DARIO ARGENTO’S

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O PÁSSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL

William Butler Yeats’s

leda

LEDA AND THE SWAN

A sudden blow: the great wings beating still

Above the staggering girl, her thighs caressed

By the dark webs, her nape caught in his bill,

He holds her helpless breast upon his breast.

How can those terrified vague fingers push

The feathered glory from her loosening thighs?

And how can body, laid in that white rush,

But feel the strange heart beating where it lies?

A shudder in the loins engenders there

The broken wall, the burning roof and tower

And Agamemnon dead.

Being so caught up,

So mastered by the brute blood of the air

Did she put on his knowledge with his power

Before the indifferent beak could let her drop?

LEDA E O CISNE

Súbito golpe: as grandes asas a bater
Sobre a virgem que oscila, a coxa acariciada
Por negros pés, a nuca, um bico a vem reter;
O peito inane sobre o peito, ei-la apresada.

Dedos incertos de terror, como empurrar
Das coxas bambas o emplumado resplendor?
Pode o corpo, sob esse impulso de brancor,
O coração estranho não sentir pulsar?

Um tremor nos quadris engendra incontinenti
A muralha destruída, o teto, a torre a arder
E Agamêmnon, o morto.
Capturada assim,
E pelo bruto sangue do ar sujeita, enfim
Ela assumiu-lhe a ciência junto com o poder,
Antes que a abandonasse o bico indiferente?

tradução Pércicles Eugênio da Silva Ramos

HOMO PRATICUS 2

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Laerte.

MATADORES

ROBERT ALTMAN’S

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3 WOMEN

vanessa

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terça-feira, 3 de novembro de 2009

o futuro era assim

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Laerte.

mingau

surrealismo

Vivenciamos nossa vida em forma de narrativa. Se você não consegue organizar as coisas de modo narrativo, sua vida é uma tigela caótica de mingau.

Jonathan Franzen

dylan thomas’s

MORTES E ENTRADAS

brownlady

Quase às vésperas incendiárias
De várias mortes próximas,
Quando alguém ante os despojos de quem mais amaste,
E desde sempre conhecido, tenha de abandonar
Os leões e as flamas de sua volátil respiração,
Quem dentre os teus amigos imortais
Elevaria o som dos órgãos do pó inventariado
Para lançar e cantar os teus louvores,
O que mais fundo os invocasse conquistaria a sua paz
Que não pode se afogar ou se esvair
Sem fim junto à sua chaga Nas muitas e alienantes dores
conjugais de Londres.

Quase às vésperas incendiárias
Quando diante de teus lábios e chaves,
Fechando, abrindo, se entrelacem os estranhos assassinados,
Aquele que é o mais desconhecido,
Teu vizinho, a estrela polar, sol de uma outra rua,
Mergulhará em tuas lágrimas.
Ele há de banhar teu sangue chuvoso no másculo oceano
Que percorrerá teu próprio morto
E fará girar sua esfera fora de teu fio de água
E entupirá as gargantas das conchas
Com todos os gritos desde que a luz
Começou a jorrar através de seus olhos tonitruantes.

Quase às vésperas incendiárias
De mortes e entradas,
Quando próximo e estranho, ferido nas ondas de Londres,
Hajas procurado a tua tumba solitária,
Um inimigo entre muitos, que bem sabe
Como cintila o teu coração
Nas trevas vigiadas, pulsando entre furnas e ferrolhos,
Arrancará os raios
Para tapar o sol, mergulhará, galgará tuas teclas sombrias
E fará definhar os ginetes para que recuem,
Até que aquele despojo adorado
Avulte como o último Sansão de teu zodíaco.

(tradução: Ivan Junqueira)

ambrose bierce’s

Vi no Quixotando.

sofia

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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Olha o passarinho

remeaves Estava sentado num bar noite dessas, falando razoavelmente alto  sobre uma pessoa a quem odeio. Então um homem barbudo se sentou ao meu lado e disse de forma discreta: “Por que você não manda matá-lo?”

“Já pensei nisso,” eu disse. “Não pense que não”.

“Deixe eu te ajudar a pensar nisso com clareza”, ele disse. Sua voz era profunda. Ele tinha o focinho grande. Usava terno preto fora de moda e gravata estreita. Sua pequena boca era obscena. “Você está olhando essa situação através de uma névoa vermelha de ódio”, ele disse. “Você precisa da cautela e perspicácia de um consultor de assassinatos que possa planejar o serviço para você e te economizar uma visita desnecessária ao xadrez”.

“Onde encontro um?”, eu disse.

“Você já encontrou um”, ele disse.

Kurt Vonnegut

ken russel’s

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o inferno de dante

normandy

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hitchcock’s

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strangers on a train

john carpenter’s

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richard matheson’s

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o incrível homem que encolheu

ZOLA JESUS

Almoço na Serra no Domingo de Carnaval

Na subida da serra uma mulher pequena, de chapéu de abas largas,robing fez sinal pedindo carona. Usava minissaia de cetim, bustiê de lantejoulas vermelhas, luvas brancas longas quase até o cotovelo. Parei o carro.
Vai subir? Voz de falsete. Dentes ruins. Batom vermelho brilhante. Tinha qualquer coisa numa das vistas, ligeiramente fechada e remelenta. Pestanas pintadas de rímel.
Não. Desculpe, eu disse acelerando o carro.
Se fosse uma mulher eu a teria levado comigo. Vergonha de dar carona para um travesti? Medo do travesti? Ele era tão frágil mas eu tinha medo dele? Era isso? Ou eu me aborrecera por ele não ser uma mulher e eu queria que o destino pusesse na minha frente uma mulher que me levasse para outro lugar que não aquele para onde eu estava indo?
Ao ver o muro de cerca viva senti um aperto no coração. Quando atravessei o portão de pedra comecei a chorar. Dei marcha à ré e segui pela estrada. A última vez que eu havia chorado fora há tanto tempo que eu até tinha esquecido como era.
Voltei, agora podia olhar a casa sem sobressaltos. Aquelas árvores estavam ali desde o início do mundo, e também os pássaros, os sapos, os esquilos e o lagarto preto de manchas amarelas que habitava a beira do rio.
A senhorita Sônia está na piscina, vou conduzi-lo até lá, disse o copeiro que me recebeu na varanda da casa.
Não é preciso, sei o caminho.
Carros nas alamedas. O gramado e o jardim estavam bem cuidados. Havia caramanchões novos, cobertos de trepadeiras.

