sexta-feira, 5 de junho de 2009

conto de James Salter

Akhnilo


Era fim de agosto. No porto, os barcos estavam imóveis, nenhumultimanoite_jamessalter_div mastro se mexia, nenhuma polia retinia. Os restaurantes tinham fechado havia tempo. Um carro ocasional, os faróis brilhantes, cruzava a ponte, vindo de North Haven, ou descia pela Main Street, passando pelas cabines de telefones arrebentados. Na estrada, as discotecas se esvaziavam. Passava das três da manhã.
Fenn acordou no meio da escuridão. Pensou que tinha ouvido alguma coisa, um som baixinho, o ranger de uma mola como a da tela da porta da cozinha. Ficou quieto no calor da cama. A mulher dormia tranqüilamente. Esperou. A casa não estava fechada, apesar dos muitos casos de furto ou coisa pior perto da cidade. Ouviu um leve baque. Não se mexeu. Vários minutos passaram. Sem fazer barulho, levantou-se e foi até o vão estreito da porta, de onde alguns degraus levavam à cozinha. Parou ali. Silêncio. Mais um baque e um gemido. Era Birdman caindo de novo no chão.
Lá fora, as árvores pareciam reflexos negros. As estrelas estavam encobertas. As únicas galáxias eram os sons de insetos quepreenchiam a noite. Olhou pela janela aberta. Ainda não estava seguro de ter ouvido alguma coisa. Quase podia tocar as folhas da faia imensa que pendia sobre a varanda dos fundos. Por um tempo que lhe pareceu longo, examinou a área de sombra junto ao tronco. Na imobilidade de tudo, sentia-se visível mas também estranhamente receptivo. Seus olhos vagavam de uma coisa a outra nos fundos da casa, as pálidas colunas coríntias da pérgula do vizinho, a sebe misteriosa, a garagem de soleira carcomida. Nada.
Eddie Fenn era carpinteiro, apesar de ter estudado em Dartmouth e se formado em história. Quase sempre trabalhava sozinho. Tinha trinta e quatro anos. Tinha o cabelo ralo e o sorriso tímido. Nada de muito mais. Havia alguma coisa de apagado nele. Quando era mais jovem, dizia-se que era um talento, mas jamais se aventurara de verdade na vida, ficara perto da costa. A mulher, alta e míope, era de Connecticut. O pai dela tinha sido banqueiro. De Greenwich e Havana, dizia o anúncio fúnebre nos jornais. Ele cuidara da filial de um banco de Nova York por lá, quando ela era criança. Isso quando Havana era uma lenda e os milionários cometiam suicídio depois de fumar o último charuto.
Os anos tinham passado. Fenn olhou para a noite lá fora. Tinha a sensação de ser o único ouvinte de um mar de gritos sem fim. Deixava-se impressionar por aquela vastidão. Pensou em tudo que estava oculto por trás daquilo, os gestos desesperados, os desejos, as surpresas fatais. Naquela tarde, ele vira um tordo bicando alguma coisa perto do limite da grama, pegando, jogando no ar, pegando de novo: um sapo, as patinhas hirtas estiradas em leque. O passarinho voltou a jogá-lo para cima. Os musaranhos cegos caçavam sem descanso por túneis vorazes, as línguas pontudas dos répteis sondavam o ar, sentia-se um abdômen triturado, a passividade das vítimas, o suave estertor do acasalamento. As filhas de Fenn dormiam na sala. Nada está seguro por mais de uma hora.
Parado ali, teve a sensação de que o som se alterava, não sabia bem como. Parecia isolar-se, como se permitisse que algo se destacasse dele, algo de cintilante e remoto. Tentou aos poucos identificar o que estava ouvindo como um grilo, uma cigarra, mas não, era alguma outra coisa, algo de febril e estranho que ganhava mais nitidez. Quanto mais atenção punha em ouvir, mais esquivo parecia o som. Tinha medo de se mover e perdê-lo. Ouviu o pio suave de uma coruja. A escuridão absoluta das árvores pareceu iluminar- se, e com ela também aquela nota singular e estridente.
Sem alarde a noite se abrira. O céu se revelava, as estrelas brilhavam fracamente. A cidade dormia, calçadas desertas, jardins em silêncio. Ao longe, em meio aos pinheiros, via-se a cumeeira de um celeiro. O som vinha de lá. Ainda não conseguia identificá-lo. Precisava chegar mais perto, descer e sair pela porta, mas assim talvez o perdesse, o som podia se calar, em alerta. Teve uma idéia perturbadora, que não pôde deixar de lado: o som estava em alerta. Trêmulo, repetindo-se e repetindo-se por cima dos demais, o som parecia chegar só até ele. O ritmo não era constante. Acelerava, hesitava, continuava. Era menos um grito instintivo e mais uma espécie de sinal, de código, diferente de tudo que ele ouvira antes, não uma série de pulsos curtos e longos,
mas algo de mais intricado, de certo modo quase como uma fala.
A idéia o assustou. As palavras, se é que eram palavras, eram tênues e pungentes, mas ele tremeu como se fossem a senha de um cofre. Sob a janela ficava o telhado da varanda. A inclinação era suave. Parou ali, perfeitamente imóvel, como perdido em pensamentos.
O coração batia com força. O telhado parecia largo feito uma rua. Teria que ir atrás daquilo, esperando não ser visto, movendo-se em silêncio, sem gestos bruscos, parando para sentir se havia alguma mudança no som a que ele estava agora completamente atento. A escuridão não o protegeria. Ele entrava numa noite de incontáveis redes e olhos irrequietos. Não tinha certeza se devia fazer aquilo, se ousava. Uma gota de suor brotou e correu pelo torso nu. Incansável, o chamado persistia. As mãos de Fenn tremiam.
Soltando a tela da janela, ele a baixou com cuidado e a encostou na parede. Movia-se em silêncio, como uma serpente, por cima do telhado de um verde esmaecido. Olhou para baixo. O chão parecia distante. Teria que se pendurar no telhado e se soltar, leve como uma aranha. Ainda via a cumeeira do celeiro. Movia-se na direção da estrela polar, podia sentir. Era quase como se estivesse caindo. O gesto era atordoante, irreversível, e o levaria aonde nada do que possuía poderia protegê-lo, descalço, sozinho.
Ao cair no chão, Fenn sentiu um arrepio pelo corpo todo. Estava para ser redimido. Sua vida não tomara o rumo que ele esperava, mas ele ainda se achava um ser especial, que não pertencia a ninguém. Na verdade, tinha uma idéia romântica do fracasso. Quase fora a sua meta. Esculpia pássaros em madeira, ou tinha esculpido. As ferramentas e os blocos de madeira parcialmente moldados estavam sobre uma mesa no porão. A certa altura, quase se tornara um naturalista. Alguma coisa nele, o silêncio, a disposição a ficar de lado, vinha a calhar. Em vez disso, começou a produzir mobília com um amigo que tinha algum capital, mas o negócio deu errado. Começou a beber. Certa manhã, acordou ao lado do carro, deitado junto aos sulcos de pneu da vereda, a velha senhora que vivia do outro lado da rua afugentando o cachorro. Entrou em casa antes que as filhas o vissem. Estava a um passo, disse o médico, de se tornar um alcoólatra. As palavras o espantaram. Isso fora há muito tempo. A família o salvara, mas não sem custo.
Parou. O chão era firme e seco. Foi até a sebe e cruzou a vereda do vizinho. O som que o trespassava era mais claro agora. Seguindo-o, passou por casas que mal reconhecia pelos fundos, por quintais abandonados em que latas e detritos se escondiam na grama escura, por galpões que ele jamais vira. O terreno começava a descer suavemente, estava se aproximando do celeiro. Podia ouvir a voz, sua voz, ressoando mais para o alto. Vinha de algum lugar do espectral triângulo de madeira que se elevava como a face de uma montanha distante que se aproxima repentinamente de uma curva da estrada. Movia-se vagarosamente em sua direção, com o medo de um explorador. Mais acima, ouvia a corrente tênue que trinava. Aterrorizado com a proximidade, parou e ficou quieto.
De início, ele recordaria mais tarde, não significava nada, era brilhante demais, puro demais para isso. Continuava a ressoar, mais e mais insano. Fenn não conseguia identificar, não conseguia repetir, não conseguia sequer descrever o som. Ganhara volume, pusera todo o resto de lado. Parou de tentar entendê-lo e, em vez disso, deixou que o percorresse, que o invadisse como um canto. Devagar, como um padrão que muda de aparência quando é observado e começa a tomar outra dimensão, o som se alterou inexplicavelmente e expôs seu núcleo real. Começou a reconhecer. Afinal eram palavras. Não tinham sentido nem antecedentes, mas eram sem dúvida uma linguagem, a primeira a se deixar ouvir de uma ordem mais vasta e mais densa que a nossa. Logo acima, na superfície esbranquiçada, desesperado, suplicante, estava o pioneiro sem nome.
Numa espécie de êxtase, Fenn chegou mais perto. Imediatamente percebeu o erro. O som hesitou. Ele fechou os olhos, num espasmo, mas era tarde demais, o som vacilou e parou. A toda a sua volta, as vozes retiniram. A noite estava repleta delas. Virou-se para um lado e para o outro, na esperança de encontrála, mas a coisa que ele ouvira já se fora.
Era tarde. O céu começava a ganhar um tom pálido. Fenn estava junto ao celeiro com os fragmentos de um sonho que se tenta recordar a custo: quatro palavras, distintas e inimitáveis, queele criara. Protegendo-as, concentrando-se nelas com toda a força que tinha, começou a levá-las de volta. O barulho dos insetos parecia mais alto. Tinha medo de que alguma coisa acontecesse, que um cão latisse, que uma luz se acendesse num quarto e o distraísse, que ele afrouxasse a mão. Tinha que voltar sem ver nada, sem ouvir nada, sem pensar. Repetia as palavras consigo enquanto caminhava, os lábios se moviam sem parar. Mal ousava respirar.
Podia ver a casa. Estava cinzenta agora. Não havia luz nas janelas. Tinha que chegar até lá. O som das criaturas noturnas parecia aumentar com raiva e tormento, mas ele estava além disso. Estava fugindo. Percorrera uma distância imensa, estava chegando à sebe. A varanda não estava longe. Subiu no parapeito, a beira do telhado a seu alcance. A calha era firme, ele se ergueu. Sentiu o calor do asfalto quebradiço e esverdeado sob os pés. Passou uma perna pelo peitoril, depois a outra. Estava seguro. Instintivamente, tomou distância da janela. Conseguira. Lá fora, a luz parecia débil e histórica. Uma aurora espectral começou a atravessar as árvores.
De repente, ele ouviu o chão estalar. Alguém estava ali, uma figura à luz suave e sem cor. Era sua mulher, ficou pasmo diante da imagem dela, apertando a camisola de algodão contra o corpo, o rosto simplificado pelo sono. Fez um gesto de alerta.
"O que foi? O que aconteceu?", ela sussurrou.
Não, ele implorou, balançando a cabeça. Uma palavra se perdera. Não, não. Ela se agitava e desfazia como uma coisa qualquer lançada ao mar. Ele tentava agarrá-la às cegas. Ela o abraçou. Ele se afastou abruptamente. Fechou os olhos.
"Meu bem, o que foi?" Ele estava perturbado, ela sabia. Ele jamais se recuperara por inteiro das dificuldades. Muitas vezes ele acordava no meio da noite, ela o encontrava sentado na cozinha, o rosto velho e cansado.
"Venha para a cama", ela convidava.
Ele fechava os olhos com firmeza e tapava os ouvidos com as mãos.
"Você está bem?", ela perguntou.
A devoção dela dissolvia tudo, as palavras estavam caindo por terra. Ele começou a girar em desespero.
"O que foi, o que foi?", ela exclamou.
A luz vinha de toda parte, avançando pelo gramado. O sussurro sagrado esvanecia. Não tinha um minuto a perder. As mãos coladas à cabeça, correu até a sala atrás de um lápis, com ela correndo atrás, pedindo que lhe dissesse o que havia. Estavam sumindo, só restava uma, inútil sem as outras, e contudo de valor infinito.
Enquanto ele escrevia, a mesa se mexeu. Um quadro tremeu na parede. A mulher, segurando os cabelos de lado com uma das mãos, examinava de perto o que ele escrevera. Dena, de camisola, surgira no vão da porta, despertada pelo barulho.
"O que foi?", ela perguntou.
"Me ajude", a mãe exclamou.
"Papai, o que foi?"
As mãos das duas estendiam-se para ele. No vidro do quadro, um quadrado brilhante de azul e verde estremecia, a folhagem luminosa das árvores. As vozes incontáveis recuavam, voltando ao silêncio.
"O que foi, o que foi?", a mulher implorava.
"Papai, por favor!"
Ele balançou a cabeça. Estava quase chorando quando tentou se livrar das duas. De repente, descambou para o chão e ficou sentado ali, e para Dena recomeçou uma época que ela lembrava dos primeiros anos de escola, quando a tristeza tomava conta da casa e as portas batiam com força e o pai, cheio de afeição desajeitada, entrava no quarto das filhas para contar histórias de ninar e acabava adormecendo ao pé da cama dela.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