Parei a certa distância da piscina cercada de mesas cobertas por enormes guarda-sóis coloridos. As pessoas em trajes de banho deitavam-se em espreguiçadeiras, nadavam, conversavam, bebiam e comiam salgadinhos servidos por garçons de preto. "Apenas um grupo de amigos mais chegados", dissera Sônia. Eram umas cem pessoas.
Você que é o Zeca?, perguntou uma garota vestida com uma pequena tanga. Eu sou Suely, irmã da Sônia, ela está na piscina. Por que você não veste a sua roupa de banho?
Eu não trouxe.
Suely segurou a minha mão. Vem que eu vou te arranjar um calção.
Não, eu não quero tomar banho de piscina.
Você está muito pálido, com uma cor horrível.
Não quero, obrigado.
Quer beber alguma coisa?
Não obrigado. Me faz um favor? Chama Sônia pra mim.
Eu não queria ser apresentado àquela gente, sorrir, apertar mãos.
Sônia veio correndo. Seu corpo queimado de sol parecia feito de cobre. Quis me beijar na boca, mas eu virei o rosto.
O que é? Está zangado?
Não. Vai botar o teu calção de banho. Eu não trouxe calção de banho.
Eu te arranjo um. A água da piscina está uma maravilha.
Eu não quero tomar banho de piscina.
Você está branco demais. Destoante.
Destoante do que ou de quem?
De mim, por exemplo. Sônia riu, dentes muito brancos. Vem que eu quero te apresentar minha mãe e meu pai.
Depois.
Eles querem muito conhecer você.
Depois.
O que é que você tem?
Nada. Tua casa é bonita.
E você ainda não viu tudo, este sítio é enorme. Está vendo lá adiante? Tem um bosque tão grande que a gente até se perde dentro dele. E do outro lado do rio tem um pomar com mais de mil árvores frutíferas. Só jabuticabeiras são mais de cem.
Surgiu ao nosso lado um homem de calção de banho, segurando um copo. Ele colocou a mão com o copo no meu ombro e a outra mão no ombro de Sônia.
Então este é o jovem que está namorando a minha filha? Onde é que está o seu copo? Não está bebendo nada? E o seu calção?
Sem esperar resposta tocou com o copo frio no meu braço, sorriu e afastou-se. Adiante parou para falar com um casal.

Eu estava morrendo de saudades, disse Sônia.
E o lagarto da beira do rio?
Sônia me olhou sem entender, por alguns segundos.
Ah! o lagarto. Papai mandou o caseiro matar, a mamãe morria de medo dele. Como é que você sabia que tinha um lagarto aqui?
Esta casa já foi minha, eu disse. Passei minha vida nela.
É mesmo? Que coisa mais engraçada. Nós compramos o sítio no ano passado.
Então foi de vocês que nós compramos?
Olhei seu rosto perfeito, saudável. Fizeram uma pulseirinha de relógio com a pele do lagarto?, perguntei.
Papai, vem cá, que coisa mais engraçada.
O pai de Sônia parou de conversar com o casal e se aproximou de nós.
Você não está bebendo nada, meu rapaz? Não quer um drinque?
Papai, você sabia que esta casa já foi do Zeca?
Não, não sabia, disse o pai de Sônia, eu não cheguei a conhecer ninguém da sua família, toda a operação foi feita através de um corretor, logo que chegamos de São Paulo. Soube do que aconteceu com vocês. A vida é assim mesmo. Mas vejo que você suportou bem os golpes. Vá botar o seu calção, rapaz. Arranja um drinque para ele, Sônia.
Outro sorriso, nova retirada. O pai dela não parava. Cem convidados.
Vocês fizeram uma pulseirinha com a pele do lagarto? ou uma sandália? ou foi uma carteira de notas para o papai banqueiro?
Meu bem, o que está acontecendo com você? Nunca te vi assim.
Estávamos andando por dentro do bosque, indo na direção do rio. Sônia havia colocado um roupão sobre a roupa de banho. Paramos em frente à cachoeira. Tirei o roupão de Sônia e coloquei-o no chão.
É pena que você não esteja de calção, podíamos tomar um banho de cachoeira, disse Sônia aflita.
Deita, eu disse.
Não, meu bem, por favor.
Agarrei os ombros de Sônia e sacudi o seu corpo.
Por favor, você está me machucando. Obriguei-a a deitar-se. Arranquei o seu biquíni. Vira de costas, anda.
Você acha que é assim que um homem trata a mulher que ele ama?
Cala a boca, eu disse, agarrando-a com força. Quando acabei, levantei-me e fui embora sem olhar para trás. Entrei no carro. Desci a serra velozmente. Queria ter coragem para jogar o carro num precipício e acabar com tudo. Mas apenas chorava. Duas vezes no mesmo dia! Que inferno estava acontecendo comigo?


Rubem Fonseca

Captivated

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ben Templesmith’s

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Mais um grande gibi trazido a nós pelo Vertigem.

um minuto

boneca possuída

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luc besson’s

adele

Sir Dracula

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melany

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MESTRE DOS HOMENS: O ARANHA

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ninfeta

LOLITA, LUZ DE MINHA VIDA, LABAREDA EM MINHAsuzene-ang1-187x300 CARNE. MINHA ALMA, MINHA LAMA. LO-LI-TA: A PONTA DA LÍNGUA DESCENDO EM TRÊS SALTOS PELO CÉU DA BOCA PARA TROPEÇAR DE LEVE, NO TERCEIRO, CONTRA OS DENTES. LO-LI-TA.

PELA MANHÃ ERA LÔ, NÃO MAIS QUE LÔ, COM SEU METRO E QUARENTA E SETE DE ALTURA E CAlÇANDO UMA ÚNICA MEIA SOQUETE. ERA LOLA AO VESTIR OS JEANS DESBOTADOS. ERA DOLLY NA ESCOLA. ERA DOLORES SOBRE A LINHA PONTILHADA. MAS EM MEUS BRAÇOS SEMPRE FOI LOLITA.

SERÁ QUE TEVE UMA PRECURSORA? SIM, DE FATO TEVE. NA VERDADE, TALVEZ JAMAIS TERIA EXISTIDO UMA LOLITA SE, EM CERTO VERÃO, EU NÃO HOUVESSE AMADO UMA MENINA PRIMORDIAL. NUM PRINCIPADO À BEIRA MAR. QUANDO FOI ISSO? CERCA DE TANTOS ANOS ANTES DE LOLITA TER NASCIDO QUANTOS EU TINHA NAQUELE VERÃO. NINGUÉM MELHOR DO QUE UM ASSASSINO PARA EXIBIR UM ESTILO FLOREADO.

SENHORAS E SENHORES MEMBROS DO JÚRI, O ITEM NÚMERO UM DA ACUSAÇÃO É AQUILO QUE INVEJAVAM OS SERAFINS - OS DESINFORMADOS E SIMPLÓRIOS SERAFINS DE NOBRES ASAS. VEJAM ESTE EMARANHADO DE ESPINHOS.

de Vladmir Nabokov

sábado, 31 de outubro de 2009

leisure

leisure_003

horror pulp

tanith

a prosa de sérgio rodrigues

A mulher de Botero

João Pontes, o escritor, olhou um dia pela janela ao lado de sua mesabotero-fernando-the-letter-1976 de trabalho, no nono andar de um edifício na Gávea, e viu na cobertura do outro lado da rua, bem à sua frente, entre vasos de planta, uma mulher de Botero. A visão o desagradou, como o desagradavam as mulheres de Botero. Mas logo João a decompôs numa ilusão de folhas amarelas e vasos escuros, tela nublada pela lâmina de vidro que tudo recobria, com seus reflexos e sombras.

Terminou por achar graça: a assombração era um incrível trompe-l’oeil produzido pelo acaso. Concentrou-se então no trabalho por mais meia hora – escrevia seu quinto romance, uma ficção histórica sobre o bando de Lampião – e, mal deixou o olho escapar pela janela atrás de um nome próprio, a palavra cardo, o adjetivo ressequido, lá estava a mulher de Botero outra vez.

Era uma visão súbita, perfeita, de uma nitidez que dava náusea. E de novo, o que era estranho, João a recebeu com a surpresa de um tapa na cara. Não conseguia estar preparado para a mulher de Botero.

Aquilo se repetiu por dias: olhar pela janela, tomar um susto ao ver a mulher de Botero a secar seu progresso penoso do outro lado da rua, como se dissesse: “Escritor? Pois sim…”, e perder mais uma vez o fio da meada de Virgulino, a pegada entre clássica e pop que buscava para o faroeste brasileiro que tinha na imaginação.

Aquela mulher de Botero era ainda mais desagradável do que a média das mulheres de Botero: xale preto, as mãos dois peixes inchados no colo preto, sorrisinho estúpido, o olhar entre frio e lunático – um olhar alienígena, com a hostilidade suprema da indiferença. Aquela coisa toda fofa, teratológica em seu balofismo. Misógina. E sempre chegando de tocaia. Duas semanas depois João parou de escrever.

O que o levou a tomar tal decisão foi o orgulho de autor: tinha perdido o controle da história. Às vezes achava agradável a sensação de estar à deriva em sua própria narrativa, ser levado por ela, mas só quando a direção era mais ou menos a que tinha planejado. E seus planos passavam longe do lugar onde estava agora. A coisa ia descambando de vontade própria de Quixadá para Querétaro: cada cena que lhe saía dos dedos, empurrada pela anterior e já puxando a seguinte, era de um realismo-socialista-quase-fantástico latino-americano de décima terceira categoria. Maria Bonita ficou enorme de gorda, os cangaceiros desenvolveram músculos de peão de Portinari, a luz amarela que tudo banhava era artificiosa, como se fosse de estúdio. Lampião, vanguarda do campesinato, organizava as massas e fundava sovietes. Parou.

Não tinha dúvida de que a culpa era da mulher de Botero. Pensou em atravessar a rua, descobrir o número do apartamento em que ela morava e interfonar. Soaria como um louco, mas, de certa forma, não era pedir tanto: será que a senhora se incomodaria de redecorar a cobertura só um pouquinho, um nada? Um vaso deslocado alguns centímetros seria o bastante para me restituir a felicidade.

Tímido, não atravessou a rua. Dizer o quê, sem soar ridículo: tem o fantasma de uma mulher gorda no seu jardim me impedindo de trabalhar?

Meses depois, já quase esquecido da mulher de Botero, tão acostumado estava a vê-la diariamente em seu habitat sombreado, reparou com uma vertigem que ela se fora. Na cobertura do outro lado da rua havia apenas vasos, folhagens – os centímetros de que precisava chegavam por obra do mesmo acaso que tinha engendrado o virago.

Seu primeiro impulso foi sorrir e pensar que voltaria à história engavetada de Lampião. Mas no instante seguinte ficou sério, sério e abatido, porque soube com clareza que voltaria à história de Lampião apenas para abandoná-la definitivamente logo depois – abandoná-la com tal fúria que só lhe restaria deletar qualquer traço de sua existência.

João compreendeu que era tarde, o livro exterminado: seu faroeste brasileiro era um aborto. E a mulher de Botero já nem estava lá para que ele pudesse mirá-la com ódio.

+ em Todoprosa

viki despindo-se

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OGRANDEIRMÃO

 scroogleg

"Quer falar o que aconteceu em junho de 1998?"
Greg olhou para ele e disse. "Como?"
"Você colocou uma mensagem em alt.burningman3 em 17 de junho de 1998, sobre os seus planos para ir a um festival. Você perguntou 'São os alucinógenos assim tão nocivos?'"
O interrogador na sala de controle era um homem mais velho, tão magro que de frente parecia estar de lado. E de lado parecia ter ido embora. As suas perguntas iam muito além da curiosidade de Greg sobre alucinógenos.
"Fale-me sobre seus passatempos. Você gosta de aeromodelismo ou lançamento de réplicas de foguetes em miniatura?"
"O quê?"
"Foguetes em miniatura."
"Não," disse Greg, "Não, não lido com isto." Já imaginando o rumo que a conversa ia tomar.
O homem tomou umas notas e digitou qualquer coisa. "Pergunto isto porque vejo um grande número de anúncios relacionados a combústivel de avião nos resultados de suas pesquisas no Google e também no e-Mail."
Greg sentiu um aperto. "Você está vendo os resultados das pesquisas que fiz? Está acessando meu e-Mail?" Greg não tocava num computador há mais de um mês, mas sabia que o quer que tivesse introduzido naquele campo de pesquisa seria bem mais revelador do que tudo o que já tinha dito ao seu psiquiatra.
"Senhor, tenha calma, por favor. Não estou vendo suas pesquisas e nem acessando seu e-Mail”, disse o homem com seriedade. "Isto seria violação de privacidade e é anticonstitucional. Nós apenas vemos os anúncios que aparecem quando você lê seu e- Mail e faz pesquisas no Google. Tenho aqui um folheto da companhia que explica tudo. Poderá lê-lo quando terminarmos."
“Mas os anúncios não significam nada”, contestou Greg. “Eu recebo anúncios de termas toda vez que recebo por e-Mail notícias de uma amiga em meu celular. Ela fala muito de uma cadela que cuida desde filhote!”
O homem acenou em concordância. "Entendo. E é exatamente por isso que estou falando contigo. Porque acha que estes anúncios sobre combústivel de aviação aparecem tão frequentemente?"
Greg pôs os neurônios para funcionar. "Faça isto. Procure por clube do café". Ele era um membro bastante ativo do clube, ajudando-os a lançar o site e o serviço café-do-mês. A mistura que iam lançar chamava-se Jet Fuel4. "Jet Fuel" e "lançamento" – isso faria com que o Google enchesse a página com anúncios de combústivel para motores a jato e aviação.
Já estavam na reta final da entrevista quando o funcionário encontrou as fotos do Halloween. Estavam na terceira página dos resultados da busca por "Greg Lupinski".
"Era uma festa com o tema Guerra do Golfo," disse ele.
"E você está vestido de...?"
"Homem bomba", respondeu meio constrangido.
Dizer aquelas palavras era bastante comprometedor àquela altura do campeonato.
"Venha comigo, Sr. Lupinski," disse o agente.