9: o curta metragem

Bridgett

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9: o trailer

Trecho do livro Pornô, de Irvine Welsh

Croxy, pela primeira vez na vida suando por causa de esforço físico emlivro_sexo vez de abuso de drogas, sobe tropeçando as escadas com a última caixa de discos nas mãos enquanto eu desabo na cama, entorpecido e deprimido, encarando de boca aberta o papel de parede bege. Isto é meu novo lar. Um quartinho de nada, de quatro por três, acompanhado por um corredor, uma cozinha e um banheiro. O quarto tem um armário embutido sem portas, minha cama e o espaço exato pra duas poltronas e uma mesa. Não tenho como sentar por aqui: até na prisão seria melhor. Porra, de repente é melhor voltar pra Edimburgo e sugerir que o Frank Begbie faça um negócio comigo, trocando sua cela por este muquifo gelado.

Neste espaço apertado, o fedor acumulado dos cigarros do Croxy é sufocante. Não fumo há três semanas, mas só de ficar perto dele consumo passivamente uns trinta cigarros por dia. Esse trabalho dá uma sede, hein Simon? Vem comigo pro Pepys pra tomar uma? - ele pergunta, e com seu entusiasmo triunfante parece estar querendo tirar um sarro das presentes circunstâncias humildes de Simon David Williamson.

Caralho, se por um lado seria uma loucura total descer pela Mare Street e entrar no Pepys, dando chance pra que todo mundo ria da minha cara e diga "Voltou pra Hackney, Simon?", porra, quero mesmo um pouco de companhia. Bater papo. Relaxar um pouco. Além do mais, seria bom arejar o Croxy. Tentar largar o cigarro na companhia do sujeito é como resolver parar com a heroína em um squat cheio de viciados.

- Você teve sorte de conseguir esse lugar - diz Croxy enquanto me ajuda a desembalar as caixas. Sorte o caralho. Fico deitado na cama e a casa toda se chacoalha quando o trem expresso pra Liverpool Street passa voando pela estação Hackney Downs, que fica a mais ou menos trinta centímetros de distância da janela da cozinha.