Vi no Capacitor Fantástico.

Lourenço Mutarelli’s

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

a bolha!

the-blob

a imaginação do dr. gilliam

Minhas Putas Tristes

Trecho de Memória de Minhas Putas Tristes,
de Gabriel García Márquez

Capítulo 1putas tristes

No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma  adolescente virgem. Lembrei de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar aos seus bons clientes quando tinha alguma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia com um sorriso maligno, você vai ver. Era um pouco mais nova que eu, e não sabia dela fazia tantos anos que podia muito bem estar morta. Mas no primeiro toque reconheci a voz no telefone e disparei sem preâmbulos:

- É hoje.

Ela suspirou: Ai, meu sábio triste, você desaparece vinte anos e volta só para pedir o impossível. Recobrou em seguida o domínio de sua arte e me ofereceu meia dúzia de opções deleitáveis, mas com um senão: eram todas usadas. Insisti que não, que tinha de ser donzela e para aquela noite. Ela perguntou alarmada: Mas o que é que você está querendo provar a si mesmo? Nada, respondi, machucado onde mais doía, sei muito bem o que posso e o que não posso. Ela disse impassível que os sábios sabem de tudo, mas não tudo: Virgens sobrando neste mundo só os do seu signo, dos nascidos em agosto. Por que não encomendou com mais tempo? A inspiração não avisa, respondi. Mas talvez espere, disse ela, sempre mais sabichona que qualquer homem, e me pediu nem que fossem dois dias para revirar o mercado a fundo. Eu repliquei a sério que numa questão dessas, e na minha idade, cada hora é um ano. Então não tem jeito, disse ela sem o menor fiapo de dúvida, mas não importa, assim é mais emocionante, merda, deixa que eu telefono em uma hora.

Não preciso nem dizer, porque dá para reparar a léguas: sou feio, tímido e anacrônico. Mas à força de não querer ser assim consegui simular exatamente o contrário. Até o sol de hoje, em que resolvo contar como sou por minha livre e espontânea vontade, nem que seja só para alívio da minha consciência. Comecei com o telefonema insólito a Rosa Cabarcas, porque, visto de hoje, aquele foi o início de uma nova vida, e numa idade em que a maioria dos mortais está morta.

Vivo numa casa colonial na calçada de sol do parque de San Nicolás, onde passei todos os dias da minha vida sem mulher nem fortuna, onde viveram e morreram meus pais, e onde me propus morrer só, na mesma cama em que nasci e num dia que desejo longínquo e sem dor. Meu pai comprou a casa num leilão público no final do século XIX, alugou o andar de baixo para lojas de luxo de um consórcio de italianos e reservou-se este segundo andar para ser feliz com a filha de um deles, Florina de Dios Cargamantos, intérprete notável de Mozart, poliglota e garibaldina, e a mulher mais formosa e de melhor talento que jamais houve na cidade: minha mãe.

O espaço da casa é amplo e luminoso, com arcos de estuque e pisos axadrezados de mosaicos florentinos, e quatro portas envidraçadas sobre uma sacada corrida onde minha mãe sentava-se nas noites de março para cantar árias de amor com suas primas italianas. Dali se vê o parque de San Nicolás com a catedral e a estátua de Cristóvão Colombo, e mais além os armazéns do cais fluvial e o vasto horizonte do rio grande da Magdalena a vinte léguas de seu estuário. A única coisa ingrata na casa é que o sol vai mudando de janelas no transcurso do dia, e é preciso fechar todas elas para tratar de dormir a sesta na penumbra ardente. Quando fiquei sozinho, aos meus trinta e dois anos, mudei-me para a que tinha sido a alcova de meus pais, abri uma porta de passagem para a biblioteca e para viver comecei a vender o que estava sobrando, e que terminou sendo quase tudo, exceto os livros e a pianola de rolos.

Durante quarenta anos fui o domador de telegramas do El Diario de La Paz, tarefa que consistia em reconstruir e completar em prosa indígena as notícias do mundo, que agarrávamos em pleno vôo pelo espaço sideral através das ondas curtas ou do código Morse. Hoje me sustento, mal ou bem, com minha aposentadoria daquele ofício extinto; me sustento menos com a de professor de gramática castelhana e latim, quase nada com a crônica dominical que escrevi sem esmorecimento durante mais de meio século, e nada em absoluto com as resenhas de música e teatro que me publicam de favor nas muitas vezes em que intérpretes notáveis passam por aqui. Nunca fiz nada diferente de escrever, mas não tenho vocação nem virtude de narrador, ignoro por completo as leis da composição dramática, e se embarquei nessa missão é porque confio na luz do muito que li pela vida afora. Dito às claras e às secas, sou da raça sem méritos nem brilho, que não teria nada a legar aos seus sobreviventes se não fossem os fatos que me proponho a narrar do jeito que conseguir nesta memória do meu grande amor.

No dia de meus noventa anos havia recordado, como sempre, às cinco da manhã. Por ser sexta-feira, meu compromisso único era escrever a crônica que é publicada aos domingos no El Diario de La Paz. Os sintomas do amanhecer tinham sido perfeitos para não ser feliz: me doíam os ossos desde a madrugada, meu rabo ardia, e havia trovões de tormenta depois de três meses de seca. Tomei banho enquanto passava o café, bebi uma caneca adoçada com mel de abelhas e acompanhada por duas broas de farinha de mandioca, e vesti o macacão de brim de ficar em casa.

O tema da crônica daquele dia, é claro, eram os meus noventa anos. Nunca pensei na idade como se pensa numa goteira no teto que indica a quantidade de vida que vai nos restando. Era muito menino quando ouvi dizer que se uma pessoa morre os piolhos incubados no couro cabeludo escapam apavorados pelos travesseiros, para vergonha da família. Isso me impressionou tanto que tosei o coco para ir à escola, e até hoje lavo os escassos fiapos que me restam com sabão medicinal de cinza e ervas milagrosas. Quer dizer, me digo agora, que desde muito menino tive mais bem formado o sentido do pudor social que o da morte.

Fazia meses que tinha previsto que minha crônica de aniversário não seria o mesmo e martelado lamento pelos anos idos, mas o contrário: uma glorificação da velhice. Comecei por me perguntar quando tomei consciência de ser velho, e acho que foi pouco antes daquele dia. Aos quarenta e dois anos havia acudido ao médico por causa de uma dor nas costas que me estorvava para respirar. Ele não deu importância: É uma dor natural na sua idade, falou.

- Então — disse eu —, o que não é natural é a minha idade.

O médico me deu um sorriso de lástima. Vejo que o senhor é um filósofo, disse ele. Foi a primeira vez que pensei na minha idade em termos de velhice, mas não tardei a esquecer o assunto. E me acostumei a despertar cada dia com uma dor diferente que ia mudando de lugar e forma, à medida que passavam os anos. Às vezes parecia ser uma garrotada da morte e no dia seguinte se esfumava. Nessa época ouvi dizer que o primeiro sintoma da velhice é quando a gente começa a se parecer com o próprio pai. Devo estar condenado à juventude eterna, pensei então, porque meu perfil eqüino não se parecerá jamais ao caribenho cru que era meu pai, nem ao romano imperial de minha mãe. A verdade é que as primeiras mudanças são tão lentas que mal se notam, e a gente continua se vendo por dentro como sempre foi, mas de fora os outros reparam.

Na quinta década havia começado a imaginar o que era a velhice quando notei os primeiros ocos da memória. Revirava a casa buscando meus óculos até descobrir que os estava usando, ou entrava com eles no chuveiro, ou punha os de leitura sem tirar os de ver de longe. Um dia tomei duas vezes o café da manhã porque me esqueci da primeira, e aprendi a reconhecer o alarme de meus amigos quando não se atreviam a me lembrar que estava contando a mesma história que havia contado na semana anterior. Naquele tempo tinha na memória uma lista de rostos conhecidos e outra com os nomes de cada um, mas no momento de cumprimentar não conseguia que as caras coincidissem com os nomes.

Minha idade sexual não me preocupou nunca, porque meus poderes não dependiam tanto de mim como delas, e quando querem elas sabem o como e o porquê. Hoje em dia dou risada dos rapazes de oitenta que consultam o médico assustados por causa desses sobressaltos, sem saber que nos noventa são piores, mas já não importam: são os riscos de estar vivo. Em compensação, é um triunfo da vida que a memória dos velhos se perca para as coisas que não são essenciais, mas raras vezes falhe para as que de verdade nos interessam. Cícero ilustrou isso de uma penada: Não há ancião que esqueça onde escondeu seu tesouro.

Com essas reflexões, e tantas outras, havia terminado o primeiro rascunho da crônica quando o sol de agosto explodiu entre as amendoeiras do parque e o barco fluvial do correio, atrasado uma semana por causa da seca, entrou bramando pelo canal do porto. Pensei: Aí estão chegando os meus noventa anos. Jamais saberei por quê, nem pretendo, mas foi ao conjuro daquela evocação arrasadora que decidi telefonar para Rosa Cabarcas pedindo ajuda para honrar meu aniversário com uma noite libertina. Fazia anos que estava na santa paz com meu corpo, dedicado à releitura diária dos meus clássicos e a meus programas privados de música culta, mas o desejo daquele dia foi tão urgente que me pareceu um recado de Deus. Depois do telefonema não consegui continuar escrevendo. Pendurei a rede num canto da biblioteca onde o sol não bate pela manhã, e me estendi com o peito oprimido pela ansiedade da espera.

Eu havia sido um menino mimado com uma mãe de dons múltiplos, aniquilada pela tísica aos cinqüenta anos, e com um pai formalista de quem jamais se conheceu erro algum, e que amanheceu morto em sua cama de viúvo no dia em que foi assinado o tratado da Neerlândia, que pôs término à guerra dos Mil Dias e a tantas guerras civis do século anterior. A paz mudou a cidade num sentido que não se previu nem se queria. Uma multidão de mulheres livres enriqueceu até o delírio os velhos bares da rua Ancha, que foi depois o calçadão Abello e agora é o passeio Colón, nesta cidade da minha alma tão apreciada pelos próprios e por alheios pela boa índole da sua gente e a pureza de sua luz.

Nunca me deitei com mulher alguma sem pagar, e as poucas que não eram do ofício convenci pela razão ou pela força que recebessem o dinheiro nem que fosse para jogar no lixo. Lá pelos meus vinte anos comecei a fazer um registro com o nome, a idade, o lugar, e um breve recordatório das circunstâncias e do estilo. Até os cinqüenta anos eram quinhentas e catorze mulheres com as quais eu havia estado pelo menos uma vez. Interrompi a lista quando o corpo já não dava mais para tantas e podia continuar as contas sem precisar de papel. Tinha minha ética própria. Nunca participei em farras de grupo nem em contubérnios públicos, nem compartilhei segredos nem contei uma só aventura do corpo ou da alma, pois desde jovem me dei conta de que nenhuma é impune.

A única relação estranha foi a que mantive durante anos com a fiel Damiana. Era quase uma menina, mais para forte e xucra, de palavras breves e terminantes, que se movia descalça para não me estorvar enquanto eu escrevia. Recordo que eu estava lendo La lozana andaluza na rede do corredor, e a vi por acaso inclinada no tanque com uma saia tão curta que deixava a descoberto suas coxas suculentas. Presa de uma febre irresistível levantei-a por trás, baixei suas prendas até os joelhos e avancei pelos fundos. Ai, senhor, disse ela, com um queixume lúgubre, isso não foi feito para entrar, mas para sair. Um tremor profundo percorreu seu corpo, mas se manteve firme. Humilhado por tê-la humilhado quis pagar a ela o dobro do que custavam as mais caras daquele tempo, mas não aceitou nem um tostão, e tive que aumentar seu salário com o cálculo de uma montada por mês, sempre enquanto lavava roupa e sempre pela retaguarda.

Algumas vezes pensei que aquelas contas de camas seriam uma boa base para uma lista das misérias da minha vida extraviada, e o título me caiu do céu: Memória de minhas putas tristes. Minha vida pública, em compensação, carecia de interesse: órfão de pai e mãe, solteiro sem porvir, jornalista medíocre quatro vezes finalista nos Jogos Florais de Cartagena de Índias e favorito dos caricaturistas por causa da minha feiúra exemplar. Quer dizer: uma vida perdida que havia começado mal desde a tarde em que minha mãe me levou pela mão aos dezenove anos para ver se conseguia publicar no El Diario de La Paz uma reportagem da vida escolar que eu havia escrito na aula de castelhano e retórica. Foi publicada no domingo com um preâmbulo esperançado do diretor. Passados os anos, quando soube que minha mãe tinha pago por aquela publicação e pelas sete seguintes, já era tarde para me envergonhar, pois minha crônica semanal voava com asas próprias, e além do mais eu era o domador de telegramas e crítico de música.

Desde que consegui meu diploma de bacharel com grau de excelência comecei a dar aulas de castelhano e latim em três colégios públicos ao mesmo tempo. Fui um mau professor, sem formação, sem vocação nem piedade alguma por aqueles pobres meninos que só iam à escola por ser o jeito mais fácil de escapar da tirania dos pais. A única coisa que pude fazer por eles foi mantê-los debaixo do terror de minha régua de madeira para que pelo menos levassem a lembrança do meu poema favorito: Estes, Fabio, ó dor, que vês agora, campos de solidão, desolados outeiros, foram noutro tempo a Itálica famosa. Só depois de velho fiquei sabendo, e por casualidade, do apelido malvado que os alunos me puseram pelas costas: Professor Desolado Outeiro.