No meu estado de espírito, me recolher é uma opção ainda menos plausível que sair de casa, por isso descemos com cuidado pela escadaria deteriorada, com o tapete tão gasto que ficou perigoso como uma geleira. Do lado de fora, a chuva cai misturada com a neve e por todos os lados se percebe uma aura tediosa de ressaca festiva enquanto caminhamos na direção Mare Street e da prefeitura. Croxy, que não tem nenhum senso de ironia, fica dizendo que "Hackney é bem melhor que Islington, sem dúvida. Faz tempão que Islington tá uma merda completa".

elementar, meu caro

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Trecho de Elza,a garota, de Sérgio Rodrigues

Elza Na noite de sábado, peguei o trem para São Paulo com mais três camaradas, dois que eu nem me lembro e o Guarani. Descemos na Estação da Luz na manhã do domingo, o domingo em que seria a passeata, junto com gente que vinha de tudo quanto era lado, de Santos, do Sul, do Rio, de Minas, estivadores do tamanho daquelas estátuas realistas-socialistas ao lado de funcionários públicos com óculos fundo-de-garrafa e musculatura de louva-deus – tinha de tudo. Na estação, já começamos a sentir o clima. Estava um dia bonito, e como tínhamos algumas horas para matar antes da passeata propus um passeio pela cidade, que eu não conhecia, mas o Guarani disse que o combinado era irmos direto para a casa de um camarada nosso, um gráfico chamado Enzo, que morava no Brás. Lá seria a concentração de alguns companheiros, almoçaríamos de graça antes de seguir num grupo maior para a Praça da Sé. Chegamos antes das dez e a casa já estava cheia. Era uma casa modesta, branca de janelas amarelas, mas tinha um quintal espaçoso com algumas árvores, uns bancos compridos de madeira debaixo de videiras, gaiolas de passarinho. Enzo, um italiano de fisionomia severa, bigodão, nos recebeu meio seco, mas a hospitalidade foi mais que garantida pela mulher dele, que era uma dona muito simpática, muito sorridente. Veio da cozinha de avental sujo avisar que o cardápio era macarronada com polpetone, me lembro disso como se fosse o almoço de ontem. No quintal, nos juntamos a um grupo que já devia ter vinte pessoas ou mais, todo mundo bebendo vinho. O Enzo tinha duas filhas, Francesca e Gina, que eles chamavam bem à italiana, Frantchesca e Djina. Duas deusas, uma Sophia Loren e uma Gina Lollobrigida, que ficavam zanzando lépidas de pés descalços, indo de grupinho em grupinho com os garrafões, enchendo copos, fazendo piadas, rindo para todo mundo. Mas este lugar é o paraíso, eu me lembro de ter pensado, enquanto o Guarani me cutucava para ir com calma na bebida. Isso não é festa, ele disse, deixa a festa para depois do trabalho. O trabalho era a porradaria contra os integralistas. Confesso que não segui à risca o conselho de Guarani e estava zonzo quando saímos da casa de Enzo rumo à guerra. Gina e Francesca também foram. Isso me deixou preocupado quando nos aproximamos do nosso ponto de encontro, que seria no Largo de São Bento, observados à distância por batalhões de policiais a cavalo, e eu comecei a ver gente com soco-inglês, porrete na mão, outros levando livros do Lênin, A Classe Operária, A Plebe ou A Manha enrolados em canudos, como se fossem para matar moscas. Mas a maioria de mãos abanando mesmo, olhos brilhantes de confiança e só. E precisava mais? Entendi então que ninguém estava preocupado com detalhes como força física ou experiência em escaramuças de rua, tinha muita mulher no meio, tinha até criança. Aquilo era uma festa cívica. Perdi Gina e Francesca de vista, mas relaxei. Um frisson absolutamente irresponsável, delicioso, percorria as fileiras antifascistas: era chegada a hora de acertar contas com aquela escória. Tínhamos gosto de sangue na boca, minha cabeça girava e eu acho que não era mais só por causa do vinho. Se Hitler e Mussolini estavam fora do alcance de nossos paus e pedras, os camisas-verdes de Plínio Salgado não estavam.

Eu seguia os comandos de companheiros que não conhecia, tudo uma confusão de gente e palavras de ordem, e já não via nem o Guarani nem conhecido nenhum. Mas sabia que o caos era apenas aparente. A estratégia militar tinha sido traçada pelo João Cabanas e pelo Roberto Sisson, caras que entendiam do riscado. Tinha pontos de concentração no Largo João Meneses, no pátio do Convento do Carmo, na Praça Ramos de Azevedo… Você conhece o centro de São Paulo? Dizem que a passeata dos galinhas-verdes chegou a tomar dois quilômetros da Brigadeiro Luiz Antônio, coisa de oito mil pessoas, não sei se é verdade. Só sei que, chegando na Praça, com mulheres e crianças fazendo o papel de abre-alas, bandeiras do Sigma tremulando, aquele rio verde começou a ser comprimido nas duas margens pelos rochedos vermelhos. Se eles eram oito mil, quantos seríamos nós? E a troca de insultos começou. Foi um tal de morra! pra cá, viva! pra lá, alguns mais esquentadinhos já começaram a sair no tapa ali mesmo. De repente, ouvimos tiros, mas era impossível saber de onde tinham vindo. Sentindo-se seguros com a proteção policial, que era de centenas de homens, uma fartura que eu nunca tinha visto de bombeiros, cavalarianos e policiais civis armados, os oradores integralistas começaram a discursar na escadaria da catedral debaixo de uma vaia de ensurdecer. Plínio Salgado, que não era besta, não apareceu, ficou com o rabo entre as pernas na sede do partido. Era impossível ouvir qualquer coisa. Eu comecei a suar em bicas no meio daquela panela de pressão, o sal me entrava nos olhos deformando tudo. De repente, bem claro, como se viesse do céu, um som picotado e inconfundível que até então eu só conhecia dos filmes de guerra: uma rajada de metralhadora. Por instinto, dei meia-volta e ia sair correndo, mas fui salvo do vexame por uma velhota de xale preto nos ombros, cara soturna de siciliana, que naquele momento me pareceu a própria Morte. Ela me agarrou o braço e disse: Coragem, homem. Sem graça, murmurei: É que eu preciso ir ao banheiro. Sei, respondeu a velha, já está se cagando. Tentei salvar a honra com um riso de desdém, mas tratei de sair rapidamente de perto da bruxa. De todo modo não fugi, tinha passado o impulso de covardia. Fui caminhando com lentidão estudada para a direita, na direção de um grupo mais denso onde naquele momento, em cima de um caixote, começava a improvisar um pequeno comício paralelo um sujeito que eu reconheci das fotos dos jornais que lia na casa do meu tio João Mateus: era Edgard Leuenroth, o grande líder anarquista. Fiquei por ali, aplaudindo cada palavra dele como se aplaudisse meu próprio passado. Percebi que pequenos comícios como aquele iam pipocando em outros pontos da praça. E de repente o tiroteio rebentou de vez.

Nunca se soube quem começou. As balas zuniam, corria gente para todo lado, e tome pop-pop-pop. Fui procurar proteção atrás de uma árvore e no caminho vi que a velha com cara de siciliana continuava impassível em seu lugar, plantada lá com seus sapatos pretos: era a única pessoa parada no meio daquele redemoinho de gente, como se fosse o próprio eixo da roda de insanidade em que se transformara a Praça da Sé. Vi pessoas caindo, não sei se porque tinham sido alvejadas ou porque tropeçavam mesmo, mas de uma forma ou de outra eram pisadas por quem vinha atrás, e ouvi gritos de dor, uivos de pânico, ordens contraditórias, por aqui, calma, para cima, é agora, socorro! De repente, um garoto camisa-verde mais desorientado cruzou na minha frente e sem pensar eu lhe mandei um murro bem no meio do nariz. Ele caiu de joelhos e começou a chorar feito um bebê, o sangue jorrando. Muito bem, companheiro, senti tapinhas nas costas quando finalmente alcancei a árvore que mantinha na mira. A dor em minha mão era aguda.

Os tiros tinham ficado mais esparsos, o frenesi começou a baixar. Alguém gritou que os galinhas estavam batendo em retirada, e era verdade: a Praça da Sé excretava jatos verdes por todos os poros, uma cena linda. Alguns arrancavam as camisas enquanto corriam, tentando se livrar da cor que os denunciava, e essas peças infames eram coletadas por companheiros eufóricos, que as erguiam como troféus, berrando: Vitória! Vitória!

sábado, 16 de maio de 2009

clássico da arábia

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Yuia Aida

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a pintura, a dança

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“Eu adoro um deus com cabeça de elefante!”