Isso foi tudo que a vida me deu e não fiz nada para conseguir mais. Almoçava sozinho entre uma aula e outra, e às seis da tarde chegava na redação do jornal para caçar os sinais do espaço sideral. Às onze da noite, quando fechava a edição, começava minha vida real. Dormia no Bairro Chinês duas ou três vezes por semana, e com tão variadas companhias, que em duas ocasiões fui coroado como cliente do ano. Depois do jantar no vizinho café Roma escolhia um bordel qualquer ao acaso e entrava às escondidas pela porta dos fundos. Fazia isso por gosto, mas acabou sendo parte do meu ofício graças à ligeireza de língua dos grandes falastrões da política, que prestavam conta de seus segredos de Estado às amantes de uma noite, sem pensar que eram ouvidos pela opinião pública através dos tabiques de papelão. Foi desse jeito enfim que descobri que meu celibato inconsolável era atribuído a uma pederastia noturna que se saciava com meninos órfãos da rua do Crime. Tive a sorte de esquecer esse ponto, entre outras boas razões porque também conheci o que se dizia bem de mim e apreciei isso em sua medida e em seu valor.

Nunca tive grandes amigos, e os poucos que chegaram perto disso estão em Nova York. Quer dizer: mortos, pois é para lá que eu acho que vão as almas penadas para não digerir a verdade de sua vida passada. Desde que me aposentei tenho pouco a fazer, além de levar meus papéis ao jornal nas tardes de sexta-feira, ou então outras tarefas de pequena monta: concertos no Belas-Artes, exposições de pintura no Centro Artístico, do qual sou sócio fundador, uma ou outra conferência cívica na Sociedade de Melhorias Públicas, ou algum acontecimento grande como a temporada da divina Fábregas no Teatro Apolo. Quando jovem ia aos salões de cinema sem teto, onde tanto podíamos ser surpreendidos por um eclipse lunar como por uma pneumonia dupla por causa de algum aguaceiro desnorteado. Mais, porém, que os filmes me interessavam as pássaras da noite que se deitavam pelo preço da entrada ou davam de graça ou fiado. Pois o cinema não faz meu gênero. O culto obsceno de Shirley Temple foi a gota que transbordou o copo.

Minhas únicas viagens foram quatro aos Jogos Florais de Cartagena de Índias, antes dos meus trinta anos, e uma noite ruim na lancha a motor, convidado por Sacramento Montiel para a inauguração de um de seus bordéis em Santa Marta. Quanto à minha vida doméstica, sou de comer pouco e de gostos fáceis. Quando Damiana ficou velha não se tornou a cozinhar em casa, e minha única refeição regular desde então foi a fritada de batatas no café Roma depois do fechamento do jornal.

Assim, na véspera de meus noventa anos fiquei sem almoçar e não pude me concentrar na leitura à espera de notícias de Rosa Cabarcas. As cigarras apitavam até arrebentar no calor das duas da tarde, e as voltas do sol pelas janelas abertas me forçaram a mudar três vezes o lugar da rede. Sempre achei que pelos dias do meu aniversário estava o dia mais quente no ano, e tinha aprendido a suportar isso, mas o humor daquele dia não deu para tanto. Às quatro tentei me apaziguar com as seis suítes para cello solo de Johann Sebastian Bach, na versão definitiva de dom Pablo Casals. Acho que é o que de mais sábio existe em toda a música, mas em vez de me apaziguar como de costume me deixaram num estado da pior prostração. Adormeci com a segunda, que me parece um pouco malemolente, e no sonho misturei o queixume do cello com o de um barco triste que se foi. Quase no mesmo instante o telefone me despertou, e a voz enferrujada de Rosa Cabarcas me devolveu à vida. Você tem uma sorte do demônio, disse ela. Encontrei uma franguinha melhor do que você queria, mas tem um porém: ela tem uns catorze anos. Eu não me importo em trocar fraldas, disse a ela em tom de burla e sem entender seus motivos. Não é por você, disse ela, mas quem vai cumprir por mim os três anos de cadeia?

Ninguém, e ela menos ainda, é claro. Fazia sua colheita entre as menores de idade que se exibiam em seu armazém, e que ela iniciava e espremia até passarem a vida pior, a de putas diplomadas no bordel histórico da Negra Eufemia. Nunca tinha pago uma única multa, porque seu quintal era a arcádia da autoridade local, do governador até o último bedel da prefeitura, e não era imaginável que à dona daquilo tudo faltassem poderes para delinqüir a seu bel-prazer. Assim, seus escrúpulos de última hora só tinham como justificativa poder levar vantagem com seus favores: quanto mais puníveis, mais caros. A questão se arranjou com um aumento de dois pesos na tarifa dos serviços, e combinamos que às dez da noite eu estaria em sua casa com cinco pesos em dinheiro, e adiantados. Nem um minuto antes, pois a menina tinha que dar de comer aos irmãos menores e pôr na cama sua mãe entrevada pelo reumatismo.

Faltavam quatro horas. À medida que passavam, meu coração ia se enchendo de uma espuma ácida que me atrapalhava para respirar. Fiz um esforço estéril para pastorear o tempo com os afazeres da roupa. Nada novo, é claro, pois até Damiana diz que eu me visto com o ritual de um bispo. E me cortei com a navalha barbeira, tive que esperar que a água do chuveiro aquecida pelo sol no encanamento refrescasse, e o simples esforço de me secar com a toalha me fez suar de novo. Eu me vesti de acordo com a ventura da noite: o terno de linho branco, a camisa de listas azuis de colarinho acartolinado com goma, a gravata de seda chinesa, as botinas remoçadas com parafina e o relógio de ouro de lei com a corrente abotoada na casa da lapela. No final dobrei para dentro as barras das calças para que ninguém notasse que com a idade eu diminuíra quatro dedos.

Tenho fama de unha-de-fome porque ninguém consegue imaginar que eu seja pobre do jeito que sou se moro onde moro, e a verdade é que uma noite como aquela estava muito acima dos meus recursos. Do cofre das economias disfarçado debaixo da cama tirei dois pesos para o aluguel do quarto, quatro para a dona, três para a menina e cinco de reserva para meu jantar e outros gastos miúdos. Ou seja, os catorze pesos que o jornal me paga por um mês de crônicas dominicais. Escondi o dinheiro num bolso secreto do cinturão e me perfumei com o borrifador de Água de Florida de Lanman & Kemp-Barclay & Co. Então senti a fisgada do pânico e ao primeiro badalar das oito desci tateando as escadas nas trevas, suando de medo, e saí para a noite radiante da minha celebração.

Havia refrescado. Grupos de homens solitários discutiam futebol aos berros no passeio Colón, entre os táxis parados em fila no meio da rua. Uma banda de metais tocava uma valsa lânguida debaixo da alameda de flamboyants floridos. Uma das putinhas pobres que caçam clientes mais pobres ainda na rua dos Notários me pediu o cigarro de sempre e respondi a mesma coisa de sempre: Hoje está fazendo trinta e três anos, dois meses e dezessete dias que parei de fumar. Ao passar na frente de O Arame de Ouro me olhei nas vitrines iluminadas e não me vi como me sentia, porém mais velho e mais mal vestido.

Pouco antes das dez abordei um táxi e pedi ao chofer que me levasse ao Cemitério Universal, para que ele não ficasse sabendo aonde na verdade eu estava indo. Ele me olhou divertido pelo espelho, e disse: Não me assuste desse jeito, dom Sábio, oxalá Deus me mantenha vivo assim que nem o senhor. Descemos juntos na frente do cemitério porque ele não tinha dinheiro miúdo e tivemos que trocar no La Tumba, um botequim indigente onde os bebadinhos da madrugada choram seus mortos. Quando acertamos a conta, o motorista me disse a sério: Tome cuidado, senhor, que a casa de Rosa Cabarcas já não é nem sombra do que foi. Não pude fazer outra coisa a não ser agradecer, convencido como todo mundo de que para os choferes do passeio Colón não havia nenhum segredo debaixo do céu.

Fui adentrando um bairro de pobres que não tinha nada a ver com o que conheci nos meus tempos. Eram as mesmas ruas amplas de areias quentes, com casas de portas abertas, paredes de tábuas ásperas, tetos de sapé e pátios de cascalho. Mas sua gente havia perdido o sossego. Na maioria das casas havia as farras de sexta-feira cujos bumbos e pratos repercutiam nas entranhas. Qualquer um podia entrar por cinqüenta centavos na festa que mais gostasse, mas também podia pegar carona e entrar de contrabando. Eu caminhava ansioso de que a terra me engolisse dentro da minha fatiota de ver Deus, mas ninguém prestou atenção em mim, a não ser um mulato esquálido que cochilava sentado no portão de uma casa da vizinhança.

- Salve, doutor! — me gritou de coração —, feliz trepada!

Que mais eu podia fazer a não ser agradecer? Tive que me deter três vezes para recobrar o fôlego antes de alcançar a última ladeira. Dali vi a enorme lua de cobre que se erguia no horizonte, e uma urgência imprevista do ventre me fez temer pelo meu destino, mas passou ao largo. No final da rua, onde o bairro se transformava num bosque de árvores frutíferas, entrei no armazém de Rosa Cabarcas.

Não parecia a mesma. Havia sido a cafetina mais discreta e por isso mesmo a mais conhecida. Uma mulher corpulenta que queríamos coroar sargenta dos bombeiros, tanto pela corpulência como pela eficácia para apagar os candeeiros da paróquia. Mas a solidão tinha diminuído seu corpo, havia acanelado sua pele e aveludado sua voz com tanto engenho que parecia uma menina velha. De antes, só lhe restavam os dentes perfeitos, com um que tinha mandado forrar de ouro por coqueteria. Guardava luto fechado pelo marido morto depois de cinqüenta anos de vida comum, e o aumentou com uma espécie de boina negra pela morte do filho único que a ajudava em suas vilanias. Só lhe restavam vivos os olhos diáfanos e cruéis, e através deles me dei conta de que ela não tinha mudado de índole.

O armazém tinha uma lâmpada macilenta no teto e quase nada para vender nas prateleiras, que nem mesmo cumpriam a função de servir de disfarce para um negócio que todo mundo conhecia mas ninguém reconhecia. Rosa Cabarcas estava despachando um cliente quando entrei na ponta dos pés. Não sei se me desconheceu de verdade ou se havia fingido para manter as aparências. Sentei-me no banquinho de espera enquanto ela se desocupava e tentei reconstruí-la na memória tal como ela havia sido. Mais de duas vezes, nos tempos em que nós dois estávamos inteiros, também ela havia me livrado de meus sustos. Creio que leu meu pensamento, porque virou-se para mim e me examinou com uma intensidade alarmante. O tempo não passa em você, suspirou com tristeza. Eu quis agradá-la: Em você, passa, mas para melhor. De verdade, disse ela, até ressuscitou um pouco em você a cara de cavalo morto. Vai ver é porque mudei de pasto, respondi com picardia. Ela se animou. Pelo que lembro, você tinha um mastro de caravela. Como é que ele tem se portado? Escapei pela tangente: A única coisa diferente desde que nos vimos pela última vez é que às vezes meu rabo arde. Seu diagnóstico foi imediato: Falta de uso. Só tenho rabo para o que Deus fez, disse eu, mas na verdade ardia fazia tempo, e sempre na lua cheia. Rosa remexeu sua gaveta de alfaiate e destapou uma latinha de uma pomada verde que cheirava a linimento de arnica. Diga à menina que unte seu rabo com o dedinho, assim, disse ela movendo o dedo indicador com uma eloqüência procaz. Repliquei que graças a Deus eu ainda era capaz de me defender sem ungüentos selvagens. Ela caçoou: Ai, professor, perdoe e me deixe continuar viva. E foi cuidar de seus assuntos.

A menina estava no quarto desde as dez, me disse; era bela, limpa e bem-educada, mas estava morrendo de medo, porque uma amiga dela que escapou com um estivador de Gayra em duas horas tinha sangrado até o fim. Mas, admitiu Rosa, isso dá para entender, porque o pessoal de Gayra tem fama de fazer até as mulas cantarem. E retomou o fio: Pobrezinha, além de tudo tem de trabalhar o dia inteiro pregando botões numa fábrica. Não me pareceu que fosse um ofício tão duro. Isso é o que os homens acham, replicou ela, mas é pior que picar pedras. Além disso, me confessou que tinha dado à menina uma beberagem de valeriana com brometo, e que ela estava dormindo. Tive medo que a compaixão fosse outra artimanha para aumentar o preço, mas não, disse ela, minha palavra é de ouro. Com regras fixas: cada coisa paga por separado, em dinheiro vivo e por antecipado. E assim foi.

Segui-a através do pátio, enternecido pela murchidão da sua pele, e pela maneira com que mal caminhava, com as pernas inchadas dentro das meias de algodão ordinário. A lua cheia estava chegando ao centro do céu e o mundo parecia submerso em águas verdes. Perto do armazém havia um cobertiço de palma para as farras da administração pública, com numerosos tamboretes de couro e redes dependuradas nas vigas. Atrás do quintal, onde começava o bosque de árvores frutíferas, havia uma galeria de seis alcovas de adobe sem emboçar, com janelas de tela para os pernilongos. A única ocupada estava à meia-luz, e Toña la Negra cantava no rádio uma canção de amores malogrados. Rosa Cabarcas tomou fôlego: O bolero é a vida. Eu estava de acordo, mas até hoje não me atrevi a escrever isso. Ela empurrou a porta, entrou um instante e tornou a sair. Continua dormindo, disse. Você faria bem em deixá-la descansar tudo o que o corpo pedir, sua noite é mais longa que a dela. Eu estava atordoado: O que você acha que eu devo fazer? Você é que sabe, disse ela com uma placidez fora de lugar, não é à toa que é sábio. Deu meia-volta e me deixou sozinho com o terror.