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De Toulouse

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Trecho de O Pequeno Príncipe, de Antoine Saint-Exupéry

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O pequeno príncipe atravessou o deserto e encontrou apenas uma  flor. Uma flor de três pétalas, uma florzinha insignificante....

- Bom dia - disse o príncipe.

- Bom dia - disse a flor.

- Onde estão os homens? - Perguntou ele educadamente.

A flor, um dia, vira passar uma caravana:

- Os homens? Eu creio que existem seis ou sete. Vi-os faz muito tempo. Mas não se pode nunca saber onde se encontram. O vento os leva. Eles não têm raízes. Eles não gostam das raízes.

-Adeus - disse o principezinho.

-Adeus - disse a flor.

O pequeno príncipe escalou uma grande montanha. As únicas montanhas que conhecera eram os três vulcões que batiam no joelho. O vulcão extinto servia-lhe de tamborete. "De uma montanha tão alta como esta", pensava ele, "verei todo o planeta e todos os homens..." Mas só viu pedras pontudas, como agulhas.

- Bom dia! - disse ele ao léu.

- Bom dia... bom dia... bom dia... - respondeu o eco.

- Quem és tu? - perguntou o principezinho.

- Quem és tu... quem és tu... quem és tu... - respondeu o eco.

- Sejam meus amigos, eu estou só... - disse ele.

- Estou só... estou só... estou só... - respondeu o eco.

"Que planeta engraçado!", pensou então. "É completamente seco, pontudo e salgado. E os homens não têm imaginação. Repetem o que a gente diz... No meu planeta eu tinha uma flor; e era sempre ela que falava primeiro."

Mas aconteceu que o pequeno príncipe, tendo andado muito tempo pelas areias, pelas rochas e pela neve, descobriu, enfim, uma estrada. E as estradas vão todas em direção aos homens.

- Bom dia! - disse ele.

Era um jardim cheio de rosas.

- Bom dia! - disseram as rosas.

Ele as contemplou. Eram todas iguais à sua flor.

- Quem sois? - perguntou ele espantado.

- Somos as rosas - responderam elas.

- Ah! - exclamou o principezinho...

E ele se sentiu profundamente infeliz. Sua flor lhe havia dito que ele era a única de sua espécie em todo o Universo. E eis que havia cinco mil, iguaizinhas, num só jardim!

"Ela teria se envergonhado", pensou ele, "se visse isto... Começaria a tossir, simularia morrer, para escapar ao ridículo. E eu seria obrigado a fingir que cuidava dela; porque senão, só para me humilhar, ela seria bem capaz de morrer de verdade..."

Depois, refletiu ainda: "Eu me julgava rico por ter uma flor única, e possuo apenas uma rosa comum. Uma rosa e três vulcões que não passam do meu joelho, estando um, talvez, extinto para sempre. Isso não faz de mim um príncipe muito poderoso..."

E, deitado na relva, ele chorou.

E foi então que apareceu a raposa:

- Bom dia - disse a raposa.

- Bom dia - respondeu educadamente o pequeno príncipe, olhando a sua volta, nada viu.

- Eu estou aqui - disse a voz, debaixo da macieira...

- Quem és tu? - Perguntou o principezinho. - Tu és bem bonita...

- Sou uma raposa - disse a raposa.

- Vem brincar comigo - propôs ele. - Estou tão triste...

-Eu não posso brincar contigo - disse a raposa. - Não me cativaram ainda.

- Ah! Desculpa - disse o principezinho.

Mas, após refletir, acrescentou:

- Que quer dizer "cativar"?

- Tu não és daqui - disse a raposa. - Que procuras?

- Procuro os homens - disse o pequeno príncipe. - Que quer dizer "cativar"?

- Os homens - disse a raposa - têm fuzis e caçam. É assustador! Criam galinhas também. É a única coisa que fazem de interessante. Tu procuras galinhas?

- Não - disse o príncipe. - Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?

- É algo quase sempre esquecido - disse a raposa. Significa "criar laços"...

- Criar laços?

- Exatamente - disse a raposa. - Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...

- Começo a compreender - disse o pequeno príncipe. - Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...

- É possível - disse a raposa. - Vê-se tanta coisa na Terra...

- Oh! Não foi na Terra - disse o principezinho.

- A raposa pareceu intrigada:

- Num outro planeta?

- Sim.

- Há caçadores nesse planeta?

- Não.

- Que bom! E galinhas?

- Também não.

- Nada é perfeito - suspirou a raposa.

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O LONGO AMANHÃ

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sexta-feira, 8 de maio de 2009

você não é bem vindo aqui

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as palavras de Lord Byron

O Enterro

gothic-chatty-cathy No ano de 17.., depois de haver meditado por algum tempo sobre a possibilidade de viajar por países que até agora os viajantes não freqüentam muito, parti em companhia de um amigo, ao qual me referirei como August Darvell.

Era uns anos mais velho que eu, um homem de fortuna considerável e família de próspera. Vantagens que ele nem desprezava nem superestimava, graças a sua grande capacidade. Algumas circunstâncias singulares em sua historia pessoal o haviam convertido para em objeto de atenção, interesse e até de estima, que não diminuíam nem seus modos reservados nem as ocasionais mostras de angústia que às vezes o acometiam e o levavam a uma alienação mental.

Eu era todavia um jovem e havia começado a viver cedo; porém mi intimidade com ele era recente: assistimos a as mesmas escolas e universidade; mas seu passo por elas me havia precedido, e ele já se havia iniciado a fundo no que se tem chamado o mundo, enquanto eu estava no noviciado. Durante esse tempo, escutei detalhes em abundância tanto de sua vida passada como da presente e, ainda que nestas narrações havia muitas e irreconciliáveis contradições, podia eu inferir que ele não era um ser comum, senão alguém que, ainda que se esforçasse por não ser conspícuo, seguia sendo notável.

Havia travado conhecimento com ele e tentei conquistar posteriormente sua amizade, porém parecia que esta era inalcançável; os afetos que pudesse haver sentido aparentavam ter-se extinguido. Tive suficientes oportunidades para observar que seus sentimentos eram intensos; pois mesmo quando os podia controlar, lhe era impossível encobri-los por completo; sem embargo, tinha a faculdade de dar a uma paixão a aparência de outra, de modo que resultava difícil definir a natureza do que sucedia em seu interior; e as expressões de seu rosto podiam variar com tal rapidez, ainda que ligeiramente, o que resultava inútil tratar de esquadrinhar sua origem.

Era manifesto como o dominava uma angústia incurável; porém nunca pude descobrir se era causa a ambição, o amor, o remorso ou a pena, um só ou todos juntos, ou apenas por um temperamento mórbido, semelhante a uma enfermidade. Existiam circunstâncias supostas que poderiam justificar sua atribuição a qualquer destas causas; porém como antes disse, estas eram tão contrárias e contraditórias que nenhuma podia considerar-se definitiva.

Se supõe geralmente que onde há mistério existe também a perversidade: não sei como pode ser isto, porém é um fato que não existia o primeiro ainda que não poderia atestar os alcances da segunda —e estava pouco disposto, no que a ele se referia, a crer em sua existência. Recebia minha proximidade com bastante reserva; mas eu era jovem e difícil para o desalento; e, com o tempo, tive êxito ao entabular, até certo ponto, esse vinculo comum e essa confiança moderada dos interesses mútuos e cotidianos que criam e cimentam a comunhão de empenhos, e a frequência de encontros que se chama intimidade ou amizade segundo as idéias de quem utilizam essas palavras para sua expressão.

Darvell havia viajado muito; dirigi-me a ele para que me aconselhasse a respeito da viagem que pretendia realizar. Era meu desejo secreto que se deixasse persuadir a me acompanhar; ademais, era uma perspectiva improvável; baseada na vaga inquietude que havia observado nele e à qual davam renovada força ao entusiasmo que parecia sentir para tais temas e sua aparente indiferença por tudo o que o rodeava muito de perto.