Não havia escapatória. Entrei no quarto com o coração desvairado e vi a menina adormecida, nua e desamparada na enorme cama de aluguel, tal e como sua mãe a tinha parido. Jazia meio de lado, de cara para a porta, iluminada pelo lustre com uma luz intensa que não perdoava detalhe algum. Sentei-me para contemplá-la da beira da cama com um feitiço dos cinco sentidos. Era morena e morna. Tinha sido submetida a um regime de higiene e embelezamento que não descuidou nem os pêlos incipientes de seu púbis. Haviam cacheado seus cabelos e tinha nas unhas das mãos e dos pés um esmalte natural, mas a pele cor de melaço parecia áspera e maltratada. Os seios recém-nascidos ainda pareciam de menino, mas viam-se urgidos por uma energia secreta a ponto de explodir. O melhor de seu corpo eram os pés grandes de passos sigilosos com dedos longos e sensíveis como se fossem de outras mãos. Estava ensopada num suor fosforescente apesar do ventilador, e o calor se tornava insuportável à medida que a noite avançava. Era impossível imaginar como seria a cara lambuzada de cores, a espessa crosta de pó-de-arroz com dois remendos de carmim nas bochechas, as pestanas postiças, as sobrancelhas e pálpebras que pareciam pintadas com tição, e os lábios aumentados com um verniz de chocolate. Mas nem os trapos nem as tinturas eram suficientes para dissimular seu gênio: o nariz altivo, as sobrancelhas encontradas, os lábios intensos. Pensei: Um meigo touro de briga.

Às onze fui aos meus assuntos de rotina no banheiro, onde estava sua roupa de pobre dobrada sobre uma cadeira com um esmero de rica: um vestido de algodãozinho barato com borboletas estampadas, umas calcinhas amarelas de chita e umas sandálias de corda trançada. Em cima da roupa havia uma pulseira de miçanga e uma correntinha muito fina com a medalha da Virgem. Na beira da pia, uma bolsinha de mão com um batom, um estojo de ruge, uma chave e umas moedas soltas. Tudo tão barato e envilecido pelo uso que não consegui imaginar ninguém tão pobre como ela.

Me despi e dispus as peças de roupa do melhor jeito que pude no cabide para não estropiar a seda da camisa e o linho bem-passado. Urinei na privada sentado e como me ensinou, desde menino, Florina de Dios, para que não molhasse a beira do vaso, e ainda, modéstia à parte, com um jorro imediato e contínuo de potro bravio. Antes de sair cheguei perto do espelho da pia. O cavalo que me olhou do outro lado não estava morto mas lúgubre, e tinha uma papada de Papa, as pálpebras inchadas, e mirradas as crinas que haviam sido minha melena de músico.

- Merda — eu disse a ele —, o que é que eu posso fazer se você não gosta de mim?

Tratando de não despertá-la, sentei-me nu na cama com os olhos já acostumados aos enganos de luz avermelhada, e revisei-a palmo a palmo. Deslizei a ponta do dedo indicador ao longo de sua nuca empapada e ela inteira estremeceu por dentro como um acorde de harpa, virou-se para mim com um grunhido e me envolveu no clima de seu hálito ácido. Apertei seu nariz com o polegar e o indicador, e ela se sacudiu, afastou a cabeça e me deu as costas sem despertar. Tentei separar suas pernas com meu joelho por causa de uma tentação imprevista. Nas duas primeiras tentativas ela se opôs com as coxas tensas. Cantei em seu ouvido: A cama de Delgadina de anjos está rodeada. Relaxou um pouco. Uma corrente cálida subiu pelas minhas veias, e meu lento animal aposentado despertou de seu longo sono.

Delgadina, minha alma, supliquei ansioso. Delgadina. Lançou um gemido lúgubre, escapou de minhas coxas, me deu as costas e enroscou-se como um caracol em sua concha. A poção de valeriana deve ser tão eficaz para mim como para ela, porque não aconteceu nada, nem com ela nem com ninguém. Mas não me importei. Perguntei-me de que adiantaria despertá-la, humilhado e triste do jeito que me sentia, e frio que nem uma pescada amarela.

Nítidas, inelutáveis, soaram então as badaladas das doze da noite, e começou a madrugada do 29 de agosto, dia do Martírio de São João Batista. Alguém chorava aos gritos na rua e ninguém dava confiança. Rezei por ele, se fizesse falta, e também por mim, em ação de graças pelos benefícios recebidos: Que ninguém se engane, não, pensando que o que espera haverá de durar mais do que durou o que viu. A menina gemeu em sonhos, e também rezei por ela: Pois eis que tudo haverá de passar dessa maneira. Depois apaguei o rádio e a luz para dormir.

Acordei de madrugada sem me lembrar onde estava. A menina continuava dormindo de costas para mim em posição fetal. Tive a sensação indefinida de que havia sentido a maneira como ela se levantava na escuridão e de ter ouvido a descarga do banheiro, mas bem que podia ter sido um sonho. Foi algo novo para mim. Ignorava as manhas da sedução e sempre tinha escolhido ao acaso as noivas de uma noite, mais pelo preço que pelos encantos, e fazíamos amores sem amor, meio vestidos na maior parte das vezes e sempre na escuridão para imaginar-nos melhores. Naquela noite descobri o prazer inverossímil de contemplar, sem as angústias do desejo e os estorvos do pudor, o corpo de uma mulher adormecida.

Levantei-me às cinco, inquieto porque minha crônica dominical deveria estar na mesa da redação antes do meio-dia. Fiz minha deposição pontual, ainda com os ardores da lua cheia, e quando soltei a corrente da água senti que meus rancores do passado foram-se embora pelos canos. Quando voltei fresco e vestido ao dormitório, a menina dormia de barriga para cima na luz conciliadora do amanhecer, atravessada lado a lado na cama, com os braços abertos em cruz e dona absoluta da sua virgindade. Que Deus a conserve, disse a ela. Todo dinheiro que me sobrava, o dela e o meu, pus no travesseiro, e me despedi para sempre e nunca mais com um beijo em sua testa. A casa, como todo bordel ao amanhecer, era a coisa mais parecida com o paraíso. Saí pelo portão do pomar para não encontrar ninguém. Debaixo do sol abrasador da rua comecei a sentir o peso dos meus noventa anos, e a contar minuto a minuto os minutos das noites que me faltavam para morrer.

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