A principio insinuei meu desejo e depois o expressei abertamente: sua resposta, ainda que eu a esperasse em alguma medida, me deu todo o prazer de uma surpresa: aceitou e, ao término dos preparativos necessários, começamos nossa travessia.

Depois de viajar por vários países do sul de Europa, voltamos a atenção para o Leste, de acordo com nosso destino original; e foi em nosso percurso através de estas regiões que ocurreu o incidente que dá ocasião a meu relato.

A complexão de Darvell, que, dada sua aparência, devia haver sido em sua juventude mais robusta que o normal, estava decaindo gradualmente desde algum tempo, sem que nenhuma enfermidade se manifestasse: não tinha tosse nem tísica; contudo, cada dia se debilitava mais; sues hábitos eram moderados, não admitia nem se queixava de fatiga; não obstante, era evidente que se estava consumindo: se volta cada vez mais e mais silencioso e insone e, por fim, se alterou de tão notável maneira que minha preocupação aumentou de maneira proporcional ao perigo que eu considerei lhe ameaçava.

A nossa chegada a Esmirna, nos havíamos proposto ir a uma excursão às ruínas de Éfeso e Sardis, da qual tentei dissuadi-lo devido à sua indisposição —porém em vão: parecia existir uma opressão em sua mente, e uma solenidade em seus modos que não correspondiam com sua ansiedade para seguir com o que eu considerava uma simples viagem de prazer, totalmente inadequado para uma pessoa delicada; porém não me opus mais, e uns dias depois partimos em companhia unicamente de um guia e um carregador.

Havíamos percorrido a metade do caminho até os vestígios e Éfeso, deixando atrás os contornos mas férteis de Esmirna e nos adentrávamos nessa região inóspita e desabitada através dos pântanos e desfiladeiros que levam às poucas choças que subsistem sobre as destroçadas colunas de Diana —as paredes sem teto da cristandade expulsa e mesmo mais recente porém total desolação das mesquitas abandonadas— quando a súbita e vertiginosa enfermidade de meu companheiro nos obrigou a deter-nos em um cemitério turco, cujas lápides coroadas de turbantes eram o único indicio de que a vida humana havia morado alguma vez nesse ermo. A única caravana que vimos havia passado umas horas atrás; não se podia ver nem esperar vestígio algum de povo ou sequer de caravana, e esta “cidade dos mortos” parecia ser o único refúgio para meu desafortunado amigo, que se via próximo a converter-se em seu seguinte morador.

Nesta situação, busquei pelos arredores um lugar no que pudesse repousar com mais comodidade: ao contrário do aspecto usual dos cemitérios maometanos, os ciprestes deste eram escassos, espalhados sobre toda a superfície; a maioria das tumbas estavam destruídas e desgastadas pelos anos: sob uma das maiores e sob uma das árvores mais frondosas, Darvell se apoiou, inclinando-se com grande dificuldade. Pediu água. Eu duvidava que pudéssemos encontrá-la, ainda que me dispusesse ir buscá-la apesar de meu desalento: porém ele desejava que eu permanecesse com ele; e voltando-se para Suleiman, nosso carregador, que fumava com grande tranqüilidade, lhe disse:

—Suleimán, verbena su— ( ou seja, traz-me um pouco de água) e continuou descrevendo-lhe com grande detalhe o ponto onde poderia encontrá-la. Era um pequeno poço para camelos, algumas centenas de jardas à direita. O jenizaro obedeceu.

Disse a Darvell:

— Como sabes isso?

—Por nossa posição— revelou —você deve notar que o lugar esteve habitado alguma vez e não poderia ser diferente se não houvesse mananciais. Ademais, já estive aqui antes.

—Você já esteve aqui! Como nunca o mencionou? E que fazia você em lugar semelhante onde nada pode permanecer um momento mais sem pedir ajuda?

A esta pergunta não recebi resposta alguma. Enquanto isso, Suleimán regressou com a água e deixou o guia e os cavalos na fonte. Parecia que ao mitigar sua sede Darvell reviveu por um momento; e alberguei a esperança de que pudesse continuar, ou pelo menos regressar, e o exortei a tentá-lo.

Ele guardou silêncio. Parecia pôr ordem em seus pensamentos antes de se esforçar para falar.

—Este é o fim de minha jornada —começou— e de minha vida; vim até aqui para morrer; porém tenho uma súplica a fazer: uma ordem que dar, pois tais devem ser minhas últimas palavras. Cumprirás?

—Desde logo; porém tenho melhores intenções.

—Eu não tenho esperanças, nem desejos, senão este: oculte minha morte a todo ser humano.

—Espero que não se presente a ocasião; você se recuperará e…

—Silêncio!, assim deve ser: prometa.

—Sim.

—Jure — aqui pronunciou um juramento de grande solenidade.

—Não há razão para tal, eu cumprirei com seu pedido; e duvidar de mim é…

—Não posso evitar, deve você jurar.

Pronunciei o juramento e isso pareceu aliviá-lo. Tirou do dedo um anel de selo, que tinha gravados alguns caracteres arábicos, e me deu.

—No nono dia do mês — continuou—, precisamente ao meio-dia (o mês que você gostar, porém o dia deve ser esse) você deverá arrojar este anel às fontes de água salgada que alimentam a baia de Eleusis. No dia seguinte, à mesma hora, deverá dirigir-se às ruínas do templo de Ceres e esperar uma hora…

—Para que?

—Já o verá

—Disse você que é o nono dia do mês?

—O nono.

Quando fiz a observação de que o presente era o nono dia do mês, seu semblante mudou e fez pausa. Enquanto estava sentado, debilitando-se visivelmente, uma cegonha com uma serpente no bico pousou sobre uma tumba próxima a nós; e, sem devorar sua presa, dava a impressão de nos observar fixamente. Não sei o que me impulsionou a espantá-la, porém o intento foi inútil; fez alguns círculos no ar e regressou exatamente ao mesmo lugar. Darvell apontou-a e sorriu. Falou —não sei se para si mesmo ou para mim – porém as palavras só foram:

—Está bem.

—Que é que está bem? Que queres dizer?

—Não importa; você deverá enterrar-me aqui esta noite, e no ponto exato em que está parada essa ave. Já conhece você o resto de minhas ordens.

Então começou a dar-me algumas instruções sobre como poderia ocultar melhor sua morte. Quando terminou, disse:

—Vê você essa ave?

—Claro.

—E a serpente que se retorce em seu bico?

—Sem dúvida; não há nada raro; é sua presa natural. Porém é estranho que não a devore.

Riu-se de uma maneira espectral e disse languidamente:

—Todavia não é o momento.

Enquanto falava, a cegonha empreendeu o voo. Segui-a com os olhos um instante: não pude haver tardado mais que em contar dez. Senti aumentar o peso de Darvell, por pouco que fosse, sobre meu ombro e, ao voltar a ver seu rosto, vi que havia morrido.

Impressionou-me a repentina certeza inconfundível: em poucos minutos seu semblante se tornou quase negro. Pudesse atribuir essa mudança tão rápida à ação de algum veneno, se não estivesse consciente de que não teve oportunidade alguma de tomá-lo sem que eu me desse conta. O dia se acercava a seu final, o corpo se decomporia com rapidez. Não restava nada mais que cumprir seu pedido. Com ajuda do iatagán,de Suleimán e de meu próprio sabre, escavamos uma tumba pouco profunda no sitio que Darvell havia indicado: a terra cedeu com facilidade: tempo atrás havia recebido um ocupante maometano.

Cavamos o mais profundo que o tempo permitiu e, arrojando a terra seca sobre tudo o que restava do ser tão singular que acabava de partir, cortamos alguns ramos do cipreste mais verde que crescia na terra menos desgastada que nos rodeava e o colocamos sobre seu sepulcro.

Entre o assombro e a pena, não podia derramar uma lágrima.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

marina

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as palavras de marçal aquino

A MISSÃO

images Da penumbra, oculto por um pilar, ele observou o homem atravessar o pátio. Um grandalhão com cara de sádico, armado com um cassetete. Poderia atacá-lo de surpresa, ele considerou, enquanto o homem se detinha e espiava ao redor, atento. Mas estava sem sua pistola e resolveu não correr riscos desnecessários. Preferiu esperar que o vigia terminasse a ronda.
Assim que se desfez no ar o som que o homem produziu, ao fechar atrás de si uma pesada porta de ferro, ele se moveu. Cruzou o pátio, aumentando a velocidade e a largura dos passos ao passar pela zona iluminada. De novo na penumbra, manteve-se imóvel por um tempo, recuperando o controle da respiração, o coração batendo acelerado. Ele conhecia bem o inimigo, sabia o que o aguardava se fosse apanhado. Mas isso não aconteceria. E o medo não iria impedi-lo de cumprir sua missão.
Um cachorro latiu em algum lugar ali perto. Ele aguçou os ouvidos, prendeu a respiração. E esperou. Nada aconteceu. O pátio continuou deserto e silencioso, azulado pela luz da lua.
A arma fazia falta, ele pensou. Com ela na mão, estaria mais confiante. Mas profissionais como ele eram preparados para lidar com situações adversas. Então deixou a penumbra e começou a galgar a calha, apoiando-se nas emendas. Cada movimento desprendia um ruído preocupante da estrutura de metal. Se a calha cedesse ao seu peso, ele olhou para baixo, seria uma queda e tanto. Foi nesse momento que escutou o barulho da chave na porta de ferro. E, com um arranque que fez ranger a calha inteira, alcançou a mureta e passou ao segundo piso.
Ali, permaneceu agachado, de olho no pátio. O som da calha ainda retinia em seu ouvido quando o grandalhão surgiu na área iluminada. Por um segundo, teve a impressão de que o homem olhou em sua direção e isso ó deixou tenso, com os músculos retesados. Mas o vigia parecia despreocupado: assobiava e batia o cassetete na palma da mão enquanto fazia o trajeto até o lado oposto do pátio.
Ele se levantou e passou a um corredor comprido, fracamente iluminado. Andava com cautela, pisando em silêncio, como um gato — fora treinado para isso. Até que, no final do corredor, uma porta trancada o deteve. Poderia arrombá-la com o ombro, mas na certa seria denunciado pelo barulho. Por isso, abaixou-se e forçou a maçaneta várias vezes, sem nenhum resultado prático. Então o som de passos às suas costas fez com que se erguesse como uma mola. Os dois homens se aproximavam devagar, obstruindo o corredor com seus corpos musculosos:
"Olha só o que temos aqui", disse um deles.
Aquele era o momento crítico de sua missão, e ele estava sem sua arma. Mas tivera muito trabalho para chegar até ali e não podia se render sem luta. Percebendo que ele se colocava em guarda, o homem à sua esquerda abriu os braços:
"Calma, ninguém precisa se machucar aqui".
Foi esse homem que ele atingiu de raspão com um soco, enquanto o outro o agarrava e ambos rolavam pelo chão. Ele esperneou, chutou e até mordeu um dos homens, mas acabou subjugado numa gravata tão apertada que o fez perder os sentidos.
Quando acordou, ele se sentia atordoado, com a boca pastosa. No interrogatório, do qual lembrava apenas detalhes imprecisos, tinham usado drogas para fazê-lo falar. Mas ele estava. certo de que não revelara nada, fora treinado para resistir até ao soro da verdade.
A mulher que entrou no quarto nesse momento era jovem e bonita e sorriu para ele de um jeito amistoso.
"Está tudo bem com você?” •
A voz soava macia, os gestos, calmos. O inimigo mudava de tática e agora tentava seduzi-lo. Ele se levantou da cama e cambaleou até a janela.
"Você vai acabar se machucando de verdade", a mulher disse.
E apontou a pilha de livros sobre o criado-mudo. Livros baratos, de papel ordinário.
“Seria melhor você parar de ler essas, porcarias, estão piorando a sua cabeça.”
Por entre as grades da janela, ele viu o pátio cercado por muros altos. E ficou em dúvida por um instante. Só um instante. Ela ainda falou que aquelas tentativas de fuga atrapalhavam o tratamento. Mas ele sabia que o inimigo tentava confundi-lo. Queriam que ele ficasse em dúvida sobre quem era e o que estava fazendo ali.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

beatrice

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o osso no espaço

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meias coloridas

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suspiria

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apocalipse agora

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as palavras de fernando bonassi

Nossa Senhora Aparecida

outsider by Marco Martins 3 A casa de Devanir não se combina: porta de alumínio em batente de madeira, privada bege com lavatório azul; no piso, cerâmica, taco e cimento vermelho; uma parede de bloco, outra de tijolo cozido...
Não é que Devanir goste de misturar cores e formas, mas, desde que largou a família e se instalou no bairro, aceitou receber o que oferecessem pelo seu serviço.
O serviço que Devanir tem agora não teve desde sempre. Com o diploma de torneiro do Senai, saiu trabalhando por mais de 14 anos, mas o que precisava do cuidado de metalúrgico, as máquinas deixavam pronto, de maneira que foi se perdendo pelos empregos perdidos e acabou sem lugar de tirar sustento.
Esse serviço de Devanir começou de fim de semana, quando a arruaça abraçava a vila, e quem não era daquilo tinha de se trancar, rezando contra maldição, polícia e bala perdida.
O primeiro foi um velho que gritava no boteco do Soares. Devanir, de pai alcoólatra, não suportava esses tipos. Quando fez o bêbado sumir, ganhou muitas coisas pela gratidão das pessoas. Em seguida foi chamado pelo dono do depósito de material de construção, que dois moleques viviam pulando o muro pra roubar telha. Deu um jeito neles e ganhou um milheiro de tijolos. Aqueles da parede do fundo. Depois foram os estupradores: a porta de alumínio, o liquidificador, fogão e geladeira. Tinha se especializado: mandava ajoelhar, encomendava as almas e fazia o que tinha de ser feito.
No começo enjoava, mas depois acostumou. Devanir era devoto de Nossa Senhora Aparecida, porque um dia estava se afogando em São Vicente e, quando ele gritou o nome dela, veio como que uma mão do céu e o puxou de volta pra esta vida. A santa surgira de um rio, ele ressurgira do mar, então passou a pensar que tinha essa ligação com a padroeira. Por isso sempre encomendava as suas almas através dela. Também acreditava que, se a gente vem ao mundo pelo meio de uma mãe, deve ser levado dele por intermédio de outra. Coisas do Devanir...
Cada um dos dois cômodos da casa tem uma imagem de gesso pintado. Uma em cima da geladeira, outra em cima do guarda-roupa. As duas olhando com pena por dentro do manto.
As pessoas confiavam em Devanir, mas não sabiam que, nos últimos tempos, deu pra ouvir barulhos e ficar nervoso. Devanir foi ao médico e pediu remédio calmante. O remédio dava sono, mas o barulho diminuía.
Sexta-feira passada Devanir tinha acertado de dormir no posto de gasolina do Filó, que malandro andava estourando os armários pra roubar óleo de motor. Devanir tomou banho, engoliu dois comprimidos, pegou carteira, cigarros e, por incrível que pareça, quando colocou no pescoço a medalhinha da Nossa Senhora, nada mais nada menos que ela própria apareceu na sua frente.
— De... va... nir...
Devanir olhou bem pra aparição. Parecia mais escurinha que a estátua, mas ele não comentou.
— De... va... nir...
A santa sentou na cômoda enquanto Devanir lia a bula do remédio. Falava em alucinação, mas ele não entendeu direito. Sussurrou:
— Mãe... Mãezinha?
Depois baixou pra beijar a mão da santa, mas ela puxou o braço.
— Orgulhosa...
— De... va... nir...
— Fala, mãezinha!
Devanir percebeu que ela não abria a boca, mas deu pra ouvir:
— Devanir... você é um bosta.
A voz ecoava dentro do quarto, mas não tinha espaço pra tanto eco. Ele deu um passo pra trás, tropeçou na cama e caiu deitado.
— Que é isso, Mãezinha?! Chamo sempre que tô pra acabar com um e a senhora me chega com essa?!
— Você não pode fazer isso...
Devanir aproveitou pra pegar o revólver e enfiar por trás da calça:
— Como? Deixo essa gente desprotegida?!
— Você é burro, Devanir.
Devanir abriu a janela.
— Se veio aqui pra me humilhar, então pode ir saindo.
— Eu quero a sua promessa...
Devanir olhou pro relógio, já passava mais de hora do encontro com Filó. Valia televisão de 20 polegadas e ele ficou ansioso.
— Mais promessa?! De quê?
— Pára de matar criança, Devanir...
Devanir sentiu como se a medalhinha pesasse um quilo. Não conseguia encarar a santa, mas disse:
— Que criança o quê! Essa gente aí fica pronta e estragada com 12, 13... não tem nada de criança não... A senhora devia saber disso.
— Eu sei, Devanir... Eu sei... E você, que é um cagão, o que você sabe?
— Eu sei isso daqui, ó...
Devanir puxou a arma e disparou. A bala flutuou pelo corpo da santa e foi estilhaçar o gesso por cima do guarda-roupa. Ela olhou pra própria imagem aos pedaços e riu. Devanir sentiu falta de ar, caiu de joelhos e chorou. Quando se ergueu, a santa tinha desaparecido. Então sentiu um pouco de vergonha e prometeu não tomar mais aquele remédio esquisito, mas ninguém sabe se deixou de fazer maldade.

bruxas...

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"... eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem."

quarta-feira, 29 de abril de 2009

jane

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Trecho de Associação Judaica de Policia, de Michael Chabron

1.

Landsman passou nove meses enfurnado no hotel Zamenhof sem que um único residente conseguisse ser assassinado. Mas eis que acabavam de estourar os miolos do ocupante do quarto 208, um yid que se apresentava como Emanuel Lasker.

"Ele não atendia ao telefone, não abria a porta", explica Tenenboym, o gerente noturno, logo depois de tirar Landsman da cama. Landsman mora no 505, com vista para o letreiro de neon do hotel do outro lado da rua Max Nordau: o Blackpool, um no- me que povoa seus pesadelos. "Eu fui obrigado a entrar no quarto."

O gerente noturno é um antigo fuzileiro que se livrou da heroína nos anos 60, depois de voltar da carnificina da guerra cubana. Tem uma preocupação maternal com a população adicta do Zamenhof. Dá-lhes crédito e garante que sejam deixados sozinhos quando é disso que precisam.

"Você mexeu em alguma coisa?"

Tenenboym responde: "Só no dinheiro e nas jóias".

Landsman põe a calça e os sapatos, enfia os suspensórios. A seguir, ambos olham para a maçaneta, na qual está pendurada uma gravata vermelha com uma grossa listra marrom, o nó já pronto para evitar perda de tempo. O próximo turno de Landsman é só daqui a oito horas. Oito longas horas de solitária vadiagem, enxugando a garrafa no seu cantinho. Ele exala um suspiro e pega a gravata. Mete-a na cabeça e ajusta o nó no colarinho. Veste o paletó, apalpa-o em busca da carteira e do distintivo no bolso do peito, bate no sholem que traz no coldre debaixo do braço, um Smith & Wesson cano curto, modelo 39.

"Desculpe te acordar, detetive", diz Tenenboym. "É que eu reparei que, no fundo, você não dorme."

"Durmo, sim", diz Landsman. Pega o seu inseparável copinho, um suvenir da Feira Mundial de 1977. "Mas é que eu durmo de cueca e camisa." Ergue um brinde aos trinta anos da Feira Mundial de Sitka. O supra-sumo da civilização judaica no norte, dizem, e quem se atreve a duvidar? Naquele verão, Meyer Landsman tinha catorze anos e estava começando a descobrir as glórias da mulher judia, para as quais 1977 também deve ter sido uma espécie de supra-sumo. "Sentado numa cadeira." Esvazia o copo. "E sempre com o sholem ao alcance da mão."

Segundo os médicos, os terapeutas e inclusive sua ex-mulher, Landsman bebe para se medicar, para sintonizar os tubos e os cristais de seus estados de espírito com a martelada brutal de uma excelente aguardente de ameixa. Mas a verdade é que ele só tem dois estados de espírito: trabalhando e morto. Meyer Landsman é o shammes mais badalado do distrito de Sitka, o homem que desvendou o assassinato da bela Froma Lefkowitz pelo marido peleteiro e que capturou Podolsky, o Estripador Hospitalar. Seu depoimento mandou Hyman Tsharny para o presídio federal até o fim da vida, a primeira e última vez em que acusações criminais contra um verbôver insolente renderam condenação. Ele tem memória de presidiário, colhões de bombeiro e visão de assaltante. Quando se trata de combater o crime, Landsman percorre Sitka feito um homem com a perna da calça presa num foguete. É como se uma trilha sonora vivesse tocando atrás dele, com uma enorme bateria de castanholas. Os problemas aparecem nas horas em que Landsman não está trabalhando, quando as idéias irrompem pela janela aberta de seu cérebro como as páginas de um volumoso boletim de ocorrências. Às vezes, é preciso um robustíssimo peso de papéis para segurá-las.

"Desculpe te dar mais trabalho ainda", murmura Tenenboym.

Na época em que estava lotado no Narcóticos, Landsman prendeu Tenenboym cinco vezes. Essa é a base da suposta amizade entre eles. Quase suficiente.

"Não é trabalho, Tenenboym. Eu faço isso por amor."

"Eu também posso dizer o mesmo", diz o gerente noturno. "De ser gerente noturno de um hotelzinho vagabundo."

Landsman pousa a mão no ombro de Tenenboym, e eles descem para examinar o falecido, espremendo-se no único elevador do Zamenhof, ou melhor, ELEVATORO, como outrora anunciava uma plaquinha de latão na porta. Cinqüenta anos atrás, quando o hotel foi inaugurado, todos os avisos, indicações, informações e advertências eram gravados em esperanto em placas de latão. A maioria delas desapareceu há muito tempo, vítimas do descuido, do vandalismo e do código de incêndio.

A porta e o batente do apartamento 208 não apresentam sinais de arrombamento. Landsman cobre a maçaneta com o lenço e empurra delicadamente a porta com a ponta do sapato.

"Eu tive uma sensação esquisita", diz Tenenboym ao entrar no quarto atrás dele. "Na primeira vez em que vi o cara. Sabe, aquela expressão de 'homem fracassado'."

Sei, Landsman sabe muito bem.

"A maioria das pessoas a que ela se aplica não a merece", diz Tenenboym. "Para começar, acho que a maioria dos homens não tem muito no que fracassar. Mas o tal Lasker. Era como esses gravetos que você quebra e eles pegam fogo. Sabe como é? Queimam por algumas horas. E você chega a ouvir o vidro quebrado crepitar dentro dele. Não sei, deixa pra lá. É só uma sensação esquisita."

"Hoje em dia, todo mundo tem sensações esquisitas", diz Landsman, fazendo algumas anotações em seu bloco preto sobre a situação do quarto, muito embora tais anotações sejam supérfluas, pois raramente se esquece de qualquer detalhe da cena do crime. Aquela mesma confederação informal composta por seus médicos, psicólogos e pela sua ex já tinha lhe dito que o álcool iria acabar lhe arruinando o dom da memória, mas até agora, para sua infelicidade, a afirmação vinha se revelando falsa. Sua visão do passado continua intacta. "Nós tivemos de instalar uma linha telefônica separada só para atender as chamadas."

"É uma época estranha para ser judeu", concorda Tenenboym. "Quanto a isso, não há dúvida."

Há uma pequena pilha de brochuras sobre a cômoda laminada. No criado-mudo de Lasker, um tabuleiro de xadrez. Parece que ele estava em plena partida, um meio-jogo bagunçado, o rei preto sendo atacado no centro do tabuleiro e o branco com vantagem de algumas peças. Material de segunda: o tabuleiro é um quadrado de papelão dobrável no meio; as peças, ocas, com saliências de plástico no lugar em que foram prensadas.

Uma luz continua acesa numa luminária de chão perto do televisor. Todas as outras lâmpadas do quarto, com exceção da do banheiro, foram retiradas ou estão queimadas. No peitoril da janela, uma caixinha de laxante de marca conhecida. A janela está entreaberta, não mais que dois centímetros, e as persianas metálicas, empurradas pelo vento teimoso que chega do Golfo do Alasca, batem a intervalos de segundos. O vento traz um ranço azedo de madeira compensada, um cheiro de diesel de barco e de matança e enlatamento de salmão. Segundo "Noch Amol", uma canção que Landsman e todos os outros judeus alasquianos de sua geração aprenderam na escola, o cheiro do vento do golfo enche as narinas judias de uma sensação de promessa, de oportunidade, de chance de recomeço. "Noch Amol" data da época do Urso Polar, o começo da década de 1940, e é considerada uma expressão de gratidão por mais uma libertação miraculosa: "Outra vez". Atualmente, os judeus do distrito de Sitka tendem mais a ouvir o lado irônico que nela sempre esteve presente.

"Eu conheci um bocado de jogadores de xadrez yids que usavam heroína", diz Tenenboym.

"Este aqui também." Landsman olha para o defunto e se dá conta de que já viu aquele yid no Zamenhof. Cara de passarinho. Olhos brilhantes, bico arrebitado. Um pouco de corado nas bochechas e na garganta, o que bem podia ser acne rosácea. Não um caso grave, não um sujeito repugnante, não um pobre coitado. Um yid talvez não muito diferente de Landsman, a não ser na escolha da droga. Unhas limpas. Sempre de gravata e chapéu. Chegou a ler um livro com notas de rodapé. Agora se acha em decúbito ventral na cama embutida, o rosto virado para a parede, vestindo apenas a imprescindível cueca branca. Cabelo castanho e sardas castanhas, barba dourada de três dias. Um vestígio de queixo duplo induz Landsman a se referir ao morto como "gorducho". Olhos esbugalhados nas órbitas escuras. Na nuca, um pequeno orifício chamuscado, uma pérola de sangue. Nenhum sinal de luta. Nada indica que Lasker tenha sentido o golpe ou ao menos registrado o último momento de sua existência. O travesseiro, Landsman repara, não está na cama. "Se eu soubesse, talvez o tivesse convidado para uma ou duas partidas."

"Eu não sabia que você jogava xadrez."

"Jogo mal", diz Landsman. Perto do closet, no carpete felpudo de um verde-amarelo de pastilha para tosse, ele avista uma pluminha branca. Abrindo a porta do armário, dá com o travesseiro no chão, baleado no coração para silenciar a concussão de gases expandindo-se dentro de uma concha. "Eu me atrapalho um pouco no meio-jogo."

"Pela minha experiência, detetive", diz Tenenboym, "o meio-jogo é tudo."

"Disso eu sei."

Landsman liga para acordar o parceiro Berko Shemets.

"Detetive Shemets", diz ao celular, um Shoyfer AT de loja de departamentos. "Aqui é o seu parceiro."

"Eu já te pedi para não fazer mais isso, Meyer", resmunga Berko. Desnecessário dizer que ele também só estará de plantão daqui a oito horas.

"Tem razão de ficar bravo", reconhece Landsman. "Eu pen- sei que talvez você ainda estivesse acordado."

"Eu estava acordado."

Ao contrário de Landsman, Berko Shemets não transformou

o casamento e a vida pessoal numa mixórdia. Dorme toda noite nos braços da excelente esposa, cujo amor por ele é merecido, correspondido e valorizado pelo marido fiel que nunca lhe dá motivos de tristeza ou sobressalto. "Que maldição, Meyer", diz Berko e, a seguir, em legítimo americano, "puta que o pariu."

"Eu estou com um aparente homicídio aqui no hotel. Um morador. Tiro na nuca. Abafado pelo travesseiro. Muito preciso."

"Na mosca."

"É por isso que estou te incomodando. Pelo inusitado do crime."

Com uma população de três milhões e duzentas mil na longa faixa irregular da região metropolitana, Sitka tem em média uns setenta e cinco homicídios por ano. Alguns são cometidos por quadrilhas: shtarkers russos a se dilacerarem mutuamente. O res to dos assassinatos são os chamados crimes passionais, maneira taquigráfica de expressar o produto matemático do álcool com as armas de fogo. As execuções a sangue-frio são tão raras que dificilmente saem do grande quadro branco da sala dos investigadores, no qual afixam a lista de casos em aberto.

"Você está de folga, Meyer. Passa isso pra frente. Tabatchnik e Karpas que se encarreguem."

Tabatchnik e Karpas, os outros dois detetives que formam a Equipe B do Setor de Homicídios da polícia distrital, a Delegacia Central de Sitka, estão fazendo o plantão noturno neste mês. Landsman é obrigado a reconhecer certo encanto na idéia de deixar esse cocô de pomba cair no chapéu dos dois.

"Até que não seria ruim", diz. "Mas acontece que eu moro aqui."

"Você conhecia o yid?", pergunta Berko, abrandando a voz.

"Não. Conhecer, não conhecia."

Ele desvia a vista do lívido firmamento sardento do morto estendido na cama embutida. Às vezes não consegue deixar de sentir pena deles, mas é melhor não criar o hábito.

"Olha, volta pra cama. Amanhã a gente fala nisso. Desculpa o incômodo. Boa noite. Pede desculpas a Ester-Malke." "Parece que você não está muito bem, Meyer. Algum problema?" Nos últimos meses, Landsman deu para telefonar para o parceiro nos horários mais impróprios da madrugada e discursar no etílico dialeto da dor, lamentando o fim de seu casamento, que fracassara havia cerca de dois anos, e a triste sina de sua irmãzinha caçula, esborrachada com seu monomotor Piper Super Cub contra o flanco do Monte Dunkelblum, em abril passado. Mas agora ele não está pensando na morte de Naomi nem no vexame do divórcio. Está é tomado por uma visão: ele sentado num sofá outrora branco, no encardido saguão do hotel Zame nhof, jogando xadrez com Emanuel Lasker, ou fosse qual fosse o nome verdadeiro do defunto. Um a projetar no outro o pouco que restava de seu brilho e a escutar o suave repique de vidro quebrado dentro de si. O fato de Landsman detestar xadrez não tornaria o quadro menos comovente. "O cara jogava xadrez, Berko. E eu nem sabia. Só isso." "Por favor, Meyer, eu te peço pelo amor de Deus, não vem com choradeira." "Eu estou bem, eu estou bem. Boa noite." Landsman liga para a delegacia, pedindo que o designem investigador encarregado do caso Lasker. Um caso de merda a mais ou a menos não há de comprometer sua avaliação como detetive encarregado. Não que isso tenha tanta importância assim. No dia 1o de janeiro, a soberania da totalidade do distrito federal de Sitka, um tortuoso parêntese na costa rochosa ao longo da borda ocidental das ilhas Baranof e Chicagof, será revertida ao estado do Alasca. A polícia distrital, à qual durante vinte anos Landsman dedicou a pele, a cabeça e a alma, se dissolverá. Não está claro se ele, Berko Shemets e os outros continuarão em suas funções. Aliás, nada está claro no tocante à reversão iminente, por isso esta é uma época estranha para ser judeu.

sábado, 11 de abril de 2009

Branded to Kill (1967) [Trailer]

Mais um filmaço de Seijun Suzuki, considerado a sua obra prima no gênero!

tóquio violenta

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Para fãs de John Woo, Takeshi Kitano, Jim Jamursh, Tarantino...

Seijun Suzuki fez um filme - desculpe, filmaço - com todos aqueles elementos que os fãs de gangsters e filmes violentos adoram. Estiloso e original - para a época - é daqueles filmes obscuros que na verdade são clássicos, do tipo que é imitado e reverenciado à exaustão.